sábado, 4 de fevereiro de 2017

O General Romano Pompeu, os Piratas da Cilícia, e as Políticas de Segurança Pública do Brasil

Faz uns dez anos, li uma coluna do jornalista Mauro Santyanna que falava de como o Pompeu, o Grande, subjugou os piratas da Cílicia, e como a combinação de uma ação repressiva resoluta do estado e a presença de liderança com sensibilidade social resolveu um dos maiores problemas de "criminalidade" da história antiga por séculos.Não acho mais o artigo do Mauro Santyanna em lugar nenhum, mas a idéia vai render um post.


A situação reflete um paralelo interessante com o estado da segurança pública no Brasil. Conforme dados referentes a 2015, constantes no Anuário Brasileiro da Segurança Pública de 2016, publicação do Forum Brasileiro de Segurança Pública. Segundo os dados apresentados pelo anuário 58.467 pessoas sofreram morte violenta - por homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte ou em  decorrência de intervenções policiais. A cada 9 minutos, uma pessoa morreu assassinada no Brasil em 2015 [1]. A publicação compara o número de mortes por assassinato no Brasil entre 2011 a 2015, estimadas em 279.567, com os 259.124 mortes verificadas na Guerra Civil da Síria em período equivalente [1]. Mais da metade dos cidadãos assassinados (54 %), tem entre 15-24 anos, e 73 % são negros e pardos. Além disso, se somam 45.460 estupros (um cada 12 minutos), cerca de um milhão de carros roubados ou furtados nos anos de 2014-2015[1]. O Brasil, em suas três esferas de governo, gasta R$ 76,3 bilhões com os custos da violência, ou 1,38 % do PIB. Disto resulta, que um país com cerca de 552 mil policiais, tenha quase o mesmo número de vigilantes ativos (519.014). A população, amedrontada, faz o que pode, e 76 % tem medo de morrer assassinado, o que resulta em profundo ressentimento em relação garantias e direitos fundamentais dos criminosos, 57 % acreditam que "bandido bom, é bandido morto"[1].

Mosaico de um Trieme romano, Tunísia. via wikipedia commons
Conforme Plutarco de Quironea, (45-120 DC), por volta do ano 75 A.C, o mediterrâneo estava infestado por piratas, que tinham sua base na região da Cilícia, sul da atual Turquia. Em face da lenta decadência do Império Seleucida, a partir do ano 150 DC, e da queda de Cartago após sua derrota nas  guerras punica, as condições se tornaram propícias para as atividades de pilhagem. Posteriormente, as duas primeiras guerras entre os romanos e Rei Mitridades VI do Ponto, nos anos 80 AC, contribuíram ainda mais para desestabilizar a região. 


Os dois principais relatos em relação a atividade dos piratas são o de Plutarco (Vidas Paralelas, Pompeu, 24-28), escrito por volta do ano 100 DC, e Apiano de Alexandria (95-165 DC), no livro 12, §91-96, de sua Historia Romana, escrito entre 120 a 160 DC [2]. Em face de não serem fontes contemporâneas dos eventos, são extremamente relevantes as alusões aos eventos e personagens contidos no Discurso de Marcos Tulio Cícero, Pro Lege Manilia, proferido em 66 AC [3]. Todos esses relatos concordam entre si nos seus fatos fundamentais, e sua historicidade será presumida à grosso modo nos seus elementos básicos. Abaixo serão transcritos e comentados partes do relato de Plutarco, sendo os demais relatos mencionados ocasionalmente, junto com as analogias a situação brasileira. Nos diz Plutarco:
(...) O poder dos corsários do mar, que começou nas costas da Sicília, do qual no começo não fizeram caso porque não se aperceberam, veio a tomar corpo e aumentar no tempo da guerra contra o rei Mitridates, quando se alugaram aos serviços desse rei. E os romanos, impedidos com suas guerras civis e combatendo entre si às portas da cidade de Roma, deixando o mar sem guarda, isto levou os corsários adiante em seus propósitos e deu-lhes coragem para ir além do que já haviam feito, de sorte que não somente destruíam os navegantes, indo e vindo pelo mar como forçavam também as ilhas e cidades marítimas, pelo que já havia até homens opulentos e de antiga nobreza, e que eram tidos como pessoas conceituadas, que embarcavam em navios dos corsários e se uniam a eles, como se a pirataria se tivesse tornado louvável e honesta,[2]

Neste interim, os piratas da Cílicia se tornaram extremamente organizados e apresentavam um desafio para os governos do Mediterrâneo Oriental, nenhum dos quais com condições navais de opor-se a eles. As comunidades tiveram que firmar acordos e fazer concessões aos piratas. Além disso, como observa o Professor Jona Lendering, "desesperados de todos os países afluiram para aquelas regiões, e começaram nova vida como piratas"[4] , uma vez que as constantes guerras deixaram regiões inteiras em ruína econômica, como a ilha de Creta. Por fim, além da pilhagem de navios e cidades costeiras, os piratas passaram a ter como sua principal atividade o tráfico de escravos, e seus cativos eram vendidos em mercados como Delos. Nesta época, Roma demandava grande e crescente quantidade de escravos, já que, na Italia, as grandes fazendas dos senadores e cavaleiros precisavam de mão de obra intensiva (com o inconveniente adicional dos escravos retirarem as oportunidades de trabalho dos romanos livres). Sendo assim, Roma evitou o quanto pode confrontar os piratas. Semelhantemente, no Brasil do sec. XXI, o crime organizado se beneficia das fraquezas dos governos estaduais, (a maioria não capacitada para enfrenta-lo), da falta de perspectivas econômicas, (após várias décadas perdidas), de populações empobrecidas e com pouca chance de absorção no mercado de trabalho, e das conveniências do sistema politico e econômico que frequentemente se beneficia do crime organizado, na forma de suborno ou apoios políticos, e estabelece alianças tácitas ou explicitas.

Levantaram os piratas, em vários lugares, arsenais, portos e torres de vigia para fazer sinais com fogo ao longe, das praias fortificadas, e além disso, formaram-se frotas de navios, compostas não somente de bons e fortes galeões para o remo, com pilotos astutos e marinheiros espertos, com navios ligeiros para servir na ocasião precisa, mas também enfeitados profusamente, o que os tornava odiados mais ainda pela sua superfluidade, não temendo o perigo de suas forças; pois tinham as popas de suas galeras todas douradas, os tapetes e cobertores de púrpura, os remos prateados,’ como se tivessem prazer em fazer demonstração de sua pilhagem. Não se viam nem se ouviam por todos os lados das costas senão sons de instrumentos de música, canções, banquetes e festins, prisões de capitães e de pessoas de qualidades, resgates de mil prisioneiros, todas aquelas coisas se faziam, para a desonra e vergonha do povo romano. Possuíam já uns mil navios e já haviam tomado umas quatrocentas cidades, onde destruíram e roubaram vários templos, que até então jamais haviam sido poluídos nem pilhados, como o dos Gêmeos na ilha de Claros, o de Samotrá-cia (23), o de Ceres na cidade de Hermíona, de Esculápio em Epidauro, os de Netuno em Istmo, em Tanara, e na Calábria, os de Apoio em Actium, na ilha de Leucá-dia, os de Juno em Samos, em Argos e na Leucânia.

Além de organizados, bem armados e insolentes, os piratas se tornavam cada vez mais ousados. Possuiam uma frota poderosa, tripulações capacitadas e seus cofres eram irrigados com crescente fluxo de recursos de suas atividades. Possuiam 1000 navios e exerciam domínio sobre 500 cidades. Neste ponto, pode ser estabelecida outra analogia com a criminalidade brasileira. O domínio efetivo de amplas porções de território urbano, principalmente nas periferias e comunidades pobres, em geral desprovidas de serviços públicos e atuação do estado. Em Porto Alegre, por exemplo, facções criminosas dominam 38 dos 83 bairros, segundo reportagem do G1. como nos relata Plutarco:

 Além das insolências e injúrias que esses piratas faziam aos romanos sobre o mar, ainda desembarcavam em terra e iam espreitar os caminhos, arruinando e destruindo suas casas de campo, que se encontravam ao longo das praias e capturaram uma vez dois pretores romanos, Sextílio e Belino, vestidos com seus longos trajes de púrpura e acompanhados de seus sargentos e oficiais. Também foi assaltada por eles a filha de Antônio, personagem que havia recebido as honras do triunfo, quando ela ia para os campos, tendo sido resgatada por uma grande quantia de dinheiro; mas onde demonstravam mais desdém e sarcasmo, era quando aprisionavam alguém que se punha a reclamar, dizendo ser cidadão romano e dava seu nome; então eles fingiam estar admirados e ter grande medo; batiam as mãos sobre as coxas dos prisioneiros e se punham de joelhos diante dele, suplicando que os perdoasse. O pobre prisioneiro, pensando que essa comédia era sincera, vendo-os humildes e disfarçando tão bem assim, vinham alguns que lhe punham sapatos nos pés e outros que o vestiam com um traje longo à moda romana, para que, diziam eles, não fosse outra vez estranhado; depois, quando haviam zombado bastante dele, no que sentiam grande prazer, finalmente, em alto mar, atiravam fora do navio uma escada e mandavam que o prisioneiro descesse e fosse em boa hora; e se não quisesse descer por si mesmo, eles o atiravam à forca no mar e o faziam assim afogar. Com o seu poder, os ladrões ocupavam e tomavam inteiramente o mar Mediterrâneo em sua sujeição, de tal forma que não havia mercador que pudesse por ali navegar [2].
Denário com efigie de Gneu Pompeu , via wikicommons
A situação, porém, só começou a assustar Roma realmente, no momento em que suas elites começaram a se sentir ameaçadas. Primeiro o risco físico, Plutarco relata como dois Pretores foram capturados. Para tornar a situação mais humilhante, os magistrados estavam acompanhados de seus oficiais (lictores). Destruiam as casas de campo dos ricos, e sequestravam seus familiares. Solicitavam vultosos resgates. Matavam cruelmente cidadãos romanos. Tais fatos forçaram as elites romanas a uma reação, os riscos agora se tornavam palpáveis. Além disso, o comércio marítimo se tornou inviável  e os preços do trigo e outros cereais - dos quais a Itália não produzia em quantidade suficiente, dependendo de importações do Norte da África - disparou, desestabilizando os fundamentos econômicos da República (Apio é mais explicito, e diz que alguns romanos já passavam fome). É possível uma analogia com a situação atual do Brasil, traficantes queimam ônibus com frequência, e, as vezes, com seus passageiros, Os custos da criminalidade impactam pesadamente os cidadãos e o setor produtivo. Dados recentes, indicam que no Rio de Janeiro transportadoras empregam até 20% do orçamento em segurança.

No ano 67 AC, o povo, desesperado, recorreu ao Senado. Surgiu a proposta de dar poderes extraordinários ao  general mais habilidoso de Roma, a época, Gneu Pompeu, o Grande (106-48 AC):

Isto foi a principal causa de agitação dos romanos, temendo a necessidade de víveres e augurando carestia e fome. fazendo-os enviar Pompeu para tomar o domínio do mar a esses corsários; e quem primeiro levou avante o propósito, foi Gabínio, um de seus familiares» que não lhe queria dar por edital somente a autoridade de um almirante ou comandante da marinha, mas o poder de uma monarquia soberana sobre todas as espécies de pessoas, sem estar sujeito a prestar contas, nem depois sindicado pelo que teria feito no cargo; pois o teor do edital lhe dava plenos poderes para comandar soberanamente em todos os mares, desde as colunas de Hércules e em toda a terra firme nos arredores, até vinte e cinco léguas atrás do mar (Havia então poucos países sob o domínio romano, que ficavam mais afastados, mas estavam compreendidos ali grandes nações e príncipes poderosos). Com vantagem deu-lhe também o direito de escolher de entre os do Senado, quinze tenentes para dar a cada um os cargos que bem quisesse e receber dinheiro do tesouro ou das mãos dos coletores, para manter a frota de duzentas velas, e com todo o poder de levar quantos guerreiros e quantos galeões e remadores lhe aprouvesse. Esta proposição, tendo sido lida publicamente, o povo aprovou e autorizou-a com prazer; mas aos principais do Senado, pareceu que aquilo lhe dava um poder que não suplantava somente todo o desejo mas lhe infundia grande temor, em dar assim a um particular uma autoridade tão absoluta e tão pouco limitada [2];

Os poderes que seriam concedidos a Pompeu, segundo a proposta inicial, do Tribuno do Povo Aulo Gabínio, eram superiores até mesmo ao dos ditadores na República Romana, ainda que com escopo mais específico. Como já observamos aqui no AD Cummulus, na República Romana, em situações de grave crise ou iminente perigo para o estado, um ditador poderia ser eleito. Era um magistrado com poderes amplos e excepcionais, com ascendência sobre os consules, o senado e demais oficiais. Para que não fosse tentado a se perpertuar no poder e/ou tornar-se um tirano, seu mandato era limitado a seis meses, devendo prestar contas de seus atos quando deixasse o poder. A proposta de Gabinio era de transformar Pompeu em uma espécie de ditador maritimo, com domínio sobre o Mediterrâneo e áreas costeiras, até cerca de 50 km do mar, só que, diferentemente de outros magistrados que exerciam a figura de Ditador, Pompeu não teria de prestar contas de seus atos posteriormente. Tal proposta constituía um risco muito grande para a República e as garantias dos cidadãos romanos. No entanto, conforme Plutarco, o povo aprovou eloquentemente, tal o desespero que a situação provocava. Da mesma forma, no Brasil, é crescente a pressão por medidas de força na área criminal, independente de sua efetividade. 
    
 por esta razão todos se opuseram, exceto César, o qual favoreceu o projeto, não que se preocupasse em dar prazer a Pompeu, mas porque então já procurava insinuar-se nas boas graças do povo; mas houve outros que apertaram e repreenderam gravemente Pompeu, chegando um dos cônsules a censurá-lo por querer seguir os passos de Rômulo, e advertindo-o a que não procurasse o mesmo fim que ele. O povo desejou até espancar esse cônsul por isto. Catulo apresentou-se em seguida para falar contra; o povo, de início, deu-lhe pacífica audiência, porque era uma pessoa venerável; começou ele por deduzir, sem nenhuma demonstração de inveja, muitas e belas coisas em louvor de Pompeu, e por fim, aconselhou o povo a poupá-lo e não expô-lo ao perigo de tantas guerras, umas sobre as outras, a um personagem como êle, que lhes devia ser tão querido: — "Pois se vós vindes a perdê-lo, disse êle, a quem podeis em seu lugar?" O povo então exclamou bem alto: —"Tu mesmo". Vendo então que perdia seu trabalho procurando desviar o povo desse propósito, saiu. Róscio apresentou-se depois procurando falar também, mas não pôde nem conseguir audiência; e vendo que não queriam ouvi-lo de outra forma, mostrou por sinais com os dedos que não deviam entregar esta responsabilidade a Pompeu só, mas também a um outro com êle. O povo, não gostando, pôs-se a gritar tão forte, que um corvo, voando na ocasião por cima, caiu entre a multidão; por onde se pode compreender que os pássaros caem do ar na terra, não porque o ar, agitado por alguma veemente concussão se rompa e venha a fender-se; mas porque o golpe da voz, quando é tão forte e tão violento, produz como que uma tormenta no ar, os atinge e abate [2].

A oposição entre o anseio do povo por mais segurança e o desejo dos políticos pela manutenção do status quo chega ao auge. Não nos referimos ao Brasil, por óbvio, mas ao relato de Plutarco sobre as medidas a serem adotadas para conter os criminosos. Júlio César é o único dos principais  senadores a apoiar a medida, não pelo interesse público, mas para cortejar o povo e Pompeu. No entanto, apesar das motivações apontadas por Plutarco, César, cerca de 10 anos antes, já havia tido uma experiência com aqueles mesmos piratas. Foi sequestrado quando seu navio passava pela Ilha de Rodes, e ficou em poder dos piratas por cerca de 40 dias. Seus companheiros de viagem foram enviados para recolher 50 talentos, para seu resgate. César manteve um relacionamento amistoso com seus captores, e "brincava" que seria misericordioso com eles quando os derrotasse. Libertado, César contratou um frota, prendeu aqueles piratas e os mandou crucificar, mas para cumprir sua promessa, cortou suas gargantas antes [5]. Seja como for, o apoio de César foi bem vindo, uma vez que os lideres do Senado, tais como os poderosos Quinto Lucácio Catulo e o tribuno Lúcio Roscio Oto se recusaram a apoiar a proposta.

Nesse dia a assembléia foi dissolvida sem ficar nada concluído e na data prefixada para passar o decreto pelas vozes e sufrágios do povo, Pompeu foi para os campos, onde recebeu a comunicação de que havia sido autorizado, voltou e entrou de noite na cidade para evitar manifestações de inveja contra ele, devido a multidão que acorreu de todas as partes da cidade à sua frente e que o acompanhou até sua casa. No dia seguinte, cedo, saindo em público, sacrificou aos deuses, e sendo-lhe dada audiência em plena assembléia, fez que ajuntassem ainda muitas coisas ao seu poder, o dobro quase do que lhe havia sido concedido no primeiro decreto; pois obteve que o público lhe armasse quinhentos navios e levasse cento e vinte mil combatentes a pé e cinco mil a cavalo; escolheu mais, dentro do Senado, vinte e quatro personagens, os quais haviam sido todos governadores e com encargos de armas e também dois tesoureiros gerais.   Nesse ínterim,  os vivedores de aventuras se encolheram, pelo que o povo ficou à vontade, tendo ocasião de dizer que só o nome de Pompeu havia amortecido aquela guerra [2]. 

Na República Romana, as leis eram, tecnicamente, aprovadas pela Assembléias, formadas pelos cidadãos romanos, Cabia ao Senado a análise prévia das leis  a serem submetidas a aprovação e orientar os magistrados quanto a sua aplicação. No caso, a assembléia "atropelou" as reservas e oposição do Senado. Enquanto os senadores se questionavam quanto a conveniência de uma ação decisiva contra os piratas, com o inconveniente de prejudicar o tráfico de escravos e concentrar poderes sobre Pompeu, o povo levou em conta o risco palpável de morrer de fome em face da escassez e aumento do preço do trigo pela ação dos piratas. Os ricos tinham opções, os pobres não. Semelhantemente, no Brasil do século XXI, os ricos contratam seguranças, vivem em condomínios fechados e blindam carros. Como observa Alon Feuwerker "(...) Os pobres são, ao contrário, quem mais precisa do aumento da capacidade de dissuasão do Estado contra o crime. O pobre não mora em condomínio fechado, não tem segurança particular, não usa carro blindado. Nem o pobre nem a classe média. O pobre, aliás, volta para casa muitas vezes a pé em ruas sem iluminação. Quem está mais sujeita a ser estuprada e morta na volta da escola ou do trabalho? A filha do rico ou a filha do pobre? Quem tem mais probabilidade de morrer num assalto ao ônibus em que viaja? O filho do rico ou o filho do pobre? [6]

Foi aprovada a Lei Gabinia,  que deu o dobro dos recursos que o Senado hesitara em conceder. A mobilização do estado seria integral, como típico de Roma em momentos em que a sobrevivência do estado era ameaçada. Plenos poderes foram concedidos a Pompeu (por três anos, no relato de Apiano), o marco legal da República foi alterado, para compatibilizar com os poderes extraordinários concedidos. recursos do Tesouro Romano foram disponibilizados. Pompeu tinha agora um exército de 120 mil de infantaria, 5 mil cavaleiros, e 500 navios (segundo Apiano, 4 mil cavaleiros e 270 navios, mas tanto é possivel que tanto a esquadra de Pompeu, qunato a dos piratas tenha sido exagerada). Sabiamente, Pompeu escolheu 24 senadores experientes, que já haviam governado provincias,  para dividir as responsabilidades e auxília-lo, além de sinalizar seu respeito pela ordem estabelecida e que não tentaria subverter a República. Alguns desses oficiais são mencionados por Apiano.


Assim, dividiu o mar entre terras, em treze regiões em cada uma das quais ordenou um certo número de navios com um de seus tenentes; e, tendo espalhado suas forças, envolveu dentro de suas redes todos os navios dos corsários que se achavam juntos, aprisionou-os e os fez vir para terra; mas aqueles que em boa hora debandaram ou que puderam escapar dessa caçada geral, foram todos se esconder na Cilícia, nem mais, nem menos como as abelhas na colméia, contra os quais quis ir ele mesmo pessoalmente com sessenta dos melhores navios; todavia, não se preparou para ir sem que primeiramente tivesse limpo todo o mar da Toscana, as costas da Líbia, da Sardenha, da Sicília e da Córsega, de todos esses ladrões, que anteriormente aí costumavam pilhar, o que foi feito no espaço de quarenta dias, mediante o trabalho que teve e a boa diligência que tiveram também seus tenentes [2].
Ulisses e as sereias, mosaico no Museu Nacional do Bardo, Túnis, Tunisia,
século II DC, via wikicommons
Os piratas atuavam em quase todo Mediterrâneo, de forma descentralizada. Pompeu então dividiu seus navios em 13 distritos, que passaram a atacar localmente o criminosos, que não tiveram tempo de se reagrupar, sendo assim cercados e derrotados. Primeiro as regiões mais próximas de Roma, depois  as grandes ilhas vizinhas da Itália, Sicília, Córsega e Sardenha, e em seguida as costas da Líbia, no outro lado do mar. Em quarenta dias, Pompeu havia desarticulado os piratas que ameacavam as rotas vitais de cereais provenientes do Norte da Africa até Roma.

Plutarco continua seu relato, contando um pouco da política em Roma, Cornélio Piso, um dos cónsules, tentou minar a posição de Pompeu, mas foi contido por Auleo Gabínio. Pompeu voltou brevemente a Roma, onde foi aclamado pelo povo, para organizar a fase final da campanha, atacando os piratas em sua base na Cilícia.

Tendo aprisionado alguns corsários daqueles que se achavam ainda juntos, pilhando o mar aqui e acolá, tratou-os humanamente quando pediram perdão, e tendo seus navios e suas pessoas em seu poder, não lhe fez mal algum, pelo que seus companheiros, com esperança, fugiram aos outros capitães, assim como seus tenentes e foram entregar-se a ele com suas mulheres e filhos. Pompeu perdoou a todos os que se entregaram voluntariamente, e assim veio a descobrir e a seguir o rasto dos outros, que aprisionou afinal, os quais se sentindo culpados de casos irredimíveis, esconderam-se; todavia, o maior número desses, os mais ricos e mais poderosos, haviam retirado suas mulheres, seus filhos, seus bens e todo o seu povo inútil para a guerra, para dentro dos castelos e pequenas fortalezas do monte Tauro, e aqueles que eram aptos para defesa, embarcaram em seus navios diante da cidade de Coracésio onde esperaram Pompeu e lhe deram combate, no qual foram derrotados primeiramente no mar, depois sitiados em terra; mas pouco depois pediram que os tomasse a seu favor e se entregaram com suas cidades, suas ilhas fortificadas, de sorte que estas eram bem difíceis não somente de serem não só forçadas, como também abordadas. Assim, esta guerra foi terminada e todos os corsários, em qualquer parte ou lugar em que estivessem, foram expulsos fora do mar no espaço de três meses, não mais. Aí ganhou ele grande número de navios, além de noventa galeras armadas (...);[2]

Segundo Plutarco, Pompeu mostrou-se clemente com os piratas que se entregavam. Isso acabou incentivando a deserção entre eles, que cada vez mais se reduziam em número de combatentes. Os que se entregavam traziam informações importantes sobre o inimigo. Em algum tempo, os remanescentes foram derrotados no mar e em terra.  A abordagem de Pompeu foi tão engenhosa como atípica para os comandantes romanos, que na repressão a movimentos de rebelião costumavam ser extremamente cruéis.  Pouco anos antes, em 71 AC, Marcus Licínio Crassus havia derrotado os escravos rebeldes comandados por Espartaco, e mandado crucificar 6 mil dos insurgentes as margens da Via Appia, entre Roma e Cápua  (uma das mais importantes estradas romanas), para que seus restos fossem vistos por meses e anos [7], no relato de Apiano [8]. Cerca de 60 anos depois, Flávio Josefo narra que Quintilio Varo crucificaria, praticamente sem critério, 2 mil judeus na revolta após a morte de Herodes [9]. Tipicamente, os romanos buscavam expor o máximo possível os individuos condenados por pertubarem a ordem pública. A exibição das mortes cruéis dos criminosos era um mecanismo de disuasão. Como observa o Professor Bart Erhman, da Universidade da Carolina do Norte, em relação a crucificação, se o Central Park (Nova Iorque) fosse território romano, e houvesse problemas com roubos de carro, as autoridades romanos crucificariam um punhado de ladrões de carro nas imediações, para que todos vissem, e aí veríamos quantos ousariam roubar uma BMW depois disso [10]. A estratégia de Pompeu, embora possa ter parecido estranha para os líderes romanos, uma ruptura com a abordagem anterior e posterior, foi eficiente e inteligente. Em três meses, os piratas haviam sido totalmente subjugados.

Os altos níveis de violência no Brasil, tem facilitado a proliferação de idéias que visam negar qualquer tipo de direito humano básico aos criminosos. Adicionalmente, tal percepção é muito forte no aparelho repressivo do estado. No entanto, do que adiantou? Em suas abordagens, as forças políciais brasileiras matam 5 pessoas a cada dia, cinco vezes mais que nos EUA, ainda que os indíces de criminalidade nos Estados Unidos sejam muito inferiores. A vida dos policiais também não é segura. No Estado do Rio de Janeiro, 3 mil policiais morreram em serviço entre 1994 e 2016, ou 3,59% do efetivo empregado, maior que a chance de ser morto entre os soldados do Exército Americano nas duas guerras mundiais. No mesmo período, mais de 14 mil policiais foram feridos. É 765 vezes mais fácil você ser ferido servindo na polícia do rio do que estando em guerras".

e, quanto às pessoas, que eram mais de vinte mil, não pôs somente em deliberação se as devia fazer morrer, mas deixou-as ir e afastar-se à vontade, ou então se reunirem, visto serem em tão grande número, acossados pela pobreza e todos guerreiros, que não lhe pareceu que condená-las fosse sabiamente feito. Ainda mais, discorrendo consigo mesmo, que o homem por sua natureza não é indomável nem feroz, mas ao contrário, que sai fora de seu eu e de seu natural, quando se dá ao vício e que se habitua pouco a pouco, com a mudança de lugar e maneiras de viver; atendendo que os animais mesmo que por sua natureza são selvagens e ferozes, se suavizam bem e se despojam de sua altivez natural, quando habituados, pouco a pouco a uma vida mais suave, resolveu transportar esses corsários do mar para a terra e fazê-los ter a vida justa e inocente dos moradores das cidades e lavradores da terra. Alojou alguns dentro de algumas pequenas cidades dos cilicianos, que eram meio desertas, e que por esta causa os receberam voluntariamente, dando-lhes terras para os alimentar. Também a cidade dos solianos havia antes sido destruída e despovoada por Tigranes, rei dos armênios; querendo levantá-la, aí deixou um grande número desses homens e logrou igualmente colocar diversos na cidade de Dima no país de Acaia, que então tinha falta de habitantes e possuía grande quantidade de belas e boas terras[2]

Pompeu, tenho subjugado totalmente os piratas, tem que decidir o que fazer com eles. Sua primeira observação é de que são seres humanos, semelhantes a ele e aos romanos. É fácil esquecer a humanidade de nosso inimigos, e de criminosos mais ainda. A natureza humana faz pessoas serem capazes de matar, roubar e impor sofrimento por lucro, mas em muito maior proporção a constituir famílias, criarem filhos, viverem em sociedade, trabalhar e seguir leis, e que as circunstâncias passadas e o ambiente presente são determinantes. Entende também que, ainda que, seus inimigos fossem feras e não humanos, poderiam ser domesticados. Sendo assim, Pompeu arrisca em transformar esses criminosos, e suas famílias, em colonos.  No Brasil, com todos os problemas do sistema carcerário, algumas experiencias, como as APACs (Associação de Proteção e Assistência aos Condenados) tem conseguido - pela combinação de trabalho, estudo, religião, projetos sociais - recuperar a maioria dos presos, a custos significativamente menores. Na experiência internacional, a Noruega chega a recuperar 80 % dos presos.

A aposta de Pompeu rendeu frutos e a pirataria seria reduzida drasticamente no Mediterrâneo por séculos, as rotas marítimas floresceram e o comércio internacional prosperou. A combinação entre políticas repressivas, com total mobilização dos recursos do Estado, com o entendimento da realidade social e da natureza humana dos agressores e políticas sociais adequadas foi o segredo do sucesso.  Os ex-piratas recebem terras em áreas desertas da Cilícia  e fundaram os assentamentos de Malo, Pompeiopolis (em homenagem a Pompeu), Epifanéia (atual Hama) e Adana, cidade vizinha a Tarso, onde algumas décadas depois nasceria um judeu romano chamado Saulo, ou Paulo de Tarso, que, um século depois, aproveitaria o Mediterrâneo livre de pirataria para fazer suas viagens missionárias e levar a semente do cristianismo  da Judéia a Espanha. Talvez tenha pensado nos mares em que se circulava  livres de pirataria, protegido pela ordem romana,  como parte da "plenitude dos tempos", preparada por Deus, para enviar seu filho ao mundo (Gl. 4:4). Os piratas seriam relevantes nos séculos seguintes pois, segundo Plutarco, "(...) ofereciam estranhos sacríficios sobre o Monte Olimpo, e realizavam certos ritos secretos, dentre os quais os mistérios de Mitras foram preservados até os hoje, tendo sido instituidos previamento por eles (...). [2] Mas essa, é outra história, que os leitores podem conferir aqui mesmo no Adcummulus, em nossa série sobre Mitras.

Referências
[1] Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2016, fls 6-7. Fórum Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo http://www.forumseguranca.org.br/storage/10_anuario_site_18-11-2016-retificado.pdf, acessado em 17.01.2017.
[2] Plutarco de Quironeia, Vidas ParalelasPompeu, 24-28, tradução em português em http://www.consciencia.org/roma-antiga-pompeu-vidas-paralelas-plutarco/4, e Apiano de Alexandria,  Historia Romana, livro 12, §91-96, http://www.livius.org/articles/person/appian-of-alexandria/?, acessados em 03.02.2017
[3] Marco Túlio Cicero, Pro Lege Manilia, http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus%3Atext%3A1999.02.0019%3Atext%3DMan.%3Achapter%3D1%3Asection%3D1 , acessado em 02.02.2017
[4] Jona Lendering (2015) Cilician Pirates, http://www.livius.org/articles/people/cilician-pirates/?,  artigo de 2001, revisado em 2015, acessado em 30.01.2017
[5] Suetônio, Vidas dos Césares, Julio César 4.1 e 74.2, acessado em 01.02.2017
[6] Alon Feuwerker (2007) Falsa defesa dos pobres, de 14,2.2007  http://www.blogdoalon.com.br/2007/02/ricos-e-pobres-1402.html, acessado em 02.02.2007.
[7] Jona Lendering (2016) Spartacus, http://www.livius.org/articles/person/spartacus/, artigo de 2002, revisado em maio de 2016, acessado em 02.02.2017
[8] Apiano de Alexandria, Guerras Civis, 1:120 http://www.livius.org/sources/content/appian/appian-spartacus/, acessado em 02.02.2017
[9] Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 17.286 http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus%3Atext%3A1999.01.0146%3Abook%3D17%3Asection%3D286, acessado em 02.02.2017.
[10] Bart Erhman (2000) Jesus, Apocaliptic Prophet of the New Millenium, fl. 223, via googlebooks

sábado, 30 de abril de 2016

Anotações AdCummulus 007:"Os da Casa de César Te Saudam -Como o Cristianismo chegou na High Society - Parte 1".


Batismo. Pintura cristã primitiva (III seculo DC), via Wikipedia Commons
"Todos os santos lhes enviam saudações, especialmente os que estão no palácio de César (Filipenses 4:22).
Um dos maiores desafios para os historiadores da antiguidade é entender a ascensão do cristianismo. Como uma pequena seita do judaísmo,  em pouco mais de 300 anos, conseguiu não só converter parte significativa da população, como se tornar a  religião dominante do Império Romano. Ainda que seja decisiva a influência da conversão do Imperador Constantino I (306-337 DC) no ano 312, o fato é que o cristianismo já dispunha naquele momento de milhões de adeptos espalhados pelos quatro cantos do Império. Deve restar claro que a simples vontade de um governante, pois mais absoluta e determinada que seja, não é condição suficiente para estabelecer uma religião, como já observado aqui no adcummulus, por meu colega blogueiro Informador de Opinião. Assim, as reformas religiosas de Akenaton, no século XIV AC, impondo a adoração do deus supremo Aton, foram logo revertidas após a morte daquele Faraó. Os Imperadores romanos  Héliogabalo (218-222 DC) e Aureliano (270-275 DC) tentaram estabelecer cultos solares sincréticos, tal como o do o Sol Invicto, com algum sucesso, sem contudo um impacto duradouro. Depois de Constantino, porém, o cristianismo foi pouco a pouco se incorporando na estrutura imperial, de tal forma que a tentativa do Imperador Juliano de reverter o declínio do paganismo foi mal sucedida.  Aliás, é significativo que, quase paralelamente a  conversão de Constantino, governantes de países vizinhos ao Império se declaram cristãos, tais como Tiridades III, da Armênia, no ano 301 DC, Ezana de Axum (Etiópia), por volta de 325 DC, bem como Miriam III da Iberia (atual Georgia), antes de 334 DC. É possível que haja elementos de oportunismo em algumas dessas conversões, uma vez que ao adotar o cristianismo, tais reinos podem ter tido a perspectiva de se beneficiar da recente conversão do Império - no entanto, pelo menos a conversão da casa real da Armênia, ocorreu dez anos de Constantino anunciar sua  adesão ao Cristianismo, e vinte anos antes dele derrotar Licínio, e se tornar senhor também do leste do Império - e Abgar IX de Edessa (177-212 DC) já favorecia os cristãos 100 anos antes do Edito de Milão [1] ][2].

Então, propomos que uma forma de tentar entender o processo de cristianização do Império é buscar rastrear suas rotas de expansão dentro da sociedade imperial. No entanto, a grande maioria dos cristãos fazia parte das classes mais humildes ou extratos médios da sociedade, cuja a vida raramente era de interesse dos historiadores antigos, e cuja obscuridade só é iluminada eventualmente com o achado de uma ou outra inscrição ou artefato. Adicionalmente, como já abordado aqui no Adcummulus dado o status do cristianismo como superstição "nova e depravada", como nos diz Suetônio, "mortal", nas palavras de Tácito, e sujeita a julgamentos e punições, já que se organizam numa associação secreta e ilegal, como explicado por Plínio, a identificação pública como cristão poderia causar sérios problemas a um súdito do Império, e, assim, aqueles que o fazem frequentemente utilizam discrição e eufemismos. Desta forma, vamos nos concentrar neste e em outros posts em indivíduos possivelmente identificados por historiadores antigos como cristãos, tentando, mesmo que de forma imperfeita, ilustrar a vida daqueles primeiros cristãos.

1) Pompônia Grecina (20 DC? - 83 DC?)

Cornélio Tácito, nos apresenta Pompônia
Pomponia Grecina, uma dama de distinção, esposa de Pláucio, que retornara da Britânia com uma ovação, foi acusada de aderir a uma superstição estrangeira e entregue ao juízo de seu marido. Seguindo uma antiga tradição, ele ouviu a defesa de sua esposa na presença de seus familiares, envolvendo, , seu status legal e caráter, e concluiu que ela era inocente. Assim, Pompônia teve uma longa vida de continua melancolia. [3]
Pompônia Grecina, esposa de Aulo Pláucio, que conquistou as ilhas britânicas e foi o primeiro governador daquela província, era integrante do gens Pomponia, uma das mais tradicionais, "quatrocentonas", famílias romanas. Começando por seu ancestral Marcus Pompônio, que havia sido Tribuno Consular em 399 AC, seus integrantes ocuparam cargos importantes, atuando como Pretores, Legados e Consules, por mais de 700 anos na República e Império Romano.

O contexto imediato da menção de Pompônia por Tácito é a execução de Júlia Lívia, sobrinha do Imperador Cláudio, por uma acusação falsa de incesto e imoralidade trazida pela Imperatriz Valéria Messalina, em 43 DC. Pompônia era parente distante de Julia e teria ficado profundamente abalada com a execução, ficando em estado de luto, por 40 anos. Tácito acrescenta que esse comportamento poderia ter sido entendido pelo Imperador Cláudio como um desafio a sua pessoa mas, surpreendentemente, ele nada fez contra ela (talvez por sua condição ilustre, talvez pelo fato de Messalina ter caído em desgraça já em 48 DC). O julgamento familiar contudo, ocorreu em 57 DC, já durante o reinado de Nero (54-68 DC). Por essa época, Agripina, mãe de Nero, daria a Pompônia ainda mais motivos para prantear pois - conforme Suetônio - o jovem Aulo Pláucio (filho de Pompônia e Pláucio) teria se tornado amante de Agripina e, supostamente, tentou conspirar com ela pelo trono. Nero brutalizou e executou o jovem Plaúcio, dizendo "(...) que minha mãe venha agora e beije meu sucessor (...)"[4].

Peter Lampe, Professor da Universidade de Heidelberg, faz um sumário dos argumentos favoráveis a vinculação de Pompônia com o cristianismo.

In Tacitus, Ann. 15.44, Christianity is actually classified as a "superstitio". This is likewise seen, for example, in Suetonius, Nero 16 and Pliny, Ep. 10.96.8. Moreover, the suggestion has been made to interpret the 40 years (!) in "morning clothes" and "sorrow" not as result of Iulia's death but as a characteristc of this "supertitio externa.". Actually, the praxis of Christian faith would appear to outsiders as mourning. When someone as a Christian no longer partakes in the amusements and invitations of upper society (...) The gossip of "society" explins Pomponia's behavior by the death of Iulia. But could it last 40 years? Iulia was not even her sister. (Tradução) Tácito, Anais 15:44, realmente classifica o cristianismo como uma "superstitio". Este termo também é encontrado, por exemplo, em Suetônio, Nero 16, e Plínio, Cartas 10.96.8. Além disso, foi proposto que os 40 anos (!) de luto ou tristeza, não deveriam ser interpretados como resultado da morte de Iulia, mas como uma característica desta superstição estrangeira. Na verdade a "praxis" da fé cristã pareceria a estranhos como um luto. Quando alguém, por ser cristão, não participa dos divertimentos e convites dos altos círculos (...) a fofoca que circularia entre a alta sociedade explicaria o comportamento de Pompônia como resultado da morte de Iulia. No entanto, poderia ter durado 40 anos? Iulia sequer era sua irmã. [5]

Sendo assim, Lampe avalia que se a superstição estrangeira e o luto por Julia fossem ligados de algum modo, seria uma forma utilizada por Pompônia para esconder a superstição do meio aristocrático em que vivia, com o pretexto de luto por Julia. A identificação é incerta, uma vez que Tácito é vago em relação a superstição estrangeira, e não resta claro se o cristianismo tinha penetração suficiente naquele momento para atingir uma das famílias mais importantes de Roma. No entanto, o termo superstição não se aplicaria as religiões reconhecidas no Império, que englobam não só o panteão greco-romano e seus cultos, como as divindades nativas dos povos ditos civilizados, muitas vezes convertidas em religiões de mistério (Cibele e Atis, Isis, Mitra), além do judaísmo com sua milenar devoção ao Deus único Iahweh.  Além disso, como observa o Professor Vasily Rudich (Universidade de Yale), se Pompônia tivesse sido acusada de ter se convertido a uma religião oriental mais conhecida como a devoção a Isis ou o Judaísmo, seria de se esperar que Tácito citasse a tal superstição estrangeira pelo nome, e, associando esse fato ao comportamento de Pompônia se assemelhar ao de mulheres cristãs do quarto século, a sugestão de que o cristianismo estaria envolvido se torna ainda mais tentadora [6] 

Professor  Markus Bockmuehl, da Universidade de Oxford, observa outro fato
Several other external sources suggest a Christian presence prior persecution under Nero. One remarkable first century pagan is Pomponia Graecina, a distinguished aristocratic lady whom Tacitus describes as having engaged in an extraordinary habit of grief that lasted forty years. In AD 57 she was accused of a "foreign supertition" (Tacitus, Ann 13.2), which several recent scholars have seen as a secret adherence to Christianity. Later inscriptions of the catacomb of San Callisto in Rome support that members of the family may have been christians(Tradução) Varias outras fontes externas sugerem uma presença cristã anterior a perseguição neroniana. Uma notável pagã do primeiro século é Pompônia Graecina, um distinta dama da aristocracia a qual Tácito descreve como tendo permanecido no hábito de luto por extraordinários 40 anos. No ano 57 ela foi acusada de "superstição estrangeira" (tácito 13,2), que vários estudiosos recentes consideraram como uma adesão secreta ao Cristianismo. Inscrições posteriores na catacumba de São Calisto em Roma indicam que membros da família podem ter sido cristãos. [7]

Professor Bockmuehl se refere a membros do gens pomponia falecidos no início do século III e enterrados na catacumba de São Calisto em Roma, conforme inscrições dedicadas a Pomponius Bassus e Pomponius Graecinus. [6][7].

Assim, a possibilidade uma convertida ao cristianismo na alta sociedade romana já em meados do século I é atraente e bastante plausível, ainda que não haja evidência conclusiva em seu favor.

2) Erasto de Corinto (58 DC)

  Erasto, administrador da cidade, e nosso irmão Quarto enviam-lhes saudações.(Romanos 16:23)
 Erasto permaneceu em Corinto, mas deixei Trófimo doente em Mileto.(II Timóteo 4:20)
 Então enviou à Macedônia dois dos seus auxiliares, Timóteo e Erasto, e permaneceu mais um pouco na província da Ásia (Atos 19:22).

Uma inscrição encontrada na cidade de Corinto, tem o seguinte conteúdo:
 ERASTVS-PRO-AEDILIT[at]E S-P-Stravi (Erastus pro aedilitate sua pecunia stravit). (Erasto, comissário de obras públicas, fez esse calçamento as suas expensas).
Professor FF Bruce, a mais  de 50 anos atrás, ponderou a possibilidade de identificação entre o Erasto da inscrição e o mencionado no Novo Testamento:

"(...) O calçamento pertence ao primeiro século AD e bem pode ter sido  construído pelo amigo de Paulo. Contudo, os ofícios públicos não são os mesmos. Em grego, o comissário de obras públicas, ou aedil, é chamado de agoranomos, ao passo  que o tesoureiro da cidade (como nesta passagem) é oikonomos tes poleos. Se lidamos com o mesmo Erasto, é de se supor que fora promovido do ofício inferior de "aedile" ao de tesoureiro da cidade no tempo em que Paulo escreveu a epístola. (Se, ao contrário, alguém preferir supor que foi rebaixado do ofício superior ao inferior por haver professado a fé cristã, não há nenhuma prova contra esta suposição!) (...)".

Todo esse tempo se passou, é ainda não há uma resposta definitiva quando a identificação do Erasto da inscrição com o do Novo Testamento, devendo ser respondidas, basicamente, as mesmas perguntas.

"São Paulo escrevendo uma epístola", Atribuido a Valentin de Boulogne
1618-1620, Museum of Fine Arts, Houston, via wikipedia commons
A opinião majoritária entre os estudiosos é que Paulo escreveu a carta de Romanos por volta do ano 55 DC, em Corinto. Sendo assim, o apóstolo traz a saudação de um cristão chamado Erasto, que ocupava um importante cargo público em Corinto, por volta de 50-60 DC. A inscrição faz menção a um oficial público de nome Erasto, residente em Corinto, sendo datada em meados do século I DC. Aparentemente, é muita coincidência. No entanto, os cargos são compatíveis? o nome Erasto é comum? as datas são realmente coincidentes?  

Uma interessante discussão sobre a inscrição é apresentada pelo Professor David W. J. Gill, da University Campus Suffolk. Em um artigo escrito em 1989, ele observa que Corinto era uma colônia romana, estabelecida por Julio César em 44 AC, e conservava uma estrutura política assemelhada as cidades italianas. Os cidadãos eram divididos conforme suas tribos, e elegiam magistrados anualmente. O Erasto da inscrição apresenta prenome e nome (ilegíveis) e cognome (Erasto), mas não é indicada a tribo ancestral, sugerindo que era um liberto, um ex-escravo (sabemos que outros libertos naquele período, chegaram a acumular grande riqueza e conseguiram ser nomeados a cargos importantes como o governador da província da Judeia, Antonio Felix). Erasto de Corinto era um Edil, oficial responsável pela manutenção dos edifícios públicos, e como observa Gill, citando outros exemplos, devia ser um homem muito rico, pois frequentemente financiavam a construção de parte da infraestrutura pública. Professor Gill, relata ainda que Erasto, amigo de Paulo, era um oikonomos, que alguns estudiosos acreditam ser o equivalente, na forma ampla, de um edil, mas outros tem entendido como um  Questor, que embora fosse um cargo eminente, poderia ser ocupado por servidores públicos imperiais "de carreira", até mesmo por escravos.

Professor David Gill, conclui da seguinte maneira.

The evidence does not allow us to be certain  about the link between the two Erasti, but at the very least it is  clear that Paul is here reminding Christians to take an active role in the running of the city just like Erastus the oikonomos (tradução) A  evidência não permite ter certeza que os dois Erastos sejam a mesma pessoa, no mínimo, porém, é claro que que Paulo estava incentivando os cristãos a atuarem de forma mais ativa na vida cívica da cidade [9].
Professor Larry L Welborn, da Fordham University, oferece uma análise recente do estado do debate, apresentando os argumentos de estudiosos como Steven J Friesen, da Universidade do Texas em Austin, e Justin Meggit, de Cambridge, que rejeitam a identificação entre o Erasto bíblico e o Erasto da inscrição, questionando a datação da inscrição no primeiro século, a improbabilidade de um quadro politico como um Edil, um dos quatro magistrados eleitos de Corinto, pudesse ser cristão, bem como a dificuldade de compatibilizar a fé cristã com juramentos e festividades públicas que invocavam deuses pagãos [10]. A discussão como um tudo, porém, deve ser colocada numa perspectiva mais ampla, uma vez que tanto Meggit quanto Friesen se insurgem contra o chamado "New Consensus"  (novo consenso) dos estudos paulinos, que surgiu a partir dos trabalhos publicados nos anos de 1970/1980 de Gerd Theissen, da Universidade de Heidelberg e Wayne Meeks, de Yale. Os estudiosos do novo consenso acreditam que os cristãos paulinos eram representativos da diversidade e mobilidade sociais, e argumentam que Erasto um exemplo perfeito de alguém que ascendeu de escravo, a liberto, e então as classes privilegiadas, ocupando um cargo público importante. Friesen e Meggit por sua vez, contrapõem que os cristãos, assim como a esmagadora maioria dos cidadãos do Império, viviam pouco acima da linha de subsistência, e Erasto seria, no máximo, um escravo exercendo uma função pública subalterna [11].

De modo geral, e o proprio Friesen admite, -  assumindo o papel de insurgente - o consenso, se existe, se inclina na direção de que o Erasto paulino e da inscrição de Corinto são a mesma pessoa, como proposto por Theissen  [12] Em resumo, é razoavel a avaliação do Professor Timothy A Brookins, da Azusa Pacific University, de que entre a publicação do trabalho de Theissen em 1974 até o desafio de Friesen, em 2010, a maioria tem identificado o Erasto da inscrição com o Paulino, devendo ser observado se haverá a reversão do consenso nos próximos anos. O próprio Brookins contribui com o estudo sobre a frequência do nome Erasto nas fontes literárias e epigráficas do período, concluindo que o nome não era comum, e que portanto os dois Erastos devem ser a mesma pessoa [13]. Concordamos com essa conclusão.
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Referencias Bibliográficas
[1] Francoise Thelamon (2007) Povos Cristãos às margens do Império Romano in Alain Corbin (ed.) "Historia do Cristianismo: para compreender melhor nosso tempo", fls. 131/135.
[2] Eric H Cline e Mark W Graham (2012) Impérios Antigos: da Mesopotâmia a Origem do Islã. fls. 379-381.
[3] Tácito, Anais 13:32
[4] Suetônio, Vita Nero, 35
[5] Peter Lampe (2003) Christians at Rome in the First Two Centuries: From Paul to Valentinus, fls. 196-197
[6]  Vasily Rudich (1993) Political Dissidence under Nero: The price of Dissimulation, fl. 266
[7]  Marcus Bockmuehl (2012) Simon Peter in Scripture and memory, fl. 100
[8]  Frederik F Bruce (1963) Comentário a Romanos, fl. 226.
[9]  David W.J Gill, Erastus the Aedile, Tyndale Bulletin 40.2 (1989), 293-301.
[10] L L Welborn (2011) An End of Enmity: Paul and the Wrongdoer of Second Corinthians, fls. 269-279.
[11] Cavan W Concamon (2013) The Archeology of Pauline Mission In Mark Harding e Alanna Nobs (2013)  All Thing to All Cultures: Paul Among Jews, Greeks and Romans, fls. 80-81.
[12] "(...) Most recent commentators of the topic have accepted Theissen's proposal (...)" ver  Steve Friesen (2010) The Wrong Erastus: Ideology, Archeology, and Exegesis In Steve Friesen, Daniel N Schowalter, James Walters (2010) Corinth in Context: Comparative Studies on Religion and Society, fl. 233-234.
[13] Timothy A Brookins (2014) Corinthian Wisdom, Stoic Philosophy, and the Ancient Economy, fl. 109-118.
   



      

sábado, 24 de outubro de 2015

Divisando matérias-primas do ideário cristão nas narrativas da vinda de Jesus ao mundo


Matthias Grünewald: Isenheim Altar - opened, 1
Altar de Isenheim - Matthias Grünewald

As famosas narrativas de episódios que cercam a anunciação e o nascimento de Jesus movimentam o imaginário de gerações até os dias de hoje. Na arte e literatura, na academia, igrejas, mídias, festas populares, se escreveu, tratados, muito se poetizou, cantou, encenou e pesquisou.

Historiadores e outros estudiosos especializados produziram miríades de volumes abrangendo vários aspectos. Dentre estes, algo que sempre gerou profusas controvérsias é a discrepância geral das narrativas produzidas dentro da mesma geração. Nota-se variações desde o começo e a apresentação, passando pelas genealogias, circunstâncias históricas imediatas, e outras de caráter geográfico e político.

Sobretudo, para a possibilidade de um mínimo fio sincronizado, forçoso é considerar que boa parte das cenas do evangelho da tradição de Mateus se passa em cerca de dois anos após o nascimento narrado em Lucas. Muitas outras dificuldades, tanto em particular de cada um, quanto mais ainda tomadas em conjunto, surgem, mesmo considerando variados graus de liberdade para imaginação literária e emprego de simbologia. O que suscitou outro grande debate relacionado às hipóteses de composições dos evangelhos... o escritor do evangelho segundo Mateus conhecia o material de Lucas? O de Lucas conhecia o de Mateus? Se uma resposta é positiva, porque produziu outro relato, e com tantas diferenças? Ou não conheciam um ao outro? Sendo assim, havia várias versões circulando ou se contavam muitos relatos e cada um dos escritores trabalhou com alguns - para uma deliberada ênfase no plano geral de seu propósito para todo o evangelho escrito?

Por outro lado, temos também elementos centrais para a tradição que se dão em comum com as duas narrativas, sugerindo fortemente que compartilhavam de tradições amplas e antigas dentre os cristãos de então.

Como também ponderou John.P. Méier [1]:
(...)Quaisquer concordâncias entre os dois [Mateus e Lucas] nessas narrativas se tornam historicamente significativas, em especial quando o critério da múltipla confirmação é invocado. Essas concordâncias em duas narrativas independentes e profundamente contrastantes representariam, no mínimo, um recurso a uma tradição mais antiga, e não a criação dos evangelistas.

Pelo menos doze pontos nos chamam muito a atenção:

1 – O nascimento de Jesus é contextualizado ainda durante o governo de Herodes Magno (Mt. 2.1; Lc. 1.27-34).
2 – Maria não se relacionara sexualmente com José antes de se engravidar (Mt.1.18; Lc 1.27-34)
3 – José não participa da concepção de Jesus (Mt. 1.18-25; Lc. 1.34)
4 – José é da linhagem de Davi (Mt. 1.16-20; Lc. 1.27; 2.4).
5 – A concepção e nascimento de Jesus é anunciada por um anjo ( Mt. 1.20-21; Lc. 1.28-30)
6 – Mesmo assim põe em relevo que Jesus é descendente de Davi (Mt.1.1; Lc.1.32)
7 – O nome “Jesus” é designado antes do seu nascimento (Mt. 1.21; Lc. 1.31)
8 - Jesus veio ao mundo concebido por ação miraculosa do Espírito Santo (Mt. 1.18- 20; Lc 1.35)
9 – Jesus é vocacionado pelo Deus de Israel como o ‘Salvador’ ( Mt.1.24-25; Lc. 2.11)
10 – José e Maria se casam antes do nascimento de Jesus (Mt. 1.24-25; Lc. 2. 4-7)
11 – O nascimento de Jesus se dá em Belém (Mt. 2.1; Lc. 2.4-7)
12 – Nazaré passa ser a residência da família de Jesus e onde ele cresce (Mt. 2.22-23; Lc. 2.39-51)

Mas o interesse histórico está longe de encerrar em exames quanto a factualidade de eventos particulares, apesar de ser o que mais concentra o interesse dos leigos. Há vários campos que a investigação trabalha. Aqui nos propomos num breve esboço, nos debruçar sobre o que este material nos pode desvelar sobre as matérias-primas e estruturas da formação da fé das primeiras gerações de cristãos.

Um exemplo propício a se começar é com as genealogias; enquanto muito se discutiu acerca de diferenças, particularidades e artifícios simbólicos nas genealogias mateanas e lucanas, muitas vezes se deixou escapar a indagação relativa a terem apresentado a pessoa de Jesus com genealogias. Mas, na Bíblia Hebraica, genealogias costumam funcionar elos de unificação entre figuras principais da história do povo de Israel, como Abraão-Noé-Adão. Logo, ambos evangelistas trabalham por encaixar a figura de Jesus num horizonte histórico maior no qual se opera a ação divina de acordo com seu plano, Jesus fazendo parte do mesmo em um ápice juntamente com figuras especiais para a memória devocional do povo.

Albrecht Dürer: Seven Sorrows: The Flight into Egypt
A Fuga para o Egito - Albrecht Dürer

Em Mateus, o quadro maior da saga da família de Jesus e sua emigração – sim, refugiados políticos – e retorno para a terra é algo muito mais íntimo do que uma mera alusão evocativa à tradição do chamado do povo para fora do Egito, tal como consta em tradições proféticas como em Oseias 11,1.

Os judeus reavivavam estas tradições em formatos devocionais, e um deles que temos registro hoje é o chamado Hagadah da Páscoa, de cerca dos finais do século I a.C. [2].

Jerome Murphy O'Connor [3] nos produziu uma valiosa tabela em que lhes coloca em paralelo:

História da Fuga e Regresso
Agadah da Páscoa
1) Perigo (v. 13d) “Herodes procura a criança para destruí-la
1) Perigo (I,1) “O arameu procurou destruir o meu pai”
2) Mandamento divino (v.13b) “Toma a criança de sua mãe e foge para o Egito”
2) Mandamento divino (II,1) “Desceu ao Egito impelido pela palavra do Senhor”
3) Estadia temporária (v. 13c) “Permanece lá até que eu te avise”
3) Estadia temporária (II,2) “Não desceu ao Egito para lá se instalar, mas apenas para ficar algum tempo
4) Regresso (v.20) “Toma a criança e vá para a terra de Israel”
4) Regresso (VII,1) “O Senhor trouxe-nos do Egito, não por meio de um anjo, nem por meio de um mensageiro, mas pelo próprio Altíssimo, que Ele seja louvado”


Já vimos aí que da parte de um evangelista, a apresentação de Jesus coloca-lhe invocando importantíssimas rememorações e anelos da fé judaica.

No material do evangelista lucano, temos uma fartura tão grande de recortes que aqui poderemos tratar de um dos mais de mais forte apelo: sua coleção de poemas presentes nos dois primeiros capítulos. Estes foram cantados e declamados ao longo dos séculos e são presença altissonante em liturgias de várias igrejas e comunidades religiosas. Podemos somente imaginar a força simbólica e apelativa que teriam ao serem lidas ou entoadas pelos cristãos antigos.

Sugiro aos leitores que, se possível, leiam cada um mas afastando um pouco a ligação com todos os evangelhos, como se fossem salmos independentes dos livros em que foram inseridos.

Com essa sugestão, fica mais fácil compreender aquilo que James D.G.Dunn [4] enunciou algo que foi pontuado com destaque na academia em períodos recentes:
Qualquer que seja a sua origem e derivação final, Lucas possivelmente as extraiu da adoração das congregações primitivas (antes que das memórias retrospectivas de oitenta anos atrás). Em outras palavras, são os salmos das comunidades palestinenses antigas, que atingiram sua forma atual em um período quando não havia quaisquer cristãos, somente judeus que acreditavam que o Messias havia chegado (p. 230).

Teria o célebre pesquisador ido muito longe com esta colocação?

Comecemos com o mais aclamado e presente dos hinos, o amplamente conhecido como “Magnificat” de Maria, devido à tradução latina da abertura do mesmo.

Na Bíblia Hebraica, uma mulher ter um filho anunciado por Deus numa situação inusitada sempre indicava um plano especial para o povo na história, como com Isaque, Sansão e Samuel – Gn 18,11; Jz 13,2-5; ISm 1-2.

Os termos do anúncio do anjo a Maria “grande aos olhos do Senhor”, o reino sobre a casa de Israel, que “não terá fim” faz eco a movimentos nacionalistas contemporâneos que produziram literatura que também expressava estes termos, como os “Salmos de Salomão 1-2”. Novamente, materiais culturais judaicos que aspiravam uma libertação nacional, reconfigurados para se centrarem em Jesus.

O Magnificat está estruturado na forma da canção de Ana em I Sm 2,1-10. Alude a diversas passagens da Bíblia Hebraica relacionadas à libertação nacional e figura régia:

Verso 48: I Sm 1,11
Vs 49: Sl 111,9
Vs 50: Sl 103,13-17
Vs51: Sl 89,10; 2Sm 22,28
Vs52: Jó 12,19; 5,11;
Vs 53: I Sm 2,5; Sl 107,9
Vs 54: Is 41,8
Vs55: Mq 7,20;Gn 17,7; 22,17;2Sm 22,51

Dunn assinala ainda que “É notável que não haja nenhuma ideia especificamente cristã nele; é tipicamente hebraico no caráter e no conteúdo. Mas igualmente notável que nos primeiros dias da nova fé, cristãos fossem capazes de tomá-lo como expressão de seu próprio louvor” (p.299)

Assim também se passa com o “Benedictus”, segundo Darrel L. Bock [5], um louvor do sacerdote Zacarias em que profetiza acerca do seu filho João que vai nascer com uma missão especial; segundo o pesquisador mencionado, o hino tem ecos principalmente do agradecimento de Salomão (notar especialmente o vs 69), em 1Reis 8,15, por ter sido agente do cumprimento da promessa de Deus de lhe construir um Templo. Também é articulado numa linguagem que lembra salmos como 89,24; 106,10, 45-46; 105,8-9. A descrição do “Chifre da Salvação” ecoa a descrição de Davi em ICr 17,4.

A sublime menção ao “profeta do Altíssimo” atribuída ao menino no vs. 76 faz lembrar a passagem do livro de Isaías 40,35 ( posteriormente, a menção ao “mensageiro” em Malaquias 3,1) com acentuada conotação de esperança de redenção coletiva; o evangelista vai retomar essa linguagem em 3,4-6. Ainda na bênção de Zacarias, a importante ênfase no termo “redimiu” faz alusão à libertação do cativeiro egípcio, onde se amarra à evocação de Deus visitando seu povo para redenção.

Dunn também ponderou sobre este hino: 
Uma das figuras ou dos títulos da esperança messiânica judaica era 'o profeta' (Dt 18,18s; Is61,1ss; Ml.4,5; Testamento de Levi 8,15;Testamento de Benjamin 9,2 [?]; IQS9,11; 4Qtest. 5-8); e a palavra grega usada no v. 78 para nascente (anatolë) pode ser uma alusão à LXX de Jeremias 23,5; Zacarias 3,8; 6,12) onde ela traduz a metáfora messiânica 'ramo'.

Outra bela peça exposta na narrativa lucana é o hino tradicionalmente conhecido como “Gloria in Excelsius” (Lc.2,14), que já foi matéria-prima para belíssimas composições de Bach e Vivaldi; Dunn ainda foi mais enfático sobre o mesmo: “Não contém nada especificamente cristã em si, isto é, fora de seu contexto”.

O hino conta com uma expressão importante, “povo de quem ele se agrada” que apresenta paralelos de aspirações de libertação nacional em um trecho dos rolos da comunidade de Qumrã, 1QH 4,32-33 e no texto protorrabínico Shemoneh Esrei, benção de gratidão 17, a “Avodah”. 

Ainda outras referências importantes embutidas no segundo capítulo de Lucas são auspiciosas: em 2,13-14 ele joga com uma contraposição entre as anunciações de arautos imperiais sobre a “pax augusta”, a “paz universal” reivindicada pelo imperador romano Augusto. Prepara o terreno para mais à frente (Lc 2,25-26) fazer menção à “Consolação”, expressão da intervenção de Deus a favor de Israel (Is. 49,13; 51,3; 52,9; 66,13).

Há ainda algo notável relacionado ao Magnificat que deixamos para o final destas nossas constações. O cântico anuncia um título real atribuído ao Jesus que estaria para vir ao mundo, o “Filho do Altíssimo” [6]. Coisa de poucas décadas atrás importantes estudiosos consideravam que esta expressão fora tomada de empréstimo do meio cultural helenístico, não fazendo parte dos primórdios da tradição cristã e assim sendo, uma atribuição que fora incorporada mais tarde através de um processo evolutivo gradual.

Mas após um trabalho com um fragmento dos Manuscritos do Mar Morto, constatou-se o uso desta expressão por parte do imaginário messiânico e escatológico. Mais do que isso, este fragmento de Qunram inteiro tem fortes ecos em comum com a linguagem do Magnificat. Na tradução e reconstrução de Hershell Shanks, “[X]será grande sobre a terra. [Oh Rei, todos (povos) haverão de] fazer [paz], e todos haverão de servi-[lo. Ele será chamado o filho] do [G]rande [Deus], e por este nome será aclamado (como) o Filho de Deus, e o chamarão Filho do Altíssimo” [7].


Combinando este mosaico temos uma tela em que se retrata algo que bate de frente com algumas inferências vulgarmente encontradas, que dizem que a fé cristã despontou em uma clivagem aguda com uma expressão do judaísmo com fortes preocupações messiânicas de cunho político e comunal, aspirando a uma subversão das estruturas de poder do Império e uma libertação nacional. Estas falas que lemos ou ouvimos contrapõem com isso uma fé cristã que nasceu com um caráter mais “espiritual” (sic), intimista e individualista, cuja aspiração seria o gozo da libertação da alma para as regiões celestes despregando-se das preocupações com o destino do povo como um todo e do mundo.

O quadro apresentado vai em um sentido em que esta clivagem alegada é significativamente nuançada. A matéria-prima e os materiais que engendravam a fé cristã nascente compartilhavam, mesmo bebiam das fontes de aspirações coletivas judaicas, com acentos de anelos para subversão das estruturas de poder pela ação de Deus na história, partindo desse mesmo Deus das tradições de Israel, reconfiguradas de forma em que a figura do messias Jesus fosse central e o sujeito consumador vital, com as ênfases próprias de seus ethos comunitário e com uma força propulsora centrífuga.

Ficamos aqui por esta vez, brindando com a belíssima abertura da composição do “Magnificat” por Johann Sebastian Bach. 




[ 1] MÉIER, J.P. Um Judeu Marginal. Repensando o Jesus Histórico. Volume Um: As Raízes do Problema e da Pessoa. Rio de Janeiro: Imago, 1993, pp. 213-214.

[ 2 ] FILKENSTEIN, L. The Oldest Midrash, Pré-Rabbinic Ideals and Teaching in the Passover Haggadah. Harvard Theological Review,Vl; 31. 1938, pp 291-317

[ 3 ] MURPHY O'CONNOR, J. Jesus e Paulo: Vidas Paralelas. São Paulo: Paulinas. 2008. pp.22

[ 4 ] DUNN, J. Unidade e Diversidade no Novo Testamento. Santo André: Editora Academia Cristã, 2009.

[ 5 ]. BOCK, D.L. Jesus segundo as escrituras. São Paulo: Shedd Publicações, 2006, pp.56-57.

[ 6 ] FITZMYER, J. A. 4Q246 The "Son of God" Document from Qumran. Biblica: 1993, pp.153-174

[ 7 ] SHANKS, H. (org). Para Compreender os Manuscritos do Mar Morto; uma coletânea de ensaios da Biblical Archaeology Review. Rio de Janeiro: Imago, 1993, pp. 212-214



sábado, 12 de setembro de 2015

A Morte do Menino Aylan Kurdi e o Problema do Mal no Cristianismo (Primitivo)


Massacre dos Inocentes, Nicolas Poussin (1626),  Wikipedia Commons
Causou extrema comoção, no mundo inteiro, o caso do menino Aylan Kurdi, de 3 anos de idade, que junto com seu irmão Galip (5 anos), e sua mãe Rehan morreram em um naufrágio de uma barca de 16 refugiados sírios, que, da Turquia, tentavam chegar a Ilha de Kos, na Grécia. O corpo de Aylan foi encontrado pela polícia turca, nas praias do Mar Egeu. Sua foto foi veiculada em todo mundo (e que não ousamos reproduzir aqui), comovendo e chamando a atenção para a profunda crise de refugiados na Europa, onde 2500 pessoas morreram, a maioria afogada no Mediterrâneo.

Aylan vivia na cidade de Kobani, perto da fronteira da Síria e Turquia, e sua família fugia dos confrontos entre as milícias curdas e o Estado Islâmico. A tia de Aylan, Teema Kurdi, vive em Vancouver (Canadá) e a família buscava chegar a União Européia para tentar asilo junto as autoridades canadenses, uma vez que solicitação anterior feita na Turquia havia sido indefirida.

Aylan é simbolo também de outra tragédia. Quando ele nasceu, a Siria era governada pelo regime ditatorial de Bashar El Assad, quando foi sacudida pela primavera árabe. O movimento, inicialmente pacífico, foi reprimido durante pelo ditador, e se transformou em guerra civil aberta. As potências ocidentais, assim como a Turquia e a Arábia Saudita interferiram no conflito com o objetivo de fortalecer rebeldes sunitas "moderados", enquanto o Irã, a mílicia Hezbollah do Libano, bem como a Rússia apoiaram a manutenção do atual governo Sirio. O resultado, além de 220 mil mortos, a quase destruição da infraestrutura do país, milhões de refugiados pelos países vizinhos, e a ruína de vidas como a do menino Aylan, privado da possibilidade de crescer. Entre os vários grupos rebeldes, se sobressaem a Frente Al Nusra, "franquia" local do Al Quaeda, e o mais radical e o tristemente célebre Estado Islâmico. O conflito é visto como de difícil resolução, houve todos os tipos de propostas, desde uma cooperação com jihadistas mais moderados para derrubada de Assad, até, na prática, os que propõem se aliar a eleEm suma, os interesses e jogos de poder de ditadores e potências internacionais arruinaram os sonhos e a vidas de milhões de pessoas. A morte de Aylan Kurdi é a face visível de mais um "massacre dos inocentes", agora em pleno século XXI.

Além das considerações geopolíticas, há o lado humano. O sofrimento do pai de Aylan, Abdullah Kurdi, ao não poder evitar a ruína de seu mundo e a morte de sua família. E faz questionar o sofrimento. E o mal no mundo. Como na recente capa da revista Veja, citando Santo Agostinho "Sendo Deus bom, fez todas as coisas boas, de onde então vem o mal?"  (Confissões Livro 7.5.7) .

Uma resposta, bastante sucinta, para o problema tem sido "Não há Deus", pois se existisse, não haveria o mal. Não entraremos nesse debate. No entanto, vamos utilizar o trabalho de um estudioso que não acredita em Deus, para  trazer luz a como os crentes lutaram para responder essas questões, e que moldaram de forma fundamental o cristianismo.

Bart Erhman, o estudioso de quem falamos, Professor da Universidade da Carolina do Norte em Chappel Hill.

Em seu livro, Evangelhos Perdidos, Erhman analisa a explicação do sofrimento na teologia bíblica tradicional do Velho Testamento, que ele chama de Profética [1]:

"O que deveriam pensar os teólogos e outros, então, quando em tempos posteriores o povo de Israel sofreu, sem a interferência de Deus? Muito da Bíblia Hebraica  tem haver com essa questão. A resposta padrão vem nos escritos dos profetas hebreus, como Isaías, Jeremias, Ezequiel, Oséias e Amós. Para esses escritores, Israel sofre reveses militares, políticos, econômicos e sociais porque o povo pecou contra Deus e esta sendo punido por isso. Quando porém eles retornarem aos caminhos de Deus, seguindo as orientações para a vida comunal e a adoração que lhes haviam sido dadas por Moisés na Lei, Deus condescenderia e faria com que voltasse a ter uma vida próspera e feliz"[1]
No entanto, a história bíblica traz momentos onde os justos sofreram justamente por serem justos. O profeta Elias se questiona "porque os filhos de Israel deixaram a tua aliança, derrubaram os teus altares e mataram seus profetas a espada, e só eu fiquei, e buscam minha vida para me tirarem" (I Reis 19:10). Da mesma forma, o justo Jó, perde seus bens, sua família e sua saúde, e seus amigos o questionam, achando que havia algum pecado oculto que causava o seu sofrimento, mas a retidão de Jó é reconhecida pelo próprio Senhor. 

Erhman desenvolve em seguida o locus histórico de uma outra Teologia do Sofrimento, a Apocaliptica:

O sentido apocaliptico judaico surgiu em um contexto de extremo sofrimento, cerca de duzentos anos antes de Jesus, quando o governante sírio que tinha o controle da Palestina, a patria judaica, perseguiu os judeus extamente por serem judeus. Por exemplo, a circunsição - o sinal central da união pactual com Deus - foi proibida sob pena de morte. Claramente , para muitos pensadores judeus, esse tipo de sofrimento, contrário a clássica visão dos profetas, não poderia vir de Deus, uma vez que era o resultado direto de tentar segui-lo. Deveria haver alguma outra razão para o sofrimento, e assim algum outro agente responsável por ele (...) Além disso, havia forças cosmicas no mundo, forças malignas com o Diabo à frente, que estavam afligindo o povo de Deus. De acordo com essa perspectiva, ainda era o criador deste mundo e seria seu redentor final. Mas, no momento, as forças do mal haviam sido libertadas e estavam lançando devastação sobre o povo de Deus. Os apocalipticos judaícos, porém, sustentavam que Deus logo interviria e destruiria essas forças do mal em uma demonstração cataclísmica de poder, destruindo todos que se lhe opussessem, incluindo os reinos que estavam causando sofrimento a seu povo. Ele traria então um novo reino, no qual não haveria mais pecado, sofrimento, mal ou morte.[1]


Estudiosos como o Professor John J. Collins, de Yalle, citando o trabalho de Paul D Hanson,  (Harvard Divinity School), observam que a profecia pós-exílica, no final do século VI AC (cerca de 500 BC), encontrada em autores como Ageu e Zacarias já trazia as sementes do apocaliptismo. Collins avalia também a possível contribuição de precedentes babilônicos e do zoroatrismo persa, no entanto, o genêro se desenvolve plenamente e encontra seu apogeu no período helenístico e romano[2].


No Novo Testamento, o anseio pela intervenção direta do Senhor na história é amplamente atestado, o Apóstolo Paulo, no documento cristão mais antigo, sua carta aos Tessalonisseences (50 DC), escreve "Pois, dada a ordem, com a voz do arcanjo e o ressoar da trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá do céu, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois disso, os que estivermos vivos seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares. E assim estaremos com o Senhor para sempre.(I Tessalonissences, 4:16-17). Paulo deixa claro que os cristãos não deveriam ser ignorantes nesses ensinos "para que não se entristeçam como os outros que não têm esperança"(v.13).


No entanto, a primeira e segunda geração de cristãos repousou, e o Senhor não voltou, e uma série de eventos perturbadores atingiram as comunidades de judeus e gentios cristãos, tais como a Perseguição de Nero (64 DC), e a destruição de Jerusalém e do Templo (70 DC), a Revolta de Bar Kochkba (132-135 DC), colocando novos desafios a sua fé. Neste contexto, surge uma nova interpretação, radical, da origem e aparente prevalência do mal no mundo. Continua o Professor Bart Erhman:

Entretanto, se essas visões [profética e apocaliptica] são qeustionadas pelas realidades presentes do sofrimento no mundo, o que acontece? Talvez, na verdade, a suposição toda esteja errada. Talvez esse mundo não seja a criação de um Deus único e verdadeiro. Talvez o sofrimento não esteja acontecendo como punição desse Deus ou apesar de sua bondade. Talvez o Deus deste mundo não seja bom. Talvez ele esteja causando sofrimento não porque seja bom e queira que as pessoas compartilhem sua bondade, mas porque seja maligno, ignorante ou inferior, querendo que as pessoas sofram ou não se importando se sofrem, ou talvez ele não possa fazer nada quanto a isso. Mas, se isso é verdade, então o Deus deste mundo não é o Deus único e verdadeiro. Deve haver um Deus maioracima disso tudo, que não criou este mundo. Nesse entendimento, o mundo material em si - a existência material em todas as suas formas - é inferior ou maligno na melhor das hipóteses e assim também é o Deus que o criou. Deve haver um Deus não material, não conectado com este mundo, acima do Deus criador do Velho Testamento, um Deus que nem criou este mundonem lhe trouxe sofrimento, que quer aliviar seu povo do sofrimento - não redimindo este mundo, mas libertando dele as pessoas, livrando-as do enclausuramento na existência material.[3]

"Jesus Chorou", James Tissot, 1886, Brooklin Museum, via Wikipedia Commons

Essa é que o Professor Erhman chama de visão "gnostica", compartilhada por vários grupos que foram associados a figuras como Simão o Mago, CerintoBasilides, o influente Valentino, e seus seguidores Marcus, Ptolomeu, Heracleon e Bardaisan. Posteriormente, encontraria sua expressão mais duradoura com Mani. Sua visão geral influenciou ainda outros pensadores,  como Marcião de Sinope


O que esses teologos e pensadores primitivos propunham é quase a expansão da "Hipótese" de Carlos Drummond de Andrade:

E se Deus é canhoto e criou com a mão esquerda?Isso explica, talvez, as coisas deste mundo.
O correspondente ao "deus canhoto" de Drummond era o demiurgo,  a figura postulada por Platão ( 428-348 AC) como o "artesão" que criou o mundo. Como explica o Professor Donald Zeyl (Universidade de Rhode Island), na Enciclopédia Stanford de Filosofia, Em seu dialogo Timeu, Platão propõe:

The universe, he proposes, is the product of rational, purposive, and beneficent agency. It is the handwork of a divine Craftsman (“Demiurge,”dêmiourgos, 28a6), who, imitating an unchanging and eternal model, imposes mathematical order on a preexistent chaos to generate the ordered universe (kosmos). (Tradução) O universo, ele propõe, é o produto de um agente racional, com propósitos, e benigno. É moldado´pelo trabalho de um divino artesão (Demiurgo, "demiourgos", 28a6), que, pela imitação de um modelo imutável e eterno, impõe ordem matemático ao caos preexistente, gerando o universo ordenado (Kosmos).[4]
Assim, o Demiurgo não era, a princípio, mau. O Gnosticismo porém o reinterpreta, como explica o Professor Edward Moore, o Demiurgo, para os gnósticos:

According to Gnostic mythology (in general) We, humanity, are existing in this realm because a member of the transcendent godhead, Sophia (Wisdom), desired to actualize her innate potential for creativity without the approval of her partner or divine consort. Her hubris, in this regard, stood forth as raw materiality, and her desire, which was for the mysterious ineffable Father, manifested itself as Ialdabaoth, the Demiurge, that renegade principle of generation and corruption which, by its unalterable necessity, brings all beings to life, for a brief moment, and then to death for eternity. However, since even the Pleroma itself is not, according to the Gnostics, exempt from desire or passion, there must come into play a salvific event or savior—that is, Christ, the Logos, the "messenger," etc.—who descends to the material realm for the purpose of negating all passion, and raising the innocent human "sparks" (which fell from Sophia) back up to the Pleroma (Tradução) De acordo com a mitologia gnostica (genericamente) Nós, a humanidade, existimos no reino material, porque um membro do conselho divino, Sofia (Sabedoria), desejou concretizar seu potencial criativo inato, sem aprovação do seu consorte ou parceiro divino. Sua hubris (presunção), neste particular, resultou em materialidade bruta, e seu desejo, que era para o misterioso Pai Inefável, se manifestou como Ialdabaoth, o Demiurgo, o principio generativo, renegado e corrupto, que tem a constante necessidade de trazer todas as coisas a vida, por um breve momento, para que depois morram eternamente. Entretanto, como até mesmo o Pleroma não é, de acordo com os Gnósticos, isenta de desejo e paixão, há de existir um evento salvífico ou Salvador - que é, Cristo, o Logos, o mensageiro, etc - que desce ao mundo material com o propósito de anular todas as paixões, e manifestando as centelhas divinas na humanidade inocente (provenientes da queda de Sofia), de volta a Pleroma.[5]
Como já discutimos aqui no adcummulus anteriormente ensinavam os mestres gnósticos, O Logos, Cristo, desceu do seio divino e passando através dos vários níveis celestiais, chegou a terra e tomou forma humana, aparecndo nos tempos de Pôncio Pilatos como Jesus Cristo. Para alguns gnósticos Jesus apenas parecia ter um corpo humano, tal como os anjos que apareceram a Abraão. A maioria porém acreditava que o Espirito Divino Cristo se apossou de um homem chamado Jesus, e por meio dele realizou feitos maravilhosos e extraordinários. Assim, Simão, o Mago, segundo Irineu  de Lyon ensinava que apareceu como Filho aos Judeus e como Pai aos Samaritanos, tendo resolvido vir ao mundo - porque os anjos estavam governando-o mal, servindo a suas próprias paixões - para acertar as coisas, e alterou sua forma em sua descida, assemelhando-se aos principados e potestades por onde passou, e aos homens apareceu em forma humana, embora não fosse humano, que acreditaram que ele sofreu na Judeia, embora não tenha sofrido (Irineu, Contra Todas as Heresias Livro I: Capitulo 23).   Cerinto, segundo Hipolito de Roma, " afirma que Jesus não nasceu de uma virgem, mas da união natural de José e Maria, como o resto da humanidade; mas que ele excedia em justiça, prudência e compreensão todos os outros homens. E Cerinto afirma também que após o batismo de Jesus, Cristo veio a terra em forma de pomba e desceu sobre ele, vindo da parte da Soberania que habita acima do circulo da existência, e depois disso ele passou a pregar o Pai, que não era conhecido, e realizar milagres. E ele declara que no fim de sua paixão, Cristo o deixou, uma vez que era incapaz de sofrer, sendo um Espírito da parte do Senhor" (Hipolito, Refutação de todas as Heresias, Livro X, Capítulo 17). Também Basilides pregava que "o Pai não nascido e sem nome, (...) enviou seu próprio primogênito Nous (aquele que é chamado Cristo) para libertar, aqueles que acreditam nele, do Demiurgo criador do mundo. Ele apareceu então, na Terra em forma humana, para nações representadas por aquelas potestades, e realizou milagres. No entanto ele mesmo não sofreu a morte, mas Simão, um home de Cirene, sendo chamado, levou a cruz em seu lugar; e foi transfigurado para parecer com ele, para que acreditassem que ele era Jesus, e o crucificassem, por ignorância e erro, enquanto Jesus recebeu a forma de Simão, e estando de longe, ria deles" (Irineu , I:24, seção 4). Por fm, Marcion rejeitava as especulações e emanações divinas postuladas pelos gnósticos, e afirmava simplesmente que existia um Deus mau e vingativo, retratado nas escrituras judaicas, e criou o mundo material, e um Deus amoroso e compassivo, totalmente outro e desconhecido, que enviou Jesus Cristo, um ser celestial que vem ao mundo em semelhança de carne, em forma humana. A julgar pela quantidade de tinta que os pais da igreja utilizaram para refuta-lo, Marcião foi o mais temível adversário da proto-ortodoxia. [6] 

O gnosticismo porém não conseguiu ser predominante na Igreja primitiva. A visão gnóstica tinha vulnerabilidades, e elas foram rapidamente exploradas, sem pena, pelos Pais da Igreja. Pois se Cristo era de outra natureza, e só parecia ser humano, ou se sua união com elemento humano era apenas transitória, como poderia ter realmente experimentado o sofrimento, dor e morte, e se não sofreu dor e morreu, como poderia entender a condição humana? Pois se a condição humana é indigna, desonrosa, e sofredora não deveria o Salvador participar desta realidade para nos redimir? "Portanto, visto que os filhos compartilham de carne e sangue, Ele também participou dessa mesma condição humana, para que pela morte destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o Diabo" (Hebreus 2:14). Tertuliano, usando todo os recursos da retórica, faz uma poderosa crítica a Marcião, em particular, e aos gnósticos doceticos e separacionistas em geral.
Uma vez que, portanto, você não rejeitam a hipótese de um corpo como impossível ou como perigosa para o caráter de Deus, repudiam e censuram-no como indigno dele. Vejamos agora, começando a partir do próprio nascimento,  contra a imundície dos elementos geradores dentro do útero, a sujeira dos fluídos e do sangue, do crescimento desta carne que durante nove meses deve tirar seu alimento daquele lodo . Descreve-nos este ventre, que cresce dia a dia, pesado,atormentado, mesmo durante o sono inquieto, inconstante em seus sentimentos de desagrado e desejo. E agora igualmente contra a própria vergonha de uma mulher em trabalho de parto, que, no entanto, deve sim ser homenageado em relação aos perigos que enfrenta, e considerado sagrado em relação a (o mistério da) natureza. Claro que você também estão horrorizados com a criança, que é derramada na vida com os embaraços que o acompanham desde o ventre; Da mesma forma que você, é claro, a detesta mesmo depois de ser lavado, quando é vestida nas suas roupinhas, agraciado com a unção repetida, sorrindo para os que cuidam dela. Este curso reverendo da natureza, você, ó Marcião, (com prazer ) despreza; e ainda, de que maneira você nasceu? Se você detesta o ser humano com o seu nascimento; como pode então amar alguém? (...)Cristo, pelo menos, amou esse homem, esse coagulo formado no ùtero entre as imúndices, esse homem vindo ao mundo pelos orgãos vergonhosos, esse homem alimentado com carícias irrisórias. Foi para ele que ele desceu, foi para ele que pregou, por ele que, com todoa a humildade se rebaixou até a morte, e morte de cruz. Foi em aparência que ele amou aqueles que resgatou por tão alto preço? [7] 
Por fim, o último (?) capítulo de nossa história passa por Santo Agostinho. cuja história de vida segue a trajetória  desse post, e por sua inquietude com o problema do mal lhe ter levado a desenvolver a sua própria (e extremamente influente) teoria. Agostinho foi educado por sua mãe cristã, tendo contato com as explicações ortodoxas e tradicionais para o mal e sofrimento. Na juventude, se tornou maniqueu, movimento profundamente influenciado pelo gnosticismo, mas também se decepcionou, e depois de um breve período influênciado pelo ceticismo da Nova Acadêmia, voltou ao cristianismo.  Como Bispo de Hipona, Agostinho se tornou um profundo pensador e teólogo, e se debruçou com afinco numa explicação para o mal.
E ai voltamos a resposta a Agostinho, da pergunta que ele mesmo se fez:
(...)E no universo, até o que é chamado de mal, quando é controlado e colocado em seu lugar, só aumenta nossa admiração do bem; pois apreciamos e valorizamos o bem mais quando a comparamos com o mal. Pois o Deus Todo-Poderoso que, como até mesmo os pagãos reconhecem, tem o poder supremo sobre todas as coisas, sendo ele mesmo o bem supremo, nunca iria permitir a existência de qualquer coisa má no meio de suas obras, pois não seria tão onipotente e bom se não pudesse trazer coisas boas mesmo a partir do mal. Pois o que é aquilo a que chamamos  mal, senão a ausência do bem? Nos corpos de animais, doenças e feridas nada são senão a ausência de saúde;  para quando a cura é efetuada, isso não significa que os males que estavam presentes, ou seja, as doenças e feridas, saitam do corpo e foram para outro lugar: eles deixam de existir por completo; para o ferimento ou doença não é uma substância, mas um defeito na substância carnal, -a própria carne sendo uma substância, e, portanto, algo de bom, de que esses males - isto é, privações da dadíva que chamamos de saúde - são acidentes . Assim, da mesma forma, o que são chamados de vícios na alma são nada além de privações de bem natural. E quando eles são curados, eles não são transferidos para outro lugar: quando eles deixam de existir na alma saudável, eles não podem existir em qualquer outro lugar (...). [8].


"Ouve-se um pranto em Ramá, Raquel chora por seus filhos",
Selo das Ilhas Faroe,2001, via wikicommons
 Desta forma, na concepção de Agostinho, o que existe, o que foi criado por Deus é bom. O mal decorre do afastamento e corrupção das coisas criadas por Deus. Sendo o ser humano livre, fica implícita a possibilidade de se afstar de Deus e de se corromper.
É dificil superestimar a contribuição deste (e outros) trabalhos de Agostinho para teologia e filosofia ocidentais. Sua resposta passou a ser padrão no que se refere ao problema do mal desde então, seja por discordância ou concordância. É claro que questão continuou e continuará sendo discutida, mas em Agostinho o cristianismo tradicional encontrou sua linha mestra de argumentação racional, combinada com o profundo apelo a psichê humana de que Jesus Cristo, encarnação do logos divino havia sofrido dores, padecimentos, frustrações, tristezas e morte, como os seres humanos sofrem, e havia sido vitorioso sobre todas essas coisas.

Na verdade, quando dizemos que a concepção de Agostinho se tornou prevalente, não queremos dizer que ela refutou de forma incontestável os gnósticos, e eles nunca mais brandiram seus argumentos. Assim, como os gnósticos não eliminaram os apocalipticos e os adeptos da "visão profética" (como definida por Bart Erhman, acima). A questão é que esses movimentos foram racionalizações para entender a realidade e suas constantes mudanças. E a medida que o contexto mais amplo muda, a percepção da concretude do poder do mal também, sendo maximizada ou minimizada. Assim, ao longo da sua história, em momentos de intenso sofrimento e/ou de insegurança causada por transformações sociais intensas, movimentos apocalipticos tendem a florescer, ou ainda há um movimento de afastamento do mundo e do tudo que é material, que passa a ser visto como funcionalmente corrupta, racionalizada no discurso, até mesmo de grupos fundamentalmente ortodoxos, não pelo propósito de um Demiurgo, mas pelos efeitos da queda do homem, implicando que o fiel deve se abster do mundo e de tudo que ele representa, até mesmo de atividades comezinhas ( como os asceticos do sec. IV, que não casavam, e alguns grupos pentecostais do sec. XX, que não assistem televisão). No entanto, quando a fé cristã se expandiu, e havia a percepção de vitórias e conquistas religiosas, bem como avanços sociais, elementos da "teologia profética" se tornavam visíveis em um discurso triunfalista de que a devoção do povo de Deus a sua Palavra eliminaria os males desse mundo (tais como a escravidão, a exploração do trabalhador, o alcoolismo), como visto no protestantismo do séculos XIX e início do século XX, em movimentos liberais como o Evangelho Social,  e conservadores como a Teologia do Domínio. E mesmo em uma versão leiga, influenciou nos EUA o desenvolvimento da Doutrina do Destino Manifesto (a crença de que o povo dos Estados Unidos tem a missão de transformar o mundo, sendo o expansionismo geopolítico norte-americano apenas uma expressão dessa vocação).

Referencias Bibliográficas:

[1] Bart Erhman (2005), Os Evangelhos Perdidos, fl.177
[2] John J Collins (1998), A Imaginação Apocaliptica, fls. 48-65
[3] Bart Erhman (2005), Os Evangelhos Perdidos, fl.178-179
[4] Zeyl, Donald (2005 e 2014), "Plato's Timaeus", The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Spring 2014 Edition), Edward N. Zalta (ed.), http://plato.stanford.edu/archives/spr2014/entries/plato-timaeus/. visualizado em 05.09.2015
[5] Edward Moore (2005), "Gnosticism",  The Internet Encyclopedia of Philosophy http://www.iep.utm.edu/gnostic/, visualizado em em 05.09.2015
[6] Tim Henderson, Marcion: A Beginer Guide, https://earliestchristianity.wordpress.com/2010/08/02/marcion-a-beginners-guide/, 02.08.2010.
[7] Tertuliano, Da Carne de Cristo, capítulo IV  http://www.earlychristianwritings.com/text/tertullian15.html
[8] Santo Agostinho, Enchiridion (Handbook) de Fé, Esperança e Amor, capitulo 11 http://www.ccel.org/ccel/schaff/npnf103.iv.ii.xiii.html


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