domingo, 25 de novembro de 2018

"Quando Israel era Menino" - Arqueologia e o Livro de Reis - Parte 1

Samuel unge Davi. Painel interior da Sinagoga de Dura
Europos. Siria. Século III DC, via wikicommons
Em novembro de 2010, escrevendo sobre "o critério do constrangimento e da diferença e seus análogos fora da pesquisa histórica do Novo Testamento", foi utilizado como exemplo as narrativas integrantes da obra deutoronomista correspondente aos livros de Josué, Juízes, I e II Samuel e I e II Reis. A reflexão foi interessante, mas nunca tivemos a oportunidade de retornar a ela, mais ainda, nos seus próprios termos. O que vai abaixo é expansão daquelas reflexões, abordando alguns os artefatos arqueologicos associados a Israel e Judá, em dialogo com o texto bíblico. Mencionamos naquele post as Inscrições do Templo de Karnak, celebrando a campanha do Faraó Sisaque na Palestina, a Estela de Mesha, rei moabita que desafiou o rei de Israel, o prisma de Taylor, que narra o cerco do assírios ao Rei Ezequias, e acrescentaremos a Estela de Tel Dan, que menciona a casa de Davi. Inicialmente, pretendemos dois posts.

Uma preliminar importante é o uso da Bíblia como fonte histórica. Como exposto aqui no adcummulus anteriormente vamos ouvir com frequência os termos maximalista e minimalista, que descrevem uma postura geral dos estudiosos quanto a confiabilidade histórica dos textos bíblicos. Como observa o Professor Airton José da Silva, 
  "(...) controvérsia existente entre a postura maximalista que defende que tudo nas fontes que não pode ser provado como falso deve ser aceito como histórico e a postura minimalista que defende que tudo que não é corroborado por evidências contemporâneas aos eventos a serem reconstruídos deve ser descartado. [1]

Esclarecemos também, naquela ocasião,  a opção "maximalista" ou "minimalista" não necessariamente reflete a visão religiosa ou teológica do pesquisador (existem ateus e agnósticos identificados com os"maximalistas", como o arqueólogo William Dever; assim como existem judeus praticantes e cristãos minimalistas), e que tais tais definições demarcam os extremos. A esmagadora maioria dos arqueólogos, historiadores e biblistas se posiciona entre um e outro polo, combinando diferentes proporções das duas posturas, formando um espectro. É comum uma abordagem basicamente minimalista para alguns períodos (como os patriarcas, êxodo e conquista) e maximalista para outros (monarquia unida e reinos de Israel e Judá), sendo o foco da discussão deslocado para definir a "fronteira" em que se vai adotar cada uma das posturas. Assim, uma visão típica do "centro" do espectro considera que a obra deuteronomista foi concluída no reinado do Rei Josias, no final do século VII AC, mas que incorpora material de crônicas reais e sacerdotais e tradições populares, que sofreram um profundo processo de reinterpretação teológica. Assim, o deuteronomista nos daria corretamente o "fluxo geral" e um esboço dos acontecimentos históricos.


A invasão de Sisaque, 925 AC


Relevo da campanha de Sisaque, via wikicommon
No quinto ano do reinado de Roboão, Sisaque, rei do Egito, atacou Jerusalém. Levou embora todos os tesouros do templo do Senhor e do palácio real, inclusive os escudos de ouro que Salomão havia feito. Por isso o rei Roboão mandou fazer escudos de bronze para substituí-los, e os entregou aos chefes da guarda da entrada do palácio real. 28 Sempre que o rei ia ao templo do Senhor, os guardas empunhavam os escudos, e, em seguida, os devolviam à sala da guarda. Os demais acontecimentos do reinado de Roboão, e tudo o que fez, estão escritos nos registros históricos dos reis de Judá. Houve guerra constante entre Roboão e Jeroboão. (I Reis 14:25-29).
Sisaque foi faraó do Egito entre 943-922 AC, e  fundou a 22ª dinastia. Por volta do ano 930 AC, Sisaque (Sesac ou Sheshonk) invadiu a Palestina e, usando as palavras do texto bíblico "tomou as cidades fortificadas de Judá e chegou até Jerusalém (II Cronicas. 12:4). A expedição vitoriosa de Sisaque foi inscrita em pedra em um portal no Templo de Ramsés II em Karnak.

Mario Liverani, Professor de História do Antigo Oriente Médio da Universidade de Roma La Sapienza, detalha os efeitos da invasão



"O período "formativo" dos reinos de Judá e de Israel se encerra com um evento traumático: a expedição do faraó Sheshonq através de toda a Palestina (c 925 AC). O evento é conhecido seja pela inscrição do faraó sobre o Templo de Karnak (cf ANET, p. 242-243, 263-264), com uma longa lista das localidades atravessadas e conquistadas  ou eventualmente destruídas, seja pela breve notícia do livro de Reis (1 Reis 14:35-38;cf 2 Cr 12:1-12) sobre o tributo pago por Roboão de Judá. A campanha teria acontecido, portanto, depois da morte de Salomão, com os reinos de Judá e Israel já separados"[2]
Amihai Mazar, Professor de Arqueologia da Universidade Hebraica de Jerusalém, aborda os efeitos da invasão do ponto de vista arqueológico na região ao sul de Jerusalém:


Esses assentamentos na região montanhosa de Negueb foram provavelmente destruídos e abandonados como resultado da campanha militar do Faraó Sesac na região cinco anos após a morte de Salomão (...). A lista topográfica de Sesac, preservada nas paredes do templo de Amon em Karnak, inclui quase setenta nomes de lugares do Negueb. Alguns deles podem ser identificadas na área de Arad e Bersabéia, mas outros estavam talvez localizados mais ao sul, na região montanhosa do Negueb. O prefixo hgr aparece e é possivelmente uma transcrição egípcia do termo hebraico hagar, "cinturão' ou "recinto, que poderia ter designado as "fortalezas' de casamatas do Negueb. (...) [3]
Mazar continua, agora seguindo o rastro da expedição do faraó no norte e centro de Israel.
Já registramos o avanço pelo sul da campanha no Negueb; as operações do norte e no centro tiveram lugar na região montanhosa, o coração do território israelita. Sesac cruzou o Sefelá via Vale de Aialon e ascendeu a Cariat-Iarim e gabaon, ameaçando assim Jerusalém a partir do nordeste. Roboão, rei de Judá, evitou que a capital sofresse um sítio egípcio pagando um pesado tributo "Apoderou-se dos tesouros do templo do Senhor e dos tesouros do palácio real; ele levou tudo, inclusive todos os escudos de ouro que Salomão mandara fazer" (I Reis 14:26). O recém-nascido Reino do Norte, Israel, sofreu consideravelmente; a incursão de Sesac espalhou-se em arco desde gabaon até Betel, passando pelo Vale do Jordão e chegando até o vale de Jezrael. Ele então varreu a rota costeira histórica ("o caminho do mar") de Meguido até Gaza. Algumas das maiores destruições desse período podem ser atribuídas à campanha de Sesac: Tamna (Tel Batash, estrato IV), Gazer (Estrato VIII), Tell el-Mazar, Tell el-Hama, Tell el Sa'idiyeh (estes três sítios no Vale do Jordão), Meguido (Estrato IVB-VA), Tell Abu Hawân )(Estrato III), Tel Mevorakh (Estrato VII), Tel Michal e Tell Qasile (Estrato VIII). Aparentemente, Meguido foi só em parte destruída - pois o portão de seis câmaras parece ter continuado em uso n período seguinte, e Sesac erigiu lá uma estela da vitória, da qual um fragmento foi achada nas escavações.[3]
  Liverani atribui um significado político mais amplo a ação de Sisaque. A idéia seria revitalizar  as antigas reinvindicações egípcias de soberania na região, evocando o período a palestina era o quintal egípcio:


Se posto num mapa, o itinerário desenha uma espécie de grande S ao contrário, que evita tocar sistematicamente os territórios de Judá e de Israel, preferindo costea-los. O interesse parece se adensar sobre zonas planas (médio Jordão, planície de Yizre'el, planície costeira), zonas a qual o Egito se vangloriava de ter uma tradicional soberania, que se tornara agora teórica, mas que sheshonq procurava revitalizar com sua expedição. Se essa interpretação está correta, parece claro que os reinos de Judá e Israel estavam então não somente separados (ou já separados, como quer o texto bíblico, ou jamais unidos antes, como é também possível), mas ambos muito pequenos, em particular o reino de Israel estava ainda separado das tribos galiléias pela permanência do corredor "cananeu" na baia de Akko´ao médio Jordão.[4] 
Kenneth Kitchen, Professor de Egiptologia da Universade de Liverpool, observa que  Sisaque não  menciona explicitamente Jeroboão ou Roboão, bem como os reinos Judá e Israel, mas isso é usual neste tipo de inscrição [5]. (A Estela do Faraó Merneptah, de cerca de 1200 AC, declara que "Israel está destruído, e sua semente já não existe mais", atesta a presença de Israel, como um entre os vários povos (e cidades estado) na Palestina). Kitchen é da opinião que as fontes egípcias e hebraicas complementam-se mutuamente, apesar das profundas diferenças de composição.

A Estela de Mesha (Pedra Moabita), 847 AC


Estela de Mesha, Rei de Moabe, via wikicommons
Mesha, rei de Moabe, tinha muitos rebanhos e pagava como tributo ao rei de Israel cem mil cordeiros e a lã de cem mil carneiros. Mas, depois que Acabe morreu, o rei de Moabe rebelou-se contra o rei de Israel.  Então, naquela ocasião, o rei Jorão partiu de Samaria e mobilizou todo o Israel. Também enviou esta mensagem a Josafá, rei de Judá: “O rei de Moabe rebelou-se contra mim. Irás acompanhar-me na luta contra Moabe?” Ele respondeu: “Sim, eu irei. Serei teu aliado, os meus soldados e os teus, os meus cavalos e os teus serão um só exército”. E perguntou: “Por qual caminho atacaremos?” Respondeu Jorão: “Pelo deserto de Edom”. (II 3:4-8)

A Estela de Mesha ou Pedra Moabita é mantida no Museu do Louvre, em Paris, e foi descoberta em 1868, por Frederik Augustus Klein, em Dibon, atual Jordânia. O Reino de Moabe, junto com Amon e Edom, fazia fronteira com Israel e Judá. Quando Mesha assumiu o trono, Moabe era um reino vassalo de Israel. A estela é um relato de como ele reverteu esse estado de coisas com ajuda de Kemosh, deus de Moabe.


Eu Mesha, filho de Kemosh [...], Rei de Moabe, o dibonita – o meu pai reinou sobre Moabe 30 anos e eu reinei depois do meu pai – fiz este lugar alto para Kemosh, Qarhoh, porque ele me salvou de todos os reis e me fez triunfar de todos os meus adversários. No que toca a Omri, Rei de Israel, este humilhou Moabe durante muito tempo, porque Kemosh estava irritado com sua terra. E o seu filho seguiu-o e disse também: Hei de humilhar Moabe. No meu tempo ele o disse, mas eu triunfei sobre ele e a sua casa, enquanto Israel tinha perecido para sempre! Omri tinha ocupado a terra de Mádaba e Israel tinha habitado lá no seu tempo e durante metade do tempo do seu filho, por 40 anos; mas Kemosh habitou ali, no meu tempo. Eu construi Baal Meon, e nela construi um tanque. Eu construi Kirjathan. Os gaditas tinham habitado na terra desde tempos antigos, e o rei de Israel tinha constrido para si Ataroth. Eu guerriei, porém, contra a cidade e a tomei.
A inscrição nos informa que Moabe foi dominado pelo Reino de Israel do Norte, a partir do reinado de Omri, e que a situação perdurou sobre Acabe. Após a morte deste, Mesha se revoltou, e foi bem sucedido, recuperando os antigos territórios de Moab, e derrotando não só Israel, mas Edom, e Judá. 

Conforme o relato bíblico, os Reis de Israel, Judá e Edom marcharam contra Mesha, e o cercaram em sua capital, Dibon. Contudo, ao verem o Rei sacrificar seu próprio filho para Kemosh, ficaram ultrajados e se retiraram.

Professor Kenneth Kitchen, compara a versão de Mesha com o relato bíblico:


Here there is overlap with the Hebrew account, but also additional information(just as in Shoshenq's case) Both accounts agree in portraying the basic situation; namely, that the Omride Dynasty in Israel had suceed in imposing its overlordship upon Moab, turning the Moabite Kingdom into a tribute-paying vassal, and that for a clear span of years, not just the odd year or two. That situation began under Omri and contnued under Ahab until his death. But under Joram, the Moabite King rejected vassal status and rebelled. (TraduçãoAqui há sobreposição com o relato hebraico, mas também informações adicionais (assim como no caso de Shoshenq) Ambos relatos concordam em retratar a situação básica; ou seja, que a Dinastia Omrida em Israel tinha imposto sua soberania sobre Moabe, transformando o Reino Moabita em um vassalo pagador de tributo, e isso por um período de muitos anos e não apenas em ano ou dois . Essa situação começou sob Omri e contida sob Acabe até a sua morte. Mas sob Jorão, o Rei de Moabe rejeitou o status vassalo e rebelou-se. [5]
O movimento de Mesha deve ser analisado em um contexto mais amplo. Há indícios de mudanças profundas nas estruturas sociais e econômicas de Moabe, permitindo a Mesha acumular recursos para ser mais que um criador de rebanhos para os reis omridas. Mario Liverani aponta os resultados das escavações arqueológicas na região:


Houve um extraordinário desenvolvimento sóciopolítico pela metade do século IX, e a estela de Mesha (SSI I 16) fornece úteis indicações a ser integradas aos dados arqueológicos. Deve se presumir que durante a primeira metade do período do Ferro Moabe tenha tido uma estrutura tribal muito dispersa, que se coadunava bem com uma economia agropastoril praticada nas zonas mais favorecidas (...) Mas na epoca de Mesha completa-se um processo de unificação, induzido pelas necessidades de competir com os Estados mais fortes e organizados que tinham se formado a norte e a oeste. O fato é que o reino de Mesha se caracteriza pela unificação politica em torno da capital Dibon (...) a existência de capitais cantonais como Madaba, Atarot, Yahas, a construção de cidades fortificadas (...) [6].
Em 1994, O Professor André Lemaire, professor da Ecole Pratique des Hautes Etudes, propos a leitura da linha 32 da Estela como se referindo a Casa de David. Desde então, sua proposta tem alcançado significativa aceitação pelos estudiosos, tais como Kenneth Kitchen e Israel Finkelstein [7][8]. Seria também a primeira menção extrabíblica a Dinastia de David. 

Da mesma forma, a menção a Omri na estela de Mesha é uma das duas primeiras a reis israelitas em fontes extrabíblicas. Em 853 AC, Acabe, filho de Omri, é mencionado numa Estela de Salmaneser III, da Assíria, como um dos doze reis que teriam sido derrotados por ele na Batalha de Quarquar (os assírios reinvidicaram vitória, mas o embate foi provavelmente não conclusivo). Salmaneser relata que "Acabe, o Israelita" compareceu a batalha com um força considerável de 2 mil carruagens e  10 mil homens, representando um dos maiores exércitos da coalizão. Em conjunto, as inscrições evidenciam o grande poder da disnatia Omrida.


A Estela de Tel Dan, 840 AC


Estela de Tel Dan, Museu de Israel, via wikicommons
No décimo segundo ano do reinado de Jorão, filho de Acabe, rei de Israel, Acazias, filho de Jeorão, rei de Judá, começou a reinar. Ele tinha vinte e dois anos de idade quando começou a reinar, e reinou um ano em Jerusalém. O nome de sua mãe era Atalia, neta de Onri, rei de Israel. Ele andou nos caminhos da família de Acabe e fez o que o Senhor reprova, como a família de Acabe havia feito, pois casou-se com uma mulher da família de Acabe.Acazias aliou-se a Jorão, filho de Acabe, e saiu à guerra contra Hazael, rei da Síria, em Ramote-Gileade. Jorão foi ferido e voltou a Jezreel para recuperar-se dos ferimentos sofridos em Ramote[c], na batalha contra Hazael, rei da Síria.(II Reis 8:28-29)

Qualquer relação das maiores descobertas arqueológicas recentes, fará justiça a Estela de Tel Dan. Descoberta pelo Professor Avraham Abiram e sua equipe, em escavações no norte de Israel entre 1993 e 1994. A inscrição real é do século IX AC, e dela restaram três fragmentos. Embora o Rei que comissionou a estela não seja identificado, as informações constantes no artefato e contexto histórico apontam para Hazael, Rei da Síria.


(Quando) meu pai ficou doente e foi ao encontro dos seus (antepassados)o rei de Israel veio à terra de meu pai. Mas Hadad me fez rei, e Hadad veio até mim e eu parti dos sete [...] do meu reino e eu matei set[enta r]eis que tinham preparado mi[lhares de ca]rros e milhares de cavalos. [E eu matei Yeho]ram, filho [de Acabe], rei de israel e eu matei [ahaz]yahu, filho [de Yehoram r]ei da Casa de Davi. E eu levei [à ruína a cidade deles e] a terra deles á [ desolação].
Mario Liverani descreve o contexto imediato da inscrição:

A inscrição se une intimamente à narrativa de 2 Reis 8:28-29 (que ajuda a integrar os nomes parcialmente danificados), mas traz elementos novos em relação ao texto bíblico, Vê-se claro que o rei autor da inscrição de Tel Dan é Haza'el, Rei de Damasco, que depois da vitoria pode ocupar a cidade de Dan por tempo suficiente para erigir sua estela celebrativa. E é claro que a revolta de Yehu contra Yoram/Yehoram fazia parte da ofensiva damascena , tanto que Haza'el se vangloria de ter morto ele próprio o rei de Israel e de Judá, que o livro dos Reis relata como mortos por Yehu. Yehu, posto no trono por vontade de Haza'el ou pelo menos por contragolpe da vitória de Haza'el, iniciou, portanto, o seu reino como vassalo do Rei de Damasco.[9]

A inscrição é também importante na avaliação da natureza das relações dos reinos de Israel e Judá com seus vizinhos. Anos antes, como descrito acima, uma coalização de estados médios, em que os sírios e o rei Acabe de Israel aparecem de forma proeminente, haviam conseguido se opor, e possivelmente conter, o poderoso Império Assírio. Agora, Israel e Siria estão se confrontando. Enquanto isso, os reis de Israel e de Judá estão novamente em aliança, como no conflito moabita.


Obelisco Negro de Salmaneser III, Jeú oferece tributo ao Rei
da Assiria, Museu Britãnica, via wikicommons.
Direta ou indiretamente, Hazael provoca a ascensão de Jeú ao trono israelita. Se a intenção de Hazael, porém, era fazer amigos, logo se decepcionaria. Em pouco tempo Jeú entraria em confronto com os sírios. O obelisco negro de Salmaneser III, no Museu Britânico, apresenta cinco relevos em que vários governantes, dentre eles os reis do Egito e de Israel, oferecem tributo ao soberano assírio. Jeú é representado beijando os pés de Salmaneser (literalmente), com a seguinte inscrição: "O tributo de Jeú, da Casa de Omri; dele ganhei prata, uma taça de ouro, um vaso de ouro de pontas finas, copos de ouro, baldes de ouro, estanho, um cetro real e lanças". 

A submissão ao Rei Assírio, contudo, parece não ter beneficiado Jeú tanto assim, pois II Reis 10:32-33 nos diz:


Naqueles dias , o Senhor começou a reduzir o tamanho de Israel. O Rei Hazael conquistou todo o território israelita a leste do Jordão, incluindo toda a terra de Gileade (II Reis 10:32-34).
O livro de Reis atribui o fracasso final de Jeú ao fato de não ter "obedecido de todo o coração a lei do Senhor, Deus de Israel, nem se afastou dos pecados que Jeroboão levara Israel a cometer". O texto bíblico nos diz porém que em recompensa por sua atuação contra o culto de Baal, os descendentes de Jeú reinariam a até a quarta geração.

Professor Eric H Cline, da George Washington University, observa que apesar de ter sofrido com Hazael e Salmaneser III, Jeú (e Israel) teriam cerca de cem anos de alívio (ou cerca de quatro gerações).:


Jeú, entretanto, acabou se tornando um perdedor em dose dupla, pois se tornou vassalo pagador de impostos para um Salmanasar que, de outro modo, teria sido dominado e que, provavelmente, não perdeu muito o sono quando Hazael decidiu cobrar sua vingança e atacar Jeú e destruir o reino vassalo de Israel da Assíria (fig. 3.9). Depois de Salmanassar, a ameaça assíria diminiui por quase um século, o que permitiu que o reino do norte se recuperasse, mas a tregua seria apenas temporária [11]. 

Além do contexto imediato, a inscrição é um elemento importante para avaliação do legado de Davi. 

Conforme a avaliação do Professor Israel Finkelstein, da Universidade de Tel Aviv, a inscrição é relevante tanto no contexto histórico imediato:


Through fragmentary, this inscription offered a unique perspective on the turbulent politics of the region in the ninth century B.C.E. It describes from the aramean perspective , the territorial conflict between Israel and Damascus in the ninth century B.C.E and records how an Aramean king (Hazael) launched a punishing offensive against his southern enemies (ca 840 B.C.E) in which, so he claimed - he killed the king of Israel and his ally, the king "House of David (or bytdwd). (Tradução)  Ainda que fragmentária, a inscrição oferece uma perspectiva única sobre a política turbulenta da região no século IX AC. Descreve a partir da perspectiva araméia, o conflito territorial entre Israel e Damasco no nono século AC e registra como um rei arameu (Hazael) lançou uma ofensiva punitiva contra seus inimigos do sul (cerca 840 AC) na qual, ele alegou - ter matado o rei de Israel e seu aliado, o rei da "Casa de Davi (ou bytdwd)[11].
Quanto como evidência do legado de Davi, como fundador de uma dinastia real.

This was the first time that the name "david" was found in any contemporary source outside Bible, in this case only about a century after his lifetime. Moreover, it most probably specified the names of the two later kings - Joram of Israel and Ahaziah of Judah - both of whom are mentioned in the biblical text. Most significantly, Hazael employed a common idiom of his time by naming a state (Judah) after the founding of its ruling (or dominant) dinasty, bytdwd - just as the Assyrian labeled the "Northern Kingdom as the "House of Omri" or bit omri. (tradução)  Esta foi a primeira vez que o nome" david "foi encontrado em qualquer fonte contemporânea fora da Bíblia, neste caso, apenas cerca de um século após sua vida. Além disso, ele provavelmente especificou os nomes de dois reis mais recentes - Jorão de Israel e Acazias de Judá - ambos mencionados no texto bíblico. Muito significativamente, Hazael empregou uma expressão idiomática de seu tempo nomeando um estado (Judá) em função de sua dinastia governante (ou dominante), bytdwd - assim como os assírios chamaram o reino do norte como a" Casa de Omri" ou bit omri.[11]
A prática usual daquele contexto, era nomear o reino pelo fundador da casa dominante. Ao chamarem o Reino de Judá como "Casa de Davi", Hazael entende que havia um Rei Davi que fundou aquele Reino. Não é uma informação direta sobre Davi e a natureza de seu reino, mas é forte evidência de seu legado, cercade 3 ou 4 gerações após sua morte. Das dezenas de reis que Hazael se vangloria de ter derrotado, ele devota espaço especial em sua inscrição aos reis de Israel e da Casa de Davi.

Maxi e Mini, a obra deutoronomista como fonte histórica.
A Morte do Rei Saul, Elie Marcuse, wikicommons

Desta forma, apresentamos acima vários momentos em que a evidência arqueológica acompanha o relato biblico, coincidindo em pessoas, eventos e tempo. Existem, porém, situações em que não foram encontradas evidências externas de eventos bíblicos, ou esta é contraditória, como a peregrinação no deserto e a conquista de Jericó e Ai. Além disso, muitos sítios com abundante material arqueológico tem limitada possibilidade de escavação, por serem grandes centros urbanos (ex. Jerusalém), além de guerras (Síria) e o tráfico de material arqueológico, que impede que artefatos sejam localizados em sítios sujeitos a escavações controladas cientificamente.

Israel Finkelstein tem sido bastante crítico contumaz do uso da arqueologia para "provar" a Bíblia. No Brasil, seu livro "The Bible Unearthed", foi traduzido como "A Bíblia não tinha razão". Contudo, ele é igualmente crítico da rejeição da obra deuteronomista como fonte, entendendo que é sim uma fonte rica de material histórico. 

Primeiro, ele compara os padrões de assentamento observados nas escavações arqueológicas com as vilas, cidades e distritos mencionadas no texto bíblico:


Archaelogicals excavations and surveys have confirmed that many of the Bible's geographical listings - for example, of the boundaries of the tribes and the districts of the kingdom - closely match settlement patterns and historical realities in the eight and seventh centuries B.C.E.(traduçãoEscavações e levantamentos arqueológicos confirmaram que muitas das listas geográficas da Bíblia - por exemplo, dos limites das tribos e dos distritos do reino - correspondem de perto aos padrões de assentamentos e realidades históricas nos séculos VIII e VII B.C.E.[11]
Em seguida, compara as fontes extrabíblicas, como as inscrições assírias, sírias, moabitas  etc..., citando o trabalho de Baruch Halpern, da Universidade da Georgia:
Baruch Halpern showed that a relatively large number of extra-biblical historical records - mainly Assirian -  verify ninth to seventh-century B.C.E events described in the Bible: the mention of Omri in Mesha Stele, those of Ahab and Jehu in the Shalmameser III inscriptions, Hezekiah in the inscriptions of Sennacherib, Manasseh in the records of Esarhaddon ans Ashurbanipal, and so on.(TraduçãoBaruch Halpern mostrou que um número relativamente grande de registros históricos extra-bíblicos - principalmente Assirianos - verifica os eventos do nono ao sétimo século aC descritos na Bíblia: a menção de Omri em Mesha Stele, os de Acabe e Jeú nas inscrições de Shalmameser III, Ezequias nas inscrições de Senaqueribe, Manassés nos registros de Esarhadom e Assurbanipal, e assim por diante.[11]
E, por fim, a evidência linguistica, em que Finkelstein cita o Professor Avi Hurwitz, da Universidade Hebraica de Jerusalém:


No less significant is the fact, as indicated by the linguist Avi Hurwitz, that much of the Deutoronomistic History is written in late-monarchic  Hebrew, which is different of Hebrew of post-exilic times.(Tradução) Não menos significativo é o fato, como indicado pelo linguista Avi Hurwitz, de que grande parte da História Deutoronomista é escrita em hebraico tardio monárquico, que é diferente do hebraico dos tempos pós-exílicos[11]
Pontos semelhantes são enfatizados pelo Professor James D'Avila, da Universidade de Saint Andrews, fazendo uma comparação heurística da obra deutoronomista em comparação com a obra do historiador antigo Herodoto, de um lado, e Geoffrey de Monmouth, que basicamente é um relato legendário do ciclo arturiano :
The evidence seems pretty clear to me that the Dtr is more like Herodotus' work than Geoffrey's. There is good reason to doubt much of the account of the United Monarchy under David and Solomon. Archaeological survey points toward a small population in Judah and against a state apparatus that could have supported the sort of empire described for David and Solomon. (The new excavation in Jerusalem may or may not change this perspective. It's too early to tell.) If there was a Temple built in the time of Solomon, it probably was a more modest building than what is described and which seems to have been the template for the later temples in Judah, Elephantine, and perhaps Samaria. (TraduçãoA evidência parece bastante clara para mim que o Dtr é mais parecido com o trabalho de Heródoto do que o de Geoffrey. Há boas razões para duvidar muito do relato da monarquia unida sob Davi e Salomão. Levantamentos arqueológicos apontam para uma pequena população em Judá e contra um aparato estatal que poderia ter apoiado o tipo de império descrito por Davi e Salomão. (A nova escavação em Jerusalém pode ou não mudar essa perspectiva. É muito cedo para dizer.) Se houvesse um templo construído na época de Salomão, provavelmente seria um edifício mais modesto do que o descrito e que parece ter sido o modelo para os últimos templos em Judá, Elefantina e talvez Samaria.
Apontando os vários sincronismos e confirmações com a evidência extrabíblica e arqueológica:
 All this said, the writer of the Dtr did have some good information. Quite a number of the kings of Israel and Judah are mentioned in outside sources, and in the Dtr they always appear in the proper order, at the proper time, and in relation to the proper figures in the larger ancient Near Eastern world. A few of the episodes, such as the Egyptian King Shishak's invasion of Judea in the time of Rehoboam; the destruction of Samaria by the Assyrian King Sargon II; the Assyrian King Sennacherib's invasion of Judea in the time of Hezekiah; and the Babylonian King Nebuchadnezzar's conquest of Jerusalem, receive independent verification from extrabiblical inscriptions. And the writer knows a good many details that show that some of the sources used were pretty good. For example, the denominations of weights used for commerce which are mentioned casually in the Dtr do correspond closely to the (sometimes inscribed) weights actually excavated in Judah, only in the late Iron Age II. (TraduçãoTudo isso dito, o escritor do Dtr teve acesso a algumas boas informações. Um grande número de reis de Israel e Judá é mencionado em fontes externas, e no Dtr eles sempre aparecem na ordem apropriada, no tempo apropriado, e em relação às figuras apropriadas no mundo antigo do Oriente Médio. Alguns dos episódios, como a invasão da Judéia pelo rei egípcio Sisaque na época de Roboão; a destruição de Samaria pelo rei assírio Sargão II; a invasão da Judéia do rei assírio Senaqueribe na época de Ezequias; e a conquista de Jerusalém pelo rei babilônico Nabucodonosor recebe uma verificação independente das inscrições extra-bíblicas. E o escritor conhece muitos detalhes que mostram que algumas das fontes usadas foram muito boas. Por exemplo, as denominações de pesos usadas para o comércio que são mencionadas casualmente no Dtr correspondem de perto aos pesos (por vezes inscritos) realmente escavados em Judá, apenas no final da Idade do Ferro.

Continua

Referências Bibliográficas:

[1] Airton José da Silva: "Os Minimalistas: Pode uma história de Israel ser escrita" https://airtonjo.com/site1/minimalistas.htm, acessado em 24/11/2018.
[2] Mario Liverani (2003) Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 137
[3] Amihai Mazar (1990) Arqueologia na Terra da Bíblia: 10000-586 AC, fls 383-385.
[4] Mario Liverani (2003) Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 139
[5] Kenneth Kitchen (2003) On the Reliability of the Old Testament, fls. 34-36
[6] Mario Liverani (2003) Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 175
[7] Kenneth Kitchen (2003) On the Reliability of the Old Testament, fl. 35
[8] Israel Finkelstein e Neil Sibermann (2002) The Bible Unearthed, fl 129
[9] Mario Liverani (2003) Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 151-152.
[10] Eric Cline e Mark W Graham (2011), Impérios Antigos: Da Mesopotâmia à Origem do Islã, fl. 107.
[11] Israel Finkelstein, Digging for the truth: Archaelogy and the Bible, In Schimdt (2007) The Quest for the Historical Israel, fl. 14
[12] James D'Avila (2005) "Evidence for the first ("Solomonic") Temple", post de 12/08/2005, http://paleojudaica.blogspot.com/2005_08_07_archive.html, acessado em 24/11/2018.

 .


domingo, 22 de julho de 2018

Anotações AdCummulus 010 "Os da Casa de César Te Saudam -Como o Cristianismo chegou na High Society - Parte 4 - A Guerreira Perpétua e a Indestrutível Blandina

Martírio de Perpétua, Felicidade, Revocato,
 Saturnino e  Secundo, via wikicomons


Nos posts anteriores de nossa  série "os da casa de César te saudam", sobre difusão do cristianismo entre as elites de Roma, falamos de casos de cristãos que atuaram como auxiliares de imperadores e líderes provinciais, sobre outros, de comportamento um tanto heterodoxo, e daqueles cuja a identidade chega a ser incerta, mas que podem ter sido os primeiros casos atestados entre as elites romanas, já no primeiro século. Todos esses casos indicam um avanço crescente do cristianismo entre as classes mais favorecidas, principalmente a partir do final do século II DC. Ocorre que, com o avanço da nova religião, começam a se tornar mais comuns os casos em que a conciliação não era mais possível, em que a identidade cristã afrontou a ordem vigente.

Víbia Perpétua (Cartago, 203 DC)

Conforme observamos em nosso post de agosto de 2010 aqui no adcummulus, "porque os cristãos foram perseguidos", os episódios de perseguição aos cristãos até o governo de Décio (249 DC) eram esporádicos e curtos mas, frequentemente, muito violentos. Os cristãos viviam em relativa tranquilidade, até que alguém tivesse disposição suficiente em acusa-los publicamente, ou que algum administrador provincial, zeloso de suas funções, decidisse reforçar o culto público ao imperador, ou que um Imperador quisesse dar mais ênfase as velhas tradições e ao culto aos deuses, ou que catástrofes levassem a população a achar que o favor dos deuses devesse ser reconquistado, castigando os "ateus" e "ímpios" cristãos.

Um desses episódios ocorreu na cidade de Cartago, atual Tunísia, no ano de 203. Uma jovem esposa e mãe, recém convertida a fé cristã, chamada Vibia Perpétua, pertencente a elite local, foi presa pelas autoridades romanas e condenada a morte, junto com alguns de seus irmãos na fé,  Saturnino e Secundo, que eram homens livres, os escravos Revocato e Felicidade, além de seu mentor na fé, Satiro, que se entregou as autoridades quando soube da prisão de seus discipulos.  Professora Mary Beard, da Universidade de Cambridge fornece mais alguns detalhes:

One particularly revealing moment is described, in account of her own trial, by a christian woman who was sent to be killed by wild beasts in the amphitheatre in Roman Cartage in 203 CE. Vibia  Perpétua, a newly converted Christian, was aged aboiut twenty-two, married and with a young baby, when she was arrested and brought before the procurator of the province, who was acting in place of the governor who had recently died. Her memoir is the most lenghty, personal and intimate account by a woman of her own experiences to have survived from the whole ancient world, dwelling on her anxieties about her child and the dreams that she experienced in prison before she was sent to the beasts. [1] 
(Tradução) Um momento particularmente revelador é descrito, relatando seu próprio julgamento, por uma mulher cristã que foi enviada para ser morta por feras no anfiteatro da Cartago Romana em 203 DC. Vibia Perpétua, uma cristã recém-convertida, tinha 22 anos de idade, era casada e tinha um bebê, quando foi presa e levada ao procurador da província, que estava agindo no lugar do governador que havia morrido recentemente. Seu livro de memórias é o mais longo, pessoal e íntimo relato de uma mulher de suas próprias experiências que sobreviveu de todo o mundo antigo, insistindo em suas ansiedades sobre seu filho e os sonhos que experimentou na prisão antes de ser mandada às feras.

Tertuliano, escrevendo  no inicio do século III  DC, seu tratado sobre a alma, descreve a mártir Perpétua e suas revelações

"Como a heróica mártir Perpetua, no dia da sua paixão, viu apenas os seus companheiros mártires lá, na revelação que recebeu do Paraíso, se não fosse pelo fato da espada que guardava a entrada não permitia que ninguém a atravessasse, exceto aqueles que morreram em Cristo e não em Adão?" [2]
Afora esta breve menção, a história de Perpétua  é contada a partir de um texto conhecido como "A Paixão de Santa Perpétua, Santa Felicidade e seus companheiros", o documento é composto por uma introdução, elaborada pelo editor do texto, seguido de um diário de prisão, que teria sido escrito por Perpétua, bem como outra parte com as memórias de um certo Satiro, irmão na fé e companheiro de martírio. Por fim, o editor acrescentou um relato detalhado da morte de Perpétua e seus companheiros na Arena. O documento existe em manuscritos em latim e grego (que seria uma tradução), bem como uma versão resumida "Os Atos de Perpétua e Felicidade".

Os eventos em Cartago estão inseridos no contexto de ações de governantes locais, ou movimentos periódicos, que esporadicamente perturbavam os cristãos. Cerca de 20 anos antes, Blandina e muitos outros cristãos foram mortos em Lyon (França), assim como os 12 mártires de Scila (Numidia, atual Tunísia). Professora Francoise Thelamon, da Universidade de Rouen, situa o martírio de Perpétua entre mais alguns outros do mesmo período:


 Mas houve perseguições. Algumas visavam os convertidos, os catecúmenos e os recém batizados, assim como seus catequistas; em Alexandria em 202-203; em Cartago, para onde são levados vários catecúmenos, entre eles duas jovens, Perpétua e Felicidade; julgados e condenados a serem jogados as feras, são executados em 7 de março de 203, com seu catequista, que os batizou na prisão; eles se haviam recusado a vestir, os homens, a veste dos sacerdotes de Saturno, as mulheres a das iniciadas de Ceres, para que seu martírio não fosse transformado em sacrifício aos deuses da África romana. As denúncias e a pressão popular sempre provocam surtos de violência, como o massacre anticristão de 249, em Alexandria. [3].


Mosaico de Perpétua: Basilica  Eufrasiana, Porec, 
Croácia, via wikicommons
 Entretanto, para utilizar a vida de Perpétua e seus amigos para os nossos propósitos, temos que avaliar a confiabilidade da fonte. 

Professor Timothy D Barnes , da Universidade de Toronto (aposentado), observa  que a opinião dominante dos estudiosos, é que a  "Paixão de Santa Perpétua" está entre o grupo de atos de martírio, anteriores a perseguição Deciana (250 DC),  com provável historicidade, junto com os Martírio de Policarpo, de Justino Mártir, e dos Mártires de Lyon,  os Atos do Martíres de Scilla, e o martírio de Ptolomeu e Lucio (contada na Segunda Apologia, de Justino Martir). [4]

Professores Jan Bremmer (Universidade de Groningen) e Marco Formisano (Universidade de Ghent) editaram, em 2007, uma coleção de ensaios que reúne a contribuição de vários pesquisadores, e em um artigo conjunto, sustentam a teoria tradicional do documento com três vozes autoriais, o editor-compilador, e os diários de Perpétua e Satiro. Assim, suportam tanto a historicidade como autenticidade do texto [5].

Emanuela Prinzivalli, da Universidade de la Sapienza (Roma), aponta as razões estilísticas que levam os estudiosos a aceitar a autenticidade do relato:

Thus was born the passion of Perpetua and Felicity (Passio Perpetuae et Felicitatis), a rare jewel of early christian literature and a literary prototype for a specific genre  of Passiones in Africa. The amazement aroused in scholarly circles by this woman's achievement has sometimes bordered on incredulity, and some have wondered if her diary were not a clever piece of literary forgery. Meticolous  analysis of the various sections of the Passion of Perpetua has shown that there such great differences between the language used by the compiler-editor and the language used by the author of the diary, that it is extremely unlikely that they were written by the same person, unless he (or she) were the cleverest forger in the whole antiquity.  (Tradução)   Assim nasceu a “Paixão de Perpetua e Felicidade” (Passio Perpetuae et Felicitatis), uma jóia rara da literatura cristã primitiva e um protótipo literário para um gênero específico de Paixões na Africa. O assombro despertado nos círculos acadêmicos pelas realizações dessa mulher às vezes beirou a incredulidade, e alguns se perguntaram se o diário dela não era uma hábil inteligente de falsificação literária. A meticulosa análise das várias seções da Paixão de Perpétua mostrou que existem grandes diferenças entre a linguagem usada pelo compilador-editor e a linguagem usada pelo autor do diário, que é extremamente improvável que fossem escritas pela mesma pessoa, a menos que ele (ou ela) fosse o mais brilhante falsificador em toda a antiguidade. [6]

Além das razões estilísticas, existem evidências associadas a verossimilhança frente ao contexto. Tais elementos levaram um estudioso que era inicialmente cético em relação a autenticidade do relato, o Professor Thomas Hefferman, Universidade do Tennessee, a  reconsiderar sua posição:

I began my serious study of the text as a skeptic, believing the authenticity of the narrative a traditional pious fiction. Yet the more time I spent reading and pondering a host of issues concerning the narrative - for example, Tertullian's possible role in its composition, women's education in third century Roman North Africa, the role of the paterfamilias in the empire , the actuality that people were being executed in the most barbarous manner for their belief, the manuscript tradition, the presence of historical figures in narrative, the myriad details correctly identifying what we know of Roman prisons - the more my skepticism waned. I began to consider that perhaps the historical record could include a unique record that violates what we have come to read as normative and received. (...) I become increasingly persuaded that the Passion was indeed a document that preserved a memory of a actual event, a event which had surely changed through transmission but a whose core was a historically verifiable reality. ( Thomas J Hefferman, Passion of Perpetua and Felicity, fl. 8) (Tradução): Comecei meu estudo sério do texto como um cético, acreditando que a autenticidade da narrativa era uma ficção piedosa tradicional. No entanto, quanto mais tempo eu gastei lendo e refletindo sobre uma série de questões relacionadas com a narrativa - por exemplo, possível papel de Tertuliano em sua composição, a educação das mulheres no terceiro século Roman Norte da África, o papel do pai de família no império, a realidade que as pessoas sendo executadas da maneira mais bárbara por sua crença, a tradição manuscrita, a presença de figuras históricas na narrativa, a miríade de detalhes corretamente identificados do que sabemos das prisões romanas -  mais meu ceticismo diminuiu. Comecei a considerar que talvez o registro histórico pudesse incluir um registro único que viola o que passamos a ler como normativo e recebido. (...) Eu me tornei cada vez mais convencido de que a Paixão era de fato um documento que preservava a memória de um evento real, um evento que certamente mudara através da transmissão, mas cujo núcleo era uma realidade historicamente verificável. [7]

Embora em minoria, o campo de estudiosos que considera incerta tanto a autenticidade do diário e/ou a historicidade da própria Perpétua, tem representantes de peso. Entre os que questionam tanto a autenticidade do diário quanto a historicidade do próprio evento, estão as Professoras Ross Kraemer, Brown University, e Judith Perkins, University of Saint Joseph [8]. Elas pontuam, entre outros fatores, dependências literárias do texto com outros relatos pagãos e judeus anteriores, bem como inconsistências históricas e legais, como lançar uma nobre romana a morte na Arena.  Já outrpos membros do campo "minoritário", porém, como as Professoras Outi Lehtipuu, da Universidade de Helsinki, e Candida Moss, da Universidade de Birmingham, questionam a autoria de relatos como o de Perpétua, Policarpo e Justino, pelo menos em sua forma final, - concedendo, entretanto, a possibilidade de relatos orais ou escritos, que teriam usado usados como base para o texto atual - aceitando contudo, a historicidade básica de seus martírios [9][10]. Moss pondera que a descrição de Perpétua como bem educada, bem casada e de boa família é dada pelo editor/compilador, e que a leitura isolada do diário da recém convertida mártir, indica que teria sido uma concubina, não formalmente casada, o que eliminaria quase todas os problemas legais e históricos do relato. Moss observa ainda que os relatos históricos de martírio, podem se basear em relatos de testemunhas ou documentos legais, mas expandem, embelezam e interpretam a luz das necessidades e realidades de seu público, e, assim, a avaliação histórica desses relatos é sempre uma negociação. [10]. 

Desta forma, considerando os argumentos apresentados acima, tanto de critica literária e verossimilhança, e considerando a menção de Perpétua por Tertuliano,  entendemos que, no mínimo, devemos pressupor a historicidade dos fatos básicos relatados no texto (o que corresponde não só a posição do campo majoritário, como é aceitável por boa parte dos estudiosos da "minoria"), e que a autenticidade do texto - seja diretamente escrito por Perpétua e Satiro, ou se baseado em seus relatos - é  muito provável, embora com possíveis expansões do núcleo autobiográfico.

O relato inicia com a prisão de Perpétua e seus amigos e sendo visitada por seu Pai, que não era cristão. Ele tenta dissuadi-la:

Quando ainda estávamos presos, meu pai, por seu amor por mim, tentou me persuadir e abalar minha decisão.  
Pai, eu disse: "você vê esse vaso aqui, por exemplo, ou esse cântaro, ou seja lá o que for? Sim, eu vejo, ele disse. 
Então eu disse: "Será que poderíamos chama-lo por outro nome diferente de seu nome correto? E ele disse: "não".  
Bem, eu também não posso ser chamada de qualquer outra coisa diferente daquilo que eu sou, uma cristã". Neste momento, meu pai se sentiu tão aborrecido com a palavra "cristã" que veio até mim como se quisesse arrancar meus olhos.[11]


Perturbadora, destruidora de lares. A fala de Perpétua soa quase revolucionária no contexto romano. Primeiro, porque embora fosse casada (e mãe) seu marido/companheiro não é mencionado em nenhum momento do relato, indicando que sua opção religiosa, ou sua prisão, levaram a um rompimento de seu relacionamento. Segundo, e mais importante, porque ela não segue a orientação de seu Pai, o que é "uma contestação direta aos valores romanos do patria potestas, o poder que o pai romano tinha sobre seus filhos, mesmo daqueles que já tinha se casado, como Perpétua". [12].

Perpétua e seus amigos são postos então em uma prisão escura, quente e superlotada, onde ficam sujeitos a extorsões dos soldados. Dois diáconos, chamados Tércio e Pompônio, se compadecem da situação de seus companheiros na fé e subornam os soldados para que Perpétua e seus amigos fossem deslocados para celas mais amplas e arejadas. Melhor alojada, Perpétua passa a receber visitas de sua mãe e irmãos, um deles cristão, sendo permitido também amamentar e depois ficar com seu filho. Neste interim, ela foi batizada. Lá também teria tido a oportunidade de escrever suas memórias. Com o passar do tempo, começam a contar com a ajuda de um dos guardas, chamado Pudêncio, que permite a visita de vários outros cristãos, e trata com respeito e cuidado os prisioneiros.

O fato dessa relativa liberdade na prisão romana não nos deve surpreender. O apóstolo Paulo escreveu algumas cartas na prisão ("o prisioneiro do Senhor), assim como Inácio de Antioquia. Aqui no adcummulus, em nosso texto de maio de 2009, em que falamos da imagem de Jesus como mestre e sábio, citamos o ensaio "da Amizade", de Luciano de Samosata, em que Demetrio assiste seu amigo Antifilio na prisão, visitando-o constantemente, suprindo com alimentação e roupas, e subornando os guardas, para fosse bem tratado. Da mesma forma, Proteus Peregrino, um filosofo que Luciano considerava um charlatão, e que fora cristão durante parte de sua vida, foi assistido por seus irmãos na fé na prisão "recebia toda a forma de atenção, não esporádica mas assídua. Desde o amanhecer viúvas idosas e crianças orfãs podiam ser vistas esperando perto da prisão, enquanto seus oficiais dormiam junto a ele depois de subornar os guardas (...)"   

Durante o tempo em que foi mantida presa, até a execução, Perpétua  relata várias experiências visionárias. No primeira, ela sobe por uma escada perigosa, sob a mira de várias armas. Ao fim de escada está uma serpente. Satiro e Perpétua passam pela escada e pela serpente, não sendo feridos. E chegam a um jardim, onde são saudados por homem de cabelo branco e uma multidão de vestes brancas, que lhes oferece leite, que tem sabor doce. Perpétua percebe então que sofrerá o martírio. No seguinte a sua condenação, ela tem uma visão em que seu irmão, morto aos 7 anos de idade, de câncer, chamado Dinocrates. Ela o vê em sofrimento, e passa a orar por ele, por vários dias, ao fim dos quais, "no dia em Geta  fazia aniversário",  Perpétua tem outra visão com Dinocrates feliz e saudável.  Na véspera do martírio, Perpétua teve sua última visão. O diácono Pômponio a vinha chamar para o anfiteatro, e ao invés de bestas, ela viu um grande Egípcio. Ela se vê transformada em um homem, enfrenta o egípcio, e o derrota. Acorda, e se dá conta que sua verdadeira luta não seria a matéria, contra as feras, mas  a espiritual, contra o demônio. 

Enquanto isso, sua família tentou de várias formas dissuadi-la. No dia seguinte a prisão, Perpétua é visitada por seu Pai, que mais uma vez implora:
Tem piedade minha filha, de meus cabelos grisalhos. Tende piedade do teu pai, se eu for digno de ser chamado pai por ti. Se com estas mãos te levei a esta flor da tua idade, se te tenho preferido a todos os teus irmãos, não me entregues ao desprezo dos homens. Tenha em conta os seus irmãos, tenha em conta a sua mãe e sua tia, tenha em conta o seu filho, que não poderá viver sem você [13]

Após algum tempo na prisão, os prisioneiros são trazidos diante do Procurador Hilariano, que substituía o Proconsul Minucio Opimiano (seguindo a versão grega, uma vez é figura atestada no governo da província em 202/203 DC), que os interroga. Mary Beard descreve a cena:

Even in this account the frustration of her interrogator comes across, and his keenes to get her recant "Have pity on the white hairs of your father, have pity on your tiny baby" he urged her. Just make a sacrifice for the well being of emperor". I will not do so", she replied. Are you a Christian? he asked, now putting a formal question. When she said she was "Christiana sum" she was sentenced to death. The procurator was obviously baffled, and so it was the crowd who watched her die in the amphitheatre.(Tradução) Mesmo nesse relato, a frustração de seu interrogador se manifesta, bem como seu desejo de fazê-la se retratar "Tem pena dos cabelos brancos de seu pai, tenha piedade de seu pequenino bebê", ele insistiu. Basta fazer um sacrifício pelo bem estar do imperador ". Eu não farei isso", ela respondeu. Você é cristã? ele perguntou, agora colocando uma questão formal. Quando ela disse que ela era "Christiana sum", ela foi condenada à morte. O procurador estava obviamente perplexo, assim como a multidão que a viu morrer no Anfiteatro.[14]


Perturbadora da ordem, subversiva: Muitos deuses e religiões eram adorados no Império, os deuses olímpicos, os deuses ancestrais das várias populações do Império e fora dele, novas crenças e sistemas religiosos. Contudo, um elemento fundamental a unidade era o culto ao Imperador, que supunha, teria participação de todos os súditos do Império, ao recusar um "mero sacrifício para o bem do Imperador", Perpétua não só se declarava como adepta de uma crença nova e não reconhecida pelas autoridades, que seguia alguém que foi condenado como Rei dos Judeus, mas como se negava a um dever cívico considerado básico, e julgado vital para sobrevivência do Império. A recusa em participar do culto imperial irritava as autoridades muito mais do que as crenças cristãs, que seriam toleráveis para os que não fossem muito tradicionalistas. Todo o processo era feito para que o acusado se retratasse, se submetendo. Pouco importa se manteria suas convicções depois. Cem anos antes, como já comentamos aqui no adcummulus, o Imperador Trajano, respondendo a carta de  Plínio, o Moço, que nada tinha encontrado de perigoso, criminoso, ou subversivo no grupo, determina que "(...) Eles não devem ser perseguidos. Se eles forem denunciados, e for provada a culpa, eles deverão ser punidos, com esta ressalva, qualquer um que negar que é cristão, e provar isso, istoé, adorando os nossos deuses, mesmo que tenha sido suspeito no passado, obterá perdão mediante seu arrependimento, mas acusações anônimas não devem ser permitidas (...)". Se houvesse submissão, mesmo que fingida, tudo ficaria bem. No entanto, a integridade de Perpétua e seu amigos selou seu destino.  Foram condenados a serem lançados as feras. 

Criminoso lançado aos leopardos. Mosaico de Piso Romano,  
século III DC, Museu Arqueológico da Tunisia,  wikicommons
Passados mais alguns dias, os condenados são trazidos para a arena, e o relato de Perpétua se encerra. O registro dos eventos no anfiteatro  é dado pelo narrador/editor/compilador. Secundo havia morrido na prisão. Felicidade deu a luz a uma filha, e foi para a execução junto com seus companheiros. Ao entrar no anfiteatro recusam as vestes dos deuses pagãos, os homens, dos sacerdotes de Saturno, e as mulheres de Ceres. Sem se intimidar, Revocato, Saturnino e Satiro passam a provocar a multidão, que reage exigindo que os prisioneiros fossem açoitados. Após isso, um javali selvagem, um leopardo e o urso são lançados sobre os homens, e uma vaca selvagem contra as mulheres. Muito feridos, os condenados recebem o golpe de misericórdia dos gladiadores. O que executou Perpétua era novato, e as mãos dela conduziram sua espada para feri-la em seu pescoço  

Mary Beard aponta outro elemento perturbador da ordem romana:

 Roman blood sports obeyed a rather strict set of rules. It was animals and criminals and the slave underclass who met their deaths, not young mothers. In fact, "the crowd shuddered at the sught", when they saw that Perpetua's fellow martyr Felicitas had breasts dripping milk. So why on earth were the romans doing this? (Tradução)  Os esportes de sangue romanos obedeciam a um conjunto bastante restrito de regras. As feras eram o meio pelo qual os criminosos e a classe baixa de escravos encontravam suas mortes, e não jovens mães. De fato, "a multidão estremeceu ao ver", quando viram que a colega de Perpetua, a mártir Felicitadade, tinha seios pingando leite. Então, por que diabos os romanos estavam fazendo isso? [15]

A imagem de uma mãe de um filho recém nascido, com seios vertendo leite, e de uma jovem mãe da elite romana lançada as feras, e morrendo com dignidade, o que tornava as coisas ainda piores. Como justificar isso. Professor Pierre Grimal (1912-1996) explica o que as multidões costumavam ver em eventos como esse:

Mas não nos esqueçamos, antes de protestarmos com horror, de que esses não eram os únicos espetáculos que se ofereciam a plebe (...) Frequentemente, também, os condenados que deviam enfrentar leões e ursos eram bandidos que tinham cometido muitos crimes, submetido viajantes a tortura, massacrado, pilhado, incendiado e se a justiça as vezes confundia com autênticos culpados os escravos fugitivos, cujo o único crime era terem querido escapar de um senhor desumano, é que, em épocas diferentes, a consciência dos homens não é sensível aos mesmos escrúpulos, e não que os romanos, tomados um a um, fossem mais cruéis ou mais depravados do que os homens do nosso tempo, capazes, por seu lado, de tolerar (desaprovando-os, às vezes, só com palavras) mil horrores dos quais os romanos não podiam ter nem idéia. [16].


O martírio de Perpétua ocorreu no reinado de Sétimo Severo. Como vimos no post anterior, nesse tempo, Marco Aurélio Prosenes galgava postos na hierarquia imperial, até chegar ao posto de mordomo de Caracalla, filho de Sétimo Severo, que, por sua vez, tinha tido uma ama de leite cristã. Em suma, " o próprio Imperador, beneficiário do culto em sua honra e cujo nome era invocado para executar os cristãos, mantinha mordomos, babás, servos de confiança, e até amantes que seguiam a fé proibida." . O cristianismo estava se normalizando e fincando raízes na sociedade romana,  milhões de pessoas já seguiam a nova fé. Ao mesmo tempo, mais e mais relatos de execução surgem. Os cristãos são membros produtivos da sociedade e também criminosos. Servem ao Imperador e são mortos em nome dele. Pouco a pouco vão se inserindo, principalmente nas cidades. Tal elemento acrescenta um terceiro ponto de subversão a ordem vigente: a que pessoas que haviam subvertido a ordem imperial daquela forma não mereciam ser castigadas assim. Tal como Plínio, que não conseguia ver crime ou ameaça nos cristãos que interrogou, além de sua própria teimosia. 

Perpétua pode escandalizar o mundo moderno por suas convicções, que podem soar como radicais, até fanáticas. Contudo, em um mundo tão polarizado como o nosso, os mais conservadores verão nela a inspiração para lutar até o fim por valores que lhe extremamente caros são caros, como a fé cristã e seus princípios. O mais progressistas perceberão que o avanço das conquistas sociais, a luta pelo  direito dos pobres, dos trabalhadores, das mulheres, dos negros, das minorias, foi feita também por aqueles que enfrentaram a ordem vigente, foram presos e até mortos. A integridade é poderosa como força transformadora, mesmo quando seus efeitos não são percebidos imediatamente. Como disse certa vez Alexandre Solzhenitsyn "Você pode resolver viver sua vida com integridade. Deixe seu credo ser este: Deixe a mentira vir ao mundo, deixe-a mesmo triunfar. Mas não através de mim".

Blandina (Lyon, 177 DC)


Potino era um cristão da Ásia Menor, que enviado missionário por Policarpo, Bispo de Esmirna. Em algum ponto do II século, ele se estabeleceu em Lugduno, atual Lyon, na Gália (França), e fundou uma igreja lá, se tornando posteriormente Bispo. Lugduno foi fundada como colônia romana, localizando-se em um entroncamento de estradas, com localização estratégica, crescendo rapidamente, tornando-se o principal centro urbano de toda a Gália, com dezenas de milhares de habitantes. Era a capital da província da Gália Lugdunensis. Lá também, no Anfiteatro das Três Gálias, os líderes das 60 tribos gaulesas se reuniram em 12 AC para prestar culto a Roma e ao Imperador, reconhecendo publicamente sua autoridade, e formaram também o conselho provincial. Sendo assim, muitos imigrantes, boa parte deles gregos, foram recebidos. O Bispo Potino, e vários dos membros de sua congregação, entre eles.

Blandina, era uma jovem escrava. Sua senhora também era cristã. Naquele ano de 177 DC as coisas não estavam muito boas para os seguidores de Cristo na cidade. A população, em geral, era hostil, e os cristãos evitavam os lugares públicos, pois corriam o risco de não só serem objeto de escárnio, quanto de espancamentos, e roubos. Casas de cristãos tinha sido vandalizadas. 

As turbas estavam sob provável incitação de boatos associando os cristãos  a acusação de promoverem "banquetes de Tieste e relações Edipianas", ou seja, canibalismo e incesto. Tal acusação é respondida na obra de Minucio Felix, que a transcreve e cita como fonte do  rumor Cornélio Fronto: (100-170 DC).

Um infante recoberto de comida, para enganar os desavisados, é colocado diante dele, que deve ser maculado com seus ritos: esse infante é morto pelo jovem aluno, que foi impelido como se fosse golpes inofensivos na superfície de uma criança. a refeição, com feridas escuras e secretas. Sedento - ó horror! - eles lambem seu sangue; ansiosamente eles dividem seus membros. Por esta vítima eles estão comprometidos juntos; com essa consciência da maldade, eles são comprometidos com o silêncio mútuo. Tais ritos sagrados, como estes são mais sujos do que qualquer sacrilégio. E de seus banquetes é bem conhecido que todos os homens falam disso em toda parte; até o discurso do nosso cirtense testemunha disso. Em um dia solene, eles se reúnem na festa, com todos os seus filhos, irmãs, mães, pessoas de todos os sexos e de todas as idades. Lá, depois de muito banquete, quando a comunhão se aqueceu, e o fervor da luxúria incestuosa esquentou com a embriaguez, um cachorro que foi amarrado ao candelabro é provocado, jogando um pequeno pedaço de miudezas além do comprimento de uma linha. pelo qual ele é obrigado a correr e a saltar; e assim a luz consciente sendo derrubada e extinta na escuridão desavergonhada, as conexões da luxúria abominável os envolvem na incerteza do destino. Embora nem todos de fato, ainda assim na consciência todos são igualmente incestuosos, já que pelo desejo de todos eles tudo é buscado para que possa acontecer no ato de cada [17]

Tais acusações, o correspondente as fake news de hoje , circulavam principalmente no século II. Na polêmica posterior, a medida que o cristianismo se torna mais conhecido, em autores como Celso, Sosiano Hierocles e Porfirio, essa acusação vai perdendo cada vez mais força, substituída por questionamentos filosóficos ao cristianismo, até desaparecer. Contudo, em meados do século II, ainda podia ser relevante.  

A perseguição de Lyon parece se enquadrar no caso de mobilização popular. O relato é encontrado numa Carta enviada pela Igreja de Lyon e Vienne para as Igrejas da Ásia e da Frigia [16], em 178 DC, preservada na Historia Eclesisastica, de Eusébio de Cesaréia. Novamente, temos que abordar a questão da historicidade dos eventos. Na discussão mais acima relativa a autenticidade do relato de Perpétua, que foi inserida na discussão conjunta dos 6 atos de martírio anteriores a 250 DC que teriam se baseado em  eventos históricos, conforme a posição dominante entre os estudiosos resumida por Timothy D. Barnes, expressa da seguinte forma (referindo-se as cartas de Policarpo e da Igreja de Lyon):

Both letters describe trials conducted in public before a large audience. It must be presumed, therefore, that their account derive either from autopsy or from the accounts of those who witnessed them (traduçãoAmbas as cartas descrevem julgamentos realizados em público perante uma grande audiência. Deve-se presumir, portanto, que a narrativa deriva do processo ou dos relatos daqueles que as testemunharam [18]

Semelhantemente, Stéphanie Machabée cita o trabalho clássico de Paul Keresztes

Paul Keresztes writes: “there is nothing in this moving description of the Lugdunum [Lyons] tragedy that would discredit the historical value of what we have, thanks to Eusebius’ transmission, of the original document.” I agree  with Kereszetes; very few scholars accuse Lyons of being false and of those who do, not many scholars are convinced by their arguments. (Tradução) Paul Keresztes escreve: “não há nada nesta descrição comovente da tragédia de Lugdunum [Lyons] que desacredite o valor histórico do que temos, graças à transmissão de Eusébio, do documento original.” Concordo com Kereszetes; pouquíssimos acadêmicos acusam Lyons de ser falso e daqueles que o fazem, não muitos acadêmicos estão convencidos por seus argumentos [19]

Sendo assim, iremos pressupor a historicidade dos fatos básicos relatados. Ou seja, a Igreja na região de Lyon foi perseguida em 177 DC, e muitos de seus membros executados, como Blandina e Potino. Seguiremos o texto da carta, com os devidos comentários.

Blandina é introduzida como uma jovem de constituição física frágil e delicada:

Blandina, através de quem Cristo mostrou que as coisas que para os homens parecem vis, deformadas e desprezíveis estão com Deus de grande glória, por causa do amor a Ele, um amor que não é uma mera aparência arrogante, mas mostra-se no poder que exerce sobre a vida. Estávamos todos com medo, especialmente sua senhora terrena, também entre aqueles combatentes que deram testemunho, que ela não seria capaz de fazer uma confissão ousada por causa da fraqueza de seu corpo.
Os tumultos populares aumentam, e as autoridades intervém. A Galia Lugdnense era uma província imperial, com legiões estacionadas, e portanto governada por um  Legado (comandante de legião). O legado, estava ausente, e seu imediato, um tribuno militar, que o substituía, junto com os oficiais civis da cidade prendem vários cristãos, diante de uma multidão, jogando, literalmente, para a plateia. Lá aguardam o retorno do governador.

O governador retorna, e os prisioneiros são julgados. Sob intensa pressão da multidão, não é dado aos cristãos a oportunidade de um julgamentos justo. Um cidadão respeitado, chamado Vétio Epagato, se revolta contra o procedimento e se prontifica a defender os cristãos. O governador pergunta se ele também era cristão, ele responde que sim. O governador o prende junto com os outros mártires. Em seguida, alguns escravos que não eram cristãos, temendo serem torturados (na lei romana, escravos eram sempre torturados antes de serem interrogados) denunciam seus senhores cristãos (que haviam sido presos), e  dezenas de pessoas são presas nas igrejas de Lugduno e Vienne, dentre os quais o Bispo Potino, o diácono Sancto, o respeitado e proeminente Atálio, o adolescente Pôntico, e, claro, Blandina. Enquanto isso, pelo menos dez cristãos negam a fé (embora alguns tenham se arrependido depois), indicando que boa parte se intimidava em face da ameaça de tortura e morte.

Diferentemente do caso de Perpétua e seus amigos, os cristãos de Lyon foram submetidos a torturas e a um tratamento bem mais degradante. Não há transferências para celas mas arejadas, simpatia dos guardas ou assistência dos irmãos. Possivelmente, as autoridades em Lyon estavam pressionadas pelas turbas, estas, por sua vez, atiçadas pelas "fake news" de incesto e canibalismo. Fazer justiça era obrigação dos magistrados romanos, mas manter a paz era muito mais importante, e nesse caso significava aplacar a multidão. O caso de Perpétua e seus companheiros há um processo relativamente normal, que segue os parâmetros estabelecidos por Trajano, focado nos casos efetivamente denunciados e buscando faze-los sacrificar aos deuses e cultuar ao Imperador. Um outro relato contemporâneo, a paixão dos mártires de Scilla , (Tunísia) datado de 180 DC,  mostra um proconsul disposto a oferecer várias oportunidades a um grupo de 12 cristãos para que reconsiderassem sua decisão de não participar do culto imperial, propõe até uma pausa de 30 dias, que é recusada pelos cristãos, que são então executados, mas sem menção a torturas. Talvez fosse a prática na Africa do Norte, mas o tratamento aos cristãos é, em geral, destoante de outros atos de martírio considerados autênticos, anteriores ao reinado de Décio. Em Lyon, a perseguição embora curta, foi bem mais generalizada, agressiva e cruel. Tudo o que Trajano não queria.

Além das particularidades das províncias e seus administradores, o contexto mais geral do Império pode ter tido influência relevante. Em 17 de março de 180 DC, o Imperador Marco Aurélio morreu e foi substituído por seu filho Comodo que, pelo menos em relação aos cristãos, resultou em um governo menos hostil (Comodo teve um relacionamento com a cristã Márcia, além de vários de seus escravos e libertos de confiança serem daquela religião). Como observa Francoise Thelamon:

"Nota-se uma recrudescência das perseguições no reinado do imperador filósofo Marco Aurélio (161-180), que despreza profundamente os cristãos a despeito da coragem dos mártires diante da morte. Os cristãos são responsabilizados pelas desgraças da época e constituem as vítimas potenciais dos ritos expiatórios. Assim, o filósofo e apologista Justino é morto em Roma, , enquanto em Lyon, em 177, o velho bispo Potino e vários cristãos morrem na prisão; Sanctus, diácono da Igreja de Vienne, Atálio, apesar de ser cidadão romano, a escrava Blandina, o adolescente Pontico e outros são jogados às feras no anfiteatro das Três Gálias; (...) em Pérgamo, cristãos são torturados e queimados vivos no anfiteatro. Em 180, pela primeira vez na Africa do Norte, cristãos são decapitados por causa da sua fé; em Roma, alguns são condenados aos trabalhos forçados nas minas da Sardenha. Mas veem-se também governadores soltarem cristãos e o imperador Cômodo anistiar confessores sob a influência dos próximos, porque o cristianismo penetrou em todos os meios, inclusive na corte. [20]


Sancto, diácono da igreja de Vienne, foi submetido a várias torturas, e como permanecia inflexível dizendo "sou cristão", foram postas placas em brasa, "nas partes mais delicadas de seu corpo". Os presos foram colocados em celas superlotadas, fedorentas e escuras, amontoados, o que levou alguns a morrerem de asfixia. O Bispo Potino, doente e com 90 anos de idade, após seu julgamento foi arrastado, levou pontapés e socos da multidão, além de lhe serem arremessados objetos.  Morreu na prisão dois dias depois. E não podemos deixar de falar de Blandina:

Mas, Blandina estava cheia de tal poder, que aqueles que a torturavam um após o outro de todas as formas desde a manhã até a noite estavam cansados ​​e esgotados. Eles admitiram que estavam perplexos. Não havia mais torturas que pudessem aplicar a ela. Eles ficaram surpresos que ela permaneceu viva. Seu corpo inteiro estava rasgado e aberto. Eles disseram que até mesmo uma das formas de tortura empregadas era suficiente para destruir sua vida, sem mencionar tantas punições excruciantes. Mas a mulher abençoada, como um atleta nobre, renovou sua força em sua confissão. Sua declaração, "Eu sou cristã, e não fizemos nada de errado", trouxe-lhe descanso, repouso e insensibilidade a todos os sofrimentos infligidos a ela.

Ao longo da carta, embora tenhamos um bispo que foi discípulo de Policarpo, (que, por sua vez, foi auxiliar de Inácio de Antioquia, e este teria acompanhado o apóstolo João), de um respeitável Vétio Epagato, que optou compartilhar do destino dos mártires, o diácono Santo, e a própria senhora de Blandina (a qual não se recordou o nome) é a escrava que "rouba a cena". Além da subversão da ordem imperial, apontada no caso de Perpétua, há uma perturbação na ordem social e até na própria hierarquia da Igreja,  como pontua Gabrielle Friesen:

Among the Galic martyrs was Blandina, whose martyrdom came to be more famous than those of her compatriots. Blandina was a slave-girl,  much as Felicitas, who was to be martyred with her mistress. Whereas Perpetua eclipsed Felicitas in Perpetua’s journal and later remembrance, Blandina is the martyr who achieves the most fame among her group. Blandina’s faith allows her to supersede her mistress in fame, (…) and even physically embodies Christ’s image in the amphitheatre. Blandina’s faith and martyrdom, a gruesome affair, allows her to move past the earthly limitations of her class status not only in the afterlife, but even, according to the author of the account, in the physical world (tradução) Entre os mártires gálicos estava Blandina, cuja o martírio se tornou o mais famoso entre os seus compatriotas. Blandina era uma escrava, tanto quanto Felicitas, que seria martirizada com sua senhora. Contudo, Perpetua eclipsa Felicitas em seu diário e no registro posterior, Blandina é o mártir que alcança o mais fama entre seu grupo. A fé de Blandina permite que ela superar sua senhora na fama, (...) e até fisicamente incorpora a imagem de Cristo no anfiteatro. A fé e o martírio de Blandina, um caso horrível, permite-lhe ultrapassar as limitações terrenas do seu condição de classe, não só na vida após a morte, mas também até, segundo o autor do relato, no mundo físico.[21]


Após serem torturados extensivamente, os sobreviventes Átalio, Maturo, Sancto e Blandina são levados ao Anfiteatro das Três Gálias para serem lançados as feras, no meio de um festival. Previamente, os cristãos que eram cidadãos romanos foram decapitados.  No último momento, Átalio foi separado pelo governador, uma vez que declarou ser cidadão romano, e havia apelado ao Imperador. Os demais enfrentaram seu destino:

Anfiteatro das Três Gálias, Lyon, via wikicommons
Eles foram arrastados pelas bestas selvagens e sofreram toda a indignidade que o povo enlouquecido clamava ao redor do anfiteatro. Último de todos eles foram colocados em uma cadeira de ferro em brasa, em que seus corpos foram assados. Eles mesmos sentiam o cheiro das emanações de sua própria carne. Mas os pagãos não pararam nem mesmo aqui, mas tornaram-se ainda mais frenéticos em seu desejo de superar a resistência dos cristãos. 



Blandina assume então um papel de proeminência, acaba sendo vista como uma lembrança de Jesus crucificado:

Mas Blandina foi amarrada a uma estaca e exposta, como alimento para as feras selvagens que foram lançadas contra ela. Porque ela parecia como se estivesse pendurada em uma cruz e por causa de suas sinceras orações, ela inspirou os combatentes com grande zelo. Pois eles olharam para esta irmã em seu combate e viram, com seus olhos corpóreos, Aquele que foi crucificado por eles, para que Ele pudesse persuadir aqueles que confiam Nele que todo aquele que sofre pela glória de Cristo tem comunhão eterna com o Deus vivo . Quando nenhuma das feras selvagens da época a tocou, ela foi retirada da estaca e levada de volta para a prisão.
 Ao fim do dia, torturada, assada em brasa, tendo sido lançada como comida para feras, de alguma forma, Blandina ainda está viva.  É a última guerreira de pé. No meio da multidão, um médico chamado Alexandre, proveniente da Frígia, foi descoberto tentando encorajar e ajudar seus irmãos cristãos, foi levado ao governador, e como não negou sua fé, foi condenado a destino semelhante a seus companheiros. O governador, talvez se sentindo fortalecido ante ao "sucesso" da performance dos cristãos com a multidão,  tomou outra decisão arbitrária, condenou Atálio a morte, sem aguardar o resultado de seu apelo.

A lei romana dava garantias a seus cidadãos, inclusive de apelar ao Imperador, para evitar injustiças e arbitrariedades como a que Atálio, Vettio Epagato e outros foram submetidos. Isto pode contar como contradição ou inconsistência histórica na carta. Ou não. Na verdade, há indícios que alguns direitos estavam, cada vez mais, sendo "pra inglês ver". Professora Mary Beard, observa que "(...) o sofisticado edifício da lei romana, a despeito de sua extraordinária expertise em formular regras legais e princípios (....) tinham pouco impacto nas vidas daqueles que não eram da elite, e ofereciam pouca ajuda para seus problemas (...)" [22] um dos motivos é que,  naquele período, já havia romanos demais recorrendo, citando o exemplo do Egito, Beard observa que  "(...) O que nós realmente sabemos, com base em outros documentos em papiro, que no começo do século terceiro DC um governador do Egito (o prefeito, como era chamado lá) tinha recebido em apenas três dias em único lugar 1800 petições de interessados na solução de problemas ou reclamações. A grande maioria deve ter sido jogada para debaixo do tapete (...)" [22].

A morte de Atálio e Alexandre foi semelhante a de seus irmãos, lançados as feras, sendo antes submetidos a torturas, dentre as quais ser assados na horrenda "cadeira de ferro em brasa". Blandina foi então novamente levada a arena, no último dia dos jogos, desta vez acompanhada de Pontico, com 15 anos de idade. Não antes de serem forçados a ver os sofrimentos impostos a seus companheiros.

Depois de tudo isso, no último dia dos shows de gladiadores, Blandina foi novamente trazida junto com Pôntico, um menino de cerca de quinze anos de idade. Estes dois foram levados diariamente ao anfiteatro para ver as torturas que o resto sofreu. As autoridades tentaram forçar Blandina e Pontico a jurar pelos ídolos pagãos. Mas eles permaneceram firmes em sua recusa. Então a multidão ficou furiosa contra eles. Não tinham compaixão pela juventude do menino ou pelo respeito pelo sexo da mulher. Por isso, expuseram-nos a todo o terror e a todos os terríveis sofrimentos e levaram-nos a cada rodada de tortura. Repetidamente eles tentaram obrigá-los a jurar aos ídolos. Mas não funcionou. Pôntico foi encorajado por sua irmã; até mesmo os pagãos viram que ela o encorajou e fortaleceu. Depois de suportar nobremente todo tipo de tortura, ele morreu. Mas a abençoada Blandina, a última que restou, tendo como mãe nobre encorajou seus filhos e os enviou antes dela vitoriosa para o Rei, suportou os mesmos conflitos. Ela correu para eles com alegria e exultação por sua partida. Era como se ela fosse chamada para um jantar de casamento em vez de ser lançada em feras. Depois que ela foi flagelada e exposta às feras selvagens e assada na cadeira de ferro, ela foi finalmente encerrada em uma rede e lançada diante de um touro. Ela foi jogada pelo touro. Mas ela não sentia as coisas que estavam acontecendo com ela. Isto foi por causa de sua esperança e firmeza do que lhe havia sido confiado e sua comunhão com Cristo. Assim, ela também foi sacrificada. Os próprios pagãos confessaram que nunca entre eles a mulher suportou tantas e terríveis torturas.

A resistência de Blandina beira ao inacreditável, quase uma super heroína, assim como o sobrehumano diácono Sancto. De um lado, é um elemento do texto que parece atender ao viés de seus autores, possivelmente líderes remanescentes da comunidade cristã de Lyon. Mostrar que os cristãos receberam força sobrehumana. Por outro lado, torturas, em geral, são elaboradas para permitir que a vítima sofra prolongadamente, sem morrer, o fim da vida passa a ser uma benesse do carrasco. E a maioria dos condenados parece ter morrido antes de chegar a arena. Sem falar que Blandina não era uma das líderes da Igreja, como o bispo, presbíteros e diáconos presentes, mas uma mulher escrava. Assim, ainda que haja provável exagero na resistência de Blandina, é factível que tenha simplesmente tenha resistido mais do que os outros.

Mesmo mortos, seja na arena, seja na prisão, seja aquele que foram decapitados, houve ainda um outro ato de crueldade. Não foi permitido o enterro digno dos mortos, os corpos foram jogados aos cães, o restos insepultos expostos aos elementos por seis dias, ao fim dos quais foram cremados, e suas cinzas jogadas no Rio Ródano, que vai para o Mediterrâneo. Restou aos cristãos a lembrança do bom combate na Arena e a esperança de que o mar, no último dia, trará os seus mortos. De toda forma, Blandina e seus companheiros nunca foram esquecidos, imortalizados na carta e nos vários monumentos a sua memória em Lyon.

A inclusão de Blandina em uma série que trata do avanço do cristianismo na elite romana, pode causar alguma confusão. Contudo, o avanço do cristianismo em Roma esteve profundamente ligado aos escravos, como vimos anteriormente aqui no adcummulus. A sobrevivência do cristianismo e sua assimilação do Império, deve muito a pessoas como Perpétua e Blandina. 



Referência Bibliográficas:
[1] Mary Beard (2015), SPQR - A History of Ancient Rome, fl. 518-519
[2] Tertuliano, Sobre a Alma, 55 http://www.newadvent.org/fathers/0310.htm, acessado em 22 de julho de 2018
[3] Francoise Thelamon (2007) "Perseguidos mas submetidos ao Império" in Alain Corbin, Historia do Cristianismo, fl. 36
[4] Timothy D Barnes (2010) "Early Christian Hagiography and Roman History", fls 58-72
[5] Jan N Bremmer e Marco Formisano (2007) Introduction In Jan N Bremmer e Marco Fomisano, Perpetua's Passion, fl. 5-7.
[6] Emanuella Prinzivalli (2001), A Womem Writer, in Augusto Fraschetti, Roman Women, fl. 118
[7] Thomas J Heffernan (2012) Passion of Perpetua and Felicity, fl.8
[8] Ross Shepard Kraemer, Unreliable Witness - Religion, Gender and History in Greco - Roman Mediterranean, fl. 118-119.
[9] Outi Lehtipuu (2014), What Harm Is There for You to Say Caesar Is Lord?” , fl. 103
https://helda.helsinki.fi/bitstream/handle/10138/161318/07_Lehtipuu2104.pdf?sequence=1

[10], Candida Moss (2012), Ancient Christian Martyrdom, fl.  16 (sobre a necessidade de "negociar" com as fontes) e 131 (sobre a teoria de Perpetua não ser uma nobre romana, proposta por Kate Cooper)
[11] Paixão de Perpétua e Felicidade, (3), acessado em 22 de julho de 2018 https://sourcebooks.fordham.edu/source/perpetua.asp
[12Eric Cline e Mark Graham (2011), Impérios Antigos, fl. 180
[13] Paixão de Perpétua e Felicidade, 6, acessado em 22/07/2018
[14Mary Beard (2015), SPQR - A History of Ancient Rome, fl. 519
[15] Pierre Grimaldi (2003); História de Roma, fl. 147
[16] Minúcio Felix, Octávio, capitulo XXXI, acessado em 22 de julho de 2018  http://www.earlychristianwritings.com/text/octavius.html
[17] The Letter of the Churchs of Vienna and Lyons to the Churches of Asia and Phrygia including the story of the Blessed Blandina In Eusébio de Cesáreia, Livro V, capitulo 1 (§1 a 63) https://sourcebooks.fordham.edu/source/177-lyonsmartyrs.asp (acessado 22/07/2018)
[18Timothy D Barnes (2010) "Early Christian Hagiography and Roman History", fl. 62
[19] Stephanie Machabée (2013) " The “Cheap, Unseemly, and Readily Despised” One:   A Rhetorical Understanding of Blandina’s Gendered Performance in  The Martyrs of Lyons and Vienne", fl. 37 Tese de Mestrado, McGill University, Montreal. 
http://digitool.library.mcgill.ca/webclient/StreamGate?folder_id=0&dvs=1532282045017~334
[20Francoise Thelamon (2007) "Perseguidos mas submetidos ao Império" in Alain Corbin, Historia do Cristianismo, fl. 35-36
[21] Gabriele Friesen (2014) "Perpetua Before the Crowd: Martyrdom and Memory in Roman North Africa", fl. 11, Undergraduate Honors Theses. 94. (acesso 22/07/2018) https://scholar.colorado.edu/honr_theses/94

[22]  Mary Beard (2015), SPQR - A History of Ancient Rome, fl. 464










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