Estudos sobre Religião - Biblioblog

sábado, 19 de setembro de 2026

 


A TETRALOGIA DA GUERRA SANTA

Guerra, Memória, Reino e Logos

Existe uma questão que atravessa os Evangelhos e que diz respeito à própria relação entre poder, violência e significado: o que acontece quando aquele que possui força suficiente para dominar os corpos procura também determinar o sentido daquilo que acontece a esses corpos? A violência pode capturar um homem, submetê-lo, feri-lo e matá-lo; pode ocupar uma cidade, destruir uma instituição e interromper uma ordem política. Pode, portanto, produzir sobre a realidade uma transformação suficientemente visível para que a vitória pareça falar por si mesma. Quem vence parece ter não apenas submetido aquele que foi derrotado, mas também adquirido a autoridade para dizer o que sua derrota significou. O domínio sobre o corpo tende, assim, a apresentar-se como domínio sobre o próprio acontecimento, como se a força que produz aquilo que aconteceu pudesse também determinar a maneira pela qual esse acontecimento deverá ser compreendido.

Os Evangelhos, contudo, conservam uma tensão que impede que a violência tenha necessariamente a última palavra. O corpo submetido continua pertencendo a uma história que não termina com sua sujeição; aquilo que foi destruído permanece na memória daqueles que sobreviveram à destruição; a queda de uma ordem não determina, por si mesma, aquilo que deverá ocupar seu lugar; e a morte daquele que sofreu a violência não concede automaticamente ao vencedor a autoridade para definir quem foi aquele que morreu ou o que sua morte significou. O acontecimento produzido pela força permanece, desse modo, aberto à interpretação. O poder pode exercer domínio sobre a carne, mas desse domínio não decorre necessariamente uma autoridade equivalente sobre o significado daquilo que aconteceu à carne.

É a partir dessa questão que se desenvolvem os quatro textos da Tetralogia da Guerra Santa. Não se trata de reconstruir uma história linear da guerra nos Evangelhos, nem de aplicar aos textos cristãos uma teoria geral da violência ou do poder. Trata-se de acompanhar uma questão à medida que ela se torna mais complexa: aquilo que começa como domínio sobre o corpo conduz ao problema do acontecimento; o acontecimento, uma vez passado, permanece como memória; a memória da destruição coloca diante da comunidade a questão da restauração e da ordem; e a disputa pela ordem conduz, finalmente, ao problema da identidade daquele sobre quem a violência foi exercida. A questão que começa na carne termina, assim, diante de um problema que a própria força não pode resolver: possuir o corpo significa possuir também o sentido daquilo que esse corpo representa?


I — O MOVIMENTO DA GUERRA

Campos de batalha, posse, violência e urgência escatológica nos Evangelhos

73 laudas


Nos Evangelhos, a guerra pode ser percebida antes de tudo na experiência concreta dos corpos. Homens e mulheres vivem sob relações de domínio, dependência e sujeição; territórios são disputados; autoridades procuram conservar sua posição; doenças, expulsões, conflitos e mortes atingem os corpos de maneira concreta; e a expectativa de uma transformação radical da ordem existente confere a muitos desses acontecimentos uma dimensão que ultrapassa o episódio particular. A questão de O MOVIMENTO DA GUERRA não consiste, portanto, apenas em reconhecer a presença da violência no mundo dos Evangelhos. Importa compreender aquilo que acontece quando a violência deixa de ser apenas um recurso de coerção e passa a constituir uma forma de autoridade. Aquele que possui o corpo parece possuir também o direito de determinar seu destino; aquele que derrota parece possuir o direito de definir a derrota; e aquele que consegue impor sua força pode apresentar o próprio êxito como confirmação da legitimidade de seu domínio.

A violência, porém, não se encerra no momento em que o corpo é submetido. O corpo sobre o qual a força se exerce torna-se também o lugar em que o próprio poder pode ser reconhecido e interrogado. Aquilo que acontece ao corpo transforma-se em acontecimento, e o acontecimento pode adquirir um significado que não coincide necessariamente com a intenção daquele que o produziu. A captura, a expulsão, a cura, a libertação, a derrota ou a morte não são apenas fatos isolados: tornam-se acontecimentos que precisam ser interpretados. Por isso, a guerra não diz respeito somente à capacidade de um poder para dominar a carne, mas também à autoridade que esse poder pretende exercer sobre aquilo que a carne significa. O primeiro texto da Tetralogia parte dessa relação entre domínio e significado para examinar como a violência procura transformar a posse do corpo em autoridade sobre o acontecimento e como, nos Evangelhos, essa pretensão encontra seus próprios limites.


II — QUANDO O MUNDO DESABA

Guerra, memória e restauração nos Evangelhos

74 laudas


A destruição não termina necessariamente quando aquilo que foi destruído deixa de existir. Uma cidade pode cair, uma instituição pode desaparecer e uma ordem política pode ser interrompida, mas a realidade anterior à catástrofe continua presente na memória daqueles que precisam viver depois dela. O que desapareceu permanece como lembrança, perda e ausência; aquilo que foi destruído precisa encontrar um lugar na narrativa daqueles que sobreviveram. A guerra pode, por isso, continuar depois da batalha, não mais como confronto entre forças que disputam um território, mas como problema enfrentado por uma comunidade que precisa compreender aquilo que lhe aconteceu e estabelecer uma relação possível entre o mundo que perdeu e aquele que ainda poderá existir.

MEMÓRIA parte dessa situação. Quando o acontecimento já passou, ele não pode ser modificado, mas tampouco pode ser simplesmente abandonado. A derrota precisa ser compreendida, a destruição precisa ser situada dentro de uma história e a perda precisa receber uma interpretação capaz de relacionar aquilo que aconteceu ao presente e ao futuro. A memória não consiste apenas em conservar aquilo que foi vivido. Ela estabelece uma relação entre o acontecimento e aqueles que continuam a viver depois dele, permitindo que uma comunidade reconheça na própria catástrofe questões de julgamento, retribuição, vindicação e restauração. O passado permanece, portanto, não porque possa ser recuperado, mas porque continua a interferir na maneira pela qual o presente é compreendido e o futuro é imaginado.

A guerra encontra, nesse ponto, outra forma de continuidade. Já não se trata somente do corpo que foi submetido à violência, mas da comunidade que precisa interpretar o acontecimento e compreender o que ele representa para sua própria história. A destruição de uma ordem não elimina a necessidade de explicar sua queda; ao contrário, torna essa necessidade ainda mais urgente. A memória transforma o acontecimento em uma questão que permanece aberta, e a maneira pela qual uma comunidade interpreta sua derrota pode determinar também a maneira pela qual compreende sua continuidade e as possibilidades de restauração. O problema do poder passa, assim, do domínio exercido sobre o corpo para a autoridade de interpretar aquilo que aconteceu.



III — A PREGAÇÃO DO REINO

Inversão, abertura e contestação da ordem nos Evangelhos

93 laudas


A interpretação da catástrofe conduz a uma questão que a própria violência não pode responder: que ordem poderá existir depois da ruptura? A destruição pode eliminar uma instituição, derrubar uma autoridade ou interromper uma forma de organização política, mas não determina, por si mesma, aquilo que deverá ocupar o lugar daquilo que desapareceu. A questão da ordem permanece aberta, e é nesse contexto que a pregação do Reino de Deus adquire sua importância. Nos Evangelhos, o Reino não aparece apenas como promessa destinada a consolar aqueles que vivem em meio à violência, à desigualdade e à exclusão. Sua pregação interfere nos próprios critérios pelos quais a ordem existente reconhece autoridade, riqueza, grandeza, pertencimento e honra.

Os primeiros podem ser colocados no último lugar, enquanto aqueles que ocupavam as margens podem encontrar um lugar que a ordem estabelecida não lhes concedia; aquele que procura a grandeza é chamado ao serviço; a riqueza, a posição e o reconhecimento deixam de constituir sinais evidentes de valor; e aquilo que parecia natural dentro da ordem existente passa a ser apresentado como algo que pode ser julgado, invertido e transformado. A questão do Reino não consiste, portanto, simplesmente em saber quem ocupará o lugar deixado por uma autoridade anterior. Trata-se de compreender segundo quais critérios uma ordem poderá ser reconhecida como legítima e quais formas de autoridade, pertencimento e relação entre os homens poderão existir dentro dela.

Nesse ponto, a questão do poder adquire uma dimensão que não estava presente da mesma maneira nos dois textos anteriores. O problema já não é somente quem domina o corpo ou como uma comunidade interpreta a catástrofe, mas quem possui autoridade para dizer que tipo de mundo deve existir depois dela. A pregação do Reino introduz uma disputa sobre a própria ordem da realidade porque coloca em questão os critérios pelos quais uma sociedade estabelece quem pode mandar, quem deve obedecer, quem pertence e quem permanece à margem. A soberania aparece, assim, não apenas como posse do poder, mas como autoridade para determinar a forma legítima da ordem. O que está em jogo não é simplesmente a substituição de um poder por outro, mas a possibilidade de que os próprios critérios pelos quais o poder é reconhecido sejam submetidos a julgamento.


IV — O LOGOS E O IMPÉRIO

Da soberania messiânica à blindagem cristológica no Evangelho de João

98 laudas


A questão alcança uma forma particularmente radical no Evangelho de João. Se o poder pode dominar o corpo, produzir sobre ele um acontecimento, participar da destruição de uma ordem e disputar posteriormente a memória desse acontecimento, resta perguntar se poderá também determinar definitivamente quem é aquele que sofreu a violência e o que sua existência significa. João apresenta Jesus, desde o princípio, em uma relação que antecede qualquer poder histórico: “No princípio era o Logos”, e “o Logos se fez carne”. A afirmação não significa que a carne esteja protegida da violência. Jesus pode ser preso, julgado, ferido e morto; o corpo permanece submetido às condições concretas da história, e a morte não é transformada em aparência. O problema encontra-se em outro lugar: na relação entre essa vulnerabilidade e a identidade daquele que a sofre.

A noção de blindagem cristológica procura nomear essa relação sem transformar a vulnerabilidade de Jesus em invulnerabilidade. Não se trata de afirmar que o corpo esteja protegido da violência, mas de reconhecer que a violência exercida sobre o corpo não possui, por isso mesmo, autoridade suficiente para determinar sua identidade. O império pode produzir o acontecimento da prisão, do julgamento e da execução; pode exercer sobre o corpo uma forma efetiva de domínio; pode tornar a morte uma realidade histórica. Nada disso significa, contudo, que aquele que possui o poder de produzir o acontecimento possua necessariamente o direito de determinar seu significado. A violência pode decidir o que acontece ao corpo sem decidir, por essa razão, aquilo que o corpo significa.

A questão que atravessa os textos anteriores encontra aqui sua formulação mais radical. Se o poder pode capturar a carne, produzir a derrota, destruir uma ordem e disputar a memória daquilo que aconteceu, até onde se estende sua autoridade? O problema já não está somente na capacidade de dominar, mas na pretensão de transformar o domínio em interpretação definitiva. O Logos conduz a investigação até esse ponto em que a soberania política encontra uma identidade que permanece submetida à violência e à morte, mas que não pode ser inteiramente definida por aquilo que a violência fez com seu corpo. O poder produz o acontecimento; a questão é saber se, ao produzi-lo, adquire também autoridade sobre seu significado.



DA CARNE AO LOGOS

Os quatro textos podem ser lidos como partes de uma mesma investigação porque cada um deles retoma uma questão que o anterior havia deixado aberta. A guerra começa na carne, onde o poder manifesta de maneira mais imediata sua capacidade de domínio, mas aquilo que acontece ao corpo não permanece limitado à violência que o atingiu. O acontecimento produz consequências que ultrapassam o instante de sua realização e, quando a violência passa, aquilo que aconteceu permanece como memória. A memória da destruição coloca diante de uma comunidade o problema de sua própria continuidade e da possibilidade de restauração, e esse problema conduz à questão da ordem que poderá existir depois da ruptura. Quando a ordem é colocada em discussão, a pergunta passa necessariamente pela soberania e pela autoridade capaz de determinar os critérios segundo os quais uma realidade poderá ser reconhecida como legítima. No Evangelho de João, essa questão retorna ao corpo sob uma forma ainda mais profunda: se o poder pode matar aquele que domina, poderá também determinar quem é aquele que morreu?

O percurso da Tetralogia não corresponde, portanto, a uma simples divisão temática. A questão que aparece no primeiro texto permanece presente nos seguintes, embora assuma novas formas. O domínio sobre o corpo conduz ao problema do acontecimento; o acontecimento, uma vez passado, conduz à memória; a memória da destruição conduz à restauração e à ordem; a ordem coloca a questão da soberania; e a soberania, quando levada até suas últimas consequências, retorna à identidade daquele que esteve submetido à violência. A cada momento, aquilo que parecia encerrado revela uma questão que ainda não havia sido resolvida. A violência pode produzir uma derrota, mas não necessariamente determina o sentido dessa derrota; a destruição pode eliminar uma ordem, mas não determina aquilo que deverá substituí-la; a memória pode conservar o acontecimento, mas não elimina a disputa sobre sua interpretação; e a morte de um corpo não concede automaticamente ao vencedor a autoridade sobre aquilo que esse corpo significa.

A Tetralogia da Guerra Santa acompanha essa sequência sem separar artificialmente aquilo que, nos Evangelhos, permanece relacionado. O corpo é o lugar em que a violência se torna visível; o acontecimento é aquilo que a violência produz e que posteriormente precisa ser compreendido; a memória conserva a relação entre a comunidade e aquilo que lhe aconteceu; a soberania diz respeito à autoridade capaz de estabelecer a ordem e seus critérios; e a identidade constitui o ponto em que a pretensão do poder encontra seu limite mais difícil. O movimento vai, assim, da carne ao Logos, não porque abandone a história concreta da violência, mas porque acompanha aquilo que acontece quando um acontecimento deixa de pertencer somente ao momento em que ocorreu e passa a ser disputado em sua memória, em sua interpretação, em sua ordem e em seu significado. A guerra pode começar na carne. Mas aquilo que acontece à carne não esgota aquilo que ela significa.



GLOSSÁRIO DA TETRALOGIA




O percurso da Tetralogia é acompanhado por um Glossário da Guerra Santa, concebido como instrumento de leitura e não como simples apêndice bibliográfico. Nele estão reunidos os principais conceitos, categorias e autores mobilizados nos quatro textos, permitindo ao leitor reconhecer os termos que sustentam a investigação e acompanhar a maneira pela qual determinadas questões reaparecem, sob diferentes formas, ao longo do conjunto. O Glossário pode ser consultado antes, durante ou depois da leitura. Para aquele que se aproxima da Tetralogia pela primeira vez, oferece uma orientação inicial acerca de seu vocabulário; para quem já percorreu os quatro textos, permite retornar aos conceitos que estruturam a investigação e reconhecer as relações que se estabelecem entre suas diferentes partes.



A ARQUITETURA DIALÉTICA DA TETRALOGIA - METODOLOGIA




A Tetralogia da Guerra Santa — composta por GUERRA, MEMÓRIA, REINO e LOGOS — pode ser lida como uma arquitetura dialética voltada a investigar os limites da determinação histórica: GUERRA acompanha a produção material dos efeitos e a capacidade do poder de intervir sobre corpos e acontecimentos; MEMÓRIA mostra que a produção de um acontecimento não encerra sua existência histórica, pois seus efeitos podem permanecer, ser reinscritos e adquirir novas determinações; REINO desloca a análise para a classificação, a ordem e os critérios de legitimidade, examinando se quem ordena uma realidade também possui autoridade para determinar as condições de sua própria validação; e LOGOS leva o problema ao campo da identidade e do significado, demonstrando que a violência capaz de produzir a morte não determina, por si só, exaustivamente quem morreu nem o que essa morte significará. A unidade dos quatro textos não está em uma sucessão de teses, antíteses e sínteses, mas na conservação e transformação de determinações anteriores à medida que cada novo regime de análise revela os limites de sua suficiência. Em diálogo crítico com Hegel e Marx, a Tetralogia formula uma dialética regional da determinação, material e historicamente situada, na qual diferentes formas de eficácia podem coexistir sem coincidir integralmente: causalidade não é soberania, permanência não é controle, classificação não é legitimidade e violência não é significado. O Manual de Guerra, inicialmente construído como heurística para compreender a materialidade do poder, é posteriormente submetido ao exame de seus próprios limites, dando origem a uma reflexão metodológica sobre capacidade, ação, eficácia, determinação, interferência, deslocamento e persistência. Dessa arquitetura emerge a proposição que sintetiza todo o percurso: produzir não é determinar — uma ação pode produzir efeitos reais, decisivos e historicamente duradouros sem, por isso, adquirir autoridade para determinar exaustivamente tudo aquilo que esses efeitos posteriormente serão, significarão ou produzirão.




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