Mostrando postagens com marcador Protestantismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Protestantismo. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 9 de julho de 2009

João Calvino e o caso Servet

Calvino se encontrara a primeira vez com Miguel de Servet em Paris, 1534, época efevescente do trabalho intelectual do espanhol, e quando publicara suas obras contra a doutrina da Trindade. Na época Calvino estava a caminho de Estrasburgo. Em Estrasburgo os escritos de Servet tiveram sua venda proibida. Mantiveram secretamente trocas de cartas de 1541 a 1553, nas quais Calvino reprovava suas idéias antitrinitarianas. Em Estrasburg Calvino aceitara o convite de Martin Bucer e Wolfgang Capito para ser uma espécie de capelão dos refugiados franceses

Em junho de 1551 o Conselho Inquisitorial de Vienne, católico-romano, havia condenado Servet às chamas. Dentre outras questões, além da conhecida rejeição da doutrina da Trindade e da Divindade de Cristo, remetiam a asseverações de cunho panteísta. Em seguida fugira para Genebra buscando refúgio. Lá foi preso por ordem do o Petit Conseil, o Conselho de Genebra. Foi levado a julgamento, que agira respaldado por um parecer de Calvino que o declarara herege. O Conselho o sentenciou à fogueira, sentença então que contara com a desaprovação do reformador. Fora queimado em outubro de 1553, com suas obras amarradas em seu corpo, proferindo as últimas palavras:

_Jesus, Filho do Deus eterno, tende piedade de mim.

Calvino teve uma influência importante, mas sua participação direta na morte de Servet é vulgarmente sobre-estimada. Geralmente se atribui um poder a ele que nunca teve, e se mascara os conflitos e adversários que o mesmo tinha na cidade.

Calvino ficara em Genebra pela primeira vez depois de uma admoestação de
Guilherme Farel, quem inseriu Genebra no contexto da Reforma. Quando o Conselho de Berna convidou Farel para apresentar suas idéias sobre a Reforma, e Calvino foi convidado por esse para falar. Todos ficaram impressionados e em 1536, Calvino já tinha sido designado pastor de Genebra. Não fora admitido como cidadão pleno, antes tinha o status de “servidor público” e como tal, para viver na cidade sob licença. Era subordinado ao Conselho municipal, que tinha a última palavra em assuntos religiosos.

Com o crescimento de sua influência, se organizaram diversos grupos opositores, católicos e diversos outros, e ele e Farel foram banidos. A conspiração usava, dentre outros artifícios, acusações como a de que Calvino era ariano. Com a vitória da oposição em 1538, Calvino e Farel foram proibidos de pregar no Domingo da Ressurreição, e tendo desobedecido, foram destituídos do cargo e abandonaram a cidade sob risco de vida. A partir daí, começaram perseguições em Genebra aos seguidores de Calvino, e a cidade se viu a beira de um conflito interno, com os sucessores de Calvino tendo sido expulsos. Com o temor de conflito armado, a oposição, no poder, com a intervenção de Berna, aceitou o regresso de todos, incluindo o reformador. Farel novamente o convence a retornar, e então passa a ser o 'leitor da Santa Escritura na Igreja de Genebra', professor e apoiador da formação e consolidação da Igreja na cidade. Em termos de poder político, continuava deveras limitado e sob constante vigilância dos opositores a qualquer escorregão no sentido de buscar aumentá-lo.

Assim, quando do episódio de Servet, fora consultado no sentido de dar o parecer sobre as obras no sentido teológico e moral. Concordara que Miguel de Servet era digno da pena capital, por ser um 'perigo para a juventude' e para a estabilização da igreja e organização religiosa de Genebra.

Contudo, Calvino não concordou com a sua morte pelas chamas, e pleiteou pela mitigação da condenação que, em caso de morte, fosse pela espada. Mas, como explicitado, não podia influenciar a decisão num alcance maior, sob patrulha dos adversários.

Obteve ainda uma última reunião com Miguel de Servet através de Farel. Dois membros do Conselho acompanharam e vigiaram o teor da conversa. Registra-se que Servet se desculpara por ofensas pessoais ao reformador, que dissera não guardar ressentimento e lembrara-lhe as conversas entre os dois desde Paris buscava-lhe apontar os problemas teológicos e suas implicações.

Essa foi a grande mancha lúgubre na carreira de Calvino, sendo que, longe de representar a caricatura frívola que se faz para ilustrar uma pecha de implacável perseguidor mórbido, trás à luz uma responsabilidade moral partilhada pelo histórico dos cristãos, mas cujos fatos desmentem o discurso predominante entre os detratores de Calvino.

O que nos remete a refletir sobre quantas figuras históricas admiradas e até veneradas que, em situações semelhantes, não tomaram atitudes até mais extremas, em nome da vitória da 'causa' que iria trazer a paz e harmonia social? Contudo, os seguidores das idéias particulares de cada 'causa' possuem racionalizações para seus episódios, e imprecações para os mesmos referentes a 'o outro'...



McGRATH, Alister. A vida de João Calvino. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
GOMES, Antonio Máspoli de Araújo. O Pensamento de João Calvino e a Ética Protestante de Max Weber, Aproximações e Contrastes. Fides Reformata VII.2 (2002)
LESSA,Vicente Themudo. Calvino (1509-1564), sua vida e sua obra. São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1934.

terça-feira, 3 de março de 2009

Consilium quorundam episcoporum... A Fraude


Entrei sem o querer em uma controvérsia acerca do documento "Consilium quorundam episcoporum Bononiæ congregatorum quod de ratione stabiliendæ Romanæ ecclesiæ" elaborado no século XVI e supostamente atribuído a 3 bispos da Igreja Católica. Eu particularmente não sou católico, mas fico profundamente indignado quando determinadas coisas são manipuladas de forma desonesta e sem escrúpulos. Vários sites de apologética evangélica costumam divulgar este documento como uma prova histórica de que a igreja católica sugeria que seus fiéis não lessem o texto bíblico.

Aqui temos alguns exemplos desta utilização, dentre outros:

1 - Centro Apologético Cristão de Pesquisas CACP
2 - Jesus Site
3 - Sola Scriptura

Em seguida, o texto em tela:

5) O Papa Júlio III, preocupado com os rumos que sua Igreja estava tomando, ou seja, perdendo prestígio e poder diante do número cada vez maior de "irmãos separados" ou "'cristãos novos" ou "protestantes" (apesar dos massacres), convocou três bispos, dos mais sábios, e lhes confiou a missão de estudarem com cuidado o problema e apresentarem as sugestões cabíveis. Ao final dos estudos, aqueles bispos apresentaram ao papa um documento intitulado "DIREÇÕES CONCERNENTES AOS MÉTODOS ADEQUADOS A FORTIFICAR A IGREJA DE ROMA". Tal documento está arquivado na Biblioteca Imperial de Paris, fólio B, número 1088, vol. 2, págs 641 a 650. O trecho final desse ofício é o seguinte:

"Finalmente (de todos os conselhos que bem nos pareceu dar a Vossa Santidade, deixamos para o fim o mais necessário), nisto Vossa Santidade deve pôr toda a atenção e cuidado de permitir o menos que seja possível a leitura do Evangelho, especialmente na língua vulgar, em todos os países sob vossa jurisdição. O pouco dele que se costuma ler na Missa, deve ser o suficiente; mais do que isso não devia ser permitido a ninguém. Enquanto os homens estiverem satisfeitos com esse pouco, os interesses de Vossa Santidade prosperarão, mas quando eles desejarem mais, tais interesses declinarão. Em suma, aquele livro (a Bíblia) mais do que qualquer outro tem levantado contra nós esses torvelinhos e tempestades, dos quais meramente escapamos de ser totalmente destruídos. De fato, se alguém o examinar cuidadosamente, logo descobrirá o desacordo, e verá que a nossa doutrina é muitas vezes diferente da doutrina dele, e em outras até contrária a ele; o que se o povo souber, não deixará de clamar contra nós, e seremos objetos de escárnio e ódio geral. Portanto, é necessário tirar esse livro das vistas do povo, mas com grande cuidado, para não provocar tumultos" - Assinam Bolonie, 20 Octobis 1553 - Vicentius De Durtantibus, Egidus Falceta, Gerardus Busdragus."



Qualquer pessoa que tenha um mínimo de senso crítico, ao ler tais passagens, notará que há algo de errado. Imaginem 3 bispos católicos, dos mais sábios, em pleno século XVI sugerindo dessa forma ao Papa — permitir o mínimo a leitura do evangelho e dizendo que "aquele livro", mais do que qualquer outro, tem levantado contra a ICAR uma séria de tempestades!"? É o cúmulo do patético tal situação. Mas... não bastasse a óbvia sátira presente em tal texto, algumas pessoas conseguiram fazer a proeza de levar isso a sério.

Este meu post então é dedicado a elas. Em bom termo, para que fique claro - NUNCA HOUVE CONSELHO ALGUM DADO POR 3 BISPOS CATÓLICOS AO PAPA ESCRITO DESTA FORMA! Este texto em questão foi produzido por um ex-bispo católico e então pastor reformado Pietro Paolo Vergerio. O documento minuciosamente detalhado como estando na "Biblioteca Imperial de Paris, fólio B, número 1088, vol. 2, págs 641 a 650" pode ser encontrado na atual Biblioteca Nacional da França. Ele se encontra neste endereço aqui. É possível fazer o download do texto em francês. Ele pode ser baixado no seguinte ftp.

Ao final do texto principal, podemos encontrar o seguinte comentário em francês:


"Quoique n´étant que partiellement consacré à La lecture de la Bible, Le texte de Vergerio a été fréquemment utilisé dans lês polemiques entre protestants et catholiques sur CE sujet, même après que La critique avait été faite par de nombreux théologiens (Consulter La thèse de théologie protestante de A. Ch. Siegfried. – La Vie et lês travaux de P. P. Vergerio Strasbourg, 1857. In-8º, 39 p.).

Il ressort de ces études que P. P. Vergerio est véritablement l´autor Du “Consilium quorundam episcoporum” . dont Le texte figure dans sés ouvres completes publiées em 1563.

CE texte fait partie de sés nombreux opuscules publiés anonymement lors de as violence polemique avec La papauté. Il est donc impossible d´admettre que Le “Consilium quorundam episcoporum”... emane d´une quelconque autorité de l´Eglise catholique."



Eu o traduzi para o português da seguinte forma:

"Embora apenas parcialmente concernente à leitura da bíblia, o texto de Vergerio foi freqüentemente utilizado na polêmica entre protestantes e católicos sobre este assunto, mesmo após as críticas apresentadas por vários teólogos (Veja tese Teologia Protestante de A. Ch. Siegfried. - a vida e a obra do PP Vergerio Strasburgo, em 1857. In-8 º, p. 39).

Esses estudos revelaram que P. P. Vergerio é realmente o autor de "Consilium quorundam episcoporum.
O texto que aparece na sua obra completa publicada em 1563.

Este texto faz parte de suas numerosas brochuras publicadas anonimamente dada a violenta polêmica com o papado. É impossível admitir que o "Consilium quorundam episcoporum" ... emana de uma autoridade da Igreja Católica."


Como é possível perceber, a Biblioteca Nacional da França afirma que a verdadeira autoria do documento se refere ao protestante Pietro Paolo Vergerio, que o teria escrito em 1563. Para qualquer pessoa de bom senso, bastaria tal assertiva. Mas que tal checarmos mais? Será que este manuscrito, de fato, poderia ter sido atribuído aos supostos 3 bispos católicos em alguma outra biblioteca? Existiria somente este documento?

A resposta é não! O texto pode sim ser encontrado em outras bibliotecas ao longo do mundo (inclusive para download)! Vamos a elas:


1 - National Library of Australia - Austrália

2 - Cambridge University Library - Inglaterra.

3 - Newberry Library (Chicago) - EUA

4 - Biblioteca da Universidade Pablo d´Olavide (Sevilha) - Espanha

Nesta última biblioteca, podemos baixar o texto em Latim




Em suma, como pode ser devidamente averiguado - EM TODAS AS BIBLIOTECAS CONHECIDAS onde o texto "Consilium quorundam episcoporum Bononiæ congregatorum quod de ratione stabiliendæ Romanæ ecclesiæ" se encontra,

a autoria é atribuída ao ex-bispo e então reformador protestante:

PIETRO PAOLO VERGERIO,


o qual FORJOU E FRAUDOU um documento atribuindo-o a 3 bispos da Igreja Católica! É uma vergonha que tal fraude continue ainda hoje sendo utilizada para manipular a cabeça dos menos avisados.
  • Recent Posts

  • Text Widget

    Este blog tem como objetivo central a postagem de reflexões críticas e pesquisas sobre religiões em geral, enfocando, no entanto, o cristianismo e o judaísmo. A preocupação central das postagens é a de elaborar uma reflexão maior sobre temas bíblicos a partir do uso dos recursos proporcionados pela sociologia das idéias, da história e da arqueologia.
  • Blogger Templates