Estudos sobre Religião - Biblioblog

domingo, 30 de novembro de 2008


Por motivos religiosos, este blog entrará em recesso por 10 dias, enquanto eu cuido pela salvação da minha alma! Prometo que retornarei assim que me for possível. No entanto, o momento agora é de recolhimento total para as batalhas que me aparecerão pela frente! Me desejem força nesta caminhada... pois eu vou precisar muito (mesmo!) E... O retorno será muito bom, repleto de novidades. A energia estará renovada pela luta — OMNIA VINCIT AMOR!

No mais, eu vou deixá-los com o reflexivo documentário filme Into Great Silence! Escutem o som do silêncio, meditem e tenham em mente que eu estarei assim nestes próximos dias. No mais...Oremos!




Ps.1 - Vou me penitenciar com 10 auto-chibatadas por sair do silêncio, mas não posso deixar de mencionar o ótimo trabalho de mapeamento de biblioblogs feito pelo Dr. Jim West, nos dando uma geral sobre os melhores posts publicados pelos biblioblogs no mês de novembro! A notícia legal é que o Ad Cummulus, com os seus quase dois meses de vida, já faz parte do mapa, devido aos posts sobre o nascimento de Jesus. Confiram:

"James McGrath continues his journey down the rabbit hole in quest of the historical Jesus and opens a series on ‘what Jesus said and did’ with a look at the prayer of Jesus in Gethsemane and Divorce (and then the series died before it took another step forward in November); and Flavio Souza makes the same trek down the rabbit hole- concerning Jesus’ birth."


Bom... Quebrado o silêncio, vou me penitenciar agora. Amém.

sábado, 29 de novembro de 2008



José, Maria e a construção genealógica do Messias

As genealogias sobre Jesus encontradas nos evangelhos de Mateus e Lucas nos colocam diante de um dos problemas mais antigos e persistentes da interpretação do Novo Testamento. O tema já foi exposto e pesquisado por uma enormidade de pessoas, nas mais variadas épocas e a partir dos mais variados contextos teológicos e arcabouços teóricos. Não estamos, portanto, diante de uma dificuldade descoberta pela crítica bíblica moderna. Desde a Antiguidade cristã, leitores dos evangelhos perceberam que Mateus e Lucas não apresentam simplesmente duas listas diferentes de nomes, mas duas construções genealógicas que divergem precisamente no ponto em que a questão se torna teologicamente decisiva: a descendência de Davi. Mateus conduz a linhagem de Jesus de Davi através de Salomão e da sucessão régia de Judá; Lucas, por sua vez, conduz a linhagem através de Natã, outro filho de Davi, e termina em Eli antes de chegar a José. Entre Davi e José, as duas listas praticamente deixam de coincidir, com apenas alguns nomes em comum. A discrepância, portanto, não é uma pequena irregularidade de transmissão: pertence à própria arquitetura dos textos. A pesquisa contemporânea continua tratando esse problema como uma questão aberta, envolvendo diferentes hipóteses acerca das fontes genealógicas utilizadas pelos evangelistas, da natureza jurídica da filiação, da possibilidade de uma linhagem materna e da própria função teológica das genealogias. Barbara Sivertsen, por exemplo, procurou explicar as diferenças mediante a existência de tradições genealógicas distintas, enquanto Caleb Friedeman retomou o problema a partir da possibilidade de compreender a filiação davídica de Jesus mediante categorias de adoção existentes no mundo judaico antigo. O problema, portanto, é mais profundo do que a simples pergunta sobre qual dos evangelistas estaria “certo”. Nós temos um problema básico e fundante ligado à genealogia de Jesus. Mas qual problema seria este? O fato é que não há sentido algum em se falar em tal genealogia se Jesus de fato não foi filho de José — ainda mais em se tratando da descendência davídica. Que sentido faz em se falar em um Messias “adotado” por um descendente de Davi? Nenhum. Ou, pelo menos, nenhum se estivermos pensando na genealogia exclusivamente como transmissão biológica. É justamente aqui que a questão se torna mais interessante: qual é a natureza da filiação que permite aos evangelistas apresentar Jesus simultaneamente como filho de Deus, filho de José e filho de Davi?


Quadro 1 — Comparação entre as genealogias de Mateus e Lucas

ElementoMateus 1Lucas 3
Direção da genealogiaAbraão → JesusJesus → Adão
Ponto de partidaAbraãoJesus
Filho de Davi utilizado na linhagemSalomãoNatã
Pai de JoséJacóEli
JoséEsposo de Maria“Filho de Eli”
Estrutura predominanteGenealogia davídico-régiaGenealogia universal
Função teológica predominanteJesus como filho de Abraão e herdeiro davídicoJesus como Filho de Deus e pertencente à humanidade

Fonte: elaboração própria.


A comparação torna o problema imediatamente visível. Mateus começa seu evangelho com uma afirmação extremamente significativa: “Livro da origem de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” (Mt 1,1). Não estamos diante de uma genealogia neutra, no sentido moderno do termo. A própria seleção e organização dos nomes possui uma finalidade teológica. Mateus não apenas informa quem foram os antepassados de Jesus; procura demonstrar que Jesus ocupa uma posição específica dentro da história de Israel. A genealogia passa por Abraão, atravessa Davi, passa por Salomão e acompanha a linhagem régia de Judá até chegar a José. Lucas, ao contrário, realiza um movimento inverso: parte de Jesus, passa por José e recua até Adão e, finalmente, Deus. A diferença não é apenas formal. A genealogia lucana aparece imediatamente depois do batismo, episódio em que uma voz celeste declara a identidade filial de Jesus, e conduz o leitor progressivamente de Jesus até Adão, fechando a genealogia com a expressão “filho de Deus”. O efeito literário é significativo. Mateus constrói Jesus dentro da história particular de Israel; Lucas amplia essa história até suas origens humanas e divinas. A genealogia, nesse sentido, não funciona simplesmente como uma certidão de nascimento retrospectiva. Ela participa da construção da identidade daquele que o evangelista pretende apresentar. E é justamente aqui que precisamos recuperar uma percepção fundamental: se José não é o pai biológico de Jesus segundo a narrativa de Mateus e Lucas, por que sua genealogia é apresentada? A pergunta continua válida. O que mudou, com a pesquisa contemporânea, é que não precisamos necessariamente concluir que os evangelistas simplesmente “erraram”. Podemos formular uma hipótese mais interessante: a genealogia talvez não esteja interessada primordialmente em demonstrar a biologia de Jesus, mas em estabelecer sua posição jurídica, dinástica, messiânica e teológica. Isso não elimina o problema; ao contrário, torna-o muito mais interessante.

A proposição de que a genealogia de Lucas se referiria à Maria já é uma hipótese antiga. Ela foi elaborada inicialmente no século XV por Annius de Viterbo, do qual, dentre outros despautérios, naquela época, afirmava ter sido Maomé o anticristo. A alegação de Viterbo é desprovida de fundamentos sólidos se apresentada como uma conclusão evidente do texto. Inicialmente, poderíamos mostrar que ambas as genealogias falam de Jesus como filho de José. Vamos a elas:

Mt 1,16: “Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus chamado Cristo.”

Lc 3,23: “Ao iniciar o ministério, Jesus tinha mais ou menos trinta anos e era, conforme se supunha, filho de José, filho de Eli...”

Essas duas passagens precisam ser levadas muito a sério. A hipótese segundo a qual Lucas estaria apresentando simplesmente a genealogia de Maria possui uma dificuldade textual evidente: o texto de Lucas não diz que a genealogia é de Maria. Ele menciona José. Isso não torna absolutamente impossível a hipótese, mas impede que ela seja tratada como solução textual direta. A tradição interpretativa tentou solucionar a dificuldade de diversas maneiras. A mais conhecida consiste em atribuir a Lucas uma genealogia de Maria, fazendo de Eli o pai de Maria e compreendendo José como genro de Eli. O problema é que essa interpretação precisa introduzir no texto algo que o próprio Lucas não afirma explicitamente. A expressão “filho de José” permanece ali. É possível argumentar que o evangelista estaria seguindo uma convenção genealógica que permitisse representar o genro através da casa do sogro, mas isso já constitui uma hipótese explicativa, não uma informação fornecida pelo texto. A distinção é metodologicamente fundamental. Não podemos dizer simplesmente que Lucas fornece a genealogia de Maria; podemos dizer que essa é uma das soluções historicamente propostas para explicar a genealogia lucana. E isso é bastante diferente.

Ademais, Lucas não teria motivo algum para traçar uma genealogia a partir de Maria, dado que o próprio José era da casa de Davi, como é mostrado em:

Lc 1,26-27: “No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de Davi e o nome da virgem era Maria.”

Da mesma forma, em Lucas 2,4:

“E também José subiu da cidade de Nazaré, na Galiléia, para a Judéia, na cidade de Davi, chamada Belém, por ser da casa e da família de Davi, para se inscrever com Maria, sua mulher, que estava grávida.”

Essas passagens reforçam um dado importante: o próprio Lucas associa José à casa de Davi. Mas aqui precisamos fazer uma distinção. O fato de Lucas apresentar José como pertencente à casa de Davi não significa automaticamente que a genealogia apresentada em Lucas seja necessariamente a genealogia biológica de José, nem resolve a divergência entre Jacó e Eli. Tampouco significa que Maria não pudesse possuir ascendência davídica. Significa apenas que o evangelista possui uma tradição segundo a qual José está relacionado à casa de Davi. Essa constatação impede uma simplificação frequente: não estamos diante de uma genealogia de Maria claramente identificável que pudesse simplesmente resolver o problema. A pesquisa especializada permanece dividida entre diferentes possibilidades: genealogias independentes, linhagem jurídica e linhagem biológica, sucessão dinástica, ascendência davídica através de Maria e, mais recentemente, a possibilidade de adoção. A questão, portanto, tornou-se ainda mais sofisticada do que aquela que formulamos originalmente: não basta perguntar de quem é a genealogia de Lucas; precisamos perguntar que tipo de relação genealógica os evangelistas entendiam como suficiente para conferir a Jesus uma identidade davídica.


A questão da linhagem paterna

Existe a idéia de que não se permitiam casamento intertribais em Israel no período em que Jesus nasceu. Neste sentido, afirma-se que sendo José um descendente davídico, Maria, consequentemente, também teria que ser. A fonte de tal proposição é registrada em Números 36,6-8:

“Eis os que Iahweh ordena para as filhas de Salfaad: Casar-se-ão com quem lhes agradar, conquanto que se casem com alguém de um clã da tribo do seu pai. A herança dos filhos de Israel não passará de tribo a tribo; os filhos de Israel permanecerão vinculados, cada um, à herança da sua tribo. Qualquer filha que possuir uma herança em uma das tribos de Israel deverá casar-se com alguém de um clã da sua tribo paterna, de modo que os filhos de Israel conservem, cada um, a herança de seu pai.”

Aqui, entretanto, precisamos corrigir um ponto importante do argumento. Números 36 não estabelece simplesmente uma proibição geral e permanente de casamentos entre membros de tribos diferentes. O contexto é específico: trata-se das filhas que recebem uma herança e da necessidade de impedir que essa herança territorial seja transferida de uma tribo para outra. A norma está vinculada à preservação da propriedade tribal. Portanto, não podemos utilizar Números 36 como prova direta de que todo casamento intertribal fosse proibido no judaísmo do século I. O texto continua importante, mas por outra razão: demonstra a importância da linhagem paterna e da identidade tribal na estrutura social e jurídica de Israel. O argumento fica, assim, menos absoluto e mais forte historicamente. Não podemos concluir que Maria fosse necessariamente da tribo de Judá simplesmente porque se casou com José; podemos, entretanto, reconhecer que a genealogia paterna possuía papel fundamental na construção das identidades familiares e tribais.

A este respeito, bem como a respeito das linhas paternas na elaboração genealógica, gostaria de citar um artigo postado na Jewish Virtual Library cuja fonte original é a Central Conference of American Rabbis:

“Both the Biblical and the Rabbinical traditions take for granted that ordinarily the paternal line is decisive in the tracing of descent within the Jewish people. The Biblical genealogies in Genesis and elsewhere in the Bible attest to this point. In intertribal marriage in ancient Israel, paternal descent was decisive. Numbers 1:2, etc., says: ‘By their families, by their fathers' houses’ (lemishpechotam leveit avotam), which for the Rabbis means, ‘The line [literally: “family”] of the father is recognized; the line of the mother is not’ (Mishpachat av keruya mishpacha; mishpachat em einah keruya mishpacha; Bava Batra 109b, Yevamot 54b; cf. Yad, Nachalot 1.6).”

Tal passagem reforça o que já havia sido colocado, mas também exige uma cautela. A predominância da linha paterna na genealogia israelita não significa que a identidade de uma pessoa jamais pudesse ser relacionada à linhagem materna, nem que a mãe fosse irrelevante para a identidade familiar. O ponto relevante para nossa investigação é outro: quando os evangelistas desejam estabelecer a legitimidade davídica de Jesus, uma genealogia exclusivamente materna seria uma solução que exigiria alguma explicação adicional. Por isso, a hipótese de que Lucas simplesmente esteja oferecendo a genealogia de Maria não pode ser aceita como uma solução óbvia. Ela é uma hipótese interpretativa que precisa explicar por que o evangelista apresenta José na posição genealógica.

Da mesma forma, o rabino Pinchas Winston demonstra que a interpretação judaica tradicional compreendeu a restrição de Números 36 como relacionada à preservação da herança territorial:

“The Talmud asks the question at the end of Masechta Ta'anis: Why is the fifteenth day of Av (Tu B'Av) such a happy day? One of the principle answers given is that it was the day, during the time of the Judges, that the ban against intermarriage among tribes (found at the end of this week's parsha) was finally lifted.

Historically, it was the lifting of this ban that saved the tribe of Binyomin from extinction. After the horrific civil war between Binyomin and the rest of the nation, their ranks had been decimated, and only inter-tribal marriage could reverse the trend for them.

But how could they override the Torah which prevented such marriages. The Talmud answers that that mitzvah had been relevant only at the time of the division of the land, to assure that each tribe retained its portion of the inheritance. Once that was no longer an issue, the injunction against inter-tribe marriage was, in a sense, automatically lifted.”

Da mesma forma, o Chabad assim nos informa:

“In order to ensure the orderly division of the Holy Land between the twelve tribes of Israel, restrictions had been placed on marriages between members of two different tribes. A woman who had inherited tribal lands from her father was forbidden to marry out of her tribe, lest her children -- members of their father's tribe -- cause the transfer of land from one tribe to another by inheriting her estate (Number 36). This ordinance was binding only on the generation that conquered and settled the Holy Land during the 14-year period 2488-2503 from creation (1273-1258 BCE); when the restriction was lifted, on the 15th of Av, the event was considered a cause for celebration and festivity.”

Sendo assim, devemos pontuar que no tempo em que Jesus viveu não temos fundamento suficiente para afirmar que existisse uma restrição geral ao casamento intertribal que obrigasse Maria a pertencer à linhagem davídica em razão de seu casamento com José. Esse ponto precisa ser corrigido em relação à formulação anterior. A correção, contudo, não destrói a pergunta que deu origem ao texto; pelo contrário, torna-a mais precisa. Maria poderia ser descendente de Davi, mas não temos no Novo Testamento uma genealogia explicitamente identificada como sua. José, por outro lado, é explicitamente relacionado à casa de Davi. E Lucas apresenta sua genealogia como passando por José.

José, Maria e as possibilidades de filiação

É justamente nesse ponto que a pesquisa contemporânea oferece uma possibilidade que modifica profundamente o problema: a adoção. Caleb T. Friedeman, em artigo publicado no periódico New Testament Studies, retomou a questão da linhagem davídica de Jesus a partir da dificuldade criada pela combinação entre a concepção virginal e a filiação davídica. Sua proposta é que uma forma de adoção judaica poderia explicar como Jesus poderia ser reconhecido como pertencente à linhagem de José sem que José fosse seu pai biológico. A hipótese é particularmente interessante porque desloca a discussão de uma concepção moderna de parentesco biológico para uma concepção antiga de filiação, na qual pertencimento familiar, nome, herança e status jurídico podiam possuir dimensões que não se reduziam à descendência física.


Quadro 2 — Hipóteses para a relação de Jesus com a casa de Davi

HipóteseComo Jesus se relacionaria à casa de Davi?Principal dificuldade
José como pai biológicoDescendência direta através de JoséEntra em tensão com a concepção virginal
Maria como descendente de DaviDescendência maternaO texto não identifica explicitamente Lucas como genealogia de Maria
Adoção por JoséFiliação jurídica/socialExige demonstrar a plausibilidade histórica de adoção no judaísmo
Linhagem dinásticaPertencimento à casa régia por sucessãoExige distinguir genealogia biológica de sucessão política
Construção teológica“Filho de Davi” como categoria messiânicaRedefine a função da genealogia para além da biologia

Fonte: elaboração própria.


Essa última possibilidade é particularmente importante. Talvez estejamos cometendo um anacronismo quando imaginamos que “filho de Davi” tenha necessariamente de significar “possui DNA de Davi”. No mundo bíblico, filiação é uma categoria simultaneamente biológica, social, jurídica, política e teológica. “Filho de Davi” pode significar pertencimento à casa de Davi, reivindicação de uma posição régia e messiânica e inserção numa determinada tradição de sucessão. Isso não significa que a genealogia seja fictícia. Significa que precisamos compreender que tipo de verdade uma genealogia antiga pretendia produzir.


O problema já existia na Antiguidade

O problema não foi criado pela crítica moderna. Já no século III, Júlio Africano procurou explicar as diferenças entre Mateus e Lucas através da combinação entre descendência natural e descendência legal, hipótese preservada por Eusébio em sua História Eclesiástica. A tradição de Africano é particularmente importante porque demonstra que um cristão do período antigo já havia percebido que duas genealogias aparentemente contraditórias poderiam ser resultado de diferentes formas de filiação. Sua explicação recorria inclusive à possibilidade do casamento levirático para explicar a existência simultânea de duas linhas genealógicas.

A solução de Africano, entretanto, também apresenta dificuldades. Ela depende de uma reconstrução extremamente específica das relações familiares e matrimoniais e não resolve automaticamente todas as divergências entre as duas genealogias. O importante, para nosso argumento, não é decidir se Africano estava correto. É perceber que a própria Igreja antiga já sabia que o problema não poderia ser resolvido simplesmente colocando Mateus e Lucas lado a lado e supondo que ambos estivessem descrevendo exatamente a mesma árvore familiar.

A história da interpretação, portanto, é reveladora. Ao longo dos séculos, diferentes soluções foram propostas:


Quadro 3 — História das principais soluções interpretativas

PeríodoAutor/posiçãoSolução proposta
AntiguidadeJúlio AfricanoDistinção entre descendência natural e legal
Antiguidade tardiaEusébioPreservação da solução de Africano
Idade MédiaAnnius de ViterboGenealogia de Lucas associada a Maria
Exegese modernaHipótese marianaMaria como conexão davídica
Pesquisa contemporâneaBarbara SivertsenDiferentes tradições/fontes genealógicas
Pesquisa contemporâneaCaleb FriedemanPossibilidade de adoção judaica
Pesquisa contemporâneaJoseph SieversGenealogias como construções identitárias e teológicas

Fonte: elaboração própria.


É particularmente significativo que a pesquisa moderna tenha chegado novamente a uma questão que já estava implicitamente presente na Antiguidade: o que exatamente significa “descender” de alguém? A genealogia antiga não é necessariamente equivalente a uma árvore genealógica moderna. Ela pode expressar legitimidade, pertencimento, sucessão, identidade e reivindicação. Uma genealogia pode ser verdadeira dentro de determinada estrutura social sem pretender responder à pergunta moderna sobre quem transmitiu biologicamente cada segmento do patrimônio genético.


A contradição que permanece

Os evangelistas, sem o querer, se colocaram em uma delicada posição. Qual seria ela? Ao elaborarem genealogias para Jesus, ligando-o à casa de Davi — eles fatalmente se expuseram a uma contradição delicada: se Jesus é, de fato, descendente de José, então ele é filho humano do próprio José (possui o sangue davídico de José). Mas se este não foi de fato o seu pai biológico, então as genealogias nada nos dizem — pelo menos nada nos dizem de maneira simples — sobre uma ligação biológica de Jesus com a casa de Davi.

E é precisamente nesse ponto que o problema deixa de ser apenas uma questão de genealogia e passa a ser uma questão de cristologia.


Quadro 4 — Filiação e identidade davídica de Jesus

Afirmação dos evangelhosProblemaPossível explicação
Jesus é Filho de DeusJosé não é apresentado como pai biológico na concepção virginalFiliação divina
Jesus é Filho de DaviÉ necessário estabelecer relação com a casa de DaviJosé, Maria, adoção ou sucessão
José pertence à casa de DaviMateus e Lucas apresentam genealogias diferentesTradições genealógicas distintas
Mateus apresenta Jacó como pai de JoséLucas apresenta EliDiferentes modelos genealógicos
Lucas chama Jesus de “filho de José, conforme se supunha”A expressão relativiza a paternidade literalFiliação social/jurídica ou recurso narrativo
Maria poderia ser davídicaNenhuma genealogia é explicitamente apresentada como suaHipótese possível, mas não demonstrada
Jesus poderia ser integrado à linhagem por adoçãoA extensão da prática no judaísmo antigo é debatidaHipótese contemporânea relevante

Fonte: elaboração própria.


Chegamos, portanto, à pergunta que está no centro do problema. Os evangelistas, ao elaborarem genealogias para Jesus e ligá-lo à casa de Davi, fatalmente se expuseram a uma contradição delicada — se Jesus é, de fato, descendente de José, então ele possui uma relação humana com a linhagem davídica de José; mas, se José não foi de fato seu pai biológico, então as genealogias não podem ser utilizadas de maneira simples como demonstração de uma descendência biológica de Jesus.

Mas talvez seja precisamente aqui que devamos abandonar a necessidade de escolher imediatamente entre “erro”, “genealogia de Maria” ou “genealogia de José”. A pesquisa contemporânea permite uma pergunta muito mais interessante. E se os evangelistas não estivessem tentando responder à mesma pergunta que nós estamos fazendo?

Mateus parece interessado em demonstrar que Jesus pertence à história de Israel, passando por Abraão e chegando à casa de Davi. Lucas amplia radicalmente a perspectiva, levando a genealogia até Adão e Deus. Um constrói uma identidade messiânica dentro da história particular de Israel; o outro universaliza essa identidade. A genealogia, nesse sentido, não é simplesmente uma lista de antepassados. Ela é uma declaração sobre quem Jesus é.

E talvez seja justamente por isso que a aparente contradição seja tão importante. Se as duas genealogias fossem perfeitamente coincidentes, o problema seria menor, mas também seria menos revelador. A divergência mostra que diferentes comunidades cristãs primitivas estavam trabalhando com diferentes tradições sobre a identidade de Jesus e procurando situá-lo dentro de uma história maior. Mateus precisa demonstrar a relação entre Jesus, Davi e Abraão. Lucas precisa demonstrar sua relação simultânea com Israel, com a humanidade e com Deus. José aparece nos dois porque é o ponto socialmente reconhecível através do qual a identidade davídica de Jesus pode ser estabelecida — mesmo quando a narrativa da concepção virginal impede que essa filiação seja reduzida à paternidade biológica.

Assim, aquela pergunta aparentemente simples que estava no início do texto permanece extraordinariamente poderosa:

De quem, afinal, Jesus é filho?

Filho de Deus?

Filho de José?

Filho de Davi?

Filho de Maria?

Ou, talvez, todas essas expressões estejam dizendo coisas diferentes sobre a mesma pessoa?

A questão não é apenas descobrir qual genealogia é “verdadeira”. A questão é descobrir o que os evangelistas entendiam por filiação quando utilizaram essas genealogias para construir a identidade de Jesus.

E é justamente aqui que o problema se torna muito maior do que uma simples divergência entre duas listas de nomes.

That’s the question.



Referências

BOCKMUEHL, Markus. The Son of David and his Mother. Journal of Theological Studies, v. 62, 2011.

CROSSAN, John Dominic. O Jesus histórico: a vida de um camponês judeu do Mediterrâneo. Rio de Janeiro: Imago, 1994.

EUSÉBIO DE CESAREIA. História Eclesiástica. Livro I.

FRIEDEMAN, Caleb T. Jesus’ Davidic Lineage and the Case for Jewish Adoption. New Testament Studies, v. 66, n. 2, 2020, p. 249-267.

McFALL, Leslie. Jesus' Genealogies: A Critical Survey of Ideas and Solutions. Glasgow: University of Glasgow, 1998.

SIVERTSEN, Barbara. New Testament Genealogies and the Families of Mary and Joseph. Biblical Research, v. 35, n. 2, 2005.

SIEVERS, Joseph. Gospel Genealogies and Jesus’s Jewishness. Studies in Christian-Jewish Relations, v. 21, n. 1, 2026.


quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Mateus 26,30 — “Depois de terem cantado o hino, saíram para o monte das Oliveiras.”

Encontramos nos Atos de João uma referência particularmente significativa àquilo que pode ser colocado em paralelo com o breve episódio mencionado por Mateus: o hino cantado por Jesus e seus discípulos antes de sua prisão. É importante, desde logo, estabelecer uma distinção. Não podemos afirmar que o texto dos Atos de João preserve historicamente aquilo que aconteceu na última noite de Jesus, tampouco que seu autor esteja simplesmente reproduzindo uma tradição perdida dos evangelhos. Os Atos de João constituem uma obra cuja composição, transmissão e diferentes camadas textuais permanecem objeto de discussão, e a passagem conhecida como “Hino de Jesus”, sobretudo nos capítulos 94–96, apresenta uma elaboração teológica própria. A edição crítica de Éric Junod e Jean-Daniel Kaestli, Acta Iohannis, permanece fundamental para a análise da composição, da transmissão e da estrutura textual da obra, especialmente porque a relação entre os capítulos 94–96 e a revelação da paixão que prossegue até o capítulo 102 impede que o hino seja tratado simplesmente como uma peça isolada. O interesse histórico da passagem encontra-se, portanto, em outro lugar: ela permite observar como determinada tradição cristã antiga imaginou, ritualizou e incorporou corporalmente a paixão de Cristo. A NASSCAL, em sua e-Clavis Christian Apocrypha dedicada aos Atos de João, reúne bibliografia especializada e informações sobre a tradição textual da obra.



O que Mateus registra de maneira extremamente econômica como um canto transforma-se, nessa tradição, em uma experiência comunitária que reúne voz, corpo, movimento, repetição, resposta litúrgica e revelação. Jesus reúne os discípulos, coloca-se no centro de um círculo, ordena-lhes que deem as mãos e inicia um canto ao qual os demais respondem repetidamente “Amém”. Nos Atos de João 94, a cena é apresentada assim:

“Antes que fosse entregue aos ímpios, que receberam sua lei de uma serpente ímpia, reuniu-nos todos e disse: ‘Antes que eu seja entregue a eles, cantemos um hino ao Pai e saiamos para aquilo que está diante de nós’. Então ordenou que fizéssemos como que um círculo, segurando uns nas mãos dos outros, enquanto ele próprio permanecia no meio. E disse: ‘Respondei-me: Amém’. Começou então a cantar um hino, dizendo:

‘Glória a ti, Pai!’

E nós, dando voltas em círculo, respondemos: ‘Amém’.

‘Glória a ti, Palavra! Glória a ti, Graça!’ ‘Amém’.

‘Glória a ti, Espírito! Glória a ti, Santo! Glória à tua glória!’ ‘Amém’.

‘Nós te louvamos, ó Pai. Nós te damos graças, ó Luz, na qual não habita a escuridão.’ ‘Amém’.”

A tradução acima é nossa, realizada a partir da tradução inglesa de M. R. James, disponível integralmente na edição digital de The Acts of John. O texto de James identifica o episódio como Acts of John 94 e registra tanto a formação do círculo quanto a posição de Jesus “in the middle”. A cena é extraordinária porque transforma aquilo que no Evangelho de Mateus é uma informação extremamente econômica — “depois de terem cantado o hino” — em uma experiência comunitária que reúne voz, corpo, movimento, repetição, resposta litúrgica e revelação. Não estamos diante de uma simples ilustração narrativa da paixão. O círculo formado pelos discípulos, o movimento em torno de Jesus e a estrutura responsorial do canto fazem da passagem uma ação ritualizada.

É precisamente por isso que a bibliografia especializada passou a estudar o episódio não apenas como literatura apócrifa ou como curiosidade da chamada literatura gnóstica, mas também como possível testemunho de formas de prática religiosa existentes em determinados ambientes cristãos antigos. Barbara E. Bowe, Arthur J. Dewey e Karin Schlapbach estão entre os estudiosos que trataram diretamente da dança nos Atos de João, discutindo sua função como prática corporal, experiência religiosa e forma de interpretação. A própria tradição crítica reunida por Junod e Kaestli chama atenção para a relação entre o material do hino, a revelação da paixão e os capítulos subsequentes, enquanto estudos posteriores observam que o círculo, a posição central de Jesus e a participação corporal dos discípulos constituem elementos estruturantes da cena. A NASSCAL reúne a bibliografia especializada sobre os Atos de João.

A questão que se coloca, portanto, é muito mais interessante do que aquela que inicialmente poderia parecer: estaria o autor simplesmente inventando uma dança de Jesus ou estaria transformando em narrativa uma prática ritual que seus próprios leitores poderiam reconhecer? Não temos elementos suficientes para responder definitivamente à pergunta. A existência de uma cena tão elaborada não prova, por si só, que uma cerimônia idêntica tenha sido historicamente realizada. Mas a possibilidade de que a passagem conserve elementos reconhecíveis de prática religiosa torna a questão historicamente relevante. Paul Trebilco, ao estudar os Atos de João em relação às comunidades cristãs de Éfeso, considera plausível que uma prática litúrgica comunitária esteja por trás da passagem, embora isso não equivalha a demonstrar historicamente a realização exata da cena narrada. É necessário, portanto, distinguir três níveis diferentes: a descrição literária de uma ação ritualizada, a possibilidade de que determinados elementos reflitam práticas de uma comunidade e a comprovação histórica de que aquela cerimônia específica tenha efetivamente ocorrido. O primeiro nível é evidente; o segundo é plausível e discutível; o terceiro não pode ser demonstrado a partir do texto.

A hipótese torna-se ainda mais interessante quando observamos a estrutura do hino. Jesus não fala simplesmente diante de uma assembleia passiva. Ele pronuncia uma fórmula e a comunidade responde. O “Amém” não é um detalhe secundário; ele constitui o mecanismo através do qual a comunidade entra na própria ação do Cristo. O texto prossegue:

“Agora, enquanto damos graças, eu digo:

‘Eu seria salvo, e salvaria.’ Amém.

‘Eu seria libertado, e libertaria.’ Amém.

‘Eu seria ferido, e feriria.’ Amém.

‘Eu nasceria, e geraria.’ Amém.

‘Eu comeria, e seria comido.’ Amém.

‘Eu ouviria, e seria ouvido.’ Amém.

‘Eu seria entendido, sendo inteiramente aquele que entende.’ Amém.

‘Eu me lavaria, e lavaria.’ Amém.

A Graça dança.

‘Eu tocaria a flauta; dançai todos!’ Amém.

‘Eu lamentaria; lamentai todos!’ Amém.

‘Uma Oitava canta conosco.’ Amém.

‘O Décimo Segundo número dança acima.’ Amém.

‘E o Todo que pode dançar.’ Amém.

‘Aquele que não dança não sabe o que está acontecendo.’ Amém.

‘Eu fugiria e permaneceria.’ Amém.

‘Eu adornaria e seria adornado.’ Amém.

‘Eu seria unido e uniria.’ Amém.

‘Não tenho casa e tenho casas.’ Amém.

‘Não tenho lugar e tenho lugares.’ Amém.

‘Não tenho templo e tenho templos.’ Amém.

‘Sou uma lâmpada para aquele que me contempla.’ Amém.

‘Sou um espelho para aquele que me percebe.’ Amém.

‘Sou uma porta para aquele que bate.’ Amém.

‘Sou um caminho para aquele que viaja.’ Amém.”

Aqui aparece uma característica que merece atenção especial. A linguagem do hino é construída sobre paradoxos. O Cristo é aquele que salva e é salvo; liberta e é libertado; é ferido e fere; nasce e gera; come e é comido; ouve e é ouvido; não possui templo e, simultaneamente, possui templos. Não se trata simplesmente de poesia religiosa. O paradoxo é o próprio mecanismo pelo qual a identidade de Jesus é apresentada. A tradução desse trecho exige algum cuidado. A edição de James traz, por exemplo, “I would be pierced, and I would pierce” e “I would be understood, being wholly understanding”. Por isso, preferimos aqui “seria ferido, e feriria” e “seria entendido, sendo inteiramente aquele que entende”, evitando transformar understanding diretamente em “compreensão” ou “compreendido” e, assim, introduzir uma interpretação epistemológica que o inglês não exige. Também merece atenção a referência à “Oitava” e ao “Décimo Segundo número”. O texto grego emprega termos que podem ser entendidos em relação à Ogdóade e à Duodécade, vocabulário cosmológico que possui especial importância na literatura valentiniana. A presença desses termos não autoriza, por si só, classificar o Hino simplesmente como “valentiniano”, mas constitui um dado relevante para a discussão de sua proveniência teológica. A própria tradição crítica observa a importância da Ogdóade nesse contexto e registra a dificuldade interpretativa da referência ao número doze.

O paradoxo cristológico torna-se ainda mais profundo quando o hino passa da linguagem da ação para a linguagem da identidade. Aquele que está prestes a sofrer não pode ser reduzido ao sofrimento que será observado pelos homens. O Cristo apresentado no hino é simultaneamente sujeito e objeto da ação, aquele que experimenta a realidade humana e aquele que a transforma. É nesse ponto que os Atos de João se afastam radicalmente da narrativa sinótica e entram em uma cristologia muito mais especulativa. A pesquisa moderna tem discutido se devemos classificá-la simplesmente como “gnóstica”, “docética” ou como uma forma heterodoxa de cristianismo joanino. A cautela é necessária: a categoria “gnosticismo” foi construída retrospectivamente e não deve ser aplicada automaticamente a todo texto que apresente uma cristologia dualista ou uma concepção peculiar da corporeidade. Mais prudente é reconhecer que os Atos de João apresentam uma cristologia na qual a relação entre o Jesus visível, o sofrimento corporal e a identidade divina é profundamente problematizada. Junod e Kaestli são particularmente importantes nesse ponto porque relacionam a dança e o hino à revelação da paixão que prossegue nos capítulos 97–102, e o capítulo 101 retoma explicitamente a dança para afirmar que o sofrimento revelado por Cristo deve ser compreendido como “mistério”. A questão, portanto, não é apenas saber se o Hino contém elementos que posteriormente reconheceríamos como gnósticos, mas perceber como o texto constrói uma oposição entre aquilo que parece acontecer com Jesus e aquilo que o próprio Cristo afirma ser a realidade de sua paixão. Taras Khomych coloca diretamente Atos de João 94–96 em diálogo com Inácio de Antioquia, Ephesians 19, tratando ambas as cenas de dança como expressões de determinadas posições cristológicas. O estudo pode ser conferido no arquivo institucional da Hope University.

E é justamente nesse ponto que a dança deixa de ser um elemento pitoresco para adquirir importância teológica. Jesus diz aos discípulos:

“Agora, se respondeis à minha dança, vede-vos em mim, que falo; e, quando tiverdes visto o que faço, guardai silêncio sobre meus mistérios. Tu que danças, percebe o que faço; pois tua é esta paixão da humanidade que estou prestes a sofrer. Pois de modo algum poderias compreender aquilo que sofres se eu não tivesse sido enviado a ti como a Palavra pelo Pai. Quando viste o que sofro, viste-me sofrendo; e, vendo isso, não permaneceste firme, mas foste inteiramente movido.

Movido a tornar-te sábio, tens em mim um apoio. Repousa em mim! Quem sou eu? Não o saberás quando eu partir. O que agora sou visto ser, isso não sou. Verás quando vieres. Se tivesses sabido como sofrer, terias tido o poder de não sofrer. Aprende a sofrer, e serás capaz de não sofrer. Aquilo que não conheces, eu te ensinarei.”

Aqui a tradução também merece atenção. O texto de James utiliza expressões como “respond to my dancing”, “see thyself in me”, “perceive what I do” e, na passagem sobre o sofrimento, “Learn thou to suffer, and thou shalt be able not to suffer”. Por isso, a formulação “Aprende a sofrer, e serás capaz de não sofrer” é preferível a uma tradução mais interpretativa como “Conhece o sofrimento, e terás o poder de não sofrer”. A primeira preserva a dimensão pedagógica explícita do verbo learn. Mais importante, porém, é observar o encadeamento entre sofrimento, conhecimento e identidade. O discípulo vê Cristo sofrendo, mas é justamente nesse momento que recebe a advertência de que aquilo que agora vê não esgota aquilo que Cristo é: “O que agora sou visto ser, isso não sou”. O sofrimento é, assim, simultaneamente real enquanto experiência humana e insuficiente enquanto definição da identidade do Cristo. A tensão não deve ser resolvida rapidamente por meio da simples oposição entre “corpo verdadeiro” e “corpo aparente”; o próprio texto constrói um paradoxo no qual Cristo sofre, revela o sofrimento e, ao mesmo tempo, afirma uma realidade que ultrapassa aquilo que os observadores conseguem apreender.

É justamente por isso que podemos afirmar, em sentido interpretativo, que dançar é compreender. A experiência corporal não é simplesmente consequência do conhecimento; ela é um dos caminhos pelos quais o conhecimento é produzido. O discípulo não recebe uma doutrina abstrata e posteriormente a transforma em comportamento corporal. Ele participa da dança e, através dessa participação, é introduzido no “mistério”. Karin Schlapbach, ao estudar a dança no mundo greco-romano e particularmente sua utilização nos Atos de João, chama atenção justamente para aspectos epistemológicos e experienciais da dança. Seu estudo dedica uma seção específica à dança nos Atos de João e discute a dança como experiência e forma de conhecimento. A obra pode ser consultada na Oxford Academic, inclusive no capítulo dedicado aos aspectos emocionais e epistêmicos da dança.

A partir daí, podemos compreender melhor por que Jesus ocupa o centro do círculo. Não é apenas uma disposição espacial. O Cristo é simultaneamente o centro da comunidade e aquilo em torno do qual a comunidade se movimenta. Os discípulos não estão simplesmente olhando para Jesus; eles estão participando dele. Quando Jesus diz “vede-vos em mim”, a linguagem do hino estabelece uma espécie de espelhamento entre Cristo e aqueles que dançam. O discípulo deve ver-se naquele que está no centro. O círculo, nesse sentido, funciona como uma representação corporal da própria cristologia do texto: o Cristo permanece no centro enquanto a comunidade se movimenta ao seu redor; entretanto, o próprio movimento dos discípulos constitui a maneira pela qual eles entram no mistério do Cristo. É possível compreender aqui por que a dança foi tão importante para os estudiosos do texto. Ela não constitui uma adição superficial à teologia; ela é a teologia convertida em gesto.

As tradições judaicas de culto celestial oferecem, nesse ponto, um horizonte comparativo particularmente fecundo. Não se pode afirmar, evidentemente, que os autores dos Atos de João tenham simplesmente copiado práticas de Qumran. Uma afirmação dessa natureza ultrapassaria completamente aquilo que as fontes permitem demonstrar. Mas existe um dado comparativo extremamente interessante. Entre os manuscritos do Mar Morto encontramos os chamados Cânticos do Sacrifício do Sábado (Songs of the Sabbath Sacrifice), uma coleção litúrgica composta por treze cânticos que descrevem a liturgia celeste, os sacerdotes angélicos, o templo celestial e a adoração realizada no mundo superior. A comunidade terrestre é imaginada em relação com uma ordem litúrgica transcendente. A edição crítica de Carol Newsom reúne os textos de 4Q400–407, o material de Masada e 11QShirShabb, além de dedicar seções específicas à angelologia, ao templo celestial e ao contexto de Qumran. A documentação dos manuscritos mostra que os Songs of the Sabbath Sacrifice foram preservados em exemplares provenientes de Qumran e de Masada, pertencentes ao horizonte do período hasmoneu e herodiano.

Os manuscritos encontrados em Qumran e também um exemplar proveniente de Masada documentam a existência de tradições de culto celestial, sacerdócio angélico e participação litúrgica na realidade superior já presentes em ambientes judaicos do período do Segundo Templo. O que encontramos nesse universo religioso é uma concepção na qual o culto terrestre pode ser imaginado em relação com uma realidade celestial, de modo que a comunidade humana participa, através do louvor e da liturgia, da adoração realizada pelos seres celestes. Essa aproximação precisa ser feita com extrema cautela. Qumran não é a fonte da dança dos Atos de João**.** Não possuímos qualquer cadeia documental que nos permita estabelecer essa transmissão. O que podemos afirmar é algo mais amplo: tanto os Cânticos do Sacrifício do Sábado quanto os Atos de João pertencem a universos religiosos nos quais a fronteira entre culto terrestre e realidade celeste podia ser imaginada como permeável. Os primeiros oferecem, entretanto, uma testemunha cronologicamente muito mais próxima do ambiente judaico do Segundo Templo; os segundos pertencem a um contexto cristão posterior e devem ser interpretados em sua própria configuração teológica.

Em Qumran, a comunidade litúrgica contempla e participa do culto dos anjos; nos Atos de João, a Oitava canta, o Décimo Segundo número dança acima e o Todo pode dançar. O vocabulário cosmológico é diferente, a teologia é diferente e a distância cronológica é real; mas existe uma questão estrutural semelhante: o culto não se limita ao espaço físico ocupado pela comunidade. A ação litúrgica terrestre é imaginada como inserida em uma ordem cósmica superior. Essa comparação é mais fecunda justamente quando abandonamos a hipótese de uma dependência direta e passamos a investigar um repertório religioso mais amplo, no qual música, culto, corpo, comunidade e mundo celestial podiam ser pensados conjuntamente. No caso dos Atos de João, contudo, a linguagem da Ogdóade e da Duodécade acrescenta uma dimensão cosmológica própria, que não deve ser simplesmente assimilada às representações celestes de Qumran.

A tradição da Merkabah, a visão do carro ou trono divino, também pode ser colocada em nosso horizonte comparativo, desde que não projetemos retrospectivamente sobre o século II sistemas místicos judaicos plenamente desenvolvidos em períodos posteriores. A literatura da Merkabah e dos Hekhalot pertence a processos históricos complexos, e não podemos simplesmente afirmar que a dança dos Atos de João seja uma prática de “mística judaica” transplantada para o cristianismo. Além disso, a comparação cronológica é desigual: os Cânticos do Sacrifício do Sábado constituem testemunho material do período do Segundo Templo, enquanto os corpora hekhalóticos preservados pertencem a processos de formação posteriores. O que podemos perceber, de maneira mais ampla, é a existência de um problema religioso semelhante: como o ser humano pode participar de uma realidade que ultrapassa o mundo ordinário? No judaísmo apocalíptico, em determinadas tradições litúrgicas judaicas e, posteriormente, na literatura mística, o acesso ao mundo celestial podia ser representado por visões, louvores, cânticos, ascensões e formas de participação na realidade angelical. Nos Atos de João, essa possibilidade é radicalmente cristianizada: o próprio Cristo torna-se o centro da ação e o corpo dos discípulos participa de sua revelação.

Outro elemento que merece ser reconsiderado é a relação entre o hino e a Eucaristia. O texto dos Atos de João não deve ser lido como se simplesmente reproduzisse a Última Ceia dos Evangelhos. A narrativa anterior aos capítulos 94–96 contém, de fato, elementos relacionados à partilha do pão e à linguagem eucarística, mas a sequência ritual assume uma forma bastante diferente daquela encontrada nos relatos sinóticos. Em Atos de João 85–86, por exemplo, João ora diante do túmulo de Fortunato e posteriormente “faz todos os irmãos participarem da Eucaristia do Senhor”. Em 93, Jesus aparece partilhando o pão com os discípulos; em 109–110, João oferece uma oração sobre o pão, parte-o e o distribui aos irmãos. Esses trechos mostram que a linguagem eucarística está efetivamente presente na obra, mas não permitem identificar o episódio de 94–96 simplesmente como uma celebração eucarística. A própria sequência textual torna essa distinção importante.

Isso abre uma possibilidade particularmente interessante: não estaríamos diante simplesmente de uma dança acrescentada à Eucaristia, mas diante de uma comunidade que concebe o encontro com Cristo através de uma combinação ritual própria, na qual o pão, o canto, a resposta coletiva, o movimento corporal e a revelação cristológica se encontram articulados? Não devemos transformar essa hipótese em certeza histórica. Os Atos de João são literatura narrativa e teológica, e não um manual litúrgico. Mas a hipótese merece ser considerada porque o texto não descreve a dança como um espetáculo ao qual os discípulos assistem. Eles participam. Formam o círculo, seguram as mãos, respondem “Amém”, dançam e são convidados a perceber aquilo que fazem. É precisamente essa participação corporal que torna possível falar em uma dimensão ritual.

Um ritual não precisa ser descrito por um autor como “liturgia” para desempenhar uma função litúrgica. O próprio caráter responsorial da cena, a repetição do “Amém”, a estrutura circular, a centralidade de Jesus e a dimensão comunitária da ação apontam nessa direção. Ao mesmo tempo, é necessário distinguir os níveis que não devem ser confundidos: a descrição literária de uma ação ritualizada; a possibilidade de que determinados elementos reflitam práticas de uma comunidade; e a comprovação histórica de que aquela cerimônia específica tenha efetivamente ocorrido. O primeiro nível é evidente; o segundo é plausível e discutível; o terceiro não pode ser demonstrado a partir do texto. Essa distinção torna-se ainda mais importante quando consideramos a discussão textual e teológica dos capítulos 94–102: a existência de uma tradição ritualizada não significa que possamos reconstruir diretamente uma cerimônia histórica a partir da narrativa que a transmite.

Aqui retornamos à observação inicial sobre Mateus. Não é necessário supor uma continuidade histórica simples entre a frase “depois de terem cantado o hino” e a dança descrita nos Atos de João. Mateus apresenta um canto associado à refeição pascal; os Atos de João apresentam um ritual cristológico que incorpora canto, dança e revelação. A diferença entre ambos é precisamente aquilo que nos interessa. O que os cristãos posteriores fizeram com a memória de Jesus? Como uma breve notícia sobre um canto podia ser integrada, em outra tradição cristã, a uma experiência religiosa completamente desenvolvida?

A resposta talvez esteja na própria transformação da experiência de Jesus em experiência comunitária. O Jesus dos Atos de João não apenas ensina; ele dança. Não apenas fala sobre o sofrimento; ele incorpora o paradoxo do sofrimento. Não apenas promete salvação; ele convida os discípulos a participarem corporalmente daquilo que está prestes a acontecer. O hino afirma: “Eu seria salvo, e salvaria”; “eu seria ferido, e feriria”; “eu nasceria, e geraria”. O paradoxo cristológico é, portanto, acompanhado pelo paradoxo corporal da dança: o discípulo movimenta-se ao redor de Cristo e, simultaneamente, é chamado a ver-se em Cristo. A comunidade aprende através do movimento aquilo que o texto considera impossível de apreender simplesmente por meio da observação da paixão. A dança não é, portanto, apenas uma prática corporal acrescentada a uma doutrina já formulada; ela participa da própria construção daquilo que o texto entende como conhecimento de Cristo.

É justamente por isso que considero particularmente sugestiva a afirmação do próprio texto: “Aquele que não dança não sabe o que está acontecendo.” Aqui estamos diante de uma formulação efetivamente presente no texto de Atos de João 95: “He that danceth not, knoweth not what is being done.” Não se trata, portanto, de uma paráfrase moderna nossa. Talvez essa seja uma das frases mais importantes de toda a passagem. O autor está dizendo que existe uma diferença entre ver e participar. Quem apenas observa não compreende. Quem entra na dança participa do mistério. A afirmação é profundamente coerente com uma religião na qual conhecimento e transformação não estão separados. E a frase ganha ainda maior densidade quando colocada ao lado da afirmação posterior de que o discípulo deve “ver-se” em Cristo e aprender a sofrer para tornar-se capaz de não sofrer. O conhecimento não é apenas aquisição intelectual; é uma transformação do sujeito por meio da participação.




O conhecimento de Cristo não é simplesmente informação teológica; é uma experiência que deve modificar o próprio sujeito. E aqui chegamos ao ponto que mais interessa nesta investigação. É perfeitamente possível que a nossa estranheza moderna diante da cena — Jesus dançando com os discípulos na véspera de sua execução — seja resultado de uma concepção demasiadamente intelectualizada da religião cristã antiga. Nós estamos acostumados a imaginar os primeiros cristãos sentados, ouvindo sermões, lendo Escrituras e discutindo doutrinas. Os Atos de João apresentam outra possibilidade: uma comunidade que canta, responde, segura as mãos, movimenta o corpo e transforma a própria ação ritual em veículo de conhecimento religioso. Não precisamos afirmar que todas as comunidades cristãs primitivas praticassem esse tipo de ritual. Não precisamos sequer afirmar que essa dança específica tenha sido historicamente realizada em Éfeso ou em qualquer outro lugar.

Basta reconhecer que o autor considerou concebível — e talvez reconhecível para seus leitores — uma experiência cristã na qual o corpo pudesse participar diretamente da revelação. Isso permite compreender melhor também a relação entre os Atos de João e aquilo que posteriormente seria classificado como “gnosticismo”. A questão não é simplesmente determinar se o autor era ou não “gnóstico”. A questão mais fecunda é perceber que determinados cristãos antigos estavam experimentando formas de conhecimento religioso nas quais revelação, corpo, ritual e cosmologia se encontravam profundamente articulados. O hino não é apenas uma profissão de fé; é uma ação ritual por meio da qual o conhecimento é experimentado. Ao mesmo tempo, a presença de elementos cosmológicos como a Ogdóade e a Duodécade mostra que essa experiência corporal está inserida em uma elaboração teológica específica, cuja relação com tradições posteriormente classificadas como valentinianas precisa ser investigada sem que a classificação seja transformada prematuramente em conclusão.

O discípulo não aprende apenas ouvindo uma explicação; ele aprende dançando. E a dança não é uma simples expressão de alegria: ela é a dramatização da passagem entre o mundo visível e a realidade invisível. A comparação com práticas místicas de outras tradições religiosas pode ser preservada, mas precisa ser entendida como comparação fenomenológica e não como hipótese de transmissão histórica. É legítimo perceber que, em diferentes tradições religiosas, o movimento circular, a repetição sonora, a música e a participação coletiva podem constituir meios de transformação da experiência ordinária. O fato de encontrarmos configurações semelhantes em culturas diferentes não prova uma origem comum; demonstra, no máximo, que o corpo humano pode tornar-se um instrumento religioso tão importante quanto a palavra escrita. No caso específico dos Atos de João, porém, não devemos perder de vista que a dança está integrada a uma cristologia particular: o corpo que dança é também o corpo cuja paixão é apresentada como mistério, e o movimento dos discípulos é também uma forma de aprender aquilo que o texto considera impossível de compreender apenas pela aparência.

Talvez seja justamente essa a maior riqueza escondida nessa pequena passagem dos Atos de João. O texto permite olhar para o cristianismo antigo não apenas como um universo de ideias, doutrinas e escritos, mas como uma religião praticada por corpos. Os cristãos cantavam. Repetiam fórmulas. Respondiam “Amém”. Partilhavam alimentos. Reuniam-se em círculos. Movimentavam-se. Choravam. Celebravam. E, em determinados ambientes, talvez dançassem. O cristianismo antigo não era apenas uma religião que falava sobre o corpo; era também uma religião que utilizava o corpo para produzir experiência religiosa. O Hino da Dança radicaliza essa dimensão porque transforma o próprio movimento em instrumento hermenêutico: o discípulo não apenas participa de uma cerimônia; ao participar, é chamado a compreender o mistério que está sendo representado.

Assim, quando Mateus nos diz simplesmente que, terminada a ceia, Jesus e seus discípulos “cantaram o hino” e saíram para o monte das Oliveiras, devemos resistir à tentação de preencher automaticamente esse silêncio com a narrativa dos Atos de João. Não sabemos se Jesus dançou. Não sabemos se os discípulos formaram um círculo. Não sabemos se aquela noite terminou com uma experiência semelhante à descrita pelo apócrifo. Mas sabemos que, algumas gerações depois, determinada tradição cristã antiga imaginou a paixão dessa maneira. E isso, por si só, é historicamente extraordinário.

Eles não imaginaram Jesus simplesmente caminhando para a morte. Imaginaram-no dançando diante dela.

E talvez seja precisamente aí que esteja o segredo dessa passagem. Antes da cruz, existe a dança. Antes da morte, existe o círculo. Antes do silêncio do sepulcro, existe a resposta coletiva: “Amém”. O Cristo que será crucificado encontra-se no centro, enquanto os discípulos giram ao seu redor. E o próprio texto parece dizer que somente aquele que entra no movimento consegue compreender aquilo que está acontecendo.

A dança, portanto, não é apenas uma preparação para a paixão.

Ela é uma interpretação da paixão.


REFERÊNCIAS

ATOS DE JOÃO. Texto inglês da edição de M. R. James, incluindo os capítulos 85–115 e, especificamente, os §§ 94–96. A passagem do Hino pode ser conferida diretamente na edição digital de The Acts of John.

BOWE, Barbara E. “Dancing into the Divine: The Hymn of the Dance in the Acts of John.” Journal of Early Christian Studies, v. 7, n. 1, p. 83–104, 1999. A referência bibliográfica é registrada pela NASSCAL — Acts of John.

DEWEY, Arthur J. “The Hymn in the Acts of John: Dance as Hermeneutic.” Semeia, n. 38, p. 67–80, 1986. A referência bibliográfica também é registrada pela NASSCAL.

ELLIOTT, J. K. The Apocryphal New Testament: A Collection of Apocryphal Christian Literature in an English Translation. Oxford: Clarendon Press, 1993.

JUNOD, Éric; KAESTLI, Jean-Daniel. Acta Iohannis. Turnhout: Brepols, 1983. 2 v. (Corpus Christianorum, Series Apocryphorum, 1–2). A obra constitui a edição crítica de referência dos Atos de João, com texto, aparato, comentários e índices.

KHOMYCH, Taras. “Conflicting Choreographies? Dance as Doctrinal Expression in Ignatius’ Ephesians 19 and Acts of John 94–96.” In: Docetism in the Early Church: The Quest for an Elusive Phenomenon. Tübingen: Mohr Siebeck, 2018. p. 217–229. O capítulo pode ser conferido no arquivo institucional da Hope University.

NEWSOM, Carol A. Songs of the Sabbath Sacrifice: A Critical Edition. Atlanta: Scholars Press, 1985. A edição crítica e sua documentação podem ser consultadas na Brill.

SCHLAPBACH, Karin. The Anatomy of Dance Discourse: Literary and Philosophical Approaches to Dance in the Later Graeco-Roman World. Oxford: Oxford University Press, 2018. A obra e o capítulo dedicado à dança nos Atos de João estão disponíveis na Oxford Academic.

SCHNEIDER, Paul G. The Mystery of the Acts of John: An Interpretation of the Hymn and the Dance in Light of the Acts' Theology. San Francisco: Mellen Research University Press, 1991. Registro bibliográfico disponível no WorldCat.

TREBILCO, Paul. “The Acts of John and Christian Communities in Ephesus in the Mid-Second Century AD.” In: BREYTENBACH, C.; OGEREAU, J. M. (eds.). Authority and Identity in Emerging Christianities: Communities in Asia Minor and Greece. Leiden: Brill, 2018. p. 33–61. DOI: 10.1163/9789004367197_003. A referência é confirmada pela University of Otago.

Nota editorial sobre a tradução

As citações dos Atos de João apresentadas no corpo deste artigo constituem tradução própria a partir da versão inglesa de M. R. James, utilizada como base de conferência textual. Essa opção é particularmente importante nos §§ 95–96, nos quais determinadas formulações inglesas permitem mais de uma solução portuguesa. Foram evitadas traduções excessivamente interpretativas quando poderiam antecipar conclusões do próprio argumento. Nos casos em que a terminologia grega possui implicações teológicas específicas — como as referências à Ogdóade e à Duodécade — procuramos preservar a tradução adotada no corpo do artigo e explicitar seu peso contextual em vez de incorporá-lo silenciosamente à tradução. A edição crítica de Junod e Kaestli permanece referência fundamental para o estabelecimento e a interpretação do texto. O texto inglês integral pode ser conferido pelo leitor diretamente na fonte digital indicada acima.







quarta-feira, 26 de novembro de 2008



No texto anterior, terminamos afirmando que Jesus provavelmente não nasceu em Belém da Judeia e que a associação entre o nascimento de Jesus e aquela cidade parece estar relacionada, em boa medida, a uma elaboração teológica das primeiras comunidades cristãs. A questão, entretanto, não pode ser encerrada nesse ponto. Se retirarmos, ainda que provisoriamente, Belém da Judeia da equação, surge imediatamente uma questão de natureza propriamente histórica: onde, então, poderia ter nascido Jesus? A resposta mais intuitiva seria Nazaré, não apenas porque Jesus aparece reiteradamente nas tradições cristãs como “Jesus de Nazaré”, mas porque a arqueologia contemporânea tornou insustentável a antiga hipótese de que Nazaré simplesmente não existia no período em que Jesus viveu. Durante muito tempo, a escassez de referências literárias e de vestígios arqueológicos conhecidos alimentou dúvidas acerca da existência da localidade no início do século I. A investigação arqueológica mais recente, entretanto, modificou substancialmente esse quadro. O trabalho desenvolvido por Ken Dark e pelo Nazareth Archaeological Project, entre outras pesquisas, permite reconhecer atualmente Nazaré como uma comunidade rural judaica existente no período romano inicial. Dark observa que, embora as fontes escritas sobre Nazaré sejam extraordinariamente escassas, a arqueologia fornece informações consideravelmente mais amplas sobre sua configuração física, sua economia e sua vida cotidiana, chegando à conclusão de que as evidências confirmam a existência de uma comunidade agrícola no século I.

Isso modifica substancialmente o problema. Nazaré não precisa mais ser considerada uma espécie de exceção arqueológica produzida pela narrativa cristã. Ela se apresenta diante de nós como uma pequena comunidade rural da Galileia romana. E talvez seja precisamente essa caracterização que torne a questão historicamente relevante. A arqueologia não encontrou em Nazaré uma grande cidade, um centro administrativo ou um importante núcleo urbano comparável a Jerusalém. O que emerge é uma comunidade constituída por famílias, com estruturas domésticas, instalações agrícolas, silos, cisternas, áreas de cultivo, pedreiras e atividades artesanais. O quadro corresponde muito mais ao universo rural da Galileia do início do período romano do que à representação de uma cidade propriamente dita. Essa constatação é importante porque permite superar uma falsa alternativa: a inexistência de um grande núcleo urbano não implica a inexistência de um assentamento. Nazaré podia ser pequena e pouco relevante para os grandes historiadores da Antiguidade — e, ainda assim, ser precisamente o lugar que os evangelhos identificam como a origem geográfica e o ambiente social associado a Jesus. A investigação arqueológica contemporânea, portanto, não apenas fornece evidências independentes da existência de Nazaré no período pertinente; ela permite também uma reconstrução mais precisa do tipo de comunidade na qual Jesus teria crescido.

Nesse ponto, vale recuperar integralmente a passagem de Crossan, porque ela continua sendo particularmente importante para a nossa discussão:

Entre 1955 e 1960, o erudito franciscano Bellarmino Bagatti fez escavações em Nazaré sob a velha Igreja da Anunciação, já demolida na época, e em outras propriedades franciscanas que se estendiam para o noroeste, em direção à Igreja de São José, que pertencia à mesma ordem. Ele resumiu suas descobertas de forma sucinta: “Em termos cronológicos, temos tumbas de meados da Idade do Bronze [c. 2.000-1500 a.E.C.]; silos com cerâmicas de meados da Idade do Ferro [c. 900-539 a.E.C.]; e depois, sem interrupções, cerâmicas e construções que vão desde o Período Helenístico [c. 332-63 a.E.C.] até os tempos atuais” (BAGATTI, apud CROSSAN, 1994, p. 50). Os vestígios das primeiras ocupações, entretanto, são bastante escassos, enquanto os da ocupação final são abundantes. Portanto, apesar de haver alguns indícios de uma fundação mais antiga, “no século II a.E.C. voltamos a encontrar uma grande quantidade de artefatos, o que indica que a aldeia foi fundada novamente neste período (...). Isso significa que a aldeia tinha menos de duzentos anos no século I E.C.” (MEYERS; STRANGE, apud CROSSAN, 1994, p. 50).


A arqueologia posterior não torna essa passagem obsoleta; ao contrário, permite qualificá-la e refiná-la à luz de evidências posteriores. O trabalho de Ken Dark no sítio das Sisters of Nazareth é particularmente relevante. As investigações identificaram evidências de ocupação doméstica no período romano inicial, posteriormente incorporadas a estruturas cristãs de períodos posteriores. O ponto mais importante, contudo, está justamente na cautela do próprio arqueólogo: não é possível demonstrar que a estrutura identificada seja a casa em que Jesus cresceu. Dark considera impossível, com as evidências atualmente disponíveis, provar ou refutar essa identificação. O que pode ser afirmado com segurança é algo diferente: o sítio contém uma estrutura doméstica do século I e contribui para a reconstrução arqueológica de Nazaré naquele período. A distinção é fundamental. Encontrar uma casa do século I em Nazaré não significa encontrar a casa de Jesus; encontrar evidências de uma comunidade judaica do século I em Nazaré significa, porém, tornar historicamente plausível o ambiente no qual as tradições antigas sobre Jesus o situam.

A questão se torna ainda mais interessante quando deixamos a arqueologia e retornamos às próprias narrativas evangélicas. Se Nazaré era uma comunidade real e se Jesus foi tão fortemente associado a ela que a designação “nazareno” se tornou parte de sua identidade, por que Mateus e Lucas introduzem Belém da Judeia como local de nascimento? A resposta tradicional é conhecida: porque Jesus seria o Messias davídico, e Belém era a cidade de Davi. Mas justamente aqui precisamos distinguir a função teológica da tradição de sua possível memória histórica. Mateus constrói uma narrativa na qual o nascimento em Belém se articula diretamente com a tradição davídica e com a perseguição de Herodes; Lucas, por sua vez, utiliza o recenseamento para deslocar José e Maria de Nazaré para Belém. O problema é que essas narrativas apresentam arquiteturas diferentes e não são facilmente conciliáveis entre si. Ao mesmo tempo, outras tradições neotestamentárias enfatizam a identificação de Jesus com a Galileia e Nazaré sem preservar uma narrativa equivalente sobre seu nascimento em Belém. O historiador precisa, portanto, perguntar não apenas “o que o texto afirma?”, mas também “por que o texto afirma isso?”. Essa distinção é decisiva. A existência de uma narrativa não constitui, por si mesma, demonstração da historicidade do acontecimento narrado.

A discussão acadêmica contemporânea mostra que não estamos diante de uma questão criada por críticos modernos. Steve Mason examinou especificamente a questão do local de nascimento de Jesus e chamou atenção para as tensões entre os relatos de Mateus e Lucas e a tradição mais ampla dos evangelhos. Seu argumento é particularmente útil porque não consiste simplesmente em substituir uma certeza por outra: sua análise conduz a uma posição cautelosa diante da evidência disponível. A discussão publicada pela Bible Review colocou justamente em confronto essa leitura com a defesa da tradição de Belém feita por Jerome Murphy-O’Connor, demonstrando que a questão permanece aberta no âmbito da pesquisa. Mason sustenta uma posição agnóstica diante da questão, enquanto Murphy-O’Connor argumenta em favor da tradição de Belém. John P. Meier, trabalhando em outra vertente da pesquisa do Jesus histórico, considerou que Jesus provavelmente não nasceu em Belém, mas em Nazaré, entendendo a tradição de Belém como um theologoumenon, isto é, uma afirmação teológica apresentada sob a forma de narrativa histórica. Ao mesmo tempo, Meier advertia que não se poderia alcançar certeza absoluta sobre o ponto. Portanto, a hipótese que estamos examinando não constitui simplesmente uma provocação contra a tradição cristã: ela possui antecedentes dentro da própria historiografia crítica do Novo Testamento.

Mas há ainda uma possibilidade que merece ser retomada com maior cuidado: Belém da Galileia. A hipótese é relevante porque nos obriga a abandonar uma falsa dicotomia. Não precisamos necessariamente escolher entre Belém da Judeia e Nazaré como se fossem as únicas possibilidades concebíveis. Existia uma outra Belém, situada na Galileia. E isso é historicamente relevante. A possibilidade de uma Belém galileia não é uma invenção moderna destinada artificialmente a solucionar o problema dos evangelhos. Trata-se de uma localidade real, cuja ocupação em diferentes períodos da Antiguidade é arqueologicamente documentada, inclusive com evidências atribuídas ao período romano inicial. O problema, naturalmente, é outro: existe alguma evidência positiva ligando Jesus especificamente a essa Belém? E aqui a resposta precisa ser muito mais prudente: não temos essa evidência. O máximo que podemos fazer é reconhecer que a existência da localidade torna a hipótese geograficamente possível e, portanto, digna de investigação, sem convertê-la em uma hipótese histórica positivamente demonstrada.

Essa possibilidade adquire interesse especial quando observamos a relação espacial entre Belém da Galileia e Nazaré. Diferentemente de Belém da Judeia, Belém da Galileia está inserida no mesmo universo regional em que encontramos Nazaré. Isso não prova absolutamente nada sobre o nascimento de Jesus, mas modifica os termos da questão histórica. Se, hipoteticamente, uma tradição anterior preservasse apenas a informação de que Jesus nascera em “Belém”, seria necessário investigar quando, como e por que essa tradição passou a ser identificada especificamente com a Belém da Judeia. A própria existência de uma cidade homônima na Galileia impede que tratemos o nome “Belém” como uma referência geográfica absolutamente transparente em qualquer reconstrução hipotética da transmissão da tradição. Mais importante ainda: a tradição cristã não nasceu num vazio geográfico. Ela foi produzida em um ambiente no qual nomes de lugares, tradições messiânicas, genealogias e expectativas escatológicas estavam profundamente entrelaçados. A identificação de Jesus com Davi tornava Belém um lugar extraordinariamente carregado de significado simbólico.

É aqui que a hipótese histórica encontra a história das ideias. Belém não é apenas um lugar; é a cidade de Davi. A tradição que localiza o nascimento de Jesus em Belém produz, portanto, uma operação teológica extremamente eficiente: vincula o nascimento de um camponês galileu à tradição davídica. A geografia passa a funcionar como argumento cristológico. Não se trata simplesmente de dizer onde Jesus nasceu; trata-se de demonstrar quem Jesus é. E essa observação permite compreender por que a narrativa do nascimento pode possuir enorme importância teológica mesmo que sua precisão biográfica seja questionável. O problema deixa de ser simplesmente “os evangelistas erraram o endereço?” e passa a ser: qual afirmação sobre Jesus os evangelistas estavam fazendo através desse endereço?

Nesse sentido, talvez a questão mais interessante não seja decidir prematuramente entre Nazaré e Belém da Galileia. A arqueologia não nos permite fazer isso. O que ela nos permite fazer é estabelecer os limites dentro dos quais uma reconstrução histórica responsável pode operar. Nazaré existia no século I e há evidências arqueológicas de sua ocupação nesse período. A pesquisa de Ken Dark mostra que podemos reconstruir aspectos importantes de sua economia, cultura material e organização doméstica, embora não possamos identificar com segurança nenhuma residência como a casa de Jesus. Belém da Galileia também constitui uma possibilidade geográfica real e apresenta evidências arqueológicas de ocupação antiga, inclusive no período romano inicial, mas a ausência de evidência específica que associe Jesus à localidade impede que transformemos essa possibilidade em conclusão. E Belém da Judeia, embora seja perfeitamente real e esteja fortemente associada à tradição davídica, enfrenta o problema de ser sustentada pelos relatos de Mateus e Lucas, justamente as fontes que possuem maior interesse teológico na construção da genealogia e da identidade messiânica de Jesus.

Portanto, a conclusão desta segunda parte precisa ser mais cuidadosa. Não podemos afirmar historicamente que Jesus nasceu em Nazaré. Tampouco podemos afirmar que nasceu em Belém da Galileia. E a arqueologia, por si mesma, não demonstra que tenha nascido em Belém da Judeia. O que podemos afirmar com segurança muito maior é que Nazaré era uma comunidade real do início do século I e que a associação de Jesus com essa localidade possui uma base histórica particularmente sólida. A questão do nascimento, entretanto, permanece aberta. A tradição de Belém pode preservar uma memória histórica, mas também pode representar uma construção teológica destinada a vincular Jesus à linhagem davídica. A pesquisa crítica contemporânea reconhece precisamente essa dificuldade: parte dela considera Nazaré uma hipótese historicamente mais provável, enquanto outros estudiosos defendem a tradição de Belém ou preferem permanecer agnósticos diante da questão. A própria publicação de Mason e Murphy-O’Connor na Bible Review mostra que a discussão comportava posições substancialmente divergentes.

Talvez, portanto, devamos terminar esta segunda parte não com uma resposta definitiva, mas com uma mudança de perspectiva. Durante séculos, a pergunta pareceu simples: Jesus nasceu em Belém? A investigação histórica mostra que ela é muito mais complexa. Precisamos perguntar quando a tradição de Belém aparece nas fontes que possuímos, quais textos a sustentam, que função desempenha na cristologia dos evangelistas e como ela se relaciona com a tradição, aparentemente mais ampla, que identifica Jesus como galileu e nazareno. Precisamos ainda perguntar se uma eventual tradição anterior poderia ter sido transmitida de forma menos específica e se a existência de uma Belém galileia merece algum papel nessa discussão. Por enquanto, a arqueologia nos oferece uma certeza modesta, mas extraordinariamente importante: a arqueologia fornece evidências independentes de que Nazaré era uma comunidade judaica real no período em que Jesus viveu. O restante pertence ao terreno mais difícil — e mais fascinante — em que arqueologia, crítica textual, história social e construção da memória religiosa se encontram. É justamente aí que devemos prosseguir.


Referências

CROSSAN, John Dominic. O Jesus histórico: a vida de um camponês judeu do Mediterrâneo. Rio de Janeiro: Imago, 1994.

DARK, Ken. Archaeology of Jesus' Nazareth. Oxford: Oxford University Press, 2023.

MASON, Steve. O Little Town of... Nazareth? Where Was Jesus Born? Bible Review, v. 16, n. 1, p. 32–39, 51–53, 2000.

MEIER, John P. A Marginal Jew: Rethinking the Historical Jesus. New York: Doubleday, 1991.

MURPHY-O'CONNOR, Jerome. Bethlehem... Of Course. Bible Review, v. 16, n. 1, 2000. 




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