Pages

▼

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Sobre o Nascimento de Jesus - Parte II: Nazaré, Belém da Galileia e a geografia da memória cristã



No texto anterior, terminamos afirmando que Jesus provavelmente não nasceu em Belém da Judeia e que a associação entre o nascimento de Jesus e aquela cidade parece estar relacionada, em boa medida, a uma elaboração teológica das primeiras comunidades cristãs. A questão, entretanto, não pode ser encerrada nesse ponto. Se retirarmos, ainda que provisoriamente, Belém da Judeia da equação, surge imediatamente uma questão de natureza propriamente histórica: onde, então, poderia ter nascido Jesus? A resposta mais intuitiva seria Nazaré, não apenas porque Jesus aparece reiteradamente nas tradições cristãs como “Jesus de Nazaré”, mas porque a arqueologia contemporânea tornou insustentável a antiga hipótese de que Nazaré simplesmente não existia no período em que Jesus viveu. Durante muito tempo, a escassez de referências literárias e de vestígios arqueológicos conhecidos alimentou dúvidas acerca da existência da localidade no início do século I. A investigação arqueológica mais recente, entretanto, modificou substancialmente esse quadro. O trabalho desenvolvido por Ken Dark e pelo Nazareth Archaeological Project, entre outras pesquisas, permite reconhecer atualmente Nazaré como uma comunidade rural judaica existente no período romano inicial. Dark observa que, embora as fontes escritas sobre Nazaré sejam extraordinariamente escassas, a arqueologia fornece informações consideravelmente mais amplas sobre sua configuração física, sua economia e sua vida cotidiana, chegando à conclusão de que as evidências confirmam a existência de uma comunidade agrícola no século I.

Isso modifica substancialmente o problema. Nazaré não precisa mais ser considerada uma espécie de exceção arqueológica produzida pela narrativa cristã. Ela se apresenta diante de nós como uma pequena comunidade rural da Galileia romana. E talvez seja precisamente essa caracterização que torne a questão historicamente relevante. A arqueologia não encontrou em Nazaré uma grande cidade, um centro administrativo ou um importante núcleo urbano comparável a Jerusalém. O que emerge é uma comunidade constituída por famílias, com estruturas domésticas, instalações agrícolas, silos, cisternas, áreas de cultivo, pedreiras e atividades artesanais. O quadro corresponde muito mais ao universo rural da Galileia do início do período romano do que à representação de uma cidade propriamente dita. Essa constatação é importante porque permite superar uma falsa alternativa: a inexistência de um grande núcleo urbano não implica a inexistência de um assentamento. Nazaré podia ser pequena e pouco relevante para os grandes historiadores da Antiguidade — e, ainda assim, ser precisamente o lugar que os evangelhos identificam como a origem geográfica e o ambiente social associado a Jesus. A investigação arqueológica contemporânea, portanto, não apenas fornece evidências independentes da existência de Nazaré no período pertinente; ela permite também uma reconstrução mais precisa do tipo de comunidade na qual Jesus teria crescido.

Nesse ponto, vale recuperar integralmente a passagem de Crossan, porque ela continua sendo particularmente importante para a nossa discussão:

Entre 1955 e 1960, o erudito franciscano Bellarmino Bagatti fez escavações em Nazaré sob a velha Igreja da Anunciação, já demolida na época, e em outras propriedades franciscanas que se estendiam para o noroeste, em direção à Igreja de São José, que pertencia à mesma ordem. Ele resumiu suas descobertas de forma sucinta: “Em termos cronológicos, temos tumbas de meados da Idade do Bronze [c. 2.000-1500 a.E.C.]; silos com cerâmicas de meados da Idade do Ferro [c. 900-539 a.E.C.]; e depois, sem interrupções, cerâmicas e construções que vão desde o Período Helenístico [c. 332-63 a.E.C.] até os tempos atuais” (BAGATTI, apud CROSSAN, 1994, p. 50). Os vestígios das primeiras ocupações, entretanto, são bastante escassos, enquanto os da ocupação final são abundantes. Portanto, apesar de haver alguns indícios de uma fundação mais antiga, “no século II a.E.C. voltamos a encontrar uma grande quantidade de artefatos, o que indica que a aldeia foi fundada novamente neste período (...). Isso significa que a aldeia tinha menos de duzentos anos no século I E.C.” (MEYERS; STRANGE, apud CROSSAN, 1994, p. 50).


A arqueologia posterior não torna essa passagem obsoleta; ao contrário, permite qualificá-la e refiná-la à luz de evidências posteriores. O trabalho de Ken Dark no sítio das Sisters of Nazareth é particularmente relevante. As investigações identificaram evidências de ocupação doméstica no período romano inicial, posteriormente incorporadas a estruturas cristãs de períodos posteriores. O ponto mais importante, contudo, está justamente na cautela do próprio arqueólogo: não é possível demonstrar que a estrutura identificada seja a casa em que Jesus cresceu. Dark considera impossível, com as evidências atualmente disponíveis, provar ou refutar essa identificação. O que pode ser afirmado com segurança é algo diferente: o sítio contém uma estrutura doméstica do século I e contribui para a reconstrução arqueológica de Nazaré naquele período. A distinção é fundamental. Encontrar uma casa do século I em Nazaré não significa encontrar a casa de Jesus; encontrar evidências de uma comunidade judaica do século I em Nazaré significa, porém, tornar historicamente plausível o ambiente no qual as tradições antigas sobre Jesus o situam.

A questão se torna ainda mais interessante quando deixamos a arqueologia e retornamos às próprias narrativas evangélicas. Se Nazaré era uma comunidade real e se Jesus foi tão fortemente associado a ela que a designação “nazareno” se tornou parte de sua identidade, por que Mateus e Lucas introduzem Belém da Judeia como local de nascimento? A resposta tradicional é conhecida: porque Jesus seria o Messias davídico, e Belém era a cidade de Davi. Mas justamente aqui precisamos distinguir a função teológica da tradição de sua possível memória histórica. Mateus constrói uma narrativa na qual o nascimento em Belém se articula diretamente com a tradição davídica e com a perseguição de Herodes; Lucas, por sua vez, utiliza o recenseamento para deslocar José e Maria de Nazaré para Belém. O problema é que essas narrativas apresentam arquiteturas diferentes e não são facilmente conciliáveis entre si. Ao mesmo tempo, outras tradições neotestamentárias enfatizam a identificação de Jesus com a Galileia e Nazaré sem preservar uma narrativa equivalente sobre seu nascimento em Belém. O historiador precisa, portanto, perguntar não apenas “o que o texto afirma?”, mas também “por que o texto afirma isso?”. Essa distinção é decisiva. A existência de uma narrativa não constitui, por si mesma, demonstração da historicidade do acontecimento narrado.

A discussão acadêmica contemporânea mostra que não estamos diante de uma questão criada por críticos modernos. Steve Mason examinou especificamente a questão do local de nascimento de Jesus e chamou atenção para as tensões entre os relatos de Mateus e Lucas e a tradição mais ampla dos evangelhos. Seu argumento é particularmente útil porque não consiste simplesmente em substituir uma certeza por outra: sua análise conduz a uma posição cautelosa diante da evidência disponível. A discussão publicada pela Bible Review colocou justamente em confronto essa leitura com a defesa da tradição de Belém feita por Jerome Murphy-O’Connor, demonstrando que a questão permanece aberta no âmbito da pesquisa. Mason sustenta uma posição agnóstica diante da questão, enquanto Murphy-O’Connor argumenta em favor da tradição de Belém. John P. Meier, trabalhando em outra vertente da pesquisa do Jesus histórico, considerou que Jesus provavelmente não nasceu em Belém, mas em Nazaré, entendendo a tradição de Belém como um theologoumenon, isto é, uma afirmação teológica apresentada sob a forma de narrativa histórica. Ao mesmo tempo, Meier advertia que não se poderia alcançar certeza absoluta sobre o ponto. Portanto, a hipótese que estamos examinando não constitui simplesmente uma provocação contra a tradição cristã: ela possui antecedentes dentro da própria historiografia crítica do Novo Testamento.

Mas há ainda uma possibilidade que merece ser retomada com maior cuidado: Belém da Galileia. A hipótese é relevante porque nos obriga a abandonar uma falsa dicotomia. Não precisamos necessariamente escolher entre Belém da Judeia e Nazaré como se fossem as únicas possibilidades concebíveis. Existia uma outra Belém, situada na Galileia. E isso é historicamente relevante. A possibilidade de uma Belém galileia não é uma invenção moderna destinada artificialmente a solucionar o problema dos evangelhos. Trata-se de uma localidade real, cuja ocupação em diferentes períodos da Antiguidade é arqueologicamente documentada, inclusive com evidências atribuídas ao período romano inicial. O problema, naturalmente, é outro: existe alguma evidência positiva ligando Jesus especificamente a essa Belém? E aqui a resposta precisa ser muito mais prudente: não temos essa evidência. O máximo que podemos fazer é reconhecer que a existência da localidade torna a hipótese geograficamente possível e, portanto, digna de investigação, sem convertê-la em uma hipótese histórica positivamente demonstrada.

Essa possibilidade adquire interesse especial quando observamos a relação espacial entre Belém da Galileia e Nazaré. Diferentemente de Belém da Judeia, Belém da Galileia está inserida no mesmo universo regional em que encontramos Nazaré. Isso não prova absolutamente nada sobre o nascimento de Jesus, mas modifica os termos da questão histórica. Se, hipoteticamente, uma tradição anterior preservasse apenas a informação de que Jesus nascera em “Belém”, seria necessário investigar quando, como e por que essa tradição passou a ser identificada especificamente com a Belém da Judeia. A própria existência de uma cidade homônima na Galileia impede que tratemos o nome “Belém” como uma referência geográfica absolutamente transparente em qualquer reconstrução hipotética da transmissão da tradição. Mais importante ainda: a tradição cristã não nasceu num vazio geográfico. Ela foi produzida em um ambiente no qual nomes de lugares, tradições messiânicas, genealogias e expectativas escatológicas estavam profundamente entrelaçados. A identificação de Jesus com Davi tornava Belém um lugar extraordinariamente carregado de significado simbólico.

É aqui que a hipótese histórica encontra a história das ideias. Belém não é apenas um lugar; é a cidade de Davi. A tradição que localiza o nascimento de Jesus em Belém produz, portanto, uma operação teológica extremamente eficiente: vincula o nascimento de um camponês galileu à tradição davídica. A geografia passa a funcionar como argumento cristológico. Não se trata simplesmente de dizer onde Jesus nasceu; trata-se de demonstrar quem Jesus é. E essa observação permite compreender por que a narrativa do nascimento pode possuir enorme importância teológica mesmo que sua precisão biográfica seja questionável. O problema deixa de ser simplesmente “os evangelistas erraram o endereço?” e passa a ser: qual afirmação sobre Jesus os evangelistas estavam fazendo através desse endereço?

Nesse sentido, talvez a questão mais interessante não seja decidir prematuramente entre Nazaré e Belém da Galileia. A arqueologia não nos permite fazer isso. O que ela nos permite fazer é estabelecer os limites dentro dos quais uma reconstrução histórica responsável pode operar. Nazaré existia no século I e há evidências arqueológicas de sua ocupação nesse período. A pesquisa de Ken Dark mostra que podemos reconstruir aspectos importantes de sua economia, cultura material e organização doméstica, embora não possamos identificar com segurança nenhuma residência como a casa de Jesus. Belém da Galileia também constitui uma possibilidade geográfica real e apresenta evidências arqueológicas de ocupação antiga, inclusive no período romano inicial, mas a ausência de evidência específica que associe Jesus à localidade impede que transformemos essa possibilidade em conclusão. E Belém da Judeia, embora seja perfeitamente real e esteja fortemente associada à tradição davídica, enfrenta o problema de ser sustentada pelos relatos de Mateus e Lucas, justamente as fontes que possuem maior interesse teológico na construção da genealogia e da identidade messiânica de Jesus.

Portanto, a conclusão desta segunda parte precisa ser mais cuidadosa. Não podemos afirmar historicamente que Jesus nasceu em Nazaré. Tampouco podemos afirmar que nasceu em Belém da Galileia. E a arqueologia, por si mesma, não demonstra que tenha nascido em Belém da Judeia. O que podemos afirmar com segurança muito maior é que Nazaré era uma comunidade real do início do século I e que a associação de Jesus com essa localidade possui uma base histórica particularmente sólida. A questão do nascimento, entretanto, permanece aberta. A tradição de Belém pode preservar uma memória histórica, mas também pode representar uma construção teológica destinada a vincular Jesus à linhagem davídica. A pesquisa crítica contemporânea reconhece precisamente essa dificuldade: parte dela considera Nazaré uma hipótese historicamente mais provável, enquanto outros estudiosos defendem a tradição de Belém ou preferem permanecer agnósticos diante da questão. A própria publicação de Mason e Murphy-O’Connor na Bible Review mostra que a discussão comportava posições substancialmente divergentes.

Talvez, portanto, devamos terminar esta segunda parte não com uma resposta definitiva, mas com uma mudança de perspectiva. Durante séculos, a pergunta pareceu simples: Jesus nasceu em Belém? A investigação histórica mostra que ela é muito mais complexa. Precisamos perguntar quando a tradição de Belém aparece nas fontes que possuímos, quais textos a sustentam, que função desempenha na cristologia dos evangelistas e como ela se relaciona com a tradição, aparentemente mais ampla, que identifica Jesus como galileu e nazareno. Precisamos ainda perguntar se uma eventual tradição anterior poderia ter sido transmitida de forma menos específica e se a existência de uma Belém galileia merece algum papel nessa discussão. Por enquanto, a arqueologia nos oferece uma certeza modesta, mas extraordinariamente importante: a arqueologia fornece evidências independentes de que Nazaré era uma comunidade judaica real no período em que Jesus viveu. O restante pertence ao terreno mais difícil — e mais fascinante — em que arqueologia, crítica textual, história social e construção da memória religiosa se encontram. É justamente aí que devemos prosseguir.


Referências

CROSSAN, John Dominic. O Jesus histórico: a vida de um camponês judeu do Mediterrâneo. Rio de Janeiro: Imago, 1994.

DARK, Ken. Archaeology of Jesus' Nazareth. Oxford: Oxford University Press, 2023.

MASON, Steve. O Little Town of... Nazareth? Where Was Jesus Born? Bible Review, v. 16, n. 1, p. 32–39, 51–53, 2000.

MEIER, John P. A Marginal Jew: Rethinking the Historical Jesus. New York: Doubleday, 1991.

MURPHY-O'CONNOR, Jerome. Bethlehem... Of Course. Bible Review, v. 16, n. 1, 2000.