Um manuscrito do Evangelho de Marcos do século I ?!!! É, pode ser... Mas cuidado para não colocar a carroça na frente do boi.
Terça-feira, Fevereiro 07, 2012 by Nehemias

Terça-feira, Fevereiro 07, 2012 by Nehemias

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Quarta-feira, Janeiro 18, 2012 by informadordeopiniao
Este livro possui datação controversa, variando entre os
especialistas de ser dos meados dos anos 60 a última década do século I. Eu me
inclino a considerar ser de pouco após a destruição do Templo de Jerusalém. O
autor é ainda mais controverso, para o qual temos menos dados aproximativos
ainda e o grau especulativo é bem maior. É notório que se trata de algum judeu
helenizado e bastante culto, conhecedor de técnicas rabínicas de exegese e
exposição.Por um lado, o tema principal de Hebreus é a tentativa de provar, a partir das Escrituras, que a nova dispensação é superior à antiga e que, para esse propósito, o autor tenta persuadir seus leitores da vantagem de Cristo como Filho de Deus sobre várias personalidades, instituições e criaturas celestiais do Velho Testamento. Por outro lado, a justaposição não se origina de uma luta espiritual entre a nova comunidade cristã e a velha comunidade de Israel, ou um de seus grupos. Pelo contrário, o autor cristão toma, para sua polêmica, material literário do judaísmo de seu tempo. Os próprios judeus, em debates internos ou num esforço comum, estavam então discutindo o grau mais alto ou mais baixo de personalidades bíblicas e criaturas celestiais.(...)
A fusão de idéias e motivos judaicos com a nova perspectiva cristã é típica não apenas da Epístola aos Hebreus, mas também de todos os escritos do segundo estrato do cristianismo.
(...)Temos de lembrar que nem todos os motivos usados no cristianismo do Novo Testamento a fim de descrever o caráter divino de Cristo e sua tarefa cósmica são especificamente cristãos. Muitos deles se originaram de especulações judaicas sobre a pessoa e grau do Messias e figuras bíblicas, bem como de outros theologoumena judaicos.
O termo archçgos, traduzido “autor”, ou “príncipe”, significa “pioneiro”, “líder” ou “campeão”. O termo era usado para heróis humanos e divinos, fundadores de escolas ou aqueles que cortavam um caminho adiante para os seus seguidores.
O autor cita o Salmo 2.7 e 2 Samuel 7.14, textos que já haviam sido ligados a especulações sobre a vinda do Messias (nos Manuscritos do Mar Morto). Os intérpretes judeus frequentemente ligavam os textos por meio de uma palavra-chave comum; a palavra aqui é “Filho”. Como muitos outros textos messiânicos, o Salmo 2 originalmente celebrava a promessa para a linha davídica em 2 Samuel 7; a “geração” se refere à coração real – no caso de Jesus, sua exaltação (cf. similarmente a At. 13,33).
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Sexta-feira, Janeiro 13, 2012 by Nehemias

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Terça-feira, Janeiro 10, 2012 by Nehemias

Goodman, em seu livro "Rome and Jerusalem: The Clash of Ancient Civilizations", utiliza um principio semelhante para avaliar a obra de Flávio Josefo
"To accept Josephus' often tendentious evaluation of the motives and characters of the Jews and Romans whose actions constitute his narrative would be rash, but to accept the details of his narrative, particularly when they contradict his own explanations of events, and so survive in the narrative only because they happened, is reasonable.(tradução) Aceitar as avaliaçãoes frequentemente tendenciosas de Josefo sobre os motivos e caráter dos judeus e romanos cujas ações são descritas em sua narrativa seria imprudente, mas aceitar os detalhes de sua narrativa, particularmente quando eles contradizem sua própria explicação dos eventos, e assim foram incorporados a seu relato simplesmente porque realmente aconteceram, é razoavel [3]
Por exemplo, o autor do Evangelho de Mateus, geralmente datado de 80-100 DC, apresenta Jesus comissionando seus discípulos (capítulo 10) "as ovelhas perdidas da casa de Israel", os orienta a não irem as cidades dos samaratinos e dos gentios, e promete que, diante de obstáculos e perseguições, em que fugiriam de cidade em cidade, "em verdade vos digo que não acabareis de percorrer as cidades de Israel antes que venha o Filho do homem" (Mt 10:23). Dificilmente este dito pode ter sido inventado pelo autor do evangelho; aquela altura, na segunda ou terceira geração de cristãos, a nova fé já tinha percorrido não só as cidades de Israel, quanto as da Síria, Asia Menor, Grécia e Roma, e a vinda do Reino de Deus não havia acontecido; o próprio Mateus afirma que Jesus ordenou que seus discipulos pregassem a todas as nações, (cf Mt 28:19). O mais provável, então, é que esse dito atribuido a Jesus já circulasse a muito tempo entre as comunidades cristãs e que sua inclusão nesse contexto se devesse a uma tentativa de explica-lo."Jesus was a jew from Galilee who during the period when Pontius Pilate was governor of Judea gathered a considerable following of Jews, first in his home region, then in Jerusalem. His disciples seem to have been peasant Galileans, but his activites aroused sufficient interest in Jerusalem to attract opposition from the ruling elite in Jerusalem, who then handed him over to Pilate for execution like a common criminal. After his death, his followers believed that he was phisycally resurrected for a brief period before his ascent to heaven, and that he was the Messiah, a belief that he probably encouraged while he was alive. Specif teachings are more difficult to attribute to Jesus with any certainty. Those doctrines ascribed to him in the Gospels which cannot be paralleled in contemporary Judaism (and there are few) all coincide too closely with later Christian teachings for certainty that they are not a reflection of such later communities; but his unparalleled emphasis on the Kingdom of God (either in the present or the near future) reflect a distinctive intensity in his call to individual to repent " (tradução)Jesus era um judeu da Galiléia que, durante o período em que Pôncio Pilatos era governador da Judéia, reuniu um considerável número de seguidores, primeiro em sua região de origem, em seguida, em Jerusalém. Seus discípulos parecem ter sido camponeses galileus, mas suas atividades despertaram interesse suficiente em Jerusalém, para atrair a oposição da elite governante, que em seguida entregou-o a Pilatos para execução como um criminoso comum. Após sua morte, seus seguidores acreditavam que ele era ressuscitou fisicamente por um breve período antes de sua ascensão ao céu, e que ele era o Messias, uma crença de que ele provavelmente encorajou enquanto estava vivo. Ensinamentos específicos são mais difíceis de atribuir a Jesus com segurança. As doutrinas atribuídas a ele nos Evangelhos, que não encontram paralelo no judaísmo contemporâneo (e são poucas) coincidem todas com os ensinamentos cristãos posteriores, para que possamos afastar totalmente a possibilidade que não são um reflexo de tais comunidades posteriores, no entanto, sua ênfase sem precedentes no Reino de Deus (ou no presente ou no futuro próximo) refletem uma intensidade particular em seu apelo aos indivíduos para se arrependerem "[4]
John P Meier

Como o leitor pode observar, Lendering opta, em geral, pelos elementos autenticados por ambos os critérios. De fato, comparando os elementos da tradição autenticados pelo critério do constrangimento, com os múltiplamente atestados, temos que Jesus estava associado a João Batista no início de seu ministério, que após a morte desse, passou a pregar a vinda iminente do Reino de Deus, que realizou exorcismo e recebeu títulos associados ao Messias, que em uma visita a Jerusalém, se opôs a (condução dos negócios no) Templo e as suas autoridades, e em seguida, foi preso e crucificado por Poncio Pilatos, que considerou a associação ao Messias como alta traição, ou tentativa de ser proclamado Rei dos Judeus. É um esboço de biografia, da associação de vários elementos plausíveis e, que, em conjunto formam uma narrativa coerente e verossimilar.
Um exemplo de como os criterios podem interagir de forma produtiva em vários casos. Por exemplo, em Marcos temos:
"Nós o ouvimos dizer: Eu destruirei este santuário, construído por mãos de homens, e em três dias edificarei outro, não feito por mãos de homens (Mc 14:58)
Esse dito é lembrado pelos acusadores de Jesus em seu julgamento, que teriam deposto falsamente, Mateus 26:61 relata dito semelhante, com duas testemunhas concordando. Lucas, que também depende da narrativa da paixão de Marcos, não menciona essa acusação, mas ela reapareçe em Atos, contra Estevão, "Jesus, o nazareno, há de destruir este lugar [o Templo] e mudar os costumes que Moisés nos transmitiu" (Atos 6:14). Os evangelistas parecem incomodados com o dito, embora registrem uma profecia de Jesus de destruição do Templo
E, saindo ele do templo, disse-lhe um dos seus discípulos: Mestre, olha que pedras, e que edifícios! E, respondendo Jesus, disse-lhe: Vês estes grandes edifícios? Não ficará pedra sobre pedra que não seja derrubada. (Marcos 13:1-2).
Marcos (e Mateus) relatam a predição de Jesus como profecia (algo que Jeremias também fez, cf Jr 7), e não como uma ameaça. Uma acusação de que Jesus teria ameaçado destruir o Templo, o faria parecer como um revolucionário perigoso, aos olhos de judeus e romanos. O Templo de Jerusalém era um dos maiores santuários do Império.
Nesse ponto da narrativa, pela teoria das duas fontes, Mateus e Lucas são dependentes de Marcos. No entanto, em outra corrente de tradição, o Evangelho de João, temos Jesus dizendo:
"Jesus respondeu, e disse-lhes: Derribai este templo, e em três dias o levantarei" (João 2:19)
João observa prontamente que o "Templo" a qual Jesus se refere é seu próprio corpo (v. 21), e que seus discípulos entenderam isso após a ressureição (v. 22). Mas os oponentes de Jesus não tiveram esse esclarecimento, e um dito como esse poderia ser facilmente utilizado contra Jesus. No entanto, o evangelho de Tomé também registra uma versão desse dito "Eu destruirei esta casa, e ninguém poderá reconstrui-la" (dito 71).
Ou seja, o dito é multiplamente atestado (Marcos e João, e possivelmente Tomé), os evangelistas demonstram certo constrangimento com o dito, Marcos afirma que os adversários inventaram/distorceram o que Jesus havia dito, João espiritualiza o seu significado, e Lucas simplesmente omite essa acusação do julgamento de Jesus.
Professor David Flusser, da Universidade Hebraica, observa que os 3 dias poderiam não estar na forma original do dito, mas sim relacionados a ressureição de Jesus [12]. Em todo caso, Flusser chama atenção para uma profecia que era interpretada como relacionada a vinda do Messias:
"Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Eis aqui o homem cujo nome é RENOVO; ele brotará do seu lugar, e edificará o templo do SENHOR." (Zc 6:12).
Também os manuscritos do Mar Morto, no rolo do Templo, descrevem uma esperança de reconstrução do Templo na era messiânica, que não seria feito por mãos humanas, mas pelo próprio Deus:
"E Eu consagrarei meu [T]emplo por minha glória, (o Templo) o qual estabelecerei minha glória, até o dia de (uma nova) criação, quando criarei Meu Templo e o estabelecerei para Mim, para todo o sempre, de acordo com o pacto que fiz com Jacó em Betel (Rolo do Templo 29:9-10)"
Em suma, em alguns círculos, se esperava que a vinda do Messias implica-se na substituição do Templo feito pelas mãos humanas, por outro construido e consagrado pelo próprio Deus. No contexto judaico, um afirmação desse porte implicava no reconhecimento da chegada iminente do Reino de Deus e de seu ungido, justificando a reação de parte da aristocracia judaica, uma vez que especulações como essa facilmente poderiam se converter em rebelião contra a ordem estabelecida e o domínio romano. Caífas teria todos os motivos para ficar alarmado, e não admira a pergunta seguinte "És tu o Cristo?". E, se uma das concepções, e provavelmente, a mais popular, era que o Cristo restabeleceria o Reino de Davi, a acusação de "majestas" fica ainda mais pálpavel, explicando porque alguns dos principais sacerdotes (cujo o poder dependia de sua associação com Roma) tenham decidido se livrar de Jesus. (Devemos observar que o dito faz total sentido no contexto palestino antes da queda do Templo, mas totalmente deslocado entre cristãos depois de 70 DC; para compreende-lo eles espiritualizam seu sentido, como João faz).
"As palavras e as ações de Jesus em Jerusalém precipitaram a catástrofe. O sacerdócio saduceu, desprezado por todos, encontrou seu único apoio no Templo. Este profeta da Galiléia, diante da multidão reunida para a festa, havia não só previsto a destruição do santuário, mas o término da casta sacerdotal. Ademais, explorando os sentimentos amargos sobre o comércio que ali tinha lugar, desferiu um golpe doloroso contra as autoridades. As mesmas, trinta anos mais tarde, entregarão aos romanos Josué, filho de Ananias, por também profetizar a ruína do Templo. Os romanos protegiam com diligência todos os santuários religiosos do Império. Assumiam igualmente a tarefa de proteger o sumo sacerdote de agitadores inoportunos." [12]
André Chevitarese

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Quarta-feira, Dezembro 28, 2011 by Nehemias


Esse processo pode ser explicado, em parte, pela natureza das controvérsias que levaram a redação dos credos. O objetivo de cada um desses credos era identificar hereges. As controvérsias Ariana, Nestoriana e Monofisista, dos séculos IV e V, não versavam sobre os evangelhos ou novo testamento, já estabelecidos como autoritativos, antes, cada lado buscava demonstrar que biblica e filosoficamente que sua visão da relação do Deus Pai e Filho, e do elemento humano e divino na pessoa de Cristo era a correta.
No contexto dos séculos II e III, até onde se sabe, os grupos proto-ortodoxos e seus adversários não discutiam os feitos de Jesus, mas a natureza de sua manifestação e sua relação com os poderes celestiais. Por exemplo, adversários como o arqui-herege Marcião, subscreviam uma cristologia docética. Yahweh criara um mundo mau e corrupto, e, assim, Jesus, como salvador, não poderia participar de criação corrupta. Assim, para Marcião, Jesus é um ser celestial que vem ao mundo em semelhança de carne, em forma humana. A concepção docética utiliza um conceito semelhante aos dos anjos que apareceram a Abraão (Genesis 18), que conversam com ele, sentam em sua mesa, comem e bebem em sua presença; o deixam, vão até Sodoma, resgatam a família de Ló, e quase são molestados pelos sodomitas; ou então com o anjo que lutou com Jacó no Vau do Jaboque e, no fim da luta, acerta o pobre patriarca no nervo ciático, que fica lá com a coxa deslocada. (Crenças docéticas podem ser estranhas, mas eram disseminadas na antiguidade, tanto na forma de anjos e deuses em forma humana, quanto em figuras como Pitágoras e Mani como seres celestiais com aparência humana para transmitir conhecimentos superiores [11]. Essas crença possui paralelos modernos bizarros, como seitas como o Raelianos, que acreditam que Jesus, Buda, Maomé e Joseph Smith eram extraterrestes em forma humana, ou dos seguidores de David Icke, que acreditam que o ex-Presidente Bush e a Família Real Britanica, e varios outros líderes mundiais são humanoides reptilianos cuja real identidade é encoberta por uma grande conspiração).
Os marcionitas utilizavam o Evangelho do Senhor, uma versão do evangelho de Lucas (ou de um hipotético proto-evangelho de Lucas), sem as narrativas de infância e as citações do Velho Testamento que apresenta Jesus ensinando em Cafarnaum, escolhendo díscipulos, pregando as multidões, curando pessoas, sendo ungido pela mulher do vaso de alabastro, participando da ultima ceia, sendo entregue as autoridades, interrogado, torturado, crucificado, e seu corpo, chega a ser enterrado. No clima filosófico da época, uma opinião comum era que a matéria era uma forma corrompida da existência, e o corpo uma prisão do espirito, nossa parte divina. Muitos diziam que o mundo material era resultado da ação de um deus inferior, o Demiurgo, mau, ou ignorante e/ou apenas limitado. Os gnósticos, em geral, adotavam essa concepção. Se a matéria é maligna, Cristo, o espírito redentor divino não poderia possuir carne verdadeira. Não obstante, eles aceitavam que Cristo veio ao mundo, pregou, ensinou o verdadeiro conhecimento, realizou maravilhas, e foi eventualmente crucificado. As crenças parecem contraditórias, mas os gnósticos encontraram duas maneiras de conciliar seus conceitos teológicos com a tradição evangélica. A maioria dos gnósticos adotava uma cristologia separacionista[12], emprestando conceitos ebionitas que afirmavam que Jesus era um homem comum, que foi escolhido para receber o poder do Espírito. Assim, Jesus Nazareno recebeu em seu corpo o Aeon Cristo, e assim realizou atos poderosos e pregou a palavra do Senhor. Assim, eles conciliavam a pureza de um ser Divino, que se associava transitoriamente a um ser humano, sem se encarnar efetivamente, mas apenas "enchendo" ou"possuindo" um corpo. Diferentemente dos ebionitas, porém, esses gnósticos mantinham que, quando Jesus foi preso e executado, Cristo deixou seu corpo, deixando-o sofrer sozinho, enquanto nosso Aeon via de longe, intocado pelo sofrimento [12]. Já os docéticos conciliaram suas concepções filosóficas com as tradições evangélicas, desenvolvendo a crença que Cristo era um ser divino, que vem ao mundo com "roupa", aparência, disfarce humano, vivendo como um rabi galileu chamado Jesus Nazareno. Na concepção deles ele vive uma vida como um homem (mais ou menos) comum, como pregador e profeta itinerante, exorcista e curandeiro, como os evangelhos descrevem, mas sua verdadeira natureza de ser celestial com "roupa humana" só é conhecida por alguns, para todos os que viam ou conheciam, le seria "Jesus de Nazaré, carpinteiro e pregador", com CPF e Carteira de Identidade.
Assim, como nos diz o Professor Maurice Goguel, mesmo os "docéticos não contestavam a história evangélica. Eles eram cristãos idealistas, agarrados acima de tudo a noção da divindade de Cristo e o caráter celestial de sua pessoa, e que tentavam dar uma interpretação harmonizadora com suas idéias (...) Os docéticos tornam-se assim testemunhas da tradição evangélica"[13]. A questão não era sobre os feitos de Jesus, sua pregação e milagres, de que tinha sido enviado por Deus. O ponto era a natureza da sua manifestação. O grosso da tradição evangélica não opôs doceticos, separacionistas e proto-ortodoxos. Bart Erhmann acredita que o verso em que Jesus está em agonia no Getsemane, suando sangue, foi adicionado a Lucas, para frear o uso do do texto pelos docéticos [14], que também utilizaram os eventos narrados na tradição, como a escolha dos díscipulos, as grandes mensagens, e a crucificação. É a interpretação dessa tradição, e conceitos filosóficos particulares dos docéticos, que os levam a uma opinião teológica diferenciada da narrativa comum. Assim, proto-ortodoxos, marcionitas, gnósticos docéticos e marcionitas, bem como os ebioniotas, compartilhavam uma tradição evangélica comum e antiga, apostólica, um verdadeiro "elo perdido", sobre "Jesus Nazareno, varão aprovado por Deus com milagres, prodígios e sinais, que foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, e crucificado; e a qual Deus ressuscitou. Esses fatos comuns geraram interpretações teológicas e filosóficas diferentes por parte desses grupos.
c) John M Roberts
John M Roberts nasceu na cidade de Bath, Inglaterra. Se graduou em Oxford, e iniciou sua carreira acadêmica, em 1953, como professor visitante nos EUA, como membro do Institute for Advanced Study, em Princeton, e posteriormente nas Universidades da Carolina do Sul e de Colúmbia. Retornando ao Reino Unido, voltou para Oxford e ministrou também na Universidade de Southampton.
Roberts não era especialista em cristianismo primitivo, judaísmo do segundo templo, ou antiguidade clássica, seu campo de atuação foi a história moderna, temas como a revolução francesa. No entanto, ao escrever uma "história do mundo", com objetivo de situar o leitor leigo "das origens nas savanas africanas a 2007", Roberts situa as origens e desenvolvimento do cristianismo no seio do Império Romano, e apresenta algumas questões importantíssimas sobre a compreensão de nossas fontes, com grande poder de sintese e objetivamente, o que nos permite uma perspectiva mais global, em relação a uma abordagem mais aprofundada e pontual de um historiador especialista. Além disso, incluo Roberts em nossa lista, por apresentar a visão de um historiador de um outro período, que pode (e traz) alguns "insights" em relação aos desafios de nossas fontes sobre o cristianismo primitivo, em particular, e da Antiguidade em geral:
"Into this electric atmosphere Jesus was born in about 6 BC, into a world in which thousands of his countrymen awaited the coming of the Messiah, a leader who would lead them to military or symbolic victory and inaugurate the last and greatest days of Jerusalem. The evidence for the facts of his life is contained in the records written down after his death in the gospels, the assertions and traditions which the early Church based on the testimony of those who had actually known Jesus.(tradução) Nesta atmosfera carregada, por volta de 6 AC, Jesus nasceu, em um mundo em que milhares de seus compatriotas esperavam o advento do Messias, um lider que levaria a vitória militar ou simbólica e inauguraria os últimos e mais gloriosos dias de Jerusalém. A evidência para os fatos da sua vida está contida nos registros escritos após sua morte nos evangelhos, afirmações e tradições nas quais a Igreja Primitiva se baseava no testemunho daqueles que haviam conhecido Jesus[15].
Assim, Roberts posiciona o nascimento de Jesus no contexto amplo das expectativas messiânicas do Judaismo de seu Tempo, e passa a analisar os evangelhos, e principalmente, as tradições que teriam sido baseadas na memória oral dos seguidores de Jesus.
The gospels are not by themselves satisfactory evidence but their inadequacies can be exagerated. They were no doubt written to demonstrate the supernatural authority of Jesus and the confirmation provided by the events of his life for the prophecies which had long announced the coming of Messiah. This interested and hagiographical origen does not demand sceptism about all the facts asserted; many have inherent plausibility in that they are what might be expected of a jewish religious leader of the period. They need not be rejected ; much more inadequate evidence about far more intractable subjects has often to be employed. There is no reason to be more austere or rigorous in our canons of acceptability for early christians records than for, say, the evidence in Homer which illuminates Mycanae. Nevertheless, it is very hard to find corroborative evidence of the facts stated in the Golspels in other records.[15] (tradução) "Os evangelhos, isoladamente, não são evidência \satisfatória, mas seus problemas podem ser as vezes exagerados. Sem dúvida, foram escritos para demonstrar a autoridade sobrenatural de Jesus e que os eventos de sua vida eram confirmações das antigas profecias da vinda do Messias. Sua origem hagiográfica e por partes interessadas, não exige, contudo, ceticismo em relação a todos os fatos que narram. Muitos são inerentemente plausíveis com base no que se esperaria para um líder religioso judeu do período. Não é necessária sua rejeição; emprega-se frequentemente evidência muito mais problemática sobre assuntos bem mais intratáveis. Não há razão para sermos mais austeros ou rigorosos em nossos canons de aceitabilidade para os registros da igreja primitiva do que, por exemplo, as evidências em Homero que iluminam o periodo Micênico. Dito isto, e muito difícil encontrar elementos corroborativos dos fatos narrados nos evangelhos em fontes externas.[15]
Roberts apresenta assim as dificuldades e os desafios envolvidos no uso dos evangelhos como fonte histórica. Ele começa observando que não são o tipo de material com o qual os historiadores sonham, por terem sido elaborados com um viés, com o objetivo de trazer pessoas a nova fé (João 20:31) e confirmar os já evangelizados ou convertidos (Lc 1:4), buscando vigorosamente demonstrar que os eventos da vida de Jesus cumpriam as escrituras, e não "historiadores profissionais em busca da objetividade crítica"(como diria Geza Vermes). No entanto, como observa Roberts, esses problemas não nos devem levar a jogar o bebê com as águas do banho, levando-nos ao ceticismo total sobre os fatos narrados. Apesar das dificuldades e possível utilizar o método histórico-crítico nos evangelhos.
Em primeiro lugar, Roberts observa que muitos elementos dos evangelhos "inerentemente plausíveis com o que se esperaria de um líder religioso judeu da período", ou seja, são altamente plausíveis no contexto. Podemos acrescentar já visto no post anterior, há muitas evidências de uma tradição oral vibrante anterior aos evangelhos (L Michael White), que tem seu valor reconhecido como fonte histórica, junto com Josefo, para o mundo judaico do periodo anterior a destruição de Jerusalém (Fergus Millar), que várias tradições individuais (e complexos de tradição) contém tanto "colorido local" e tantos "indicios de familiaridade" que devem ter surgido na Palestina, no periodo em que Jesus exerceu seu ministério (Gerd Thiessen), os evangelistas apresentam Jesus consistentemente pregando nas pequenas vilas e aldeias da Galiléia, um mundo distinto dos cristãos primitivos nos grandes centros urbanos da civilização greco-romana, ainda que fosse interessante para esse cristãos ver Jesus discutindo filosofia com os filósofos em Séforis ou Tiberiades, indicando fortemente que nesse aspecto os evangelistas reproduziram o que encontraram em suas fontes (Geofrey M de Ste Croix). Acima já refletimos sobre como os evangelhos sinóticos apresentam um contorno geral de Jesus poderoso em palavras e atos, nas pequenas vilas e aldeias da Galíleia, em dissonância com a pregação do Cristo querigmático posterior; proto-ortodoxos, ebionitas, marcionitas, gnosticos docéticos e separacionistas conservam o esqueleto básico dessa narrativa, quase como um ancestral comum, mesmo que não o enfatizem (David Flusser e Geza Vermes).
A identificação de elementos que plausivelmente podem ser organizados em uma narrativa comum coerente com o contexto histórico em que teriam se originado, e que são mantidos em várias tradições cristãs concorrentes e rivais, em alguns casos indo contra as tendências de desenvolvimento dessas tradições, formam a base do critério de plausibilidade histórica.
Como observa um colega e contemporâneo de John M Roberts, Louis Gottschalk, que foi Professor da Universidade de Chicago, em seu Manual, "Understanding History", na análise de um documento, o historiador deve se ater mais a cada parte relevante do documento, do que ao documento como um todo. Em relação a cada um desses elementos relevantes e particulares, ele deve se perguntar: "Isso é crível ? Por crível não se entende "o que realmente ocorreu", mas sim o "que é mais proximo do que realmente pode ter acontecido com base no exame crítico das melhores fontes disponíveis"[16]. Ou seja, os elementos com alto grau de verossemelhança, o que, enfatiza Gottschalk, é bem mais do que não ser falso, e ainda acima do que meramente plausível[16]. Em outras palavras, o historiador tem condições de estabelecer verossemelhança, ao invés de verdade objetiva[16]. Foi justamente isso que os estudiosos já citados fizeram com os evagelhos. A partir da analise dos elementos relevantes das fontes, estabeleceram a partir de vários elementos plausíveis, um retrato verossimilar de Jesus, tendo em vista o contexto em que viveu, e o impacto que causou. É semelhante a montagem de um quebra-cabeça, onde as peças são arranjadas de forma a formarem um figura, reconhecendo que muitas peças podem estar faltando, e as vezes seja possivel apenas esboçar, ou nem isso, a figura original.
Roberts observa ainda que fontes com problemas similares ou maiores que os evangelhos são utilizados pelos historiadores em outros campos. Ele cita o caso dos escritos homéricos em relação ao período micênico, mas temos ainda as narrativas de Tito Lívio (século I AC) em relação a República Romana primitiva (séculos V e IV AC); a biografia de Apolonio de Tiana (sec I DC) por Filostrato de Quios (século III DC); os livros históricos do Velho Testamento e as tradições orais de povos africanos na reconstrução do passado pré-colonial. Também a atestação de Jesus em fontes externas semi-contemporâneas é consistente com a de outros pretendentes messiânicos como Simão de Peréia, Judas Galileu e o Profeta Egípcio. Por fim, Roberts reconhece que ainda se terá o problema de que as narrativas evangélicas, salvo em alguns pontos específicos (existência, crucificação, atividade como mestre e realizador de curas e exorcismos), não encontram paralelo em fontes não-cristãs, o que permite um ampla variação nos detalhes específicos do ministério de Jesus. Tais situações são relativamente comuns na História Antiga e Medieval, e os historiadores tem que viver com isso, e podemos concluir com as observaçoes dos Professores Martha Howell, da Univ. de Columbia e Walter Prevenier, da Univ. de Ghent:
“Historians never have just what they want or need. At one extreme is the historian limited to one source. Einhard’s Life of Charlemagne is, for example, the only source scholars have about the private life of Europe’s first emperor. Like many of the political biographies written today, this one is more hagiography than critical biography, and in the best of worlds historians might refuse to use it as evidence about Charlemagne’s life and his character. But historians, although conscious they are prisoners of the unique source and bear all the risks that this involves, use it because it is all they have.” (tradução) Os historiadores nunca tem exatamente o que eles querem ou precisam. Em um extremo está o historiador limitado a uma única fonte. Vida de Carlos Magno, de Einhard, é, por exemplo, a única fonte disponível para os estudiosos sobre a vida privada do primeiro imperador da Europa. Como muitas das biografias políticas escrito hoje, é mais uma hagiografia do que biografia crítica, e no melhor dos mundos ,historiadores poderiam se recusar a usá-lo como evidência sobre a vida de Carlos Magno e seu caráter. Mas os historiadores, embora conscientes que são prisioneiros de uma única fonte e todos os riscos que isso envolve, a utilizam porque é tudo que eles têm. "
Referências Bibliográficas
[1] David Flusser (1998), Jesus, fl. XVIII (Prefácio)
[2] David Flusser (1998), Jesus, fl. 1-3; A biografia de referência de Joseph Smith foi escrita por Fawn McKay Brodie (1945): No Man Knows My History: The Life of Joseph Smith, por ter sido a primeira obra escrita sobre uma perspectiva não hagiográfica (ou polêmica) sobre o fundador do mormonismo. Os escritos de Joseph Smith podem ser consultados no site http://josephsmithpapers.org/ . Sobre Simon Kimbangu, o site "Dicionário de Biografias Cristãs da Africa" , relata "Além de fontes de arquivos (Archives Africains, Brussels; BMS archives, Oxford), a principal documentação sobre a vida e o ministério de Kimbangu é de Paul Raymaekers, ed., "L'Histoire de Simon Kimbangu prophète d'après les écrivains Nfinangani et Nzungu," Archives de sociologie des religions 31 (1971): 7 - 49 and Paul Raymaekers and Henri Desroche, ed., L'Administration et le sacre. Discours religieux et parcours politiques en Afrique Centrale (1921 - 1957) (1983). A história oral foi coletada em W. MacGaffey, "The Beloved City: Commentary on a Kimbanguist Text," JRA 2 (1969): 129-147, e em Kuntima Diangienda, L'Histoire du Kimbanguisme (1984), escrita pelo filho mais jovem de Kimbangu, o último dirigente da Igreja de Kimbangu. M.-L. Martin, Kimbangu: An African Prophet and His Church (1975); Werner Ustorf, Afrikanische Initiative (1975)".
[3] Para uma análise histórica sucinta e objetiva dos milagres de Jesus numa perspectiva naturalista, ver John Dominic Crossan (1995), Jesus uma Biografia Revolucionária, fls. 104/106; para uma outra mais detalhada e aprofundada, ver John P Meier (1999) Um Judeu Marginal, Livro 2, Volume III,; Professor Raymond Van Dam elaborou uma excelente análise histórica dos relatos de milagres de santos do século V, em seu livro "Saints and their miracles and Late Antique Gaul"(1993) no que se refere a placebos, doenças psicosomática e cura pela fé, um trabalho de referência é o de Arthur e Erica Shapiro "The Powerful Placebo: From Ancient Priest to Modern Physician" ver também Erney Plesmann de Camargo e Mônica Teixeira (2002) Sobre Placebo e Efeito Placebo, Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., V, 2, 118-125; Monica Teixeira (2008) Placebo, um Mal Estar para a Medicina, Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., São Paulo, v. 11, n. 4, p. 653-660, dezembro 2008; Armando Favazza (1982) Modern Christian Healing of Mental Illness , Am J Psychiatry 139:6, June 1982, 728-736. Nicholas Humphrey (2002) Great expectations: the evolutionary psychology of faith-healing and the placebo effect In Nicholas Humphrey (2003) The Mind Made Flesh: Essays from the Frontiers of Evolution and Psychology, Ch. 19, 255-85, Oxford University Press.
[4] Informações biográficas de Geza Vermes constantes em seu livro "As Varias Faces de Jesus", fl. 369 (contracapa). Especificamente no que se refere ao período da ameaça nazista ver sua autobiografia, "Providential accidents: an autobiography (1998)", fls. 32-39;
[5] Geza Vermes (1998) As Varias Faces de Jesus, fls. 177 e 263, respectivamente
[6] Geza Vermes (1998) As Varias Faces de Jesus, fl. 246
[7] Geza Vermes (1987) The Jesus Notice of Josephus Re-Examined, Journal of Jewish Studies 38, 1- 10;
[8] Geza Vermes (1998) As Varias Faces de Jesus, fl. 306-307
[9] Tertuliano de Cartago, Prescrição contra os Hereges, capítulo 13.
[10] Tertuliano, Contra Praxeas 2, e do "Véu das Virgens 1".
[11] Sobre Pitagoras, segundo Diogenes Laércio (cerca de 200 DC, Vida e Doutrinas de Filosofos Eminentes, Vida de Pitágoras, IX) e Porfírio de Tiro (280 DC, Vida de Pitágoras, 28-29), havia a crença que Pitagoras era o deus Apolo em forma humana, vindo das paradisíacas regiões hiperboreas. Sobre Mani (seculo III DC), O Professor Werner Sundermann, da Universidade Livre de Berlim, em seu artigo na Encyclopaedia Iranica observa "Mani vita preserved in the Cologne Mani Codex (abbrev. CMC), namely Peri tēs gennēs tou sōmatos autou “About the genesis/procreation of his body,” may presuppose the transcendental precedence of his spiritual nature, as does the Parthian fragment M 6032, which states that Mani “through mercy put on the earthly garment,” that is, his material body.(tradução) "A biografia de Mani preservada no Código Mani de Colônia (abrev. CMC), chamada Peri tes gennes tou somatos autou "Da gênese/procreação de seu corpo" possivelmente presupõe a precedência transcendental de sua natureza espiritual, como faz o Fragmento parto M 6032, que afirma que Mani, "por compaixão pôs vestes terrenas", ou seja, um corpo material. http://www.iranicaonline.org/articles/mani-founder-manicheism, acessado 28.12.2011.
[12] Para uma bom "overview" a respeito dos docéticos e sepacionistas no gnosticismo cristão primitivo ver Bart Erhmam, "Evangelhos Perdidos", diferenciação entre doceticos e separacionistas fls 36-37; No que se refere a predominância dos separacionistas sobre os doceticos entre os gnósticos, fl. 188; quanto as crenças comuns gnósticas ver fls.171-201. Entre os rivais dos proto-ortodoxos pelas mentes e corações dos cristãos primitivos. Cerinto, segundo Hipolito de Roma, " afirma que Jesus não nasceu de uma virgem, mas da união natural de José e Maria, como o resto da humanidade; mas que ele excedia em justiça, prudência e compreensão todos os outros homens. E Cerinto afirma também que após o batismo de Jesus, Cristo veio a terra em forma de pomba e desceu sobre ele, vindo da parte da Soberania que habita acima do circulo da existência, e depois disso ele passou a pregar o Pai, que não era conhecido, e realizar milagres. E ele declara que no fim de sua paixão, Cristo o deixou, uma vez que era incapaz de sofre, sendo um Espírito da parte do Senhor" (Hipolito, Refutação de todas as Heresias, Livro X, Capítulo 17). Também Basilides pregava que "o Pai não nascido e sem nome, (...) enviou seu próprio primogênito Nous (aquele que é chamado Cristo) para libertar, aqueles que acreditam nele, do Demiurgo criador do mundo. Ele apareceu então, na Terra em forma humana, para nações representadas por aquelas potestades, e realizou milagres. No entanto ele mesmo não sofreu a morte, mas Simão, um home de Cirene, sendo chamado, levou a cruz em seu lugar; e foi transfigurado para parecer com ele, para que acreditassem que ele era Jesus, e o crucificassem, por ignorância e error, enquanto Jesus recebeu a forma de Simão, e estando de longe, ria deles" (Irineu de Lion, Contra as Heresias, Livro I, Capitulo 24, seção 4.
[14] Maurice Goguel (1926), Jesus the Nazarene: Myth or History?, fl. 79
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