terça-feira, 16 de janeiro de 2018

O Decálogo e os judeus cristãos

Detalhe artístico da Sinagoga de Burlington com o decálogo
O Livro dos Atos dos Apóstolos no seu capítulo 21 nos mostra um evento crítico para a vida de Paulo de Tarso quando este foi à Jerusalém pela última vez. Segundo o relato, havia naquela cidade milhares de judeus conversos ao movimento dos nazarenos e eles eram zelosos à Lei. Ele estavam preocupados e inquietos sobre os relatos que diziam que Paulo estava pregando aos judeus da Diáspora para que abandonassem a Lei. Tiago, líder da Igreja-mãe faz então com que este vá ao Templo com um grupo de Nazireus de tal forma a realizar as oferendas e oblações necessárias ao término de seus votos. Era um ato simbólico que demonstraria a fidelidade de Paulo à lei mosaica. Nós sabemos que a ortodoxia cristã judaica, centralizada na Igreja-mãe de Jerusalém, manteve sua fidelidade à Torá e que milhares de judeus-cristãos eram zelosos da Lei Mosaica, seguindo-a finalmente. A tradição, pois, dos seguidores principais de Jesus na Palestina se manteve fiel à Lei seguindo os 613 mitzvot [mandamentos].


Nós sabemos também que o Primeiro Concílio realizado em Jerusalém [Atos 15] , decidiu que os cristãos gentios não eram obrigados a seguir a Lei, tendo Tiago, líder da Igreja, dado a eles, apenas 3[4] prescrições [mitzvot negativas] a serem cumpridas. Posteriormente, o próprio Tiago, no capítulo 21 retomaria o tema:

"Todavia, quanto aos que creem dos gentios, já nós havemos escrito, e achado por bem, que nada disto observem; mas que só se guardem do que se sacrifica aos ídolos, e do sangue, e do sufocado e da fornicação."[Atos 21:21]

A liderança da Igreja, sintetizada nas ordenanças de Tiago, parece querer deixar claro as obrigações dos distintos grupos: a) judeus-cristãos deveria se manter fiéis à Torá (613 mitzvot) e b) gentios-cristãos deveriam se ater às ordenanças supracitadas. A evidência histórica posterior sobre os grupos judaico-cristãos "os nazarenos" e os "ebionitas" relatadas por Irineu de Lyon e Epifânio de Salamis nos mostram que tais grupos permaneceram fiéis à Lei, em nada se destinguindo dos demais judeus, a não ser o fato crucial de crerem em Jesus como messias.


O texto do Novo Testamento nos apresenta algumas passagens dispersas nas quais trechos do Decálogo são prescritos. Notadamente poderíamos citar o diálogo entre Jesus e o jovem rico no qual assim encontramos:

"E eis que, aproximando-se dele um jovem, disse-lhe: Bom Mestre, que bem farei para conseguir a vida eterna? E ele disse-lhe: Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos. Disse-lhe ele: Quais? E Jesus disse: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho; Honra teu pai e tua mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo." [Mateus 19:16-19]
E eis que, aproximando-se dele um jovem, disse-lhe: Bom Mestre, que bem farei para conseguir a vida eterna?
E ele disse-lhe: Por que me chamas bom? Não há bom senão um só, que é Deus. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos.
Disse-lhe ele: Quais? E Jesus disse: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho;
Honra teu pai e tua mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo.
Mateus 19:16-19


Ao longo do NT é possível encontrar a repetição de nove das dez ordenanças expostas no Decálogo. A única ausente se refere à guarda do Shabbat. Na literatura cristã primitiva, é somente no final do século II d.C que encontramos uma formulação doutrinária cristã em defesa do Decálogo. Ela se encontra nos trabalhos de Clemente de Alexandria, notadamente na obra Stromata, Livro VI, Capítulo XVI.



"E a quarta palavra é a que intima que o mundo foi criado por Deus, e que Ele nos deu o sétimo dia como um descanso, por conta da dificuldade que há na vida. Porque Deus é incapaz de cansaço e sofrimento, e desejo. Mas nós, que suportamos a carne precisamos descansar. O sétimo dia, portanto, é proclamado um descanso -abstração de males- nos preparando para o Dia Primal, nosso verdadeiro descanso, o que, na verdade, é a primeira criação da luz, em que todas as coisas são vistas e possuídas. A partir deste dia que primeira sabedoria e o conhecimento nos iluminam. Por que a luz da verdade, a verdadeira luz, lançando nenhuma sombra, é o Espírito de Deus indivisivelmente dividido por todos, que são santificados pela fé, ocupa o lugar de uma luminária, para o conhecimento das existências reais. Ao segui-lo, portanto, através de toda a nossa vida, nos tornamos impassíveis, e isso é para o descanso." Clemente de Alexandria, Stromata, Livro VI, Capítulo XVI  

Segundo Clemente de Alexandria, o descanso físico do sábado é apenas uma preparação para o dia primeiro, o verdadeiro descanso cristão.

E sabemos também, como vimos, que o shabbat foi então interpretado a partir de uma perspectiva espiritual. A questão a saber agora é: de onde veio isso, dado que os cristãos judeus ortodoxos eram fiéis à totalidade da Lei e os gentios foram eximidos de segui-la. Como apareceu o decálogo nessa estória? Os gentios não teriam força alguma para determinar teologicamente uma trajetória de pregação junto aos judeus, advogando pelo decálogo. Sendo assim, a resposta só pode estar DENTRO DOS PRÓPRIOS JUDEUS CRISTÃOS.

Sabemos, através dos Atos dos Apóstolos, que houve uma grande perseguição aos cristãos em Jerusalém, após o discurso e apedrejamento de Estevão. No entanto, a comunidade apostólica foi deixada em paz. Não só em paz, como se estabeleceu firmemente em Jerusalém, fazendo de lá o centro da cristandade e pouco sendo incomodada pelos demais judeus. Quem seriam estes outros cristãos que eram então tão perseguidos pelos judeus? Certamente um grupo heterodoxo, separado da ortodoxia apostólica de Jerusalém, que pregava contra a Lei [613 mitzvot]. A hipótese forte se encontra nos JUDEUS HELENISTAS seguidores de Jesus.

Nas sinagogas, o Decálogo era recitado ordinariamente nas assembléias. Encontramos também uma importância dos decálogos através dos filactérios encontrados em Qunram contendo o decálogo. Em determinado momento, no entanto, a recitação do decálogo foi proibida dentro da Sinagoga. Por qual razão? O Talmude da Babilônia assim nos fala:

 "Ambos rabi Matna e Rabi Samuel bar Nahmani afirmam que por direito os Dez Mandamentos devem ser recitado todos os dias. Por que, então, é que não se faz? Por causa da antipatia dos Minim. O objetivo era negar a alegação de que estes dez, e não mais, foram ditas a Moisés no Sinai."[Talmude da Babilônia, mTam 5.1.] 

De forma similar assim pontua o Talmude Palestino:

 "Rabi Judá citou Samuel: As pessoas queriam recitar os Dez Mandamentos em conjunto com a Shema fora do Templo, mas a longa prática tinha sido abandonada por causa dos argumentos dos Minim. O mesmo foi ensinado em um baraita: R Nathan disse, as pessoas de fora do Templo queriam ler dessa maneira, mas o costume tinha sido abolido por causa dos argumentos dos Minim. Rabá bar Rabi Huna pensou em instituir a prática em Sura, mas R. Hisda disse-lhe: O costume foi posto de lado por causa dos argumentos do Minim. Amemar pensou em fazer o mesmo em Nehardea, mas Rabi Ashi lhe disse: Ele foi posto de lado por causa dos argumentos do Minim. "[Talmude da Babilônia, mTam 5.1] 

Os minim era um grupo de judeus heréticos que passaram a pregar que a Lei de Moisés não estava mais em vigência. Para eles, somente o Decálogo era o legítimo pronunciamento legal dado por Deus à Moisés. Alguns pesquisadores associam estes Minim aos cristãos. A pregação herética dos Minim foi de tal ordem que os rabinos foram forçados a eliminar a pregação do Decálogo nas Sinagogas, para que os fiéis não pensassem que só estas eram as leis fundamentais para o judaísmo. A questão, no entanto, caso associemos os Minim aos cristãos é que estes não representavam também a própria ortodoxia cristã. A Igreja-mãe de Jerusalém continuou a ser fiel à Toráh, todos os cristãos judeus ortodoxos guardavam a Lei inteira. O fato é que se os minim forem judeus cristãos, estes judeus cristãos eram também heréticos para o próprio Cristianismo Matriz.

Além de cessar a recitação do Decálogo nas Sinagogas, foi implementada a chamada benção dos Hereges, Birkat ha-minim , no qual se os minin eram amaldiçoados dentro das Sinagogas em pé de igualdade com os invasores romanos. É possível que a ação destes minim seja um produto do cristianismo judeu helenizado. Sabemos que o grupo helenista fugiu para as terras da Judéia e da Samaria. É possível que de Lá, da Samaria e também da Síria, tenham se formado grupos de judeus cristãos que pregavam a validade apenas do Decálogo.

Sabemos também que a comunidade formada pela tradição Joanina teve sérios problemas e foi expulsa da Sinagoga. Este é um indício importante. O Evangelho de João é o único que menciona Jesus quebrando a Lei de forma explícita.

"Por isso, pois, os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque não só quebrantava o sábado, mas também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus." [João 5:18]

É possível argumentar que para a comunidade joanina, a Lei Mosaica já não era um item de relevância, se opondo assim de forma frontal à tradição rabínica das sinagogas. Disso, podemos algumas coisas. A tradição cristã ligada ao decálogo nasce dentro do próprio judaísmo, caso seja possível afirmar que os minim eram cristãos realmente. Em caso positivo, é dos cristãos judeus que essa idéia aparece. Ao mesmo tempo, em contrapartida, se sãos os cristãos judeus que defenderam a idéia da vigência única do decálogo como fonte normativa, essa idéia não veio da tradição apostólica matriz cristã situada na Assembléia dos anciãos e apóstolos em Jerusalém. Estes judeus cristãos continuaram fiéis à torá e aos 613 mitzvot.

sábado, 25 de novembro de 2017

Anotações AdCummulus 009 "Os da Casa de César Te Saudam -Como o Cristianismo chegou na High Society - Parte 3 - O Mordomo do Imperador e o Político do Interior

Continuando nossa série com cristãos poderosos nos primeiros século do cristianismo, vamos abordar duas figuras que viveram em Roma no início do século III.

Marco Aurélio Prosenes


"A Cura da Mulher com Fluxo de Sangue". Via wikicommons
Professor Peter Lampe, da Universidade de Heidelberg, nos apresenta Marcos Aurelio Prosenes, observando que era um ex-escravo imperial, liberto seja no reinado conjunto de Marco Aurélio e seu irmão Lúcio Vero, (161-169 DC) ou, ainda, na co-regência de Marco Aurélio com seu filho Cômodo, entre 176 a 180 DC [1]. Assim como Jacinto, sua pupila Marcia Demétria (amante do Imperador Cômodo) e Carpóforo, todos mencionados no post anterior desta série, Prosenes fazia parte de um influente círculo de libertos imperiais, que se converteram ao cristianismo e que faziam parte dos auxiliares próximos do Imperador Cômodo. 


Prosenes, porém, sobreviveu a queda da dinastia Antonina, o caos do ano dos cinco imperadores (193 DC)  prosperando após a chegada ao poder de Sétimo Severo (193-211), tornando homem de confiança de seu filho Caracala (211-217 DC).

A carreira de Marco Aurélio Prosenes, como usual de oficiais romanos, é descrita em inscrições funerárias, como descrevem os Professores John Dominic Crossan e Jonathan L Reed:

"(...) Duas inscrições são evidência da existência de outro cristão primitivo, desta vez de nível mais alto, no âmbito da corte imperial. Podem ser lidas num sarcófago pertencente ao alforriado imperial Marco Aurélio Prosenes, no ano 217 D.C. A primeira, entre dois cupidos, identifica o morto como
Ex-escravo dos imperadores, camareiro do imperador [Caracala], mordomo do tesouro e da propriedade imperial, administrador das apresentações de gladiadores, encarregado dos vinhos, indicado pelo divino Cômodo para a corte, tendo seus ex-escravos arcado com as despesas para a confecção deste sarcófago, com seu próprio dinheiro em honra de seu piedosíssimo mestre que bem o merece (CIL 6:8498A)"[2]
O Cursus Honorum de Prosenes é de um ex-escravo, que após ser trazido a Corte Imperial por Cômodo, ocupa vários postos de alta confiança até sua morte, já sob o governo de Caracala, em uma ascensão funcional de aproximadamente 30 anos. 

Prosenes exerceu o cargo de procurador (ex. procurator thesaurorum). No Principado, após as reformas do Imperador Augusto (31 AC-14 DC), esses oficiais eram responsáveis pela administração das propriedades  e territórios imperiais, tanto na esfera pública quanto em relação aos bens pessoais do Imperador. Nas provinciais senatoriais, procuradores eram responsáveis pelos assuntos fiscais, uma vez que, como observa o Professor Jona Lendering, não era possível indicar senadores para atuar como questores subordinados aos proconsules ou propretores que governavam tais províncias [3]. Além disso, tais procuradores respondiam diretamente ao Imperador [3]. Nas provinciais imperiais, a partir de Claúdio (41-54 DC), começou a se tornar comum a prática de transferir a procuradores os poderes plenos de governo provincial, como pode ser verificado na Judéia. Paralelamente, procuradores passaram a servir em cargos no governo romano equivalentes aos atuais ministérios, respondendo pelo tesouro imperial e o correio romano, por exemplo. Ou seja, ao longo do principado, com a concentração cada vez maior de poder na figura do Imperador, houve uma tendência dos cargos na administração passarem a ser ocupados por pessoas de sua confiança e orbita de influência.   

Então Marco Aurélio Prosenes seria o equivalente moderno do funcionário que é admitido na empresa como contínuo e após toda uma vida de serviços prestados, galga vários postos até assumir uma Superintendência Regional, Diretoria ou assessoria direta do Presidente.  

Como observa o Professor Peter Lampe:
"In any case, under Commodus (180-192 C.E.) Prosenes begins a respectable career administering a series of court offices (supervising the transport of wine from Italy to Rome, particularly for the table of the emperor [mensa Augusti]; director of the imperial gladiator games, steward of the imperial assets; administrator of the treasure chamber and advances to the most influential position of an imperial chief chamberlain under Caracella ("a cubiculo Augusti"). Especially in the office of chief chamberlain, imperial freedmen could still exercise power after freedmen had been denied acess to all higher positions in the administration, particularly since the time of Hadrian. Numerous personnel stood at the chamberlains' command. Their political influence was considerable - particularly since Commodus. In  the court of Commodus, they held the reins of government as more or less unofficial representatives of the emperor (Saoterus, Cleander, Ecletus). Chief Chamberlain M. Aurelius Cleander appointed consuls and the praefect of the guard. About Prosenes nothing similarly spectacular is known. His rank, however, is the highest that he as an imperial freedman could wish to possess.  [4]
(Tradução) De qualquer forma, sob Cômodo (180-192 CE), Prosenes começa uma carreira respeitável ocupando uma série de postos na Corte (supervisionando o transporte de vinho da Itália para Roma, particularmente para a mesa do imperador [mensa Augusti], diretor dos jogos imperiais de gladiadores, mordomo dos ativos imperiais, administrador da câmara do tesouro e avança para a posição mais influente de mordomo chefe da casa imperial sob Caracella ("cubiculo Augusti"). Especialmente no cargo de mordomo chefe, os libertos imperiais ainda podiam exercer poder após terem sido impedidos de exercer os cargos superiores da admnistração, particularmente desde a época de Adriano. Numerosos funcionários estavam no comando dos mordomos. Sua influência política era considerável - particularmente desde Cômodo. Na corte de Cômodo, eles detinham as rédeas do governo como representantes mais ou menos não oficiais do imperador (Saoterus, Cleander, Ecletus). O mordomo chefe M. Aurélio Cleander indicou cônsules e o Prefeito da guarda. Sobre Prosenes nada semelhante é conhecido. Seu posto, no entanto, é o mais alto que ele, na condição de alforriado imperial poderia almejar. [4]

Desta forma, Prosenes pode ter sido um dos homens mais poderosos do Império em seu tempo. Os mordomos citados por Lampe, como Marco Aurélio Cleander, Ecleto, e Saoterus, figuram entre os vários ex-escravos da casa imperial que se tornaram auxiliares próximos dos governantes (Marco Antonio Pallas também poderia ser citado) que  ficaram famosos mais pelo abuso, do que pelo uso de seu poder. O fato de Prosenes sequer ser citado no registro literário é indicativo que exerceu seu trabalho de forma profissional e bem sucedida.

 Mas como podemos deduzir que Prosenes era cristão? A resposta a esta pergunta vem do conteúdo da segunda inscrição, como nos descrevem Crossan e Reed:

A segunda inscrição, contudo, foi escrita pelo antigo escravo de Prosenes, chamado Ampélio. Na borda superior do lado direito do sarcófago, mais curto, acima da figura de um animal mitológico e quase invisível, a inscrição continha a frase latina caracteristicamente cristã Receptus ad deum, "recebido por Deus" . Le-se o seguinte:
Prosenes foi recebido por Deus cinco dias antes das Noas de [março] em S[...]nia quando Prasenes e Extricato foram cônsules, o último pela segunda vez [217 Dc]. Ampélio, seu ex-escravo, escreveu estas linhas quando ele voltou da campanha à cidade (CIL 6:8498B).[5]
Em 214 DC, Caracala resolveu intervir em uma guerra civil entre os pretendentes Artabano V e Vologeses VI, pelo trono da Partia, arquirival de Roma no leste. Em 8 de abril de 217, com o exército estacionado em Edessa (atual Urfa, na fronteira entre Síria e Turquia), o Imperador, protegido apenas com um grupo seleto de sua guarda pessoal, resolveu visitar o Templo da deusa lunar em Carras (atual Harã), a 40 km de distância (e onde, 270 anos antes, as tropas do General Marco Licinio Crasso haviam sido esmagadas, em uma maiores derrotas da história de Roma). Durante a viagem de volta, Caracala foi assassinado.   

Crossan e Reed descrevem o sarcófago
O leal Ampélio havia acompanhado Prosenes na campanha do Imperador Caracala contra os partos na Mesopotâmia, mas seu patrono morrera por lá. Evitou cremar o amigo e trouxe seu corpo para Roma. Os cristãos, como os judeus, não aceitavam a cremação, talvez por causa da crença na ressurreição. Tudo indica que Prosenes e Ampélio eram cristãos e que este preparara um funeral teologicamente adequado para o companheiro. Evitou não apenas a cremação mas também decorações pagãs no sarcófago, aceitando apenas figura neutras como golfinhos, cúpidos, cornucópia e grifos, bem como a frase pagã comum ou sua abreviação: dis manibus (sanctum), "sagrado aos espíritos mortos", embora essa inscrição se referisse ao divus Cômodo". É provável que Ampélio tenha acrescentado a segunda inscrição claramente cristã.[5]


Nessa linha, Professor Peter Lampe [6] apresenta os seguintes motivos:
  •  A inscrição de Ampélio está posicionada em lugar pouco usual, a borda superior do lado menor do sarcófago, acima da figura de um Grifo. Isso pode indicar certa cautela e descrição.
  • Prosenes é nomeado "procurator numerum". Lampe observa que em todo o volume VI do Corpus Inscriptum Latinarum (inscrições da cidade de Roma), não há nenhuma outra menção desse título. Este foi o segundo cargo de sua carreira. Parece ter havido uma certa preocupação em evitar o termo "munus gladiatorium", que seria o título mais comum. Cristãos batizados deviam evitar a participação nos jogos, conforme se lê, por exemplo, em Tradição Apostólica, capítulo XVI, 7.  
  •  A inscrição de Ampélio utiliza a frase "Recebido por Deus" (receptum ad deum). Tal frase não é encontrada em inscrições pagãs. No entanto, é bastante comum em inscrições cristãs posteriores. Lampe concede que a base de comparação é com inscrições do quarto e quinto século, o que implica um certo anacronismo, já que não muitas outras inscrições do mesmo período para se comparar.
  • Prosenes foi enterrado em um sarcófago e não teve suas cinzas colocadas em uma urna. Cremação, não sepultamento, era o usual na sociedade romana. Ainda mais atípico foi o fato do corpo de Prosenes tenha sido transportado, por quase 3 mil quilômetros, da Mesopotâmia até Roma. Nem mesmo o corpo do Imperador Caracala foi transladado para Roma, seu corpo foi cremado e suas cinzas levadas para Roma. 
Lampe conclui com a constatação que a identidade cristã de Ampélio e Prosenes explica a totalidade da evidência. Ao evitar a utilização de uma tumba com características externas pagãs, aparentar receio em relembrar a sua ligação com a gladiatura, usar inscrição com uma frase tão cristã quanto possível em lugar discreto, além do trabalhoso, caro e completamente atípico translado do corpo de Prosenes por 3 mil quilometros é explicado se ambos fossem cristãos, para que seus amigos pudessem lhe proporcionar um enterro cristão. 

Por fim, aceitando a identificação cristã de Prosenes, em qual momento teria se convertido? Provavelmente após ter deixado o cargo de responsável pelo jogos gladiatoriais.  

Prosenes é assim um dos vários cristãos na corte imperial no final do século II e início do III. Além de Marcia e Karpoforo, Professor Lampe [6] menciona as esposas dos governadores da Siria e Capadócia, por volta do ano 200 DC, citadas por Hipolito e Tertuliano, bem como a ama de leite do futuro Imperador Caracala e Proculo, chamado Torpácio, que, segundo Tertuliano, foi mantido no Palácio Imperial até sua morte por Sétimo Severo em retribuição por tê-lo curado com óleo.    

 Marcos Demetrianos


A Aparição aos Apóstolos, Duccio di Buoninsegna, 1311. via Artbible.



Além de considerar as evidências da propagação do cristianismo nas elites de Roma, as informações trazidas das provinciais são de extrema relevância. Em uma cidade do interior da Bitínia (norte da atual Turquia), chamada Claudiopolis, na primeira metade do século III DC, um importante chefe político, que havia exercido os principais cargos públicos locais, teve inscritas as seguintes palavras em seu túmulo familiar:



"(...) Para os santos que também puseram sua confiança em Deus: Marcos Demetrianos, que serviu honradamente como principal arconte, administrador da cidade, e diretor dos jogos, e sua querida mãe, Aurelia Pannichas, Aurelia Demetriana, sua filha, e Domitio Heliodoro, seu genro, juntamente com o irmão dela Demetriano e o tio dela Crisipo erigiram esta túmulo como memorial. (...)"  [7]
Professor Phillip Harland, York University, comenta a significância da inscrição e seu contexto

The board of archons was the most influential civic body in this region, and the post of head of this board would be reserved only for the most wealthy benefactors of the city. Demetrianos’s benefactions had evidently included sponsorship of the contests that were so much a characteristic of social life in the city. Here we have a Christian couple of high social status and great influence within the civic context being honored on an epitaph by a family that is proud of both their civic achievements and their “faith in God.” (Tradução) O conselho de arcontes era a entidade cívica mais importante da região, e o posto de chefe do conselho era reservado para o mais rico do beneméritos da cidade. O patrocínio de Demetrianos evidentemente incluia o suporte as disputas que caracterizavam muito da vaida social da cidade. Aqui nos temos um casal cristão com altíssima condição social e grande influência no contexto cívico, sendo honrados com um epitáfio por uma família orgulhosa das realizações cívicas e sua "Fé em Deus".  [7]

A inscrição de Marcus Prosenes indicava de forma discreta sua fé cristã. Praticamente, apenas outros cristãos poderiam identificar sua fé. Marcos Demetrianos é explícito em sua identidade. Contudo, Prosenes aparenta não se vangloriar de seu passado como diretor dos jogos de gladiadores, enquanto Demetrianos parece não se incomodar com a condição de diretor dos jogos, oficio teoricamente ligado ao culto imperial  [8]. Uma explicação que consideramos plausível, é que a existência como cristão era precária, mas, já no seculo III, milhões viviam desta forma, dentre os quais as figuras poderosas que já citamos. Uma espécie de "jeitinho", que implicava em algumas acomodações, tanto do Estado, quanto dos cristãos perseguidos. O próprio Imperador, beneficiário do culto em sua honra e cujo nome era invocado para executar os cristãos, mantinha mordomos, babás, servos de confiança, e até amantes que seguiam a fé proibida. Tal modus vivendi era, contudo, ocasionalmente perturbado. Quando porém postos em uma situação em que o confronto não podia mais ser evitado, muitos cristãos desafiaram o Império com suas vidas, como já observamos aqui no adcummulus "(...) Ou seja, a mulher mencionada acima, Ptolemaus, Lucius e o terceiro cristão não identificado, podiam viver suas vidas de forma relativamente tranquila, manter casamento com incrédulos, ensinar o cristianismo, assistir procedimentos do forúm, por anos a fio, sem serem molestados. Contudo, caso tivessem inimigos dispostos a acusa-los publicamente diante das autoridades, e, dependendo da rigidez dos juízes, poderiam ter como destino a execução. Era uma condição que poderia até ser tranquila, mas sempre precária. A qualquer momento, uma denúncia podia levar a prisão e a morte(...)".


Outro fator para a diferença de atitudes do mordomo do imperador e do político do interior, é geográfico. A região formada pelas antigas províncias romanas da Ásia Menor, Frigia, Galácia, Bitínia e Ponto, Cilícia e Capadócia, correspondente a atual Turquia, constitui, possivelmente, a mais relevante fronteira de expansão do cristianismo primitivo. Conforme Atos dos Apóstolos, a primeira, segunda e terceira viagem missionária de Paulo atravessaram estes territórios. Paulo estabeleceu residência por alguns anos em Éfeso, e escreveu aos Gálatas. O apocalipse foi dirigido "às sete igrejas da Ásia". Mesmo considerando textos do Novo Testamento cuja autoria seja questionada pela maior parte dos estudiosos, como  a carta de Paulo a Igreja de Colossos (50-80 DC) e 1ª Pedro (80-110 DC), que faz menção aos peregrinos do Ponto, Ásia, Galácia, Capadócia e Bitínia, se infere a presença de congregações estabelecidas e capilarizadas no final do século I DC. Como já falamos aqui em outros posts, provavelmente, lá o apóstolo Felipe e suas filhas se estabeleceram e foram sepultados.  

Plínio, o moço, em sua carta ao Imperador Trajano (que já abordamos aqui no adcummulus), demonstra sua surpresa com a expansão do cristianismo na Bitínia, em que era governador:

 (...) O assunto parecia ser importante o suficiente para que fosse dirigido a vós, especialmente considerando os números em perigo. Pessoas de todas as classes e idades e de ambos os sexos são, e serão, envolvidas na acusação, pois esta superstição contagiosa não se limita apenas às cidades, mas tem se espalhado pelas aldeias e zonas rurais; parece possível, no entanto, verificar e curá-la.(...)"     
Essa expansão continuou nos séculos seguintes, com os cristãos representando uma parte cada vez mais significativa da população daquela região. Conforme observa o Professor William Tabernee, Oklahoma Higher Education Heritage Society, as inscrições e outros artefatos cristãos surgem relativamente cedo e com frequência:
A large number of Christian inscriptions, many datable to before 260 (Mitchell 1993, 2:58–59), have been found in the nearby Çarşamba River Valley (MAMA 8.100, 116, 118–20, 131, 158–59, 161–65, 167, 199). An analysis of these and  other inscriptions from the area has shown that approximately one-third of the population of this particular region was Christian before 260, increasing to 80 percent during the fourth century (Mitchell 1993, 2:58). This compares  favorably with the statistics for the Upper Tembris Valley in Phrygia, where the  “Christians for Christians” inscriptions were produced and where 80 percent  of the tombstones datable to between 280 and 310 explicitly indicate Christianity (Mitchell 1993, 2:58). (Tradução) Um grande número de inscrições cristãs, muitas com datação anterior a 260 DC (Mitchell 1993, 2:58-59), foram encontradas nas proximidades do Vale do Rio Çarşamba (MAMA 8.100, 116, 118–20, 131, 158–59, 161–65, 167, 199). Uma análise desta e de outras inscrições da área demonstrou que aproximadamente um terço da população deste região específica era cristã antes de 260, aumentando para 80 porcento durante o quarto século (Mitchell 1993, 2:58). Isto é comparável com as estatísticas do Vale do Tembris Superior na Frigia onde as inscrições " de cristãos para cristãos" foram produzidas e onde 80 por cento das sepulturas datadas entre 280 a 310 indicam explicitamente cristianismo [8]

Assim, o cristianismo se expandiu de tal forma nas igrejas da Frígia, Capadôcia, Bitinia e Asia Menor que as evidências já indicam uma predominância de cristãos na população pouco antes da ascensão de Constantino. A tal ponto chegou a "ousadia" e segurança dos cristãos, que na Frígia temos a partir do III século algumas inscrições com a formula "cristãos para cristãos", como a que vemos abaixo:


Eutyches for Ammia his daughter-in-law and for Tatia his granddaughter; and

Makedon for his son and for his wife Ammia;  and Eutyches their son, (who

like his father and grandfather is still) living, constructed (this tomb for their

relatives). Christians for Christians (Tradução) Eutico para Ammia sua nora e para Tatia sua neta, e Makedon para seu filho e sua esposa Ammia; e Eutico seu filho (que como seu pai e avô ainda vive), constriu (esta tumba para seus parentes). Cristãos para cristãos.[9]
Assim, Eutico e seus familiares trazem testemunho, insculpido em pedra, da valentia e intrepidez de cristãos que já não mais temiam se identificar como tal.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
[1]  Peter Lampe (2003) Christians at Rome in the First Two Centuries: From Paul to Valentinus, fl. 330
[2] John Dominic Crossan e Jonathan L Reed (2004) Em Busca de Paulo:Como o Apóstolo de Jesus opôs o Reino de Deus ao Imperio Romano, Paulinas, São Paulo, fls. 333-334 
[3] Jona Lendering (2002, 2017) Procurator, www.livius.org/articles/concept/procurator/, acessado em 24.11.2017
[4] Peter Lampe (2003) Christians at Rome in the First Two Centuries: From Paul to Valentinus, fl. 331
[5] John Dominic Crossan e Jonathan L Reed (2004) Em Busca de Paulo:Como o Apóstolo de Jesus opôs o Reino de Deus ao Imperio Romano, Paulinas, São Paulo, fl. 334
[6] Peter Lampe (2003) Christians at Rome in the First Two Centuries: From Paul to Valentinus, fls. 331-332. Para Proculo e a ama de leite de Caracala, fl. 337, para as esposas dos Governadores da Síria e Capadócia, fl. 340.
[7] Phillip Harland (2002), Connections with Elites in the World  of the Early Christians, http://www.philipharland.com/publications/Harland%202002%20Connections.pdf , acessado em 24.11.2017.
[8] The Eerdmans Encyclopedia of Early Christian Art and Archaeology, Volume 1, fl. 197
[9] WilliaTabernee (2014), Asia Minor and Cyprus in  WilliamTabernee (ed). Early Christianity in Contexts: An Exploration across Cultures and Continents, fl. 292
[10] WilliaTabernee (2014), Asia Minor and Cyprus in  WilliamTabernee (ed). Early Christianity in Contexts: An Exploration across Cultures and Continents, fl. 272





 
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    Este blog tem como objetivo central a postagem de reflexões críticas e pesquisas sobre religiões em geral, enfocando, no entanto, o cristianismo e o judaísmo. A preocupação central das postagens é a de elaborar uma reflexão maior sobre temas bíblicos a partir do uso dos recursos proporcionados pela sociologia das idéias, da história e da arqueologia.
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