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terça-feira, 18 de agosto de 2009

"Estudos Religiosos" e "Teologia"- considerações epistemológicas - Parte II

Retomemos nossa reflexão anterior, a respeito da relação epistemológica e metodológica entre 'estudos religiosos' e 'teologia', continuando com o gancho no fragmento do comentário de Max Weber.

Weber, advogando sua clássica posição da neutralidade axiológica e valorativa no fazer ciência social, nos deixa algo como uma confissão contrita: não há por onde escapar de se fazer escolhas... Uma adoção automática, nos remeteria próximo ao postulado de Douglas e Knoll’s. Os 'estudos religiosos' não seriam adequados à busca de uma posição teológica, cabendo às disciplinas teológicas, desvelarem a 'estrutura última' das avaliações, buscando seu significado no comprometimento religioso...

Agora, essa escolha, feita na hora de se tomar uma decisão na esfera de ação, não retroage e retro-alimenta, na prática, o próprio labor investigativo, mesmo o do acadêmico de 'estudos religiosos'? Essa postura em si, de advogar a neutralidade, não se imiscuiria numa visão filosófica particular do empreendimento societal? Aonde alguém, engajado no cotidiano de universidades e grupos de pesquisa sob orientadores, conseguiu ver tal neutralidade?

Em relação ao que falamos sobre o realismo crítico...os pesquisadores e estudiosos não assumem preferências por determinados modelos conceituais em detrimento de outros, não deixam sobressair determinadas ferramentas preterindo outras, e não interagem nisso com conhecimentos prévios selecionados, ou em escala diferente de pesos? Ao se depararem com anomalias, não existem aqueles que dão mais peso (quantitativo ou qualitativo) a determinadas anomalias para derrubarem uma teoria, outros a determinadas injunções ou descobertas para construírem uma teoria, entre si?

Em alguns, determinado paradigma é mais recalcitrante, em outros, menos? E o Zeitgest – ambiente cultural delimitado - não entra nisso? Ou existem aqueles desprovidos ou imunes a tal? Lembro de Albert Camus apontando no livro 'O Homem Revoltado' que mesmo uma fotografia não era algo neutro e objetivo, pois o fotógrafo decide enquadrar, delimitar espaço-temporalmente e focar algo da realidade – que é algo muito mais amplo e menos estático do que o mundo exterior onde está o fotografado - que não coincidem, evidentemente, com as molduras intrínsecas (quais seriam?) da própria.

Também, não necessariamente um artigo, texto ou trabalho, desprovido de tom militante, e mais circunspecto, implica que seja mais imparcial. Perfeitamente vemos nesse campo, ironias sutis, sarcasmos velados, 'tapas de luva', termos escolhidos meticulosamente para que, evitando perder o ar puramente acadêmico, sirvam para provocar um seguimento, ou entusiasmar adeptos de idéias.

Isso significa que o campo então deve ser aberto e entregue a manifestações panfletárias, ou que somente podemos ver guerras de trincheiras sem arbítrio entre si? Não. De forma alguma.

Na minha formação acadêmica em agronomia pude estudar estatística básica e estatística aplicada. Envolvem instrumentais de controle e rigor para as ciências. Confere a elas um caráter mais democrático. É claro que um pesquisador renomado, uma sociedade científica, possui um peso considerável num debate a respeito de um tema, e para fortalecer um paradigma ante anomalias. Contudo, o teste estatístico, que averigua a variância, margem de erro, amplitude, etc., é objetivo, e qualquer um pode desbancar uma tese se mostrar que há erro num cálculo simples no 'Teste de Tukey'. Nos campos de estudo compreendidos na presente temática, lidamos com variáveis, elementos e 'objetos' de estudo muito menos passivos de controle, sujeitos e mesmo requerentes de uma maior extrapolação. Com isso, o elemento de controle correspondente deve ser a lógica e análise retórica.

Eruditos elencam dados. Um leigo pode analisar seu escrito e dizer 'tal dado, com aquele outro, não levam necessariamente a tal conclusão', ou 'tal conclusão não corresponde a uma seqüência lógica a partir disso', ou 'aqui há mais retórica e menos concisão'; diversos escritos imensos, com um escopo de notas de rodapé maior do que o corpo de texto (algumas vezes nos deixando intrigados do por que elas não estão inseridas no corpo do texto, pois perfeitamente seguem sua seqüência), podem padecer de problemas como 'imagens semi-aderentes', 'médias unidimensionais', etc. Isso serve como um imperativo do qual os pesquisadores nesse campo não podem se escusar, o cuidado retórico, auto-crítica e o apreço pela boa disposição silogística dos argumentos.

Voltemos ao texto de Weber. Ele escrevera: As disciplinas filosóficas podem ir mais longe e revelar o ‘significado’ das avaliações, isto é, sua estrutura última e suas conseqüências significativas.

Poderíamos estabelecer, daí, com cuidado, uma relação então entre a 'teologia', ocupando o lugar aí das 'disciplinas filosóficas', e os 'estudos religiosos', ocupando o lugar das 'avaliações'? Seria enfim questão da separação entre 'ciências básicas' e 'ciências aplicadas', com a 'teologia' ocupando o lugar da segunda?
Eu sugiro que, em termos, e sem fronteiras rígidas, isso pode ser aproveitado na tarefa de se indicar um caminho menos míope.

Isso tem sim a ver, mas não pode ser delimitado assim com tal clivagem. Debrucemo-nos sobre a interface 'biblistas/teólogos'. Um biblista, por exemplo, fornece grandes materiais para um teólogo, sem precisar de ser um. Assim também um lingüista, etc. Mas, por outro lado, um conhecimento de trabalhos teológicos pode ser indispensável para análises lingüísticas de materiais religiosos.

Podemos dar um exemplo. Bart Ehrman, no meu ponto de vista, é primeiramente um grande biblista, que faz também teologia acadêmica. N.T.Wright, vejo-o primeiramente como um teólogo, que também é um grande acadêmico biblista. Ambos produzem pesquisas de qualidade, de alcance amplo e acessível para o ambiente dos pesquisadores. Mas podemos pegar a tônica geral dos seus trabalhos e ver que predomina um compromisso em ambos, em Bart, com o agnosticismo, em Tom, com o cristianismo.

E, afinal, 'quem decide' o que vai ser básico e o que vai ser aplicado? Frequentemente, aquele que propriamente produz o material é o que tem o menor poder de decisão. As pessoas podem pegar recortes de pesquisas dos biblistas dando-as orientações aplicadas, sem passar pelo trabalho de um 'teólogo', e podem encostar um trabalho teológico de lado sem aplicá-lo a nada, ou apenas decorando-o sem enxergar uma aplicação, ou podem mesmo usar um trabalho teológico para subsidiar ou suscitar uma investigação de cunho biblista.

Eu diria que, mais apropriadamente, mas com cuidado, podemos enxergar no papel dos 'estudos religiosos' uma tônica, preponderantemente (mas não exclusivamente) analítica, e no trabalho de 'teologia', uma tônica preponderantemente (mas não exclusivamente) sistematizadora. ‘Estudos religiosos’ primariam pela decomposição em partes para esmiúçá-las em cada elemento que se apresentar, ela parte do mais composto para o mais simples, investiga através de uma divisão em partes menores para que possam por seu instrumental, serem observadas e compreendidas, busca mais a ‘análise’. ‘Teologia’ teria como procedimento norteador a preocupação inversa, combinar os elementos num produto global de conhecimento, busca mais a ‘síntese’. A teologia tentaria elucidar também o sentido ou o significado que estas investigações, inclusive quanto às experiências das comunidades e tradições que vivenciam o fenômeno religioso, poderiam proporcionar. Isso, enfatizando o termo 'preponderantemente', para indicar que não implica que alguém de um campo ou outro se atenha somente à análise ou síntese.

sábado, 15 de agosto de 2009

"Teologia" e "Estudos Religiosos" - Parte I


Douglas Mangum, no seu formidável e agradável blog Bíblia Hebraica, veio desenvolvendo e fez um apanhado de algumas discussões a respeito das diferenças do trabalho de 'teologia' para com 'estudos religiosos'. Ele se diz contemplado com alguns apontamentos feitos pela crônica de K.L. Noll’s.

De fato, é um assunto que teve algum tempo me debrucei a respeito. Na verdade, eu nutro grande interesse a respeito de discussões de gnosiologia, epistemologia e metodologia em geral, e já desenvolvi trabalhos a respeito em minha área profissional como agroecólogo, intitulados Perspectivas epistemológicas para a agroecologia, promovendo um diálogo entre as ciências da agroecologia, as ciências da complexidade e as discussões da filosofia e história da ciência. Também já me debrucei sobre temas de epistemologia e direitos humanos, focando a ontologia de Paul Tillich e os Direitos Humanos à Alimentação Adequada (DHAA). Como alguém que investiga e xereta diversos assuntos nos escritos sobre religião, esse tema não ficaria de fora, e de fato já venho resolvendo empreender algo neste sentido, o que levaria alguns meses.

A provocação da discussão é deveras pertinente. Podemos observar um fenômeno crescente, e bivalente, onde os cursos e faculdades de teologia cada vez se vêem mais restritos a seminários e faculdades de direito privado ligadas a instituições de cunho religioso, enquanto, por outro lado, cresce nas instituições públicas cursos e faculdades de 'estudos religiosos', ou 'ciências da religião', multidisciplinares e com diversas interfaces com outras áreas.

Aqui, tentarei levantar algumas modestas reflexões a respeito dos pontos levantados por Douglas e por Noll’s. Uma advertência preliminar. Douglas nota bem a lamentável participação meio que sectária dos comentários a respeito do artigo de Noll’s. Contudo, versarei sobre alguns pontos que elas levantam. Pois o fato é que não é porque alguém levanta um assunto com uma postura e tônica sofrível que o conteúdo essencial do levantamento em si se invalida.

Os eixos-chave do raciocínio da crônica são o seguinte: a teologia está imbuída de um compromisso teleológico que lhe retira a objetividade, em relação ao maior distanciamento de alguém que se declara empreendedor de trabalhos em 'estudos religiosos'. E o teólogo está imerso e comprometido, necessariamente, com uma tradição religiosa, e faz seus trabalhos na ótica da sua comunidade de tradição, e em prol dela. Há um maior controle dos resultados de pesquisa em quem faz 'estudos religiosos' do que quem trabalha com 'teologia'.

Quero argumentar aqui que, na linguagem teen de hoje, isso tudo é 'muito relativo'.

Um teólogo se debruça sobre uma tradição religiosa, pois seu material de estudo está imerso nela. Não significa que ele está comprometido com essa tradição, necessariamente. Alguém pode estudar teologia de uma tradição sem pertencer a ela;pode estudar a teologia de uma tradição religiosa diferente da sua. Ou alguém que não se declara pertencente a nenhuma pode estudar várias ou uma. Ele estudaria as representações das divindades, como elas retroagem com os que crêem, o material primário da tradição, qual a natureza da linguagem que se fala dela, como se relaciona com outras tradições, com a cultura em geral. No caso, esses temas se sobressairiam ante o foco mais enfatizado na história em si, ou na sociologia, ou estética, embora ele possa usar tais como ferramentas. Mas pode perfeitamente não crer no conteúdo da alegação e reivindicação dessa tradição.

Por outro lado, alguém que foca no estudo antropológico das comunidades e/ou instituições de uma tradição religiosa, ou relações econômicas, no campo filológico ou idiográfico, sobressaindo o foco nas ciências sociais, p. ex., não seria um teólogo, mas trabalharia com “estudos religiosos”, e poderiam muito bem pertencer a tradição estudada ou a outra, e ser em dado grau, comprometido com ela no trabalho. E a teologia, propriamente dita, estará presente em um grau muito pequeno. O teólogo pode se valer de aportes destes estudos para empreender seu trabalho enquanto tal.

Todos eles estão inseridos numa comunidade, numa comunidade de pesquisadores, em sua comunidade acadêmica cotidiana, às quais submetem, reportam os trabalhos e levam em conta o consenso ou a posição majoritária, avançando dentre os paradigmas que os colegas da comunidade acadêmica perfilham e os problemas detectados; sobre todos poderíamos dizer que, no âmbito acadêmico, seriam os 'cientistas normais' dos postulados de Thomas Kuhn, partilhando dos seus jogos de linguagem. E com o tempo, no contexto social, historicamente se constituem corpos de tradições, ainda que não monolíticas.

Quanto à questão de objetividade do pesquisador, este é um assunto muito mais extenso e complexo do que muitos crêem, e daria para escrever vários artigos. No campo filosófico este debate é um balaio de gato. Sobre a natureza da relação entre o observador, o material estudado e a linguagem, representação e ontologia, mesmo no campo das ciências como física, química, astronomia, etc., temos ainda vivo um grande debate entre realistas, instrumentalistas, e mais recente algo que veio contribuir muito (uma perspectiva à qual me alinho), o realismo crítico.

Os realistas críticos atentam que um conhecimento da realidade é auferido pelas ferramentas, mas em aspectos limitados e parciais, em interação com quem conhece. Apregoam que as ferramentas científicas não podem mesmo expressar crua e perfeitamente a realidade tal como é em si, tampouco se restringem a construções intelectuais úteis e internamente consistentes. Dentro de limites, podem apresentar a realidade, mediada por atos de imaginação criativa, nos quais analogias e modelos conceituais têm frequentemente um papel. Os modelos conceituais nos ajudam a imaginar o que não é diretamente observável, especialmente no domínio do muito grande e do muito pequeno. - extraído de Quando a ciência encontra a religião, Pg. 41-42.

Vamos nos debruçar sob o prisma do que Max Weber escrevera aqui:

Pode-se afirmar que, quando se procura retirar orientações concretas de avaliações práticas políticas (particularmente econômicas e sóciopolíticas), 91) os meios indispensáveis, (2) as repercussões inevitáveis, (3) a competição condicionada das inúmeras avaliações possíveis nas suas conseqüências práticas são tudo o que uma disciplina empírica pode demonstrar com os meios ao seu dispor. As disciplinas filosóficas podem ir mais longe e revelar o ‘significado’ das avaliações, isto é, sua estrutura última e suas conseqüências significativas. (...) As ciências sociais, estritamente empíricas, são as menos adequadas para ter a presunção de nos poupar a dificuldade de fazer uma escolha, e não devem portanto difundir a impressão de que podem fazê-lo.
WEBER, Max. The Meaning of ‘Ethical Neutrality’ in Sociology and Economics. In:The Methodology of the Social Sciences (Nova York:Free Press,1949), p.18-19.

Este texto iluminará nossa reflexão, buscando somar e transpor o 'político', que é o que ele aborda, com o 'religioso', nossa preocupação maior aqui.


CONTINUA...


IMAGEM: Max Weber.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Jesus como Mestre e Sábio: Na visão das fontes não-cristãs do séc. I e II - Parte 2 - Mara Bar Serapion

No post anterior analisamos a imagem de Jesus como um mestre e homem sábio na principal fonte não-cristão, Flávio Josefo. Agora vamos continuar a contextualizar a visão de Jesus como homem sábio(...) mestre de pessoas que recebem a verdade com prazer", utilizando uma fonte um tanto desprezada, mas que pode bem ser a mais antiga referência não-cristã a Jesus. A Carta do estóico sírio Mara Bar Serapion.

Mara Bar Serapion (73 DC - 150 DC)

A (provável) menção a Jesus se dá em uma carta de exortação a excelência da sabedoria que sobrevive mesmo com as injustiças e eventual morte que sofre o sábio. Jesus é comparado a Pitágora e Sócrates.

"O que diremos, quando os sabíos são arrastados pelas mãos dos tiranos, e sua sabedoria os leva a perda da liberdade, e são despojados por causa de sua inteligência superior,sem a oportunidade de se defender? Mas eles não devem ser objeto de pena. Pois qual benefício obtiveram os atenienses por condenarem Socrátes a morte, uma vez que eles receberam em troca fome e peste? Ou os cidadãos de Samos por lançar Pitágoras as chamas? Num instante seu território se viu coberto de areia. Que vantagem obtiveram os judeus matando seu sábio Rei. Logo depois, seu reino foi destruido. Pois com justiça Deus vingou esses três sábios. Pois os atenienses morreram de fome, o povo de Samos foi coberto pelo mar, e os judeus, desolados e expelidos de seu reino, vagam dispersos por todas as terras. Socrates não morreu, por causa de Platão, ou Pitagoras, por causa da Estátua de Hera, nem tampouco o Sábio Rei, continuou a viver nos ensinamentos que transmitiu." [14]

Professor Gerd Theissen , da Universidade de Heidelberg (Alemanha), e Professora Annete Merz, Universidade de Utrecht (Holanda), fazem uma descrição da fonte:
"Curiosamente, o testemunho pagão supostamente mais antigo sobre Jesus é pouco conhecido. Encontra-se numa carta pessoal do estóico sírio, originário de Samosata, Mara Bar Serapion, que escreveu de uma prisão romana (em lugar desconhecido) ao filho Serapion. A carta tem por conteúdo numerosos conselhos e advertências que Mara faz ao filho em face de sua possível condenação" [15]

Theissen e Merz [15] observam que a datação da carta é controversa. A referência a dispersão dos judeus pode ser encaixada na Revolta de Bar Kochba (135 DC), ou na destruição de Jerusalém (70 DC). Ele acrescenta, que há na carta uma menção a fuga dos cidadãos anti-romanos da cidade de Samosata para Selêucia, que parece ser idêntico ao da destruição e expulsão do Rei Antioco IV de Comagene (que tinha por capital Samosata) pelos romanos no ano de 73 DC, relatado do Josefo em Guerras Judaicas 7:219-243.

Ainda segundo Theissen e Merz [15], "os dados sobre Pitagoras, os sâmios e os atenienses são historicamente muito imprecisos. Talvez Mara considere o filósofo e o escultor Pitagorá a mesma pessoa".

Mara não menciona Jesus pelo nome. A associação é feita baseada nas características:
1) Ele era judeu
2) Era um sábio
3) Ele era um "Rei"
4) Ele continuou vivo por meio de seus ensinamentos
5) Ele foi morto por seu povo
6) O reino judeu foi destruído após sua morte.

1) Jesus era judeu;
2) Era considerado como um sábio ou filósofo (Luciano; Evangelho de Tomé 13: Tu és como um sábio filósofo);
3) Era o "Rei dos Judeus"; (Titulus Crucis nos quatro evangelhos)
4) Seus seguidores mantiveram vivo seus ensinamentos após sua morte, e mesmo depois da destruição de Jerusalém. Trinta anos após a morte de Jesus, estavam solidamente estabelecidos em Roma ( Tácito, Suetônio).
5) Jesus foi morto sob Pôncio Pilatos, mas as autoridades do Templo exerceram uma papel importante. De qualquer forma, a pregação cristã logo tendeu a minimizar a responsabilidade romana e enfatizar a judia.
6) Cerca de 40 anos depois da morte de Jesus, Jerusalém foi destruida. (Elemento também presente na pregação cristã).

A identificação do sábio Rei referido por Mara com Jesus de Nazaré não é completamente certa. Contudo, que outro "candidato" preenche esses requisitos? Josefo lista quase uma dezena de pretendentes messiânicos, mas eles foram mortos pelos romanos, e seus ensinamentos, quando existiram, não sobreviveram a sua morte. Judas Galileu, inspirador dos zelotes e outros radicais anti-romanos, manteve seguidores após sua morte. Contudo, até onde se sabe, se ele foi executado, o foi pelos romanos e não pelos judeus; não foi chamado de "Rei dos Judeus"; e seu movimento não sobreviveu a queda de Jerusalém e, portanto, a época em que Mara escreveu.

Como observa FF Bruce (1910-1990), ex-Professor das Universidades de Sheffield e Manchester:
"Este escritor dificilmente poedria ter sido cristão; tal fosse o caso , haveria declarado que o Cristo continuou vivo e que ressuscitou dos mortos. Maior probabilidadee há de que fosse um filósofo gentio, pioneiro no que se veio depois tornar rotina comum - colocar Jesus em pedestal de igualdade com os grandes sábios de antanho"[16]

Tudo indica que Mara foi influênciado pela pregação cristã, embora se mantivesse como pagão pois faz referência em alguns lugares da carta a "nossos deuses". Era, possivelmente, um simpatizante do cristianismo.

Theissen e Merz [17], observam que as afirmações de Mara são parcialmente dependentes dos evangelhos. Primeiro, apenas os judeus são responsabilizados (ver I Tes. 2:15; Atos 4:10). Segundo, a derrota judaica perante os Romanos é resultado da crucificação de Jesus (cf Mt 22:7; 27:25). Terceiro, Jesus é chamado de Rei Sábio (ver Mt 2:6).

Thiessen e Merz complementam,
"Mara permite reconhecer em alguns pontos uma perspectiva externa em sua avaliação de Jesus e do cristianismo:
Na série de paradigmas de Mara, Jesus aparece como um de três sábios Mara não sabe nada da ressureição de Jesus, ou a reinterpreta tacitamente no sentido de sua cosmovisão caracterizada em sua carta da seguinte forma "A vida do homem, meu filho, sai do mundo, seu louvor e seus dons permanecem na eternidade". Isso se aplica da mesma forma a Socrátes como a Jesus. Para Mara, Jesus é importante sobretudo como novo legislador. Ele continua a viver em suas leis. Ao que parece, Mara vê os cristãos como aqueles que vivem segundo a lei do Rei Sábio, o que explica bem a postura do estóico em relação a eles" [17]

Professor Robert Van Voorst, Western Theological Seminary, acrescenta:
"A mais antiga referência filosófica ao cristianismo de que se tem conhecimento, a carta de Mara Bar revela a atração que o cristianismo era capaz de exercer sobre alguns intelectuais. As observações positivas a Cristo e ao Cristianismo, no entanto, não devem ser lidas como um endosso, da mesma forma como sua menção a Sócrates e Pitágoras significam que ele era adepto de suas respectivas escolas filosóficas" [18]

Admitindo a provável menção a Jesus de Nazaré como sábio Rei em Mara Bar Serapion, temos um retrato que é semelhante a descrição de Galeno e, até mesmo, com o de Luciano de Samosata (Samosata, inclusive, fica na mesma região daonde Mara é proveniente). Jesus é visto como um filósofo, que deixou leis e ensinamentos, que foi executado, mas cujo legado permanece, tendo díscipulos que vivem segundo suas leis. Luciano interpretou essas tradições de forma depreciativa aos cristãos. Galeno de forma positiva, embora condescencente. Mara, por sua vez, também as toma de maneira positiva, mas vê em Cristo um modelo de sabedoria.

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CONTINUA

[14] Carta de Mara Bar Serapion http://www.earlychristianwritings.com/text/mara.html
[15] Gerd Thiessen e Annete Merz (1996), O Jesus Histórico, Um Manual, fl. 95
[16] F. F. Bruce (1965), Merece Confiança o Novo Testamento, fl.148-149
[17] Gerd Thiessen e Annete Merz (1996), O Jesus Histórico, Um Manual: fl. 97
[18] Robert Van Voorst (2000), Jesus Outside of the New Testament, fl. 58
Jona Lendering http://www.livius.org/men-mh/messiah/messianic_claimants00.html (excelente site!!!)
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