Em seu blog, o Professor Airton José da Silva chama atenção para uma recente notícia que "sacudiu" a biblioblogosfera. A (possível) descoberta de um manuscrito do século I, que conteria um fragmento do evangelho de Marcos.


Se isso se confirmar, seria o mais antigo manuscrito daquele evangelho, desbancando o Papiro John Ryland (P52) do posto de manuscrito mais antigo conhecido do Novo Testamento.




A notícia foi apresentada pelo Professor Daniel Wallace (Seminário Teológico de Dallas) em um debate com o Professor Bart Erhmam (Universidade da Carolina do Norte em Chapell Hill). O novo papiro seria objeto de uma publicação acadêmica, pela Brill, em cerca de um ano.



Devagar, porém, com o andor. Sabiamente, o Professor Airton observa:

Certo ou errado? Talvez seja preciso aguardar até um ano para sabermos... Tudo é ainda muito vago: que manuscrito? onde foi descoberto? por quem? por que será revelado em livro em cerca de um ano (ou mais... ou nunca...)?




O post apresenta também uma série de links para quem quiser se inteirar melhor da questão).

Na lista do Professor Airton, um dos melhores posts é do Professor Larry Hurtado,



It would be a wonderful further boon to textual scholarship to have additional early manuscripts of NT writings, even legible fragments. Among other matters, depending on the amount of text actually preserved, all portions of early manuscripts are vital for tracing the textual history of the writings they attest. With regard to NT writings, we are already in an enviable and unparalleled situation, with substantial early papyri copies of a number of them (e.g., the Chester Beatty papyri, and the Bodmer papyri). But here are some notes to bear in hand as we await further news of the putative new finds.

(...) Palaeographical dating can ever only be approximate, perhaps as narrow as 50 yrs plus or minus. Expert palaeographers often disagree over a given item by as much as a century or more. It’s never wise to rest much upon one judgement, and confidence will be enhanced only when various experts have been given full access to the items.

No passado, já houve manuscritos apressadamente associados aos evangelhos e/ou datados de forma precipitada no I século por um ou outro estudioso, com o consequente desmentido pela academia tempos depois. Por exemplo o estudioso José O'Callaghan Martinez afirmou em 1972 que o papiro 7Q5 dos manuscritos do Mar Morto continha o texto de Marcos 6:52-53. A identificação encontrou quase nenhuma aceitação. Ainda, o Professor Carson Peter Thiede tentou demonstrar que o papiro P64, um fragmento de um manuscrito do evangelho de Mateus a qual a maioria dos estudiosos data de cerca de 200 DC, seria de meados do I século. A reinvindicação de Thiede não prosperou. Portanto, devemos esperar tanto a publicação formal dos resultados das análises deste novo fragmento, quanto os debates que surgirão a partir dele.

Por outro lado, já existe um número razoável de manuscritos com partes ou livros inteiros do Novo Testamento. Uma lista é dada pela Wikipedia, a qual pode ser organizada por data. Outra lista esta no site do Professor K C Hanson. Cerca de 61 papirus contendo partes de escritos do Novo Testamento podem ser datados no segundo e terceiro século, até o ano 300 DC (a cada data fornecida, podemos acrescentar um intervalo de cerca de 50 anos, para mais ou para menos). Alguns desses manuscritos contém partes minúsculas, as vezes um ou dois versículos fragmentados, outros contém livros, ou coleções de livros inteiros.

Por exemplo, onze manuscritos podem ser datados do II século (incluindo o ano 200 DC), desses a "estrela" é certamente o P52, datado geralmente na primeira metade do segundo século (125 DC, mais ou menos 50 anos). Contudo, P52 é um pequeno fragmento (João 18:31-33 na frente, e 37-38 no verso), e assim, como fonte de analise do texto do Novo Testamento, o mais importante é, possivelmente, o P46 datado da virada do II para o III século DC (aprox. 200 DC com intervalo de 50 anos para mais ou para menos), e P45, que contém (partes dos) evangelhos e Atos dos Apostolos.



É importante observar que, mesmo que haja (e provavelmente há) exagero na notícia, a sua publicação seria muito relevante para a critica textual do novo testamento e história do cristianismo primitivo. O Evangelho de Marcos é um dos textos neo-testamentários mais pobremente atestados, P45 é nossa melhor testemunha textual e data de meados do século III. Se esse novo papiro puder ser datado de 100 DC, por exemplo, seria o mais antigo manuscrito do novo testamento. Se, após analise dos especialistas, sua datação for corrigida em um século, ainda seria o fragmento mais antigo do segundo (e mais antigo) evangelho. Portanto, em se confirmando, essa descoberta tem potencial enorme para contribuir com nosso conhecimento do cristianismo primitivo.

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UPDATE (10.02.2012): O Prof. Daniel Wallace apresentou um "statement", no site do Dallas Theological Seminary esclarecendo o anúncio da descoberta do fragmento do evangelho de Marcos. O Professor Airton José da Silva resume o conteúdo da carta de esclarecimento, e adiciona alguns links extremamente úteis para o entendimento da questão. No mais, entendo que somente com a publicação dos resultados, e avaliação dos estudiosos, é que poderemos ter a exata noção da contribuição desses novos manuscritos. Eles tem potencial para constituirem uma grande descoberta, mas há um loooooongo caminho pela frente ainda. De qualquer forma, mesmo que a data inicial seja corrigida em um século, ou um século e meio, já seria uma importante contribuição ao nosso conhecimento. Em todo o caso, "cuidado para não colocar a carroça na frente do boi".



Cristologia e Messianologia Centrífuga e Centrípeta no livro de Hebreus


Em uma postagem, “Transculturalismo e retórica nocristianismo nascente”, fiz umas asserções polêmicas em relação a questão da evolução da cristologia e do ideário em torno da figura de Jesus ao longo do período inicial de desenvolvimento do cristianismo.

Ela bate de frente com a perspectiva da formação paulatina através do sincretismo e assimilação de idéias alheias as quais não encontravam fundamento ou ressonância em períodos anteriores, emergindo assim destas incorporações, uma configuração completamente nova em relação à matiz judaica da igreja nascente.

Nesta postagem, trabalhei primeiramente com pontos de retórica paulina, argumentando que ela adotava estratégias e pontes que consistiam em “em reapresentar e/ou confrontar termos e formulações de doutrinas ou pensamentos alternativos e/ou divergentes de maneira a usa-los como apoio ao seu evangelho, como instrumento de demonstração do papel de Jesus num quadro de pensamento mais amplo numa atividade fagocitária.” E mais adiante afirmei que (...)”O autor de Efésios, na linha do ambiente de Paulo, utiliza a mesma estratégia”.

Para poder ter uma visualização mais próxima, nesta postagem agora debruçaremos especificamente em um documento importante no Novo Testamento, emanado de e para um ambiente judaico helenizado. Já fora mencionada na postagem sobre a qual comentara, que “Perspectivas, crenças e expectativas judaicas que eram polêmicas para com o cristianismo poderiam ser sujeitas do mesmo recurso tal como mencionamos em relação às outras linhas de pensamento ou visões de mundo. O livro de Hebreus ilustraria isso através das diversas drashs - 'interpretação; descobrir o significado através da midrash, por comparação palavras e formas e também por ocorrências semelhantes noutros locais'- desenvolvidas envolvendo a figura de Melquisedeque, Moisés, os serviços rituais do Templo...”

Este livro possui datação controversa, variando entre os especialistas de ser dos meados dos anos 60 a última década do século I. Eu me inclino a considerar ser de pouco após a destruição do Templo de Jerusalém. O autor é ainda mais controverso, para o qual temos menos dados aproximativos ainda e o grau especulativo é bem maior. É notório que se trata de algum judeu helenizado e bastante culto, conhecedor de técnicas rabínicas de exegese e exposição.

foi apresentado aqui no blog um importante autor e pesquisador, David Flusser, com um ímpar conhecimento de fontes judaicas do século I a.C., e dos sécs. I e II. Em um importantíssimo trabalho [1],  ele se debruça sobre a retórica e matiz hermenêutica do autor de Hebreus.

Flusser apresenta uma série de discussões presentes em Midrashs (sobretudo de Salmos como o 8, 22, 68, 84, 110), targuns aramaicos (sobretudo do livro de Isaías e Zacarias), comentários presentes nos manuscritos do Mar Morto, Documento de Damasco, Pergaminho de Ação de Graças, debates entre rabinos e escolas rabínicas, em que se debate o papel e o grau do status do Messias; em que são justapostas as figuras do Messias Sacerdotal, de descendência levita e referenciando-se a Aarão, com o Messias de Realeza, referenciando-se em Davi, com escolas diferentes exaltando um a mais do que outro. Discussões envolvendo traduções e interpretações bíblicas, incluindo a versão da Septuaginta, sobre interpretações diferentes dos status dos anjos, ante à figuras importantes no imaginário judaico, como Moisés, Abraão, Davi, Zorobabel, e o Messias, com diversas apontando o status superior deste. Também com Melkizedeque, que é visto como uma figura de expressão de Deus, até mesmo com um ser arquetípico da realeza davídica (Malkhi-Zedek = Rei de Justiça). Essas figuras apareciam em diversas expressões, como mais exaltadas ontologicamente do que qualquer outro ser humano, a nível acima do humano.

O autor de Hebreus teria se engajado então em toda essa matiz, em que haviam debates contemporâneos a ele, que permaneceram por tempos, mas também diversos textos atestando controvérsias anteriores, como os Salmos de Salomão, que permaneciam fortes em seu tempo. Ele teria usado um método de argumentação semelhante às discussões rabínicas, pegando o gancho para trazer para discussões internas nas igrejas cristãs judaico-helênicas, com uma noção nova, em que imagens e artes retóricas são tomadas de empréstimo de forma útil para apresentar a superioridade de Jesus Cristo e seu papel elevado exaltado ao lado de Deus. Combinaria já na glorificação de sua missão terrena o papel presente do Mais Alto Sacerdote, junto com Deus, com sua obra presente, ainda a ser consumada, de Grande Juiz e Rei sobre o cosmo. Sua eternidade com a ressurreição, sua preexistência na hipóstase da “Sabedoria” de Deus, seu papel de Filho ante aos ministradores e servos, o testemunho direto de Deus, são motivos invocados ligados com passagens-chave dos debates.

Segundo Flusser (pg 38, 39), 

Por um lado, o tema principal de Hebreus é a tentativa de provar, a partir das Escrituras, que a nova dispensação é superior à antiga e que, para esse propósito, o autor tenta persuadir seus leitores da vantagem de Cristo como Filho de Deus sobre várias personalidades, instituições e criaturas celestiais do Velho Testamento. Por outro lado, a justaposição não se origina de uma luta espiritual entre a nova comunidade cristã e a velha comunidade de Israel, ou um de seus grupos. Pelo contrário, o autor cristão toma, para sua polêmica, material literário do judaísmo de seu tempo. Os próprios judeus, em debates internos ou num esforço comum, estavam então discutindo o grau mais alto ou mais baixo de personalidades bíblicas e criaturas celestiais.(...)
A fusão de idéias e motivos judaicos com a nova perspectiva cristã é típica não apenas da Epístola aos Hebreus, mas também de todos os escritos do segundo estrato do cristianismo.
(...)Temos de lembrar que nem todos os motivos usados no cristianismo do Novo Testamento a fim de descrever o caráter divino de Cristo e sua tarefa cósmica são especificamente cristãos. Muitos deles se originaram de especulações judaicas sobre a pessoa e grau do Messias e figuras bíblicas, bem como de outros theologoumena judaicos.

Outros pesquisadores de formação diversa detêm-se em pontos específicos que ampliam nossa percepção a respeito deste trabalho no livro.

Christopher Richardson [2], PhD pelo Covenant Theological Seminary, argúi a respeito da discussão do autor de Hebreus circundando a figura enigmática de Melquisedeque, que sua discussão visa ao ponto de que “(...)Como Melquisedeque , a quem 'não tem fim de dias' mas 'para sempre permanece sacerdote',  o sacerdócio de Jesus também 'é dependente da....qualidade de vida' que ele possui (78). No caso de Jesus , é vida ressurreta que é decisiva , já que ele se 'tornou-se um sacerdote ... através do poder de uma vida indestrutível' (7:16 , ver também 7:24-25)" .


Tratando da arte argumentativa do autor, Herbert W. Bateman, professor de Novo Testamento no Southwestern Baptist Theological Seminary em Fort Worth, Texas, faz [3] uma contribuição colocando as abordagens das Escrituras pelo autor de Hebreus em paralelo com documentos de Qumrã e as sete regrasexegéticas atribuídas a Hillel, no que frisa a questão messiânica da realeza davídica.

Pamela Eisebaum [4] professora Associada de Estudos Bíblicos e Origens Cristãs,no Center for Judaic Studies da Universidade de Denver, escreveu uma importantíssima dissertação em que ela expõe sobre Hebreus 11, traçando paralelos com listas de heróis da Bíblia Hebraica, da literatura judaica do século I e listas greco-romanas de heróis. Ela entrevê alusões com retóricas em Aristóteles, Quitiliano, Isócrates e Cícero, deixando evidente, contudo, a proximidade bem maior com as listas judaicas, ainda que em sua complexidade, não fica nada a perder com a retórica helênica, que oferece uma caracterização considerável, em sua multidimensionalidade, para o estudo do capítulo, na estratégia de legitimação da comunidade cristã à qual o livro é endereçado.

Análises de pequenas partes-chave do livro servem para assentar de maneira mais opaca este vislumbre.  Craig Keener, Ph.D. na Universidade de Duke, professor de Novo Testamento no  Asbury Theological Seminary, discorre sobre 2.10 [4]:
O termo archçgos, traduzido “autor”, ou “príncipe”, significa “pioneiro”, “líder” ou “campeão”. O termo era usado para heróis humanos e divinos, fundadores de escolas ou aqueles que cortavam um caminho adiante para os seus seguidores.

Sobre 1.5, uma passagem-chave, Keener explica:
O autor cita o Salmo 2.7 e 2 Samuel 7.14, textos que já haviam sido ligados a especulações sobre a vinda do Messias (nos Manuscritos do Mar Morto). Os intérpretes judeus frequentemente ligavam os textos por meio de uma palavra-chave comum; a palavra aqui é “Filho”. Como muitos outros textos messiânicos, o Salmo 2 originalmente celebrava a promessa para a linha davídica em 2 Samuel 7; a “geração” se refere à coração real – no caso de Jesus, sua exaltação (cf. similarmente a At. 13,33).

Como ressaltado na postagem “Transculturalismo e retórica”, esta estratégia abre campos de pesquisa ampliados sobre a retórica e apologética no cristianismo nascente, com imensa demanda de pesquisadores e trabalhos.

Há um amplo campo sob o escopo do que se mostra como um espectro de tentativas de pensar o divino e sua relação com o mundo à medida que se busca comunicar as convicções do cristianismo nascente acerca do papel de Jesus para com o a história e com o culto e seu papel redentor, de acordo com as matizes culturais do ambiente de vida da igreja nascente. Um marco em amplitude de abordagem e que abre diversos caminhos a serem explorados, dentro do que trabalhamos nesta postagem espeficicamente, relacionando com um ângulo alternativo, o impacto e reação dos rabinos e os reflexos e reações nos movimentos gnósticos,  é a obra de Alan F. Segal, "Two Powers in Heaven: Early Rabbinic Reports about Christianity and Gnosticism".


[1] Flusser, David. “Messianologia e Cristologia na Epístola dos Hebreus”, captulo II de “O Judaísmo e as Origens do Cristianismo”, volume 2. Rio de Janeiro, Imago, 2001. 

[2] Richardson, Christopher; “The Passion: Reconsidering Hebrews 5.7–8” , em Bauckham, Richard; Hart, Trevor; MacDonald, Nathan; Driver, Daniel. eds. “A Cloud of Witnesses: The Theology of Hebrews in its AncientContexts". Library of New Testament. Studies 387

[3] Bateman, Herbert W. “Early Jewish Hermeneutics andHebrews 1:5-13: The Impact of Early Jewish Exegesis on the Interpretation of aSignificant New Testament Passage”.  American University Studies, Series 7: Theology and Religion 193. New York: Peter Lang, 1997.

 [4] Eisenbaum, Pamela Michelle. “The Jewish Heroes ofChristian History: Hebrews 11 in Literary Context”. SBL Dissertation Series 156. Atlanta: Scholars Press, 1997.

 [5] Keener, Craig S. “Comentário Bíblico Atos – NovoTestamento”. Belo Horizonte. Ed. Atos, 2004. “Hebreus” PPS 669-707.




Abaixo vai uma seleção de artigos acadêmicos interessantes, publicados em português, com os respectivos links. Uma vez que a grande maioria dos artigos acadêmicos sobre as origens cristianismo esta em jornais não acessíveis ao público não vinculado a universidades (jornais acadêmicos especializados de subscrição paga) e/ou lingua estrangeira, é interessante compartilhar esses "achados". Os artigos também tratam de assuntos que discutimos aqui no adcummulus recentemente.


1) Diogo Pereira da Silva (2011) As Perseguições aos cristãos no Império Romano (sec. I a IV): Dois Modelos de Apreensão, Revista Jesus Histórico e sua Recepção - Ano IV [2011] - volume 7
"Resumo:No âmbito da pesquisa em torno das perseguições aos cristãos pelo Império romano nos quatro primeiros séculos, podem-se observar intensas discussões eruditas. Nesse texto, busca-se evidenciar que as abordagens acadêmicas divergentes podem ser conjugadas formando um modelo explicativo globalizante
Palavras-chave: Perseguição aos cristãos, martírio, Império Romano.


(Observação: aqui no adcummulus abordamos as Perseguição da Igreja Primitiva pelo Império Romano no post "Porque os cristãos foram perseguidos"? (agosto de 2010), e, tangencialmente, quando abordamos a referência do historiador romano Tácito sobre Jesus no contexto da perseguição aos cristãos de Roma por Nero A Significância de Jesus e a Escala Richter de Impacto Histórico Parte 2D: Historiadores Romanos.)


2) Lolita Guimarães Guerra (2011) Cura e Experiência Religiosa no Cristianismo Primitivo, Revista Jesus Histórico e sua Recepção - Ano IV [2011] - volume 7
Resumo:As primeiras comunidades cristãs, ao comporem narrativas acerca das atividades religiosas de seu líder, lançaram mão de um vasto conjunto de práticas e conceitos relativos à cura de doenças e à ressurreição dos mortos. Noções judaicas de causa, tratamento e cura de doenças se modificam no interior desses grupos no debate com práticas presentes, por exemplo, nos cultos a Esculápio, Ísis e Serápis. Para além do mundo divino, cura e ressurreição foram associadas, tanto no judaísmo como para além dele, a mortais como Apolônio de Tiana, Hipócrates e Salomão, assim como a figuras públicas como Vespasiano e Pirro. Nos primeiros séculos da Era Comum, este diálogo toma forma através da atribuição do poder de curar exclusivamente a Cristo, o qual inclusive lança mão de outros personagens para exercer milagres. As comunidades cristãs sintetizam, neste único personagem, os papéis do sábio/médico à terapia e à cura.
Palavras-chave: início da Era Comum; experiência religiosa; doença; possessão; cura.


3) Vicente Dobraruka (2002) Josefo, a literatura apocalíptica e a revolta de 70 na Judéia, Phoinix. Vol.8. Rio de Janeiro: UFRJ, 2002.
Este artigo discute as relações entre escatologia e concepção de história na obra do historiador judeu Flávio Josefo, tomando-se por eixos de análise tanto a relação por ele estabelecida entre as expectativas messiânicas dos judeus quanto às concepções metahistóricas de sua obra, em si mesmas credoras da literatura apocalíptica.Entre 74 e 79 d.C., o historiador judeu Flávio Josefo redigiu uma obra que teria lugar assegurado postumamente como um dos textos historiográficos mais famosos da Antigüidade - a Guerra dos judeus.

Observação: o assunto messianismo foi discutido aqui no adcummulus no post "Jesus, os Cristãos, Messianismo e Apocaliptismo no Judaismo do Primeiro Século: Tudo Junto e Misturado"(janeiro de 2011), e no que se refere aos pretendentes messiânicos, como Judas Galileu, Simão de Peréia e o Profeta Egípcio em "A Significância de Jesus e a Escala Richter de Impacto Histórico Parte 4.1: O Rei dos Judeus entre os Revolucionários" (junlho de 2011).



4) Edgard Leite (2008) Os Manuscritos de Qumran e a Teologia do Cristianismo Antigo, Revista Jesus Histórico e sua Recepção – Ano I [2008] - volume 1
"Os manuscritos de Qumran introduziram novos elementos nos estudos sobre o cristia-nismo antigo. Antes de sua descoberta o conhecimento do universo religioso da Judéia do século I era muito limitado. Tanto os evangelhos canônicos quanto os apócrifos, por exemplo, eram pouco esclarecedores. Seu principal objetivo era a reafirmação das mensagens de Jesus – tais como diferentes tradições as entendiam - e não uma reflexão sobre as forças e tendên-cias conceituais que as envolviam."

Outros artigos como este podem ser encontrados na Revista Jesus Histórico.
Continuando a Série "Quem ele dizem que eu Sou":

Martin Goodman


Martin D Goodman é professor de estudos judaicos na Faculty of Oriental Studies e fellow do Wolfson College da Universidade de Oxford, e sua pesquisas concentram-se nos aspectos sociais, religiosos e politicos dos judeus no Império Romano, e tem publicado extensamente sobre judaismo do segundo templo e seus grupos (inclusive o então nascente cristianismo), Josefo, os judeus no mundo greco-romano, e da historia do Imperio Romano.

Em seu livro "The Roman World 44 BC-AD 180" (1997), Goodman busca uma perspectiva integrada, holística, do desenvolvimento do Império Romano, de Júlio Cesar a Marco Aurélio, entre os tópicos abordados, ele analisou as origens do cristianismo.


Primeiramente, o Professor Goodman aborda as fontes do cristianismo primitivo e suas peculiaridades, em vista disso, como analisa-las.
"the early history of christianity has to be puzzled out by examination and elucidation of inconsistencies within the Christian literature itself. The preservation of so much literature makes such an investigation possible on many topics - thus, for instance the different accounts of Jesus' carreer and teaching in the four canonical Gospels can profitably be compared - but it is not easy, and theological preoccupations of most modern scholars who study early Christianity so predispose them to particular interpretations of the evidence that the subject has achieved much less scholarly consensus than any other in the history of Early Empire" (tradução) "a história do cristianismo primitivo e como um quebra-cabeças a ser montado a partir do exame e elucidação da literatura cristã, em que pese suas incosistências. A preservação de tão volumosa literatura faz essa investigação possível sobre muitos temas - assim, por exemplo, os diferentes relatos dos feitos e ensinos de Jesus nos quatro evangelhos canônicos podem ser proveitosamente analisados - mas não é fácil, e as preocupações teológicas da maioria dos acadêmicos atuais que estudam o cristianismo primitivo os predispôem a interpretações particulares das evidências, de forma que o assunto alcançou um nivel de consenso acadêmico inferior ao de qualquer outro da história do Império Romano [dos Julio-Claudianos, Flavianos e Antoninos (45 AC a 180 DC).[1]


Goodman passa analisar então a vida de Jesus, e suas fontes, fazendo algumas considerações sobre as dificuldades enfrentadas, como elas devem ser analisadas sempre no contexto do Judaísmo do I Século, como abordar sob o aspecto histórico suas concordâncias e diferenças, e o fato de terem sido escritas na forma de biografia com forte interesse teológico.


"Most contentious of all is the reconstruction of the life and teaching of Jesus himself, which need to be placed firmly within the context of first century Judaism in the land of Israel. The accounts of Jesus' carreer in the four canonical gospels included in the New Testament agree on the main events of his life, and Luke and Matthew agree so closely on some of Jesus' teaching that a common (oral) source ("Q") is often posited, but the Gospels differ in detail and in some of the teaching ascribed to Jesus; the apocryphal gospels differ even more, which is probably one reason for their exclusion from the canon by Christians of the second century. The problem arose because the use of these biographical accounts as the main vehicles of theological ideas from the first generation of the Church, so that religious significance was from early on read into each of Jesus' recorded actions and statements.
(tradução) O tópico mais controverso de todos é a reconstrução da vida eo ensinamento do próprio Jesus, que precisam ser colocados firmemente dentro do contexto do judaísmo do primeiro século na terra de Israel. Os relatos da carreira de Jesus nos quatro evangelhos canônicos incluídos no do Novo Testamento concordam no que se refere aos principais acontecimentos de sua vida, e Lucas e Mateus concordam tão bem em alguns dos ensinamentos de Jesus que uma fonte (oral) comum ("Q") é muitas vezes proposta, mas os Evangelhos diferem em detalhes e, em alguns dos ensinamentos atribuídos a Jesus; os evangelhos apócrifos diferem ainda mais, que é provavelmente uma das razões para sua exclusão do cânon pelos cristãos do segundo século. O problema surgiu pelo uso desses relatos biográficos como os principais veículos de idéias teológicas da primeira geração da Igreja, de modo que significado religioso foi desde cedo impresso em cada uma das ações e declarações que relatam sobre Jesus. [1]

Goodman passa então as considerações metológicas na analise das fontes de Jesus.

A minimalist solution for such conflicting testimony is to accept as true only those elements of the tradition which conflict with later Christian doctrine, on the grounds that such material cannot owe its inclusion to latter invention, but even this procedure is hardly secure: too much of the history of the first generation of the christians after the ressurection is itself obscure to state for certain that any particular teaching was not found among them, and some continuity between Jesus' teaching and his followers is inherently plausible because they took his name to define themselves" (tradução) Uma solução minimalista para este testemunho conflitante é aceitar como verdadeiros apenas os elementos da tradição que conflitam com a doutrina cristã posterior, com o fundamento de que tal material não poderiam ter sido inventado pela igreja, mas mesmo este procedimento não é garantido: muito da história da primeira geração dos cristãos depois da ressurreição é obscuro para afirmar com certeza que qualquer ensino particular não foi encontrado entre eles, e alguma continuidade entre o ensino de Jesus e seus seguidores é inerentemente plausível uma vez que definiam a identidade de seu grupo pelo seu nome" [1]

Ou seja, os evangelhos foram produzidos pelos cristãos para trazer pessoas a fé, e edificar e confortar aqueles que já estavam nela. A vida de Jesus foi narrada para atingir esses objetivos. Desta forma, houve claramente um víes na elaboração desses escritos, o que poderia levar os autores a criarem ou modificarem ditos e feitos de Jesus para atender seus objetivos. Goodman observa então que uma abordagem minimalista que o pesquisador pode adotar é de aceitar como verdadeiros apenas os elementos que conflitam ou não se ajustam ao viés dos cristãos primitivos. Por um princípio fundamental da crítica textual, elementos no texto, que vão contra a sua tendência global sugerem que alguma informação autêntica sobreviveu ao processo editorial, esse princípio é a base dos critérios da diferença da igreja primitiva e do contrangimento, utilizados na pesquisa do Jesus Histórico. Como já escrevemos aqui (citando Gerd Theissen e Dagmar Winter) "em geral, fontes históricas não são compostas e preservadas por autores desisteressados ou neutros, mas são elaboradas com propósitos e motivos, assim, os elementos que não corroboram esses interesses e motivos são particularmente dignos de confiança". Se elementos que não atendem ou mesmo conflitam com interesses e motivos dos cristão primitivos são mantidos na tradição, podemos inferir que a principal razão e que fossem suficientemente conhecidos para serem negados ou omitidos, e utilizados, por exemplo, por adversários dos cristãos, e dessa forma, tinham que ser explicados de alguma forma, mesmo que não fosse convincente. Como também já observamos (citando o Professor Murray G Murphy, da Universidade da Pensilvânia) : "Em outras palavras, se uma narrativa relata um fato que vai contra a tendência do autor, haverá maiores razões para acreditar nele, uma vez que o viés do autor nos levaria a esperar sua omissão, a menos que sua ocorrência fosse tão bem conhecida que não pudesse ser excluída". Murphy esta utilizando justamente o exemplo do batismo de Jesus por João, um caso quase sempre citado de fato autenticado pelo criterio do constrangimento, como um belo exemplo do "papel dos fatos nos relatos históricos", "uma vez que o viés de todos esses escritores [os evangelistas] vai contra a inclusão do batismo, o fato de três deles o mencionarem, dois deles contra a vontade, depõe em favor da autenticidade do acontecimento em Marcos" [2]




Goodman, em seu livro "Rome and Jerusalem: The Clash of Ancient Civilizations", utiliza um principio semelhante para avaliar a obra de Flávio Josefo




"To accept Josephus' often tendentious evaluation of the motives and characters of the Jews and Romans whose actions constitute his narrative would be rash, but to accept the details of his narrative, particularly when they contradict his own explanations of events, and so survive in the narrative only because they happened, is reasonable.(tradução) Aceitar as avaliaçãoes frequentemente tendenciosas de Josefo sobre os motivos e caráter dos judeus e romanos cujas ações são descritas em sua narrativa seria imprudente, mas aceitar os detalhes de sua narrativa, particularmente quando eles contradizem sua própria explicação dos eventos, e assim foram incorporados a seu relato simplesmente porque realmente aconteceram, é razoavel [3]

Por exemplo, o autor do Evangelho de Mateus, geralmente datado de 80-100 DC, apresenta Jesus comissionando seus discípulos (capítulo 10) "as ovelhas perdidas da casa de Israel", os orienta a não irem as cidades dos samaratinos e dos gentios, e promete que, diante de obstáculos e perseguições, em que fugiriam de cidade em cidade, "em verdade vos digo que não acabareis de percorrer as cidades de Israel antes que venha o Filho do homem" (Mt 10:23). Dificilmente este dito pode ter sido inventado pelo autor do evangelho; aquela altura, na segunda ou terceira geração de cristãos, a nova fé já tinha percorrido não só as cidades de Israel, quanto as da Síria, Asia Menor, Grécia e Roma, e a vinda do Reino de Deus não havia acontecido; o próprio Mateus afirma que Jesus ordenou que seus discipulos pregassem a todas as nações, (cf Mt 28:19). O mais provável, então, é que esse dito atribuido a Jesus já circulasse a muito tempo entre as comunidades cristãs e que sua inclusão nesse contexto se devesse a uma tentativa de explica-lo.


Mesmo assim, Goodman observa que essa abordagem minimalista apresenta duas vulnerabilidades intrinsecas, que limitam nossa segurança quanto aos seus resultados. A primeira é que existem muitas coisas que não sabemos em relação aos cristãos do século I, então podem haver ensinos e feitos relatados nos evangelhos que atendem expectativas deses cristãos desconhecidas por nós, e assim podemos aceitar precipitadamente como dissimilares ou constrangedores elementos da tradição que não eram vistos desta forma pela primeira e segunda geração de cristãos. Pelo extremo oposto, o fato é que se considerarmos como fatos apenas aquilo que diferencia Jesus de seus seguidores, ou os constrange, estamos excluindo justamente os elementos que fizeram com que ele atraisse esses seguidores.


No que se refere ao primeiro problema, se há muitas coisas que não sabemos sobre o cristianismo do 1º século e início do 2°, o número de fontes ainda é significativo (a maior parte do Novo Testamento, e possivelmente o Evangelho de Tomé, o Didaque, as cartas de Barnabé e 1ª Clemente) de forma que temos um volume de informações significativo. E, de qualquer forma, sempre haverá lacunas em nosso conhecimento, por mais que ele aumente, e isso vale não só para o cristianismo primitivo, mas para qualquer outra área do conhecimento. Sempre haverá coisas que desconhecemos. Isso não impede de prosseguir com base no conhecimento presente, e revisar as conclusões a medida que ele aumenta. Quanto ao segundo problema, o princípio da diferença ou constrangimento nos permite isolar alguns fatos prováveis associados a Jesus, mas não deve ser tomado isoladamente como única ferramenta para avaliar os evangelhos. Ele deve ser complementado com outros críterios e metodos. Ainda, como observa Goodman, o efeito geral de aceitar como verdadeiros apenas os elementos da tradição que conflitam com a doutrina cristã posterior é fundamentalmente minimalista. Em outras palavras, são testes severos.


Goodman, utilizando as premissas acima, apresenta seu próprio sumário do Jesus Histórico



"Jesus was a jew from Galilee who during the period when Pontius Pilate was governor of Judea gathered a considerable following of Jews, first in his home region, then in Jerusalem. His disciples seem to have been peasant Galileans, but his activites aroused sufficient interest in Jerusalem to attract opposition from the ruling elite in Jerusalem, who then handed him over to Pilate for execution like a common criminal. After his death, his followers believed that he was phisycally resurrected for a brief period before his ascent to heaven, and that he was the Messiah, a belief that he probably encouraged while he was alive. Specif teachings are more difficult to attribute to Jesus with any certainty. Those doctrines ascribed to him in the Gospels which cannot be paralleled in contemporary Judaism (and there are few) all coincide too closely with later Christian teachings for certainty that they are not a reflection of such later communities; but his unparalleled emphasis on the Kingdom of God (either in the present or the near future) reflect a distinctive intensity in his call to individual to repent " (tradução)Jesus era um judeu da Galiléia que, durante o período em que Pôncio Pilatos era governador da Judéia, reuniu um considerável número de seguidores, primeiro em sua região de origem, em seguida, em Jerusalém. Seus discípulos parecem ter sido camponeses galileus, mas suas atividades despertaram interesse suficiente em Jerusalém, para atrair a oposição da elite governante, que em seguida entregou-o a Pilatos para execução como um criminoso comum. Após sua morte, seus seguidores acreditavam que ele era ressuscitou fisicamente por um breve período antes de sua ascensão ao céu, e que ele era o Messias, uma crença de que ele provavelmente encorajou enquanto estava vivo. Ensinamentos específicos são mais difíceis de atribuir a Jesus com segurança. As doutrinas atribuídas a ele nos Evangelhos, que não encontram paralelo no judaísmo contemporâneo (e são poucas) coincidem todas com os ensinamentos cristãos posteriores, para que possamos afastar totalmente a possibilidade que não são um reflexo de tais comunidades posteriores, no entanto, sua ênfase sem precedentes no Reino de Deus (ou no presente ou no futuro próximo) refletem uma intensidade particular em seu apelo aos indivíduos para se arrependerem "[4]

John P Meier



Jonh P Meier é Professor de Novo Testamento e titular da William K. Warren Foundation Chair do Departamento de Teologia da Universidade de Notre-Dame, e padre católico. Sua obra acadêmica inclui numerosos artigos publicados e a monumental obra "Um Judeu Marginal, Repensando o Jesus Histórico", iniciada em 1991, ainda em curso, já em seu quarto volume.


Meier, ele mesmo um sacerdote católico, inicia seu livro reconhecendo as dificuldades religiosas e ideológicas na pesquisa do Jesus Histórico. Ele explica sua proposta de trabalho utilizando a ilustração de um "Conclave sem Papa". Quatro historiadores - objetivos, honestos e com profundo conhecimento dos movimentos religiosos da Palestina do 1° Século - um católico, outro protestante, outro judeu, e um outro agnóstico, seriam trancados nos porões da Biblioteca da Harvard Divinity School, com objetivo de escrever um documento consensual sobre quem Jesus de Nazaré era e o que pretendia, sendo o principal requisito é que seriam utilizados unicamente fontes e argumentos históricos [5]. Com isso Meier se compromete a uma análise objetiva e crítica, utilizando a metodologia histórica disponivel, sobre as fontes de Jesus de Nazaré, visando reconstruir o "Jesus Histórico". Ao longo dos anos, o trabalho de Meier tem ganho aceitação e respeito de estudiosos de diferentes visões e concepções religiosas e filosoficas; entre os endossos de seus livros temos estudiosos judeus como o Rabino Prof. Burton L Visotsky (Jewish Theological Seminary), Prof. Shaye J D Cohen (Universidade de Harvard), e o Professor Louis Feldman (Yeshiva University); bem como os católicos Joseph Fitzmeier (Catholic University of America) e Daniel J Harrington (Boston College School of Theology), e protestantes como Paul J. Achtemeier (Union Presbiteryan Seminary) [4].


Em seu primeiro livro, Meier apresenta seu método de trabalho, relacionado cinco critérios primários de historicidade: o critério do constrangimento, o critério da discontinuidade ou diferença, o critério da múltipla atestação, o critério da rejeição da execução de Jesus (uma aplicação do critério do constrangimento voltada especificamente a crucificação de Jesus, o mais bem atestado fato de sua vida) e o critério da coerência (os elementos conexos aos fatos já autenticados por outros critérios primários são provavelmente históricos). Meier considera outros quatro critérios secundários: o de traços de aramaico, ambientação no contexto palestino, vividez de narração, e tendências de desenvolvimento da tradição de sinótica. Por conveniência vamos considerar aqui o critério do constangimento (em conexão com o da rejeição a execução), e o da múltipla atestação, ambos em conjunto com o critério da coerência.


Meier escreve:
"Considerando-se a natureza da história antiga em geral e a dos evangelhos em particular, os critérios de historicidade normalmente levarão a julgamentos que são apenas mais ou menos prováveis; raramente se chega a uma certeza. Com efeito, já que na Busca do Jesus Histórico quase tudo é possível, para o realmente provável, examinar as várias probabilidades e decidir qual das alternativas é a mais provável. Via de regra, os critérios não se propõem a mais que isso" [5]


O ponto colocado por Meier é importantíssimo. Os critérios de historicidade não são mágicos. Eles são expressões de principios de análise histórica, com algumas adaptações para a realidade específica do cristianismo primitivo. Na verdade aplicamos raciocício análogo quotidianamente para avaliar, julgar e decidir entre várias alternativas possíveis. Existem critérios para um Banco conceder empréstimos a seus clientes (como renda, histórico de relacionamento, estabilidade e variabilidade da renda, perfil do cliente, nível de endividamento), para investir dinheiro, para contratar funcionários, escolher um(a) namorada (o), apostar no "bolão" do campeonato brasileiro com seus amigos ... Em cada uma dessas atividades utilizamos critérios para avaliar e decidir entre alternativas possíveis, que possuem base objetiva na experiência comum, mas permitem, em alguns casos mais outros menos, elementos subjetivos. Tais critérios não são infalíveis ou totalmente seguros, por exemplo, os bancos fazem empréstimos para clientes que não conseguem pagar suas dívidas, investidores perdem dinheiro em aplicações consideradas seguras, um bom partido pode se transformar em um "traste e cafajeste" ou uma "dona encrenca", e o Mazembe pode ganhar do Campeão da Libertadores da América e o Barcelona perder para o Getafe. No entanto, na grande maioria dos casos, os acertos superam os erros, e a maioria dos clientes pagam as suas dívidas, os investidores recebem algum retorno por sua poupança, e os times grandes e mais fortes ganharão a maior parte dos jogos contra os menores e mais fracos tecnicamente. A lógica dos critérios de historicidade é parecida, os estudiosos podem errar em seus julgamentos, mas vão acertar também, e mais frequentemente. No entanto, em todos esses casos a precisão pode ser refinada e o processo sofisticado com modificação e substituição dos critérios existentes.



Meier descreve o critério do constrangimento:
"O critério do "constrangimento" (segundo Schillebeckx) ou da "contradição" (segundo Meyer) enfoca os atos ou palavras de Jesus que poderiam ter constrangido ou criado dificuldades para a Igreja Primitiva. O ponto essecial desse critério é que a Igreja em seus primórdios dificilmente teria se afastado de sua linha para criar material que pudesse constranger seu criadores e enfraquecer sua posição nas discussões com adversários. Ao contrário o material constrangedor seria suprimido ou atenuado nos estágios posteriores da tradição do evangelho; muitas vezes, a supressão ou a atenuação progressivas podem ser detectados ao longo dos quatro evangelhos"[6 ]


Um dos exemplos clássicos de aplicação desse critério é o batismo de Jesus por João Batista. Meier continua:

"Um ótimo exemplo é o batismo de Jesus de Jesus, supostamente superior e sem pecado, por João Batista, considerado seu inferior, e que proclamava "um batismo de arrependimento para remissão de pecados". Misterioso, lacônico e severo, Marcos relata o evento sem qualquer explicação teológica para o fato de o superior e virtuoso se submeter a batismo destinado a pecadores (Marcos 1:4-11). Mateus introduz um diálogo entre Batista e Jesus antes do batismo, o primeiro claramente confessa-se indigno de batismo, o primeiro claramente confessa-se indigno de batizar seu superior e só cede quando Jesus assim o ordena, para que se cumpra o plano de Salvação de Deus (Mateus 3:13-17, uma passagem marcada pela linguagem típica do evangelista). Lucas encontra uma solução surpreendente para o problema, ao falar da prisão de João batista por Herodes antes de narrar o batismo de Jesus; essa versão sequer menciona quem batizou Jesus (Lucas 3:19-22). João o inflexivel quarto evangelista, envolvida numa luta com os discípulos contemporâneos de Batista, que se recusaram a reconhecer Jesus como Messias, adota o expediente radical de suprimir inteiramente o evento do batismo de Jesus, que simplesmente não existe em seu evangelho. Tomamos conhecimento do testemunho do Pai e da descida do Espírito Santo sobre Jesus, porém não nos é dado saber qunado ocorre a Teofania (João 1:29-34). É bem possível que a Igreja de então, vendo-se "atrapalhada" com um acontecimento considerado cada vez mais embaraçoso, tivesse procurado atenua-lo de varias formas, até que o João evangelista finalmente o suprimiu de seu evenagelho. É bastante improvável que a Igreja tivesse se afastado de seu caminho para criar a "causa" de seu próprio constrangimento [6]


Como já vimos acima, em seu trabalho de historiografia, o Professor Murphy utiliza o batismo de João como exemplo do papel dos fatos nos relatos históricos. Uma vez que os potenciais leitores do evangelho, cristãos ou não, na palestina e imediações sabiam que Jesus tinha sido batizado por João, e que era um fato conhecido que João batizava para remissão de pecados, e para eles Jesus não tinha pecado, os evangelistas não podiam se furtar de mencionar, e tentar explicar, esse fato perturbador. Nesse ponto, a análise do Padre e Professor Meier concorda perfeitamente com a do historiador ateu Michael Grant, Professor das Universidades de Edinburgo, Cartum e Belfast.

"But the forgiveness of Jesus' own sins, when he was baptized by John, has set the theologians of subsequent centuries a conundrum. For how could Jesus have been baptized for the forgiveness of his own sins when, according to the Christology which developed after his death, he was divine and therefore sinless?The embarrassment caused by this dilemma is enough to refute modern denials that the Baptist ever baptized Jesus at all. For, once again, the evangelists would have been only too glad to omit this perplexing event; but they could not.
(tradução) Mas o perdão dos pecados do próprio Jesus, quando ele foi batizado por João, gerou um dilema para os teólogos dos séculos subsequentes. Pois como poderia Jesus ter sido batizado para o perdão dos seus próprios pecados, quando, de acordo com a cristologia que se desenvolveu depois de sua morte, ele era divino e, portanto, sem pecado? O embaraço causado por este dilema é suficiente para refutar tentativas modernas de negar que João Batista tenha batizado Jesus. Mais uma vez, os evangelistas gostariam muito de omitir este evento desconcertante, mas eles não podiam [7 ]

De fato, o Professor Alan Segal,do Barnard College (Universidade de Columbia), resume alguns dos fatos passíveis de autenticação pelo critério do constrangimento:
For all the rigor of the standard it sets, the criterion demonstrates that Jesus existed. Here are some facts in the Gospels that embarrassed the early church: Jesus was baptized by John (a great theological problem). He preached the end of the world (which did not come). He opposed the Temple in some way (and this opposition led directly to his death). He was crucified (a disreputable way to die). The inscription on the cross was "Jesus of Nazareth, King of the Jews" (the church never preached this title for Jesus and shortly lost interest in converting Jews). No one actually saw him arise (though evidently his disciples almost immediately felt that he had). Ironically, it's the embarrassing nature of these facts that assures us of their authenticity. (tradução) "Pelo grande rigor com que foi definido, o critério [do embaraçamento] demonstra que Jesus existiu. Aqui estão alguns fatos nos evangelhos que a igreja foram embaraçosos para a Igreja Primitiva: Jesus foi batizado por João (um grande problema teológico). Ele pregou o fim do mundo (que não veio). Ele se opôs ao Templo de alguma forma (e esta oposição o levou diretamente para a morte). Ele foi crucificado (uma maneira desonrosa de morrer). A inscrição na cruz "Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus" (a Igreja nunca pregou este título para Jesus e logo perdeu o interesse em converter judeus). Ninguém, de fato, viu quando ele ressuscitou (embora, evidentemente, seus discípulos, quase que imediatamente perceberam que ele estava vivo). Ironicamente, é a natureza embaraçosa desses fatos que nos garante que são autenticos .[8]

Outro dos critérios primários para Meier é o da Multipla Atestação ou Confirmação:
"O critério da múltipla confirmação (ou "corte transversal") dirige seu foco sobre as palavras de Jesus que são atestadas em mais de uma fonte literária independente (por exemplo: Marcos, Q, Paulo, João) e/ou em mais de um gênero ou forma literária (por exemplo: parábolas, historias de debates, história de milagres, profecia, aforismo). A força desse critério aumenta quando um determinado motivo ou tema é encontrado tanto em diferentes fontes literárias quanto em diferentes formas literárias. [9]

E dá um exemplo clássico de fato autenticado por esse critério:
''Uma das razões pelas quais os críticos afirmam sem vacilar que Jesus de alguma forma realmente falou no Reino de Deus (ou Reino dos Céus) é que a frase aparece em Marcos, em Q, na tradição especial de Mateus, na tradição especial de Lucas e João, com ecos em Paulo, apesar do "Reino de Deus" não ser a forma preferida de expressão desse último. Ao mesmo tempo a frase é encontrada em diversos gêneros literários (beatitudes, preces, aforismos, história de milagres). Dada a grande quantidade de testemunhos em diferentes fontes e gêneros, vindo principalmente da primeira geração de cristãos, fica bastante díficil alegar que tal material é apenas uma criação da Igreja [9]

Meier cita também o trabalho do Professor Harvey K McArthur, que sumarizou vários elementos da tradição evangélica autenticados por esse critério:
"McArthur (The burden of proof, 118) afirma que os seguintes motivos são testemunhados por todas as quatro correntes de tradição sinótica (ou seja, Marcos, Q, M e L): A proclamação do Reino de Deus por Jesus, a presença de discípulos a seu redor, ligação com João Batista, uso de parábolas, preocupação com os proscritos, em especial coletores de impostos e pecadores, uma ética radical, ênfase sobre o mandamento do amor, o apelo para que os discipulos praticarem o perdão, choque com seus contemporâneos quanto a observância do sábado, palavras sobre o Filho do Homem e o vocábulo hebraico amém para introduzir as palavras de Jesus [ 10]

Jona Lendering

Professor Jona Lendering é um historiador holandês e um dos fundadores da Livius Onderwijs, uma associação de professores voltados para a historia antiga, sediada em Amsterdã, que promove cursos e palestras sobre a Antiguidade Clássica. Lendering se graduou nas Universidades de Leiden e Livre de Amsterdã, e nesta última lecionou Teoria da História e História Antiga por vários anos. Professor Lendering é também o mantenedor do site Livius, que eu recomendo como um dos mais completo do assunto disponíveis na Web, uma excelente fonte sobre a Antiquidade, e uma verdadeira enciclopedia online sobre pessoas, lugares e conceitos das principais civilizações da Antiguidade como greco-romana, persa, judaica, egípcia entre outras.

Em vários artigos, Lendering abordou o fenômeno do messianismo entre os judeus da Antiguidade, bem como os vários pretendentes messiânicos ao longo do período. Lendering analisa então Jesus de Nazaré, bem como outros pretendentes messiânicos do período como Judas Galileu, Atronges, Simão de Peréia, Teudas, e o Profeta Egípcio.

Ao abordar Jesus de Nazaré, e as fontes evangélicas, Lendering observa:
"To solve this problem, we must find out which elements in the gospels are early Christian elaborations and which elements are historically accurate. The second problem is therefore how we separate the authentic from the inauthentic. As we will see below, there are very strong indications that Jesus was considered the Messiah before he died. The third and most important question is in what sense he was called the Messiah - as a military leader? as a Moses-like teacher?
Scholars usually solve the second question by invoking 'criteria of authenticity', such as embarrassment (some things are too embarrassing for Christians to be invented) and multiple attestation (when independent sources tell the same, it is likely to be authentic). Using criteria like these, we may conclude that many stories about Jesus are late fabrications."
(tradução) Para resolver este problema, temos de descobrir quais os elementos nos evangelhos são elaborações dos primeiros cristãos e quais elementos são historicamente exatos. O segundo problema é, portanto, como nós separamos o autêntico do inautêntico. Como veremos abaixo, há indícios muito fortes de que Jesus era considerado o Messias antes de morrer. A terceira questão e mais importante é em que sentido ele foi chamado o Messias - como um líder militar? Um mestre como Moisés ?
Estudiosos costumam resolver a segunda questão, invocando "critérios de autenticidade, tais como constrangimento (algumas coisas são muito embaraçosas para os cristãos para terem sido inventadas) e atestação múltipla (quando fontes independentes dizem o mesmo, é provável que seja autêntica). Usando critérios como estes, podemos concluir que muitas histórias sobre Jesus são fabricações tardias.

Lendering apresenta então sua análise em relação as tradições autênticas contidas nos evangelhos. Ele passa então a utilizar os critérios de historicidade. (É interessante, como já observamos em outro post, que Lendering utiliza metodologia similar para analisar as fontes sobre Apolonio de Tiana).

The following stories from the gospels, however, can stand the test of literary criticism, and prove that Jesus was seen as the Messiah.
Pontius Pilate condemned Jesus to the cross as king of the Jews (multiple attestation; embarrassment). The word 'king', which may be a translation of the messianic title Nasi, can be used as a synonym for 'Messiah', as we can observe in the quote from Matthew above.
Too many messianic titles are applied to Jesus to be incidental. In several contexts, he is called son of David, son of man, and king. Jesus was -in a way- anointed at Bethany (multiple attestation: Mark 14.3-9 and John 12.1-9). Elements of Jesus behavior are in line with what was expected from the Messiah: he explained the Law of Moses (multiple attestation) and was able to cast out demons (multiple attestation, in one case embarrassment). Jesus wanted to restore Israel - the Messiah's core activity.
He did not want his disciples to go to the pagans, but urged them to look 'for the lost sheep of the house of Israel' (Matthew 10.5 and 18.11-14). This is in marked contrast with the first Christians' missionary activity among the pagans and cannot be invented.
Jesus regarded his own ministry as the inauguration of the 'kingdom of God' (several stories, all attested in several sources; to a certain extent, these stories are embarrassing, because God did not intervene in human history).
Jesus wanted to purify the Temple (multiple attestation; embarrassment), which the Messiah was expected to do. The two most important stories are Jesus' triumphal entry in Jerusalem (Mark 11.4-11; John 12.12-16) and his attempt to cleanse the sanctuary (Mark 11.15-18 and John 2.13-22). The fact that John places this story as far away from the crucifixion as possible, indicates embarrassment.

(tradução) As seguintes histórias dos evangelhos, entretanto, resistem aos teste da crítica textual, e demonstram que Jesus era visto como o Messias.
Pôncio Pilatos condenou Jesus à cruz como rei dos judeus (múltipla atestação; constrangimento). Rei é uma tradução possível do título messiânico Nasi, que por sua vez pode ser usado como sinônimo de "Messias", como podemos observar na citação de Mateus acima.

Muitos títulos messiânicos são aplicadas a Jesus para serem mera coincidência. Em vários contextos, ele é chamado de filho de David, filho do homem, e rei. Jesus foi ungido em um caminho de Betânia (múltiplo atestado: Mark 14,3-9 e 12,1-9 John). Elementos do comportamento de Jesus estão em linha com o que se esperava o Messias: ele explicou a Lei de Moisés (atestação múltipla) e foi capaz de expulsar os demônios (atestação múltipla, e, em um dos casos, constrangimento). Jesus queria restaurar Israel - a atividade principal do Messias.
Ele não queria que seus discípulos para ir para os pagãos, mas exortou-os a olhar "para as ovelhas perdidas da casa de Israel" (Mateus 10,5 e 18,11-14). Isto está em contraste marcado com a atividade os primeiros cristãos "missionário entre os pagãos e não pode ser inventado.
Jesus considerava o seu próprio ministério como a inauguração do "reino de Deus" (várias histórias, todas atestadas em várias fontes; até certo ponto, essas histórias são constrangedoras, pois Deus não interveio na história humana).
Jesus queria purificar o Templo (múltipla atestação; constrangimento), que o Messias era esperado para fazer. As duas histórias mais importantes são a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém (Mc 11,4-11; João 12,12-16) e sua tentativa de purificar o santuário (Marcos 11,15-18 e João 2,13-22). O fato de que João coloca essa história o mais longe possível a crucificação, indica constrangimento.



Como o leitor pode observar, Lendering opta, em geral, pelos elementos autenticados por ambos os critérios. De fato, comparando os elementos da tradição autenticados pelo critério do constrangimento, com os múltiplamente atestados, temos que Jesus estava associado a João Batista no início de seu ministério, que após a morte desse, passou a pregar a vinda iminente do Reino de Deus, que realizou exorcismo e recebeu títulos associados ao Messias, que em uma visita a Jerusalém, se opôs a (condução dos negócios no) Templo e as suas autoridades, e em seguida, foi preso e crucificado por Poncio Pilatos, que considerou a associação ao Messias como alta traição, ou tentativa de ser proclamado Rei dos Judeus. É um esboço de biografia, da associação de vários elementos plausíveis e, que, em conjunto formam uma narrativa coerente e verossimilar.



Um exemplo de como os criterios podem interagir de forma produtiva em vários casos. Por exemplo, em Marcos temos:



"Nós o ouvimos dizer: Eu destruirei este santuário, construído por mãos de homens, e em três dias edificarei outro, não feito por mãos de homens (Mc 14:58)



Esse dito é lembrado pelos acusadores de Jesus em seu julgamento, que teriam deposto falsamente, Mateus 26:61 relata dito semelhante, com duas testemunhas concordando. Lucas, que também depende da narrativa da paixão de Marcos, não menciona essa acusação, mas ela reapareçe em Atos, contra Estevão, "Jesus, o nazareno, há de destruir este lugar [o Templo] e mudar os costumes que Moisés nos transmitiu" (Atos 6:14). Os evangelistas parecem incomodados com o dito, embora registrem uma profecia de Jesus de destruição do Templo



E, saindo ele do templo, disse-lhe um dos seus discípulos: Mestre, olha que pedras, e que edifícios! E, respondendo Jesus, disse-lhe: Vês estes grandes edifícios? Não ficará pedra sobre pedra que não seja derrubada. (Marcos 13:1-2).



Marcos (e Mateus) relatam a predição de Jesus como profecia (algo que Jeremias também fez, cf Jr 7), e não como uma ameaça. Uma acusação de que Jesus teria ameaçado destruir o Templo, o faria parecer como um revolucionário perigoso, aos olhos de judeus e romanos. O Templo de Jerusalém era um dos maiores santuários do Império.



Nesse ponto da narrativa, pela teoria das duas fontes, Mateus e Lucas são dependentes de Marcos. No entanto, em outra corrente de tradição, o Evangelho de João, temos Jesus dizendo:



"Jesus respondeu, e disse-lhes: Derribai este templo, e em três dias o levantarei" (João 2:19)



João observa prontamente que o "Templo" a qual Jesus se refere é seu próprio corpo (v. 21), e que seus discípulos entenderam isso após a ressureição (v. 22). Mas os oponentes de Jesus não tiveram esse esclarecimento, e um dito como esse poderia ser facilmente utilizado contra Jesus. No entanto, o evangelho de Tomé também registra uma versão desse dito "Eu destruirei esta casa, e ninguém poderá reconstrui-la" (dito 71).



Ou seja, o dito é multiplamente atestado (Marcos e João, e possivelmente Tomé), os evangelistas demonstram certo constrangimento com o dito, Marcos afirma que os adversários inventaram/distorceram o que Jesus havia dito, João espiritualiza o seu significado, e Lucas simplesmente omite essa acusação do julgamento de Jesus.



Professor David Flusser, da Universidade Hebraica, observa que os 3 dias poderiam não estar na forma original do dito, mas sim relacionados a ressureição de Jesus [12]. Em todo caso, Flusser chama atenção para uma profecia que era interpretada como relacionada a vinda do Messias:



"Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Eis aqui o homem cujo nome é RENOVO; ele brotará do seu lugar, e edificará o templo do SENHOR." (Zc 6:12).



Também os manuscritos do Mar Morto, no rolo do Templo, descrevem uma esperança de reconstrução do Templo na era messiânica, que não seria feito por mãos humanas, mas pelo próprio Deus:



"E Eu consagrarei meu [T]emplo por minha glória, (o Templo) o qual estabelecerei minha glória, até o dia de (uma nova) criação, quando criarei Meu Templo e o estabelecerei para Mim, para todo o sempre, de acordo com o pacto que fiz com Jacó em Betel (Rolo do Templo 29:9-10)"



Em suma, em alguns círculos, se esperava que a vinda do Messias implica-se na substituição do Templo feito pelas mãos humanas, por outro construido e consagrado pelo próprio Deus. No contexto judaico, um afirmação desse porte implicava no reconhecimento da chegada iminente do Reino de Deus e de seu ungido, justificando a reação de parte da aristocracia judaica, uma vez que especulações como essa facilmente poderiam se converter em rebelião contra a ordem estabelecida e o domínio romano. Caífas teria todos os motivos para ficar alarmado, e não admira a pergunta seguinte "És tu o Cristo?". E, se uma das concepções, e provavelmente, a mais popular, era que o Cristo restabeleceria o Reino de Davi, a acusação de "majestas" fica ainda mais pálpavel, explicando porque alguns dos principais sacerdotes (cujo o poder dependia de sua associação com Roma) tenham decidido se livrar de Jesus. (Devemos observar que o dito faz total sentido no contexto palestino antes da queda do Templo, mas totalmente deslocado entre cristãos depois de 70 DC; para compreende-lo eles espiritualizam seu sentido, como João faz).



"As palavras e as ações de Jesus em Jerusalém precipitaram a catástrofe. O sacerdócio saduceu, desprezado por todos, encontrou seu único apoio no Templo. Este profeta da Galiléia, diante da multidão reunida para a festa, havia não só previsto a destruição do santuário, mas o término da casta sacerdotal. Ademais, explorando os sentimentos amargos sobre o comércio que ali tinha lugar, desferiu um golpe doloroso contra as autoridades. As mesmas, trinta anos mais tarde, entregarão aos romanos Josué, filho de Ananias, por também profetizar a ruína do Templo. Os romanos protegiam com diligência todos os santuários religiosos do Império. Assumiam igualmente a tarefa de proteger o sumo sacerdote de agitadores inoportunos." [12]

André Chevitarese



André Leonardo Chevitarese é Professor de História Antiga, do Departamento de História, do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É um principais expontes da pesquisa do cristianismo primitvo no Brasil, coordenando o Grupo de Pesquisas do Jesus Histórico e sua Recepção, a Revista Jesus Histórico, e editando várias publicações importantes na área, como "Judaísmo, cristianismo e helenismo: ensaios acerca das interações culturais no Mediterrâneo Antigo", "Jesus de Nazaré, uma Outra História" e "Cristianismos: Questões e Debates Metodológicos", que reunem contribuições de vários pesquisadores nacionais sobre o cristianismo primitivo, judaísmo do segundo templo e história romana.

Em seu artigo "Da traição é morte de Jesus de Nazaré: Em torno de Judas Iscariotes", publicado no livro "Jesus de Nazaré, uma Outra História", Chevitarese analisa as narrativas cristãs da traição de Judas Iscariotes, utilizando os critérios do constrangimento e múltipla atestação, com vistas a identificar um eventual núcleo histórico:

"O objetivo deste capítulo é discutir uma importante questão em torno da crucificação e da morte de Jesus de Nazaré; a traição de Judas pode ser assumida como fato histórico? [13]

Chevitarese considera então as fontes, que se resumem unicamente as narrativas cristãs. Pode o historiador utiliza-las? E se a resposta for positiva, como?

"Dependemos exclusivamente do material cristão para responder a esta questão (...) Na sua monumental obra, que ainda esta em curso, sobre o Jesus histórico, John Meier (2003:155) elencou uma série de procedimentos metodológicos, entre os quais nos interessam aqui dois deles, os critérios do constrangimento e da múltipla confirmação

Podemos analisar, partindo desses dois critérios metodológicos, o material que foi apresentado na primeira parte desse capítulo, o qual pode ser sistematizado em três pontos: [14]

Os três pontos listados por Chevitarese são: "Jesus escolheu pessoalmente o grupo dos doze apóstolos", "o agente ativo, responsável pelo ato de traição de Jesus", "A morte de Judas".[14]
Chevitarese destaca os motivos pelo qual Judas foi incluido na tradição.
"Admitindo que a traição de Judas - por estar diretamente conectada com os desdobramentos que levaram a crucificação e a morte de Jesus - fosse um fato amplamente conhecido entre cristãos e não aderentes do cristianismo (como por exemplo: seguidores de João, cognominado de Batista, e demais judeus) era de se esperar que ele fosse utilizado pelo último grupo como uma importante "arma" discursiva nos ataques contra os primeiros [14]

Como já destacamos acima, o pesquisador, ao se deparar com um elemento supostamente constrangedor, deve sempre considerar que ele foi incluido por um motivo. Uma possibilidade é o que consideramos embaraçoso hoje não o fosse para os cristãos primitivos, ou para o grupo específico para qual o texto foi direcionado. A outra, é que determinados eventos da Vida de Jesus, como o batismo por João Batista, a crucificação sob acusação de alta traição, as predições sobre a vinda da Reino de Deus que, aparentemente, não haviam se concretizado, fossem de conhecimento de grupos rivais, potenciais conversos e, claro, dos já convertidos, e estivessem sendo usados como arma de debate, e de invalidação das reinvindicações cristãs. Logo, esses detalhes precisam, de alguma forma, ser explicados, uma vez que são de conhecimento público, não podendo ser ignorados.

Corroborando com este argumento, convém observar que Celso (Orígenes, Contra Celso 2:11) no século II, lançar mão deste fato para criticar a origem divina de Jesus. Para um aprofundamento desses usos pelos grupos rivais religiosos, ver Chevitarese, 2004 [15]

Ou seja, o ponto do professor Chevitarese é que, sob um certo aspecto, os evangelhos são uma obra de "propaganda". Eles reinvidicam não só a apresentação de um testemunho verdadeiro, mas são declaradamente compostos com o objetivo de demonstrar que Jesus é o Messias, e o Filho de Deus. Nesse intuito, primeiramente eles apresentam elementos positivos, ensinos e feitos de Jesus que são comparados ou moldados de forma a serem demonstrados como prova de que as Escrituras se cumpriram. No entanto, os cristãos desde cedo enfrentaram "contra-propaganda" negativa, e seus escritores se preparam para responder isso. Então, adversários do cristianismo poderiam certamente dizer, "Como pode Jesus, sendo o Messias, e o Filho de Deus, escolher para seu circulo mais íntimo, entre aqueles que conviviam mais próximo, o seu próprio traidor?". Uma analogia seria com seguidores de um lider político com problemas com um antigo auxiliar, que tem rebater a utilização disso por seus adversários.

"O fato do tema fazer parte das narrativas evangélicas pode ser explicado, menos por uma tradição histórica que valesse a pena ser recuperada pelas comunidades cristãs, e mais por uma necessidade de contra-argumentar os dircusrsos produzidos pelos não-aderentes ao cristianismo, principalmente, mas não exclusivamente, de alguns setores do judaísmo (...). [16]
"Ao reconhecer como histórico o tema da traição de Judas, não estamos considerando aqui todos os detalhes contidos nesta narrativa, estamos também admitindo como histórica a tradição relacionada aos doze apóstolos. Muito mais do que ser pensada como uma 'invenção" posterior das comunidades cristãs, a sua existência tem bases para ser associada a Jesus. Os dois critérios metodológicos apontados acima - do constrangimento e múltipla confirmãção - se constituem em elementos chaves para tal admissão. É justamente ai que reside o foco central da críticafeita pelos grupos não aderentes ao cristianismo: Como pode ser admitido que Jesus de Nazaré seja o Cristo, se não foi capaz de saber que um dos seus apóstolos o trairia? Mas, se ele convenceu tantos judeus no seu próprio tempo histórico, acerca de seu caminho, como não foi capaz de convencer aquele que estava todos os dias com ele?


Em suma, há fortes elementos no material cristão para sugerir como real e histórica a narrativa de traição de Jesus por Judas.[16]

Referências Bibliográficas
[1] Martin Goodman e Jane Sherwood (2002), The Roman world, 44 BC-AD 180, fls. 317-318
[2] Murray G Murphy (2009), Truth and History, fl. 87-88
[3] Martin Goodman (2007), Rome and Jerusalem: The Clash of Ancient Civilizations, fl. 6
[4] Martin Goodman e Jane Sherwood (2002), The Roman world, 44 BC-AD 180, fls. 318
[5] John P Meier (1991) Um Judeu Marginal: Repensando o Jesus Histórico, Vol. 1, fl. 1
[6] John P Meier (1991) Um Judeu Marginal: Repensando o Jesus Histórico, Vol. 1, fl. 170-171
[7] Michael Grant (1979), An Historian's Review of the Gospels, fl. 49
[8] Alan F. Seagal (2005), Jesus and the Gospels-What Really Happened - [1]: Believe only the Embarrassing, Slate, 21.12.2005 http://www.slate.com/id/2132974/entry/2132989/, acessado em 06.01.2012
[9] John P Meier (1991), Um Judeu Marginal .... Volume 1 , fl. 177
[10] John P Meier (1991), Um Judeu Marginal ...., Volume 1 , fl. 191, nota 31
[11] Jona Lendering, Messianic claimants (6) Jesus of Nazareth (30 CE), em http://www.livius.org/men-mh/messiah/messianic_claimants05.html, acessado em 09.01.2012 [12] David Flusser (1997), Jesus, fl. 111-112
[13] Ancré L Chevitarese (2006) "Da traição é morte de Jesus de Nazaré: Em torno de Judas Iscariotes" In Andre L Chevitarese, Gabrieli Corneli e Monica Selvatici (2006), Jesus de Nazaré, Uma Outra História, fl. 121
[14] Chevitarese, Corneli e Selvatici (2006), fl. 125-127
[15] Chevitarese, Corneli e Selvatici (2006) fl 127, nota 9
[16] Chevitarese, Corneli e Selvatici (2006) fl. 129
Continuado nossa série

a) David Flusser


David Flusser (1917-2000) foi Professor de Judaismo do Segundo Templo e Cristianismo Antigo do Departamento de Religiões Comparadas da Universidade Hebraica de Jerusalém. Flusser era membro da Academia Israelense de Ciências e Humanidades, e recebeu o Israel Prize em 1980, por sua contribuição ao estudo da História Judaica. Flusser nasceu em Viena (Austria), mas foi criado na atual República Tcheca. Com a crescente ameaça do nazismo, ele emigrou para Israel em 1939, onde continuou sua carreira acadêmica. Seu interesse pelo estudo do cristianismo e da figura de Jesus surgiu com sua amizade com cristãos menonitas na República Tcheca.

Um de seus principais livros foi o Livro Jesus (1965), escrito em alemão, ampliado e revisado em 1998, em uma nova edição, agora em Inglês, "Jesus, The Sage from Galilee". Flusser, que era adepto do judaismo ortodoxo, dedicou seu livro a seus "amigos menonitas". Em sua prefácio da versão revisada, Flusser faz considerações em relação a seu método de trabalho:

"A edição alemã de meu livro foi muito bem recebida na Europa, encontrando somente tênue oposição por parte de alguns círculos cristãos extremamente conservadores. Seus pares americanos devem compreender que, em virtude da minha origem judaica, não posso ser mais cristão que a maioria dos crentes em Jesus. Minha interpretação dos evangelhos, porém é mais conservadora que a de muitos estudiosos do Novo Testamento na atualiadade. Atribuo minha abordagem conservadora a minha formação, que não foi de um teólogo, seja ele judeu ou cristão mais de um classicista. Meu método fundamenta-se nas disciplinas de estudos clássicos, cujo interesse são os textos gregos e latinos. Estou confiante que os três primeiros evangelhos refletem, fidedignamente, o Jesus Histórico. Além disso não gosto da dicotomia feita entre o "Jesus Histórico" e o "Cristo Querigmático". [1]

Talvez alguns dos leitores, e certamente muitos estudiosos, tenham ficado chocados com a afirmação de Flusser, de que os evangelhos sinóticos "refletem fidedignamente o Jesus Histórico". No entanto, essa afirmação não deve ser considerada fora de contexto. Flusser qualifica cuidadosamente seu posicionamento como veremos adiante. (E, além disso, o ponto é que os evangelhos sinóticos foram elaborados a partir de fontes mais antigas compostas pelos discípulos de Jesus e o Igreja de Jerusalém). De qualquer forma, ele ressalta que sua abordagem é, comparativamente, mais conservadora que de muitos estudiosos do novo testamento, justamente por sua formação e vivência como classicista e historiador da antiguidade grego-romana. Ele acrescenta mais detalhes de sua abordagem e método:

"Não estou sugerindo , em absoluto, que a leitura dos textos deva ser isenta de críticas. Isto deve ficar claro apóa a leitura do primeiro capítulo, onde analiso sucintamente meu método crítico.
"Meu enfoque conservador dos evangelhos origina-se também da minha identidade judaica. Como judeu, estudei, tanto quanto possível, as várias tendências dentro do judaismo antigo. Esta direção é deveras útil para a interpretação dos evangelhos, particularmente das palavras e dos feitos de Jesus"[1]

Ou seja, Flusser estabelece dois níveis de comparação para análise dos textos evangélicos. O primeiro é o mundo greco-romano. O segundo é o judaismo do segundo templo, seus escritos e seus grupos variados. Assim, os evangelhos são textos como vários outros textos elaborados no contexto local, do judaismo antigo, quanto global, da Antiguidade romana. Os ditos e feitos de Jesus são então comparados com os de vários outros carismáticos, pregadores e profetas da Antiguidade. Flusser continua, abordando a questão do sabemos e podemos saber sobre Jesus:

"Realmente, possuimos registros mais completos sobre as vidas de imperadores seus contemporâneos e de alguns poetas romanos. Entretanto, a exceção do historiador Flávio Josefo, e possivelmente de São Paulo, Jesus é o judeu, de épocas posteriores ao Antigo Testamento, sobre quem mais sabemos.
Toda biografia tem seus próprios problemas peculiares. Dificilmente esperaríamos encontrar informação de Jesus em documentos não cristãos. Ele compartilha deste destino com Moisés, Buda e Maomé, que, do mesmo modo, tampouco recebem menção alguma de relatos de não crentes (...)" [2]

Flusser observa que mesmo quando fontes externas e contemporâneas existem, as informações mais relevantes sobre um líder carísmático serão obtidas nos seus próprios ensinos e nos documentos produzidos por seus seguidores ("lidos de forma crítica, é claro")[2]. Flusser introduz dois exemplos modernos [2], o primeiro é o do fundador da Igreja de Jesus Cristo dos Ultimos Dias (Mormóns), Joseph Smith, cujas fontes biográficas são, basicamente, seus próprios escritos e documentos elaborados por seus seguidores. O outro é o do líder religioso africano Simon Kimbangu, a qual são creditados milagres de cura realizados entre março e setembro de 1921 no antigo Congo Belga. Kimbangu atraiu multidões com suas pregações e foi considerado suspeito de sedição pelas autoridades coloniais, que o aprisionaram em Leopoldville (Kinshasa) a mais de 1000 km de sua vila. Kimbamgu morreu lá em 1950. Entretanto, sua mensagem inspirou a Igreja Kimbangista. Flusser observa que devido a brevidade de seu ministério, e por ele nada ter escrito, sabemos muito pouco sobre o que Kimbangu pensava sobre si mesmo, e nesse ponto especifífico, "o testemunho das autoridades belgas no Congo, é no seu caso, de tanta valia quanto os arquivos do governador Pilatos, ou os registros de chancelaria do sumo sacerdote no caso de Jesus"[2].

O Professor Flusser expressa seu ponto de vista em relação aos evangelhos como fontes históricas, e qualifica sua observação anterior de que os evangelhos sinóticos refletem fidedignamente o Jesus Histórico:

" (...) Os três primeiros Evangelhos apresentam um retrato razoavelmente fiel de Jesus como um judeu típico de sua época, e também preservam consistentemente seu mode de falar do Salvador em Terceira Pessoa. Uma leitura imparcial dos evangelhos sinóticos resulta num quadro que é mais característico de um fazedor de milagres e pregador judeu do que de redentor da humanidade (...) O Jesus retratado nos Evangelhos Sinóticos é, pois, o Jesus histórico, não o "Cristo Querigmático.
Para a cristandade judaica - mesmo em séculos posteriores, quando a Igreja em geral considerava sua visão herética - o papel de Jesus como fazedor de milagres , mestre, profeta, e messias era mais importante que o Senhor ressurecto do querigma. Já nos primórdios, esta ênfase começou a mudar entre as congregações cristãs helênicas fundadas por judeus gregos e formadas predominante por não-judeus. Nelas, a redenção através do Cristo crucificado e ressurecto tornou-se o cerne da pregação. Não é por acaso que os escritos oriundos destas comunidades - por exemplo, as cartas de São Paulo - mal mencionam a vida e pregação de Jesus. Talvez seja um golpe de sorte, até onde vai nosso conhecimento de Jesus, que os Evangelhos Sinóticos tenham sido escritos relativamente tarde - ao que parece por volta de 70 DC - quando a criatividade dinâmica dentro das congregaçõe paulinas declinara. Na maioria dos casos, este estrato posterior da tradição sinótica encontrou sua primeira expressão na redação, no estilo grego, dos evangelistas separados. Se exarminarmos este material com um espírito sem preconceitos, aprenderemos de seu conteúdo e forma de expressão que ele não esta relacionado com declarações querigmáticas mas com platitudes cristãs. [2]

Ou seja, Flusser observa que a imagem geral, o contorno, da figura de Jesus nos sinóticos é de um realizador de milagres e pregador, que esta em dissonância, em discontinuidade, com o Cristo das epístolas e da pregação cristã posterior. Podemos acrescentar, na linha de nosso post anterior, as observações do Professor GEM de Ste Croix de que o mundo retratado nos evangelhos sinóticos, das pequenas vilas e lugarejos rurais da Galiléia, esta em discontinuidade com os grandes centros helenísticos em que os primeiros cristãos viviam. Também vale a pena recordar as observações do Professor Fergus Millar, de que os evangelhos refletem um mundo que se foi com a primeira guerra judaica.

Flusser pergunta, retoricamente "Seria verossínil sugerir que, quando os Evangelhos Sinóticos são estudados cientificamente, apresentam um retrato fidedigno do Jesus histórico, apesar da pregação da fé querigmática por parte da Igreja?" [2]

Estudiosos como Flusser afirmam que os sinópticos refletem o Jesus Histórico, o sentido é que eles mostram, em muitos de seus aspectos, uma figura que é plausível e verossimilar com o contexto histórico em que viveu (uma vez que, como diz Flusser, "o papel de Jesus como fazedor de milagres , mestre, profeta, e messias era mais importante que o Senhor ressurecto do querigma"). A teoria mais aceita das fontes dos evangelhos sinóticos, é a das duas fontes, Marcos e Q (devemos registrar que Flusser é cético da Teoria das Duas Fontes, preferindo a prioridade lucana). Postula-se que Q seja a fonte comum de material encontrado em Mateus e Lucas, e não presente em Marcos. Q é, basicamente, uma fonte de ditos, reunindo material como ensinos (parte do Sermão do Monte), parábolas, e pregações apocalipticas. É plausível que parte significativa desses ditos fizessem parte da pregação de um galileu do século I, baseado no que encontramos em outras fontes do período como os Manuscritos do Mar Morto. Quanto a Marcos, a grande maioria dos historiadores vai rejeitar milagres de domínio sobre a natureza como Jesus andando sobre o Mar ou acalmando a tempestade, por exemplo. No entanto, o milagre mais comumente encontrado nos evangelhos sinóticos é o exorcismo, pratica atestada na Antiguidade por toda a parte, e na Judeía a torto e a direito. Josefo narra um exorcismo que ele, e o futuro Imperador Vespasiano testemunharam:

"Vi, por exemplo, como um dos nossos, de nome Eliazar, libertou, na presença de seus filhos, de tribunos, e de outros soldados, os possuídos por maus espíritos. A cura se deu da seguinte maneira: ele pôs sob o nariz do possuído um anel que continha uma das raízes prescritas por Salomão, fez o doente cheira-la e então arrancou o mau espírito através do nariz. O possesso veio abaixo imediatamente, e Eliezer adjurou o Espírito a nunca mais retornar ao homem, enquanto proferia o nome de Salomão e os encantamentos compostos por ele" (Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 8:46-47).

E, obviamente, observadores e adversários do cristianismo não usaram como linha principal de argumentação a negação dos milagres de Jesus. O que vemos, repetidamente, são os oponentes atribuindo os supostos milagres a utilização de magia ou feitiçaria. Assim, como já vimos, a parte considerada autêntica do Testemunho Flaviano, fala dos "paradoxa" (feitos controversos ou surpreendentes) de Jesus. Em meados do século II, Justino e Tertuliano defendem Jesus da acusação de ser um mágico (em Dialogo com Trifo, 69:5 e Apologetica, 21:17, respectivamente). Celso, o ferrenho adversário do cristianismo, comparando os feitos de Jesus a atos comuns de feitiçaria "realizados pelos mágicos egípcios que no meio das praças e feiras, por alguns trocados, demonstram conhecimento nas mais venerandas artes, expulsam demônios, curam enfermidades, e invocam a almas de heróis", e Celso pergunta, "Visto, então, que essas pessoas podem realizar tais feitos, teremos que concluir que são "filhos de Deus" ou que procedem de homens iníquos sob a influência de espiritos malignos?(Orígenes, Contra Celso 1:68)

Seja qual forem nossas convicções sobre isso, o fato é que em quase todas as culturas as pessoas acreditam que demônios podem possui-las, que causam enfermidades e que certas pessoas são capazes de expulsar espíritos malignos. Muitas vezes essas manifestações foram atribuidas a quadros psiquiátricos, como o transtorno dissociativo de identidade, ou doenças como a epilepsia. Existe também um grande contingente de pessoas com doenças causadas ou com sintomas agravados por vetores psicosomáticos, bem como transtornos de conversão (que em casos extremos podem levar a parestesia, paralisia ou cegueira), e vários estudos médicos apontem que placebos muitas vezes são eficazes [3]. Alguém pode sair de casa e ir a uma Igreja Universal, ou a um Centro Espírita, ou Terreiros de Umbanda, em que encontrará centenas de pessoas afirmando ter recebido ou sido liberta de Espíritos, sendo curada e falando com seus entes queridos mortos (como as que afirmam ter sido curadas pelo médium que "recebe" o Dr. Fritz).

Então é altamente plausível que Jesus fosse um exorcista. O que não prova, isoladamente, que Jesus exorcisasse pessoas, mas a verossimilhança desses elementos no contexto, a intensidade com que essa característica é ressaltada na tradição cristã, e o fato de que os oponentes ao invés de negar esses feitos, repetidamente os atribuem a ação de poderes demoníacos, indicam fortemente que a imagem geral de Jesus como curandeiro e exorcista é histórica, ainda que a historicidade dos eventos individuais seja bem mais díficil de avaliar.

b) Geza Vermes


Em muitos aspectos a visão de Flusser se aproxima de outro peso pesado dos estudos do cristianismo primitivo, com origem e historia de vida semelhante, o Professor Geza Vermes. Vermes também nasceu no leste Europeu, em Mako, Hungria, em 1924, em família de ascendência judaica. Aos sete anos, ele e seus pais foram batizados como catolicos-romanos. Vermes viveu a atmosfera tensa dos anos anteriores a II Guerra Mundial, e passou a sofrer os horrores do nazismo quando, em março 1944, as tropas alemãs ocuparam a Hungria. Seus pais e a maior parte de seus familiares foram presos e assassinados. Vermes, que estava cursando o seminário, conseguiu escapar refugiando-se em várias cidades [4].

Com o fim da Guerra, ele chegou a ser ordenado padre, e iniciou sua carreira acadêmica, imigrando para Louvain, na Bélgica. Em 1953, conclui seu doutorado, elaborando uma das primeiras dissertações sobre os recém descobertos Manuscritos do Mar Morto. Em 1957, Vermes abandonou o sacerdócio e a Igreja Católica, e voltou ao seio do Judaismo, se afiliando em 1970 a Jewish Liberal Synagogue, de Londres, para onde havia se mudado, ligada ao Judaismo Reformista. Na Inglaterra, ele foi Professor da Universidade de Newcastle upon Tyne, e a partir de 1965, do Wolfson College e da Faculty of Oriental Studies, da Universidade de Oxford, onde se tornou Professor Emérito de Estudos Judaícos, sendo também escolhido como membro da British Academy, por sua contribuição ao estudo dos manuscritos do mar morto, e da historia do cristianismo primitivo, e do judaismo do segundo templo [4].

Em seu livro "As Várias Faces de Jesus", o Professor Vermes analisa historicamente, e em separado, a forma como Jesus é apresentado no evangelho e nas cartas de João, nos esritos paulinos, em Atos dos Apóstolos e nos Evangelhos Sinóticos. A partir da análise desses quatro perfis principais, a luz do contexto histórico do judaísmo do sec I DC, ele elabora um quinto, o do Jesus histórico, presente nos estagios mais primitivos da tradição. Ele observa que:

"(...) o retrato de Jesus nos Evangelhos Sinópticos toma a forma de um esboço biográfico. Marcos, Mateus e Lucas não eram, admitidamente, historiadores profissionais em busca de objetividade crítica; não obstante atuaram como narradores da vida, das idéias, das atividades, do magistério e da morte de um homem santo de carne e sangue que viveu poucas décadas antes deles decidirem registrar as tradições construidas em volta dele. Finalmente e, sucintamente, os evangelistas testemunharam sua crença na ressureição de Jesus" [5].

"os traços mais notáveis do retrato de Jesus nos Sinópticos, o de um curandeiro e exorcista carismático, mestre e campeão do Reino de Deus, são essencialmente dependentes da figura histórica que outros escritores do Novo Testamento progressivamente mascararam." [5]

E acrescenta com base na análise das narrativas, títulos e ensinamentos de Jesus nas fontes em comparação ao contexto cultural, religiosos e político da Palestina do século I.

"Nossa abordagem tripartida - com base em histórias, títulos e ensinamentos - do Jesus de Marcos, Mateus e Lucas produziu um quadro coerente, o retrato de Jesus pretendido pelos Sinópticos. Ele espelha de algum modo, sem ser idêntico a ele, o Jesus da História. Infelizmente, devido a natureza do material do Evangelho, a precisão histórica estrita irá fatalmente esquivar-se, mas é possivel fazer um esforço denodado - que será tentado presentemente - para autenticar essa imagem o máximo possível, integrando-a ao contexto cultural e religioso do judaísmo palestino contemporâneo. Para começarmos com uma observação negativa, mas fundamentalmente importante, o Jesus dos sinópticos, como aquele dos Atós dos Apóstolos, não é uma figura sobrenatural, mas alguém firmemente plantado em nosso universo de homens. Sua apoteose não foi súbita, foi alcançada passo a passo. Começou com o nascimento milagroso registrado em Mateus e Lucas, e continuou, através de Paulo e João, pelos patriarcas e concílios da Igreja gentílica. A deificação formal, embora avultando-se no horizonte a partir do século II, não foi concluida até o Concílio de Nicéia em 325 DC. " (...) [6]

Em seguida, Vermes observa que na visão de judeus palestinos do século I, nenhum ser humano, mesmo alguém celebrado como "Filho de Deus", poderia, concebivelmente, partilhar a natureza do Todo-Poderoso. Ele especifica então, suas conclusões em relação a crença dos primeiros cristãos sobre Jesus.

"O Jesus de Marcos, Mateus e Lucas (e o de Atos) entra em cena como pregador galileu itinerante, curandeiro e exorcista, admirado e seguido por muitos, mas também objeto de suspeição por outros tantos, especialmente o Establisment religioso central, responsável pela manutenção da Lei e da Ordem na Jerusalém sob ameaça de rebelião. Segundo o testemunho comum dos sinópticos, contudo, onde quer ele fosse, Jesus era reconhecidocomo o porta-voz de Deus, pela gente simples da Galiléia. Sabemos que viam nele um profeta. De fato, os Evangelhos nos dão todas as razões para acreditarmos que Jesus considerava pessoalmente como tal, e que esta também foi a primeira quase definição aplicada a ele no começo da pregação cristã: "Jesus, o Nazareno, foi por Deus aprovado diante de vós com milagres, prodígios e sinais". [6]

Vermes destaca os termos "homem sábio" e "realizador de feitos extraordinários" como elementos centrados na memória popular judaica no século I, que levaram a interpretações diferentes pelos cristãos, por Josefo, e pelos inimigos de Jesus. (Inclusive, já analisamos aqui, no final de 2009, a tese de Geza Vermes [7] que a descrição de Jesus como "homem sábio" e "realizador de feitos maravilhosos (milagrosos) espelha a imagem de Jesus que circulava na Palestina como uma tradição popular, interpretada de forma neutra por Josefo, e como testemunho sobre um mago e enaganador, na polêmica judaica do século II, em Celso e nos rabinos do Talmude. Inclusive, Celso, até onde sabemos, usou a mesma palavra que Josefo para descrever os feitos de Jesus, "paradoxa" (Contra Celso 1:6;17-18), um termo ambiguo (maravilhoso, surpreendente, mas também controverso) [8].

"ao descrever Jesus com a ajuda dessas duas expressões basicamente positivas "homem sábio" e "realizador de obras extraordinárias", Josefo logrou formular um julgamento distanciado sobre Jesus. Seu esboço, embora frio, coincide fundamentalmente com o retrato, pintado em cores mais quentes, de Jesus que descobrimos oculto sob os Evangelhos Sinóticos" [8].

Ou seja, tanto para observadores neutros, como para amigos e adversários a memória de Jesus entre os judeus do século I é a de um mestre carismático e realizador de feitos extraordinários, que morreu em confronto com as autoridades, políticas e/ou religiosas. Os adversários alegavam que as multidões eram seduzidas por um impostor e mago, em conluio com forças demoníacas. Os cristãos diziam que os ensinos, os milagres e a morte (aparentemente) desonrosa, eram o cumprimento das escrituras, e, assim, Jesus era o Cristo (o Messias).

No entanto, a tese de Vermes vai além. Como dito acima, ele acredita que ao longo dos séculos, a imagem de Jesus "poderoso em palavras e atos", , que "espelha de certa forma o Jesus da história, sem ser identico a ele", foi sendo substituida por reflexões teológicas sobre o relacionamento de Jesus e Deus, e sua natureza, pré-existência e relacão entre o elemento divino e humano na pessoa de Jesus. Isso pode ser ilustrado na pregação inicial da igreja primitiva, em Atos dos Apóstolos. No discurso atribuido a Pedro no Dia de Pentecostes, temos o que parece ser uma das primeiras confissões da Igreja "Varões Israelitas: escutai estas palavras: Jesus, o nazareno, varão aprovado por Deus entre vós com milagres, prodígios e sinais, que Deus por ele fez no meio de vós, como vós mesmos bem sabeis; a este, que foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, vós matastes, crucificando-o pelas mãos de iníquos; ao qual Deus ressuscitou, rompendo os grilhões da morte, pois não era possível que fosse retido por ela" (Atos 2:22-24, ver também Lucas 24:19). Ou seja, Jesus é apresentado como um homem de Deus, que realizava feitos poderosos, foi executado como mártir e justificado pela Resssureição, o que, como vimos acima, é quase um sumário dos evangelho sinóticos.
Cerca de 150 depois, com a Igreja já firmemente estabelecida no contexto gentio, Tertuliano (200 DC), apresenta em seu livro "Prescrição contra os Hereges", uma regra ou (Confissão) da Fé recebida dos apóstolos "(...)Sua Palavra enviou, e esta Palavra é chamada de Seu Filho, e, sob o nome de Deus, foi visto "de diversas maneiras" pelos patriarcas, ouvido em todos os momentos nos profetas, e finalmente desceu pelo Espírito e Poder do Pai para a Virgem Maria, se fez carne em seu ventre, e, nascendo dela, foi conhecido como Jesus Cristo, então, doravante, Ele pregou a nova lei e a nova promessa do reino dos céus, operou milagres, e tendo sido crucificado, ressuscitou ao terceiro dia; e tendo ascendido aos céus, Ele se sentou à direita do Pai"[9]. Ou seja, ao núcleo sumarizando o ministério de Jesus, sua morte, ressureição e glorificação (como nos sinóticos), são acrescentados elementos joaninos, paulinos e dos evangelhos de infância de Mateus e Lucas ("o Verbo que se faz carne", pré-existente, participante da substância divina, nascido virginalmente).


Mas no mesmo Tertuliano, "Em Contra Praxeas" e "Do Véu das Virgens"[10], encontramos versões variantes (e mais curtas) da confissão , em que a frase "pregação da nova Lei, nova promessa, e do Reino, bem como aos milagres operados por Jesus" esta ausente. De fato, com a omissão dessa frase, a confissão é, no que se refere ao Filho, quase identica ao Simbolo de Fé Romano, a versão mais antiga do Credo dos Apóstolos afirma "Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, Nosso Senhor,que foi concebido pelo poder do Espírito Santo;nasceu da Virgem Maria;padeceu sob Pôncio Pilatos,foi crucificado, morto e sepultado; ressuscitou ao terceiro dia; subiu aos Céus,onde está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso,de onde há-de vir a julgar os vivos e os mortos". Isto indica, já no início do século III, o crescimento do elemento teológico em detrimento do histórico; a fé vai se definindo mais em torno da natureza de Jesus do que relativamente a seus feitos.
Esse processo se aprofunda ainda mais no IV Século, quando, por exemplo, no Credo de Niceia (325 DC), os bispos confessam a Fé "em um só Senhor Jesus Cristo, o unigênito Filho de Deus, gerado pelo Pai antes de todos os séculos, Luz da Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não criado, de uma só substância com o Pai, pelo qual todas as coisas foram feitas; o qual, por nós homens e por nossa salvação, desceu dos céus, foi feito carne pelo Espírito Santo e da Virgem Maria, e tornou-se homem, e foi crucificado por nós sob Pôncio Pilatos, e padeceu e foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras, e subiu aos céus e assentou-se à direita do Pai, e de novo há de vir com glória para julgar os vivos e os mortos, e o seu reino não terá fim". Também no século IV, o Patriarca Atanásio de Alexandria, ao sintetizar a Fé necessária a salvação em 40 artigos, a grande maioria referente a Jesus na condição de 2ª Pessoa da Trindade, dedica apenas três (em parte) ao Jesus terreno ao afirmar " (27) que se creia fielmente na encarnação do nosso Senhor Jesus Cristo" que "(29) homem porque nasceu, no tempo, da substância da sua Mãe" e que "36. (...) sofreu e morreu por nossa salvação, desceu ao Hades, ressuscitou dos mortos ao terceiro dia".
Por fim, os bispos reunidos no Concílio de Calcedônia, em 451 DC, ao elaborarem o famoso Credo afirmam que "se deve confessar um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à divindade, e perfeito quanto à humanidade;verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, constando de alma racional e de corpo,consubstancial com o Pai, segundo a divindade, e consubstancial a nós, segundo a humanidade; em tudo semelhante a nós, excetuando o pecado;gerado segundo a divindade pelo Pai antes de todos os séculos, e nestes últimos dias, segundo a humanidade, por nós e para nossa salvação, nascido da Virgem Maria, mãe de Deus; um e só mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar, em duas naturezas, inconfundíveis, imutáveis, indivisíveis, inseparáveis;a distinção de naturezas de modo algum é anulada pela união, antes é preservada a propriedade de cada natureza, concorrendo para formar uma só pessoa e em uma subsistência;não separado nem dividido em duas pessoas, mas um só e o mesmo Filho, o Unigênito, Verbo de Deus, o Senhor Jesus Cristo, conforme os profetas desde o princípio acerca dele testemunharam, e o mesmo Senhor Jesus nos ensinou, e o Credo dos santos Pais nos transmitiu.




Esse processo pode ser explicado, em parte, pela natureza das controvérsias que levaram a redação dos credos. O objetivo de cada um desses credos era identificar hereges. As controvérsias Ariana, Nestoriana e Monofisista, dos séculos IV e V, não versavam sobre os evangelhos ou novo testamento, já estabelecidos como autoritativos, antes, cada lado buscava demonstrar que biblica e filosoficamente que sua visão da relação do Deus Pai e Filho, e do elemento humano e divino na pessoa de Cristo era a correta.




No contexto dos séculos II e III, até onde se sabe, os grupos proto-ortodoxos e seus adversários não discutiam os feitos de Jesus, mas a natureza de sua manifestação e sua relação com os poderes celestiais. Por exemplo, adversários como o arqui-herege Marcião, subscreviam uma cristologia docética. Yahweh criara um mundo mau e corrupto, e, assim, Jesus, como salvador, não poderia participar de criação corrupta. Assim, para Marcião, Jesus é um ser celestial que vem ao mundo em semelhança de carne, em forma humana. A concepção docética utiliza um conceito semelhante aos dos anjos que apareceram a Abraão (Genesis 18), que conversam com ele, sentam em sua mesa, comem e bebem em sua presença; o deixam, vão até Sodoma, resgatam a família de Ló, e quase são molestados pelos sodomitas; ou então com o anjo que lutou com Jacó no Vau do Jaboque e, no fim da luta, acerta o pobre patriarca no nervo ciático, que fica lá com a coxa deslocada. (Crenças docéticas podem ser estranhas, mas eram disseminadas na antiguidade, tanto na forma de anjos e deuses em forma humana, quanto em figuras como Pitágoras e Mani como seres celestiais com aparência humana para transmitir conhecimentos superiores [11]. Essas crença possui paralelos modernos bizarros, como seitas como o Raelianos, que acreditam que Jesus, Buda, Maomé e Joseph Smith eram extraterrestes em forma humana, ou dos seguidores de David Icke, que acreditam que o ex-Presidente Bush e a Família Real Britanica, e varios outros líderes mundiais são humanoides reptilianos cuja real identidade é encoberta por uma grande conspiração).




Os marcionitas utilizavam o Evangelho do Senhor, uma versão do evangelho de Lucas (ou de um hipotético proto-evangelho de Lucas), sem as narrativas de infância e as citações do Velho Testamento que apresenta Jesus ensinando em Cafarnaum, escolhendo díscipulos, pregando as multidões, curando pessoas, sendo ungido pela mulher do vaso de alabastro, participando da ultima ceia, sendo entregue as autoridades, interrogado, torturado, crucificado, e seu corpo, chega a ser enterrado. No clima filosófico da época, uma opinião comum era que a matéria era uma forma corrompida da existência, e o corpo uma prisão do espirito, nossa parte divina. Muitos diziam que o mundo material era resultado da ação de um deus inferior, o Demiurgo, mau, ou ignorante e/ou apenas limitado. Os gnósticos, em geral, adotavam essa concepção. Se a matéria é maligna, Cristo, o espírito redentor divino não poderia possuir carne verdadeira. Não obstante, eles aceitavam que Cristo veio ao mundo, pregou, ensinou o verdadeiro conhecimento, realizou maravilhas, e foi eventualmente crucificado. As crenças parecem contraditórias, mas os gnósticos encontraram duas maneiras de conciliar seus conceitos teológicos com a tradição evangélica. A maioria dos gnósticos adotava uma cristologia separacionista[12], emprestando conceitos ebionitas que afirmavam que Jesus era um homem comum, que foi escolhido para receber o poder do Espírito. Assim, Jesus Nazareno recebeu em seu corpo o Aeon Cristo, e assim realizou atos poderosos e pregou a palavra do Senhor. Assim, eles conciliavam a pureza de um ser Divino, que se associava transitoriamente a um ser humano, sem se encarnar efetivamente, mas apenas "enchendo" ou"possuindo" um corpo. Diferentemente dos ebionitas, porém, esses gnósticos mantinham que, quando Jesus foi preso e executado, Cristo deixou seu corpo, deixando-o sofrer sozinho, enquanto nosso Aeon via de longe, intocado pelo sofrimento [12]. Já os docéticos conciliaram suas concepções filosóficas com as tradições evangélicas, desenvolvendo a crença que Cristo era um ser divino, que vem ao mundo com "roupa", aparência, disfarce humano, vivendo como um rabi galileu chamado Jesus Nazareno. Na concepção deles ele vive uma vida como um homem (mais ou menos) comum, como pregador e profeta itinerante, exorcista e curandeiro, como os evangelhos descrevem, mas sua verdadeira natureza de ser celestial com "roupa humana" só é conhecida por alguns, para todos os que viam ou conheciam, le seria "Jesus de Nazaré, carpinteiro e pregador", com CPF e Carteira de Identidade.


Assim, como nos diz o Professor Maurice Goguel, mesmo os "docéticos não contestavam a história evangélica. Eles eram cristãos idealistas, agarrados acima de tudo a noção da divindade de Cristo e o caráter celestial de sua pessoa, e que tentavam dar uma interpretação harmonizadora com suas idéias (...) Os docéticos tornam-se assim testemunhas da tradição evangélica"[13]. A questão não era sobre os feitos de Jesus, sua pregação e milagres, de que tinha sido enviado por Deus. O ponto era a natureza da sua manifestação. O grosso da tradição evangélica não opôs doceticos, separacionistas e proto-ortodoxos. Bart Erhmann acredita que o verso em que Jesus está em agonia no Getsemane, suando sangue, foi adicionado a Lucas, para frear o uso do do texto pelos docéticos [14], que também utilizaram os eventos narrados na tradição, como a escolha dos díscipulos, as grandes mensagens, e a crucificação. É a interpretação dessa tradição, e conceitos filosóficos particulares dos docéticos, que os levam a uma opinião teológica diferenciada da narrativa comum. Assim, proto-ortodoxos, marcionitas, gnósticos docéticos e marcionitas, bem como os ebioniotas, compartilhavam uma tradição evangélica comum e antiga, apostólica, um verdadeiro "elo perdido", sobre "Jesus Nazareno, varão aprovado por Deus com milagres, prodígios e sinais, que foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, e crucificado; e a qual Deus ressuscitou. Esses fatos comuns geraram interpretações teológicas e filosóficas diferentes por parte desses grupos.

c) John M Roberts


John M Roberts nasceu na cidade de Bath, Inglaterra. Se graduou em Oxford, e iniciou sua carreira acadêmica, em 1953, como professor visitante nos EUA, como membro do Institute for Advanced Study, em Princeton, e posteriormente nas Universidades da Carolina do Sul e de Colúmbia. Retornando ao Reino Unido, voltou para Oxford e ministrou também na Universidade de Southampton.




Roberts não era especialista em cristianismo primitivo, judaísmo do segundo templo, ou antiguidade clássica, seu campo de atuação foi a história moderna, temas como a revolução francesa. No entanto, ao escrever uma "história do mundo", com objetivo de situar o leitor leigo "das origens nas savanas africanas a 2007", Roberts situa as origens e desenvolvimento do cristianismo no seio do Império Romano, e apresenta algumas questões importantíssimas sobre a compreensão de nossas fontes, com grande poder de sintese e objetivamente, o que nos permite uma perspectiva mais global, em relação a uma abordagem mais aprofundada e pontual de um historiador especialista. Além disso, incluo Roberts em nossa lista, por apresentar a visão de um historiador de um outro período, que pode (e traz) alguns "insights" em relação aos desafios de nossas fontes sobre o cristianismo primitivo, em particular, e da Antiguidade em geral:




"Into this electric atmosphere Jesus was born in about 6 BC, into a world in which thousands of his countrymen awaited the coming of the Messiah, a leader who would lead them to military or symbolic victory and inaugurate the last and greatest days of Jerusalem. The evidence for the facts of his life is contained in the records written down after his death in the gospels, the assertions and traditions which the early Church based on the testimony of those who had actually known Jesus.(tradução) Nesta atmosfera carregada, por volta de 6 AC, Jesus nasceu, em um mundo em que milhares de seus compatriotas esperavam o advento do Messias, um lider que levaria a vitória militar ou simbólica e inauguraria os últimos e mais gloriosos dias de Jerusalém. A evidência para os fatos da sua vida está contida nos registros escritos após sua morte nos evangelhos, afirmações e tradições nas quais a Igreja Primitiva se baseava no testemunho daqueles que haviam conhecido Jesus[15].




Assim, Roberts posiciona o nascimento de Jesus no contexto amplo das expectativas messiânicas do Judaismo de seu Tempo, e passa a analisar os evangelhos, e principalmente, as tradições que teriam sido baseadas na memória oral dos seguidores de Jesus.




The gospels are not by themselves satisfactory evidence but their inadequacies can be exagerated. They were no doubt written to demonstrate the supernatural authority of Jesus and the confirmation provided by the events of his life for the prophecies which had long announced the coming of Messiah. This interested and hagiographical origen does not demand sceptism about all the facts asserted; many have inherent plausibility in that they are what might be expected of a jewish religious leader of the period. They need not be rejected ; much more inadequate evidence about far more intractable subjects has often to be employed. There is no reason to be more austere or rigorous in our canons of acceptability for early christians records than for, say, the evidence in Homer which illuminates Mycanae. Nevertheless, it is very hard to find corroborative evidence of the facts stated in the Golspels in other records.[15] (tradução) "Os evangelhos, isoladamente, não são evidência \satisfatória, mas seus problemas podem ser as vezes exagerados. Sem dúvida, foram escritos para demonstrar a autoridade sobrenatural de Jesus e que os eventos de sua vida eram confirmações das antigas profecias da vinda do Messias. Sua origem hagiográfica e por partes interessadas, não exige, contudo, ceticismo em relação a todos os fatos que narram. Muitos são inerentemente plausíveis com base no que se esperaria para um líder religioso judeu do período. Não é necessária sua rejeição; emprega-se frequentemente evidência muito mais problemática sobre assuntos bem mais intratáveis. Não há razão para sermos mais austeros ou rigorosos em nossos canons de aceitabilidade para os registros da igreja primitiva do que, por exemplo, as evidências em Homero que iluminam o periodo Micênico. Dito isto, e muito difícil encontrar elementos corroborativos dos fatos narrados nos evangelhos em fontes externas.[15]





Roberts apresenta assim as dificuldades e os desafios envolvidos no uso dos evangelhos como fonte histórica. Ele começa observando que não são o tipo de material com o qual os historiadores sonham, por terem sido elaborados com um viés, com o objetivo de trazer pessoas a nova fé (João 20:31) e confirmar os já evangelizados ou convertidos (Lc 1:4), buscando vigorosamente demonstrar que os eventos da vida de Jesus cumpriam as escrituras, e não "historiadores profissionais em busca da objetividade crítica"(como diria Geza Vermes). No entanto, como observa Roberts, esses problemas não nos devem levar a jogar o bebê com as águas do banho, levando-nos ao ceticismo total sobre os fatos narrados. Apesar das dificuldades e possível utilizar o método histórico-crítico nos evangelhos.




Em primeiro lugar, Roberts observa que muitos elementos dos evangelhos "inerentemente plausíveis com o que se esperaria de um líder religioso judeu da período", ou seja, são altamente plausíveis no contexto. Podemos acrescentar já visto no post anterior, há muitas evidências de uma tradição oral vibrante anterior aos evangelhos (L Michael White), que tem seu valor reconhecido como fonte histórica, junto com Josefo, para o mundo judaico do periodo anterior a destruição de Jerusalém (Fergus Millar), que várias tradições individuais (e complexos de tradição) contém tanto "colorido local" e tantos "indicios de familiaridade" que devem ter surgido na Palestina, no periodo em que Jesus exerceu seu ministério (Gerd Thiessen), os evangelistas apresentam Jesus consistentemente pregando nas pequenas vilas e aldeias da Galiléia, um mundo distinto dos cristãos primitivos nos grandes centros urbanos da civilização greco-romana, ainda que fosse interessante para esse cristãos ver Jesus discutindo filosofia com os filósofos em Séforis ou Tiberiades, indicando fortemente que nesse aspecto os evangelistas reproduziram o que encontraram em suas fontes (Geofrey M de Ste Croix). Acima já refletimos sobre como os evangelhos sinóticos apresentam um contorno geral de Jesus poderoso em palavras e atos, nas pequenas vilas e aldeias da Galíleia, em dissonância com a pregação do Cristo querigmático posterior; proto-ortodoxos, ebionitas, marcionitas, gnosticos docéticos e separacionistas conservam o esqueleto básico dessa narrativa, quase como um ancestral comum, mesmo que não o enfatizem (David Flusser e Geza Vermes).




A identificação de elementos que plausivelmente podem ser organizados em uma narrativa comum coerente com o contexto histórico em que teriam se originado, e que são mantidos em várias tradições cristãs concorrentes e rivais, em alguns casos indo contra as tendências de desenvolvimento dessas tradições, formam a base do critério de plausibilidade histórica.




Como observa um colega e contemporâneo de John M Roberts, Louis Gottschalk, que foi Professor da Universidade de Chicago, em seu Manual, "Understanding History", na análise de um documento, o historiador deve se ater mais a cada parte relevante do documento, do que ao documento como um todo. Em relação a cada um desses elementos relevantes e particulares, ele deve se perguntar: "Isso é crível ? Por crível não se entende "o que realmente ocorreu", mas sim o "que é mais proximo do que realmente pode ter acontecido com base no exame crítico das melhores fontes disponíveis"[16]. Ou seja, os elementos com alto grau de verossemelhança, o que, enfatiza Gottschalk, é bem mais do que não ser falso, e ainda acima do que meramente plausível[16]. Em outras palavras, o historiador tem condições de estabelecer verossemelhança, ao invés de verdade objetiva[16]. Foi justamente isso que os estudiosos já citados fizeram com os evagelhos. A partir da analise dos elementos relevantes das fontes, estabeleceram a partir de vários elementos plausíveis, um retrato verossimilar de Jesus, tendo em vista o contexto em que viveu, e o impacto que causou. É semelhante a montagem de um quebra-cabeça, onde as peças são arranjadas de forma a formarem um figura, reconhecendo que muitas peças podem estar faltando, e as vezes seja possivel apenas esboçar, ou nem isso, a figura original.




Roberts observa ainda que fontes com problemas similares ou maiores que os evangelhos são utilizados pelos historiadores em outros campos. Ele cita o caso dos escritos homéricos em relação ao período micênico, mas temos ainda as narrativas de Tito Lívio (século I AC) em relação a República Romana primitiva (séculos V e IV AC); a biografia de Apolonio de Tiana (sec I DC) por Filostrato de Quios (século III DC); os livros históricos do Velho Testamento e as tradições orais de povos africanos na reconstrução do passado pré-colonial. Também a atestação de Jesus em fontes externas semi-contemporâneas é consistente com a de outros pretendentes messiânicos como Simão de Peréia, Judas Galileu e o Profeta Egípcio. Por fim, Roberts reconhece que ainda se terá o problema de que as narrativas evangélicas, salvo em alguns pontos específicos (existência, crucificação, atividade como mestre e realizador de curas e exorcismos), não encontram paralelo em fontes não-cristãs, o que permite um ampla variação nos detalhes específicos do ministério de Jesus. Tais situações são relativamente comuns na História Antiga e Medieval, e os historiadores tem que viver com isso, e podemos concluir com as observaçoes dos Professores Martha Howell, da Univ. de Columbia e Walter Prevenier, da Univ. de Ghent:


Historians never have just what they want or need. At one extreme is the historian limited to one source. Einhard’s Life of Charlemagne is, for example, the only source scholars have about the private life of Europe’s first emperor. Like many of the political biographies written today, this one is more hagiography than critical biography, and in the best of worlds historians might refuse to use it as evidence about Charlemagne’s life and his character. But historians, although conscious they are prisoners of the unique source and bear all the risks that this involves, use it because it is all they have.” (tradução) Os historiadores nunca tem exatamente o que eles querem ou precisam. Em um extremo está o historiador limitado a uma única fonte. Vida de Carlos Magno, de Einhard, é, por exemplo, a única fonte disponível para os estudiosos sobre a vida privada do primeiro imperador da Europa. Como muitas das biografias políticas escrito hoje, é mais uma hagiografia do que biografia crítica, e no melhor dos mundos ,historiadores poderiam se recusar a usá-lo como evidência sobre a vida de Carlos Magno e seu caráter. Mas os historiadores, embora conscientes que são prisioneiros de uma única fonte e todos os riscos que isso envolve, a utilizam porque é tudo que eles têm. "




Referências Bibliográficas


[1] David Flusser (1998), Jesus, fl. XVIII (Prefácio)


[2] David Flusser (1998), Jesus, fl. 1-3; A biografia de referência de Joseph Smith foi escrita por Fawn McKay Brodie (1945): No Man Knows My History: The Life of Joseph Smith, por ter sido a primeira obra escrita sobre uma perspectiva não hagiográfica (ou polêmica) sobre o fundador do mormonismo. Os escritos de Joseph Smith podem ser consultados no site http://josephsmithpapers.org/ . Sobre Simon Kimbangu, o site "Dicionário de Biografias Cristãs da Africa" , relata "Além de fontes de arquivos (Archives Africains, Brussels; BMS archives, Oxford), a principal documentação sobre a vida e o ministério de Kimbangu é de Paul Raymaekers, ed., "L'Histoire de Simon Kimbangu prophète d'après les écrivains Nfinangani et Nzungu," Archives de sociologie des religions 31 (1971): 7 - 49 and Paul Raymaekers and Henri Desroche, ed., L'Administration et le sacre. Discours religieux et parcours politiques en Afrique Centrale (1921 - 1957) (1983). A história oral foi coletada em W. MacGaffey, "The Beloved City: Commentary on a Kimbanguist Text," JRA 2 (1969): 129-147, e em Kuntima Diangienda, L'Histoire du Kimbanguisme (1984), escrita pelo filho mais jovem de Kimbangu, o último dirigente da Igreja de Kimbangu. M.-L. Martin, Kimbangu: An African Prophet and His Church (1975); Werner Ustorf, Afrikanische Initiative (1975)".


[3] Para uma análise histórica sucinta e objetiva dos milagres de Jesus numa perspectiva naturalista, ver John Dominic Crossan (1995), Jesus uma Biografia Revolucionária, fls. 104/106; para uma outra mais detalhada e aprofundada, ver John P Meier (1999) Um Judeu Marginal, Livro 2, Volume III,; Professor Raymond Van Dam elaborou uma excelente análise histórica dos relatos de milagres de santos do século V, em seu livro "Saints and their miracles and Late Antique Gaul"(1993) no que se refere a placebos, doenças psicosomática e cura pela fé, um trabalho de referência é o de Arthur e Erica Shapiro "The Powerful Placebo: From Ancient Priest to Modern Physician" ver também Erney Plesmann de Camargo e Mônica Teixeira (2002) Sobre Placebo e Efeito Placebo, Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., V, 2, 118-125; Monica Teixeira (2008) Placebo, um Mal Estar para a Medicina, Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., São Paulo, v. 11, n. 4, p. 653-660, dezembro 2008; Armando Favazza (1982) Modern Christian Healing of Mental Illness , Am J Psychiatry 139:6, June 1982, 728-736. Nicholas Humphrey (2002) Great expectations: the evolutionary psychology of faith-healing and the placebo effect In Nicholas Humphrey (2003) The Mind Made Flesh: Essays from the Frontiers of Evolution and Psychology, Ch. 19, 255-85, Oxford University Press.


[4] Informações biográficas de Geza Vermes constantes em seu livro "As Varias Faces de Jesus", fl. 369 (contracapa). Especificamente no que se refere ao período da ameaça nazista ver sua autobiografia, "Providential accidents: an autobiography (1998)", fls. 32-39;


[5] Geza Vermes (1998) As Varias Faces de Jesus, fls. 177 e 263, respectivamente


[6] Geza Vermes (1998) As Varias Faces de Jesus, fl. 246


[7] Geza Vermes (1987) The Jesus Notice of Josephus Re-Examined, Journal of Jewish Studies 38, 1- 10;


[8] Geza Vermes (1998) As Varias Faces de Jesus, fl. 306-307


[9] Tertuliano de Cartago, Prescrição contra os Hereges, capítulo 13.


[10] Tertuliano, Contra Praxeas 2, e do "Véu das Virgens 1".
[11] Sobre Pitagoras, segundo Diogenes Laércio (cerca de 200 DC, Vida e Doutrinas de Filosofos Eminentes, Vida de Pitágoras, IX) e Porfírio de Tiro (280 DC, Vida de Pitágoras, 28-29), havia a crença que Pitagoras era o deus Apolo em forma humana, vindo das paradisíacas regiões hiperboreas. Sobre Mani (seculo III DC), O Professor Werner Sundermann, da Universidade Livre de Berlim, em seu artigo na Encyclopaedia Iranica observa "Mani vita preserved in the Cologne Mani Codex (abbrev. CMC), namely Peri tēs gennēs tou sōmatos autou “About the genesis/procreation of his body,” may presuppose the transcendental precedence of his spiritual nature, as does the Parthian fragment M 6032, which states that Mani “through mercy put on the earthly garment,” that is, his material body.(tradução) "A biografia de Mani preservada no Código Mani de Colônia (abrev. CMC), chamada Peri tes gennes tou somatos autou "Da gênese/procreação de seu corpo" possivelmente presupõe a precedência transcendental de sua natureza espiritual, como faz o Fragmento parto M 6032, que afirma que Mani, "por compaixão pôs vestes terrenas", ou seja, um corpo material. http://www.iranicaonline.org/articles/mani-founder-manicheism, acessado 28.12.2011.


[12] Para uma bom "overview" a respeito dos docéticos e sepacionistas no gnosticismo cristão primitivo ver Bart Erhmam, "Evangelhos Perdidos", diferenciação entre doceticos e separacionistas fls 36-37; No que se refere a predominância dos separacionistas sobre os doceticos entre os gnósticos, fl. 188; quanto as crenças comuns gnósticas ver fls.171-201. Entre os rivais dos proto-ortodoxos pelas mentes e corações dos cristãos primitivos. Cerinto, segundo Hipolito de Roma, " afirma que Jesus não nasceu de uma virgem, mas da união natural de José e Maria, como o resto da humanidade; mas que ele excedia em justiça, prudência e compreensão todos os outros homens. E Cerinto afirma também que após o batismo de Jesus, Cristo veio a terra em forma de pomba e desceu sobre ele, vindo da parte da Soberania que habita acima do circulo da existência, e depois disso ele passou a pregar o Pai, que não era conhecido, e realizar milagres. E ele declara que no fim de sua paixão, Cristo o deixou, uma vez que era incapaz de sofre, sendo um Espírito da parte do Senhor" (Hipolito, Refutação de todas as Heresias, Livro X, Capítulo 17). Também Basilides pregava que "o Pai não nascido e sem nome, (...) enviou seu próprio primogênito Nous (aquele que é chamado Cristo) para libertar, aqueles que acreditam nele, do Demiurgo criador do mundo. Ele apareceu então, na Terra em forma humana, para nações representadas por aquelas potestades, e realizou milagres. No entanto ele mesmo não sofreu a morte, mas Simão, um home de Cirene, sendo chamado, levou a cruz em seu lugar; e foi transfigurado para parecer com ele, para que acreditassem que ele era Jesus, e o crucificassem, por ignorância e error, enquanto Jesus recebeu a forma de Simão, e estando de longe, ria deles" (Irineu de Lion, Contra as Heresias, Livro I, Capitulo 24, seção 4.
[14] Maurice Goguel (1926), Jesus the Nazarene: Myth or History?, fl. 79

[15] John M Roberts e Orde Arne Westad (2007) The New Penguin History of World, fl. 265. (obs: Edição de 2003, revisada em 2007 por Orde Arne Westad)
[16] Louis Gottschalk (1969) "Understanding History, A Primer of Historical Method, fls. 139-140.
[17] Martha Howell e Walter Prevenier (2001) From Reliable Sources, fl. 81

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