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sábado, 28 de julho de 2012

Mitra, Mitras, Mitraismo, Jesus e o Cristianismo - Existem Paralelos? Parte 2 - A Vida de Mitras

A Vida de Mitras
O deus persa Mitra e a religião de mistério  Mitraismo são citados frequentemente, e na internet principalmente, como inspiração para a vida de Cristo. Contudo, na grande maioria das vezes não são citadas as fontes dessas afirmações, e quando são, consistem em textos exóticos, teorias da conspiração ou muito antigas (século XVIII ou XIX). Mas, existe algum fundamento nessas afirmações?  Continuando nossa série: vamos tentar responder a pergunta: Mas, afinal, o que sabemos sobre o mito de Mitras? 


Cenas do mito de Mitras, e sacrifício do touro, Neuenheim, Alemanha

Como já dito anteriormente não existem escritos mitraistas, todas as informações derivam das evidências arqueológicas disponíveis nas cenas retratadas nos mitrários, inscrições e menções esporádicas nos escritos clássicos.

Jaime Alvar Ezquerra, Professor Catedrático de História Antiga da Universidade Carlos III de Madri,  aponta as limitações que o estado da evidência nos impõe nas reconstruções acadêmicas do ritual, mitologia e doutrina dos Mistérios de Mitras.


"We are thus obliged to reconstruct the narrative mainly from the iconographic sources, supplemented by one or two isolated references in Classical Sources. As a result, we can hardly hope to do more than gain a rough outline of the story, accepting that we have lost the subtleties, conscious and unconscious, that figure in the literary documentation, such as it is. This is one of the reasons why the cult is often considered somewhat different from the other oriental cults. (Tradução) Desta forma, nos somos obrigados a reconstruir a narrativa com base nas fontes iconográficas, suplementadas por uma ou outra referência nas fontes literárias classicas. Assim, é muito difícil obter algo mais do que um esboço da estória, aceitando o fato de que perdemos as sutilizas, conscientes e inconscientes, que se apresentam nas fontes documentais literárias tal como se apresentam. Essa é uma das razões porque o culto é considerado diferenciado de outros cultos orientais. [1]

Desta forma, a primeira coisa a se ter em mente é que temos imagens em certa abundância, mas os textos, que explicam essas imagens, são escassos. E cada vez mais escassos a medida que nos aproximamos dos momentos iniciais do desenvolvimento do Mitraismo. Tendo isso em mente, o Professor Ezquerra sugere como analogia o caso do franciscano belga Pedro de Gante (1479-1572), que elaborou um Catecismo, composto basicamente de figuras, com os quais ele ensinou os fundamentos da fé cristã as crianças astecas na Escola São José de Belém, na atual Cidade do México [1], As imagens do culto mitraista apresentam alto grau de uniformidade, e, assim, devem ter tido também finalidade pedagógica, podendo servir como ponto de partida para o pesquisador [1]. 

(E aqui, caros leitores do adcummulus,  por isso, podemos observar que a cautela dos pesquisadores contrasta com a confiança, por vezes arrogância, dos textos sobre Mitra que circulam na internet.)


A Cena Principal: Tauctonia ou o Sacrifício do Touro Sagrado
Professora Alison Griffith, da Universidade de Canterbury (Nova Zelândia) descreve as cenas mais comuns:



Mithraic monuments have a rich and relatively coherent iconography, chronologically and geographically speaking. In each mithraic temple there was a central scene showing Mithras sacrificing a bull (often called a tauroctony). Mithras is clad in a tunic, trousers, cloak, and a pointed cap usually called a Phrygian cap. He faces the viewer while half-straddling the back of a bull, yanks the bull's head back by its nostrils with his left hand, and plunges a dagger into the bull's thoat with his right. Various figures surround this dramatic event. Under the bull a dog laps at the blood dripping from the wound and a scorpion attacks the bull's testicles. Often the bull's tail ends in wheat ears and a raven is perched on the bull's back. On the viewer's left stands a diminutive male figure named Cautes, wearing the same garb as Mithras and holding an upraised and burning torch. Above him, in the upper left corner, is the sun god, Sol, in his chariot. On the viewer's left there is another diminutive male figure, Cautopates, who is also clad as Mithras is and holds a torch that points downards and is sometimes, but not always, burning. Above Cautopates in the upper right corner is the moon, Luna. This group of figures is almost always present, but there are variations, of which the most common is an added line of the signs of the zodiac over the top of the bull-sacrificing scene. (...)
(Tradução) Monumentos mitraísiticos apresentam uma rica e relativamente coerente iconografia, cronologica e geograficamente falando. Em cada mitrário, há uma cena central de Mitras sacrificando um Touro (frequentemente chamada Taurotctonia). Mitras esta vestido em tunica, calças, casaco e um chapéu pontudo, usualmente chamado chapéu frígio. Ele encara o observador enquanto posiciona uma das pernas nas costas do Touro, e puxa a cabeça do animal para trás pelas narinas com sua mão esquerda, enquanto enfia um punhal em seu pescoço com sua mão direita. Vários personagens  cercam este dramático evento. Embaixo do Touro um cão lambe o sangue que escorre da ferida e um escorpião fere os testículos do Touro. Frequentemente a cauda do Touro termina com um feixe de trigo e um corvo  esta sob as costas do Touro. A esquerda do observador está uma figura em miniatura chamada Cautes  vestido com as mesmas roupas que Mithras e segurando uma tocha acesa, apontando para cima. Acima dele, no canto superior esquerdo esta Sol, o deus solar, em sua carruagem. A esquerda do observador há uma outra figura pequena, Cautopates, também vestido como Mitras e que segura uma tocha apontando para baixo, e as vezes, mas não sempre, acesa. Acima de Cautopates, no canto superior direito esta a Lua, Luna. Este grupo de figuras esta quase sempre presente, mas existem variações, das quais a mais comum é uma linha com os signos do zodiaco logo acima da cena do sacrifício do Touro. (...) [2]

Então, Griffith ressalta a cena da Tauroctonia, onde Mitras mata o Grande Touro. É a cena central de Mitrários, e com certeza representava o mais relevante aspecto do Culto. Em sua luta, Mitras é ajudado por algumas figuras, como o Cão, o Escorpião e o Corvo, e observada por outras como Cautes e Cautopates, a deusa lua, Luna, e o deus solar, Helios (Sol)
Mitras Tauroctonous: de Roma, II século, foto de Mike Young, escultura no Museu Britânico, (via wikipedia)
Outro representação de Tauroctonia
Mitras sacrificando o Touro Sagrado: Relevo em mármore dedicado pelo escravo Apronianus, tesoureiro da cidade Nersae, Mitrário de Nersae, 172 DC, Provincia de Rieti, Itália

Roger Beck, Professor da Universidade de Toronto, em um artigo da Encyclopaedia Iranica,   mantida pela Columbia University (publicação especializada sobre história, cultura e religião da Antiga Persia, a qual recomendamos aos interessados no assunto), complementa a descrição da Prof. Griffith sobre o que se pode deduzir sobre o mito a partir da evidência arqueológica.


Como Griffith, Beck destaca inicialmente a relevância da Tauroctonia para o Culto Mitraista:
The story of Mithras survives not in written form derived from an oral narrative — if such there ever was, it has disappeared without trace — but as scenes preserved on what are collectively termed “the monuments,” for the most part as relief sculpture on icons, altars, etcetera, but also as statuary and in fresco on the walls of mithraea. In the frescos and on the great complex reliefs (the latter mostly from the Rhine and Danube frontier provinces) a selection of side-scenes representing various episodes surrounds the central scene, the god’s sacrificial killing of a bull. More often this “tauroctony” is a self-contained icon, and from its privileged location at the head of the central aisle we know that it was the cult’s principal icon; consequently, that the bull-killing was the main event in the Mithras myth. (The fundamental illustrated catalogue of Mithraic monuments is Vermaseren 1956-60. Merkelback 1984 and Clauss 2000 are also exceptionally well illustrated. On the iconography of Mithras, see Vollkommer 1992. On the myth of Mithras as inferred from the iconography, see Cumont 1903: pp. 104-49; Vermaseren 1960: pp. 56-88; Clauss 2000: pp. 62-101.) (Tradução) A estória de Mitras sobrevive não em forma escrita derivada de uma narrativa oral - se ela algum dia existiu, desapareceu sem deixar traço - mas em cenas preservadas no que são coletivamente chamdos "monumentos", em sua maioria esculpidas em relevos em icônes, altares etc... Mas também em estátuas e afrescos nas paredes dos mitrários. Nos afrescos e nos grandes relevos (os últimos mais comuns nas províncias fronteirças do Danubio e Reno) uma certo número de cenas representando episódios secundários que cercam a figura central, o sacríficio realizado pelo deus matando o touro. Mas frequentemente esta Tauroctonia é uma figura independente, e da posição privilegiada, central, que ocupa no ponto mais bem localizado, sabemos que é o principal icone do culto; dessa forma, o ato de matar o Touro é o principal evento do mito de Mitras (O mais importante catálogo de monumentos Mitraisticos é Vermaseren 1956-60. Merkelback 1984 e Clauss 2000 são também excepcionalmente bem ilustrados. Para a Iconografia de Mitras, ver Vollkommer 1992. Do mito de Mitras inferido a partir da iconografia, ver Cumont 1903: pp. 104-49; Vermaseren 1960: pp. 56-88; Clauss 2000: pp. 62-101.) [3]
As outras cenas

Professora Alison Griffith continua sua descrição, fazendo menção agora as outras cenas:


In addition to this central scene there can be numerous smaller scenes which seem to represent episodes from Mithras' life. The most common scenes show Mithras being born from a rock, Mithras dragging the bull to a cave, plants springing from the blood and semen of the sacrificed bull, Mithras and the sun god, Sol, banqueting on the flesh of the bull while sitting on its skin, Sol investing Mithras with the power of the sun, and Mithras and Sol shaking hands over a burning altar,  These scenes are the basis for knowledge of mithraic cosmology. There is no supporting textual evidence. (Tradução) Além dessa cena central, há numerosas outras, menores, a qual parecem representar episódios da vida de Mitras. As mais comuns mostram Mitras nascendo de uma rocha. Mitras arrastando o Touro para uma Caverna, plantas brotando do sangue e sêmen do Touro sacrificado, Mitras e o deus solar, Sol, banqueteando da carne do touro enquanto assenta-se em sua pele, Sol investindo Mitras com seu poder, Mitras e Sol apertando as mãos sobre o altar em chamas, estas cenas são a base de nosso conhecimento da cosmologia mitraica. Não há evidência textual disponível [4]
 
Assim, além da cena central, outros episódios da vida de Mitra são comumente representados, seus nascimento de um rocha, Mitras capturando e arrastando o Grande Touro para a caverna, a morte do Touro como elemento de renovação da natureza, com plantas brotando de seu corpo, e a comemoração do triunfo, com o grande banquete cósmico entre o deus solar Helios  e Mitras. 


Já a descrição do Professor Beck, acrescenta mais alguns detalhes:

The gods' banquet, then, is the outcome of the sacrifice, and since it is replicated in the cult meal of the initiates,  it must be supposed that the mythic sacrifice performed by Mithras is the salvafic cause of whatever benefits accrue to his mortal initiates in replicating the banquet of the two gods. (…)The side-scenes are numerous, and they represent many different episodes in the myth, e.g. the pursuit and capture of the bull, the ascent of Mithras in the Sun's chariot, as well as occasional episodes which, (…), do not include or concern Mithras at all. (…). In addition to the bull-killing and the banquet, the scene of Mithras' birth is manifestly important. He is shown rising upright from a rock, not as a baby but in the prime of youth, with extended arms holding torch and sword. (…). It would be wrong to say that he has no mother, for the rock itself, identified explicitly as Petra Genetrix ("the rock that gives birth") is his mother.. Since the bull-killing was so obviously the god’s principal act, (...) the scene as regularly represented (with remarkably few variations from the norm) must be described. At the mouth of a cave, Mithras straddles the bull, plunging a dagger into its heart. A dog and a snake dart up at the blood flowing from the wound. A scorpion fastens on the bull's genitals, and a raven perches on the god's billowing mantle. Miraculously, the tail of the dying bull has metamorphosed into an ear of wheat. (Tradução) O banquete oferecido pelo deus, é, então, o resultado do sacríficio, e visto que era reencenado em uma refeição ritual pelos iniciados, por certa devemos supor que o sacrifício mítico realizado por Mitras é a causa salvífica de quaisquer benefícios extendidos aos iniciados ao reencenarem o banquete entre os dois deuses  (...) as cenas secundárias são numerosas e representam vários episódios do mito, por exemplo, a perseguição e captura do Touro, a ascensão de Mitras na carruagem solar, assim como episódios ocasionais que não se referem diretamente a Mitras (...) Além do sacríficio do Touro e o Banquete, a cena do nascimento de Mitras é muito importante. Ele aparece emergindo de uma pedra, não como um bebê, mas no auge da juventude com tocha e espada em punho (...) seria equivocado dizer que ele não tem mãe, a rocha é a sua mãe, sendo identificada como Petra Genetrix (a rocha que gera vida). Visto que o sacríficio do Touro é obviamente o principal feito do deus, (...) a cena como geralmente representada (como raríssimas variações da norma) deve ser descrita. Na entrada de uma caverna, Mitras se engalfinha com o touro, mergulhando um punhal em seu coração. Um cão e uma serpente sugam o sangue que verte da ferida. Um escorpião se prende aos genitais do Touro, e um corvo se empoleira na capa do deus. Miraculosamente, a cauda do touro de morte se transforma em trigo. [5]
Assim, Beck  realça a cena do nascimento de Mitras, que emerge de uma pedra como um homem feito, pronto para realizar grandes façanhas,  e o episódio da perseguição e captura do grande Touro. Fala também da ascensão de Mitras ao céu na carruagem do Sol, e o banquete entre os dois deuses, que era reencenado pelos iniciados.


Nascimento de Mitras
Pela sua relevância para o assunto em discussão, a imagem do nascimento de MItras pode ser destacado. Esse evento é representado nos Mitrários de forma muito comum, na cena conhecida como Mitras Petragenetrix (ou Mitras nascendo da Rocha)

Mitras Petragenetrix (Mitras nascendo da rocha), Roma, estátua dedicada por Aurelius Bassinus, aedil, principia castrorum peregrini,  da Guarda dos Cavaleiros Imperiais, Reinado de Cômodo (180-192 DC)
Então sob um certo sentido podemos dizer que Mitras teve um nascimento "virginal", ainda que a virgem em questão seja uma pedra (talvez nascimento "mineral" seja mais apropriado). A evidência de Mitras como o deus nascido da pedra é a mais frequente nos mitrários, (depois da Tauroctonia) e corresponde a evidência mais antiga do ponto de vista arqueológico. O Professor Jaime Alvar aprofunda essas constatações:


"Both literary accounts and iconography tell us that Mithras was miraculously born from a rock. The young hero, as a boy or even a baby, emerges from the rock already dressed in his Phrygian cap, to connote his 'oriental" origin and carrying in one hand a lighted torch and in the other a sword or dagger . The flame of the torch stamps him as a solar deity, and as giver of light, the swords the instrument by means of which he bestows life through the death of the bull.
(Tradução) Tanto os relatos literários quanto os iconograficos testificam que Mitras nasceu miraculosamente de uma rocha. O jovem herói, como um garoto ou mesmo um bebê, emrge de uma rocha já vestido com seu barrete frígio, conotando sua origem oriental e segurando com uma mão uma tocha e na outra uma espada ou adaga. O brilho da tocha o aponta como divindade solar, e a luz como seu dom, a espada o instrumento pelo qual ele sacrifica o touro e concede vida [6].
 Ainda,
The birth of Mithras from the rock is the commonest of all Mithraic scenes after the bull-killing. The fact that his birth brings light seems to fit with the hypothesis of a MIthraic cosmogonic narrative.
(Tradução) O cena do nascimento de Mitras da pedra é a mais comum  nos mitrários depois da Tauroctonia. A fato de que o nascimento traz luz parece se encaixar na hipótese de uma narrativa Mitraíca cosmogonica [6].
A ubiquidade da cena petra genetrix permite inferir algumas posturas sociais do culto. Não só seus artefatos se concentravam nas fronteiras ocidentais do Império e na cidade do Roma, dedicados por soldados engajados  e membros da burocracia imperial, como também as mulheres não podiam participar. Na verdade não há uma figura feminina marcante como Isis nos cultos egícios, ou Cibele no Culto da Grande Mãe, ou mesmo Maria (ainda que numa fase posterior do desenvolvimento do cristianismo), até mesmo a deusa lunar é uma espectadora dos feitos de Mitras. Como observa o Professor Wolf Liebeschuetz, da Universidade de Nottingham, a Petra Genetrix, indicando que Mitras nem mesmo teve uma  mãe humana, sugere que o elemento feminino foi praticamente "ignorado":

Then Mithraism was an association for men. Not only was an association for men. Not only were women excluded from membership, but the iconography of the cult, above all the image of Mithras' birth from a rock, suggests that it simply ignored the female element of the world. (Tradução) Então o Mitraismo era um culto voltado para homens. Não apenas era uma associação masculina. Não só porque as mulheres foram excluidas de sua mebresia, mas também na iconografia do Culto, acima de tudo a imagem de Mitras nascendo da rocha, que sugere que o elemento feminino do mundo foi simplesmente ignorado [7].

Walter Shandruk, hoje doutorando do departamento de estudos clássicos da Universidade de Chicago, manteve durante alguns anos um site muito interessante dedicado ao Mitraismo Romano (hoje aparentemente abandonado). Ele observa, seguindo o Professor Manfred Clauss (Universidade de Frankfurt) , que, ainda que as imagens da petragenia sigam em geral um padrão, com o jovem Mitras surgindo da pedra nu e com os braços levantados, os detalhes variam bastante. No Primus Mithraeum, em Roma, Mitras aparece com uma tocha na mão esquerda e uma adaga na direita. No Mitrário II da Colonia Agripina a tocha é substituida por um feixe de trigo. Na fronteira do Reno, em Augusta Treverorum (atual Tréveris, Alemanha), Mitras faz girar o zodiáco.  Em algumas cenas, Mitras emerge da pedra com ajuda de Cautes e Cautopates, em outros a cobra, o cão e o corvo assistem o nascimento, em outras ainda, a pedra é envolta por um cobra [8] 

Iconográfia, Inscrições e Expectativas dos seguidores de Mitra
Shandruk também observa que outra sequência de cenas marcante é a da caçada ao Touro [9]. Em geral,  a primeira retrata o Touro repousando, ou pastando. Em seguida,  Mitras aborda o Touro, seja puxando seus chifres, seja arrastando-o. A terceira cena, que varia pouco entre os mitrários, mostra o Touro tentando escapar, com MItras o segurando fortemente. Por fim, Mitras subjuga o Grande Touro e o carrega com duas de suas patas em seus ombros. Esta última cena parece ser a transição para a Tauroctonia, sendo muito popular nos mitrários situados na fronteira do Danubio, que concentra três quartos dessas representações [9]. A foto abaixo mostra uma escultura de Ptuj (antiga Pietovio) na atual Eslovênia. 
Mitras arrastando o Touro, escultura, segunda metade do II século, Mitrário de Poetovio (Ptuj), Eslovênia, Museu de Ptuj

A idéia de um ser que é capaz de subjugar um touro, e não um touro comum, mas o grande touro sagrado, deve ter sido um dos motivos para explicar a grande popularidade de Mitras entre os soldados alistados. Nas inscrições, é comum o padrão "Ao invencivel Mitras (ou sol invicto Mitras), fulano de tal, de livre vontade, merecidamente, cumpre seu voto". Por exemplo, no norte da Inglaterra, nas proximidades do Muro de Adriano, exitiram nos séculos III e IV os mitrários dos fortes de Carrawburgh, Rudchester e Housesteads, onde são encontradas inscrições votivas como essa:
(nota adcummulus: as inscrições estão nas fontes do artigo em latim, com tradução para o inglês. Do inglês foram traduzidas para o português) 
DEO INV M L ANTONIVS PROCVLVS PRAEF COH I BAT ANTONIANAE VSLM
(Ao invencível deus Mitras, Lucio Antônio Próculo, prefeito da Primeira Corte Bataviana Antonina, de boa vontade e merecidamente cumpre seu voto), datada de 213-222 DC. (Carrawburgh) [10] ( RIB 1544)
DEO SOLI INVICTO MITRAE SAECVLARI PVBL PROCVLI NVS PRO SE ET PROCVLO FIL SVO VSLM D N GALLO ET VOLVSINO COS 
(Ao deus Sol Invicto Mitras, Senhor Eterno, o centurião Publio Procolino, de boa-vontade e merecidamente cumpre seu voto, em seu favor e de seu filho Procúlo, quando nossos senhores Galo e Volosino eram consúles) , datada de 252 DC (Housesteads).[11] (RIB 1599)
Na fronteira do Danúbio, o Mitrário de Fertorákos, localizado na atual Hungria, e datado do início do III século DC, encontramos um altar com a seguinte inscrição votiva
D(eo) S(oli) I(invicto) M(ithrae) / L(ucius) AVIT(us) MA/TURUS D(e)C(urio) / COL(oniae) KARN(unti) / V(otum) S(olvit) L(ibens) M(erito).
Ao deus Sol Invicto Mitras, Lucio Avito Maturo, decúrio da colônia de Carnuntum, de boa vontade, merecida e alegremente cumpre seu voto. [12] (CINRM N° 1637)
Mas o que essas inscrições podem indicar sobre as expectativas dos adoradores de Mitra? Na antiguidade os deuses muitas vezes tinham funções específicas, ligadas a proteção de uma localidade, uma corporação profissional, um grupo social, ou dádivas especificas. O fato de soldados em serviço agradecerem ao deus invicto ou invéncivel pode indicar que eles buscaram partilhar dessas caracteristicas em combate e foram atendidos. São inscrições de agradecimento, não de prece, ou seja, Mitra os havia tornado invencíveis e por isso agradecem.
Professor Wolf Liebeschuetz observa que as inscrições mitráicas das províncias de Roma, como as apresentadas acima, são majoritariamente do tipo VSLM (Votum Solvit Libens Merito), ou seja, o fiel faz uma oferta em retribuição a divindidade por uma graça concedida, a qual ele havia pedido [13] (o equivalente no mundo romano a "pagar uma promessa" ou um voto). Liebeschuetz observa, porém, que já na cidade de Roma e vizinhanças, a maioria das inscrições de Mitras não segue esse padrão, sendo muitas vezes dedicatórias ao deus por membros do culto, civis em sua maioria. Ou seja, Mitras não era só uma espécie de deus da guerra, devia existir alguns outros motivos pelos quais as pessoas buscavam seu auxílio. 
Utilizando esse exemplo da diferença entre as inscrições mitraícas na capital e provincias Liebeschuetz introduz a importante questão das expectativas dos seguidores de Mitra sobre a vida após a morte. Esperavam seus seguidores que Mitras os ajudasse quando deixassem esse mundo? A maioria dos estudiosos, observa Liebeschuetz, consideram como fato que os rituais de iniciação e a própria estrutura dos sete níveis, associadas a planetas especificos, tem alguma relação com descida e subida das almas, e frequentemente se tem concluido a partir disso que o ritual implicava na imortilidade da alma após a morte, no entanto:

"The fact - or at least what most scholars take to be a fact - tha Mithraic iniciation was believed to involve the descent and ascent of the soul is often taken to mean that Mithraic iniciation was a ritual for ensuring the survival of the soul after death. The conclusion is natural, given the analogy of Christian. It therefore may come as a surprise that scarcely any of the very large number of surviving dedications are in the least corcened with death (...)  
(TraduçãoO fato - ou pelo menos o que maioria dos estudiosos assumem com fato - de que a iniciação mitraíca envolvia descida e ascensão das alma é frequentemente usado como evidência de que a iniciação era um ritual que assegurava a sobrevivência da alma depois da morte. A conclusão é natural, em face de uma analogia com o cristianismo. Pode parecer surpreendente porém, que raramente no grande número de inscrições remanescentes se encontra alguma minimamente preocupada com a morte (...)[13]
 Ou  seja, aparentemente, as pessoas buscavam Mitras para benefícios nessa vida. Não era uma divindade que tinha a vida após a morte como sua especialidade.  Liebeschuetz continua :
The phrase votum solvit libens merito occurs again and again, in other words the god had perfomed what he had been asked to do. On the face of it Mithraists expected from their god the same kind of assistance as other Romans: health, and sucess for themselves and their colleagues and - diplomatically - for their superiors, not least the emperor. If Mithraic religion was coherent at all, the initiaites must have hoped that  the ceremony would  improve their qualifications for receiving support from the god in the problems of life on earth (....) To assume that the principal object must have been to ensure the survival after death is to apply Christian preconceptions. (Tradução) A frase votum solvit libens merito ocorre repetidamente, em outras palavras o deus  realizou aquilo que lhe foi solicitado. Do exposto, os mitraistas esperavam de seu deus o mesmo tipo de assistência que os outros romanos: saúde, sucesso para eles mesmos e seus colegas e - diplomaticamente - para seus superiores, sem esquecer do imperador.Se o culto mitráico tinha alguma coerência, os iniciados certamente esperavam que a cerimônia melhoraria suas condições para receber ajuda divina nos problemas da vida presente. (...) assumir que o objetivo principal era assegurar a vida após a morte é projetar conceitos cristãos.[13]
Liebeschuetz continua disparando, analisando as inscrições funerárias:


 "In the case of Mithraic dedications none, as far as I known, refers to hopes of continued existence after death. Mithraic imagery does not appear on funerary monuments - unlike that of Cybele and Attis which has frequently been found in tombs in the Rhineland (R Turcan 1975, p. 67) not to mention the imagery of Dionysus, which is found on sarcophagi all over the empire (see for example R. Turcan 1966). There are relatively few tombstones which record that the deceased was a follower of Mithras (CIMRM 511, 623-4). Mithraists do not seem to have had separate cemeteries. They were evidently much less concerned that their religous allegiance was recorded on their tombstone than worshippers of Isis (M.Malaise 1972, e.g from Ostia nos. 3, 4, 6, 7, 13 etc.) (Tradução) No caso das dedicatórias mitraistas, nenhuma, até onde sei, refere-se a esperança de existência após a morte. As imagens mitraistas não aparecem em monumentos funerários - totalmente diferente daquela de Cibele e Atis que é encontrada frequentemente em tumbas da região do Reno (R Turcan 1975, p. 67) assim como as imagens de Dionisio, encontradas em sarcofagos por todos os cantos do Império (veja por exemplo R Turcan 1966). Há relativamente poucas sepulturas que recordam que o falecido era seguidor de Mitras (CIMRM 511, 623-4). Aparentemente, os mitraístas não tinham cemitérios exclusivos. É evidente que eles estavam bem menos preocupados de registrar sua filiação religiosa que os adoradores de Isis (M. Malaise 1972, ex. Ostia números 3, 4, 6, 7 e 13 etc.)[13]
e conclui:
The conclusion is unavoidable: the benefits of Mithraic initiation were expected in this life. With the god's help the initiate would achieve help and sucess. In a more spiritual sense the initiate would have become a purer and freer person, liberated from tyranny of fate to which the body is subject. (Tradução) A conclusão inevitável é que os benefícios da iniciação mitráica eram esperados na vida presente. Com o auxílio divino o iniciado teria socorro e sucesso. Em senso mais espiritual, o inciado se tornaria uma pessoa mais livre e pura, liberta da tirania do destino a qual o corpo esta sujeito [13]
Entre os estudiosos a conclusão de Liebeschuetz é consensual no que se refere a escasez de inscrições, imagens e monumentos, bem como fontes literárias relativos ao mitraismo e a vida após a morte, contudo existe divisão quanto a inexistência de expectativa dos adeptos do culto quanto a atuação de Mitras nesse aspecto [14].


Paralelos, existe algum?


Assim, caros leitores, aonde foram parar todos aqueles paralelos entre o cristianismo e o mitraismo? Ou melhor quais elementos da estória de Mitras possuem alguma relação com o texto bíblico, e se existem, qual a significância?


Nós iremos analisar essa questão aqui no adcummulus mais aprofundamente nos próximos posts da série, mas, seria incorreto dizer que não há paralelo nenhum entre o cristianismo e mitraismo. Já mencionamos a refeição entre Sol e Mitras, que era reencenada pelos iniciados, uma situação que traz lembrança da Eucaristia ou Ceia do Senhor. Podemos estabelecer um paralelo com a páscoa judaica, bem como com Genesis 14:18 onde Melquisedeque, Rei de Salém e Sacerdote do Altíssimo veio a Abrãao e seus seguidores, trazendo pão e vinho, e os abençou. Em todo o caso, devemos nos ater não só no rito, mas em seu significado, a indicação do paralelo é apenas o ponto inicial para verificar possíveis influênciais. Cenas para os próximos capítulos. 

Adicionalmente, Professor  Roger Beck alude a um vaso de porcelana, descoberto a cerca de 30 anos, onde a se vê A figura de um "Pater" encenando o "milagre da água"[15]. Nessa cena, encontrada em alguns mitrários, Mitras acerta uma flecha em uma rocha, e dela flue água. Beck observa que o elemento da água faz lembrar o batismo cristão [15]. Há aqui também um paralelo, talvez mais claro, com Moisés, "Então Moisés levantou a mão, e feriu a rocha duas vezes com a sua vara, e saiu água copiosamente, e a congregação bebeu, e os seus animais" (Num. 20:11).  

Beck considera o milagre da água e o banquete entre Mitras e Sol como os dois paralelos mais relevantes com o cristianismo [15]. A opinião é compartilhada também pelo Professor Manfred Clauss [16]. Ambos consideram, porém, como improváveis hipóteses de influência de um culto sobre o outro. Mas para discutir sobre isso pedimos aos leitores do adcummulus um pouco mais de paciência, pois abordaremos essas questões em posts futuros.

A Vida do Invencivel Mitras em um parágrafo:

pesquisador leigo e ativista neo-pagão Ceisiwr Serith (David Fickett Wilbar) faz um esboço biografico de Mitras, baseado na evidência arqueológica.
From the images we can chart out something of the life of Mithras. He is born from a rock, already equipped to perform great deeds. He shoots an arrow into a rock, producing water. He hunts, whether for the bull or something else we don’t know. He carries a bull back to a cave, where he sacrifices it. The sun communicates with him; whether to command the sacrifice or to invite Mithras to heaven afterwards we don’t know. After the sacrifice, the sun raises Mithras to heaven, greets him with a handshake, crowns him, and eats a feast with him. This is what we know of the mythical biography of Mithras. (Tradução) Das imagens podemos traçar um esboço da vida de Mitras. Ele nasce da rocha, já equipado para realizar grandes feitos. Ele atira uma flecha em rocha, produzindo água. Ele caça, se um touro ou outra coisa não se sabe. Ele puxa um Touro para uma caverna, e o sacrifica. O Sol se comunica com ele, se para o ordenar o sacrifício ou convidar Mitras ao céu, é incerto. Após o sacrifício, o Sol eleva Mitras ao céu, o comprimenta com um aperto de mão, coroa-o, e celebra um baquete com ele. É o que se sabe da biografia mítica de Mitras[17]

Referências Bibliograficas

[1] Jaime Alvar Ezquerra (2008) Romanising Oriental Gods: Myth, Salvation, and Ethics in the Cults of Cybele, Isis and Mithras, Brill, fl. 76.
[2] Alison Griffith (1996) Mithraism, Exploring Ancient World Cultures: Essays on Ancient Rome, http://eawc.evansville.edu/essays/mithraism.htm  acessado em 16.07.2012
[3] Roger Beck (2002) Mithraism, Encyclopaedia Iranica, edição online, artigo de 20 de julho de 2002, disponivel em http://www.iranicaonline.org/articles/mithraism  acessado em 19.07.2002
[4] Alison Griffith (1996) Mithraism, Exploring Ancient World Cultures: Essays on Ancient Rome, http://eawc.evansville.edu/essays/mithraism.htm  acessado em 16.07.2012
[5] Roger Beck (2002) Mithraism, Encyclopaedia Iranica, edição online, artigo de 20 de julho de 2002, disponivel em http://www.iranicaonline.org/articles/mithraism , acessado em 19.07.2002
[6] Jaime Alvar Ezquerra (2008) Romanising Oriental Gods: Myth, Salvation, and Ethics in the Cults of Cybele, Isis and Mithras, Brill, fls. 81-82
[7] JHWG Liebeschuetz (1994) The expansion of Mithraism among the religious cults of the second century republicado em JHWG Liebeschuetz (2006) Decline and Change in Late Antiquity: Religion, Barbarians and their Historiography, fl. 451 (fl. 195).
[8] Walter M Shandruk (2002) Descriptions of Mithraea and Iconography - 3:The Rock Birth, Mithraism in History and Archeology, website acessado via webarchive em 23.07.2012 http://web.archive.org/web/20110722023421/http://www.mithraism.org/cgi-bin/display.cgi?file=mithraeum.txt&part=3&total=8 , ver também Manfred Clauss (2001), The Roman Cult of MIthras, fls. 64-69.
[9] Walter M Shandruk (2002) Descriptions of Mithraea and Iconography - 4:The Hunt, Mithraism in History and Archeology, website acessado via webarchive em 23.07.2012
http://web.archive.org/web/20110722024803/http://www.mithraism.org/cgi-bin/display.cgi?file=mithraeum.txt&part=4&total=8 ver também Manfred Clauss (2001), The Roman Cult of Mithras, fls. 75-77.
[10] http://www.roman-britain.org/places/brocolitia.htm#rib1544  (2011) Roman Britain Organization, Brocolitia (Carrawburgh), Hadrian Wall Forts and Temples. (RIB 1544). RIB é a sigla para The Roman Inscription of Britain, catálogo das inscrições romanas na Grã-Bretanha, elaborado por R.G Collingwood e R.P Wright (1965), vol I, Oxford, Clarendon Press.
[11] http://www.roman-britain.org/places/vercovicium.htm  (2011) Roman Britain Organization, Vercovicium (Housesteads), Hadrian Wall Forts and Temples. (RIB 1600) RIB é a sigla para The Roman Inscription of Britain, catálogo das inscrições romanas na Grã-Bretanha, elaborado por R.G Collingwood e R.P Wright (1965), vol I, Oxford, Clarendon Press.
[12] Fertőrákos Mithraeum, Wikipedia, http://en.wikipedia.org/wiki/Fertorakos_Mithraeum , versão de 30.05.2012, acessada em 23.07.2012. (CIMRM n° 1637). CIMRM é a sigla para Corpus Inscriptionum et Monumentorum Religionis Mithriacae, catálogo de inscrições e monumentos associados ao culto de Mitras no Império Romano, editado pelo Professor Marteen J Vermaseren (1960).
[13] JHWG Liebeschuetz (1994) The expansion of Mithraism among the religious cults of the second century republicado em JHWG Liebeschuetz (2006) Decline and Change in Late Antiquity: Religion, Barbarians and their Historiography, fl. 469-470 (fls. 214-215).
[14] Jaime Alvar Ezquerra (2008) Romanising Oriental Gods: Myth, Salvation, and Ethics in the Cults of Cybele, Isis and Mithras, Brill, fls. 125-136. Assim como Liebeschuetz, Ezquerra pondera a inexistência de inscrições (com uma possível excessão), tumbas, sarcófagos ou imagens funerárias ligadas ao culto de Mithras (fls 135-136), critica o ceticismo de Robert Turcan, que vê tais expectativas como meros relatos de neo platonistas, não iniciados, que projetavam suas crenças no culto mitráico (fls. 125-126). Ezquerra rejeita o ponto de Turcan, acredita que o mitraistas associavam beneficíos na vida após a morte com sua iniciação, ainda que hesite se era uma concepção apenas dos mitraístas neoplatonistas, ou generalizada dentro do culto (fl. 126).
[15] Roger Beck (2006) The Pagan Shadow of Christ?, acessado em 23.07.2012 http://www.bbc.co.uk/history/ancient/romans/paganshadowchrist_article_04.shtml
[16] Manfred Clauss (2001) The Roman Cult of Mithras, fl.72
[17] Ceisiwr Serith (David Fickett Wilbar) (2003) What is Mithraism? acessado em 24.07.2012  http://www.ceisiwrserith.com/mith/whatismith.htm



sábado, 14 de julho de 2012

Mitra, Mitras, Mitraismo, Jesus e o Cristianismo - Existem paralelos? - Parte I


O deus persa Mitra e a religião de mistério Mitraismo são citados frequentemente (e principalmente na internet) como inspiração para a vida de Cristo. É dito que Mitra nasceu de uma virgem, teve 12 discípulos, realizou uma ceia, morreu e ressuscitou ao 3° dia. Até que foi crucificado. Contudo, a grande maioria não apresenta fontes. Quando citadas, frequentemente são autores esotéricos, ocultistas, ou muito antigas, as vezes do século XIX ou XVIII. Raramente é citada fonte acadêmica atualizada, textos antigos ou artefatos. 

Mas o que sabemos sobre Mitra? É até que ponto existem similaridades com o cristianismo? Esta séra (mais uma) série de posts aqui no adcummulus.



Mitra, Mitras, Mitraismo e Zoroatrismo


Relevo de Mitras, de  Roma, III séc, Louvre

De fundamental importância é entender o desenvolvimento do culto ao longo de vários séculos, da divindade auxiliar hindu e persa, ao protagonista de uma religião de mistério na antiga Roma. Começo com um artigo da Professora Alison Griffith, da Universidade de Cantebury, Nova Zelândia, chefe do board editorial do Electronic Journal of Mithraic Studies ou EJMS (jornal acadêmico dedicado aos estudos mitraisticos, coordenado por vários especiailistas no assunto). 

Prof. Griffith esclarece a relação entre Mitras, Mitra, o Mitraismo Romano e o Zoroatrismo


Mithraism is the ancient Roman mystery cult of the god Mithras. Roman worship of Mithras began sometime during the early Roman empire , perhaps during the late first century of the Common Era (…), and flourished from the second through the fourth centuries CE.(...) Mithras is the Roman name for the Indo-Iranian god Mitra, or Mithra, as he was called by the Persians. Mitra is part of the Hindu pantheon, and Mithra is one of several yazatas (minor deities) under Ahura-Mazda in the Zoroastrian pantheon. Mithra is the god of the airy light between heaven and earth, but he is also associated with the light of the sun, and with contracts and mediation. Neither in Hinduism nor in Zoroastrianism did Mitra/Mithra have his own cult . Mitra is mentioned in the Hindu Vedas, while Mithra is the subject of Yashts (hymns) in the Zoroastrian Avesta, a text compiled during the Sassanian period (224-640 CE)
(
Tradução)Mitraismo é uma antiga religião de mistério romana baseada no culta ao deus Mitras. A adoração romana a Mitras começou no início do período imperial, possivelmente no final do 1° seculo da Era Cristã, e atingiu seu auge entre o segundo séculos e quarto século da era cristã (...) Mithra é o deus das luz atmosférica, entre os céus e a terra, mas também é associado a luz do sol, aos contratos e a mediação. No Zoroatrismo e no hinduismo Mithra/Mitras não possuia seu próprio culto. Mitra é mencionado no livros védicos hindus, enquanto Mithra é assunto dos Yashts (hinos) do Avesta, do Zoroatrismo, livro compilado no periodo Sassanida (224-640 DC) [1]

O Professor Richard Gordon, da Universidade de Erfurt, e também membro do board do EJMS, acrescenta mais alguns detalhes sobre o desenvolvimento dos Mistérios de Mitras


(...) Mithra (in ancient India Mitra) was the Indo Iranian god of the contract. His cult was introduced into Anatolia by the Achaemenids after Cyrus' defeat of Croesus of Lydia (546 BC). As a result the god's name was known in Greece during the classical period, to Xenophon for example, but, as far as we can tell, without any details of his cult (notoriously, Herodotus thought he was a goddess [1.131.3]). With Alexander's conquest of the Persian empire, the raison d'etre of Iranian Cult, the symbolic reinforcement of Persian rule, was removed; no grand temple to Mithras survived into the Hellenistic world; his cult seems to have continued there only within  particular Iranian families and in the numerous, but isolated, localities. It is unlikely that there will ever be enough evidence to bridge the gap between Iranian Mithra, known mainly trhough the Avestan hymn (Yast) in his honor, composed c. 450- 400 BC, and the roman cult of Mithras/Mithres. Many have tried - this is one of the neuralgic points of Mithraic scholarship - but there is no genuinely and incontestably relevant evidence. (Tradução) Mithra (na antiga India, Mitra) era o deus dos contratos entre os indo-iranianos. Seu culto foi introduzido na Anatólia pelos Aquemidas após Ciro ter derrotado o Rei Creso da Lídia (546 AC). Como resultado o nome da divindade foi conhecido na Grécia no período clássico, por Xenofonte por exemplo, mas, até onde se sabe, sem que se conhecesse nenhum detalhe de seu culto (notoriamente, Heródoto pensou que Mitra era uma deusa [1.131.3]). Quando Alexandre conquistou o Império Persa, a própria raison d'etre do culto iraniano, o reforço simbólico do domínio persa, se perdeu; nenhum grande templo de Mitras restou do período helenistico, sua devoção parace ter continuado apenas entre certas famílias iranianas em numerosas, porém isoladas, comunidades. É improvável que algum dia haja evidência suficiente para preencher a lacuna entre o Mitra iraniano, conhecido basicamente através do Hino Avesta (Yast) in sua honra, composto entre 450-400 AC, e o culto romano a Mitras/Mitres. Muitos tentaram - este é um dos pontos nevralgicos do estudo do Mitraismo - mas não nenhuma evidência genuina e incontestávelmente relevante.[2]


Assim o Mitraismo (ou, mais apropriadamente, os Mistérios de Mitras) surgiu no mundo romano no início da era imperial, possivelmente em meados do I séc. DC, como culto organizado em torno do deus Mitras, correspondente romano do deus persa e hindu Mitra, associado aos contratos, os compromissos sociais e a luz. Contudo, no zoroatrismo e hinduismo não havia um culto a Mitra. O Mitraismo é um fenômeno tipicamente Romano. Resumindo, no território do Império Romano (que ia de Portugal até o atual Iraque, e da Inglaterra a atual Argélia), tínhamos a religião de mistério chamada Mitraismo, que passou a existir algumas décadas antes ou depois do ínicio da era cristã, não se sabe ao certo. Na Persia (Irã) e outras regiões da Asia Central, que faziam parte do Império Parto, Mitra é um dos  auxiliares de Ahura Mazda, divindade máxima do zoroatrismo, religião fundada pelo profeta Zoroastro, cerca de 700 anos antes de Cristo. Assim, no Império Parto não existiu mitraismo, mas zoroatrismo. E antes de Zoroastro, Mitra era adorado na India, sendo esporadicamente mencionado nas escrituras Hindus. 

De alguma forma, o deus Mitra foi "importado" da Antiga Persia, e partir dele se desenvolveu o culto Mitraista no Império Romano. Como visto, existe uma lacuna no conhecimento dos estudiosos entre o Mitra iraniano do zoroatrismo, de meados do século V AC, com o culto romano de Mitras do século I DC, e as formas intermedíarias do culto, que é fonte de intenso debate entre os pesquisadores. 

Fontes literárias e evidências arqueológicas para o Mitraismo
 

Mitra e o Touro, Estela, Museu de Sibiu

Professora Alison Grifith observa que a evidência para o culto Mitraista no Império Romano é basicamente arqueológica, com notável escassez de fontes literárias. 



The evidence for this cult is mostly archaeological, consisting of the remains of mithraic temples, dedicatory inscriptions, and iconographic representations of the god and other aspects of the cult in stone sculpture, sculpted stone relief, wall painting, and mosaic. There is very little literary evidence pertaining to the cult.

(tradução) As evidências para este culto são principalmente de natureza arqueológica, e consistem em restos de templos mitraicos, inscrições dedicatórias, e representações iconográficas do deus e de outros aspectos do culto em esculturas em pedras, esculturas de pedra em relevo, pinturas em paredes e mosaicos. A muito pouca evidência literária relativa ao grupo.[3]


O registro mais antigo associado ao Mitraismo Romano é uma inscrição datada de 90 DC, encontrada em um posto avançado, pertencente a legião XV Apollinaris, na antiga provincia da Panônia, atual Hungria. Essa legião participou, cerca de 30 anos antes, na defesa da fronteira oriental, contra os Partos (Persas), e, em sequência, da supressão a revolta judaica e do cerco de Jerusalém (66-70 DC). 



(…)the earliest datable evidence for the cult of Mithras came from the military garrison at Carnuntum in the province of Upper Pannonia on the Danube River (modern Hungary ). Indeed, the largest quantity of evidence for mithraic worship comes from the western half of the empire, particularly from the provinces of the Danube River frontier and from Rome and her port city, Ostia, in Italy (…) It is true that soldiers from the Roman legion XV Apollinaris stationed at Carnuntum (…) were called to the East in 63 CE to help fight in a campaign against the Parthians and further to help quell the Jewish revolt in Jerusalem from 66-70 CE. Members of the legion made mithraic dedications back in Carnuntum  (…) 

(tradução) (...) a mais antiga evidência do culto mitraista vem de uma guarnição em Carnatum na provincía da Panônia Superior, no Rio Danubio (atual Hungria). De fato, a maior parte da evidência para o culto mitraista vem da parte ocidental do Império, particularmente nas províncias da fronteira do Rio Danubio, de Roma, e sua cidade portuaria, Ostia, na Itália (...) é verdade que soldados da Legião Romana XV Apollinaris serviram em Carnatum (...) foram convocados para servir no Leste em 63 AC para ajudar em uma campanha contra os Partos e posteriormente tomaram parte no combate a revolta judaica em Jerusalém em 66-70 DC. Membros dessa legião fizeram oferendas a Mitra quando voltaram a Carnuntum. (...)[3]


David Ullansey, Professor do California Institute of Integral Studies, e da Universidade da California em Berkeley, comenta a primeira referência literária aos Mistérios de Mitras, feita por Plutarco de Quirôneia, em cerca de 80-90 DC.



earliest evidence for the Mithraic mysteries places their appearance in the middle of the first century B.C.: the historian Plutarch says that in 67 B.C. a large band of pirates based in Cilicia (a province on the southeastern coast of Asia Minor ) were practicing "secret rites" of Mithras. The earliest physical remains of the cult date from around the end of the first century A.D., and Mithraism reached its height of popularity in the third century

(Tradução) A mais antiga evidência para os mistérios de Mitra coloca seu aparecimento em meados do primeiro séclo antes de Cristo. O historiador Plutarco diz que em 67 AC, um grande grupo de piratas baseados na Cilícia (uma província costeira no Sudoeste da Asia Menor) estavam praticando rituais secretos de Mitras. A mais antiga evidência física do culto data do final do I século depois de Cristo, chegando o Mitraismo ao auge da popularidade no terceiro século. [4]



A passagem a qual Ulansey se refere é a seguinte:

Eles mesmos [os piratas] ofereciam estranhos sacríficios sobre o Monte Olimpo, e realizavam certos ritos secretos, dentre os quais os mistérios de Mitras foram preservados até os hoje, tendo sido instituidos previamento por eles. [5]

Mais ou menos na mesma época que Plutarco escreveu, o combate de Mitras com o grande Touro é brevemente mencionado pelo poeta Statius, que diz que Mitras torce os chifres rebeldes [do Touro] debaixo de uma caverna persa" [6].

Um dos problemas com o testemunho de Plutarco, é que ele escreveu sua Vida de Pompeu em cerca de 80-90 DC, referindo-se a fatos que teriam acontecido 150 anos antes, e só no final do século I DC é que começam a aparecer no Império Romano as primeiras representações de Mitras, dentre as quais a mais comum é o sacrificio o Touro.

Professor Richard Gordon comenta o desenvolvimento literário e arqueológico do culto:

Archaeologically, the cult of Mithras first appears in the Roman World in the Flavian-Trajanic period, when traces of it inscriptions (mithraea) are suddenly found at several widely separated sites, in Rome, Germania Superior, Raetia/Noricum, Moesia Inferior, Judea. The contexts are those we might expect: the military, the provincial toll system, harbor towns; the big surprise is Alcimus at Rome, the rich slave-bailiff of Tiberius Claudius Livanus, praetorian prefect from AD 102 (ILS 4199). No less striking is the fact that the first clear literaly reference dates from the same period: the poet Statius refers to Mithras, identified with solar Apollo, "twisting the recalcitrant horns in a Persian cave," Persaei sub rupibus antri/indignata sequi torquentem cornua Mithram" (Thebaid 719f.), a passage written in the mid-80s. The early evidence suggests that the cult already presented many of its later features - Mithras identified as Persian, as a Sun-god and as bull-slayer, the constrative torchbearers, the death of the bull as the guarantee of agricultural fecundity" (Tradução) Arqueologicamente, o culto mitraico surge no mundo romano no período flavianico-trajânico, quando traços dele em inscrições (Mithrae) são subitamente encontrados em sítios arqueológicos separados amplamente um dos outros, em Roma, Germânia Superior, Raetia/Noricum, Moesia Inferior, Judéia. O contexto é aquele que se poderia esperar: militares, o sistema de pedágio imperial, cidades portuárias; A grande surpresa é Alcimo em Roma, o rico chefe dos escravos de Tíberio Claúdio Livano, prefeito pretoriano no ano 102 DC (ILS 4199). Não menos surpreendente é que a primeira clara referência literária data do mesmo período: O poeta Statio se refere a Mitras, identificado com o deus solar Apolo, "torcendo os chifres recalcitrantes em caverna persa "Persaei sub rupibus antri/indignata sequi torquentem cornua Mithram" (Thebaid 719f.), verso escrito em meados da década de 80 DC. A evidência mais antiga que o culto já possuia muitas de suas características posteriores - Mitras identificado com os persas, como divindade solar e matador do touro,  o contraste das figura que seguram as tochas, o sacrifício do Touro como garantia da fertilidade agrícola[7]. 
 Além disso, como observou o Professor Marteen Vermaseren, nenhum monumento mitráco pode ser datado antes do final do século I, e mesmo em Pompéia, destruída pela erupção do Vesúvio em 79 DC, nenhuma inscrição ou imagem do deus foi recuperada [8]. Assim, existe um vazio no nosso conhecimento sobre o Mitraismo entre 67 BC e 80 DC. Em Roma, como já observou acima o Professor Richard Gordon, a mais antiga evidência é uma inscrição mencionando um certo Alcimo, servo de Tibério Claudio Livano, que é geralmente identificado como o Comandante da Guarda Pretoriana sob o Imperador Trajano (98-117 DC), o que permite datar o artefato no início do século II. A partir daí, o rastro de Mitras é amplo e claro espalhando-se pelas províncias e pela capital.
 
 Assim, tenha sido trazido pelos piratas derrotados por Pompeu em 60 AC, ou pelos soldados da XV Legião em 60 DC, tudo indica ter havido um período de desenvolvimento do Mitraismo até que começam a aparecer as figuras nos templos, com suas paredes e esculturas que narram o mito de Mitras, no II século. 

Segundo Alison Griffith, na parte ocidental do Império, notadamente nas fronteiras dos Rios Reno e Danúbio e nas imediações da cidade de Roma, que se concentra a grande maioria das evidências arqueológicas do Mitraismo. A imediações do Muro de Adriano, que separava a Inglaterra da Escócia, e a Númida, no Norte da Africa (região da atual Argélia e Tunísia), são as duas outras regiões onde, segundo a evidência arqueológica, o mitraismo era popular. Com excessão da cidade Roma, todas essas áreas eram de grande concentração de legionários em serviço. Em Roma e Ostia estão 26 dos 100 mitrários remanescentes. Ela observa que, em Roma e adjacências, embora alguns cidadãos parecam ter tido algum envolvimento a partir do final do século I DC, a evidência arqueológica aponta que o culto se tornou popular a partir de meados do II século DC [9]

Professor Wolf Liebeschuetz, da Universidade de Nottingham, também observa o fato da concentração das evidências arqueológicas mitraísticas nessas quatro regiões, inferindo que, provavelmente, a de Ostia/Roma seria mais antiga. Ressalta que a evidência para o mitraismo na Grécia e no leste do Império é muito pequena, o que aponta para o  surgimento dos misterios de Mitras na parte ocidental do Império [10

Como veremos aqui no adcummulus nos próximos posts dessa série, essa constatação é importante, porque caso o culto já existisse no Irã, seria justamente no leste (atual Siria e Iraque), região que fazia fronteira ao antigo  Império Parto (e que também concentrava um grande número de tropas), é que se esperaria encontrar farta e, principalmente, a mais antiga evidência sobre o Mitraismo.

Griffith continua, observando que não há para o mitraísmo, um grupo de escritos semelhante ao Novo Testamento, e não se sabe ao certo até mesmo se algo assim tenha realmente existido no passado.


The Roman cult of Mithras is known as a "mystery" cult, which is to say that its members kept the the liturgy and activities of the cult secret, and more importantly, that they had to participate in an initiation ceremony to become members of the cult. As a result, there is no surviving central text of Mithraism analogous to the Christian Bible, and there is no intelligible text which describes the liturgy. Whether such texts ever existed is unknown, but doubtful. Worship took place in a temple, called a mithraeum, which was made to resemble a natural cave.(...) There are about one hundred mithraea preserved in the empire.

(tradução) O culto romano a Mitras é conhecido como uma "religião de mistério", o quer quer dizer que os membros deviam manter segredo sobre as atividades e liturgia do culto, e, mais importante, que eles tinham de participar de uma cerimônia de iniciação para se tornarem membros do culto. Como resultado não há um texto central, remanescente, semelhante a Bíblia Cristã, como não há um texto inteligível descrevendo a liturgia. Não se sabe se um texto assim existiu no passado, mas é duvidoso. O culto acontecia em um templo, chamadro Mitrário, que era construido de forma a lembrar uma caverna. (...) Existem hoje cerca de cem Mitrarios remanescentes do Império (Romano).[11]


Infere-se, a partir das evidências arqueológicas associadas aos mitrários, que os seguidores de Mitras se reuniam para compartilhar de uma refeição comunitária, iniciação de membros e outras cerimônias. A maioria dos Mitrários permitiam receber, no máximo, 40 pessoas. Somente homens eram aceitos como iniciados. A estrutura do culto era hierarquica, estando os membros organizados em sete níveis cada um associado a um símbolo especial e um planeta diferente. O primeiro era o de Corax (corvo, sob Mercurio), Nymphus ("noivo", sob Venus), Miles (soldado, sob Marte), Leo (leão, sob Jupiter), Perses ("persa", sob a Lua), Heliodromus ("mensageiro do Sol", sob o Sol), e o mais importante Pater ("Pai", sob Saturno). Aqueles que chegavam ao mais alto grau, Pater, podiam se tornar chefes da congregação.  Como as congregaçãoes eram pequenas, novas eram provalmente formadas com regularidade, cada vez que novos membros se tornavam Pater [11]. 


O Professor Roger Beck, da Universidade de Toronto, resume o que podemos afirmar até aqui sobre o desenvolvimento dos mistérios de Mitra no Império Romano:


From this evidence we know that the cult was the last of the important mystery cults to evolve and that it thrived in the second and third centuries AD and waned in the fourth as élite patronage was gradually transferred to Christianity.The cult was limited to men (not a good strategy for maximising market share), popular with the military (hence over-represented in the frontier provinces), with a large constituency in the city of Rome and its port Ostia. It consisted overwhelmingly of those a notch above the absolutely poor, a religion of the reputable but not of the élite. While Christianity developed hierarchically and strove to form and maintain a single Church - at least in principle - Mithraism remained comfortably local. We know of no Mithraic authority higher than the ‘Father’ presiding over his group of thirty or so brother initiates: no Mithraic bishops or pope, and no orthodoxy to define and squabble about. (tradução) A partir desta evidência, sabemos que o culto foi o último das religiões de mistérios importantes a se desenvolver que prosperou nos séculos segundo e terceiro e diminuiu no quarto quando o favorecimento da elite foi sendo gradualmente transferido para o cristianismo. O culto era limitado aos homens (estratégia ruim para maximizar a market share), popular com os militares (portanto concentrado nas províncias fronteiriças), com uma base grande de adeptos na cidade de Roma e seu porto de Óstia. Consistia esmagadoramente de pessoas um pouco acima da pobreza, uma religião dos respeitávelis mas não das elites. Enquanto o cristianismo desenvolveu hierarquicamente e se esforçou para formar e manter uma Igreja una - pelo menos em princípio - o mitraísmo manteve-se confortavelmente local. Não se sabe de nenhuma autoridade Mitraista maior do que o 'Pai' presidindo seu grupo de pouco mais de trinta iniciados: nenhum bispo de Mitra ou papa, e sem ortodoxia para se definir ou debater.[12]




Referências Bibliográficas
[1] Alison Griffith (2000) Mithraism, Exploring Ancient World Cultures: Essays on Ancient Rome,  http://eawc.evansville.edu/essays/mithraism.htm  acessado em 10.07.2012 
[2]  Richard Gordon (2007) Institutionalized Religions Options: Mithraism In Jorg Rüpke (2007) Companion to Roman Religion, fls. 394-395, Wiley Blackwell
[3] Alison Griffith (2000) Mithraism, Exploring Ancient World Cultures: Essays on Ancient Rome,  http://eawc.evansville.edu/essays/mithraism.htm  acessado em 10.07.2012
[4] David Ulansey (1991) The Cosmic Mysteries of Mithra, excertos, http://www.mysterium.com/mithras.html, acessado em 10.07.2012 
[5] Plutarco, Vida Paralelas, Pompeu, 25:4 
[6] Statius Tebeida, 1:719-720
[7] Richard Gordon (2007) Institutionalized Religions Options: Mithraism In Jorg Rüpke (2007) Companion to Roman Religion, fls. 394-395, Wiley Blackwell
[8] Marteen Vermaseren (1963)  Mithras: the Secret God, fl. 29
[9] Alison Griffith (2000) Mithraism, Exploring Ancient World Cultures: Essays on Ancient Rome,  http://eawc.evansville.edu/essays/mithraism.htm  acessado em 10.07.2012 
[10] JHWG Liebeschuetz (1994) The expansion of Mithraism among the religious cults of the second century republicado em JHWG Liebeschuetz (2006) Decline and Change in Late Antiquity: Religion, Barbarians and their Historiography, fls. 195-216. 
[11]   Alison Griffith (2000) Mithraism, Exploring Ancient World Cultures: Essays on Ancient Rome,  http://eawc.evansville.edu/essays/mithraism.htm  acessado em 10.07.2012
[12] Roger Beck (2006) The Pagan Shadow of Christ? http://www.bbc.co.uk/history/ancient/romans/paganshadowchrist_article_04.shtml, acessado em 13.07.2012
 

 
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