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domingo, 17 de novembro de 2019

Anotações Adcummulus 011 - "Os da Casa de César te Saudam" - Como o Cristianismo chegou na High Society - Parte 5 - Julio Africano e o Rei Abgar de Edessa

Cristo Pantocrator, Igreja do Santo Sepulcro, Jerusalém,
via wikicommons
Anteriormente nossa série sobre o avanço do cristianismo na elite do Império Romano, falamos de casos de cristãos que foram auxiliares de imperadores e líderes provinciais, sobre outros, de comportamento um tanto heterodoxo, e daqueles cuja a identidade é incerta, mas que podem ter sido os primeiros casos atestados entre as elites romanas, já no primeiro século. Também mencionamos aqueles que, para preservarem sua identidade como cristãos, não hesitaram em confrontar o Império, a família e a sociedade, pagando com a própria vida. Ao longo da série, porém, foi possível perceber alguns padrões. O cristianismo é praticamente imperceptível socialmente em seu primeiro século de existência, primeiramente pelo pequeno número de seguidores, segundo por estar, em geral, nas margens da sociedade. 

Sendo assim, as primeiras menções que temos em Josefo, Tácito, Suetônio, Plínio invariavelmente envolvem tumultos, perturbações e confrontos em que os cristãos ora são apontados como a causa, ou mesmo quando eram as vítimas, a opinião geral era que não eram tão inocentes assim (nas palavras de Tácito: "(Tudo isso fez com que despertasse a misericórdia do povo, mesmo contra essas pessoas que mereciam castigo exemplar") [1]. Nas notícias dessa primeira época, os cristãos apareciam quase que exclusivamente na página policial. Não ajudava o fato de seguirem Jesus, um homem crucificado por Pôncio Pilatos na sempre rebelde Judeia, acusado de ser o autoproclamado "Rei dos Judeus". 

A medida que o tempo passa, o número de cristãos cresce, na cidade de Roma, nas províncias do  norte da África e no leste do Império, principalmente. Escravos libertos da casa imperial, convertidos ou simpatizantes do cristianismo, já representam uma influência palpável na corte, pelo menos desde o final do século II. Relatos aqui e ali, dão conta de mulheres de alta posição que se convertiam. Por está época, o filósofo pagão Celso, incomodado, escreve um ataque contra o cristianismo, em que afirma que:

Vemos, de fato, em nossas casas, trabalhadores em lã e curtidores, e pessoas de caráter rústico e pouco instruído, que não se atrevem a proferir palavra na presença de seus senhores, mais velhos e doutos; mas quando tem a oportunidade de estar com crianças em privado, ou com mulheres tão ignorantes quanto eles, propagam seus maravilhosos ensinos, de forma que não devem obedecer seus pais e mestres; e que os primeiros são tolos e estúpidos, e nem sabem nem podem realizar algo realmente bom, preocupados com ninharias vazias; que somente eles sabem como os homens devem viver e que, se os filhos os obedecerem, também serão felizes e também farão seu lar feliz. E enquanto falam assim, se notam os mestres destes jovens se aproximando, ou alguém das classes mais instruídas, ou mesmo o próprio pai, os mais tímidos entre eles ficam com medo, enquanto os mais ousados incitam as crianças a se rebelarem.[2]
 
No entanto, a partir da segunda metade do II século, o cristianismo passa a dispor de mestres preparados para discutir em termos retóricos e filosóficos.  Neste post, vamos discutir duas figuras, o (provavel) primeiro Rei cristão e seu conselheiro. O Rei Abgar VIII e o enciclopédico Sexto Júlio Africano.

Júlio Africano na Corte de Abgar VIII de Edessa


Rei Abgar V recebe de Tadeu o Mandílio.
Pintura encaústica, Monastério de Santa Catarina
sec. X, via wikicommons
Por volta do ano 200 DC, Tertuliano diria que o nome de Cristo se estendia a todos os lugares, era crido em todo lugar, honrado e adorado entre todos os povos,  Além de forte apelo popular, entre as elites o  "time" de Cristo, contava com defensores (apologistas) como Tertuliano e Minúcio Félix, "homens de criação" como os teólogos Hipólito e Irineu, e um poderoso ataque com Clemente e Origenes de Alexandria e Julio Africano, homens de vanguarda do pensamento intelectual da época. 

Sexto Júlio Africano, talvez seja a mais intrigante e complexa destas figuras. Ele se destacou tanto por seu conhecimento teológico e exegético - estabelecendo a data tradicional do nascimento de Jesus, harmonizando as genealogias de Mateus e Lucas, demonstrando que a história de Suzana não fazia parte do livro de Daniel - como atuar como conselheiro do Rei Abgar VIII de Edessa (nosso outro personagem), e montar uma biblioteca a pedido do Imperador Severo Alexandre. Serviu o exército, exerceu a medicina, além de ter escrito uma enciclopédia do conhecimento antigo, que versava sobre pontos como magia e antigas armas biológicas. 

As obras de Julio Africano não sobreviveram ao nosso tempo. Seus escritos são conhecidos a partir de citações de outros autores. Contudo, como observa a Professora Hagith Sivan, da Universidade do Kansas, 

"(...)  Of Africanus' not insignificant output, consisting of the Cesti (originally in 14 volumes), two letters (one addressed to Origen, the other to an Aristides) and the Chronographiae (originally in 5), we now have the most complete collection of 100 fragments from the last work and, equally useful, of 99 testimonia.(...)" (traduçãoDa produção não insignificante de Africano, composta pelos Cesti (originalmente em 14 volumes), duas cartas (uma dirigida a Orígenes, a outra a Aristides) e a Cronografia (originalmente em 5), agora temos a coleção mais completa de 100 fragmentos do último trabalho e, igualmente úteis, de 99 testemunhos. [3]

As citações por autores antigos posteriores, permitem inferir alguns fatos de sua vida. O professor Henry Chadwick (1920-2008), de Cambridge, apresenta uma biografia resumida de Júlio Africano:


A comparable contemporary of Clement was another learned Christian, Sextus Julius Africanus, whose surviving writings show him to have been a rare polymath. He was capable of writing on military matters (of which he had some firsy-hand knowledge), on history, magic, Christianity, and architecture. He had a striklingly varied carrier in the army, medicine, and law. His birthplace seems to have been Hadrian's replacement of Jerusalem, Aelia Capitolina (P.Oxy. III 412). He came to know relatives of Jesus from the Nazareth region, and knew at least some hebrew.(Tradução) Um contemporâneo comparável de Clemente foi outro cristão erudito, Sexto Julio Africano, cujos escritos sobreviventes mostram que ele era um polímato raro. Ele era capaz de escrever sobre assuntos militares (dos quais possuía algum conhecimento prático), história, magia, cristianismo e arquitetura. Ele teve uma carreira diversificada no exército, na medicina e no direito. Seu local de nascimento parece ter sido a cidade construída por Adriano quando destruiu Jerusalém, Aelia Capitolina (P.Oxy. III 412). Ele se encontrou com parentes de Jesus da região de Nazaré e conhecia pelo menos um pouco de hebreus. [4] 
Júlio Africano foi um homem "viajado", e possuía excelentes conexões sociais. Particularmente relevante para efeitos do nosso post, foi quando foi admitido em Edessa, na corte do Rei Abgar VIII de Osroene, estado vassalo de Roma, na alta Mesopotâmia, norte do atual Iraque. O Reino de Osroene, governado pelos antepassados de Abgar a mais de 300 anos, ficava na fronteira entre o Imperio Romano e o Império Parto (que englobava o Irã, parte do atual Iraque, Paquistão e Afeganistão). Edessa oscilou em suas lealdades várias vezes, entre a batalha de Carrae (53 AC) e o tempo de Trajano (98-117 DC), estiveram sobre influência dos partos. A partir de Trajano, e mais ainda a partir de 165 DC - quando o co-imperador Lucio Vero (161-169 DC) em sua campanha no leste, colocou a região sob o firme comando de Roma - o Reino de Edessa não teve outra opção senão a lealdade.

O Reino de Edessa, sob o comando de Abgar, seguia uma política extremamente tolerante com o cristianismo, sendo bastante possível, ainda que não completamente certo, como veremos a seguir, que o próprio Rei, ou seu filho Abgar IX, tenham se convertido [5]Segundo a Crônica de Edessa, do século VI, um concilio foi realizado na cidade em 197 DC, e uma Igreja cristã é listada entre os edíficios destruídos em uma enchente em 201 DC. A partir de Edessa, as regiões do extremo leste do Império Romano, a Pérsia e até a India, foram evangelizadas. Como observa o Professor Warmick Ball, da Escola Britânica de Arqueologia no Iraque, "(...) Abgar teve a sabedoria de reconhecer a estabilidade e ordem inerente do Cristianismo, um século antes de Constantino (...) Assim Abgar, o grande, pode reinvindicar ser o primeiro monarca cristão do mundo, e Edessa o primeiro estado cristão. Mais do que qualquer coisa, um enorme precedente foi estabelecido para a conversão da própria Roma (...)[6]. 

Cerca de um século depois da morte de Abgar VIII, Eusébio de Cesaréia (História Eclesiástica 1:13) registra a tradição de que o Rei  Abgar V (4 AC - 40 DC) trocou cartas com o próprio Jesus (!!!). Abgar estava doente e pediu que Jesus viesse até Edessa cura-lo. Jesus promete que após cumprir sua missão, ele enviaria alguém para cura-lo. Após a ressureição, o Apóstolo Tomé enviou Tadeu, que curou o Rei. Em um estágio posterior da lenda, o texto apócrifo a doutrina de Addai, escrito por volta do ano 400, afirma que o mensageiro do Rei, chamado Ananias, era também um pintor, e fez um retrato de Jesus (a imagem de Edessa, ou Mandílio), que foi guardado no Palácio Real de Edessa. As cartas são consideradas como apócrifas pelos estudiosos, mas são entendidas como uma tentativa do cristianismo edessano de reivindicar origem apostólica, uma vez que era um dos mais importantes centros da cristandade. 

Na corte de Abgar, também tinha assento o teólogo Bardasanes (154-222 DC), muito próximo ao Rei, a qual Júlio Africano admira como grande pensador e exímio arqueiro.  Bardasanes, provavelmente de origem persa, se converteu pela influência do Bispo Histapes de Edessa, e logo se destacou polemizando com os marcionitas, sendo ordenado diácono, formando uma escola de discipulos  e compondo hinos, com objetivo de atingir os jovens.[7]

Bardasanes também é o principal testemunho da conversão do Rei Abgar de Edessa, visto que ele menciona que:


 "(...) Na Síria e em Edessa havia um costume de castração em honra de Tar'atha (Atagartis), mas quando o Rei Abgar se converteu, ele ordenou que qualquer homem que se emascula-se em devoção de Tar'ata, deveria ter sua mão cortada (...)".[8]

Não resta claro, porém, se o Abgar em questão é o pai ou o filho. Júlio Africano, em um fragmento preservado em George Sincelo, diz que Abgar era um "santo homem", sem dar maiores detalhes. A despeito de sua contribuição para o avanço do cristianismo em Edessa, e, possivelmente, trazendo a fé para a família real, Bardasanes foi mais lembrado por ter sido, em algum momento, atraído por idéias gnósticas.  Contudo, se é evidente que os ensinos dos discípulos de Bardasanes foram considerados heréticos (influenciando grupos como os Elkasaitas e Maniqueistas) nos séculos seguintes,  o mesmo não pode ser dito com certeza em relação ao próprio Bardasanes. De fato, muito pouco do que Bardasanes escreveu foi conservado, e um de seus principais escritos, que mais nos aproxima de suas ideias, "O livro da Lei dos Países" foi compilado por um de seus díscipulos, Felipe. Pouco mais de 100 anos após a morte de Bardasanes, ele foi objeto de dura refutação pelo Bispo Efrem, o Sírio (306-373 DC) , mas podemos questionar até que ponto estava criticando os ensinos do próprio Bardasanes ou o rumo que seus díscipulos lhe deram [9]. Eusébio de Cesaréia (História Eclesiastica 4:30), por exemplo, relata que Bardasanes "(...) foi a princípio um seguidor de Valentino, mas depois, tendo rejeitado seus ensinamentos e refutado a maioria de suas ficções, imaginou ter chegado à opinião mais correta. No entanto, ele não lavou completamente a sujeira da antiga heresia (...).   

Sobre a estada de Júlio Africano em Edessa, Professor Martin Wallhaff, da Universidade de Munique escreve [10]:


The life story of Africanus was centainly both interesting and eventful, although we are only able to glean snippets of it from his own writings. We first find him in Edessa at the court of King Abgar VIII of Oshoene, for whom he apparently had much admiration (F96) and whose son he helped to educate. It was here that he came in contact with the fascinating intellectual Bardasanes (cest 1,20) in whom he may found a congenial thinker and source of inspiration. All this must have occured some time before 216. It was here also that he might have seen what was alleged to have been the tent of Jacob, venerated in Edessa and later destroyed (F29). On his travels he saw Mount Ararat in Armenia (F23) and also visited Apameia in Southern Phrygia, formerly Celacnae (F23). (...). (tradução) A história de vida de Africano é, ao mesmo tempo, interessante e cheia de acontecimentos, embora só possamos coletar trechos dela de seus próprios escritos. Nós o encontramos pela primeira vez em Edessa, na corte do rei Abgar VIII de Oshoene, por quem ele aparentemente tinha muita admiração (F96) e cujo filho ele ajudou a educar. Foi aqui que ele entrou em contato com o fascinante intelectual Bardasanes (cest 1,20), em quem pode encontrar um pensador agradável e fonte de inspiração. Tudo isso deve ter ocorrido algum tempo antes de 216. Foi aqui também que ele poderia ter visto o que supostamente era a tenda de Jacó, venerada em Edessa e mais tarde destruída (F29). Em suas viagens, ele viu o Monte Ararat na Armênia (F23) e também visitou Apameia no sul da Frígia, anteriormente Celacnae (F23). (...)[10]
 A dinastia de Abgar, contudo, estava com seus dias contados. Abgar, no ano dos cinco imperadores (193 DC), apoiou Pescênio Niger, que foi derrotado por Sétimo Severo, que assumiu o trono, e despojou Abgar da maior parte de seu território, que ficou reduzido, praticamente, a cidade de Edessa. Abgar, habilmente, conseguiria restabelecer seu Reino e favor com o Imperador Severo, e até adotou o sobrenome Severo para si e seu filho. Contudo, após sua morte, seu filho Abgar IX foi convocado a Roma por Caracala (211-217 DC), sucessor de Sétimo Severo,  que mandou prender e executar o Rei de Edessa. Os romanos ainda consentiram que dois integrantes da Casa de Abgar utilizassem o título real, até o ano 242 DC, mas sem exercer poder efetivo.

Júlio Africano, porém, teve melhor sorte. Logo cairia nas graças da corte imperial. Professor Wallraff continua:
It would appear that the re-foundation of Emmaus in Palestine as a polis with the name "Neapolis" was achieved thanks to an initiative at the court of Roman emperor in the early 220's presided over by Africanus himself (T2) This may or may not mean that Africanus was a resident of Nicopolis(or Palestine in general) at that time. Nevertheless, his links to the town were certanly profound and went well beyond that any normal sightseer, A little later, we find him in Rome at court of Alexander Severus, where he was  entrusted with the task of instituting the library of Pantheon. Whatever that might mean, it must have been quite prestigious post in the society of the capital. (tradução)  Parece que a reconstrução de Emaús na Palestina como uma polis com o nome "Neápolis" foi alcançada graças a uma iniciativa na corte do imperador romano no início dos anos 220, presidida pelo próprio Africanus (T2). Isso pode ou não significa que Africano era um residente de Nicópolis (ou Palestina em geral) na época. No entanto, seus vínculos com a cidade eram comprovadamente profundos e iam muito além do um visitante comum. Um pouco mais tarde, o encontramos em Roma na corte de Alexandre Severo, onde ele foi encarregado de instituir a biblioteca do Panteão. O que quer que isso possa significar, deve ter sido um posto de prestígio na sociedade da capital.[10]
Júlio Africano, teólogo, historiador e intelectual.

Além de conselheiro de Reis, e indicado pelo Imperador para montar uma biblioteca, Africano faria uma contribuição relevante na exegética bíblica. Por exemplo, ele abordou as diferenças entre o livro de Daniel no texto hebraico ou massorético e a Septuaginta. O capítulo 13 do livro de Daniel existe nas bíblicas católicas romanas e ortodoxas, mas não das bíblias protestantes e hebraicas, e conta a história de Susana.


Susana e os Anciãos. Pinturucchio, 1492,
Apartamento Borgia, Palácio Apostólico,
Vaticano, via wikicommons

Susana era uma mulher casada, rica, atraente, e muito temente a Deus. Certo dia, ela se banhava sozinha em seu jardim, não percebendo estar sendo observada por dois anciãos. Ao retornar para casa, os anciãos, que serviam como juízes, a assediam e chantageam, dizendo que a acusariam de ter sido infiel a seu marido, a menos que ela concordasse em deitar-se com eles. Susana recusa a chantagem e é falsamente acusada de adultério. Durante o julgamento Susana é condenada com base no testemunho dos  dois anciãos, clama ao Senhor por justiça, e é socorrida pelo jovem e sábio Daniel, que  desafia o testemunho dos anciãos, que afirmaram que Susana havia encontrado seu amante sob uma árvore, a testemunharem em separado. Um dos anciãos afirma que a árvore era um carvalho, e o outro uma aroeira. Apontando as contradições das falsas testemunhas, Daniel prova a inocência de Susana.



Africano crítica Origenes por aceitar a autenticidade da história, e os argumentos de um lado e outro, podem ser encontrados na "Carta a Africano", de Origenes.

Entre os argumentos apresentados por Africano estão a ausência da narrativa na texto hebraico, o fato do texto grego conter jogos de palavras que não faziam sentido em hebraico, além de inconsistências e implausibilidades no comportamento dos personagens na estória. Orígenes, ainda que reconhecendo a ausência do texto na versão hebraica de Daniel, sustenta que a narrativa era comumente lida e reconhecida nas igrejas. [11]

Outra contribuição de Julio Africano é sua harmonização das genealogias de Jesus encontradas nos evangelhos de Lucas e Mateus. Em uma carta a um certo Aristides, transcrita por Eusébio de Cesaréia, Africano rejeita aquelas interpretações que consideram que uma genealogia de Lucas era sacerdotal e da Mateus real. Ele apresenta sua própria tese, que se baseia em tradições que lhe teriam sido confiadas pelos Desposyni , os descendentes do clã de Jesus, que viviam nas cidades vizinhas de Nazaré e Cochaba. Africano utiliza o conceito do casamento por Levirato. Descrito em Deuteronômio 25:5-6, caso um homem morresse sem deixar filhos, cabia a seu irmão casar com a viúva, e tendo gerado descendência, essa passaria a ser considerada como de seu irmão falecido. Desta forma, Africano afirma que:


Matã, descendente de Salomão, gerou Jacó. E tendo morrido Matã, Melqui, que era descendente de Natã, gerou Eli pela mesma mulher. Eli e Jacó eram, portanto, irmãos uterinos. Eli tendo morrido sem filhos, Jacó levantou sua semente, gerando José, seu próprio filho, pela natureza, mas por lei o filho de Eli. Assim, José era filho de ambos.
No entanto, a mais  relevante contribuição de Africano a literatura, e cultura cristã foi a sua adaptação do gênero grego da "crônica universal", influenciando Eusébio de Cesaréia, Jerônimo, George Sincelo, entre outros.  


Professor Richard Burgess, da Universidade de Otawa, esclarece a significância do trabalho de Júlio Africano:


"The achievement of Julius Africanus can only be properly evaluated if it is considered within the appropriate context. His Xpovoypawiai is best if it is analysed and interpreted not as the earliest surviving work of Byzantine chronography or as an early Christian chronicle (or rather proto-chronicle, since it is not actually a chronicle), but as a work that stands at the end of a very long line of Hellenistic chronological apologetic that ranges from contemporary Christian writers to secular historians of the late fourth century BC. (tradução)   O feito de Julio Africano só pode ser avaliada adequadamente se for considerada dentro do contexto apropriado. Seu Xpovoypawiai é melhor analisado e interpretado não como o trabalho sobrevivente mais antigo da cronografia bizantina ou como uma crônica cristã primitiva (ou melhor, proto-crônica, já que na verdade não é uma crônica), mas como um trabalho que culmina uma longa linha de crônica apologética helenística que vai de escritores cristãos contemporâneos a historiadores seculares do final do século IV aC [12]

Professor Burgess continua seu raciocínio, apontando o fato de que "(...)o mundo antigo, de forma quase universal, percebia o desenvolvimento da cultura e civilização de forma completamente oposta a nós. Nós olhamos para o futuro e vemos o progresso, que fará o porvir melhor que o passado, acreditando que a civilização e cultura estão avançando e progredindo. O mundo antigo, por outro lado, olhava pro passado e acreditava que quanto mais antigo, melhor. O presente era percebido como uma era de decadência, e o modo de vida ancestral eram naturalmente melhores porque estavam mais próximos da era dourada, o começo de todas as coisas, e dos deuses. Para os antigos, nada podia ser novo e verdadeiro (...)"[12].

Sendo assim, para se provar verdadeiro  (e não uma superstição "nova" e '"perigosa", ou "nova e mortal", principalmente por ser nova), o cristianismo tinha que se associar ao que era antigo. Uma ênfase muito grande foi colocada sobre as escrituras do antigo testamento, por todos reconhecidas como muito antigas. Burgess cita Teófilo de Antioquia, que no final do século II DC, escreveu "(...) Agora pretendo... demontrar a cronologia para você mais detalhadamente, para que possa reconhecer que nossa doutrina não é nem moderna, nem mítica, mas mais antiga e verdadeira que a de todos os poetas e historiadores (...)" .

A cronografia de Africano foi escrita em 5 volumes. E cobre desde a criação do mundo, que ele fixa no ano 5500 AC, até o ano 221 DC. A obra completa se perdeu, mas cerca de 10% de seu conteúdo é conhecido através de citações de autores posteriores. 

Professor Walhaff esclarece que o trabalho de Africano tem finalidade apologética em certa medida, mas vai muito além disso:

The apologetic tradition in general, and Theophilus and Clement in particular, represent the most important Christian antecedents to the Chronographiae of Africanus. That being said, his work is much more than just a simple continuation of this tradition (...) and it is clear that a work of such dimensions could only have been written by someone with a genuine scholarly interest in historiography. In this sense the approach of Africanus might best be termed as scientific, the implication being that his interest in precise historical knowledge was mainly for the sake of knowledge (...) A tradição apologética em geral, e Teófilo e Clemente em particular, representam os antecedentes cristãos mais importantes para a cronografia de Africano. Dito isto, seu trabalho é muito mais do que apenas uma simples continuação dessa tradição (...) e é claro que um trabalho de tais dimensões só poderia ter sido escrito por alguém com um genuíno interesse acadêmico pela historiografia. Nesse sentido, a abordagem de Africano poderia ser melhor denominada como científica, a implicação é que seu interesse pelo conhecimento histórico preciso era principalmente em prol do conhecimento [13]
 Bem como o caráter eminente cristão de sua obra, mas que dialogava com os padrões seculares greco-romanos..
The Christian character of his work is clear, especially given the importance attributed to the date of the Incarnation in AM 5500 and the detailed discussion concerning the date of the Crucifixion and Resurrection of Christ (F93) Nevertheless, it would be a mistake to try and reduce the Chronographiae to a purely apologetic work. (tradução)  (...) O caráter cristão de sua obra é claro, especialmente dada a importância atribuída à data da Encarnação, em AM 5500 e a discussão detalhada sobre a data da crucificação e Ressurreição de Cristo (F93) no entanto, seria um erro para tentar reduzir a Cronografia a um trabalho puramente apologético.´[13]
E oferecia a literatura cristã um padrão mais elevado, capaz de interagir com os escritos seculares de seu tempo, e que influenciaria gerações
He was forcing Christian chronography to adopt the secular structures and methods that he found in Chronicles and Universal history, and therefore stands at the point at which apologetics became truly Christian history for the first time (tradução) Ele estava forçando a cronografia cristã a adotar as estruturas e métodos seculares que encontrou em Crônicas e na história universal, e, portanto, está no ponto em que a apologética se tornou verdadeiramente a história cristã pela primeira vez [14]
Júlio Africano se dedicou a outro projeto monumental. Cesti é uma verdadeira enciclopédia do conhecimento antigo, com 24 volumes!!!! A obra descorria sobre praticamente todos os campos de conhecimento da Antiguidade. Da mesma forma como em Cronografia, Cesti não chegou até nós, mas fragmentos são citados em autores posteriores. Africano discorre sobre pesos e medidas, corantes, inseticidas, antídotos para vítimas de picadas de cobra ou escorpiões, purificação de água, e o cerco de Bizâncio pelo Imperador Sétimo Severo [15]. O conhecimento técnico e pratico, se intercala com as experiências pessoais de Africano.

Walraff faz menção a George Sincelo (século IX), que afirma que Cesti foi dedicada ao Imperador Alexandre Severo (222-235 DC). Wallraff aponta a menção aos banhos de Alexandre, concluidos em 227 DC, e o fato de Africano mencionar que os "persas nunca foram derrotados pelos Romanos", o que ocorreria em 231 DC, na campanha de Alexandre Severo contra os Sassânidas [15]. Ou seja, a obra deve ser datada entre 228-231DC. 

Embora reverenciado pelos escritores cristão posteriores por sua erudição. Cesti foi criticada por parte de seu conteúdo. Por exemplo, um manual  militar bizantino do século X, o Sylloge Tacticorum, descreve as armas químicas e biológicas propostas por Africano como instrumento de Guerra Total, como "indignas do modo de vida cristão".[15].

A natureza secular de Cesti levou a alguns estudiosos a questionar se realmente Júlio Africano, de Cesti, era o mesmo autor de Cronografia, contado entre os pais da Igreja. Começando por Joseph Scaliger no século XVII:

Scaliger noted that the name of Africanus in the tenth century Suda lexicon was idiosyncratic, not the commonly used "Iulius Africanus", but rather "Africanus, the one called Sectus (sic). From this, Scaliger concluded that Eusebius and his sucessors had collectively confused the Christian "Iulius Africanus" eith the "Sextus (Iulius) Africanus of the Cesti.(Tradução) Scaliger observou que o nome de Africanus no léxico Suda do século X era idiossincrático, não o "Iulius Africanus" comumente usado, mas sim "Africanus, chamado Sectus (sic). A partir disso, Scaliger concluiu que Eusébio e seus sucessores tinham coletivamente confundido o cristão "Iulius Africanus" com "Sextus (Iulius) Africanus dos Cesti.[16]
 Ocorre que a prosposta não prosperou, Professor Wallraf explica o porque:


Dissociating the two figures was an elegant, but ultimately unpersuasive, way to resolve what some scholars have called the "Africanus Problem". The final blow to the theory of mistaken identity came from the Cesti itself. A fragment from the end of the 18th book of the Cesti discovered at Oxyrhynchus named the author of the work as "Iulius Africanus", not the Sextus Iulius Africanus"required by Scaliger's hypothesis. (tradução) A dissociação das duas figuras foi uma maneira elegante, mas, em última análise, não persuasiva, de resolver o que alguns estudiosos chamam de "Problema Africanus". O golpe final na teoria da identidade equivocada veio do próprio Cesti. Um fragmento do final do 18º livro dos Cesti descoberto em Oxyrhynchus nomeou o autor da obra como "Iulius Africanus", não o Sextus Iulius Africanus "exigido pela hipótese de Scaliger.[16]
O papiro Oxirrinco III 412, datado de 230-260 DC, é um fragmento de Cesti, quase contemporâneo da obra original, encontrado no Egito. E prova que o autor da monumental obra secular, era o mesmo que tentou harmonizar a genealogias de Jesus de Nazaré e que elaborou um história universal em que a morte e ressurreição de Jesus constituia o evento principal. Parece contraditório, mas cremos que é simplesmente humano.

Catafractário (cavalaria pesada) persa ataca um Leão,
Museu Britânico, via wikicommons 
Por exemplo, um aspecto perturbador de Cesti, já percebido pelo manual militar bizantino acima, são as estratégias militares de guerra total propostas por Julio Africano ao exército romano contra o Império Parta, contendo até versões da antiguidade de armas químicas e biológicas (mesmo que tais artíficios também tenham sido usados pelos Partos).

Ocorre que, como observa Christopher Jones, doutorando na Universidade de Columbia, em seu excelente blog Gates  of Nineveh Julio Africano vivia em um mundo em que os romanos combatiam o império parto a quase 300 anos no leste, com pouco sucesso duradouro [17]. Marco Licínio Crasso foi morto e seu grande exército completamente destruído na batalha de Carras, em 53 AC, e as vitórias romanas, quando ocorriam, eram rapidamente revertidas. A estratégia romana foi conter os partos nas proximidades do Eufrates. Africano entendia que o problema não era o moral dos soldados ou a capacidade dos comandantes, mas a forma de lutar. Pior, havia sinais de que os inimigos do leste se tornariam ainda mais poderosos, pois a emergência da dinastia Sassânida, suplantando os arsacidas, centralizaria o Império Persa e o tornaria mais efetivo militarmente. Assim, entendia Africano, para enfrentar os arqueiros a cavalo iranianos, em seu território, o exército deveria adaptar suas táticas, tecnologias e treinamento, tomando como modelo as tropas de Alexandre, o Grande, que conquistou o Império Persa, e aumentar seus efetivos de cavalaria.  Séculos antes, na Europa, as legiões romanas se mostraram superiores as falanges gregas, mas o estilo de luta das falanges era mais adaptado ao terreno do Irã e Iraque [17]Neste contexto, Africano teme os persas e reconhece a desvantagem romana refletindo a ansiedade das provincias do leste e reinos clientes (em Apocalipse 16:12, como resultado de uma das sete taças da ira de Deus, o Eufrates seca, "para que se preparasse o caminho do reis do Oriente"), entendendo que Roma deve usar todos os meios que dispõe, sem limites, para proteger seu território e cidadãos. 

Uma analogia pode ser feita com a doutrina militar de retaliação massiva da OTAN frente ao Pacto de Varsóvia, nos anos 1950 e 1960, que preconizava a utilização pronta de armas nucleares para contenção de qualquer tentativa de invasão ao países membros, mesmo que utilizando apenas forças militares convencionais, frente a desvantagem das tropas da aliança em comparação a antiga União Soviética e seus aliados na Europa Central e Ocidental. 

Além disso, a visão militar agressiva de Júlio Africano não pode ser considerada algo raro entre cristãos (por exemplo, podemos citar a própria idéia de Cruzada). Os governos de países de forte herança cristã, democracias tradicionais, utilizaram armas nucleares e napalm (EUA) e armas químicas (França e Reino Unido), e pior, muitas vezes contra civis, tendo ou não os inimigos utilizado tais recursos. Inúmeros exemplos de posicionamentos cristãos belicosos estão disponíveis. O que talvez seja chocante é um exemplo não pacifista na igreja cristã pré Constantiniana.

Cesti concentra os elementos cristãos não convencionais na vida Africano. Mas em nossa série, já encontramos uma concubina de um Imperador e um banqueiro falido que se tornou Papa, um oficial romano cuja identidade cristã é assumida de forma discreta e líder provincial orgulhoso de seu cristianismo, mas engajado em jogos considerados contrários a sua fé. Tais contradições tem feito parte da vida de centenas de milhões de fieis, em todos os lugares e tempos.

Referência Bibliográficas.

[1] Tácito, Anais 15:44 
[2] Origenes, Contra Celso, Livro 3, capítulo 55
[3] Hagith Sivan (2008): Martin Wallraff (ed.), Iulius Africanus: Chronographiae. The Extant Fragments. In collaboration with Umberto Roberto and Karl Pinggéra, William Adler. Die griechischen christlichen Schriftsteller der ersten Jahrhunderte, NF 15
Bryn Mawr Classical Review 2008.04.43 http://bmcr.brynmawr.edu/2008/2008-04-43.html
[4] Henry Chadwick (2001) The Church in the Ancient Society, fl. 130
[5] Jona Lendering (2003 e 2019) Edessa (Sanli Urfa) Livius, acessado em 16/11/2019
[6] Warmick Ball (2001),Rome in the East: The Transformation of an Empire, fl. 95
[7] P. O. Skjærvø (1988) Bardesanes Encyclopaedia Iranica, acessado em 16.11.2019 http://www.iranicaonline.org/articles/bardesanes-syr
[8] Bardaisan, Livro da Lei dos Países
[9] P. O. Skjærvø (1988) Bardesanes Encyclopaedia Iranica,  acessado em 16.11.2019 http://www.iranicaonline.org/articles/bardesanes-syr
[10] Martin Wallhaff (2007) Iulius Africanus Chronographiae: The Extant Fragments, fl. xiv
[11] Dulce Maria Gonzalez Doreste e Francisca del Mar Plaza Picon (2016), susana, objeto de deseo y modelo de castidad, acessado em 16.11.2019, 
[12] Richard Burgess (2011), Apologetic and Chronography, in Martin Walhaff (ed), Julius Africanus and die christiliche weltchronik, fl. 17:
[13] Martin Wallraff (2007) Iulius Africanus Chronographiae: The Extant Fragments, fl. xxii
[14] Richard Burgess (2011), Apologetic and Chronography, in Martin Walhaff, Julius Africanus and die christiliche weltchronik, fl. 38
[15] Martin Wallraff (2012) Introduction in Martin Wallraff, Carlo Scardino, Laura Mecella e Christophe Guignard (ed.) Iulius Africanus: Cesti The Extant Fragments, fl. XVII a XIX
[16] Martin Wallraff (2012) Introduction in Martin Wallraff, Carlo Scardino, Laura Mecella e Christophe Guignard (ed.) Iulius Africanus: Cesti The Extant Fragments, fls. XI e XII
[17] Christopher Jones (2014) The Life of Julius Africanus, Part II, The General, post de 30/01/2014 https://gatesofnineveh.wordpress.com/2014/01/30/the-life-of-sextus-julius-africanus-part-2-the-general/, acessado em 15/11/2019.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

O General Romano Pompeu, os Piratas da Cilícia, e as Políticas de Segurança Pública do Brasil

Faz uns dez anos, li uma coluna do jornalista Mauro Santyanna que falava de como o Pompeu, o Grande, subjugou os piratas da Cílicia, e como a combinação de uma ação repressiva resoluta do estado e a presença de liderança com sensibilidade social resolveu um dos maiores problemas de "criminalidade" da história antiga por séculos.Não acho mais o artigo do Mauro Santyanna em lugar nenhum, mas a idéia vai render um post.


A situação reflete um paralelo interessante com o estado da segurança pública no Brasil. Conforme dados referentes a 2015, constantes no Anuário Brasileiro da Segurança Pública de 2016, publicação do Forum Brasileiro de Segurança Pública. Segundo os dados apresentados pelo anuário 58.467 pessoas sofreram morte violenta - por homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte ou em  decorrência de intervenções policiais. A cada 9 minutos, uma pessoa morreu assassinada no Brasil em 2015 [1]. A publicação compara o número de mortes por assassinato no Brasil entre 2011 a 2015, estimadas em 279.567, com os 259.124 mortes verificadas na Guerra Civil da Síria em período equivalente [1]. Mais da metade dos cidadãos assassinados (54 %), tem entre 15-24 anos, e 73 % são negros e pardos. Além disso, se somam 45.460 estupros (um cada 12 minutos), cerca de um milhão de carros roubados ou furtados nos anos de 2014-2015[1]. O Brasil, em suas três esferas de governo, gasta R$ 76,3 bilhões com os custos da violência, ou 1,38 % do PIB. Disto resulta, que um país com cerca de 552 mil policiais, tenha quase o mesmo número de vigilantes ativos (519.014). A população, amedrontada, faz o que pode, e 76 % tem medo de morrer assassinado, o que resulta em profundo ressentimento em relação garantias e direitos fundamentais dos criminosos, 57 % acreditam que "bandido bom, é bandido morto"[1].

Mosaico de um Trieme romano, Tunísia. via wikipedia commons
Conforme Plutarco de Quironea, (45-120 DC), por volta do ano 75 A.C, o mediterrâneo estava infestado por piratas, que tinham sua base na região da Cilícia, sul da atual Turquia. Em face da lenta decadência do Império Seleucida, a partir do ano 150 DC, e da queda de Cartago após sua derrota nas  guerras punica, as condições se tornaram propícias para as atividades de pilhagem. Posteriormente, as duas primeiras guerras entre os romanos e Rei Mitridades VI do Ponto, nos anos 80 AC, contribuíram ainda mais para desestabilizar a região. 


Os dois principais relatos em relação a atividade dos piratas são o de Plutarco (Vidas Paralelas, Pompeu, 24-28), escrito por volta do ano 100 DC, e Apiano de Alexandria (95-165 DC), no livro 12, §91-96, de sua Historia Romana, escrito entre 120 a 160 DC [2]. Em face de não serem fontes contemporâneas dos eventos, são extremamente relevantes as alusões aos eventos e personagens contidos no Discurso de Marcos Tulio Cícero, Pro Lege Manilia, proferido em 66 AC [3]. Todos esses relatos concordam entre si nos seus fatos fundamentais, e sua historicidade será presumida à grosso modo nos seus elementos básicos. Abaixo serão transcritos e comentados partes do relato de Plutarco, sendo os demais relatos mencionados ocasionalmente, junto com as analogias a situação brasileira. Nos diz Plutarco:
(...) O poder dos corsários do mar, que começou nas costas da Sicília, do qual no começo não fizeram caso porque não se aperceberam, veio a tomar corpo e aumentar no tempo da guerra contra o rei Mitridates, quando se alugaram aos serviços desse rei. E os romanos, impedidos com suas guerras civis e combatendo entre si às portas da cidade de Roma, deixando o mar sem guarda, isto levou os corsários adiante em seus propósitos e deu-lhes coragem para ir além do que já haviam feito, de sorte que não somente destruíam os navegantes, indo e vindo pelo mar como forçavam também as ilhas e cidades marítimas, pelo que já havia até homens opulentos e de antiga nobreza, e que eram tidos como pessoas conceituadas, que embarcavam em navios dos corsários e se uniam a eles, como se a pirataria se tivesse tornado louvável e honesta,[2]

Neste interim, os piratas da Cílicia se tornaram extremamente organizados e apresentavam um desafio para os governos do Mediterrâneo Oriental, nenhum dos quais com condições navais de opor-se a eles. As comunidades tiveram que firmar acordos e fazer concessões aos piratas. Além disso, como observa o Professor Jona Lendering, "desesperados de todos os países afluiram para aquelas regiões, e começaram nova vida como piratas"[4] , uma vez que as constantes guerras deixaram regiões inteiras em ruína econômica, como a ilha de Creta. Por fim, além da pilhagem de navios e cidades costeiras, os piratas passaram a ter como sua principal atividade o tráfico de escravos, e seus cativos eram vendidos em mercados como Delos. Nesta época, Roma demandava grande e crescente quantidade de escravos, já que, na Italia, as grandes fazendas dos senadores e cavaleiros precisavam de mão de obra intensiva (com o inconveniente adicional dos escravos retirarem as oportunidades de trabalho dos romanos livres). Sendo assim, Roma evitou o quanto pode confrontar os piratas. Semelhantemente, no Brasil do sec. XXI, o crime organizado se beneficia das fraquezas dos governos estaduais, (a maioria não capacitada para enfrenta-lo), da falta de perspectivas econômicas, (após várias décadas perdidas), de populações empobrecidas e com pouca chance de absorção no mercado de trabalho, e das conveniências do sistema politico e econômico que frequentemente se beneficia do crime organizado, na forma de suborno ou apoios políticos, e estabelece alianças tácitas ou explicitas.

Levantaram os piratas, em vários lugares, arsenais, portos e torres de vigia para fazer sinais com fogo ao longe, das praias fortificadas, e além disso, formaram-se frotas de navios, compostas não somente de bons e fortes galeões para o remo, com pilotos astutos e marinheiros espertos, com navios ligeiros para servir na ocasião precisa, mas também enfeitados profusamente, o que os tornava odiados mais ainda pela sua superfluidade, não temendo o perigo de suas forças; pois tinham as popas de suas galeras todas douradas, os tapetes e cobertores de púrpura, os remos prateados,’ como se tivessem prazer em fazer demonstração de sua pilhagem. Não se viam nem se ouviam por todos os lados das costas senão sons de instrumentos de música, canções, banquetes e festins, prisões de capitães e de pessoas de qualidades, resgates de mil prisioneiros, todas aquelas coisas se faziam, para a desonra e vergonha do povo romano. Possuíam já uns mil navios e já haviam tomado umas quatrocentas cidades, onde destruíram e roubaram vários templos, que até então jamais haviam sido poluídos nem pilhados, como o dos Gêmeos na ilha de Claros, o de Samotrá-cia (23), o de Ceres na cidade de Hermíona, de Esculápio em Epidauro, os de Netuno em Istmo, em Tanara, e na Calábria, os de Apoio em Actium, na ilha de Leucá-dia, os de Juno em Samos, em Argos e na Leucânia.

Além de organizados, bem armados e insolentes, os piratas se tornavam cada vez mais ousados. Possuiam uma frota poderosa, tripulações capacitadas e seus cofres eram irrigados com crescente fluxo de recursos de suas atividades. Possuiam 1000 navios e exerciam domínio sobre 500 cidades. Neste ponto, pode ser estabelecida outra analogia com a criminalidade brasileira. O domínio efetivo de amplas porções de território urbano, principalmente nas periferias e comunidades pobres, em geral desprovidas de serviços públicos e atuação do estado. Em Porto Alegre, por exemplo, facções criminosas dominam 38 dos 83 bairros, segundo reportagem do G1. como nos relata Plutarco:

 Além das insolências e injúrias que esses piratas faziam aos romanos sobre o mar, ainda desembarcavam em terra e iam espreitar os caminhos, arruinando e destruindo suas casas de campo, que se encontravam ao longo das praias e capturaram uma vez dois pretores romanos, Sextílio e Belino, vestidos com seus longos trajes de púrpura e acompanhados de seus sargentos e oficiais. Também foi assaltada por eles a filha de Antônio, personagem que havia recebido as honras do triunfo, quando ela ia para os campos, tendo sido resgatada por uma grande quantia de dinheiro; mas onde demonstravam mais desdém e sarcasmo, era quando aprisionavam alguém que se punha a reclamar, dizendo ser cidadão romano e dava seu nome; então eles fingiam estar admirados e ter grande medo; batiam as mãos sobre as coxas dos prisioneiros e se punham de joelhos diante dele, suplicando que os perdoasse. O pobre prisioneiro, pensando que essa comédia era sincera, vendo-os humildes e disfarçando tão bem assim, vinham alguns que lhe punham sapatos nos pés e outros que o vestiam com um traje longo à moda romana, para que, diziam eles, não fosse outra vez estranhado; depois, quando haviam zombado bastante dele, no que sentiam grande prazer, finalmente, em alto mar, atiravam fora do navio uma escada e mandavam que o prisioneiro descesse e fosse em boa hora; e se não quisesse descer por si mesmo, eles o atiravam à forca no mar e o faziam assim afogar. Com o seu poder, os ladrões ocupavam e tomavam inteiramente o mar Mediterrâneo em sua sujeição, de tal forma que não havia mercador que pudesse por ali navegar [2].
Denário com efigie de Gneu Pompeu , via wikicommons
A situação, porém, só começou a assustar Roma realmente, no momento em que suas elites começaram a se sentir ameaçadas. Primeiro o risco físico, Plutarco relata como dois Pretores foram capturados. Para tornar a situação mais humilhante, os magistrados estavam acompanhados de seus oficiais (lictores). Destruiam as casas de campo dos ricos, e sequestravam seus familiares. Solicitavam vultosos resgates. Matavam cruelmente cidadãos romanos. Tais fatos forçaram as elites romanas a uma reação, os riscos agora se tornavam palpáveis. Além disso, o comércio marítimo se tornou inviável  e os preços do trigo e outros cereais - dos quais a Itália não produzia em quantidade suficiente, dependendo de importações do Norte da África - disparou, desestabilizando os fundamentos econômicos da República (Apio é mais explicito, e diz que alguns romanos já passavam fome). É possível uma analogia com a situação atual do Brasil, traficantes queimam ônibus com frequência, e, as vezes, com seus passageiros, Os custos da criminalidade impactam pesadamente os cidadãos e o setor produtivo. Dados recentes, indicam que no Rio de Janeiro transportadoras empregam até 20% do orçamento em segurança.

No ano 67 AC, o povo, desesperado, recorreu ao Senado. Surgiu a proposta de dar poderes extraordinários ao  general mais habilidoso de Roma, a época, Gneu Pompeu, o Grande (106-48 AC):

Isto foi a principal causa de agitação dos romanos, temendo a necessidade de víveres e augurando carestia e fome. fazendo-os enviar Pompeu para tomar o domínio do mar a esses corsários; e quem primeiro levou avante o propósito, foi Gabínio, um de seus familiares» que não lhe queria dar por edital somente a autoridade de um almirante ou comandante da marinha, mas o poder de uma monarquia soberana sobre todas as espécies de pessoas, sem estar sujeito a prestar contas, nem depois sindicado pelo que teria feito no cargo; pois o teor do edital lhe dava plenos poderes para comandar soberanamente em todos os mares, desde as colunas de Hércules e em toda a terra firme nos arredores, até vinte e cinco léguas atrás do mar (Havia então poucos países sob o domínio romano, que ficavam mais afastados, mas estavam compreendidos ali grandes nações e príncipes poderosos). Com vantagem deu-lhe também o direito de escolher de entre os do Senado, quinze tenentes para dar a cada um os cargos que bem quisesse e receber dinheiro do tesouro ou das mãos dos coletores, para manter a frota de duzentas velas, e com todo o poder de levar quantos guerreiros e quantos galeões e remadores lhe aprouvesse. Esta proposição, tendo sido lida publicamente, o povo aprovou e autorizou-a com prazer; mas aos principais do Senado, pareceu que aquilo lhe dava um poder que não suplantava somente todo o desejo mas lhe infundia grande temor, em dar assim a um particular uma autoridade tão absoluta e tão pouco limitada [2];

Os poderes que seriam concedidos a Pompeu, segundo a proposta inicial, do Tribuno do Povo Aulo Gabínio, eram superiores até mesmo ao dos ditadores na República Romana, ainda que com escopo mais específico. Como já observamos aqui no AD Cummulus, na República Romana, em situações de grave crise ou iminente perigo para o estado, um ditador poderia ser eleito. Era um magistrado com poderes amplos e excepcionais, com ascendência sobre os consules, o senado e demais oficiais. Para que não fosse tentado a se perpertuar no poder e/ou tornar-se um tirano, seu mandato era limitado a seis meses, devendo prestar contas de seus atos quando deixasse o poder. A proposta de Gabinio era de transformar Pompeu em uma espécie de ditador maritimo, com domínio sobre o Mediterrâneo e áreas costeiras, até cerca de 50 km do mar, só que, diferentemente de outros magistrados que exerciam a figura de Ditador, Pompeu não teria de prestar contas de seus atos posteriormente. Tal proposta constituía um risco muito grande para a República e as garantias dos cidadãos romanos. No entanto, conforme Plutarco, o povo aprovou eloquentemente, tal o desespero que a situação provocava. Da mesma forma, no Brasil, é crescente a pressão por medidas de força na área criminal, independente de sua efetividade. 
    
 por esta razão todos se opuseram, exceto César, o qual favoreceu o projeto, não que se preocupasse em dar prazer a Pompeu, mas porque então já procurava insinuar-se nas boas graças do povo; mas houve outros que apertaram e repreenderam gravemente Pompeu, chegando um dos cônsules a censurá-lo por querer seguir os passos de Rômulo, e advertindo-o a que não procurasse o mesmo fim que ele. O povo desejou até espancar esse cônsul por isto. Catulo apresentou-se em seguida para falar contra; o povo, de início, deu-lhe pacífica audiência, porque era uma pessoa venerável; começou ele por deduzir, sem nenhuma demonstração de inveja, muitas e belas coisas em louvor de Pompeu, e por fim, aconselhou o povo a poupá-lo e não expô-lo ao perigo de tantas guerras, umas sobre as outras, a um personagem como êle, que lhes devia ser tão querido: — "Pois se vós vindes a perdê-lo, disse êle, a quem podeis em seu lugar?" O povo então exclamou bem alto: —"Tu mesmo". Vendo então que perdia seu trabalho procurando desviar o povo desse propósito, saiu. Róscio apresentou-se depois procurando falar também, mas não pôde nem conseguir audiência; e vendo que não queriam ouvi-lo de outra forma, mostrou por sinais com os dedos que não deviam entregar esta responsabilidade a Pompeu só, mas também a um outro com êle. O povo, não gostando, pôs-se a gritar tão forte, que um corvo, voando na ocasião por cima, caiu entre a multidão; por onde se pode compreender que os pássaros caem do ar na terra, não porque o ar, agitado por alguma veemente concussão se rompa e venha a fender-se; mas porque o golpe da voz, quando é tão forte e tão violento, produz como que uma tormenta no ar, os atinge e abate [2].

A oposição entre o anseio do povo por mais segurança e o desejo dos políticos pela manutenção do status quo chega ao auge. Não nos referimos ao Brasil, por óbvio, mas ao relato de Plutarco sobre as medidas a serem adotadas para conter os criminosos. Júlio César é o único dos principais  senadores a apoiar a medida, não pelo interesse público, mas para cortejar o povo e Pompeu. No entanto, apesar das motivações apontadas por Plutarco, César, cerca de 10 anos antes, já havia tido uma experiência com aqueles mesmos piratas. Foi sequestrado quando seu navio passava pela Ilha de Rodes, e ficou em poder dos piratas por cerca de 40 dias. Seus companheiros de viagem foram enviados para recolher 50 talentos, para seu resgate. César manteve um relacionamento amistoso com seus captores, e "brincava" que seria misericordioso com eles quando os derrotasse. Libertado, César contratou um frota, prendeu aqueles piratas e os mandou crucificar, mas para cumprir sua promessa, cortou suas gargantas antes [5]. Seja como for, o apoio de César foi bem vindo, uma vez que os lideres do Senado, tais como os poderosos Quinto Lucácio Catulo e o tribuno Lúcio Roscio Oto se recusaram a apoiar a proposta.

Nesse dia a assembléia foi dissolvida sem ficar nada concluído e na data prefixada para passar o decreto pelas vozes e sufrágios do povo, Pompeu foi para os campos, onde recebeu a comunicação de que havia sido autorizado, voltou e entrou de noite na cidade para evitar manifestações de inveja contra ele, devido a multidão que acorreu de todas as partes da cidade à sua frente e que o acompanhou até sua casa. No dia seguinte, cedo, saindo em público, sacrificou aos deuses, e sendo-lhe dada audiência em plena assembléia, fez que ajuntassem ainda muitas coisas ao seu poder, o dobro quase do que lhe havia sido concedido no primeiro decreto; pois obteve que o público lhe armasse quinhentos navios e levasse cento e vinte mil combatentes a pé e cinco mil a cavalo; escolheu mais, dentro do Senado, vinte e quatro personagens, os quais haviam sido todos governadores e com encargos de armas e também dois tesoureiros gerais.   Nesse ínterim,  os vivedores de aventuras se encolheram, pelo que o povo ficou à vontade, tendo ocasião de dizer que só o nome de Pompeu havia amortecido aquela guerra [2]. 

Na República Romana, as leis eram, tecnicamente, aprovadas pela Assembléias, formadas pelos cidadãos romanos, Cabia ao Senado a análise prévia das leis  a serem submetidas a aprovação e orientar os magistrados quanto a sua aplicação. No caso, a assembléia "atropelou" as reservas e oposição do Senado. Enquanto os senadores se questionavam quanto a conveniência de uma ação decisiva contra os piratas, com o inconveniente de prejudicar o tráfico de escravos e concentrar poderes sobre Pompeu, o povo levou em conta o risco palpável de morrer de fome em face da escassez e aumento do preço do trigo pela ação dos piratas. Os ricos tinham opções, os pobres não. Semelhantemente, no Brasil do século XXI, os ricos contratam seguranças, vivem em condomínios fechados e blindam carros. Como observa Alon Feuwerker "(...) Os pobres são, ao contrário, quem mais precisa do aumento da capacidade de dissuasão do Estado contra o crime. O pobre não mora em condomínio fechado, não tem segurança particular, não usa carro blindado. Nem o pobre nem a classe média. O pobre, aliás, volta para casa muitas vezes a pé em ruas sem iluminação. Quem está mais sujeita a ser estuprada e morta na volta da escola ou do trabalho? A filha do rico ou a filha do pobre? Quem tem mais probabilidade de morrer num assalto ao ônibus em que viaja? O filho do rico ou o filho do pobre? [6]

Foi aprovada a Lei Gabinia,  que deu o dobro dos recursos que o Senado hesitara em conceder. A mobilização do estado seria integral, como típico de Roma em momentos em que a sobrevivência do estado era ameaçada. Plenos poderes foram concedidos a Pompeu (por três anos, no relato de Apiano), o marco legal da República foi alterado, para compatibilizar com os poderes extraordinários concedidos. recursos do Tesouro Romano foram disponibilizados. Pompeu tinha agora um exército de 120 mil de infantaria, 5 mil cavaleiros, e 500 navios (segundo Apiano, 4 mil cavaleiros e 270 navios, mas tanto é possivel que tanto a esquadra de Pompeu, qunato a dos piratas tenha sido exagerada). Sabiamente, Pompeu escolheu 24 senadores experientes, que já haviam governado provincias,  para dividir as responsabilidades e auxília-lo, além de sinalizar seu respeito pela ordem estabelecida e que não tentaria subverter a República. Alguns desses oficiais são mencionados por Apiano.


Assim, dividiu o mar entre terras, em treze regiões em cada uma das quais ordenou um certo número de navios com um de seus tenentes; e, tendo espalhado suas forças, envolveu dentro de suas redes todos os navios dos corsários que se achavam juntos, aprisionou-os e os fez vir para terra; mas aqueles que em boa hora debandaram ou que puderam escapar dessa caçada geral, foram todos se esconder na Cilícia, nem mais, nem menos como as abelhas na colméia, contra os quais quis ir ele mesmo pessoalmente com sessenta dos melhores navios; todavia, não se preparou para ir sem que primeiramente tivesse limpo todo o mar da Toscana, as costas da Líbia, da Sardenha, da Sicília e da Córsega, de todos esses ladrões, que anteriormente aí costumavam pilhar, o que foi feito no espaço de quarenta dias, mediante o trabalho que teve e a boa diligência que tiveram também seus tenentes [2].
Ulisses e as sereias, mosaico no Museu Nacional do Bardo, Túnis, Tunisia,
século II DC, via wikicommons
Os piratas atuavam em quase todo Mediterrâneo, de forma descentralizada. Pompeu então dividiu seus navios em 13 distritos, que passaram a atacar localmente o criminosos, que não tiveram tempo de se reagrupar, sendo assim cercados e derrotados. Primeiro as regiões mais próximas de Roma, depois  as grandes ilhas vizinhas da Itália, Sicília, Córsega e Sardenha, e em seguida as costas da Líbia, no outro lado do mar. Em quarenta dias, Pompeu havia desarticulado os piratas que ameacavam as rotas vitais de cereais provenientes do Norte da Africa até Roma.

Plutarco continua seu relato, contando um pouco da política em Roma, Cornélio Piso, um dos cónsules, tentou minar a posição de Pompeu, mas foi contido por Auleo Gabínio. Pompeu voltou brevemente a Roma, onde foi aclamado pelo povo, para organizar a fase final da campanha, atacando os piratas em sua base na Cilícia.

Tendo aprisionado alguns corsários daqueles que se achavam ainda juntos, pilhando o mar aqui e acolá, tratou-os humanamente quando pediram perdão, e tendo seus navios e suas pessoas em seu poder, não lhe fez mal algum, pelo que seus companheiros, com esperança, fugiram aos outros capitães, assim como seus tenentes e foram entregar-se a ele com suas mulheres e filhos. Pompeu perdoou a todos os que se entregaram voluntariamente, e assim veio a descobrir e a seguir o rasto dos outros, que aprisionou afinal, os quais se sentindo culpados de casos irredimíveis, esconderam-se; todavia, o maior número desses, os mais ricos e mais poderosos, haviam retirado suas mulheres, seus filhos, seus bens e todo o seu povo inútil para a guerra, para dentro dos castelos e pequenas fortalezas do monte Tauro, e aqueles que eram aptos para defesa, embarcaram em seus navios diante da cidade de Coracésio onde esperaram Pompeu e lhe deram combate, no qual foram derrotados primeiramente no mar, depois sitiados em terra; mas pouco depois pediram que os tomasse a seu favor e se entregaram com suas cidades, suas ilhas fortificadas, de sorte que estas eram bem difíceis não somente de serem não só forçadas, como também abordadas. Assim, esta guerra foi terminada e todos os corsários, em qualquer parte ou lugar em que estivessem, foram expulsos fora do mar no espaço de três meses, não mais. Aí ganhou ele grande número de navios, além de noventa galeras armadas (...);[2]

Segundo Plutarco, Pompeu mostrou-se clemente com os piratas que se entregavam. Isso acabou incentivando a deserção entre eles, que cada vez mais se reduziam em número de combatentes. Os que se entregavam traziam informações importantes sobre o inimigo. Em algum tempo, os remanescentes foram derrotados no mar e em terra.  A abordagem de Pompeu foi tão engenhosa como atípica para os comandantes romanos, que na repressão a movimentos de rebelião costumavam ser extremamente cruéis.  Pouco anos antes, em 71 AC, Marcus Licínio Crassus havia derrotado os escravos rebeldes comandados por Espartaco, e mandado crucificar 6 mil dos insurgentes as margens da Via Appia, entre Roma e Cápua  (uma das mais importantes estradas romanas), para que seus restos fossem vistos por meses e anos [7], no relato de Apiano [8]. Cerca de 60 anos depois, Flávio Josefo narra que Quintilio Varo crucificaria, praticamente sem critério, 2 mil judeus na revolta após a morte de Herodes [9]. Tipicamente, os romanos buscavam expor o máximo possível os individuos condenados por pertubarem a ordem pública. A exibição das mortes cruéis dos criminosos era um mecanismo de disuasão. Como observa o Professor Bart Erhman, da Universidade da Carolina do Norte, em relação a crucificação, se o Central Park (Nova Iorque) fosse território romano, e houvesse problemas com roubos de carro, as autoridades romanos crucificariam um punhado de ladrões de carro nas imediações, para que todos vissem, e aí veríamos quantos ousariam roubar uma BMW depois disso [10]. A estratégia de Pompeu, embora possa ter parecido estranha para os líderes romanos, uma ruptura com a abordagem anterior e posterior, foi eficiente e inteligente. Em três meses, os piratas haviam sido totalmente subjugados.

Os altos níveis de violência no Brasil, tem facilitado a proliferação de idéias que visam negar qualquer tipo de direito humano básico aos criminosos. Adicionalmente, tal percepção é muito forte no aparelho repressivo do estado. No entanto, do que adiantou? Em suas abordagens, as forças políciais brasileiras matam 5 pessoas a cada dia, cinco vezes mais que nos EUA, ainda que os indíces de criminalidade nos Estados Unidos sejam muito inferiores. A vida dos policiais também não é segura. No Estado do Rio de Janeiro, 3 mil policiais morreram em serviço entre 1994 e 2016, ou 3,59% do efetivo empregado, maior que a chance de ser morto entre os soldados do Exército Americano nas duas guerras mundiais. No mesmo período, mais de 14 mil policiais foram feridos. É 765 vezes mais fácil você ser ferido servindo na polícia do rio do que estando em guerras".

e, quanto às pessoas, que eram mais de vinte mil, não pôs somente em deliberação se as devia fazer morrer, mas deixou-as ir e afastar-se à vontade, ou então se reunirem, visto serem em tão grande número, acossados pela pobreza e todos guerreiros, que não lhe pareceu que condená-las fosse sabiamente feito. Ainda mais, discorrendo consigo mesmo, que o homem por sua natureza não é indomável nem feroz, mas ao contrário, que sai fora de seu eu e de seu natural, quando se dá ao vício e que se habitua pouco a pouco, com a mudança de lugar e maneiras de viver; atendendo que os animais mesmo que por sua natureza são selvagens e ferozes, se suavizam bem e se despojam de sua altivez natural, quando habituados, pouco a pouco a uma vida mais suave, resolveu transportar esses corsários do mar para a terra e fazê-los ter a vida justa e inocente dos moradores das cidades e lavradores da terra. Alojou alguns dentro de algumas pequenas cidades dos cilicianos, que eram meio desertas, e que por esta causa os receberam voluntariamente, dando-lhes terras para os alimentar. Também a cidade dos solianos havia antes sido destruída e despovoada por Tigranes, rei dos armênios; querendo levantá-la, aí deixou um grande número desses homens e logrou igualmente colocar diversos na cidade de Dima no país de Acaia, que então tinha falta de habitantes e possuía grande quantidade de belas e boas terras[2]

Pompeu, tenho subjugado totalmente os piratas, tem que decidir o que fazer com eles. Sua primeira observação é de que são seres humanos, semelhantes a ele e aos romanos. É fácil esquecer a humanidade de nosso inimigos, e de criminosos mais ainda. A natureza humana faz pessoas serem capazes de matar, roubar e impor sofrimento por lucro, mas em muito maior proporção a constituir famílias, criarem filhos, viverem em sociedade, trabalhar e seguir leis, e que as circunstâncias passadas e o ambiente presente são determinantes. Entende também que, ainda que, seus inimigos fossem feras e não humanos, poderiam ser domesticados. Sendo assim, Pompeu arrisca em transformar esses criminosos, e suas famílias, em colonos.  No Brasil, com todos os problemas do sistema carcerário, algumas experiencias, como as APACs (Associação de Proteção e Assistência aos Condenados) tem conseguido - pela combinação de trabalho, estudo, religião, projetos sociais - recuperar a maioria dos presos, a custos significativamente menores. Na experiência internacional, a Noruega chega a recuperar 80 % dos presos.

A aposta de Pompeu rendeu frutos e a pirataria seria reduzida drasticamente no Mediterrâneo por séculos, as rotas marítimas floresceram e o comércio internacional prosperou. A combinação entre políticas repressivas, com total mobilização dos recursos do Estado, com o entendimento da realidade social e da natureza humana dos agressores e políticas sociais adequadas foi o segredo do sucesso.  Os ex-piratas recebem terras em áreas desertas da Cilícia  e fundaram os assentamentos de Malo, Pompeiopolis (em homenagem a Pompeu), Epifanéia (atual Hama) e Adana, cidade vizinha a Tarso, onde algumas décadas depois nasceria um judeu romano chamado Saulo, ou Paulo de Tarso, que, um século depois, aproveitaria o Mediterrâneo livre de pirataria para fazer suas viagens missionárias e levar a semente do cristianismo  da Judéia a Espanha. Talvez tenha pensado nos mares em que se circulava  livres de pirataria, protegido pela ordem romana,  como parte da "plenitude dos tempos", preparada por Deus, para enviar seu filho ao mundo (Gl. 4:4). Os piratas seriam relevantes nos séculos seguintes pois, segundo Plutarco, "(...) ofereciam estranhos sacríficios sobre o Monte Olimpo, e realizavam certos ritos secretos, dentre os quais os mistérios de Mitras foram preservados até os hoje, tendo sido instituidos previamento por eles (...). [2] Mas essa, é outra história, que os leitores podem conferir aqui mesmo no Adcummulus, em nossa série sobre Mitras.

Referências
[1] Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2016, fls 6-7. Fórum Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo http://www.forumseguranca.org.br/storage/10_anuario_site_18-11-2016-retificado.pdf, acessado em 17.01.2017.
[2] Plutarco de Quironeia, Vidas ParalelasPompeu, 24-28, tradução em português em http://www.consciencia.org/roma-antiga-pompeu-vidas-paralelas-plutarco/4, e Apiano de Alexandria,  Historia Romana, livro 12, §91-96, http://www.livius.org/articles/person/appian-of-alexandria/?, acessados em 03.02.2017
[3] Marco Túlio Cicero, Pro Lege Manilia, http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus%3Atext%3A1999.02.0019%3Atext%3DMan.%3Achapter%3D1%3Asection%3D1 , acessado em 02.02.2017
[4] Jona Lendering (2015) Cilician Pirates, http://www.livius.org/articles/people/cilician-pirates/?,  artigo de 2001, revisado em 2015, acessado em 30.01.2017
[5] Suetônio, Vidas dos Césares, Julio César 4.1 e 74.2, acessado em 01.02.2017
[6] Alon Feuwerker (2007) Falsa defesa dos pobres, de 14,2.2007  http://www.blogdoalon.com.br/2007/02/ricos-e-pobres-1402.html, acessado em 02.02.2007.
[7] Jona Lendering (2016) Spartacus, http://www.livius.org/articles/person/spartacus/, artigo de 2002, revisado em maio de 2016, acessado em 02.02.2017
[8] Apiano de Alexandria, Guerras Civis, 1:120 http://www.livius.org/sources/content/appian/appian-spartacus/, acessado em 02.02.2017
[9] Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 17.286 http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus%3Atext%3A1999.01.0146%3Abook%3D17%3Asection%3D286, acessado em 02.02.2017.
[10] Bart Erhman (2000) Jesus, Apocaliptic Prophet of the New Millenium, fl. 223, via googlebooks
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