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quinta-feira, 20 de março de 2014

Recomendação de leitura: O fracasso do evergetismo romano na Judeia

A professora Rosana Marins produziu um excelente trabalho para a Revista do Instituto Cultural Judaico, sob o título "O fracasso do evergetismo romano na Judeia", que está disponível neste link. Recomendamos como importantíssimo para entendermos como fervilhava o clima sociopolítico e instigava imaginários, narrativas sociais simbólicas e movimentos políticos de resistência no Judaísmo sob o domínio romano.

Buscarei contribuir para contextualizar e imergir os leitores no plano geral de questões conceituais e sociológicas do tema específico tratado. O que se conhece como evergetismo despontara muito antes na Grécia, dentre o século VI a IV a.C.

A população ateniense dobrara e ultrapassara a marca de 200 mil habitantes, necessitando de altas importações para seu abastecimento, como por exemplo metade de seu trigo (Peter Garnsey) – chegando-se a proibir exportação e obrigando mercadores a entregarem dois terços de seus carregamentos de trigo a Atenas, sob pena de morte. Contudo, diante da enorme pressão para uma revolta popular – diante do regime alimentar exíguo, epidemias e doenças endêmicas como paludismo e tuberculose - um jogo tácito foi adotado pelas elites do país: ao mesmo tempo que se o governo expropriava os excedentes produzidos pela população majoritariamente camponesa, os ricos proviam víveres e serviços para os pobres e obtinham legitimidade e eram honrados, evitando assim que se revoltassem contra eles e fazendo com que toda a desconfiança voltasse-se contra o Estado – que era controlado por eles, sendo assim, a desconfiança era apenas no sentido de se cobrar do Estado que se efetuasse esta provisão em cima de impostos sobre os ricos.

É um panorama recorrente na história e que este artigo explora brilhantemente sobre seu formato estratégico para o poder de Roma na Judeia, os efeitos no contexto histórico judaico, seu imaginário e identidades de resistência, abrangendo o período na esteira do nascimento cristão e seu desenvolvimento no judaísmo dos séculos I a.C. e I d.C., com grande repercussão e impacto neste cristianismo. Chama a atenção especialmente por tratar de analisar a implementação sobre uma população dominada, e não sob súditos ou cidadãos do próprio "Estado".


 Interessante é que algo assim está no certe de proposições de um dos maiores e mais brilhantes filósofos sociais e da cultura (isto, temos de reconhecer o mérito, nem que seja para nos instigar e nos tirar da auto-indolência, daqueles que não necessariamente acompanhamos a linha geral de pensamento e pontos específicos) na Europa na atualidade, Peter Sloterdijk. Delineando os contornos em “Tempo e Ira” e explicitando melhor em “Se a Europa Despertar”, o pensador postula que o aprendizado que se deve tirar dos tempos do “Welfare State “ europeu em séria crise seria de que o mesmo teria acomodado o espírito de superação do europeu, levado o continente a uma falta de ímpeto e pulsão em querer ultrapassar a si mesmo (coerente com a leitura combinada que o filósofo faz de Nietzsche e Heidegger com seu “Dasein” e oposição à “vida na banalidade inautêntica”), e que a chance de se reerguer seria apostar no senso de orgulho e honra, que não se manifestaria apenas no desejo de subjugar e imperar, mas em querer crescer e chegar a um ponto em que os excedentes seriam liberalmente usados para o progresso das pessoas.

Confiar a coesão e motivação social na liberalidade dos ricos, que mesclariam sua vontade de ferro para enriquecer com um desprendimento em disseminar os frutos de sua riqueza, empregando para viabilizar isto, a construção de uma atmosfera cultural que valorize e honre esta benevolência ao invés de uma obrigação imposta pelo Estado. Um neo-evergetismo.

domingo, 1 de agosto de 2010

Documentário traz nova abordagem sobre a autoria dos Manuscritos do Mar Morto



Foi ao ar neste último dia 27 de julho um documentário do canal NatGeo (National Geographic). Aparentemente o arqueólogo Robert Cargill, após penetrar o subterrâneo do Santuário do Livro em Jerusalém, conseguiu descobrir alguma nova e talvez descisiva pista sobre a história daqueles que produziram os manuscritos de Qumran. De acordo com a nova proposição, a ortodoxa hipótese de que os textos foram produto da comunidade dos essênios irá cair definitivamente por terra. Mais informações podem ser vistas na matéria do UCLA Today. Podemos encontrar também uma breve descrição do documentário no próprio blog do Dr. Cargill. Mais informações podem ser vistas também no artigo "Biblical Mystery of Dead Sea Scrolls Solved?", publicado pela Fox News. A próxima apresentação do NatGeo será neste dia 3 de agosto. Infelizmente ainda não descobri uma forma de acompanhar tal transmissão online em tempo real. De qualquer forma, vale a pena conferir o que virá pela frente.

Ps. O documentário pode ser encontrado através do sistema torrent. É só procurar por "National Geographic Writing the Dead Sea Scrolls torrent" no google.

sábado, 31 de julho de 2010

A prisão de Jesus em João 18:1-14;19-24.

Busquemos uma breve aproximação sobre o relato joanino da prisão de Jesus. Devido ao espaço não pretendemos de forma alguma dar uma resposta cabal a controvérsias nem chegar perto de esgotar o tema, mas apenas traçar um panorama.

Primeiramente, como se deu a prisão? Quem prendeu Jesus, segundo o testemunho joanino?

Nessa noite especial, nos tempos das celebrações pascais, Jesus e seus discípulos permaneceram em imediações hierosolimitas, conforme Deuteronômio 16.4-5. Assim, havia um foco de lugar em que os que conspiravam para prendê-lo teriam em mente. Estavam sendo escoltados por Judas. Poderia ser uma cilada? Bem provável...

Passaram pelo Vale do Cedrom, cujo termo literal significa “Cedrom em cheia pelo inverno”[1]; no período que se presume ter acontecido o episódio, março-abril, estaria então raso e fácil de atravessar. Lucas 22.9 sugere que não seria a primeira vez que Jesus e seus discípulos se reuniam lá.

E a tropa destacada?

Há uma grande dificuldade com esta passagem. O Termo que João emprega para “destacamento”, peira, era um termo que comumente se referiria a décima parte de uma legião romana, assim, 600 homens!! Em demais passagens no Novo Testamento, reporta-se a coortes sob o comando de um tribuno – chiliarchos. Ainda que na província romana da Judéia houvessem cinco coortes romanas, como a da famosa fortaleza Antonia, seria plausível o cenário de uma tropa romana deste contingente em uma operação de prisão de um sujeito que até então era desconhecido de Pilatos, e ainda por cima terem levado à casa de Anás – que não era o sumo-sacerdote daquele período, tendo sido deposto por Roma em 15 a.C.???

E como é uma hipótese muito provável que João conheça, de forma independente, tradições antigas relacionadas nos Sinópticos [2], como somente ele destacaria a coorte romana, e nas outras tradições não?

Provavelmente, ele não empregara o termo num sentido “tecnicamente” preciso e unívoco. Poderia de forma mais presumível se remeter a uma guarnição dentre a coorte - que não iria sair totalmente ali para prender um indivíduo num período tão conspícuo e perigoso como aquele da Páscoa – em que advinham tropas de Cesaréia. Seria um "manípulo" – 200 pessoas ou menos. Tanto que os soldados não foram liderados por um Centurião, mas por um funcionário de menor escalão, que pode ser entendido como chefe de um subgrupo da coorte – confira também Jo18.12. Ainda um contingente impressionante.

Marcos comenta que fora uma grande multidão armadas de espadas e varas, enviadas pelos chefes dos sacerdotes e demais lideranças religiosas. Lucas fala somente de chefes dos sacerdotes e da guarda do Templo. Craig Keener apresenta uma discussão aprofundada sobre o termo mostrando que a linguagem geral também fora usada igualmente para unidades judaicas [3].

Realmente teria havido uma queda dos soldados simplesmente ao ouvir Jesus pronunciar uma associação com a auto-revelação divina a Moisés na Sarça Ardente: “Eu Sou” – Êxodo 3.14? Craig Keener também aponta que nessa época, acreditava-se que os feiticeiros usavam a pronúncia do nome divino para disparar conjuras [4]. Dada a busca de imputar ao ministério de milagres de Jesus o agir dos demônios através dele ou sendo mesmo um feiticeiro, um mágico, é altamente sugestivo.

Mas também há outro cenário. O que se apresenta é que Jesus esperava ser entregue, e estava de prontidão. Os soldados ao se depararem com esse inesperado - ele assim, de peito aberto [no relato eles respondem “a Jesus, o Nazoreu” de uma forma que ressalta que eles nunca esperariam uma situação como aquela, mas um ataque de surpresa], então poderiam ter imaginado uma emboscada e uma luta violenta naquele lugar inóspito, por parte de guerrilheiros escondidos, ferozes e armados. O escritor destaca “e Judas estava com eles” não teria sido à toa. Dessa forma, se visualiza melhor a impressão neles de ter sido uma cilada. “Fomos pegos”. De fato, já era em um contexto em que finalizara a missão dos discípulos na qual estavam incubidos de não levar armas, e os relatos mostram que pelo menos um deles (Pedro?) reagira disposta a um combate armado. Possivelmente, o discípulo pode ter aproveitado para conferir uma associação de peso teológico.

A cena de um encontro irregular informal dos líderes religiosos, numa tonalidade de intriga destacada em João, ante a audiência formal que é a que mais parece nos Sinóticos antes do Conselho Judaico, possui uma plausibilidade maior [5]. Não seria uma audição central tal qual diante do conselho presidido pelo verdadeiro sumo-sacerdote daquele ano, Caifás, mais à frente mencionado em João. O termo “primeiramente”, no versículo 13, dá a entender que o escritor trata de um quadro maior em que mais audiências viriam. Se encaixa com o pano de fundo mais ampliado, com a trama política envolvendo o poder no Templo. Cinco dos filhos de Anás foram sumo sacerdotes, a despeito da deposição, e Caifás, seu genro, o fora nomeado por peso de seu poder e influência, sob seu auspício[6]. E muitas vezes Anás exercia o poder de fato. Nada excepcional ser referido e tratado ainda então como sumo-sacerdote, havendo precedente no judaísmo: se podendo ver no “Guerras Judaicas”, de Josefo, 2.12.#243, e no material Horayot 3.1,2,4, um tratado presente no Talmud que fala sobre precedentes antigos assim [7].

Assim, podemos ver Anás jogando com o fato de que o cargo era vitalício e, apelando para o nacionalismo e o rancor pela dominação romana, invalidar sua deposição para legitimar seu poder de fato. Que ele exercia seu poder, também através de sua riqueza [Josefo, Antiguidades 18.2.2#34; 20.9.1#243] [8], é atestado pela literatura judaica em que seus sucessores o desancam. A imagem que eles passam dele referenda o abuso de se sobrepor ao costume de submeter processos que remetia a penas capitais a uma coorte de juízes – acima de 23 – [9] e atuar como juiz, ainda mais que o costume remetia à tradição farisaica, e assim submeter Jesus a um interrogatório, procedimentos e uma condução de julgamento arbitrários. Os fios da trama começam a se entrelaçar em uma rede, levando a, ou montando o quadro coerente para a crucificação.

Referências/Indicações:
[1]  Joel B. Green – Gethsemane. Em : Joel B. Green, Scot McKnight, Howard I. Marshall – orgs. “Dictionary of Jesus and the Gospels”.
[2]  Raymond Brown, John XIII-XXI  p.787-791 
[3]  Craig Keener - The Gospel of John: A Commentary  p.1078;
[4]  Keener, op.cit., p. 1081
[5]  Ed Parish Sanders, Historical Figure of Jesus, p. 72
[6]  Bruce M. Metzger e Michael David Coogan (Editores) The Oxford Companion to the Bible p. 97
[7]  Raymond E. Brown, The Death of the Messiah p. 398-428
[8]  Donald P. Senior, “The Passion of Jesus in the Gospel of John”. p. 46-64
[9]  Keener, op. cit., p. 1089                 

terça-feira, 27 de julho de 2010

A compreensão de Jesus como cordeiro de Deus


O texto de Atos 21-24, dentre outras coisas, nos mostra Paulo fazendo sacrifícios no Templo de Jerusalém. O texto em 24:17 assim nos diz:

"Depois de muitos anos, vim trazer esmolas para o meu povo, e também apresentar ofertas"


Paulo se santifica com quatro indivíduos que haviam feito o voto de nazireu. Paulo apresenta ofertas ao Templo. Não sabemos exatamente qual tipo de ofertas Paulo ofereceu. Mas ele acompanhou os 4 Nazireus ao término de seus votos. As ofertas que eles apresentaram foram:

"Um cesto de bolos de flor de farinha, sem fermento, amassada com azeite, e tortas sem fermento untadas com azeite, acompanhadas das suas oblações e libações"


Os sacrifícios estipulados estão descritos em Números 6:13-15. De acordo com o esperado, eles provavelmente sacrificaram cada um cordeiro perfeito, uma ovelha perfeita e um carneiro perfeito.

Tendo sido postas estas questões iniciais, a questão que se nos coloca é — Por que os judeus cristãos permaneceram realizando sacrifícios no Templo se a morte de Jesus foi o sacrifício derradeiro? Por que exatamente aquele grupo de judeus que estiveram ali lado a lado com Jesus continuou por anos praticando os sacrifícios e justamente aqueles que nunca tiveram contato com ele desenvolveram a idéia do sacrifício vicário?

É muito claro que a idéia de Jesus como "cordeiro de Deus" é um dos elementos centrais da pregação cristã. No entanto, ela é incompatível com uma praxis que se atém firmemente à base estrutural que compõe o códice mosaico com seus 613 mitzvot. A idéia do "sacrifício perfeito" eliminaria qualquer necessidade de realização de sacrifícios de animais junto ao Templo. No entanto, quer nos parecer que a comunidade-mãe de Jerusalém se mantinha afeita à Torá. O grupo básico da Igreja de Jerusalém manteve a fidelidade à Torá às suas práticas junto ao Templo, frequentando as orações, fazendo as oblações e fazendo os sacrifícios.


Neste sentido, defendemos a proposição de que as Colunas da Igreja não compreenderam Jesus como cordeiro de Deus e o seu pleno significado expiatório. Aqueles que estiveram com ele lado a lado, dia após dia, não o compreenderam dessa forma nas primeiras décadas do movimento dos nazarenos. É bem provável que essa idéia tenha se desenvolvido na Síria. Isso se reflete no essência do material de Paulo, bem como nas comunidades joaninas que lá se desenvolveram.

Existiria, pois, alguma outra possibilidade de compreendermos a basilar fala de João Batista em João 1:29?

No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.


Alguns textos intertestamentários tais como 1 Enoque 90:6-19, o Testamento de José19:8-12 e o Testamento de Bejamin 3:8 associavam o cordeiro com o Messias em sua luta contra as forças do mal. Neste sentido, é possível que o termo tenha sido interpretado, tal como no livro do Apocalipse, na sua vertente escatológica. Se admitirmos a possibilidade que João tenha dito de fato tal frase, ele certamente não tinha em mente a idéia de um messias sofredor, mas a idéia do Messias guerreiro davídico. O "fim do pecado" no mundo não seria a morte do messias sofredor, mas a vitória final sobre o mal.

Vamos observar o texto de Enoque:

Enoque 90: 4-10

“Depois observei na visão que corvos sobrevoavam aqueles cordeiros, agarravam-nos, despedaçavam-nos e os engoliam. Vi crescerem chifres nos cordeiros, mas os abutres os abateram. Vi depois um grande chifre crescer em uma daquelas ovelhas; então abriram-se-lhes os olhos.

Aquela ovelha olhava pelas demais e exortava-as; quando os carneiros viram isso, acudiram ao seu redor. Não obstante, as águias, gaviões, os abutres e os milhafres continuavam a dilacerar as ovelhas, voavam livremente sobre elas e as devoravam. As ovelhas no entanto permaneceram inertes; somente os carneiros davam alarme e chamavam.

Então aqueles abutres começaram a agredir aquela ovelha e a lutar com ela, procurando abater seu chifre; mas não o conseguiram. Então eu vi que chegavam os pastores, as águias, os gaviões e os milhafres, e gritavam aos abutres para quebrarem o chifre daquele Carneiro. Então atacaram-no e lutaram com ele; e ele pediu ajuda.

Eu vi quando chegou aquele homem que anotara o nome dos pastores para o Senhor das ovelhas; e ele prestou-lhe tudo. Ele havia descido para auxiliá-lo. Então eu vi como o Senhor das ovelhas irou-se com eles; todos os que o viam escapavam, e diante da sua face todos ficavam impotentes.

Águias, gaviões, milhafres e abutres juntaram-se, trouxeram consigo todas as ovelhas do campo e tentaram quebrar o chifre do Carneiro. E eu vi como aquele homem que escreveu o livro por ordem do Senhor abiu o livro sobre o extermínio que aqueles últimos doze pastores perpetraram e mostrou ao Senhor das ovelhas que eles haviam matado muito mais do que os seus antecessores.

Vi como o Senhor das ovelhas chegou até eles, empunhou o bastão da sua ira e golpeou a terra, e esta fendeu-se. Então todos os animais e os pássaros do céu largaram aquelas ovelhas e desapareceram na terra que se fechou sobre eles. E vi como foi entregue uma grande espada às ovelhas, que então partiram para atacar todos os animais do campo e matá-los. Aí fugiram dela todos os animais e os pássaros do céu.

Eu vi que foi erigido um trono naquela terra adorável, e o Senhor das ovelhas assentou-se sobre ele; e aquele outro homem tomou os livros selados e abriu-os na presença do Senhor das Ovelhas.”


No texto de Enoch, os macabeus são caracterizados como os cordeiros com chifres. Já os pássaros são os selêucidas. O cordeiro com grandes chifres [que na verdade, aí já um carneiro] é a liderança messiânica que vence as tropas inimigas. Já no Testamento de José, o cordeiro é a figura messiânica que vence os animais selvagens (representando os inimigos de Israel).

Não há na literatura judaica uma associação entre o Messias como cordeiro sendo sacrificado. Neste sentido, o cordeiro de Deus é uma figura escatológica que aparece nos últimos tempos (tal como mostrado no Apocalipse de João de Patmos) para aniquilar as forças de Belial.

Devemos anotar assim que se é possível identificar no judaísmo intertestamentário a associação entre o messias guerreiro com o cordeiro, não é possível encontrar a noção de um “cordeiro que tira os pecados do mundo” após ser imolado em sacrifício vicário. A atribuição, pois, do título messiânico de cordeiro se refere ao messias militar que no final dos tempos efetuará a vitória definitiva sobre o mal.

Neste sentido, é possível argumentar que se os seguidores de Jesus o tinham como “Cordeiro de Deus”, eles o tinham não a partir da sua morte como sacrifício vicário, mas a partir da sua volta como liderança escatológica final.


REFERÊNCIAS PARA ESTUDO

No que toca às questões referentes aos sacrifícios de animais e os judeus cristãos, gostaria de indicar a seguinte bibliografia:

PETROPOULOU, Maria-Zoe. Animal Sacrifice in Ancient Greek Religion, Judaism, and Christianity, 100 BC to AD 200.

DUNN, James. Begginning from Jerusalem.

CHILTON, BruceThe brother of Jesus and the interpretation of the scripture.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

João Calvino e o caso Servet

Calvino se encontrara a primeira vez com Miguel de Servet em Paris, 1534, época efevescente do trabalho intelectual do espanhol, e quando publicara suas obras contra a doutrina da Trindade. Na época Calvino estava a caminho de Estrasburgo. Em Estrasburgo os escritos de Servet tiveram sua venda proibida. Mantiveram secretamente trocas de cartas de 1541 a 1553, nas quais Calvino reprovava suas idéias antitrinitarianas. Em Estrasburg Calvino aceitara o convite de Martin Bucer e Wolfgang Capito para ser uma espécie de capelão dos refugiados franceses

Em junho de 1551 o Conselho Inquisitorial de Vienne, católico-romano, havia condenado Servet às chamas. Dentre outras questões, além da conhecida rejeição da doutrina da Trindade e da Divindade de Cristo, remetiam a asseverações de cunho panteísta. Em seguida fugira para Genebra buscando refúgio. Lá foi preso por ordem do o Petit Conseil, o Conselho de Genebra. Foi levado a julgamento, que agira respaldado por um parecer de Calvino que o declarara herege. O Conselho o sentenciou à fogueira, sentença então que contara com a desaprovação do reformador. Fora queimado em outubro de 1553, com suas obras amarradas em seu corpo, proferindo as últimas palavras:

_Jesus, Filho do Deus eterno, tende piedade de mim.

Calvino teve uma influência importante, mas sua participação direta na morte de Servet é vulgarmente sobre-estimada. Geralmente se atribui um poder a ele que nunca teve, e se mascara os conflitos e adversários que o mesmo tinha na cidade.

Calvino ficara em Genebra pela primeira vez depois de uma admoestação de
Guilherme Farel, quem inseriu Genebra no contexto da Reforma. Quando o Conselho de Berna convidou Farel para apresentar suas idéias sobre a Reforma, e Calvino foi convidado por esse para falar. Todos ficaram impressionados e em 1536, Calvino já tinha sido designado pastor de Genebra. Não fora admitido como cidadão pleno, antes tinha o status de “servidor público” e como tal, para viver na cidade sob licença. Era subordinado ao Conselho municipal, que tinha a última palavra em assuntos religiosos.

Com o crescimento de sua influência, se organizaram diversos grupos opositores, católicos e diversos outros, e ele e Farel foram banidos. A conspiração usava, dentre outros artifícios, acusações como a de que Calvino era ariano. Com a vitória da oposição em 1538, Calvino e Farel foram proibidos de pregar no Domingo da Ressurreição, e tendo desobedecido, foram destituídos do cargo e abandonaram a cidade sob risco de vida. A partir daí, começaram perseguições em Genebra aos seguidores de Calvino, e a cidade se viu a beira de um conflito interno, com os sucessores de Calvino tendo sido expulsos. Com o temor de conflito armado, a oposição, no poder, com a intervenção de Berna, aceitou o regresso de todos, incluindo o reformador. Farel novamente o convence a retornar, e então passa a ser o 'leitor da Santa Escritura na Igreja de Genebra', professor e apoiador da formação e consolidação da Igreja na cidade. Em termos de poder político, continuava deveras limitado e sob constante vigilância dos opositores a qualquer escorregão no sentido de buscar aumentá-lo.

Assim, quando do episódio de Servet, fora consultado no sentido de dar o parecer sobre as obras no sentido teológico e moral. Concordara que Miguel de Servet era digno da pena capital, por ser um 'perigo para a juventude' e para a estabilização da igreja e organização religiosa de Genebra.

Contudo, Calvino não concordou com a sua morte pelas chamas, e pleiteou pela mitigação da condenação que, em caso de morte, fosse pela espada. Mas, como explicitado, não podia influenciar a decisão num alcance maior, sob patrulha dos adversários.

Obteve ainda uma última reunião com Miguel de Servet através de Farel. Dois membros do Conselho acompanharam e vigiaram o teor da conversa. Registra-se que Servet se desculpara por ofensas pessoais ao reformador, que dissera não guardar ressentimento e lembrara-lhe as conversas entre os dois desde Paris buscava-lhe apontar os problemas teológicos e suas implicações.

Essa foi a grande mancha lúgubre na carreira de Calvino, sendo que, longe de representar a caricatura frívola que se faz para ilustrar uma pecha de implacável perseguidor mórbido, trás à luz uma responsabilidade moral partilhada pelo histórico dos cristãos, mas cujos fatos desmentem o discurso predominante entre os detratores de Calvino.

O que nos remete a refletir sobre quantas figuras históricas admiradas e até veneradas que, em situações semelhantes, não tomaram atitudes até mais extremas, em nome da vitória da 'causa' que iria trazer a paz e harmonia social? Contudo, os seguidores das idéias particulares de cada 'causa' possuem racionalizações para seus episódios, e imprecações para os mesmos referentes a 'o outro'...



McGRATH, Alister. A vida de João Calvino. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
GOMES, Antonio Máspoli de Araújo. O Pensamento de João Calvino e a Ética Protestante de Max Weber, Aproximações e Contrastes. Fides Reformata VII.2 (2002)
LESSA,Vicente Themudo. Calvino (1509-1564), sua vida e sua obra. São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1934.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Os antigos cristãos também pichavam!


É o que relata Ben Witherington III neste artigo da Biblical Archeology Review. De acordo com o texto, a pichação era um fenômeno frequente na antiguidade. Contrariando os meus próprios supostos de que a pichação era um fenômeno dos meios urbanos modernos, o texto mostra como exemplo os achados de Pompéia, no qual foram contabilizados mais de 10 mil pichações notadamente de cunho político.

Escavações em Esmirna revelaram as possíveis mais antigas pichações cristãs, datadas do século II d.C. Em um destes escritos, podemos ler "aquele que nos tem dado o Espírito" como referência a Jesus.

Estas descobertas mostram um grau bem mais elevado de capacidade literária no mundo antigo, transcendo as estimativas de até então. Surpreendente e intrigante!

Ps. Maiores informações também podem ser encontradas no blog do Ben Witherington.

terça-feira, 12 de maio de 2009

A virada da postura cristã para com o império


Embora se trata de algo algo bem estabelecido nos círculos ou entre pessoas mais informadas desse contexto histórico, ainda é muito comum encontrarmos declarações no sentido de que o Imperador Constantino teria oficializado o cristianismo. Apesar do apoio pró-ativo deste, em questões como devolução das terras confiscadas, e seu interesse maior em trabalhar a questão religiosa para promover a unidade no império, tal informação é improcedente. O dito foi feito pelo Edito de Teodósio I, em 380 d.C., 47 anos após o Edito de Milão.

Qual foi então, a orientação do famoso Edito de Milão?

Nós, Constantino e Licínio, Imperadores, encontrando-nos em Milão para conferenciar a respeito e da segurança do império, decidimos que, entre tantas coisas benéficas à comunidade, o culto divino deve ser a nossa primeira e principal preocupação. Pareceu-nos justo que todos, cristãos inclusive, gozem da liberdade de seguir o culto e a religião de sua preferência. Desta forma o Deus, que mora no céu, ser-nos-á propício a nós e a todos os nossos súditos. Decretamos, portanto, que, não obstante a existência de instruções anteriores relativas aos cristãos, os que optarem pela religião de Cristo estão autorizados a abraçá-la sem estorvo ou empecilho, e que ninguém absolutamente os impeça ou moleste...Observai, outrossim, que também todos os demais terão garantida a livre e irrestrita prática de suas respectivas religiões, pois está de acordo com a estrutura estatal e com a paz vigente que asseguremos a cada cidadão liberdade de culto, segundo sua consciência e eleição. Não pretendemos negar a honra devida a qualquer religião e a seus adeptos. Outrossim, com referência aos cristãos, ampliando normas já estabelecidas sobre os lugares de seus cultos, é-nos grato ordenar, pela presente, que todos os que compraram esses locais os restituam aos cristãos sem qualquer pretensão a pagamento...

Use-se da máxima diligência no cumprimento das ordenanças a favor dos cristãos e obedeça-se a esta lei com presteza, para se possibilitar a realização de nosso propósito de instaurar a tranqüilidade pública. Assim continue o favor divino, já experimentado em empreendimentos momentosíssimos, outorgando-nos o sucesso, garantia do bem comum.

Há ainda uma observação constante no Edito:
As igrejas recebidas como donativo e os demais lugares que antigamente pertenciam aos cristãos deviam ser devolvidos. Os proprietários, porém, podiam requerer compensação.


Houvera uma Grande Transformação, no cristianismo, após o referido Edito?

Pra mim, O Grande Impacto seria, em termos relativos, para com sua postura ante seu papel social e a cultura. Busco aportes aqui em um constructo articulado pelo sociólogo espanhol Manuel Castells, no livro O Poder da Identidade, com os conceitos:

- Identidade legitimadora: introduzida pelas instituições da sociedade no intuito de expandir e racionalizar sua dominação em relação aos atores sociais ;

- Identidade de resistência: criado por atores que se encontram em posições/condições desvalorizadas e/ou estigmatizadas pela lógica da dominação;

- Identidade de projeto: quando os atores, utilizando- se de qualquer tipo de material cultural ao seu alcance, constroem uma nova identidade capaz de redefinir sua posição na sociedade.

Diria que o cristianismo, que até então se constituía em termos das duas últimas, passou a se ver e portar-se, essencialmente, como uma Identidade legitimadora. É claro que temos que enxergar isso relativamente, tendo em vista que o autor elaborara tais conceitos estudando os movimentos sociais e culturais do período moderno, com ênfase no final do século XX, e a realidade antiga possuía contornos diferentes da modernidade, e assim, não se faz uma transposição automática dessas ferramentas analíticas. Outrossim, podemos ver manifestações no cristianismo antigo também de preocupações com a ordem social enquanto possibilitadora da vida em comum –Romanos 13 – embora seja secundária para com seu ethos e com sua perspectiva cristológica e escatológica que se chocavam com as reivindicações e discursos legitimadores do império, e sua lógica de poder. Também, secundariamente, permaneceram neste período posterior posturas como identidade de resistência - sobretudo nos âmbitos monásticos - e identidade de projeto - Cidade de Deus, de Santo Agostinho.

Uma certa empatia para se compreender a atitude das pessoas no contexto também é importante nesse caso, ou seja, a preocupação de se olhar o passado com uma aproximação das lentes de quem o viveu – sabendo que uma identificação correspondencial é sobremaneira limitada, talvez impossível, podendo levar à megalomania. A discussão do antropólogo Geertz, para com a Fenomenologia da Cultura, pra mim é o que desenvolve melhor a perspectiva de buscar se interagir com o processo, comportamento e fenômeno cultural estudado, com aproximação hermenêutica, sem se pautar pelo relativismo filosófico, debruçando o olhar sobre o entendimento de um tráfego simbólico nas culturas diante dos processos históricos em que estão envolvidas, e sob essa lente entender suas respostas.

Poucos anos antes do Edito de Milão, houvera uma das maiores perseguições, a de Diocleciano, sendo que mal se teve tempo de recuperar das perseguições atrozes de Valeriano e antes, da de Décio. A memória dos cristãos estava impregnada de décadas e décadas de óleos ferventes, crucificações, feras, gladiadores, degolas, esquartejamentos, flagelos.

Pouco depois de Constantino, houvera o Imperador Constâncio, um imperador ariano que perseguia os não-arianos. Constâncio, ainda, ao condenar Anastásio em Milão – 355 – expôs sua concepção sobre igreja/estado, para a Igreja:

Aceite-se minha vontade entre vós e seja ela vossa lei como é lei para os bispos sírios (arianos).


Nesse tempo, Ósio, bispo de Córdoba (256-357 d.C.) redigiu para Constâncio o que poderia ser considerado o primeiro manifesto, melhor, um protótipo, para a autonomia das esferas:

(...) Abandonai, suplico-vos, os vossos procedimentos. Lembrai que também vós sois mortal; temei o dia do juízo e guardai-vos puro na perspectiva daquele dia. Não interfirais em matérias eclesiásticas, nem nos instruas em semelhante questões, mas a respeito delas aprendei de nós. Deus colocou em vossas mãos o império, mas as coisas de Sua Igreja confiou a nós. Se alguém vos arrebatais o império, resistiria à ordem divina; do mesmo modo, deveríeis, vós e os vossos, temer que, assumindo o governo da Igreja, vos torneis réus de ofensa grave. Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Nós não temos permissão para exercer o poder humano e vós, César, não tendes autoridade para queimar incenso. Assim vos escrevo por se tratar de vossa própria salvação.


Pena que, posteriormente, tal interpelação não tenha vingado...

terça-feira, 3 de março de 2009

Consilium quorundam episcoporum... A Fraude


Entrei sem o querer em uma controvérsia acerca do documento "Consilium quorundam episcoporum Bononiæ congregatorum quod de ratione stabiliendæ Romanæ ecclesiæ" elaborado no século XVI e supostamente atribuído a 3 bispos da Igreja Católica. Eu particularmente não sou católico, mas fico profundamente indignado quando determinadas coisas são manipuladas de forma desonesta e sem escrúpulos. Vários sites de apologética evangélica costumam divulgar este documento como uma prova histórica de que a igreja católica sugeria que seus fiéis não lessem o texto bíblico.

Aqui temos alguns exemplos desta utilização, dentre outros:

1 - Centro Apologético Cristão de Pesquisas CACP
2 - Jesus Site
3 - Sola Scriptura

Em seguida, o texto em tela:

5) O Papa Júlio III, preocupado com os rumos que sua Igreja estava tomando, ou seja, perdendo prestígio e poder diante do número cada vez maior de "irmãos separados" ou "'cristãos novos" ou "protestantes" (apesar dos massacres), convocou três bispos, dos mais sábios, e lhes confiou a missão de estudarem com cuidado o problema e apresentarem as sugestões cabíveis. Ao final dos estudos, aqueles bispos apresentaram ao papa um documento intitulado "DIREÇÕES CONCERNENTES AOS MÉTODOS ADEQUADOS A FORTIFICAR A IGREJA DE ROMA". Tal documento está arquivado na Biblioteca Imperial de Paris, fólio B, número 1088, vol. 2, págs 641 a 650. O trecho final desse ofício é o seguinte:

"Finalmente (de todos os conselhos que bem nos pareceu dar a Vossa Santidade, deixamos para o fim o mais necessário), nisto Vossa Santidade deve pôr toda a atenção e cuidado de permitir o menos que seja possível a leitura do Evangelho, especialmente na língua vulgar, em todos os países sob vossa jurisdição. O pouco dele que se costuma ler na Missa, deve ser o suficiente; mais do que isso não devia ser permitido a ninguém. Enquanto os homens estiverem satisfeitos com esse pouco, os interesses de Vossa Santidade prosperarão, mas quando eles desejarem mais, tais interesses declinarão. Em suma, aquele livro (a Bíblia) mais do que qualquer outro tem levantado contra nós esses torvelinhos e tempestades, dos quais meramente escapamos de ser totalmente destruídos. De fato, se alguém o examinar cuidadosamente, logo descobrirá o desacordo, e verá que a nossa doutrina é muitas vezes diferente da doutrina dele, e em outras até contrária a ele; o que se o povo souber, não deixará de clamar contra nós, e seremos objetos de escárnio e ódio geral. Portanto, é necessário tirar esse livro das vistas do povo, mas com grande cuidado, para não provocar tumultos" - Assinam Bolonie, 20 Octobis 1553 - Vicentius De Durtantibus, Egidus Falceta, Gerardus Busdragus."



Qualquer pessoa que tenha um mínimo de senso crítico, ao ler tais passagens, notará que há algo de errado. Imaginem 3 bispos católicos, dos mais sábios, em pleno século XVI sugerindo dessa forma ao Papa — permitir o mínimo a leitura do evangelho e dizendo que "aquele livro", mais do que qualquer outro, tem levantado contra a ICAR uma séria de tempestades!"? É o cúmulo do patético tal situação. Mas... não bastasse a óbvia sátira presente em tal texto, algumas pessoas conseguiram fazer a proeza de levar isso a sério.

Este meu post então é dedicado a elas. Em bom termo, para que fique claro - NUNCA HOUVE CONSELHO ALGUM DADO POR 3 BISPOS CATÓLICOS AO PAPA ESCRITO DESTA FORMA! Este texto em questão foi produzido por um ex-bispo católico e então pastor reformado Pietro Paolo Vergerio. O documento minuciosamente detalhado como estando na "Biblioteca Imperial de Paris, fólio B, número 1088, vol. 2, págs 641 a 650" pode ser encontrado na atual Biblioteca Nacional da França. Ele se encontra neste endereço aqui. É possível fazer o download do texto em francês. Ele pode ser baixado no seguinte ftp.

Ao final do texto principal, podemos encontrar o seguinte comentário em francês:


"Quoique n´étant que partiellement consacré à La lecture de la Bible, Le texte de Vergerio a été fréquemment utilisé dans lês polemiques entre protestants et catholiques sur CE sujet, même après que La critique avait été faite par de nombreux théologiens (Consulter La thèse de théologie protestante de A. Ch. Siegfried. – La Vie et lês travaux de P. P. Vergerio Strasbourg, 1857. In-8º, 39 p.).

Il ressort de ces études que P. P. Vergerio est véritablement l´autor Du “Consilium quorundam episcoporum” . dont Le texte figure dans sés ouvres completes publiées em 1563.

CE texte fait partie de sés nombreux opuscules publiés anonymement lors de as violence polemique avec La papauté. Il est donc impossible d´admettre que Le “Consilium quorundam episcoporum”... emane d´une quelconque autorité de l´Eglise catholique."



Eu o traduzi para o português da seguinte forma:

"Embora apenas parcialmente concernente à leitura da bíblia, o texto de Vergerio foi freqüentemente utilizado na polêmica entre protestantes e católicos sobre este assunto, mesmo após as críticas apresentadas por vários teólogos (Veja tese Teologia Protestante de A. Ch. Siegfried. - a vida e a obra do PP Vergerio Strasburgo, em 1857. In-8 º, p. 39).

Esses estudos revelaram que P. P. Vergerio é realmente o autor de "Consilium quorundam episcoporum.
O texto que aparece na sua obra completa publicada em 1563.

Este texto faz parte de suas numerosas brochuras publicadas anonimamente dada a violenta polêmica com o papado. É impossível admitir que o "Consilium quorundam episcoporum" ... emana de uma autoridade da Igreja Católica."


Como é possível perceber, a Biblioteca Nacional da França afirma que a verdadeira autoria do documento se refere ao protestante Pietro Paolo Vergerio, que o teria escrito em 1563. Para qualquer pessoa de bom senso, bastaria tal assertiva. Mas que tal checarmos mais? Será que este manuscrito, de fato, poderia ter sido atribuído aos supostos 3 bispos católicos em alguma outra biblioteca? Existiria somente este documento?

A resposta é não! O texto pode sim ser encontrado em outras bibliotecas ao longo do mundo (inclusive para download)! Vamos a elas:


1 - National Library of Australia - Austrália

2 - Cambridge University Library - Inglaterra.

3 - Newberry Library (Chicago) - EUA

4 - Biblioteca da Universidade Pablo d´Olavide (Sevilha) - Espanha

Nesta última biblioteca, podemos baixar o texto em Latim




Em suma, como pode ser devidamente averiguado - EM TODAS AS BIBLIOTECAS CONHECIDAS onde o texto "Consilium quorundam episcoporum Bononiæ congregatorum quod de ratione stabiliendæ Romanæ ecclesiæ" se encontra,

a autoria é atribuída ao ex-bispo e então reformador protestante:

PIETRO PAOLO VERGERIO,


o qual FORJOU E FRAUDOU um documento atribuindo-o a 3 bispos da Igreja Católica! É uma vergonha que tal fraude continue ainda hoje sendo utilizada para manipular a cabeça dos menos avisados.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Cosmos e o Pequeno Ponto Azul

Pode parecer estranho para aqueles que acompanham as batalhas entre evolucionistas e criacionistas (principalmente para estes últimos), mas eu realmente tive a minha fundante "compreensão" sobre Deus, assistindo a série COSMOS, conduzida por Carl Sagan em 1980. Eu me lembro de acordar aos domingos pela manhã e correr para a televisão - em Cosmos eu aprendi sobre filosofia, física, história, cosmologia e... Deus. Foi este meu contato com o infinito que me levou a sentir a enormidade da criação.

Não deixa de ser curioso este aprendizado teológico a partir da visão do ateu Sagan. Mas sinceramente posso dizer que devo muito à ele (inclusive meu plano adolescente de me tornar físico). Passados 28 anos, Cosmos continua ainda perfeitamente atual. Certamente, a astrofísica galgou alguns bons passos, bem como o conhecimento científico em geral. Mas a série é ainda muito válida. Me alegrei ao saber que a mesma está sendo repassada para os meninos através do canal governamental TV Escola. Isso me dá boas esperanças sobre os meus futuros alunos na universdade (muito boas, por sinal)!

Enfim... O video a seguir não faz parte de Cosmos. Mas é um dos projetos científicos empreendidos Sagan - como seria a Terra vista de longe? [de bem longe daqui] - A resposta é: The Pale Blue Dot (O pequeno ponto azul)

sábado, 8 de novembro de 2008

Obama e a Tolerância Religiosa

Eu não pretendo entulhar este blog com referências à política do próximo governo dos EUA, dado que este não é o propósito do AD CUMMULUS. No entanto, a minha amiga Adriana Neumann do blog Adrialactaest fez com eu tivesse acesso a este discurso de Barack Obama postado no Youtube. Confesso que vi o discurso e não pude deixar de postar o video por aqui.

Mas por quê eu não poderia deixar de postar, perguntaria o leitor? Por que definitivamente eu concordo com tudo quanto foi dito neste discurso. Mais além — tal conteúdo ali mostrado tem sido a minha postura com relação à religião e à política desde que comecei a refletir sobre tais coisas na adolescência. Com isso, eu sinceramente tenho a esperança de que o discurso fundamentalista neo-con do christian belt norte-americano perca seu espaço. E que o respeito e a tolerância religiosa voltem a graçar como elementos fundantes de uma sociedade que se quer democrática e plural.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Ad Cummulus do Dia - #1

1 - A história do textus receptus de acordo com vários pesquisadores [scholars], tanto conservadores quanto liberais.

2 - Confiram este antigo texto escrito por Samuel P. Tregelles sobre algumas variantes de importância dogmática encontradas nos manuscritos bíblicos.

3 - Um interessante argumento sobre a data e autoria dos evangelhos de João e Tomé podem ser vistos no blog do NT Gateway. O argumento se apóia justamente na necessidade do autor destes dois textos de buscar apresentar autoridade formal a partir de dentro do próprio evangelho - estabelecendo uma ligação direta entre aquele que escreve e a autoridade apostólica. Enquanto nos evangelhos mais antigos, tal necessidade não se observa, em um segundo momento - tal apresentação se apresentaria através da necessidade do estabelecimento de um link de legitimidade:


The more blatant signs, though, of the relative lateness of John and Thomas lie in their attempts at authorial self-representation. Where earlier Gospels like Mark and Matthew are anonymous and avoid attempting to project an authorial presence to lend authority to their work, the author of the Fourth Gospel makes claims to have been present, most notably in 19.35 and of course 21.24, “This is the disciple who testifies to these things and wrote them down (καὶ ὁ γράψας ταῦτα). We know that his testimony is true,” similar in style and literary function to the Incipit of Thomas, “These are the secret sayings which the living Jesus spoke and which Didymos Judas Thomas wrote down.” In both, the authorial self-representation legitimizes the message of the book in a way absent from the earlier Gospels but found explicitly in later texts like the Apocryphon of James. John’s claim enables the author to establish his Gospel’s authority – he knows that the things he reports are true because he was there. In Thomas, there is a further step: the author was present and, moreover, he was privy not just to the public teaching but also the secret teachings (Incipit, Thomas 13).


4 - Um voto de confiança - e uma sincera esperança [nesta virada de página na história] - no princípio de que - SIM, NÓS PODEMOS! Yes, we can! Brilhante jogada de marketing, porém - sincera verdade - Yes, we can!

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Sobre o Terceiro Templo


Este artigo publicado publicado pelo Jerusalém Post trata das preparações para a construção do terceiro Templo em Jerusalém. O projeto faz parte do Temple Institute fundado em 1987 com o explícito objetivo de recriar o Templo. Uma das coisas que eu achei interessante no texto é a passagem na qual fala que dos 613 mandamentos [mitzvot] da Torá, cerca de 202 necessitam do Templo para serem plenamente cumpridos. Poderíamos dizer que o judaísmo atual estaria manco de uma perna, caso necessitasse de três para se sustentar.

Eu tenho para mim que a construção do terceiro Templo será um fato inevitável. A comoção mundial, no entanto, que isso irá causar.... WOW! Não quero estar vivo para ver!Para quem não sabe, no lugar onde o segundo templo estava instalado, se encontra hoje a mesquita muçulmana de Al-Aqsa!

O texto cita o Rabbi Shlomo Carlebach, o qual afirmou que:

"Se nós somos o povo que se espera devemos ser, os muçulmanos irão vir até nós e dizer "Por favor, construa-nos o Templo"!


Aham...sei...
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    Este blog tem como objetivo central a postagem de reflexões críticas e pesquisas sobre religiões em geral, enfocando, no entanto, o cristianismo e o judaísmo. A preocupação central das postagens é a de elaborar uma reflexão maior sobre temas bíblicos a partir do uso dos recursos proporcionados pela sociologia das idéias, da história e da arqueologia.
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