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domingo, 31 de dezembro de 2023

Jesus na Escala Richter de Impacto Histórico: breves anotações sobre Flegon de Trales

"Cristo na Cruz", por Carl Heinrich Bloch (1870). Museu de 
História Natural, Copenhague, Dinamarca, via wikicommons
 

Por volta de 240 DC, o erudito, filósofo e teólogo Orígenes de Alexandria (185-254 DC), escreveu uma defesa do cristianismo em contraposição a um ataque do filósofo Celso, que, entre 160-180 DC, escrevera uma obra chamada "o verdadeiro discurso". Em sua obra, já discutida aqui, Celso critica sistemática e detalhadamente os cristãos, apresenta argumentos filosóficos e supostas inconsistências nas narrativas evangélicas, faz comparações com outros cultos e seitas existentes à época e alguma familiaridade com os vários grupos cristãos existentes e "fatos" da vida de Jesus não existentes em qualquer escrito cristão, derivados de tradições que circulavam entre os judeus no início do II século. 

Em sua defesa, Orígenes utiliza vários argumentos, e cita alguns autores não cristãos para corroborar, de alguma forma, aspectos positivos do cristianismo. A abordagem, tinha suas dificuldades, porém. Com Flavio Josefo, por exemplo, Orígenes utiliza o relato que menciona Tiago, irmão de Jesus, mas acaba reconhecendo que, seja o que fosse que Josefo tivesse escrito, ele não reconhecia que Jesus fosse o Cristo. 


Um autor, porém, que Orígenes cita algumas vezes é Flegon de Tralles.

E Flegon, no decimo terceiro ou décimo quarto livro, se não me engano, de suas crônicas, não somente atribui a Jesus o conhecimento de eventos futuros, mas também testifica que o resultado corresponde a suas previsões. (...) mas ele também, por estas mesmas admissões em relação a previsão, mesmo que contra sua vontade, expressa sua opinião de que as doutrinas ensinadas pelos pais não foram desprovidas de poder divino (Origenes, Contra Celso, 2:14);

E no que diz respeito ao eclipse no tempo de Tibério César, em cujo reinado Jesus parece ter sido crucificado, e aos grandes terremotos que então ocorreram, Flegon também, creio, escreveu no décimo terceiro ou décimo quarto livro de suas Crônicas (Origenes, Contra Celso, 2:33);

Ele imagina também que tanto o terremoto quanto a escuridão foram uma invenção; mas com relação a isso, nas páginas anteriores, fizemos nossa defesa, de acordo com nossa capacidade, apresentando o testemunho de Flegon, que relata que esses eventos ocorreram no momento em que nosso Salvador sofreu.(Origenes, Contra Celso, 2:59);


Professora Leslie Kelly, da Universidade Pública da América, apresenta alguns detalhes sobre Flegon de Trales.

Phlegon of Tralles was a freedman of Emperor Hadrian who, in addition to his history, wrote books on Sicily, the topography of Rome, Roman festivals, and marvels (tradução) Flegon de Tralles foi um liberto do imperador Adriano que, além de sua história, escreveu livros sobre a Sicília, a topografia de Roma, festivais romanos e maravilhas.[1]

Trazendo a citação em contexto, entre os autores geralmente citados como evidência externa da vida e ministério de Jesus de Nazaré, os principais testemunhos  são os de Flávio Josefo e Tácito. O parágrafo sobre Jesus na obra de Josefo, chamado Testemunho Flaviano, é considerado pela grande maioria dos estudiosos como tendo sido alterado a partir de um texto original menos laudatório ou hostil (como já vimos aqui no Adcummulus). Outra menção a Jesus no texto de Josefo, referente a seu irmão, Tiago, é menos polêmica. Quanto a Tácito, a discussão, em geral, não se centra na autenticidade, mas a fonte das informações que dispunha, como também já discutido aqui no adcummulus, junto com menções mais breves de historiadores romanos, como Suetônio e Plínio.  Se expandimos para menções externas posteriores, que podem conservar memórias antigas, temos as respostas polêmicas dos oponentes dos apologistas Justino e Tertuliano, do filósofo Celso, e dos rabinos no Talmude, autores como Luciano, Galeno e Mara Bar Serapion que reagem de formas diferentes a Jesus como mestre dos cristãos. Assim, de forma geral, as fontes não cristãs podem ser classificadas em quatro linhas de tradição:

  • Segundo as versões mais aceitas do texto de Flávio Josefo, Jesus foi um pretendente messiânico que atraia (ou aliciava) multidões com seus ensinos, realizava feitos controversos (paradoxa), e foi executado por Pôncio Pilatos, sob acusação dos líderes judeus. Após sua execução, seus seguidores relataram que ele havia ressuscitado e proclamavam que ele era o Cristo.
  • Na visão de magistrados romanos, como Cornélio Tácito, Gaio Suetônio e Plínio, o Jovem,  Jesus foi um agitador crucificado na Judéia por Pôncio Pilatos, tendo sido o fundador da seita dos cristãos, um grupo que seguia uma "superstição nova e depravada" (Suetônio), e "mortal", que "irrompeu novamente, não apenas na Judéia, terra onde se originou o mal, mas também na cidade Roma, onde todos os tipos de práticas horrendas e infames de todas as partes do mundo se concentram e são fervorosamente cultuadas" (Tácito), e se reuniam numa associação secreta e ilegal (segundo Plínio);
  • Na polêmica judaica em relação ao cristianismo, os oponentes de Justino (130-150 DC), Celso (170 DC), Tertuliano (200 DC) e alguns rabinos do Talmude acusam Jesus de ter sido um "mágico e enganador do povo" e seus paradoxa (feitos controversos)  foram devidos a utilização de poderes mágicos, tendo sido "pendurado" por ser um "praticante de feitiçaria que induziu Israel a pecar". A acusação, inclusive, já havia sido recordada nos evangelhos (ex. "Ele está possesso de Belzebu; e: É pelo príncipe dos demônios que expulsa os demônios", em Mc 3:22).
  • Autores como Luciano, Galeno e Mara Bar Serapion destacam o papel de Jesus como o "primeiro legislador" dos cristãos.  O "homem crucificado na Palestina", por dar origem ao culto (Luciano de Samosata), a "escola  (...) de Cristo", em que se ensinam "leis não demonstráveis" e mestres que "ordenavam aceitar tudo pela Fé" (Claúdio Galeno). O próprio Galeno, porém, admite mérito nos ensinos cristãos, pois incutia nas massas posturas positivas, semelhantes a dos "verdadeiros filósofos" (Galeno).  De qualquer forma, Jesus "continuou a viver nos ensinamentos que transmitiu" (na visão positiva de Mara Bar Serapion, destoante dos outros autores não cristãos).

Assim, a visão de Jesus e dos primeiros cristãos como pessoas à margem da sociedade é recorrente entre observadores externos do início do cristianismo. Se houvesse jornais semelhantes aos que existem hoje na Siria-Palestina do século I, Jesus e seus seguidores estariam na página policial ou nos tabloides populares. Os programas de TV em que apareceriam seriam do tipo popular/policial/sensacionalista. Como vimos também em nossa série dos cristãos ascendendo a alta sociedade romana, a chegada na elite social, política e intelectual do Império demorou, pelo menos, 150 anos. 

Grafite de Aleximeno, caricatura anti cristã da segunda 
metade do século II DC, "Alexamenos sebete Theon"
("Alexandre adora Deus"), Roma,via wikicommons
O conhecimento de Flegon sobre Jesus, tais como outros autores pagãos e judeus de seu tempo, pode decorrer tanto de uma exposição a pregação cristã e/ou evangelhos, bem como de fontes judaicas e romanas sobre Cristo e o cristianismo. Como observam os professores Gerd Theissen (Universidade de Heidelberg) e Annete Merz (Universidade de Utrecht), "(...) os testemunhos não cristãos sobre Jesus correm o  duplo perigo de ser supervalorizados ou subestimados. São supervalorizados quando se espera um acesso "neutro" ao "Jesus histórico", livre de "verniz" cristão. Tácito não oferece um relato que remonta aos Atos de Pilatos, tampouco Josefo, uma descrição que remonta aos protocolos do Sinédrio. Contudo, "(...) as fontes extracristãs são provavelmente uma reação a declarações cristãs. Mas não devemos diminuir seu valor enquanto fontes. Primeiro, elas remetem a afirmações cristãs que provavelmente são independentes de nossos evangelhos. São um testemunho autonômo. Segundo, documentam a postura ambivalente dos contemporâneos judeus e pagãos (...) Terceiro, elas mostram que os contemporâneos dos séculos I e II não tem motivos para questionar a existência de Jesus"[2]. 


Sendo assim, do que sabemos sobre Flegon ele reage as afirmações contidas nos relatos evangélicos, no contexto de seus próprios interesses, o de um autor cujo o interesse em Jesus e nos cristãos não é decorrente de uma disposição necessariamente polêmica (como Celso), ou incidental, para explicar acontecimentos mais amplos em que Jesus e seus seguidores eram figurantes (como Josefo, Tácito ou Suetônio). A obra de Flegon revela um autor com interesse no popular, fantástico, controverso, e no paradoxal. Como descrito pelo Professor Markus Bockmuehl (Oxford):

P. Aelius Phlegon (no relation to his namesake in Rom. 16:14) was an educated freedman in the imperial household of Hadrian (AD 117-138), a native greek speaker from Tralles in Caria, Asia Minor. Among his various literay activities is a Book of Marvels, composed in the sensationalist genre known to classicists as "paradoxography" - entertaining collections of weird and wonderful tales in the best tradition of tabloid journalism. By far the most substantial and best known of Phlegon's works was a chronology of the Olympic Games grom their begining in 776 BC to 229th Olympiad (AD 137-140), during which Hadrian died. Although this work survives only in fragments, it is clear that, in addition to a listing of the Olympic victors at each of the games, Phlegon discusses notable persons and events of the respective period, including various miracles and oracles.

(Tradução) P. Aelius Flegon (sem relação com seu homônimo em Romanos 16:14) foi um liberto educado na casa imperial de Adriano (117-138 DC), um falante nativo de grego de Tralles em Caria, Ásia Menor. Entre suas diversas atividades literárias está um Livro de Maravilhas, composto no gênero sensacionalista conhecido pelos classicistas como "paradoxografia" - divertidas coleções de contos estranhos e maravilhosos na melhor tradição do jornalismo tablóide. De longe, o trabalho mais substancial e mais conhecido de Flegon foi uma cronologia dos Jogos Olímpicos desde seu início em 776 AC até a 229ª Olimpíada (137-140 dC), durante a qual Adriano morreu. Embora esta obra sobreviva apenas em fragmentos, é claro que, além de uma lista dos vencedores olímpicos em cada um dos jogos, Flegon discute pessoas e eventos notáveis ​​do respectivo período, incluindo vários milagres e oráculos [3]

Em seu livros Flegon demonstra interesses diversos. Suas crônicas se estruturam em torno dos jogos olímpicos, evento central para identidade das populações gregas, desde tempos antigos. Os jogos da antiguidade eram realizados na cidade de Olímpia, a partir de 776 AC (data tradicional), a cada quatro anos. Os jogos eram sagrados em toda Grécia, com uma trégua olímpica (ékécheiria) sendo observada, de forma que a integridade e segurança dos participantes em seu caminho para Olímpia e a proteção do próprio santuário fosse garantida. Assim, uma crônica estruturada em torno dos conclaves olímpicos era uma forma bastante tradicional de recordar a história, e cobriria um período de cerca de 900 anos, do ano 776 AC até 140 DC. Da mesma forma, Flegon teria escrito uma descrição da Sicília (que pode ter sido análogo ao "descrições da Grécia" de Pausânias). Tanto "Crônicas" quantos "Descrição da Sícilia" não chegaram até o nosso tempo, embora partes das "Crônicas" sejam citadas por autores posteriores, como Eusébio, George Sincelo e Fócio de Constantinopla.

Por outro lado, Flegon foi também o autor de obras com uma veia mais "sensacionalista". Assim, ele percorre os censos romanos para encontrar cidadãos com mais de 100 anos de idade ("sobre pessoas velhas" ou "Peri Macrobion"). E, principalmente, seu "livro das maravilhas", que coleciona relatos de fatos estranhos, sensacionais e maravilhosos, no melhor estilo "Acredite se quiser", e sua obra é representativa de um gênero chamado paradoxografia. Flegon descreve a descoberta de ossadas gigantescas, nascimentos "monstruosos", hermafroditas e locais mal assombrados. Essas duas obras foram preservadas e existem até hoje.

Considerando esses interesses de Flegon, de que forma a vida de Jesus poderia ter lhe chamado a atenção? No que se refere as menção as previsões de Jesus e sua acurácia, Professora Kelly observa:

This passage from Phlegon (by way of Origen) indicates that some pagans among the well - connected, intellectual set understood Jesus of Nazareth to have been a prophet. Jesus' actions and message could be understood as being intentionally in line with prophets of the jewish scriptures or as a representative of a new type of eschatological prophet, with a focus on the in-breaking age of catastrophic (and then heavenly) change. (tradução) Esta passagem de Flegon (citada por Orígenes) indica que alguns pagãos no meio intelectual e bem relacionado entendiam que Jesus de Nazaré era um profeta. As ações e a mensagem de Jesus podem ser entendidas como estando intencionalmente alinhadas com os profetas das escrituras judaicas ou como representantes de um novo tipo de profeta escatológico, com foco na era iminente de mudanças catastróficas (e depois celestiais). [4]

 Conforme já descrevemos acima, além do interesse em Jesus como o fundador da seita dos cristãos (que, no tempo de Flegon, já eram conhecidos da elite romana desde, pelo menos, o tempo de Nero, 80 anos antes), este era apresentado como "poderoso em palavras e obras" pelos seus seguidores, "mestre e realizador de feitos controversos" (admitindo um texto "neutro" por Josefo), ou "mágico e aliciador do povo" (seguindo Celso, os oponentes de Justino e Tertuliano, o Talmude, e se for considerado um texto original hostil no texto de Josefo). Em todo caso, Jesus seria um personagem que, potencialmente, se adequa aos interesses de Flegon, como indica o Professor Bockmuehl:

 It is clear this work, composed in sixteen books, that Origen cites here. Assuming that after the extant account of the founding of the games, the remainder of the 916-year history is evenly divided over the sixteen books, it is indeed book 13 that may plausible be assumed to cover the lifetime of Jesus, and book 14 the apostolic period. Another popular patristic citation from book 13, known to Origen (Cels. 2.33, 59), Jerome, and others, concern a solar eclipse associated with the darkness at the crucifixion of Jesus. Quite what Phlegon says ou Known, whether about Jesus's predictions or Peter's, is impossible to tell from Origen's fleeting comment. It seems nevertheless fair to assume that it must have been a sufficiently impressive tale for Phlegon to have heardof it and to comment on it. - though it is impossible to be more precise than that. In interpreting Origen's obscure citation, then, it is significant that he does not attribute any explicit knowledge of Peter. (tradução) Fica claro esta obra, composta em dezesseis livros, que Orígenes cita aqui. Supondo que, após o relato existente sobre a fundação dos jogos, o restante da história de 916 anos esteja dividido igualmente entre os dezesseis livros, é de fato o livro 13 que pode ser plausivelmente assumido como cobrindo a vida de Jesus, e o livro 14, o período apostólico. Outra citação patrística popular do livro 13, conhecida por Orígenes (Cels. 2.33, 59), Jerônimo e outros, diz respeito a um eclipse solar associado às trevas na crucificação de Jesus. Exatamente o que Flegon diz ou sabe, seja sobre as predições de Jesus ou de Pedro, é impossível dizer a partir do comentário fugaz de Orígenes. No entanto, parece justo supor que deve ter sido uma história suficientemente impressionante para que Flegon a tenha ouvido e comentado. - embora seja impossível ser mais preciso do que isso. Ao interpretar a obscura citação de Orígenes, então, é significativo que ele não atribua nenhum conhecimento explícito de Pedro.[5]

Professor Martin Hengel (1926-2009), também pondera o interesse de Flegon por Jesus, já atestando a uma distribuição relativamente ampla dos evangelhos na primeira metade do século II. De fato, os fragmentos mais antigos do evangelho, na forma do papiro John Rylands (P52) e P90, contendo versos de João, são geralmente datados da mesma época em que Flegon escreveu (120 -150 DC). Os papiros foram preservados no clima quente e seco do Egito, distante do seu provável local de composição na Ásia Menor ou Síria, indicando uma distribuição ampla do texto do evangelho. Na mesma época, Justino, em seu dialogo com Trifo, tem seu oponente, um rabino helenista, afirmando que  (...) tomou conhecimento e leu com atenção os preceitos dos evangelhos cristãos, os considerou maravilhosos e grandes, de tal forma que suspeitava que ninguém seria capaz de cumpri-los"

 From this same time of Hadrian, we also have the earliest example of a Gentile author who was familiar with a gospel. Phlegon of Tralles, who was freed by Caesar, loved sensational stories. He not only describes an eclipse of the sun that took place at the time of Jesus' crucifixion but, according to Origen, produced "Pertaining to Christ's advange knowledge of Future Events", and, in a most remarkable way, mention in this context also the person of Peter (tradução) Da mesma época de Adriano, também temos o exemplo mais antigo de um autor gentio familiarizado com um evangelho. Flegon de Trales, liberto do imperador, adorava histórias sensacionais. Ele não apenas descreve um eclipse do sol que ocorreu no momento da crucificação de Jesus, mas, de acordo com Orígenes, escreve "referente ao conhecimento presciente de Cristo sobre eventos futuros", e, de uma forma mais notável, menciona neste contexto também a pessoa de Pedro [6]

Além da referência a capacidade profética de Jesus, Origenes afirma que Flegon também deu testemunho em relação as trevas e o terremoto durante a Paixão, descritas nos evangelhos. Desde cedo, porém, um contemporâneo de Orígenes, Julio Africano, que já mencionamos aqui no adcummulus, cita o relato de Flegon em conjunto com Talo, que é geralmente associado a um samaritano, outro liberto imperial, mencionado por Josefo, e que teria escrito em meados do século I DC, por volta do ano 50 DC. A Crônica de Talo, segundo Eusébio de Cesareia, reconta a história do mundo grego desde a Guerra de Tróia até 167ª ou 207ª Olímpiada (112-109 AC ou 49-52 DC, uma vez que os manuscritos são problemáticos nesse ponto, mas a segunda data é preferida pela maioria dos estudiosos)[7]. O fragmento de Júlio Africano que menciona Talo e Flegon é preservado por George Sincelo (que escreveu no século IX DC) 

Esta escuridão Talo, no terceiro livro de sua História, chama, como me parece sem razão, um eclipse do sol. Pois os hebreus celebram a páscoa no 14º dia de acordo com a lua, e a paixão de nosso Salvador termina no dia anterior à páscoa; mas um eclipse do sol ocorre apenas quando a lua fica sob o sol. E isso não pode acontecer em nenhum outro momento, a não ser no intervalo entre o primeiro dia da lua nova e o último da lua antiga, ou seja, na sua junção: como então deveria acontecer um eclipse quando a lua está quase diametralmente oposta? o sol? Deixe essa opinião passar, entretanto; deixe-o levar consigo a maioria; e que este presságio do mundo seja considerado um eclipse do sol, como outros, um presságio apenas para os olhos. Flegon registra que, no tempo de Tibério César, na lua cheia, houve um eclipse total do Sol da sexta à nona hora - manifestamente aquela da qual falamos. Mas o que um eclipse tem em comum com um terremoto, com as rochas dilaceradas e com a ressurreição dos mortos, e com uma perturbação tão grande em todo o universo? Certamente nenhum evento como este é registrado por um longo período. Mas foi uma escuridão induzida por Deus, porque aconteceu então que o Senhor sofreu.

O (possível) testemunho de Talo sobre os eventos da paixão de Cristo é um assunto que merece um post por si só, em nossa opinião (podemos incluir entre as resoluções para 2024!!!). Em geral, há uma polêmica significativa em relação ao que Talo (e Flegon) teriam escrito em relação a crucificação de Jesus, as trevas e o terremoto, com vários historiadores do cristianismo primitivo expressando opiniões divergentes. Mas como a discussão se dá principalmente em relação a relevância do que Talo teria escrito (até pela sua maior proximidade, em quase um século, com a crucificação), podemos manter nosso foco em Flegon. Sobre isso, Professora Loveday Alexander, da Universidade de Sheffield:

It is not surprising, then, to find that the first part of the gospel story known to pagans in the second century is the fact (and to differing degrees the manner) of Jesus' death. Possibly the earliest references to the gospel narratives occur in two early chronographers, Thallos (?mid to the late first century CE) and Phlegon of Tralles (second century CE), who report a solar eclipse with the in the reign of Tiberius. Both are cited by later Christian writers, who connect the eclipse with the gospel report of 'darkness' at the time of the crucifixion (a connection denied by Julius Africanus); thought it is unclear whether either Thallos or Phlegon mentioned the crucifixion himself (traduçãoNão é surpreendente, então, descobrir que a primeira parte da história do evangelho conhecida pelos pagãos no segundo século é o fato (e em graus diferentes a maneira) da morte de Jesus. Possivelmente, as primeiras referências às narrativas do evangelho ocorrem em dois primeiros cronógrafos, Talo (de meados ao final do século I dC) e Flegon de Trales (século II dC), que relatam um eclipse solar no reinado de Tibério. Ambos são citados por escritores cristãos posteriores, que conectam o eclipse com o relato do evangelho sobre as “trevas” no momento da crucificação (uma conexão negada por Júlio Africano); pensei que não estava claro se Talo ou Flegon mencionaram a crucificação[8];

De qualquer forma, a indícios de que Flegon tenha dito "algo" sobre um eclipse contemporâneo a crucificação, até pelas várias vezes em que é mencionado por escritores cristãos posteriores. Além disso, a menção ao eclipse parece surgir no contexto da outra observação sobre os poderes premonitórios de Jesus, também no mesmo 13° ou 14° livro. 

Os astrônomos Pang e Yau [9], observam que há registro de um eclipse solar em 24 de novembro do ano 29 DC, e de um eclipse lunar em 3 de abril de 33 DC. No entanto, apontam a inconclusividade dessas associações uma vez que "(...) Humphreys e Waddington (Nature 306, 743) sugeriram o escurecimento meteorológico e o eclipse lunar de 3 de abril de 33 DC. Schaefer questionou a visibilidade do eclipse em Jerusalém (31.46N, 35.14E). Os seis cálculos que ele citou deram respostas diferentes devido às taxas imprecisas da aceleração lunar secular e ao prolongamento do dia usado (...)", indicam que seus próprios cálculos, baseados em registros chineses, indicavam que o eclipse de abril de 33 DC foi visto em Jerusalém com a Lua em 1/3 na umbra (encoberta) e que "(...)o escurecimento meteorológico remanescente com massa de ar de absorção longa também poderia ter ajudado a avermelhar a lua (...)"[9].  o Professor Fred Espenak lista as várias vezes em que eclipses e outros eventos naturais foram associados pelos povos antigos a eventos de significância [10]. Por exemplo, as legiões na Panônia (Hungria) tinham iniciado uma rebelião ao serem informados da morte do Imperador Augusto (ocorrida em 19 de agosto do ano 14 DC, mas omitida por alguns dias pela sua esposa, Lívia, até que Tibério retornasse da Ilíria), mas teriam sido contidas ao presenciarem um eclipse lunar (que aconteceu em 27 de setembro do mesmo ano), conforme Cassio Dio e Tácito [10].

Assim, entendemos como o cenário mais provável uma citação ao eclipse, talvez contestando diretamente o relato evangélico. Mas desenvolveremos esse ponto em um post futuro.

Referências Bibliográficas

[1] Leslie Kelly, 2018 Prophets, Prophecy and Oracles in the Roman Empire: Jewish, Chrstian, and Greco-Roman cultures, fl. 29)
[2] Gerd Theissen e Annete Merz (1996) Jesus Histórico, Um Manual, fl. 83
[3] Markus Bockmuehl, 2012, Simon Peter in Scripture and Memory, fl. 107
[4] Leslie Kelly, 2018 Prophets, Prophecy and Oracles in the Roman Empire: Jewish, Chrstian, and Greco-Roman cultures, fl. 29)
[5] Markus Bockmuehl, 2012, Simon Peter in Scripture and Memory, fl. 107 
[6] Martin Hengel (2006) Saint Peter: The Underestimated Apostle, fl. 33
[7] Robert Van Voorst (2000) Jesus Outside the Gospels, fl. 21
[8] Loveday Alexander (2005) "Four Among the Pagans", in Markus Bockmuehl e Donald Hagner, The Written Gospel, fl. 225; 
[9] K D Pang e Yau K.K (2000) Eclipses and the Olympics, In American Astronomical Society, 197th AAS Meeting, id.23.01; Bulletin of the American Astronomical Society, Vol. 32, p.1439
[10] Fred Espenak  NASA - Lunar Eclipses of History Eclipse Predictions by Fred Espenak, NASA's GSFC. Cassio Dio, História Romana, Livro 57, 4 Cassius Dio — Book 57 (uchicago.edu) e Tacito, Anais, Livro 1, 28 LacusCurtius • Tacitus, Annals — Book I Chapters 16‑30 (uchicago.edu)

sexta-feira, 1 de julho de 2011

A Significância de Jesus e a Escala Richter de Impacto Histórico Parte 4.1: O Rei dos Judeus entre os Revolucionários

Em nossa série de posts "Jesus na Escala Richter de Impacto Histórico", iniciada em janeiro de 2010, fizemos considerações gerais a respeito das fontes históricas sobre Jesus, e que o consenso entre os historiadores é que é possível utilizar o método crítico para extrair informações sobre o Jesus Histórico e o cristianismo a partir dos evangelhos e de outros escritos cristãos. Na sequência, analisamos o testemunho de Josefo sobre Tiago, "irmão de Jesus chamado o Cristo", e sobre o próprio Jesus (o Testemunho Flaviano, ou TF), do qual concluimos pela autenticidade parcial, e analisamos as objeções mais comuns. Vimos também a relevância das breves afirmações dos historiadores romanos, Tácito, Plínio e Suetônio. Mais recentemente, situamos a evidência histórica disponível sobre Jesus, em um contexto mais amplo, dos eventos que alteraram completamente a natureza do mundo antigo - verdadeiros marcos históricos como a travessia do Rubicão e a Grécia do século posterior a Alexandre Magno - verificando que mesmo nesses casos, a atestação, embora significativamente superior a que nós temos para Jesus, é muitas vezes limitada. Nesse contexto, levando em conta a importância proporcional desses eventos para seus contemporâneos, a vida de Jesus pode ser considerada como relativamente bem atestada nas fontes não-cristãs.





Estamos chegando assim, a parte final de nossa série. Nosso objetivo agora é analisar os dados disponíveis sobre Jesus no seu contexto mais imediato, a Palestina sob domínio romano, e as personalidades daquele período, pretendentes messiânicos como Judas Galileu, Simão Bar Kochba, profetas carismáticos como João Batista e Hanina Ben Dosa e líderes religiosos como Hilel, o Mestre de Justiça e Gamaliel. Vamos comparar o impacto e atestação deixado por essas figuras nas fontes literárias e arqueológicas com as disponíveis para Jesus, e também tentar avançar nas semelhanças e diferenças das perpecções de seus contemporâneos.


Com a intenção de ilustrar nossa discussão, os resultados serão analisados de forma semi-quantitativa, considerando quatro níveis (fraco, moderado, grande, enorme), e três parâmetros, quais sejam, a intensidade do impacto (ou seja, se, por exemplo, estamos discutindo a ação de um agitador, se ele provocou um tumulto local, ou uma rebelião que se estendeu por uma região, como a Galiléia ou Judeia, ou até mesmo uma guerra civil de grande escala que impactou todo o Oriente Médio ou, em último caso, tenha forçado a intervenção direta do Imperador), a extensão do impacto (local, regional, geral, global), e por fim quanto a duração do impacto e seus efeitos (também considerando esta gradação em quatro níveis).





Vamos começar com três líderes revolucionários: Simão de Peréia, Judas Galileu e o Profeta Egípcio. A relevância da comparação com essas três figuras reside não só no que podemos esperar em termos de evidência, tal como registro arqueológico e menção em escritores no período, mas também em um elemento intrigante: o fato de Jesus ter sido executado como um subversivo.


O Rei dos Judeus: Muito poucos questionaram o fato de que Jesus foi crucificado como o Rei dos Judeus. Assim, sob o ponto de vista romano, Jesus foi julgado e condenado por dois delitos relacionados entre si, "perduellio", ou seja, por agir como um inímigo público dos interesses do Império e "crimen lasae maiestatis populi romani" [1] , por tentar subverter a ordem estabelecida pelos representantes e/ou prepostos do Imperador, do Senado, e do Povo de Roma. Como muitos estudiosos já observaram, tal fato dificilmente seria inventado pelos cristãos, pois além do constrangimento causado pela crucificação em si, os "cristãos não costumavam usar o título de "Rei dos Judeus" para Jesus (...) E se eles não utilizavam o título para Jesus, porque os relatos [dos mesmos cristãos] afirmam que ele foi executado por que teria reinvidicado esse título? Evidentemente porque ele foi julgado por causa do título", até porque a acusação de majestas contra Jesus representava riscos razoáveis para os seus seguidores, complicando ainda mais a vida de um grupo já perseguido, por ser "propício a mal entendidos políticos", alem do fato que a "Igreja rapidamente perdeu o interesse em converter judeus" de forma que "os autores dos evangelhos remodelaram e adaptaram as tradições que compilaram de acordo com o ponto de vista de um público habituado a ler grego e impregnado das idéias que circulavam no antigo mundo mediterrâneo - para eles a importância de Jesus não estava em ele ter sido o Rei dos Judeus, mas sim no fato de ele ter sido o Salvador do Mundo", finalmente, "as palavras da inscrição não contem alusões ao Antigo Testamento, e portanto podem não ter sido ditados pelo desejo de registrar as últimas horas de Jesus conforme a profecia divina", e concluindo que "Jesus foi morto por crucificação, e que sua cruz trazia uma inscrição indicando o motivo de sua condenação são os únicos fato sólidos e estabelecidos que podem ser tomados como ponto de partida de qualquer investigação dos relatos evangélicos de seu julgamento [2].


Se analisarmos os evangelhos, veremos o conceito de "Reino de Deus" multiplamente atestado nas fontes (Marcos, Q, L, M, João, Tomé e Paulo), como nas formas (parabolas, sermões, orações, aforismos, milagres...) [3]. Metade das parábolas fazem menção ao "Reino de Deus". Jesus foi crucificado entre dois "lestai", termo que embora seja traduzido comumente como "ladrão", leva uma conotação de "revolucionário" ou "guerrilheiro". Jesus teve Cristo (Messias) incorporado a seu nome, sendo que Messias, originalmente, é um conceito que possui amplas conotações políticas, envolvendo o estabelecimento de um Reino terreno, interpretado pelos judeus no I século como o fim do jugo romano. Os cristãos, reiteradamente, reinterpretaram o conceito messiânico como o de um Reino celestial, que seria estabelecido na terra apenas no fim dos tempos. Tais fatos indicam fortemente que a mensagem de Jesus da vinda iminente do "Reino de Deus" foi interpretada pela autoridades como subversiva a ordem imperial e perturbadora da Pax Romana, seja qual fosse seu conteúdo ou propósito original, e que os cristãos, constrangidos e ameaçados por essa "má impressão", buscaram desfazer esse "mal entendido".



1) Simão de Peréia:






Entre a morte de Herodes (4 AC) e a queda de Jerusalém (73 DC), houve uma série de agitadores, pregadores itinerantes, milagreiros, profetas que lideraram revoltas ou movimentos messiânicos. Uma lista deles é apresentada aqui, pelo Professor Jona Lendering [4]. Como pode ser observado, a principal (e na maioria das vezes única) fonte para todos eles é Josefo. No âmbito de seu primeiro livro "Guerras Judaicas", o relato de figuras contemporâneos de Josefo, com as quais ele teve oportunidade de interagir pessoalmente, como João de Giscala, Menaem e Simão Bar-Giora, é bastante detalhado. Eles são apontados como rebeldes fanáticos que levaram o povo judeu a catástrofe que causou a destruição de Jerusalém. Então eles são, de alguma forma, a razão de ser daquela narrativa. No entanto, para os pretendentes messiânicos mencionados em Antiguidades, e mesmo nos dois primeiros livros de Guerras Judaicas (no período anterior ao incio do conflito em 66 DC), como Teudas, Judas Galileu, João Batista e Simão de Peréia os relatos são geralmente muito curtos, não excedendo alguns parágrafos. Se observamos a história desses pretendentes messiânicos, vamos perceber um padrão de aparecimento súbito, origem obscura, são seguidos por multidões, e, diante da ação repressora das autoridades, o lider é capturado ou foge, e os seguidores se dispersam [5].


O interesse por essas figuras não foi compartilhado pelos muitos escritores que viveram no período. Por exemplo, Filo de Alexandria (20 AC - 50 DC), não menciona nenhum dos pretendentes messiânicos citados pro Josefo. Ele nada diz sobre as violentas revoltas lideradas por Simão de Peréia, Atronges, ou Judas Galileu, em que milhares de judeus foram mortos, com seus cadáveres sendo pisados pelas botas dos soldados romanos. Embora Filo discuta o carater violento do Governador Pôncio Pilatos ocasionalmente, não menciona o comportamento dele em relação a Jesus de Nazaré ou a repressão violenta a multidão liderada pelo profeta Samaritano (episódio que levou a destituição de seu cargo). Fora dos escritos de Flávio Josefo, somente Lucas menciona a existência de alguns desses lideres populares (Teudas, o Egípcio, e Judas Galileu) em Atos dos Apóstolos, além de Tácito que faz uma breve referência a Simão de Pereia (único pretendente messiânico, além de Jesus, a ser citado em uma fonte greco-romana).



"Houve também um certo Simão, que tinha sido escravo do rei Herodes, mas em outros aspectos, uma pessoa decente, que tinha uma compleição alta e robusta, e muito superior aos outros de sua ordem, e a seus cuidados foram confiadas coisas muito importantes. Este homem se destacou no estado desordenado em que as coisas estavam, e foi tão ousado que colocou uma diadema na cabeça, e foi seguido por muitos apoiadores, que o proclamaram Rei, convencendo-se que era mais digno do que qualquer outro. "Ele queimou o palácio real em Jericó, e saqueou o que restou dele. Ele também ateou fogo em muitas outras das casas do rei em vários lugares do país, destruindo-os totalmente, e permitiu que aqueles que estavam com ele squeassem os despojos. Teria realizado maiores proezas, se medidas repressivas não tivessem sido tomadas imediatamente. [O comandante da infantaria de Herodes] Grato juntou alguns soldados romanos as forças que tinha com ele, e foi ao encontro de Simão . E depois de uma grande e longa luta, grande parte daqueles que vieram da Peréia (um corpo desordenado de homens, lutando de forma ousada, ainda que inábil) foram destruídos. Embora Simão tenha conseguido evadir-se através um vale certos, Grato alcançou-o e cortou-lhe a cabeça." (Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 17.273-276)



"Quando Herodes morreu, sem esperar pela decisão imperial, um certo Simão usurpou o título de Rei. Ele foi subjugado pelo Governador da Síria, Quintilio Varo, e naquela ocasião os judeus foram divididos em três reinos governados pelos filhos de Herodes. (Tácito, Historias 5:9)


Com o relatado acima, a morte de Herodes, o Grande, resultou em uma grande crise. Em várias partes da Judéia houve tumultos, e três líderes surgiram, Judas, Filho de Ezequias (algumas vezes identificado com Judas Galileu), na Galiléia; Atronges, na Judéia; e Simão na região em torno do Mar Morto. Os filhos de Herodes -Arquelau, Antipas e Filipe - não conseguiram sufocar a rebelião. Assim, o Legado Romano na Sírio, Quintílio Varo, teve de intervir. Marchando com três legiões sobre seu comando (cerca de 20 mil soldados), as tropas romanas destruiram Sefóris e Emaus, e crucificaram cerca de 2 mil pessoas (Guerras 2:72-77 e Antiguidades 17:286-298), numa das maiores execuções em massa já realizada pelo Império.


Apesar de ter sido uma revolta violenta, sufocada a um grande custo, e com dificuldade, o fato é que Flávio Josefo constitui, basicamente, nossa única fonte remanescente. Quanto aos lideres da rebelião, Simão de Peréia foi, provavelmente, o mais proeminente, tanto pela descrição de Josefo, quanto pelo fato de ter sido o único pretendente messiânico (anterior a Primeira Guerra Judaico Romana) do qual temos registro em autores romanos (além, é claro, de Jesus de Nazaré). Simão conseguiu um parágrafo em Tácito. Um feito surpreendente.




Nesse ponto, podemos ressalvar que é possível que existam fontes a respeito de Simão de Peréia (e Atronges), hoje perdidas, principalmente aquelas que possam ter sido utilizadas ou mencionadas por Tácito e Josefo. Infelizmente, nenhum dos dois nomeiam suas fontes (ou sequer declaram que utilizaram) nessa parte específica da narrativa. No entanto, é sábido que em Guerras, e principalmente em Antiguidades, Josefo utilizou as obras do secretário e historiador da corte de Herodes, Nicolau de Damasco, contemporâneo dos eventos. O Professor Ben Zion Wacholder, do Hebrew Union College, observa que Nicolau é uma fonte fundamental para os livros XIII a XVII de Antiguidades Judaicas, embora Josefo apenas ocasionalmente mencione a fonte em que se baseou, e os estudiosos tenham que analisar caso a caso (por exemplo, Josefo teria utilizado um relato detalhado de Nicolau sobre os hasmoneus em Antiguidades, mas não em Guerras) [6]. Embora nenhum dos livros de Nicolau de Damasco tenha chegado a nosso tempo, existe um número significativo de fragmentos, e o mais extenso é justamente o que lida com final do reinado de Herodes [6]. O relato de Nicolau seria de suma importância, uma vez que ele era um contemporâneo dos eventos, e seus escritos eram considerados confiáveis. No entanto, nesse longo fragmento Nicolau é extremamente sucinto no que se refere a revolta "Apos esses eventos, e passado um pouco de tempo, o Rei [Herodes] também morreu, e a nação se levantou contra seus filhos, e contra os gregos. Esses últimos contavam mais de dez mil. Na batalha que se seguiu os gregos foram vitoriosos" [7]. Ou seja, nos fragmentos disponíveis de Nicolau de Damasco, ele não menciona os líderes da revolta. Ainda, Wacholder observa que o "relato da revolta dos judeus como sendo direcionado contra os gregos, não é encontrado em Josefo" [7].



Sobre a possibilidade das partes perdidas de Nicolau de Damasco trazerem informações sobre seus Simão e os outros líderes da revolta, Professor Eliezer Paltiel, da Universidade de Melbourne, escreve:



"Nor can Nicolaos claim exclusive rights to Josephus' story of the actual war. Nicolaos was in Rome at the time of the hostilities. He had come in order to perform a last favor for the dead king by pleading the cause of his eldest surviving son. Nicolaos was heartily tired of Judaea, and there is no reason to assume that he ever inquired into Jewish affairs again ("). As we shall see, he had good reason to be acquainted with the military reports that reached Rome, but these reports were only part of the story. On them is ultimately based BJ, II, 5, 1-3 (66-79) ; AJ,XVII, 10, 9-11, 1 (286-299). In these last passages Josephus does not remember a single name of a rebel leader. One name that may have been - probably was - contained in the Roman general's report was that of Simon of Peraea, which found its way into the pages of Tacitus (I2). Tacitus does too much honor to Simon, and his notice is incontradiction with BJ, II, 4, 2 (59) ;AJ, XVII, 10, 6 (276). We must conclude thatthe Roman commander's report was slightly misleading. Josephus, however, possessed more detailed information concerning the various rebels, which he presents to us in BJ, II, 3, 4-4, 3 (5 1 -65) and in AJ, XVII,10, 3-8 (265-285) (14)." [8]

(tradução) Nicolau não pode reinvindicar direitos exclusivos sobre a narrativa de Josefo dos eventos da Guerra. Nicolau estava em Roma na época das hostilidades. Ele tinha ido para lá com o intuito de prestar um último serviço para o rei morto, defendendo a causa do seu filho mais velho sobrevivente. Nicolou estava profundamente cansado da Judéia, e não há razão para assumir que ele tenha tido interesse sobre os assuntos judaicos novamente. Como veremos, ele tinha boas razões para estar familiarizado com os relatórios militares, que chegaram a Roma, mas esses relatórios eram apenas uma parte da história. A partir deles é, em última análise, baseada Guerras Judaicas, II, 5, 1-3 (66-79); e Antiguidades Judaicas, XVII, 10, 11/09, 1 (286-299). Nestas passagens, Josefo não menciona pelo nome um único líder rebelde. Um nome que pode ter sido - e provavelmente foi - mencionado no relatório do general romano era a de Simão de Pereia, que acabou encontrando abrigo nas páginas de Tácito. Tácito faz muitas honras a Simon, e seu relato esta em contradição com Guerras Judaicas, II, 4, 2 (59); e Antiguidades Judaicas, XVII, 10, 6 (276). Devemos concluir então que o relatório do comandante romano foi um pouco enganoso. Josefo, no entanto, possuía informações mais detalhadas sobre os diversos. rebeldes, que ele nos apresenta em Guerras, II, 3, 4-4, 3 (5 1 -65) e em Antiguidades Judaicas, XVII, 10, 3-8 (265-285) (14). [8]



Na sequência Paltiel conclui que a descrição de Josefo sobre Simão, Atronges e Judas, Filho de Ezequias era proveniente "de fontes desconhecidas de Nicolau de Damasco" [8]. Em suma, nos não temos menção a Simão de Pereia nos fragmentos remanescentes dos livros do escritor contemporâneo Nicolau de Damasco, que tratam da revolta, e mesmo a possibilidade de que tenha se referido ao lider rebelde em outras partes, hoje perdidas, de sua obra utilizadas por Josefo, é improvável. No entanto, uma vez que o relato de Tácito contradiz em pontos importantes o de Josefo, é bem possível que o escritor romano tenha utilizado um relatório militar hoje perdido, mas o qual, de qualquer forma, ele não menciona, bem como qualquer outra de suas fontes sobre a revolta. Logo, estamos reduzidos a Tácito e Josefo no nosso conhecimento de Simão de Peréia.

("Aonde estão aquelas dezenas de historiadores contemporâneos, que viviam em torno do Mediterrâneo, quando se precisa deles! Porque eles não mencionaram Simão de Peréia e seus feitos? Bando de perguiçosos!!!!)


Como observam o Professor John D Crossan e o Professor Jonathan Reed


"Na Antiguidade, os governantes, os ricos ou seus escribas eram os únicos que sabiam ler e escrever, assim, as histórias, biografias e narrativas que sobreviveram até hoje foram escritas ou ditadas principalmente pelos poderosos. Interessavam-se por pessoas públicas e por conflitos públicos. Pouco se importavam com a vasta maioria do povo e com o que acontecia nas pequenas cidades ou vilas rurais, como, por exemplo, a pequena vila de Nazaré, a não ser quando causavam problemas ou ameaçavam a estabilidade e a economia" [9]



Assim, assumindo que Jesus congregou multidões em número semelhante a de alguns desses pretendentes messiânicos, teriamos que a sua atestação reflete justamente o que se esperaria de um lider carismático que reune multidões alvoroçadas com a possibilidade de terem encontrado o Messias. Os autores que escreviam as grandes histórias do período, como Josefo, Tácito, Suetônio simplesmente não estavam interessados em líderes carismáticos, profetas e milagreiros populares de provincias pouco importantes; seu interesse surgia apenas quando lideram movimentos que perturbações na pax romana. Nesse aspecto, para Tácito ou Josefo, por mais estranho que possa parecer em nossa perspectiva, alguém como Simão de Peréia merecia mais espaço do que Jesus, justamente por ter representado uma maior perturbação a ordem estabelecida. Em sua visão Jesus e (principalmente) os cristãos representavam uma fonte de amolação e problemas, as menções a Jesus e seu movimento em Tácito, Plínio e, Suetônio se referem a tumultos em que os cristãos estavam envolvidos e o Testemunho Flaviano original muito provavelmente relatava uma atrocidade cometida contra Jesus (a crucificação de um inocente), ou um Tumulto causado por causa dele. No entanto, nesse quesito, Simão de Peréia se saiu um pouco melhor, pois forçou três legiões a sairem de seus quartéis, e alguém como Quintilio Varo pode adicionar uma importante vitória militar em seu currículo. Por isso, Josefo e Tácito dedicam a ele mais espaço do que Jesus.



O leitor não deve ter a impressão que minimizamos o impacto desses pretendentes messiânicos. Os movimentos liderados por Atronges e Simão de Peréia devem ter varrido a Judéia como um terremoto, ou um tsunami. Impactaram violentamente a vida de dezenas milhares de pessoas. A questão é que seu "epicentro" estava muito distante das elites, e não representaram um impacto duradouro no curso do Império, além do problema comum a toda a antiguidade de que apenas uma pequena parte dos artefatos e escritos antigos chegou até nós. Em conjunto, a sobreposição desses fatores, atenuou seus efeitos, de forma que chegam até nós como punhados de frases em curtos parágrafos, como que se os movimentos que eles causaram tivessem sido leves tremores ou "marolinhas". Na verdade, é justamente o contrário: por terem perturbado muito, foi lhes concedido esse curto espaço, quase como notas de rodapé. Assim, o simples fato de que Jesus foi mencionado por Josefo e Tácito (mesmo que brevemente) é forte evidência que ele causou muita dor de cabeça.



Assim, podemos avaliar que a intensidade do impacto dos feitos de Simão de Peréia foi grande, a extensão desse impacto foi geral (3° nível em nossa escala, pois forçou a mobilização das legiões estacionadas na Síria, e a intervenção do Legado Imperial Quintilio Varo), embora o duração da revolta e seus efeitos tenha sido moderada, ja que, uma vez dominada, não forçou nenhum rearranjo permanente na estrutura politica e social da Palestina Romana.



2) Judas Galileu




"Havia um certo Judas, um Galileu, de uma cidade chamada Gamala, que, levando consigo Zadoque, um fariseu, tornou-se zeloso para atraí-los a uma revolta. Ambos disseram que essa tributação não era melhor do que à escravidão, e exortou a nação a fazer valer sua liberdade, como se pudessem adquirir felicidade e segurança além do que já possuíam, e um gozo garantido de um bem ainda maior, que era da honra e da glória que lhe permitiria adquirir magnanimidade. Eles também disseram que Deus não lhes ajudaria, a menos que se unissem em torno de seus conselhos, de como poderiam ser bem sucedidos, e para sua própria vantagem, que se estabeleceria por meio de grandes façanhas, e não se cansassem na busca das mesmas. Então, os homens recebiam o que eles disseram com prazer, e a ousadia de seus esforços aumentou cada vez mais. Todos os tipos de infortúnios surgiram a partir destes homens, eo país estava infectado com essa doutrina a um nível incrível. Uma após outra, violentas guerras cairam sobre nós, e perdemos os nossos amigos, que aliviavam nossas dores. Houve também roubos e o assassinato de nossos principais líderes. Isto foi feito pretensamente a título do bem público, mas na realidade com esperança de ganho pessoal, fomentando a sedição, e causando mortícinios, às vezes perpetrados contra seu próprio povo (pela loucura desses homens um contra o outro, já que seu desejo era exterminar todos da parte contrária), e às vezes de seus inimigos. A fome nos atingiu, e reduziu-nos até o último grau de desespero, como fez também a tomada e a demolição de nossas cidades, e por fim, a sedição atingiu a um nível tão alto que o templo de Deus foi queimada pelo fogo de seus inimigos. Essas foram as conseqüências, uma vez que alteraram o modo de vida de nossos pais, de tal maneira, que pesaram decisivamente para trazer tudo para a destruição (Flavio Josefo, Antiguidades Judaicas 18:4-9).



"Judas Galileu foi o fundador do quarta seita da filosofia judaica. Estes homens aceitavam em tudo as opiniões dos fariseus; mas possuiam um vínculo inquebrantável com a liberdade, e diziam que Deus era seu único Senhor e Rei. Eles também não davam valor a suas próprias vidas, nem a vida de seus parentes e amigos, e nada os faria serem súditos de homem algum" (Flavio Josefo, Antiguidades Judaicas 18:23)



"(...) Depois dele levantou-se Judas, o galileu, nos dias do recenseamento, e levou muitos após si; mas também este pereceu, e todos quantos lhe obedeciam foram dispersos. (Atos dos Apóstolos 5:37)


Josefo, quase que exclusivamente entre os escritores da Antiguidade, colecionou historias dos "bandidos, profetas e" candidatos a "messias" (parafraseando o título do livro do Prof. Horsley), que tanto perturbaram a pax romana na Judéia do século I. No entanto, Judas Galileu é para Josefo uma obsessão. Além de fundar uma nova seita do judaismo, ele atraiu a muitos, que ouviam com prazer sua doutrina, que como uma praga, "infectou a nação", levando a vários levantes e, ao fim, a Guerra com os Romanos e suas funestas consequências. Judas Galileu é importante também não só por seu ensino mas porque muitos de seus descendentes estiveram envolvidos em momentos decisivos de agitação revolucionária. Em 47 DC, Tiago e Simão, filhos de Judas, foram executados pelo Procurador Tibério Alexandre (Ant. 20.100-103), em um momento em que o país passava por uma grande fome (o que pode ter sido utilizado por eles para fomentar a rebelião). Durante a Guerra Judaica, Menaem, descendente de Judas, proclamou-se Rei. Quando Jerusalem caiu, Eleazar ben Jair, primo de Menahem (e portanto parente de Judas), foi um dos líderes da resistência em Massada. A menção a Judas Galileu e sua família são essenciais para as finalidades apologéticas da narrativa de Josefo junto a seus leitores da aristocracia romana. As inovações de Judas teriam iludido e desencaminhado a nação, pois seus ensinos "alteraram o modo de vida de nossos pais, de tal maneira, que pesaram decisivamente para trazer tudo para a destruição" (Ant. 18:9), o legado de sua loucura foi de agitação, fome, destruição das cidades e do Templo de Deus (18:7-8). Judas Galileu e sua escola são o bode expiatório perfeito para Josefo, e caem como uma luva para sua narrativa. Tanto Josefo, quanto Atos dos Apóstolos, localizam Judas Galileu na época do recenseamento realizado quando os romanos transformaram a Judéia em província, em 6 DC.


Deve ser observado que Josefo menciona também um certo Judas, que saqueou o palácio de Herodes na Galiléia, após sua morte, em cerca de 4 AC, e que era filho do arqui-ladrão Ezequias (Antiguidades 17:271-272 e Guerras 2:56) que Herodes, então governador da Galiléia, executou em 47 AC (14:163-177). Alguns estudiosos, como Geza Vermes [10], identificam esse Judas, Filho de Ezequias com Judas Galileu, enquanto outros, como Steve Mason, Gerd Thiessen e Annete Merz, não estão tão confiantes [11]. Se os dois forem a mesma pessoa, teríamos uma dinastia revolucionária, que se inicia com o arqui-ladrão Ezequias, em meados do sec. I AC e que atua até a Guerra Judaica, mais de 100 anos depois, com quatro gerações da família sempre na vanguarda da agitação política. No entanto, vamos considerar Judas Galileu e Judas Filho de Ezequias como pessoas distintas.


Os escritores contemporâneos de Josefo, no entanto, pareceram não estar dispostos a gastar tinta com Judas Galileu. Filo de Alexandria, importante fonte dos assuntos Judaicos no período, nada diz sobre Judas Galileu. O grande "vilão" e "aliciador" galileu também não é mencionado no relato das campanhas romanas na Judéia [12], escrito por Tácito (Histórias 5:9-13) , e nas ocasionais referências de Suetônio a grande revolta (A Vidas dos Doze Césares, Vespasiano ; Tito ). Judas "Che Guevara" Galileu não fez muito sucesso fora dos escritos de Josefo.


[E aqui, de novo, perguntamos: "Onde estão aqueles 40 escritores, mencionados na lista de Remsburg, que viviam no Mediterrâneo mais ou menos na época em que Judas viveu, quando se precisa deles? Se adicionarmos o fato de que Lucas pode ter usado Josefo como fonte, e que Josefo tinha motivos apologéticos a defender, sendo conveniente encontrar meia duzia de fanáticos como bode expiatório como causa da Guerra - e trilhando o caminho hipercético as vezes encontrado em certos círculos - poderíamos perguntar, retoricamente, "será que Josefo simplesmente não inventou Judas Galileu?" (Como dizem os americanos, "Where there is a will, there is a way", com retórica, e suficiente disposição para torturar os dados, não considerando o contexto mais amplo da antiguidade, você pode chegar a conclusão que você quiser, por mais absurdo que seja).]

Assim, podemos avaliar que a intensidade do impacto, por ocasião de seu surgimento, dos feitos de Judas Galileu foi moderada, e a extensão desse impacto parece ter sido apenas regional, (por ocasião do recenseamento, apenas a Judéia foi submetida a taxação e domínio direto dos romanos). A doutrina de Judas e Zadoque atraiu a muitos, é fato, mas, naquele momento, parece não etr havido uma revolta generalizada. Por outro lado, a doutrina de Judas perdurou por décadas, sendo propagada por sua escola e seus descendentes, impregnando a nação, e levando, por fim, a Grande Revolta, ou seja, a duração do impacto e seus efeitos foi grande.



3) O Profeta Egípcio



Um prejuízo maior causou os judeus o falso profeta do Egito. Chegou um milagreiro enganador ao país que se apresentava como falso profeta e reuniu 30.000 vítimas de seu engodo. Ele os conduziu até o Monte das Oliveiras e de lá pretendiam entrar com violência em Jerusalém., tomar de surpresa a guarnição romana e torna-se dominador sobre o povo com o auxílio de seus companheiros armados. Félix, no entanto, antecipou-se a seu ataque com soldados romanos; o povo também participou da defesa, de forma que o egípcio, na batalha que se seguiu, pode fugir com uns poucos. A maioria de seus seguidores, no entanto, foi morta ou capturada. O restante se espalhou, e cada um tentou se esconder em casa (Flávio Josefo, Guerras Judaicas, 2:261-263)

[Josefo reconta basicamente a mesma história em Antiguidades 20:169-171]


Não és porventura o egípcio que há poucos dias fez uma sedição e levou ao deserto os quatro mil sicários? (Atos dos Apostolos, 21:38)


O egípcio se enquadra muito bem na categoria de profeta de sinais, que promete ao povo a libertação de seus sofrimentos e de seus inimigos, evocando o exemplo de Moisés, e, neste caso específico, Josué (que fez os muros de Jerico serem derrubados, Josué 6:20) , além de evocar a crença popular, baseada na interpretação de Zacarias 14:3-9, de que nos últimos dias o Senhor, do Monte das Oliveiras, lancaria seus exercítos contra os inimigos de Israel, ocupantes da cidade santa [13]. O Professor Jona Lendering observa que o termo utilizado por Josefo "tyrannein" , (tornar-se o soberano, um tirano), para descrever as intenções do egípcio, o que indica uma reinvindicação real. Então o egício se enquadra também na categoria de pretendente messiânico.



Em guerras o número de 30.000 seguidores do egípcio parece grandemente exagerado. A população inteira de Jerusalém no período era de cerca 50.000. Quinze anos depois de escrever as Guerras Judaicas, Josefo relata em Antiguidades que 400 seguidores do egípcio foram mortos no confronto, e outros 200 foram capturados na invasão mal-sucedida, (sendo que o egípcio e o restante de seus soldados fugiram em retirada), mas não diz o número total de seguidores do falso profeta. Atos dos Apóstolos fala em 4 mil seguidores, que parece um número (mais) plausível. Impressiona a facilidade com que o Egípcio arregimentou seguidores, convencendo-os a marchar contra uma tropa romana pesadamente armada e bem treinada em uma cidade altamente fortificada como Jerusalém. No entanto, como observa o Professor Richard Horsley, o tumulto liderado pelo egípcio encontra paralelo na ação de Teudas, 10 anos antes, e do Profeta Samaritano, 20 anos antes, e aponta uma predisposição das massas diante da mensagem de livramento imediato por parte do Senhor, e o anseio por parte dos profetas e seus seguidores de participar de um ato de libertação divino [14]. O ar estava carregado de fervor messiânico e apocalíptico.


O caso do Profeta Egípcio, como os outros já apresentados, também é util por nos oferecer o tipo de atestação externa esperado para líderes carismaticos que conduziam multidões no século I DC, como Jesus de Nazaré ou João Batista. Embora o egípcio, conforme o relato de Josefo, tenha atuado como milagreiro (enganador) e (falso) profeta, e tenha persuadido a milhares de pessoas, e os tenha reunido para marchar contra uma das mais importantes cidades do Oriente Romano, e uma batalha tenha se seguido e , centenas, quem sabe milhares, tenham sido mortos, nos não sabemos quase nada sobre o "Egípcio", nem mesmo seu nome. E como Josefo e Atos dos Apostolos são as únicas fontes sobre o tumulto, e nenhum artefato arqueológico é associado a revolta, vamos continuar carentes de informação sobre esse episódio. Ainda que tenha sido um acontecimento que faria a "Breaking News" da CNN se ocorresse em nosso tempo.



E, para variar, "Agora, onde estavam os quarenta e tantos escritores antigos contemporâneos a malograda invasão de Jerusalém, inspirada pelo profeta egípcio, que não mencionaram esse fato?

Podemos avaliar a intensidade do impacto dos feitos do Profeta egipcio foi grande, ainda que extensão desse impacto parece ter sido apenas regional, embora o duração da revolta e seus efeitos não tenham sido duradouros, apenas moderados.


Referências Bibliográficas
[1] Gerd Thiessen e Annete Merz (1996), O Jesus Histórico: Um Manual, fl. 485-486

[2] Bart Erhman (2000), Jesus, apocalyptic prophet of the new millennium, fls. 217-223, (particularmente fl. 222-223); Gerd Thiessen e Annete Merz (1996). O Jesus Histórico: Um Manual, fl.485; Alan F. Seagal (2005), "Jesus and the Gospels-What Really Happened", [1] Believe Only the Embarrassing, Slate, http://www.slate.com/id/2132974/entry/2132989/, acessado em 29.04.2011; Paul Winter (1974), "Sobre o Julgamento de Jesus", fls. 217 e 219.
Além das referências acima, podemos acrescentar, como já observamos anteriormente, que a crucificação de Jesus sob a acusação de ser o Rei dos Judeus era muito perigosa para os primeiros cristãos dado seu status legal precário no Império Romano. Os evangelhos foram escritos, provavelmente, entre a 1ª Guerra Judaica (66-73 DC) e 2ª Guerra Judaica (132-135 DC). No século I DC e início do seculo II, houveram inúmeras revoltas, provocadas por auto-proclamados "Reis dos Judeus" e "Messias", que causaram a morte de (dezenas de) milhares de pessoas, dentre os quais milhares de bons soldados e cidadãos de Roma. No mesmo período, a igreja era perseguida e o cristianismo era uma seita ilegal, sendo que alguns oficiais e magistrados suspeitavam que o grupo era formado por agitadores, desleias a Cesar e a Roma. De fato, Aristides, Quadrato, Justino Martir, Melito, Apolinario, e outros, escreveram ao Imperador da época buscando incessantemente provar que os cristãos eram leais, pacíficos e produtivos e perfeitos súditos do Império. Porque, nessas circunstâncias, os cristãos inventariam que seu líder tinha sido um Messias Crucificado, executado como um criminoso político, por magistrados romanos, sob a acusação de Alta Traição? Certamente porque Jesus foi realmente crucificado, por ter sido acusado (justa ou injustamente) de se auto-proclamar "Rei dos Judeus", e essas coisas eram fatos conhecidos (e problemáticos) que os cristãos tinham que explicar.
Entre os várias relatos em que os cristãos primitivos são pressionados a refutar acusações de alta traição e desfazer mal-entendidos em relação ao "Reino" de Jesus, temos Justino Martir, em sua 1ª Apologia ( cerca de 150 DC), dirigida ao Imperador Antonino Pio e ao Senado Romano, afirmando que o "Reino" que os cristãos buscavam não era humano ou terrestre, mas celestial (1ª Apologia, Capítulo 11). Da mesma forma, Hegesipo (cerca de 170 DC), relata que os netos de Judas, irmão de Jesus, foram interrogados pelo Imperador Vespasiano, no final do século I, a respeito de sua descendência Davídica, de Cristo, e da natureza de seu Reino (citado por Eusébio de Cesaréia, Historia Eclesiastica Livro 3: capítulo 20). Por fim, lemos em Atos dos Apostolos (80-90 DC), que, durante sua 3ª Viagem Missionária (50-52 DC), Paulo e seus colaboradores foram acusado em Tessalônica de "proceder contra os decretos de César, dizendo haver outro rei, que é Jesus" (Atos 17:7), forçando Paulo e Silas a fugirem para Beréia (17:9).
[3] John P. Meier, Um Judeu Marginal, Livro 2, Volume 2, fl. 10.
[4] Jona Lendering, Messianic claimants http://www.livius.org/men-mh/messiah/messianic_claimants00.html, acessado em 20.06.2011.
[5] A analise acadêmica de referência sobre esses movimentos é o livro do Professor Richard Horsley, "Bandits, prophets & messiahs: popular movements in the time of Jesus"; para o padrão mencionado, ver, principalmente, fls. 162-171.
[6] Ben Zion Wacholder Josephus and Nicolaus of Damascus in Louis Feldman & Gohei Hata (1988) Josephus, the Bible, and History, fl. 147, 152-157
[7] GLAJJ, F97, linhas 53-71. (GLAJJ é a sigla para a coleção Greek and Latin Authors on Jews and Judaism, organizada por Menahem Stern, volume I, 1974; F97 = fragmento 97). O fragmento em questão é reproduzido por Ben Zion Wacholder, Josephus and Nicolaus of Damascus in Louis Feldman & Gohei Hata (1989) ...., fls. 156-158 (ver nota 109, à fl. 169).
[8] Eliezer Paltiel (1981) War in Judaea - After Herod's death. In: Revue belge de philologie et d'histoire. Tome 59 fasc. 1, 1981. Antiquité. pp. 107-136. (especificamente fls. 110-111)
[9] John D. Crossan e Jonathan Reed (2003) Em Busca de Jesus, fl. 65
[10] Geza Vermes (2001) Quem é Quem na Época de Jesus, fl. xxx;
[11] Steve Mason (2008), Flavius Josephus, translation and commentary, volume 1b, Judean War (200), fl. 81, nota 724; Gerd Thiessen e Annete Merz (1996), O Jesus Histórico, Um Manual, fl. 163.
[12] Jona Lendering, Messianic Claimants (4), Judas the Galilean http://www.livius.org/men-mh/messiah/messianic_claimants04.html, acessado em 30.06.2011
[13] Jona Lendering, Messianic Claimants (10), The Egyptian Prophet http://www.livius.org/men-mh/messiah/messianic_claimants04.html, acessado em 30.06.2011 [14] Richard Horsley e John S. Hanson (1999), Bandits, prophets & messiahs: popular movements in the time of Jesus, fls. 168-170.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

post sobre Tiago irmão de Jesus atualizado

O post sobre a referência a Tiago, irmão de Jesus, por Flavio Josefo, em Antiguidades 20:9:1 (§ 200), na Série Jesus na Escala Richter de Impacto Histórico, foi atualizado, com algumas observações acrescentadas.

" Alías, o uso de um deslize de uma figura poderosa, como pretexto para enfrace-lo, por seus adversários políticos não é algo incomum seja na Antiguidade quanto no presente. O fato de que Josefo, explicitamente, começa seu relato afirmando que Anás era saduceu, enquanto que indica que a ação para contesta-lo teve origem nos que eram "zelosos observadores da Lei" (fariseus), é forte indício de que o ato precipitado de Anás foi visto por alguns como uma oportunidade para indispor ele e sua poderosa família com os romanos, dando chance a um novo equilibrio de poder. Assim, a pressa de alguns desses zelosos observadores da Lei em encontrar Albino ainda no caminho de Alexandria, não se deu tanto em razão de sua angustiados pela execução de Tiago e seus companheiros, ou porque estivessem preocupados com minúcias do direito romano, mas porque a ação precipitada e inusitadamente ousada do Sumo Sacerdote, usurpando poderes formais do Procurador, abriu uma avenida de oportunidades para seus adversários políticos."

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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A Significância de Jesus e a Escala Richter de Impacto Histórico Parte 3: Qual o Impacto de um Fato Histórico?

Continuando nossa série Jesus na Escala Richter de Impacto Histórico (ano novo, vida nova), gostaria de falar um pouco de fatos históricos e suas consequências.
O ponto de partida da série, foram as afirmações que volta e meia, e principalmente na Internet, encontramos :

Se Jesus pregou para multidões, teve doze discípulos, realizou curas e todas aquelas coisas da Bíblia, porque quase nenhum historiador judeu ou gentio falou sobre ele?
É so isso temos para o Filho de Deus? Ninguém lembrou dele? Será que ele existiu mesmo?
A Bíblia diz que multidões seguiam a Jesus, que sábios vinham de vários lugares para ouvir Jesus. Porque nenhum deles escreveu nada sobre ele?
Se Jesus tivesse realmente existido, escritores como Filo de Alexandria, Veleio Paterculo, Justus de Tiberíades, Sêneca, Plínio o Velho, Lucano e Plutarco teriam dito algo sobre ele.

No primeiro post da série nós conversamos um pouco sobre os problemas associados a esse tipo de argumento, de que a falta ou escassez de referências não cristãs a Jesus seria uma prova de sua inexistência ou irrelevância histórica. As vezes são apresentadas listas de autores que viviam no Império Romano nos 100 seguintes a morte de Jesus (em uma dessas listas, elaborada no final do séc. XIX pelo escritor Jonh Remsburg, são mencionados 43 autores) e pergunta-se "se Jesus existiu, se realizou tão grandes feitos, como pode não ter sido notado por esses escritores"? Como pode ter sido mencionado apenas por 3 ou 4 autores, em textos que não maiores que um parágrafo?.

Naquela ocasião mostramos como o consenso dos historiadores é justamente o contrário, e de que os evangelhos são usados como fonte histórica. Discutimos o fato de que se a avaliação dos pesquisadores varia muito e apresenta extremos, havendo aqueles que aceitam a tradição evangélica como basicamente confíavel até aqueles que defendem uma visão muito mais cética, concluindo que cerca de 10 % do que é atribuido a Jesus nos evangelhos teria sido provavelmente dito ou realizado por ele, e que entre estes extremos, a maioria dos críticos se posiciona em um amplo espectro de opiniões. O fato é que mesmo mesmo nessa visão bem minimalista teriamos por volta de 50 feitos e ditos de Jesus considerados como provavelmente autênticos, mesmo utilizando os critérios históricos de forma extremamente rigorosa. Na sequência, analisamos o testemunho de Josefo sobre Tiago, "irmão de Jesus chamado o Cristo", e sobre o próprio Jesus (o Testemunho Flaviano, ou TF), do qual concluimos pela autenticidade parcial, e analisamos as objeções mais comuns. Vimos também a relevância das afirmações dos historiadores romanos, Tácito, Plínio e Suetônio.

Mas dito isso qual o impacto de Jesus deixou no registro histórico? Qual a relevância das fontes que temos (cristãs ou não cristãs)? O que temos é o que poderíamos esperar?

No primeiro post da série "prometemos":
Além de analisar os relatos (ou falta deles) para pessoas e eventos contemporâeos a Jesus (um século antes e depois de sua morte), vamos comparar o impacto e atestação deixado por esses eventos e pessoas nas fontes literárias, com aquele deixado por Jesus de Nazaré. Uma espécie de "Escala Richter de Impacto Histórico"

Neste post, vamos começar com eventos que alteraram completamente a natureza do mundo antigo, verdadeiros marcos históricos, e sua atestação - Pedimos, porém, aos leitores para aumentar "um pouco" o período que haviamos proposto inicialmente, para incluir eventos que ocorreram vários séculos anteriores ou posteriores a Jesus (serão exemplos interessantes, prometo). Vamos falar um pouco também de como os textos literários foram produzidos e conservados na antiguidade, e porque muitas vezes não chegaram até nós.

1) Travessia do Rubicão
O Rio Rubicão, no final da República Romana, era a fronteira entre a provincia da Galia Cisalpina e a província da Itália (onde ficava Roma). As Lei Romana proibia os oficiais comandantes de movimentar suas legiões fora dos limites de sua provincia, sem autorização do Senado [1]. Na Itália (como prevenção contra possíveis golpes militares), tal proibição era, obviamente, muito mais séria. Somente consules e pretores podiam comandar tropas na Itália. Assim, um general que deixasse sua provincia e invadisse a Italia cometia crime capital, e os soldados que o seguissem também seriam condenados a morte.

No ano 49 AC graves tensões sacudiam a República Romana. O proconsul Gaio Julio César havia obtido sensacionais vitórias militares, conquistando as Gálias (atuais França e Bélgica) , submetendo milhões de pessoas ao domínio de Roma. Para muitos, porém, Cesar não era bemvindo . O General vitorioso, que acumulara riqueza incalculavel, e com legiões de soldados veteranos e extremamente leais era considerado uma ameaça. Seus maiores inimigos, uma facção de senadores liderada por Catão, o Jovem o acusava de varios crimes (reais, supostos e imaginários) e queria que ele fosse processado e julgado. O sucesso de Cesár não lhe trouxe muitos amigos, muito pelo contrário. Senadores mais moderados, como Cícero, e o antigo aliado de César, e seu companheiro de consulado, Pompeu "Magno", se voltaram contra ele. César queria condicionar seu retorno a Roma, com a possibilidade de uma nova eleição, que lhe daria imunidade legal. O Senado, de modo geral, se voltara contra Cesar. No entanto, Gaio César tinha o apoio do povo e, com massivas injeções financeiras, tivera suporte do consul Lucio Emilio Paulo e do Tribuno do Povo Gaio Escribônio Cúrio, em 50 AC, além de eleger seu comandado Marco Antônio como Tribuno do Povo no ano seguinte, o que lhe dava o poder de vetar algumas medidas do Senado. Em janeiro de 49 AC, a situação se tornou insustentavel. Pompeu e o Senado deram um ultimato para que César rendesse suas tropas e se submetesse a julgamento. Os tribunos aliados de Cesar se declararam ameaçados e fugiram da cidade. César, que estava em Ravena, soube das notícias e usando como pretexto as ameaças contra a sagrada figura dos tribunos do povo, atravessou o Rubicão com a XIII Legião e invadiu a Itália.

Pompeu e a maior parte do Senado fugiram de Roma, para não serem capturados. Seguiram-se quatro anos de Guerra Civil. Em sequência, César derrotou Afranio, na Espanha, depois Pompeu, na Batalha de Farsália (Grécia), que fugiu e foi assassinado no Egito; depois Catão, o Jovem, em Tapsos (Numídia, atual Tunisia), que se suicidou, e, finalmente, Pompeu, o Jovem, em Munda (Espanha). Cesar então voltou a Roma, perdou seus inimigos, tornou-se o senhor inconteste da República, e foi assassinado. Após a morte de César, Augusto e Marco Antônio lutaram entre si, depois contra Cassio e Bruto, e depois novamente entre si, para dominar o Império. Augusto venceu e instituiu o principado, depois de quase 20 anos de Guerras.

Então a Travessia do Rubicão é algo como o Grito do Ipiranga, o Ataque as Torres Gêmeas, a Bomba de Hiroshima, o homem chegando na Lua. Um evento que marcou o fim de uma era. O fim da República e o início do Império.

Uma descrição da Travessia do Rubicão nos é dada por Suetônio, com toda a pompa e circunstância:

"Quando chegou ao conhecimento de César a notícia de que o direito de intercessão dos tribunos havia sido derrogado e que estes se haviam retirado da cidade, rápida e secretamente, fez marchar na vanguarda algumas coortes (...) e arremoessou-se, acompanhado apenas de uma pequena escolta, pela estrada mais deserta. quando a chama dos archotes se extinguiu, perdeu-se e, por um longo espaço tempo, vagou absolutamente sem rumo. Quando a manhã já ia alta, apareceu, subitamente, um guia: caminhou a pé por veredas deveras estreitas e, nas ribas do Rubicão, que traça a fronteira com sua província, reuniu-se então com as coortes. Permaneceu lá por alguns instantes e, ao computar a magnitude de seus planos, dirigiu a palavra para os que acompanhavam, dizendo-lhes:
"- Hoje, ainda podemos recuar. Mas caso passarmos aquela pequena ponte, cabe à sorte das armas decidir o resto"
Permanecia ainda vacilando quando, de repente, deparou-se com a seguinte visão: um homem de corpo e beleza singulares apareceu ali por perto, tocando avena. Os pastores, como também numerosos soldados dos postos mais vizinhos, correram ao seu encontro para ouvi-lo, entre os quais alguns corneteiros. Assim que os avistou, o jovem músico arrancou o clarim de um deles e, de um salto, atirou-se ao rio. Fazendo-o soar com um vigor extraordinário, dirigiu-se para a margem oposta. Diante disso, César falou, então: "Vamos para onde nos chamam os prodígios dos deuses e a iniquidade dos nossos inimigos. A sorte esta lançada"

Suetônio nos dá um relato bastante "embelezado", e tardio, pois foi escrito 175 anos depois do fato. Mas esse deve ser o tipo de evento que as criancinhas em Roma aprendiam na escola. César comandava uma legião 5000 soldados, 300 cavaleiros, (ou seja, milhares de testemunhas oculares), e dezenas de oficiais. Centenas de senadores tiveram que sair de Roma e da Itália. assim, deve haver dezenas de referências e descrições detalhadas em livros, cartas, poesias... Certo?

Errado, como vc pode ver aqui, neste resumo do Prof. Jeffrey Benaker, da Universidade de Wiscosin:

"Caesar’s crossing of the Rubicon in 49 BC is well known as an important milestone in the demise of the Roman Republic. It is also the case that we lack contemporary or even near-contemporary accounts. Caesar himself, in his Bellum Civile, makes no mention of the river. The history of his lieutenant, Asinius Pollio, has been lost, as has Livy’s 109th book (the periocha for 109 does not mention the Rubicon). Velleius Paterculus, then, when he writes that Caesar crossed the Rubicon after being frustrated by the Senate, is the earliest extant author to refer to the crossing, even if he does not comment on the event’s significance. The first thorough treatment of the Rubicon in the surviving literature does not appear until more than a century after the fact, in Lucan’s Pharsalia, a work of epic poetry rather than historiography. This version is followed by the detailed accounts in the biographies of Caesar by Plutarch and Suetonius. Appian’s history also includes the story of the crossing, but Dio shows that a historian could still write about Caesar’s civil war without mentioning the Rubicon.
My aim in this paper is to examine the four extant narratives of Caesar at the Rubicon (Lucan 1.183-232; Plutarch, Caesar 31-32; Suetonius, Caesar 30-32; and Appian 2.35.5).
(tradução) "A Travessia do Rubicão por Cesar em 49 BC é conhecida como um dos eventos mais importantes na queda da República Romana. É também um caso de típico de falta de relatos contemporâneos ou semi-comtemporâneos. O próprio César, em seu livros Bellum Civile (Guerras Civis), não faz menção ao Rio. A história de seu oficial, Asinio Polio, foi perdida, assim como o 109° livro de Livio (o periocha para o livro 109 não menciona o Rubicão). Veleio Paterculo, ao escrever que César cruzou o Rubicão em resposta as ações do Senado, é nosso relato remanescente mais antigo, embora não comente a importância do evento. O relato detalhado mais antigo da travessia do Rubicão hoje existente esta em Farsália, de Lucano, escrito mais de um século depois do fato, e que é mais um trabalho de poesia épica do que historiografia. Esta versão é seguido pelas narrativas detalhadas nas biografias de César por Plutarco e Suetônio. A história de Apío também inclui a história da travessia, mas Dio mostra que um historiador ainda poderia escrever sobre a guerra civil de César, sem mencionar o Rubicão.
Meu objetivo neste paper é analisar as quatro narrativas hoje existentes da Travessia do Rubicão por César (Lucano 1.183-232; Plutarco, César 31-32, Suetônio, César 30-32; e Apiano 2.35.5)"

Ou seja, uma vez que o próprio Cesar (48 AC) não menciona o Rio, os relatos sobreviventes desse fato marcante são Veleio Paterculo (30 DC), Lucano (61 DC), Plutarco (80 DC), Suetônio (125 DC) e Apiano (150 DC). Ou seja, cinco relatos em 200 anos. Se considerarmos um período de 100 anos temos apenas Veleio Paterculo. Provavelmente, todos esses relatos se baseiam na história escrita por Asinio Polio, um dos oficiais de César, narrativa esta que se perdeu. Com excessão de Lucano, nenhum deles gasta mais de uma folha descrevendo a história. Veleio Paterculo escreve uma unica linha "Cesar concluiu que a Guerra era inevitável e cruzou o Rubicão com seu exército" ( Historia Romana, 2:49.4).

(Agora, onde estavam os quarenta e tantos escritores antigos que viveram nos 100 ou 150 anos depois da travessia do Rubicão, que não mencionaram esse fato?)

Outro problema é geografico. O Rubicão não era um rio caudaloso, mas um riacho cujo nascente era nos montes Apeninos e seguia até o Mar Adriático, passando pelas cidades de Rimini e Cesena. Em cerca de 40 AC, Augusto anexou a Galia Cisalpina a província da Itália, e a "relevância" do Rubicão foi em muito diminuida. Os séculos se passaram, o relevo da região foi alterado por ação natural e humana, e os cursos d'agua varias vezes tiveram seu curso alterado, de sorte que não se tem certeza onde exatamente o Rio se localizava [3]. (Em 1933, o Rubicão foi identificado, oficialmente, como sendo, muito provavelmente, o Rio Fiumicino [3]).


Apesar desses problemas geográficos e de atestação histórica, não há duvida de que havia um rio Rubicão na fronteira e César o atravessou. Primeiramente, César evita dizer que cruzou a fronteira entre a sua provincia e a Itália, e portanto não menciona o Rubicão, uma vez que ele estaria admitindo uma situação constrangedora, e confessando um crime [4]. César, astutamente, diz que foi informado dos tumultos e ultrajes sofridos pelos tribunos, quando estava em Ravena esperando a resposta de suas propostas de pacificação (Guerras Civis 1:5), e vendo Pompeu e seus aliados se preparando para Guerra e espoliando colonias, cidades e Templos em busca de recursos (1:6), convocou suas tropas e lhes rememorou as injurias recebidas, a inveja de seus inimigos, os ultrajes sofridos pelos tribunos, e suas boas intenções (1.7), e se assegurando da boa vontade dos soldados, marchou para Rimini (1.8). Ravena ficava na Galia Cisalpina, Rimini na Itália. (Cesár, magistralmente, escreve um relato em que faltam as palavras "província" "Galia", "Cisalpina", "fronteira", "Rubicão", "ilegal" e "Itália", e como em uma espécie de "teletransporte" da Antiguidade, surge na Itália como suas tropas).

Além disso, o fato que Cesar estava na Galia na década de 50 AC, que tomou a Itália no ano seguinte, e que houve uma Guerra Civil entre ele e Pompeu são fatos conexos é atestados por multíplas fontes literarias (como Cícero e Tito Lívio) e arqueológicas. Por fim, a travessia do Rubicão (que implica em invasão não consentida da Itália) é coerente com esses e os outros fatos que conhecemos. A travessia do Rubicão é um evento histórico que explica o curso dos acontecimentos de que temos conhecimento, e sem o qual nossas fontes não fariam sentido.
A ilustração apenas mostra que é imprudente fazer juízos históricos baseado apenas na falta de evidência, uma vez que mesmo acontecimentos de repercussão extraordinária e que mudaram a vida de milhões de pessoas de forma definitiva muitas vezes tem atestação reduzida nas fontes que chegaram até nós. Sob o ponto de vista de um cidadão do Império a travessia do Rubicão seria muito, mas muito, mais relevante do que a crucificação (e os feitos) de um pretendente messiânico, na distante Judéia, principalmente se ele não estivesse acompanhado de hordas de rebeldes sob seu comando.

2) Grecia Antiga, século III AC

É lugar comum apontar a Grécia clássica como o "berço da civilização ocidental". Filósofos como Pitagoras, Socrátes, Platão e Aristóteles logo vem a mente; também os passos importantes para o desenvolvimento futuro da ciência dados por Tales de Mileto, Demócrito, Hipócrates e Euclides; assim como experiências politicas como a democracia ateniense; bem como a berço de disciplinas como a História, com Herodoto e Tucidiades. Os idéias da Grécia Clássica foram importantes, principalmente, pela influência que exerceram sobre seus conquistadores, do Helenismo de Alexandre Magno, e posteriormente em prover a base cultural sobre o qual se desenvolveu o Império Romano, e, em grande parte, o cristianismo.

A wikipedia observa astutamente que a cidade de Atenas, nos séculos V e IV AC, está no epicentro de toda essa civilização. Lá estavam a Academia de Platão, e o Liceu de Aristóteles, e onde viveram inúmeros filósofos, politicos e escritores, nós é muito bem conhecida. O mesmo não pode ser dito do período posterior, já na fase helenistica (323 - 146 AC). No entanto, o Professor Pierre Cabanes, da Universidade de Paris X Nanterre, ao ilustrar os problemas de fontes que o historiador se depara de falta de documentação mesmo onde menos se espera.

"O historiador da Antiguidade deve frequentemente admitir sua ignorância sobre pontos importantes da vida dos antigos, pois nosso saber é fragil, limitado, construido a partir de uma documentação fragmentária, muitas vezes lacunar. Se a documentação é relativamente abundante para a cidade de Atenas , nos séculos V e IV AC, não o é mais para os séculos seguintes, e a história ateniense do século III AC sai do esquecimento graças a achados de inscrições. As regiões mais distantes sofrem ainda mais desta precariedade de documentos, que só aparecem na maioria das vezes , na tradição literária, por ocasião de uma guerra na qual tomam parte os exércitos atenienses. No resto do tempo reina o silência completo. Só as excavações arqueológicas podem fazer falar esses sítios que testemunham uma civilização interessante. E o que dizer da Gália pré-romana, dos etruscos cuja escrita ainda não foi completamente decifrada e tantas outras populações cuja lingua, puramente oral, só deixou poucos trações na toponímia e onosmática? O que dizer também das multidões que viveram na escravidãoou formas de dependência coletiva? Aqui e ali aparecem algumas, graças a uma decisão de alforriagravada no muro de um santuário. Mas esta pobreza de documentação não deve provocar a decepção diante da falta de informação; Ela deve, ao contrário, aguçar o espírito de observação metódica para extrair o máximo de cada aporte antigo. É desta busca permanente e tenaz que pode nascer um melhor conhecimento da antiguidade [5]

Ou seja, mesmo no "centro" do mundo antigo, no lugar em que escritores e cultura não faltavam, temos um período importantíssimo em que a documentação é escassa, ou até inexistente. Cabanes adiciona outro exemplo: o desaparecimento quase completo da tradição literária para certos períodos, como o século posterior as conquistas de Alexandre, o Grande (360-323 AC). Os registros primarios, como o relato do historiador da corte de Alexandre se perderam. As fontes secundárias, escritas por oficiais de Alexandre, como Ptolomeu, Nearco e Aristobolo, além do escritor Cleitarco, se perderam, e nossas fontes se resumem a relatos terciários de autores do período romano que se basearam nesses relatos secundários. (Uma boa introdução sobre os problemas das fontes nos é dada também por Jona Lendering, aqui e aqui [6])

"Poderíamos prosseguir esta constatação desastrosa multiplicando os exemplos, mas vamos nos limitar a observar o desaparecimento quase completo de toda a tradição literária para algumas épocas. Assim, para o século subsequente à morte de Alexandre o Grande, em 323, a tradição histórica é um vasto campo de ruínas. Nenhuma das grandes obras históricas contemporâneas é conservada, seja a de Jerônimo de Cardia ou a de Filarco. Elas foram utilizadas posteriormente, a primeira por Diodoro, Ariano e Plutarco, e a segunda por Políbio, Troge Pompeu e Plutarco. O próprio relato do reinado de Alexandre não consta mais nos escritos de seus contemporâneos, cujas obras desapareceram todas, mas nas obras do tempo de Augusto (Diodoro da Sicília e Troge Pompeu), do reinado de Vespasiano (História de Alexandre, de Quinto Curcio), ou do século II (A Anabasis de Arriano de Nicomédia, ou a Vida de Alexandre, de Plutarco). É preciso levar em conta essa defasagem cronológica entre os eventos narrados e as datas que ocorreram. Três ou Quatro séculos de distância não convencem ninguém a tomar este autor como Testemunho direto. Como se, em nossos dias, as guerras de religião emergissem simplesmente do nada" [7]
Ou seja, nossos registros literários para alguém que virou o mundo de cabeça para baixo, é limitado. Mais ainda para o período seguinte a morte de Alexandre, quando mudanças importantíssimas ocorreram e suas conquistas foram divididas entre seus generais. De novo, "é imprudente fazer juízos históricos baseado apenas na falta de evidência, uma vez que mesmo acontecimentos de repercussão extraordinária e que mudaram a vida de milhões de pessoas de forma definitiva muitas vezes tem atestação reduzida nas fontes que chegaram até nós".

3) Mais porque temos tão poucas fontes?

Devemos aqui fazer uma considerações a essa falta de fontes e relatos da Antiguidade. Milhares de livros foram produzidos na Antiguidade, a questão é que a grande maioria não chegou até nosso tempo. O problema se dá em virtude de como os textos antigos eram produzidos e conservados para a posteridade.

O professor Steve Mason, da York University, faz algumas consideração sobre a produção de livros e sua distribuição na Antiguidade observa abaixo que apenas uma ínfima parcela da população lia e escrevia no período romano e helenístico. Destes poucos letrados, somente alguns tinham condição de contratar um escriba profissional para fazer cópias dos textos que escreviam. Não havia, imprensa, maquinas de xerox, impressoras. A maioria dos livros era composta por seus autores para serem compartilhados entre seus amigos. Havia, é claro, excessões.

Most of the thousands of books that were written in the ancient world did not survive into the Middle Ages, let alone into the modern world. In the absence of paper, printing presses, and photocopiers, it was not a foregone conclusion that any given book would live beyond its author’s own generation. Publication of books was in general the prerogative of a small and literate elite. Books were often published (“made public”) in oral form, by recitation before a group of interested friends. Book manuscripts, on papyrus or occasionally parchment1 rolls, were relatively rare because they had to be copied individually by hand—usually the hand of a wealthy man’s slave. Libraries and booksellers existed, but they, too, were few and far between. Therefore, only those books that enjoyed a lively readership or some sort of official sponsorship could remain accessible. Only such committed readers would invest the necessary effort to have lengthy manuscripts copied and recopied. [8]
(tradução) A maioria dos milhares de livros que foram escritos no mundo antigo, não sobreviveu à Idade Média, e muito menos chegaram a nossa época. Na falta de papel, impressoras e fotocopiadoras, não havia garantia nenhuma de que determinado livro chegaria a ser lido pela geração seguinte a de seu autor. A publicação de livros era, em geral, prerrogativa de uma pequena elite e alfabetizados. Frequentemente os livros eram publicados ("tornados públicos") em forma oral, pela recitação diante de um grupo de amigos interessados. Manuscritos do livro, em papiro ou ocasionalmente rolos de pergaminho, eram relativamente raras, porque eles tinham que ser copiados à mão, um a um, normalmente pelo escravo de um homem rico. As bibliotecas e livrarias existiam, mas também eram poucos e distantes entre si. Portanto, somente aqueles livros que conseguiam um público devotado ou algum tipo de patrocínio oficial se mantinham acessíveis. Só esse leitores comprometidos iria investir o esforço necessário para que manuscritos extensos fossem copiados e reproduzidos.

O Professor Jona Lendering, por sua vez, observa as decisões econômicas que tiveram que ser feitas para manutenção e conservação de textos antigos. Uma vez que o papel e os escribas (insumos de produção) eram escassos e caros - e de tempos em tempos se deveria escolher quais os textos seriam copiados e quais não - se um determinado manuscrito tinha o "patrocinio" de um nobre rico (ou seja, havia demanda), ele sobreviveria, enquanto que os outros, "sem mercado", não. O mesmo pode ser dito de textos de interesse (ou desinteresse) das autoridades religiosas e políticas do momento.

Ancient texts were typically written on papyrus, which is vulnerable. As a rule of the thumb, we can assume that a scroll had to be copied every century. If parchment was used, replacement could take place less frequently. However, preparing a skin and making parchment was extremely expensive. Most texts were, therefore, written on papyrus and subject to decay and disappearance. If there were many copies of the same text, the chances of survival were greater, but professional writers were expensive and texts usually circulated in small numbers. A surprisingly great number of ancient texts has survived in only one copy, which shows how vulnerable the process of transmission was. The best way to conceptualize the process is, therefore, that ancient texts always disappeared, unless a rich lord or lady decided to hire a scribe and copy a scroll. Inevitably, selections were made. There was no need to copy the Histories of Valerius Antias once Livy had published the History of Rome from its Foundation; there was no need to copy the speeches of Greek orators of the third and second centuries BCE because the sophists of the second century CE were so much more eloquent; and there was no need to copy archaic poetry like Sappho’s because it was written in a poorly understood, archaic language. The publication of new texts was the greatest danger for the survival of older texts.
(tradução) Os textos antigos eram tipicamente escritos em papiro, que é vulnerável. Como regra geral , podemos supor que um livro tinha de ser copiado em cada século. Se pergaminho foi utilizado, a substituição poderia ocorrer com menos freqüência. No entanto, a preparar peles de animais para fazer um pergaminho era muito caro. A maioria dos textos foram, portanto, escritos em papiro e sujeitos à deterioração e desaparecimento. Se houvesse muitas cópias do mesmo texto, as chances de sobrevivência eram maiores, mas os escritores profissionais eram caros e os textos normalmente distribuídos em pequenas quantidades. Um número surpreendentemente grande de textos antigos chegou até nós em um único exemplar, que mostra o quão vulnerável o processo de transmissão foi. A melhor maneira de compreender o processo é ter em mente que textos antigos sempre desapareceriam, a menos que um rico senhor ou senhora decidisse contratar um escriba para recopia-los. Inevitavelmente, escolhas foram feitas. Não se julgou necessário copiar as histórias de Valerius Antias uma vez Lívio já havia publicado a história de Roma desde a sua fundação, não havia necessidade de copiar os discursos dos oradores gregos dos séculos III e II AC, pois os sofistas do século II DC foram muito mais eloqüentes, e não havia necessidade de copiar poesia arcaica como Safo, porque foi escrito em uma língua de díficil compreendida, arcaico. A publicação de novos textos era o maior perigo para a sobrevivência dos textos mais antigos.


Ou seja, os textos hoje existentes sobreviveram a um longo processo de seleção por séculos a fio. Tal processo facilitava a sobrevivência de textos de determinados autores (era mais fácil um livro atribuido a um mestre famoso como Aristoteles, Galeno ou Santo Agostinho, de que de um desconhecido Escribonio da Silva ou Theopompus de Souza). Além disso, determinados períodos foram catastróficos para conservação dos livros antigos, como os séculos seguintes a queda do Imperio Romano. Por fim, esse processo de seleção e escolha, que era racional do ponto de vista das limitações dos antigos, é desfavorável para os historiadores atuais. Entre copiar cada um dos relatos mais antigos, escritos próximos a epoca dos fatos, e um síntese e/ou resumo desses relatos feita por um escritor bem posterior, a escolha dos antigos tendia a ser pela segunda opção. É o caso das histórias de Valério Antias, Fábio Pictor, e Catão, o Velho, que foram fontes da narrativa de Tito Lívio, o grande sucesso da última significou que primeiras não foram conservadas, temos conhecimento de Antias, ou Catão ou Pictor apenas pelas citações em Lívio ou outros autores antigos (para desespero dos historiadores atuais).

4. As referências a Jesus na literatura antiga dificilmente seriam conseravdas


Por fim, devemos lembrar as condições de vida e morte de Jesus. Ele exerceu seu ministério em áreas rurais e pelo interior da Galiléia. Para os escritores romanos ou gregos, isso era tão remoto quanto Burkina Faso. Para os seus oponentes, ele e seu grupo eram uma seita obscura do judaísmo, um culto estrangeiro, uma "superstição nova e maligna" (Suetônio), entre centenas que existiam no Império. Jesus entrou em conflito com as autoridades políticas e religiosas da Judéia e foi crucificado, por ser acusado de ser o Messias, além de ter na cruz o explosivo título de "O Rei dos Judeus". Como nos diz Paulo, os poderosos deste mundo não compreederam Jesus "porque se o tivessem compreendido, não teriam crucificado o Senhor da glória." (I Cor. 2:8). Pregar a idéia de um Messias crucificado era "loucura para os gregos, e escândalo para os judeus" (I Cor. 1:23).

Logo, se algum autor não cristão fizesse menção Jesus, ou aos cristãos, seria, provavelmente, para ataca-los. As menções a Jesus e seu movimento por Tácito, Plínio e, Suetônio se referem a tumultos em que os cristãos estavam envolvidos, e onde sempre são descritos como superstição, com adjetivos nada lisonjeios como nova, depravada, irracional, mortal ... . A seção em que Jesus aparece em Josefo relata tumultos, tensões e calamidades, e, portanto, a versão original do Testemunho Flaviano provavelmente relatava uma atrocidade cometida contra Jesus (a crucificação de um inocente), ou um Tumulto causado por ele. Autores como Galeno e Luciano criticam a credulidade dos cristãos.

Ocorre que a Igreja, desde o século IV foi a principal (se não a única) mantenedora da herança literária da Antiguidade. Logo, textos e autores hostis ao cristianismo, ou que fizessem comentários desabonadores contra Jesus seriam menos propensos a serem recopiados a cada século, e, portanto, terem chegado até nós. É verdade que quase todos os autores citados acima fazem críticas ao cristianismo, mas quase todos eles ponderam que os cristãos eram inocentes das acusações inicialmente feitas contra eles (Tácito, Plínio) , tinham uma conduta correta e cuidavam uns dos outros (Luciano), ou percebiam elementos de sabedoria nos ensinos de Jesus ou do evangelho (Josefo e Galeno).

Ocorre que, principalmente para os primórdios do cristianismo, a maioria dos críticos não deve ter sido tão compreensivo. Como já dissemos em um post em que mostramos "Jesus pelas lentes de seus adversários", citando o Professor Maurice Goguel, que através de Luciano, Celso, das várias apologias do século II (Justino, Taciano, Aristides) e pelo Dialogo entre Justino e o judeu Trifo, podemos ter uma visão bem detalhada dos críticos do cristianismo naquele período. Da mesma forma que há uma tradição apologética existe um outra polêmica, a qual a primeira tentava refutar. Então, vemos já por volta de 130-140 DC Justino Martir constata em circulos judaicos "eles atribuiram [os milagres] a utilização de poderes mágicos, porque eles se atreveram a dizer que Jesus era um mágico e enganador do povo" (Dialogo com Trifo 69.5). Décadas depois, por volta de 175 DC, o crítico pagão Celso, em seu livro "o Verdadeiro Discurso" lança um violento ataque sobre vários aspectos da vida de Jesus - ancestralidade, concepção, nascimento, infância, ministério, morte, ressureição e influência posterior, baseado em informações que circulavam entre os judeus.

"De acordo com Celso, os pais de Jesus eram de uma aldeia judia (Contra Celso 1.28), e sua mãe era uma pobre mulher que obtinha seu sustento como fiandeira (1.28). Ele realizou seus milagres através de feitiçaria (1.28; 2.32; 2.49; 8.41). Sua aparência física era de um homem feio e pequeno (6.75). Para seu descrédito, Jesus manteve todos os costumes judaicos, inclusive o sacrifício no Templo (2.6). Ele reuniu apenas dez seguidores e ensinou a eles seus piores hábitos, como mendigar e furtar (1.62; 2.44). Seus discipulos, que contavam só "dez marinheiros e coletores de impostos" foram os únicos a qual ele convenceu de sua divindade, mas agora seus seguidores convertem multidões (2.46). Os relatos de sua ressureição vieram de uma mulher histérica, e a crença na ressureição foi o resultado da mágica de Jesus, os desejos de seus seguidores, ou alucinação coletiva, tudo com o propósito de impressionar outros e aumentar as chances de outros tornaram-se mendigos (2.55).” [10]

Justino e Celso atestam várias tradições já existentes de polêmicas e ataques contra Jesus. Um vez que ambos escrevem em meados do século II, é razoavel concluir que já havia, pelo menos no início do século II, uma literatura polêmica, incipiente, contra o cristianismo. Logo, provavelmente, existiram muito mais menções a Jesus e aos cristãos do que possuímos hoje. Sua natureza agressiva resultou em sua não conservação, ainda que seus ecos sejam percebidos na literatura apologética que tentou refuta-la.

Conclusão

É imprudente fazer juízos históricos baseado apenas na falta de evidência, uma vez que mesmo acontecimentos de repercussão extraordinária e que mudaram a vida de milhões de pessoas de forma definitiva, muitas vezes tem atestação relativamente reduzida nas fontes que chegaram até nós. Sob o ponto de vista de um cidadão do Império a travessia do Rubicão ou eventos posteriores a Alexandre Magno, seriam infinitamente mais relevantes do que a crucificação (e os feitos) de um pretendente messiânico, na distante Judéia, principalmente se ele não estivesse acompanhado de hordas de rebeldes sob seu comando. Nesse contexto, levando em conta a importância proporcional desses eventos para seus contemporâneos, a vida de Jesus pode ser considerada como relativamente bem atestada nas fontes não-cristãs. Além, é claro, da extraordinária quantidade de tinta que os seus seguidores utilizaram para registrar sua significância e seus feitos. Cabe ressaltar novamente, a análise só pode ser feita do ponto de vista proporcional e relativo, e não absoluto. Temos muita mais registros, diretos e indiretos, da Travessia do Rubicão do que da crucificação de Jesus, simplismente porque foram eventos de escalas muito diferentes de repercussão entre seus contemporâneos.

Como escreve o Professor John P. Meier, da Universidade de Notre Dame:

"A dificuldade de conhecer algo sobre Jesus deve ser colocada no contexto maior de saber algo sobre Tales, Apolônio de Tiana, ou qualquer outro nome do mundo antigo (...) Portanto o problema não é exclusivo de Jesus ou das fontes que contam sua história. Na verdade, em comparação com as inúmeras figuras indefinidas da história antiga, é surpreendentemente a quantidade de informações que temos sobre Jesus" [11].

Assim como o historiador israelense David Flusser, da Universidade Hebraica de Jerusalém,
"Realmente, possuimos registros mais completos sobre a vida dos imperadores seus contemporâneos e de alguns poetas romanos. Entretanto a excessão do historiador judeu Flávio Josefo, e possivelmente de São Paulo, Jesus é o judeu, de épocas posteriores ao Antigo Testamento, sobre quem nós mais sabemos" [12]

Referências Bibliográficas:
[1] Adrian Goldsworthy, Caesar's civil war, 49-44 BC, fl. 29
[2] Jeffrey Benaker (2007), Caesar on the Brink:Writing about the Rubicon in the Early Empire, 103th Classical Association of the Middle West and South, Cincinnati, Ohio, Abril 2007.
[3] Jona Lendering (2003), Rubico (49 BCE), http://www.livius.org/ro-rz/rubico/rubico.html, acessado em 18.01.2011.
[4] Kurt Raauflaub (2009) Bellum Civile In Miriam Tamara Griffin (2009) A companion to Julius Caesar, fl. 186.


[5] Pierre Cabanes (2001), Introdução a História da Antiguidade, fl. 16
[6] Jona Lendering , "Alexander the Great: the 'good' sources" http://www.livius.org/aj-al/alexander/alexander_z1b.html e "Alexander the Great: the 'vulgate' tradition, http://www.livius.org/aj-al/alexander/alexander_z1a.html, acessado em 18.01.2011
[7] Pierre Cabanes (2001), Introdução a História da Antiguidade, fl.
[8] Steve Mason (2003) Josephus and the New Testament, fl. 8, 2ª ed., excertos disponíveis http://www.hendrickson.com/pdf/chapters/156563795x-ch01.pdf, acessado em 21.01.2011
[9] Jona Lendering (2009), Common Errors (9): The Gnostic Gospels, postado em 15.05.2009 http://rambambashi.wordpress.com/2009/05/15/common-errors-9-the-gnostic-gospels/, acessado em 21.01.2011.
[10] Robert Van Voorst, Jesus Outside of New Testament, fl. 66

[11] John P. Meier (1991), Um Judeu Marginal, Repensando o Jesus Histórico, Vol. I, fl. 34
[12] David Flusser (1998), Jesus, fl .01
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