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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Jesus Histórico no Brasil: pé atrás e pé na tábua...

Ainda, na virada para 2011, o quadro no Brasil em termos de trabalhos, leituras, publicações e pesquisas, mesmo interesse, acerca do campo de estudos históricos positivos de Jesus e das origens cristãs está num estágio incipiente e com um número relativamente pequeno de pessoas engajadas. Torcemos e buscamos contribuir para difundir este importante campo das humanidades, transdisciplinar por excelência, que abarca a arqueologia, antropologia, história, lingüística, literatura, sociologia, teologia, etc.

Temos alguns espaços com abertura e apoio à pesquisa, como na UFRJ, a Universidade Metodista em SP, a EST de São Leopoldo,algumas PUC’s, como a de Goiás, a UFJF, a UNB dentre outras cujo espaço não permite esgotar.


Agora, infelizmente, nos deparamos sobretudo na internet com algumas declarações que, numa atitude oportunista diante deste cenário, buscam querer imputar às suas posições particulares o caráter de ser “o estado da arte” dos estudos, e muitas vezes, fanfarronices que desrespeitam as demais pessoas que buscam acompanhar o campo de estudo, como se pensassem “estou numa terra de cegos, vou ser o rei de um olho a me lambuzar no melado”.


Com todo o respeito ao esforço do professor da UFRJ André Leonardo Chevitarese, ele é um que tenho visto em menções na internet exemplificar este tipo de atitude, e meu artigo aqui visa contribuir para que estas coisas tenham fim no Brasil. Para tanto, vou trabalhar em cima de um caso em que tal comportamento foi gritante.


Nesta resenha do livro “A Gruta de São João Batista”, ele trata de desancar o professor de arqueologia na Universidade da Carolina do Norte, Shimon Gibson, porque este apresentara posições contra as quais o prof. André tem um antagonismo passional e teleológico. Ele se esquiva e perde o foco em relação a matéria arqueologica propriamente dita.

O professor Gibson é mundialmente renomado, autor de uma prolífica publicação científica no campo, e referência em arqueologia de Jerusalém. Um de seus livros é o aclamado “Archaeological Encyclopedia of the Holy Land”. Acompanhou e participou em primeirão mão de muitas escavações e pesquisas de primeira magnitude no campo arqueológico.  Foi diretor do Departamento de Relatórios Científicos e de Pesquisa na Autoridade para Antiguidades de Israel, de 1995 a 1999.

Um curriculo assim, impressionante posta em paralelo com a do nosso professor André, já serviria para ele, pelo menos, ser mais comedido em críticas, e evitar o ad homine, em nome da respeitabilidade do debate acadêmico.


Chevitarese coloca:
Apesar das discussões trazidas por Gibson, como por exemplo, acerca dos rituais de limpeza judaicos ou sobre o culto em torno das imagens de um pé ou de pés no Oriente Próximo, sempre seguidas de indicações bibliográficas, verifica-se, de forma sistemática, o seu tratamento acrítico em relação à documentação neotestamentária (...)Pode-se mesmo dizer que lhe falta o equilíbrio.

A sobriedade levaria alguém a refletir que, uma pessoa capaz de dar tal tratamento, poderia ter suas posições não acríticas, mas com algum embasamento, ainda que discordantes da do prof. André. Nenhuma pessoa desanca a outra assim de forma tão descuidada, sem lhe dar o bônus da dúvida. Pode ser que André acredite que o minimalismo com relação ao N.T. seja a posição correta, contudo, não pode tropeçar nas suas próprias palavras, e “explorar ao máximo o seu lado sensacionalista, aproveitando a “infantilidade” do leitor para tudo o que diz respeito à religião, independentemente dos campos de experimentação”, buscando incutir que todos os grandes analistas seguem sua tendência, e não há aqueles que divergem dela.

Ele dá vários exemplos de como fica indignado com um tratamento não-minimalista. Não é de nosso interesse aqui discutir todos eles, mesmo porque não acompanho necessariamente o prof. Gibson em todos.

Há bons motivos para ser cauteloso e crítico quanto à narrativa do massacre das crianças por Herodes em Mateus. Mas o prof. André age como um amador apressado em se apoiar nisso:

Pode parecer incrível, mas em nenhum momento o autor se perguntou acerca do paralelismo entre esta história evangélica e aquela referente a Moises, contida no livro de Êxodo; esta relação seria obra do acaso ou uma clara intenção de Mateus em ler Jesus como sendo o novo Moises?

Primeiramente, o paralelo mais próximo a natividade de Mateus não é a história do Êxodo em primeira instância, mas de forma mais afastada. Jesus na narrativa da natividade não é um adulto com protagonismo nas ações, mas uma criança e agente passivo. Não faz nem realiza nada. Está ao reboque dos pais. Não é definitivamente, como Moisés na epopéia. Alguém pode considerar que o paralelo concentra no massacre das crianças - que pode ser lendário ou não. Seria como o eixo em que o resto se encaixa numa engrenagem a girar o mecanismo do "novo Moisés". Seria uma imagem tal qual os eixos das figuras das visões de Ezequiel. Ainda que forneça materiais para a psicanálise se debruçar que de um cesto no rio seguido por uma irmã e encontrado por uma egípcia emane uma família andando num camelo, temos que criar muitas hipóteses ad hoc para confabular uma saga de milhares de crianças massacradas em todo império, potenciais mão-de-obra para um faraó calculista preocupado com exércitos, com um punhado numa vila num momento em que Herodes estava massacrando inimigos até nos sonhos. Está para com isso o mesmo tanto que o peso da estadia e formação no Egito esteve para o Moisés da narrativa quanto o silêncio e mesmo desimportância da estadia do bebê Jesus no Egito em que mal sabemos se influenciou o próximo espirro que deu.

O paralelismo mais imediato é com a antiga Agadah da Páscoa, dos finais do século I a.C. [para conhecê-la melhor, ver L. Filkenstein: “The Oldest Midrash, Pré-Rabbinic Ideals and Teaching in the Passover Haggadah.”]. Chevitarese deveria ter conhecimento disto.

Nessa Midrash, o protagonismo é de Jacó, sendo que no início se abre com “O arameu procurou destruir meu pai”. Se faz aí um trocadilho mesmo entre Labão e Herodes, arameu e idumeu respectivamente ( com grafias parecidas, ‘rmy com ‘dmy), ambos considerados intrusos indesejados no mundo da fé.

Mas a perspectiva dentro do mundo do judaísmo diferia para os autores do evangelho e do agadah. Por exemplo, o evangelista tinha a perspectiva dos anjos como agentes mediadores para a transcedência de Deus e sua ação na Terra; o do agadah é cauteloso com a idéia – “Adonai trouxe-nos do Egito, não por meio de anjo, nem por mensageiro, mas pelo próprio Altíssimo, que seja bendito”, VII.1.

O quadro da agadah oferece a moldura para o relato de Mateus, mas não o seu conteúdo, independente do nível de historicidade que se dê para as diversas cenas da “fuga e regresso da Sagrada Família”.

Pulemos então de analisar caso por caso, para nos atermos a um panorama geral. Pois o panorama que se apresenta o tratamento do professor André ao pesquisador e membro sênior do Instituto de Pesquisa Arqueológica em Jerusalém, editor chefe por duas décadas do "Bulletin of the Anglo-Israel Archaeological Society" por adotar uma visão a qual Chevitarese tem indisposição ex ante, é absurdo. Ademais, no referido livro resenhado o professor Gibson rechaça por completo alguma historicidade na natividade de Lucas. Tal não se enquadra no retrato que de forma oportunista André quis pintar dele como um religioso acrítico por provar a Bíblia com a arqueologia.

Sofregamente, André Chevitarese chega a apelar em sua retórica a reverberando:
mantém a velha tradição editorial deste país de só publicar livros que reforcem a visão fundamentalista na forma de ler e interpretar o material neotestamentário.

Bem, fica claro para quem acompanha o professor que ele considera fundamentalista tudo o que não seja minimalista. Ainda assim, fica estranho para alguém pensar como em tal tradição se encaixa as publicações de Burton L. MackElaine Pagels, Haim Cohl, Santiago Guijarro , os diversos livros de Dominic Crossan, Bart D. Ehrman, e tantos outros? É definitivamente um apelo emocional descuidado.

O “X” da questão está na parte onde o professor André dispara agressivamente:
O clímax da superficialidade das análises documentais, acrescido da necessidade que Gibson tem de reforçar todo e qualquer vínculo entre a gruta de Suba e João Batista é atingido no seguinte ponto:
Acredito firmemente no conceito de longevidade da memória coletiva e no poder da tradição oral [...]” (página 205).        
Só mesmo os mais ortodoxos dos fundamentalistas abonariam uma posição como esta!


Nesta hora, não posso me esquivar de dizer, o professor brasileiro se comporta de forma extremamente imatura.

No livro lançado aqui “Os Últimos Dias de Jesus – A evidência arqueológica”, o professor Gibson fala de si mesmo:

Alguns leitores talvez achem presunção minha, um arqueólogo, escrever sobre o caráter, as realizações e os objetivos de uma personalidade tão importante quanto Jesus. Afinal de contas, bilhões de pessoas em todo o planeta o adoram como o Cristo, o Salvador e como o Filho de Deus. No entanto, minhas opiniões estão expressas aqui de forma sincera, com base em uma análise de dados históricos e arqueológicos a que tive acesso; não tenho interesse pessoal nem religioso de nenhuma natureza e, definitivamente, não desejo ofender ninguém, embora algumas das coisas que digo possam parecer radicais e controversas”.

Sobre os evangelho, ele apresenta sua opinião, que “foram adaptados, enfeitados e alterados pelos redatores" e, portanto, “pode ser perigoso usá-los de forma acrítica e indiscriminada”.
Pgs. 183 e 184.

O retrato que ele concebe de Jesus:
O Jesus histórico, creio eu, era um homem de família rural abastada da Galiléia, treinado em questões relativas a purificação por João Batista, alguém que acreditava em métodos de cura alternativos e talvez, até mesmo em um pouquinho de magia, alguém cujos discursos apaixonados e ensinamentos pouco convencionais assustaram as autoridades judaicas e romanas de tal maneira que estas decidiram tomar uma medida radical e executá-lo.“
Pg. 188

Somente um fundamentalista especular poderia abonar uma posição que considere tal pessoa um fundamentalista! Prof. Chevitarese acaba nos dizendo mais de si mesmo – e de seu fundamentalismo especular - do que do livro de Shimon Gibson.
 
Neste livro ainda, o professor Gibson reitera sua posição: “Pessoalmente, sou forte defensor da tradição oral (...)”. pg. 178. E ele apresenta uma referência de discussão a respeito de grande peso intelectual e insuspeita:
The Voice of the Past - Oral History”, monumental magnum opus do historiador top de linha Paul Thompson. Uma obra, excelência prima em historiografia, a qual Chevitarese nunca publicara algo que beirasse a sombra, de um historiador que, com todo respeito ao brasileiro, ele não desata as sandalhas.
Com isto, podemos concluir que a leitura de Gibson não advém de uma paixão cega para apologia – ele é cético – mas antes, de uma equilibrada e ponderada avaliação metodológica centrada. É uma perspectiva também coadunada com a obra da Jan Vansina e Maurice Halbwachs.

E se não bastasse, podemos pegar algumas referências nos campos dos estudos bíblicos neotestamentários similares, por parte de pesquisadores icontestadamente não-fundamentalistas, nem mesmo de alas mais conservadoras dentre os biblistas, consentâneos com este prospecto ante a tradição oral, obras também muito além de algo que o prof. Chevitarese tenha produzido, por parte de pesquisadores bem mais reconhecidos:

Os artigos clássicos “Middle Eastern Oral Tradition and the Synoptic Gospels”e “Informal Controlled Oral Tradition and the Synoptic Gospels” de Kenneth E. Baley.

O livro meticuloso “The past of Jesus in the Gospels”, de Eugene Lemcio.

Do prof. James D.G.Dunn, o volume 1 da monumental coleção “Christianity in the Making” – Jesus Remembered.

Por Samuel Byrskog, famoso pelo seu agudo rigor,  “Story As History, History As Story: The Gospel Tradition in the Context of Ancient Oral History”.

O respeitadíssimo professor de Cambridge Graham Stanton, “The Gospels and Jesus”.


De Richard Bauckham, o marcante “Jesus and the Eyewitnesses: The Gospels as Eyewitness Testimony.

O recente “The Historical Jesus of the Gospels”, De Craig S. Keener.

É claro que eu, um leigo, não cairei no mesmo erro de Chevitarese e dizer que quem está antenado com o mundo das pesquisas precisa ter essa perspectiva, quem não tem, não está. Ótimas obras de igualmente excelentes estudiosos discordam. Contudo, o mínimo a que se pode concluir é que no atual momento do Brasil, é preciso ser muito cuidadoso com as declarações que se lê a respeito do estudo de “Jesus histórico”. E o prof. André Chevitarese atraiu muita suspeita quanto aos seus pronunciamentos e trabalhos.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A Significância de Jesus e a Escala Richter de Impacto Histórico Parte 2C: Resposta as objeções a autenticidade (parcial) do Testimonium Flavianum

Neste post, continuamos a discutir questões preliminares em nossa série "Jesus na História Richter de Impacto Histórico", e uma vez que no post anterior, aceitamos a autenticidade parcial do Testimonium Flavianum, respondemos agora as principais objeções a essa posição.


1) O Testimonium não é citado pelos apologistas cristãos e pais da igreja antes de Eusébio
Possivelmente é a objeção mais forte a autenticidade do Testimonium, pelo menos na sua forma atual. Como poderiam os numerosos escritores cristãos do II e III século ter ignorado uma passagem como essa e não tenham citado um autor judeu que reconhecesse que Jesus era o Messias, sua condição sobre-humana e sua ressurreição?
O fato é que as perguntas acima já trazem as possíveis respostas. O silêncio dos autores cristãos é decisivo para demonstrar que o texto atual não foi escrito por Josefo. Contudo, a teoria da autenticidade parcial, na opinião da maioria dos críticos, é capaz de explicar esse fato. Sem as frases claramente cristãs, o que sobra não é suficiente para atender aquilo que os primeiros escritores cristãos buscavam, uma prova apologética.

Como observa o Professor John P. Meier
" O tom neutro ou ambiguo, ou talvez um tanto desdenhoso, do Testimonium é provavelmente o motivo pelo qual os primeiros escritores cristãos (em especial os apologistas do século II) mantiveram silêncio sobre essa obra, motivo das queixas de Orígenes, segundo o qual Josefo não acreditava que Jesus fosse o Cristo, o que levou a algum interpolador, ou mais que um, a acrescentar as afirmações cristãs no final do século III" [1].

Um ponto importante para nossa análise é tentar compreender quem lia Josefo na Antiguidade, e com que finalidade.

Se Eisler, Bammel ou Bruce estiverem certos, e a versão original de Josefo fosse negativa, mesmo que levemente, em relação Jesus e/ou aos cristãos, seria pouco provável que apologistas o utilizassem. Observamos no post anterior, que aqueles autores apontam que pequenas alterações na parte inicial do Testimonium, lhe daria um sentido completamente diferente. Se ao invés de sábio (grego: sophos") Josefo tivesse chamado Jesus de astuto ou sagaz ("sophiste"), e que o verbo epêgageto, traduzido como atrair, tenha sido empregado no sentido de aliciar, "muitos judeus e muitos gregos", e que Jesus realizou feitos controversos (sentido possível do termo grego "paradoxa"), foi seguido por pessoas que recebiam coisas estranhas (aethe), ao invés de verdadeiras (alethe), com prazer, é que "acreditaram" que "ele [Jesus] era o Cristo" (uma variante do Testimonium que encontramos em Jerônimo e Miguel, o Sírio, e explicaria o termo "assim chamado Cristo" da passagem sobre Tiago). Se este for o caso, é inteiramente plausível que "Pilatos tivesse aceitado a acusação dos homens mais proeminentes, condenando Jesus a cruz". Que os que amaram Jesus não o abandonaram após sua morte é demostrado pelo fato dos cristãos, continuarem existindo, e, como diz Agápio, -que, muito surpreendentemente, não cita a frase da condição sobre-humana de Jesus - relatavam que seu mestre apareceu vivo, no terceiro dia, como os profetas disseram....". Assim, alterando algumas letras, em duas palavras, em combinação com a ambiguidade de duas outras palavras, e uma omissão e duas variações de frase encontradas em versões do TF citadas por Jerônimo e Agápio, diminuiriam tanto a significância do testimonium, que não haveria vantagem para os cristãos em cita-lo. Ainda, mesmo na versão negativa os fatos não seriam alterados, mas apenas a avaliação de Josefo. Jesus agora seria um sofista, que usou seu conhecimento para aliciar pessoas ansiosas por coisas estranhas, mas o fato que reuniu muitos judeus e gregos, sendo crucificado pelas autoridades judaicas e Pilatos, e a que foi considerado o fundador da seita cristã se mantém. A hipótese é atrante, mas como não temos manuscrito de Josefo ou citação com versão negativa, consideraremos um texto neutro, como o de J. P Meier ou Geza Vermes.

Josefo, cristãos, pagãos e judeus: Dr. Alice Whealey, que analisou aprofundadamente a utilização de Josefo em geral, e do Testimonium em particicular, observa que, ao contrário do que geralmente se supõe, Antiguidades Judaicas e as outras obras de Josefo, foram pouco utilizadas pelos autores cristãos, antes de Eusébio de Cesaréia. Os pais da Igreja antes de Origenes (180-254 DC), citam ocasionalmente Contra Ápio e Guerras Judaicas, para comentar sobre assuntos judaicos, tais como figuras do Velho Testamento, cronologia e a 1ª Guerra Judaico-Romana, não se referindo a personagens citados no Novo Testamento. Adicionalmente, é incerto se qualquer escritor cristão antes de Orígenes teve acesso direto a Antiguidades Judaicas, sendo claro que nenhum deles esta familiarizado com os livros finais da obra, em que são discutidos os assuntos do século I. Segundo Whealey, Orígenes é pioneiro entre os cristãos em utilizar Antiguidades na discussão de figuras e assuntos do Novo Testamento, e apenas nas obras compostas a partir de sua mudança de Alexandria para Cesaréia, por volta de 240 DC. [2]

Prof. Robert Kraft, da Universidade da Pensilvania, faz uma lista dos autores da Antiguidade que citaram Josefo. Assim como Roger Pearse. Como pode ser visto, a grande maioria é de escritores cristãos, começando por breves citações de Teófilo de Antioquia e Irineu, por volta de 180 DC, seguidos por Clemente de Alexandria (início do sec. III). A lista de Pearse acrescenta ainda breves menções por Tertuliano (final do sec. II), Minúcio Félix (início do século III), que na melhor das hipóteses tem conhecimento superficial de Josefo, e mesmo assim de Guerras Judaicas e Contra Ápio. É interessante observar que o primeiro escritor cristão a utilizar Josefo com alguma frequência é Origenes, de forma que ele é a figura chave em nossa discussão.

O uso de Josefo por escritores não cristãos é decepcionante. A despeito de ter contado com o suporte e patrocínio dos imperadores da dinastia Flaviana (69-96 DC), o fato é que as menções a sua obra são escassas. O Professor Jona Lendering observa que Porfírio de Tiro, que viveu no final do século III, é o primeiro escritor pagão a citar expressamente a obra de Josefo, [3]. Suetônio (125 DC) e Cassio Dio (230 DC) mencionam o episódio em que Josefo profetiza a ascensão do então General Vespasiano ao trono imperial, mas não citam suas obras [4]. Entre os autores judeus, Josefo foi ignorado durante vários séculos, não sendo mencionado na vasta obra Talmúdica, possivelmente por ter sido considerado por muitos de seus compatriotas como um traidor, um Joaquim Silvério dos Reis, Benedict Arnold ou Pierre Laval da Antiguidade; um comandante revolucionário, que se deixou capturar pelo inimigo, profetizou o sucesso do general adversário, se tornou seu interprete, aconselhou outros líderes a se render, e ao fim da guerra recebeu casa, sustento e patrocínio daqueles que destruiram Jerusalém e incendiaram o Templo.
Alice Whealey considera como indício indireto de que Origenes teve acesso a uma versão do Testimonium Flavianum o fato de que ele observa de que os judeus não fazem ligação entre Jesus e João Batista, nem da execução de João com a de Jesus (Contra Celso 1:48), que é exatamente a situação do livro 18 de Antiguidades, que menciona a execução de Jesus (18:63-64) e de João Batista (18:117-119), não fazendo conexão entre os dois eventos e figuras [5].

Assim caso o Testemunho tenha sido em parte escrito por Josefo, as partes possivelmente autênticas teriam uso apologético? Analisaremos cada frase, em vista da proposta de J.P Meier:

Frases possivelmente inautênticas: A primeira a ser considerada é "Ele era [o] Cristo", o reconhecimento da condição messianica de Jesus por alguém como Josefo seria o "sonho de consumo" de qualquer apologista. No entanto, Orígenes nos diz com todas as letras que Josefo não acreditava que Jesus fosse o Messias. Além disso, Jerônimo, no início do século V, cita o Testimonium em latim sem variação relevante, com excessão da frase crucial, "Acreditou-se que ele era o Messias", que é encontrada também em Miguel, o Sírio. Então é muito improvável que a frase, como esta hoje, seja autêntica. Contudo, alguma coisa parecida com a variação latina e siríaca, que apenas atesta a existência de uma crença, é factível. Josefo apenas relata o fato de que algumas pessoas, como os muitos gregos e judeus atraídos/aliciados por ele, que se tornariam a seita cristã, por acreditarem que Jesus era o Cristo. Seria sensacional para os primeiros cristãos que Josefo afirmasse que Jesus "apareceu vivo ao terceiro dia, como os divinos profetas disseram estas e ...", dificilmente passaria desapercebida, o que é um forte indício de que essa frase não é autêntica. Contudo, temos em Agápio uma variação interessantíssima, onde os cristãos relatam/afirmam que Jesus lhes apareceu vivo, o que era um elemento importantíssimo da pregação cristã. Assim Josefo apenas estaria relatando o que os cristãos diziam. Se Josefo tivesse dito ainda que Jesus era um homem sagaz que aliciou gente que gostava de coisas estranhas, o fato de acreditarem que um homem crucificado era o Messias e ressuscitou seria uma boa ilustração para explicar porque os cristãos eram estranhos. Se é que podemos chama-lo de homem: provável interpolação identificada no estudo de estilo e vocabulário de Meier. Agápio, vivendo em um ambiente muçulmano, em face do Corão afirmar que Jesus era sábio, fazia milagres e era o Messias de Israel, teria nessa frase a única parte do Testimonium realmente útil, mas não a cita. Ainda, a frase parece como um parentese "Nessa epoca viveu Jesus, um homem sábio (se é que podemos chama-lo de homem) ....". Professor David Flusser, da Univ. Hebraica, observa que "é justamente essa interpolação infeliz que garante a autenticidade da declaração Jesus era um homem sábio" [6].

Frases provavelmente autênticas: Josefo inicia o TF com "neste tempo viveu Jesus", é um fato incontroverso, pelos menos na Antiguidade. Tácito, escrevendo 20 anos após Josefo, diz que Cristo foi executado por Pôncio Pilatos, no reinado de Tibério César (Anais 15:44). A afirmação que Jesus "atraiu muitos judeus e gregos" não seria absurdo para não cristãos, uma vez que o Tácito afirma que, trinta anos após a morte de Jesus, a "superstição mortal" havia se espalhado da Judéia e chegado a Roma, onde Nero, em 64 DC, capturou uma grande multidão de cristãos (Anais 15:44); Plínio, o Moço, governador da Bitínia (Norte da Africa), relata em uma carta ao Imperador Trajano, em cerca de 110 DC, que em sua província "muitas pessoas, de todas as idades e condição social, homens e mulheres, estão e estarão em risco, visto que o contágio desta superstição espalhou-se não somente às cidades, mas igualmente nas vilas e áreas rurais" (Cartas 10:96-97). Assim, havia a percepção de que a seita cristã crescia rápido, até demais. . Também era incontroverso que "Pilatos, por causa de uma acusação feitas pelos nossos homens mais proeminentes, condenou-u a cruz", Tácito, também em Anais 15:44, nos diz que Pilatos condenou Jesus a ser supliciado. Luciano de Samasota (175 DC), diz que o legislador dos cristãos foi "crucificado na Palestina", por dar origem a este culto (Passagem do Peregrino, 11). Celso (178 DC) ressalta o fato de Jesus ter sido executado como um criminoso contra os cristãos, prova de que ele não era o Logos e o Messias (Contra Celso II, 31 e II, 44), o mesmo argumento usado pelo judeu Trifo em cerca de 150 DC, ainda que de forma mais polida (Dialogo com Trifo, 32). Mas "aqueles que o haviam amado antes não deixaram de faze-lo. E até hoje a tribo dos cristãos, que deve esse nome a ele, não desapareceu", outro fato aceito pelos oponentes do cristãos, Jesus é o fundador do nome (Tácito) e "legislador" (Luciano) dos cristãos, que eram pessoas iludidas (Celso). A surpresa de Josefo, da tribo cristã ainda existir décadas após a morte de Jesus, foi compartilhada por autores pagãos e judeus, frustrados por aquela "superstição", além de não ter desaparecido, crescer significativamente por séculos. Em suma, até aqui, nada que autores como Tácito e Plínio não digam, e correspondendo ao conhecimento comum dos não-cristãos da época.

Continuando, quanto a Jesus "realizar feitos extraordinários" , não é tão problemático como parece a primeira vista, uma vez que a palavra utilizada, paradoxa, é ambigua (espetaculares, surpreendentes ou controversos). No século II, Celso, um violento crítico do cristianismo, não nega Jesus era capaz de realizar tais feitos, mas relata que fontes judaícas afirmavam que Jesus fazia seus paradoxa através do conhecimento de mágia que adquiriu no Egito (Contra Celso 1:6; 16-17), assim como alguns rabinos posteriores no Talmude (bSanhedrin 43b) [12]. Justino (150 DC) e Tertuliano (190 DC) defendem Jesus da acusação de ser um mágico [7]. Mesmo entre os mais ferrenhos adversários do cristianismo, a linha de ataque mais comum não era negar que Jesus de fez milagres, mas atribui-los a um suposto conhecimento de mágica e associação com poderes demoníacos. Nos círculos cristãos, como demonstram os estudos de Geza Vermes e Alice Whealey [8], os atos de Jesus eram definidos como "feitos poderosos" (grego: dunameis), ou sinais (semeia), e não como paradoxa, palavra utilizada em associação a Jesus uma única vez em todo o Novo Testamento e raras vezes entre os pais da igreja pré-Concílio de Nicéia. Enquanto isso, Josefo utiliza paradoxa cerca de 50 vezes, para diversas pessoas, e Celso também emprega paradoxa, para descrever os feitos de Jesus. Por último, talvez a mais interessante frase do Testimonium seja a qualificação de Jesus como "homem sábio" e "mestre de pessoas que recebiam a verdade com prazer", que pode ser considerado um elogio de Josefo a Jesus, o que seria útil aos cristãos, uma vez que Tácito, Plínio e Suetônio, no início do século II, chamam o cristianismo de superstição mortal, maligna e depravada [9] , e Jesus é acusado de ser um mágico e enganador do povo por Celso e os oponentes judeus de Justino e Tertuliano. No entanto, como vimos em série de posts anterior, por volta de meados do século II, possivelmente com a popularização dos evangelhos, surgem evidências que cada vez mais pagãos e judeus estão dispostos a considerar Jesus como um sábio, e a reconhecer méritos nos ensinos cristãos, principalmente nos aspectos morais. Assim, cerca de cinquenta anos após Josefo, o judeu Trifo, ao expressar as razões de seu ceticismo, reconhece os ideais elevados dos preceitos éticos dos evangelhos. Luciano de Samosata, em 165-175 DC, crítico da excessiva ingenuidade dos cristãos, reconhece que são corajosos diante da morte e extremados em cuidar dos seus em situação adversa. Galeno - que passou quarenta anos como médico da corte dos imperadores Marco Aurélio (que perseguiu os cristãos), Cômodo e Sétimo Severo - e apesar da suas reservas as bases intelectuais do cristianismo, escreve em cerca de 190 DC, que a "Escola de Cristo era capaz de transformar pessoas simplórias em verdadeiros filósofos disciplinados, corajosos e ansiosos pela justiça". Até mesmo o fílosofo Porfírio de Tiro (232-305 DC), que elaborou um violentos ataque ao cristianismo, Adversus Christianos ("Contra os Cristãos") em 15 volumes, e uma defesa do paganismo, "Da filosofia dos oráculos", chega a dizer que "Jesus foi um homem e virtuoso e sábio, querido até mesmo pelos deuses"[10].

Concluindo, as partes tidas como autênticas do Testimonium, basicamente correspondem ao conhecimento comum dos escitores não cristãos dos séculos II e III. A única informação de utilidade apologética, seria a qualificação de Jesus como homem sábio, que ensinava a verdade. Contudo, a partir de meados do século II, cada vez mais pagãos e judeus estão dispostos a reconhecer méritos nos ensinos éticos cristãos e considerar Jesus como um filósofo, centrando o ataque no fato dos cristãos terem transformado um simples sábio (na melhor das hipóteses) em Méssias e Filho de Deus, e terem deixado de observar os deveres cívicos, a religião e práticas de seus antepassados para seguir os preceitos do Evangelho. Como observa John P. Meier:

"(...) Se até pouco tempo antes de Eusébio o Testimonium não continha as três interpolações cristãs que destaquei, os padres da igreja não estariam assim tão ansiosos para cita-lo, pois o texto não reforça a linha principal da fé cristã em Jesus como o Filho de Deus que ressuscitou dos mortos. Isto explicaria o fato de Orígenes ter afirmado, no século III, que Josefo não acreditava que Jesus fosse o Messias (Commentary on Matthew 10.17;Contra Celsum 1.47). O texto de Origenes do Testimonium não incluia as interpolações e, sem estas, aos olhos dos cristãos, a Obra de Josefo simplesmente atestava sua descrença´- e não seria um instrumento apologético útil para ser apresentado aos pagãos, nem material polêmico para as controvérsias cristológicas entre os próprios cristãos. Na verdade, se algo parecido com m inha reconstituição não existia na cópia de Josefo feita por Orígenes, fica a pergunta: o que havia no texto para faze-lo declarar de forma incontestável que Josefo não acreditava que Jesus fosse o Cristo? A passagem sobre Tiago no livro 20 não é suficiente para esta conclusão" [11].

Se também as variações encontradas em Agápio, Jerônimo e Miguel, o Sírio, refletirem o texto original, Josefo apenas atestaria o fato de alguns acreditaram que Jesus era o Cristo; que os cristãos relatavam que ele resuscitou ao 3° dia, de que não havia menção de seu caráter sobre-humano, o impacto apologético seria mínimo, o que justificaria o silêncio dos escritores cristãos.


2) O Testimonium é muito curto, se Josefo tivesse escrito sobre Jesus o texto seria maior;
"Tamanho não é documento": A brevidade do relato de Josefo acaba reforçando a autenticidade do Testemunho Flaviano. Quem esta mais propenso o escrever longas linhas sobre Jesus? Um cristão ou um historiador judeu do I século que conhecia o cristianismo como uma pequena seita do judaismo e uma das centenas de cultos que havia no Império? Alguém que considerasse Jesus o Salvador do mundo, ou como um simples sábio, curandeiro e profeta? Se um cristão tivesse criado a interpolação, provavelmente ele teria muito mais a dizer. Um dos grandes suportes para a teoria de autenticidade parcial, é justamente a brevidade e termos utilizados no testimonium reconstituído e na versão de Agápio. Tivesse o interpolador plena liberdade para inserir o testimonium no texto de Antiguidades, poderia escrever muito mais e descrever de forma mais ampla o ministério de Jesus, ligando o também a João Batista, por exemplo. Se, por outro lado, já houvesse uma referência a Jesus, seu "campo de ação" ficaria mais limitado a revisar ou acrescentar o que Josefo escreveu.

Mas será mesmo o Testemunho Flavianum tão curto assim? Sim e não. De fato, Josefo escreve mais sobre figuras como João de Giscala, Menaem e Simão Bar-Giora. Contudo, a maior parte desses relatos são tratados no âmbito de seu primeiro livro "Guerras Judaicas". Esses homens foram contemporâneos de Josefo, e ele teve oportunidade de interagir com eles. Eles são apontados como rebeldes fanáticos que levaram o povo judeu a catástrofe que levou a destruição de Jerusalém. Então eles são, de alguma forma, a razão de ser daquela narrativa. Ainda, em Antiguidades Judaicas, temos algumas figuras que ocupam mais espaço do que Jesus, tais como Simão de Peréia, Atronges, João Batista e Judas Galileu. Mas é incorreto dizer que o TF seja "muito curto". Se não vejamos:

"Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio, se na verdade podemos chama-lo de homem. Pois ele foi o autor de feitos surpreendentes, um mestre de pessoas que recebem a verdade com prazer. E ele ganhou seguidores tanto entre muitos judeus, como dentre muitos de origem grega. Ele era Cristo, E quando Pilatos, por causa de uma acusação feitas pelos nossos homens mais proeminentes, condenou-u a cruz, aqueles que o haviam amado antes não deixaram de faze-lo. Pois ele lhes apareceu no terceiro dia, novamente vivo, exatamente como os profetas divinos haviam falado deste e de incontáveis outros fatos assombrosos sobre ele. E até hoje a tribo dos cristãos, que deve esse nome a ele, não desapareceu"(Antiguidades Judaicas, 18:63-64)

Temos aqui um relato de 118 palavras, em português. Se retirarmos as (prováveis) interpolações, seguindo a proposta de John P. Meier temos:

"Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio. Pois ele foi o autor de feitos surpreendentes, um mestre de pessoas que recebem a verdade com prazer. E ele ganhou seguidores tanto entre muitos judeus, como dentre muitos de origem grega. E quando Pilatos, por causa de uma acusação feitas pelos nossos homens mais proeminentes, condenou-u a cruz, aqueles que o haviam amado antes não deixaram de faze-lo. E até hoje a tribo dos cristãos, que deve esse nome a ele, não desapareceu"(Antiguidades Judaicas, 18:63-64).

O relato se reduz para 82 palavras (o de Agápio tem cerca de 80 palavras). Vamos ver agora a descrição de Josefo de uma outra figura famosa, Teudas, citado também em Atos dos Apóstolos (5:36).

"Durante o período quando Fado era procurador da Judéia, um certo mágico, de nome Teúdas, persuadiu a maioria das massas que levassem os seus pertences e o seguissem ao rio Jordão. Declarou que seria um profeta e por seu comando o rio seria partido e proveria uma fácil passagem. Com essa fala decepcionou muitos. Fado, porém, não permitiu colherem os frutos de sua tolice, enviando contra eles um esquadrão de cavalaria. Este caiu sobre eles de imprevisto, matou muitos deles e tomou muitos prisioneiros. O próprio Teúdas foi capturado, e então cortaram-lhe a cabeça e a levaram a Jerusalém." (Antiguidades. 20, 97-98)

Isso é que Josefo tem a dizer sobre Teudas, 99 palavras. Ou seja, mesmo com a remoção das possiveis interpolações, a diferença entre Testemunho Flaviano e o relato sobre Teudas, é de cerca de 15 %, equivalente aqui a uma frase. E Teudas, com certeza, não foi um personagem insignificante, pois, além de Judas Galileu, foi o único pretendente messiânico citado pelo Novo Testamento, e Josefo diz que ele "persuadiu a maioria das massas" a levar seus pertences ao Rio Jordão. Mesmo que haja aqui um certo exagero, o fato é que o governador Fado teve que intervir. Teudas foi uma figura muito importante, mas Josefo utiliza mais ou menos a mesma quantidade de tinta que usou para Jesus.

Essa diferença é eliminada, ou até revertida, se admitirmos a possibilidade razoável de que Josefo tenha escrito era na verdade "Acreditou-se que ele era o Cristo" (como esta em Jerônimo e Miguel o Sírio) ou "Ele era o assim chamado Cristo", ao invés de "Ele era [o] Cristo". Ou então a que o original tinha uma frase em que os cristãos "contavam que três dias após sua crucificação lhes teria aparecido, estaria vivo, e por isso seria o Messias sobre o qual os profetas contavam maravilhas.", como na versão de Agápio.

Temos outro exemplo em Filo de Alexandria (20 AC-50 DC). Além de um grande escritor, filósofo e teólogo, Filo foi uma das figuras mais eminentes e respeitadas entre os judeus da diaspora. Por volta do ano 40 DC, os judeus de Alexandria (Egito) entraram em conflito com a população grega da cidade, causando uma grande tumulto. Segundo a descrição de Josefo (Antiguidades 18:8: § ), o caso foi levado ao Imperador Gaio Caligula (37-41 DC), para julgamento, sendo enviados três embaixadores de cada lado. O Chefe da delegação grega, Ápio, acusou os judeus de não darem as honras devidas a César, pois se em todo o Império eram construidos altares e templo dedicados a Gaio, sendo o Imperador adorado como um deus, os judeus julgavam ser desonroso erigir estátuas para César e jurar em seu nome.

Mas Filo, o mais respeitado membro da delegação judaica, homem eminente em todos os aspectos, irmão de Alexandre , o Alabarca, e alguém não indouto em filosofia, estava pronto para fazer sua defesa contra aquelas acusações; Mas Gaio o proibiu, e o mandou embora; Eles estava tão enraivecido, que demonstrava claramente estar pronto para realizar alguma grande desvario. Assim sendo, portanto, Filo, afrontado, saiu, e disse aos judeus que estavam com ele, que deveriam ser corajosos, uma vez que, ainda que as palavras de Gaio revelavam seu odío contra eles, ele ja tinha, na realidade, posto Deus contra si mesmo [Antiguidades Judaicas 18:8:1 (§).

Então, para tão eminente figura, líder de uma embaixada que poderia mudar os rumos do povo judeu, tanto em Alexandria, quanto em todo o Império, Josefo dedica 99 palavras, também um pouco a menos do que dedicaria para Jesus de Nazaré, segundo a reconstituição mais aceita. Então, de novo, tamanho não é documento. Josefo afirma que Filo era um dos homens mais eminentes entre os judeus de sua geração, mesmo assim não escreve muito sobre ele.

Por fim, temos o caso de um agitador que viveu no tempo do procurador Festo (por volta de 60 DC), que embora tenha levantado um grande número de seguidores e criado muitos problemas, foi retratado por Josefo em poucas linhas.

Festo enviou tropas, tanto cavaleiros quanto infantes, que atacaram aqueles que foram persuadidos por um certo impostor, que lhes prometeu livramento e libertação das misérias a qual estavam submetidos, se eles o seguissem até o deserto. Assim, as tropas cairam sobre, que os havia enganado, e sobre seus seguidores da mesma forma. [Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 20.188]

Aqui, a história do impostor é contada em 52 palavras, bem menos que a descrição de Jesus. Ele apenas diz que reuniu seguidores e pretendia leva-los ao deserto, e que ele criou tantos problemas que Festo teve de lançar mão de suas tropas. O interesante é que Josefo não nos dá o nome, a origem, e a área de atuação do "impostor".

Devemos observar que a comparação foi feita nos textos em português, e um trabalho mais rigoroso e acadêmico tornaria imperioso a comparação do tamanho dos textos em grego. No entanto, o objetivo é basicamente demonstrar que pessoas eminentes, sobre o qual muito poderia ser dito, foram mencionadas por Josefo em curtos parágrafos, mais ou menos do mesmo tamanho que a parte considerada autêntica do Testimonium Flavianum.

3) Não há uma descrição, mesmo que sumária, dos feitos ou ensino de Jesus
O que ele disse": Podemos responder a objeção de que os ensinos e feitos de Jesus não são apresentados com detalhes, mesmo que de forma resumida. A descrição de Filo de Alexandria por Josefo é tão curta quanto a de Jesus, e não detalha porque Filo era eminente em todos os aspectos (salvo pelo seu parentesco com Alexandre, o Alabarca) e seu conhecimento filosófico. Filo de Alexandria foi um dos maiores pensadores da Antiguidade e os livros atribuidos a ele chegam a quase meia centena. Entretanto, ainda que Filo tenha escrito vários comentários de livros do Velho Testamento; tratados filosóficos, que poderiam despertar o interesse dos leitores de Josefo; uma apologia dos judeus, que poderia ser útil para responder críticas, ataques e impressões equivocadas existentes entre os aristocratas romanos (e Josefo também escreveu uma Apologia, em defesa do povo judeu); e uma narrativa do próprio Filo dos eventos que testemunhou em sua embaixada ao Imperador Gaio Caligula, Legatus Gaio; além de outra ("Contra Flaco") que relata os fatos que levaram aos tumultos entre judeus e gregos em Alexandria, e os abusos a qual os judeus foram submetidos com a leniência do Governador Flaco. Assim, embora Josefo pudesse escrever muito mais sobre Filo, seu conhecimento filosófico, seus livros, suas experiências, se ele era platonico, neo-pitagórico ou estóico .... coisas que certamente seriam de interesse de seus leitores, e permitiriam uma melhor compreensão dos acontecimentos, ele não o faz. Diz apenas que Filo era "eminente em todos os aspectos" e "dominava a filosofia", e descreve, brevemente, seu encontro com Calígula. Jesus, (que para Josefo não era tão ilustre quanto Filo) é descrito como sábio ou filósofo, que realizava feitos extraordinários, ensinava pessoas ávidas pela verdade, sem que seus ensinos ou feitos sejam detalhados, e que se defronta com as autoridades romanas e judaicas, sendo executado.

Da mesma forma, para alguns dos lideres carismáticos que Josefo não gostava, ele não entra em muitos detalhes, mesmo quando essas informações seriam necessárias para situar os leitores no contexto em que os fatos aconteceram. Teudas, já citado, é descrito como alguém que persuadiu o povo a segui-lo até o Jordão, que se abriria para que a multidão passasse. Josefo não explica o significado desse ato, e suas implicações, como a lembrança dos feitos de Josué, ao levar o povo a atravessar o Jordão e conquistar a terra prometida, derrotando seus inimigos. Também não são explicitados os outros ensinamentos de Teudas, suas crenças, sua origem, e o que fazia. Na narrativa de Josefo, Teudas surge do nada, lidera seus seguidores iludidos no caminho até o Rio Jordão, é interceptado pelo Governador Fado, que o captura e executa. Também aqui podemos fazer paralelos com a descrição de Jesus, como Teudas, Jesus é um lider carismático que "surge" na narrativa, sem maiores explicações de sua origem, atrai (ou alicia) uma multidão, o que chama a atenção das autoridades, que o capturam e o executam. É fato que Josefo diz que Teudas levou seus liderados ao Jordão, mas Josefo também diz que Jesus foi seguido como Cristo, seja porque seus seguidores foram chamados "cristãos", seja por que eles "acreditavam que ele era o Cristo".

4) Josefo era fariseu, não poderia ter visto Jesus de forma "neutra" ou positiva:
"Entre tapas e beijos": Já respondemos essa questão, nestes posts aqui. Resumindo, o Novo Testamento é a principal fonte antiga sobre as controvérsias de Jesus e os cristãos com os fariseus. Uma análise mais atenta ao texto bíblico demonstra uma relação complexa, de tensão e atração, concordância e conflitos. Nos evangelhos, Jesus frequentemente critíca os fariseus. Contudo, o Novo Testamento apresenta José de Arimatéia e Nicodemos como fariseus. Os primeiros cristãos compartilhavam com os fariseus as crenças em anjos, ressurreição, vida após a morte, os que os aproximava mais dos fariseus do que qualquer grupo judaíco de então. Lucas relata que alguns fariseus avisaram Jesus que Herodes Antipas queria mata-lo (Lucas 13:31-35), e que, em pelo menos três ocasiões Jesus foi convidado a comer na casa dos fariseus (Lc 7:36, 11:37, e 14.1). Professor Geza Vermes observa que nos relatos de prisão, julgamento e crucificação de Jesus, a ausência dos fariseus é notória [12]. De fato, já notamos que nas narrativas da paixão nos evangelhos sinóticos, os grupos oponentes de Jesus são mencionados 28 vezes - mas quase todas elas referindo-se aos chefes dos sacerdotes, escribas, e anciãos - com uma única menção aos fariseus. Enquanto isso, nos demais relatos dos evangelhos, das 37 disputas de Jesus com outros grupos judaícos, 24 mencionam os fariseus. Das 13 vezes em que os fariseus não são citados, seis se referem a passagem em que Jesus prediz a seus discípulos que em Jerusalém os principais sacerdotes entregariam o Filho do Homem aos gentios (Mt 16:21 e 20:18; Mc 8:31 e 10:33; Lc 9:22 e18:31). Observamos um padrão nos evangelhos de conflito constante entre Jesus e os fariseus sobre a observância da Lei, mas nos relatos de prisão e morte os atores principais são os "chefes dos sacerdotes, escribas e anciãos", e os fariseus estão (praticamente) ausentes.

Nos Atos dos Apóstolos e Cartas Paulinas o padrão se mantém. Na Igreja de Jerusalém havia alguns fariseus que haviam crido (Atos 15:5), e um forte partido judaizante, ou os "da circunsição" (Atos 15:1, Galatás 2), que eram numerosos e influentes o suficiente para pedir explicações a Pedro por ele ter batizado o Gentio Cornélio (Atos 9), e entrar em conflito com Paulo em relação aos cristãos gentios e a observância da Lei (Atos 15, Galatás 5:2-3). Foi necessária a intervenção de Tiago, irmão do Senhor, Pedro, e dos outros apóstolos para tentar resolver a controvérsia ( Atos 15). A decisão tomada ( Galatás 2:1-9; Atos 15:22-31), enquanto a determinava que os crentes gentios deviam se abster "das coisas sacrificadas aos idolos, do sangue, da carne sufocada e da imoralidade sexual" (Atos 15:29), e o "cuidado dos pobres" (Galatás 2:10), não isentou os crentes judeus de observar a lei mosaica e os costumes ancestrais. Mesmo depois do Concílio, vemos Paulo em conflito com outros cristãos que continuaram a insistir na necessidade da circunscição, da observância da Lei, das festas e alimentos puros para os gentios (Galátas 3:1-5, 5:1-12; Filipenses 3:2-6; I Corintios 7:18-20; Romanos 14:1-5). Enquanto que, em Jerusalém, Tiago continuava a conduzir sua igreja de forma alinhada aos costumes e leis judaícas (Atos 21:18-25). O autor de Atos relata ainda que quando o sumo sacerdote e seus aliados saduceus prenderam os apóstolos (Atos 5:17), o líder fariseu Gamaliel convenceu o Sinédrio a não executa-los, e após terem sido açoitados, foram soltos (5:40). O próprio Paulo, ao ser julgado pelo Sinédrio, não se inibiu em dizer "Sou fariseu, filho de fariseus, e por causa da ressureição dos mortos estou sendo julgado" (Atos 23:6), a menção ressureição dos mortos, ponto de tensão entre saduceus e fariseus, levou o sinédrio a se dividir. Se mesmo Paulo, pivô da controvérsia sobre a lei e os gentios pode ser "adotado" pelos líderes fariseus, os cristãos judaizantes deveriam se sentir "em casa".

Professor Bart Ehrman, da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, faz as seguintes observações sobre as tensões entre Jesus e fariseus, Paulo e judaizantes.
"Os fariseus tinham sérias disputas entre si quanto a como interpretar e implementar essas leis. Jesus também tinha dispustas com eles. Algumas coisas ditas no calor da discussão não eram gentis. Dentro da tradição cristã, os fariseus vieram a ser conhecidos como "sepulcros caiados" (Mt 23:27) - limpos e atraentes por fora, mas cheios de carne apodrecida por dentro. Eles eram hipócritas, que enxotavam um mosquito de seu calíce mas engoliam um camelo (Mt 23:24) Não há dúvida de que esssas difamações cristãs eram respondidas pelos fariseus, que estavam, afinal, fazendo o melhor que podiam para entender e praticar o que Deus queria. Em conflitos religiosos, a questão é sempre dar e receber. Mesmo assim, não se deve imaginar que Jesus se opôs as interpretações farisaícas porque eles estivessem muito distantes na maioria das questões. Na verdade, estavam bastante próximos, e dai a retórica emocional. Tendemos a discutir mais frequentemente e mais acaloradamente com aqueles que estão mais próximos a nós" (...) Quando movemos o calendário para vinte anos depois, até Paulo, o eloquente apóstolo de Jesus, encontramos uma situação comparável, só que agora os conflitos "internos' envolvem batalhas dentro da Comunidade Cristã, fundada após a morte de Jesus. Cada Igreja que Paulo fundou parecia ter se envolvido no tumulto. As cartas de Paulo tinha a intenção de resolver os problemas. Ao longo delas, encontramos oposição severa e direta a falsos professores. Porém, é importante notar que eram falsos professores cristãos, que estavam nas igrejas de Paulo." [13]

É importante observar que as considerações acima independem da confiabilidade ou historicidade das narrativas. Ainda que boa parte ou mesmo a totalidade dessas narrativas sejam criações literárias de Lucas e dos outros evangelistas, ou Paulo não relate os fatos corretamente, elas ainda dizem muito sobre os grupos cristãos que escreveram os textos e sua visão dos seus oponentes. Se "Lucas", no final do I século ou início do II, inventou as histórias de Pedro, João e Paulo no Sinédrio e do Concílio de Jerusalém, não faria sentido ser simpático aos fariseus, afirmar que havia cristãos fariseus, ou fazer Paulo declarar que ainda era fariseu, mesmo depois de sua conversão, se os fariseus fossem inimigos mortais da Igreja. Temos aqui duas alternativas (ou a combinação de ambas), ou são criações literárias que refletem a existência de algum tipo de dialogo, afinidade e possibilidade de proselitismo, ainda que com altas doses de tensão, com os fariseus, ou são baseadas em fatos reais em que os fariseus dialogaram e mesmo defenderam os cristãos de ataques de outros grupos judaicos, como os saduceus.

O Dr. Paul Winter analisa a questão:
"Isto indica que judeus que pertenciam ao grupo que Josefo fazia parte - farisáico sem dúvida - ainda não tinham aplicado a Jesus uma reputação de herético, ou o denuciado como rebelde. Que vários circulos farisáicos mantiveram relações amistosas com judeus cristãos ainda por um longo tempo após a crucificação é demonstrado, não só pelo relato do ressentimento causado pelo apedrejamento do irmão de Jesus por ordem do sumo-sacerdote saduceu, mas pelo fato significativo de que certas tradições comunais de procedência palestina (parte da assim chamada 'fonte especial" de Lucas) descrevem vários fariseus e outros judeus não membros do grupo de discipulos de Jesus como expressando sentimentos e intenções de amizade com Jesus emnatendo contato com ele" [14]

De fato, Justino Martir, em cerca de 150 DC, cem anos após o tempo de Paulo, nos diz que os cristãos judeus continuavam a observar a Lei de Moisés, ainda que divergissem sobre se os cristãos gentios deveriam faze-lo.

5) O Testemunho ocorre fora de contexto;

"Fora de lugar??": Professor John P. Meier responde a crítica de que o Testimonium ocorre fora de contexto:
"não me detive sobre a objeção segundo a qual o Testimonium quebra o fio da narrativa do Livro 18; se houver interesse nessa linha de raciocínio, consultar Thackeray (...) Talvez a melhor apreciação de toda a análise de Thackeray seja essa simples observação "a obra de Josefo é uma concha de retalhos". Cohen é ainda mais rude: "Nós enfatizamos um outro aspecto da obra de Josefo, seu inveterado desleixo". Textos que dão margem a revisões tendenciosas, assim como passagens que contradizem suas motivações são, por vezes, deixadas intocadas. A narrativa é frequentemente confusa, obscura e contraditória (...) fica-se a imaginar se para Josefo seria necessário uma conexão mais forte de o relato de Jesus (mandado crucificar por Pilatos) ser precedida de uma história sobre pilatos em que muitos judeus são mortos (ant. 18.3.2.§60-62) e ser seguido de outra em que trapaçeiros são punidos com a crucificação (18.3.4§65-80)". [15]

Isso pode ser melhor evidenciado, utilizando um esquema com o resumo dos acontecimentos descritos.:
18.35: Pilatos é apresentado, como sucessor de Valerio Grato.
18.36-38: Herodes Antipas constroi Tiberíades. (Pilatos não é citado).
18:39-52: Morre Phraates, Rei dos Partos. Crise de sucessão envolve Roma. (Pilatos não é citado).
18:53-54: Morre Antioco, Rei de Comagene. Embaixadores são enviados a Roma para transformar o pequeno reino em província. (Pilatos não é citado)
18.55-9: Pilatos introduz imagens imperiais no Templo, causando tumultos
18.60-2: Pilatos utiliza fundos do Templo para construir um aqueduto, na repressão ao tumulto muitos judeus são mortos.
18.63-4: Testemunho Flaviano. Jesus é crucificado por Pôncio Pilatos.
18.65-80: Em Roma, uma aristocrata chamada Paulinia, devota de Isis, é enganada e seduzida por Decius Mundus, que se faz passar pelo deus Anubis. Não há judeus ou Pilatos na narrativa. 18.81-4: Ainda em Roma, quatro judeus convencem a aristocrata romana Fúlvia, a doar ouro e purpura para o Templo em Jerusalém. Os vigaristas se apropriam da doação para si próprios. O caso é levado a Tibério que os manda crucificar e expulsa os judeus de Roma. Pilatos não é citado. 18.85-7 : Em Samária, um profeta reune uma multidão no Monte Gerizim dizendo que lá estariam vasos sagrdos enterrados por Moisés. Pilatos, preocupado, reune uma tropa de cavaleiros e infantes que atacam a multidão. Muitos morrem.
18.88-9: O senado Samaritano manda emissários a Vitélio, Legado Romano na Síria e chefe de Pilatos. Pilatos é enviado a Roma, e substituido por Marcelo.

Então, porque o Testimonium Flavianum estaria fora de contexto? Porque não a morte do Rei Antioco? Ou a sedução de Paulínia, devota de Isis? Ou então a construção de Tiberíades? Se o fio da narrativa é o governo de Pilatos, quem esta fora de contexto são os eventos em Roma (Ant. 18: 65-84).

Ainda que consideremos as tragédias, tumultos e afrontas como um dos elementos comuns dessa parte de Antiguidades, temos que ter em mente o seguinte: Se Josefo disse que Jesus era um homem sábio e realizador de feitos extraordinários e surpreendentes (ainda que eventualmente controversos), sua crucificação seria uma afronta, pois teríamos Pilatos matando um homem inocente, arbitrariamente, da forma mais bárbara possível (algo não sem precedente em Antiguidades, vide João Batista, Jesus Filho de Ananias, Onias e Tiago, irmão de Jesus).

Como observam Gerd Theissen e Annete Merz, o testimonium descreveria então uma desgraça ou calamidade, palavra que, por sinal, é utilizada por Josefo no parágrafo seguinte.[16] Se, por outro lado, aceitarmos teses como a de Eisler, Brandon e Biernet - de que Josefo originalmente descreveu Jesus como um charlatão astuto e revolucionário, que desencaminhou judeus e gregos que "ouviam coisas estranhas com prazer" e foi por isso crucificado - teríamos agora o tumulto ou calamidade que procurávamos.

6) Josefo, como protegido da familia imperial, não poderia ter sido crítico a Pilatos e administração romana;

"Pilatos, o açougueiro": Quanto a objeção de que Pilatos não poderia ser retratado negativamente por Josefo, temos a dizer que fato de Josefo ser leal a Roma, não implicou em uma atitude acrítica em relação aos procuradores romanos na Judéia. De fato, ele é extremamente crítico em relação a boa parte deles. Pilatos não é excessão. Tanto Filo como Josefo são extremamente críticos a Pilatos. Josefo descreve o governo de Pilatos como uma série de abusos e violências, um banho de sangue.

John D Crossan e Jonathan Reed, observam que mesmo autores romanos, como Cornélio Tácito (um senador e ex-proconsul), reconheceram que o caráter violento e corrupto dos procuradores romanos foi causa determinante nas revoltas na Palestina.

"Quando Tácito volta-se da etnografia para a história, não culpa a religião judaica pela rebelião. Na verdade, culpa os governantes imperiais romanos. Em 44 DC afirma que "Cláudio transformou a Judéia em província, e a entregou a cavaleiros romanos e alforriados. Um destes, Antônio Félix (52-60) praticava todos os tipos de crueldade e depravação (...) A paciência dos judeus durou até que Géssio Floro tornou-se Procurador" (Historias 5.9.3 e 5.10.1). Tácito quase chegou a afirmar que a Guerra Judaica fora provocada por Roma [17]

Professor Klaus-Stefan Krieger vai além, observando uma mudança na atitude de Josefo em Antiguidades (93 DC) em relação a Guerras Judaicas (79 DC). Antiguidades é muito mais crítica em relação a administração romana do que Guerras . "Antiguidades" retrata os governadores romanos, todos eles, como incompetentes, corruptos e/ou anti-judaicos. Em Guerras apenas Albino e Géssio Floro são culpados de má administração. Krieger usa como exemplo bem acabado dessa mudança o retrato do Governador Félix, já mencionado. Se em Guerras Judaicas ele é retratado um oficial enérgico e rigoroso que combate com algum sucesso inicial os bandidos que infestavam o país (Guerras 2:253), ele se torna em Antiguidades um tirano egocêntrico que suborna sicários (assassinos) para matar um Sumo-Sacerdote que ele considerava incoveniente (Antiguidades 20:162-166) . Em contrapartida, observa Krieger, o Legado Romano na Síria, "chefe" desses prefeitos ou procuradores, é geralmente retratado em Antiguidades como sensíveis e simpaticos aos judeus, e como modelo de administrador romano [18].

Na verdade, Josefo não tem nada de bom a dizer sobre o Governo de Pilatos.

Prof. Geza Vermes, observa:
"Com efeito, Filo de Alexandria e Flávio Josefo, os dois escritores judeus daquela época, muito tem a relatar sobre o prefeito da Judéia, e o que tem a dizer esta longe de ser elogioso. Filo (Embaixada a Gaio 299-305) cita a opinião do rei judeu Herodes Agripa I, que, escrevendo ao Imperador Gaio Caligula, retrata Pilatos como um homem teimoso, irascível, vingativo, naturalmente inflexível, obstinado e insensível que cometia insultos, roubos afrontas e injustiças gratuitas. Ele também ficou famosos por sua venalidade e muitos atos de crueldade, bem como por numerosas execuções sem julgamento prévio. O Pilatos de Josefo também é um funcionário ríspido, irrefletido e impiedoso. Logo depois da sua chegada a Judéia, rompeu a tradição de seus antecessores e ofendeu grosseiramente as sensibilidades religiosas dos judeus de Jerusalém, dando ordem a seus soldados de entrarem na cidade carregando estandartes romanos com a figura do Imperador. [19]

Vermes continua:
Sabe-se do massacre de judeus desarmados que protestaram contra a sua apropriação ilegal do Corban (oferta sagrada). Entre as calamidades causadas por Pilatos, Josefo lista a crucificação de Jesus. Outro ato criminoso contra um grupo de samaritanos, finalmente obrigou Vitélio, embaixador romano na Síria, a tirar Pilatos da sua governadoria e envia-lo a Roma para prestar contas de seus crimes ao Imperador (Guerra Judaica 2,169-177, Antiguidades 18:35-89). Essas representações negativas por escritores judeus do século I D.C, que definitivamente não eram anti romanos, encontraram um eco surpreendente mesmo no Novo Testamento" [19]

Prof. David Flusser concorda:
"Filo, o filósofo judeu de Alexandria, disse que Pilatos "era um homem de uma disposição inflexivel, obstinada e cruel". Filo também enumerou os sete pecados mortais de Pilatos, "sua venalidade, violência, sua ladroagem, suas agressões, seu comportamento abusivo, suas execuções frequentes de prisioneiros, sua ferocidade selvagem e infinita". Esta avaliação negativa não difere muito do relato de Josefo" [20].

Assim como Paul Winter:
"Josefo oferece mais informações do que Filo sobre o governo de Pilatos na Judéia, registrando vários acontecimentos ocorridos durante sua gestão. Todos ilustram amplamente o modo arrogante com que Pilatos lidava com os habitantes da província. O que importa para assegurar a credibilidade desses registros é o fato de Josefo também mencionar o comportamento cruel de Pilatos com relação aos samaritanos, nação pela qual Josefo não tinha a menor simpatia" [21].

O episódio dos Estandartes com a figura do Imperador é emblemático, porque Pilatos é acusado de fazer isso com intuito de abolir as leis judaicas (Antiguidades 18:55). Ou seja, segundo Josefo, o protegido da familia imperial, não teria sido um acidente, resultado da inexperiência do recém nomeado Governador Pilatos quanto aos assuntos judaícos, mas uma provocação deliberada e calculada, visando atacar injustificadamente os costumes religiosos de uma nação sujeita a Roma, algo que nenhum outro governador ousara fazer. É uma acusação gravíssima para um oficial cuja principal atribuição era evitar problemas, e não provoca-los. Desviar fundos do Templo, mesmo que com intuito de construir um aqueduto, e mandar matar judeus inocentes que protestavam contra a iniciativa não é também um feito louvável para um governador. Podemos acrescentar, ainda, o episódio relatado no evangelho de Lucas (Cap. 13), onde Jesus relata a sorte de infelizes galileus a qual Pilatos ordenou que o sangue fosse misturado a seus sacrifícios.

De todas as fontes, a mais "branda" com Pilatos são os relatos da paixão, no Novo Testamento. É possível, porém, que Filo e Josefo tenham sido um pouco injustos com Pilatos.

Paul Winter faz um contraponto:
É praticamente impossível fazer justiça a Pilatos, vendo-o "sine ira et studio" como o homem que realmente foi. Provavelmente, foi um dos mais hábeis administradores enviados por Roma a Judéia. O período relativamente longo de sua gestão, por si só, é prova de suas capacidades. Ele tampouco era tão desatento aos interesses daqueles sobre os quais governava. Josefo, ou o cronista responsável pela fonte de Josefo, que o detestava com fervor, registra que algumas medidas de Pilatos foram tomadas em benefício da população" [21]

Pilatos foi o governador que mais tempo exerceu o cargo na conturbada província da Judéia, cerca de 10 anos. A construção do aqueduto, embora financiada, em parte, com recursos do Templo, foi uma obra benéfica para a população de Jerusalém. Além disso, Pilatos não era muito diferente de um governador romano típico. Entretanto, isso torna ainda mais evidente que mesmo escritores judeus pró-Roma não tinham problema em criticar prefeitos e procuradores.

7) O Testemunho Flaviano não diz as razões pela qual Jesus foi executado

"Sem motivo?": Para a objeção de que o Testimonium não diz as razões porque Jesus foi executado, observamos que Jesus reunir grande número de seguidores, cujo o vínculo era intenso (sobrevivendo décadas depois de sua morte), que foram chamados de "cristãos" por causa dele, (indicando, mesmo que Josefo, originalmente, possa não ter dito diretamente), "que eles acreditavam que ele era o Cristo", e algo que, nas condições explosivas da palestina do sec. I, podia alarmar Pilatos.

Adicionalmente, Filo de Alexandria, que foi contêmporâneo de Pilatos, apresenta um relato do Governador Romano:
"(...) eles também exporiam o restante de sua conduta enquanto Governador, declarando na íntegra os subornos, os insultos, os roubos, os ultrajes, e as injurias maldosas, as execuções sem julgamento, repetidas constantemente, a crueldade incessante e extremamente dolorosa" (Filo, Legatus ad Gaium, cap. 38:302)

Pilatos era conhecido por executar prisioneiros sem julgamento, de forma totalmente arbitrária. Logo, porque precisaria de motivos razoáveis para executar Jesus?

Além disso, Geza Vermes, faz observações sobre as condições políticas e religiosas que levaram a prisão e morte de Jesus, e compara com outros exemplos encontrados na obra de Josefo:

"Tenho sido frequentemente confrontado por ouvintes e leitores perplexos com a pergunta: "Se, como o Senhor alega, Jesus era um judeu pio sem culpa de nada que pudesse acarretar a sentença de morte com base em religião, e se não era um agitador anti-romano ou pretendente ao trono de Messias real, por que ele foi executado?" A resposta a esta legítima questão é que nas circunstâncias politícas e religiosas incertas da Palestina intertestamental, era fácil alguém perder a vida sem ter cometido nenhum ato culpado contra a lei judaica ou o estado romano. Josefo nos dâ três exemplos além do Testemunho Flaviano (...) Josefo parece indicar que a sentença foi um erro judicial visto que, segundo o texto do parágrafo seguinte das Antiguidades , teria sido seguida por outra deínon, istoé, afronta, calamidade, injustiça (XVIII,65), mas ele não revela porque a sentença de morte de Jesus seria uma afronta (...) [22]

Após mencionar o caso de Tiago, irmão de Jesus, Vermes cita os três paralelos, Honi, o fazedor de chuva; João Batista e Jesus, Filho de Ananias:

"O primeiro dos três paralelos é o de Honi, o único outro hasside mencionado em Antiguidades. Este homem de Deus foi apedrejado até a morte por se recusar a empregar o poder da oração em favor de um partido judeu contra o outro no contexto de uma disputa civil. Aqui Josefo não hesita em botar a culpa do assassinato do justo Onias em judeus vilões"
O relato de Josefo sobre a execução de João Batista (Antiguidades XVIII, 117-119) é muito diferente e plenamente relevante para a execução de Jesus. O historiador descreve João, que ele não liga a Jesus, como um "homem bom", "que exortava judeus a levarem vidas virtuosas, praticarem a justiça para com seus semelhantes e a piedade para com Deus, e para tanto unirem-se no batismo". A sua sentença de morte é vista como um crime, e ele nos conta que alguns judeus reconheceram na derrota subsequente do exército de Antipas pelo Rei Nabateu Aretas IV uma justa vingança pelo assassinato de Batista (...) a desgraça de João teria sido o poderoso apelo de sua pregação (...) a sua execução em segredo foi uma medida drástica contra uma figura potencialmente perigosa, que hoje lidava com religião, mas amanhã podia tornar-se líder de uma revolução
[22]

João Batista é um pregador da virtude, que atrai multidões e causa alvoroço. Os principais (no caso, Herodes Antipas) ficam alarmados, e tentam (e nesse caso, efetivamente conseguem), silencia-lo. A acusação ou motivo da execução é a possibilidade de que as massas, excitadas pela pregação de João, fossem induzidas a rebelião (contra Antipas, e, em todo caso, contra Roma).

Falando sobre os efeitos da pregação de João sobre as massas, John Dominic Crossan observa:
"De repente, tudo muda, mas sem qualquer explicação. Quem são esses outros, porque são tão incitados, qual é o conteúdo desses sermãos , onde João levaria aqueles que o obedecem em tudo o que faziam e como poderia tudo isso levar a alguma forma de sedição ou mesmo a uma sublevação? Depois de ler esta segunda parte, não surpreende que Antipas tenha rapidamente decidido eliminar João" [23]

A possibilidade, ainda que remota, de que João Batista se torne o líder de uma revolta (para se tornar rei?), leva a sua execução. Como diz Crossan, é possível que Josefo não tenha contado toda a história em relação a João Batista, deliberadamente relatando menos que sabia, para que os detalhes não ferissem suscetibilidades de seus leitores da elite greco-romana . É concebível que em seus sermões pudessem ser interpretados de forma revolucionárias. Nesse aspecto, o relato do Novo Testamento complementa o de Josefo. Uma crítica a vida promiscua dos monarcas herodianos, combinado a multidões alvoroçadas por um profeta, e que o seguem em tudo que ele diz e faz (até em uma revolta) pode ser um bom motivo para cortar cabeças.

Concluindo
Desta forma, no que se refere a Josefo, podemos concluir citando o Professor Steve Mason, da York University, que após ponderar as dificuldades com o texto do Testimonium, e fazer um balanço das evidências disponíveis afirma:

"Levando em conta todos esses problemas, uns poucos estudiosos afirmam que a passagem inteira (o testimonium) como se encontra em Josefo é uma fraude cristã. Escribas cristãos que copiaram os escritos do historiador judeu pensaram ser intolerável que ele não tivesse escrito nada sobre Jesus e colocaram o parágrafo onde mais provavelmente deveria ficar, no relato Josefano do governo de Pilatos. A maioria dos críticos, entretanto, tem sido relutante em ir tão longe. Eles observaram que, em geral, os copistas cristãos eram bastante conservadores na transmissão de textos. Em nenhum outro lugar na volumosa obra de Josefo há suspeita fundamentada de manipulação escribal. Copistas cristãos também gtransmitiram as obras de Filo, que disse muitas coisas que poderiam ser elaboradas em um sentido cristão, mas não há evidência que em centenas de anos de transmissão, os escribas inseriram seus próprios pensamentos no texto de Filo. Por certo, acredita-se que muitos dos "pseudepigrafa" que existem hoje apenas na forma cristã tenham sido elaborados a partir originais judaicos, mas neste caso é provável que seja resultaado da elaboração de textos cristãos a partir de modelos, e não inserções por escribas. Esta discussão esta em curso entre os estudiosos. Mas nos casos de Filo e Josefo, os quais os escritos foram preservados em sua forma e lingua original, é muito díficil encontrar um único exemplo de alteração escribal digna de nota. Criar o Testimonium do nada seria um ato de audácia sem precedentet para um escriba" [24]



O caso de Filo de Alexandria é realmente impressionante. Suas idéias foram utilizadas intensamente pelos pais da Igreja, como Origenes e Clemente, e sua repercussão entre os cristãos foi provavelmente maior que a de Josefo. Sua definição do "Logos" encontrou espaçõ até no evangelho de João. Alguns o consideraram um "cristão honorário", havendo lendas de que ele se encontrou com Pedro em Alexandria. Não obstante, a despeito de Filo ter escrito vários livros, que constituem várias centenas de páginas, que foram copiados e recopiados por escribas cristãos por mais de mil anos, não há um "Testimonium Filosianum". Não se conhece nenhuma passagem falando dos feitos maravilhosos de Jesus, da crucificação, ressureição, escrita pelo sábio judeu de Alexandria. Filo não fala de Jesus, e até onde se sabe não houve tentativa dos escribas "interpoladores compulsivos" de mudar essa realidade, mesmo havendo inúmeras oportunidades para isso. Também é estranho ver Fócio de Constantinopla, no sec. IX, reclamar que Justo de Tiberíades (historiador contemporâneo de Josefo) não tenha falado de Jesus.

Se, como é dito, o texto de Josefo foi interpolado duas vezes, porque não fizeram o mesmo com Filo de Alexandria e Justo de Tiberíades? É uma forte evidência que Josefo realmente mencionou Jesus, e que embora o Testimonium possa ter sido alterado não foi criado do nada.

Todavia, já que a maior parte daqueles que dominam a evidencia concordam que ele [Josefo] disse algo sobre Jesus, podemos nos sentir livres para cita-lo [o testimonium] como uma fonte independente que Jesus realmente existiu, caso essa evidência fosse necessária. Mas para isso já seria suficiente a referência de Josefo a Tiago (Ant. 20.200), além do fato que a maioria dos historiadores considera a existênicia de Jesus como a única explicação adequada para as muitas tradições indepentes nos escritos neeotestamentários." (25)

Referências Bibliográficas
[1] John P Meier (1991), Um Judeu Marginal, Volume 1, fls. 76-77
[2] Alice Whealey (2005), "Josephus, Eusebius the Cesarea, and the Testimonium Flavianum in Christifried Bottrich, Jens Herzer, Torsten Reiprch (2007) , Josephus und das neue Testament, Wechselseitige Wahrnehmungen II, fls. 74-75.
[3] Jona Lendering, Flavius Josephus, Livius, acessado em 15.06.2010
[4] Suetônio, A Vida dos Doze Césares, Vespasiano; Cassio Dio, História Romana, Livro 66, Capítulo 1, seção 4
[5] Alice Whealey (2005), "Josephus, Eusebius of Cesarea and Testimonium Flavianum", in Christopher Bottrich, Jens Herzer, Torsten Reiprich (2007) .... fl. 83, nota 27



[6] David Flusser (1998), Jesus, fl. 12.



[7] Justino, Dialogo com Trifo, Capítulo 69, verso 5 e Tertuliano, Apologetica 21:17



[8] Geza Vermes (1998) "Jesus in His Jewish Context" fl. 91-96; Alice Whealey (2005), "Josephus, Eusebius the Ceasarea, and the Testimonium Flavianum" in Christfried Bottrich, Jens Herzer, Torsten Reiprich eds. (2007), Josephus und das Neue Testament, Wechselseitige Wahrnehmungen II, fls. 82-83.



[9] Tácito, Anais 15:44; Plínio, Cartas 10:96-97; Suetônio, A Vida dos Doze Césares, Nero, 16:2



[10] Porfírio, "Filosofia dos Oráculos", em Santo Agostinho Cidade de Deus, Livro 19, capítulo 23



[11] John P. Meier (1991), Um Judeu Marginal, volume 1, pagina 86, nota 38



[12] Geza Vermes (2003), Quem é Quem na Época de Jesus, fl. 159



[13] Bart D Ehrman (2003), Evangelhos Perdidos, As batalhas pela escritura e os cristianismos que não chegamos a conhecer, fl. 236.



[14] Paul Winter (1968) "Excursus II -Josephus on Jesus and James," em E. Schurer, The History of the Jewish People in the Age of Jesus Christ, rev. and ed. by G. Vermes and F. Millar, fl. 441.



[15] John P. Meier (1991), Um Judeu Marginal, Volume 1, fl. 92, nota 54



[16] Gerd Thiessen e Annete Merz (1996), O Jesus Histórico, um Manual, fl. 93



[17] John Dominic Crossan e Jonathan Reed (2001), Em Busca de Paulo, fl. 321



[18] Klaus-Stefan Krieger (2000), A Synoptic Approach to War 2 §§ 117-283 and Antiquities 18-20 http://pace.cns.yorku.ca:8080/media/pdf/sbl/krieger2000.pdf



[19] Geza Vermes (2003), A Paixão, fl. 116.



[20] David Flusser (1998), Jesus, fl. 49



[21] Paul Winter (1968), Sobre o Processo de Jesus, fl. 122



[22] Geza Vermes (2001), As várias faces de Jesus, fl. 308



[23] John D Crossan (1995), Jesus uma Biografia Revolucionária, fl. 50



[24] Steve Mason (1992), Josephus and The New Testament, fl.170-171



[25] Steve Mason (1992), Josephus and The New Testament, fl.174


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A Significância de Jesus e a Escala Richter de Impacto Histórico: Corrigindo Erros na Internet: Parte 2a

No post anterior, conversamos um pouco sobre os problemas associados aos argumentos frequentemente encontrados na internet de que a falta ou escassez de referências não cristãs a Jesus seria uma prova de sua inexistência ou irrelevância histórica, citando como exemplo o filme para internet zeitgeist e lista de Remsburg. Uma vez que os autores do zeitgeist mencionaram Flávio Josefo, observamos que no texto atual de sua obra Antiguidades Judaicas, existem duas referências a Jesus de Nazaré, nas passagens encontradas no Livro 18:63-64 (conhecida como Testimonium Flavianum) e 20:9:1 (ou 20:200), em que ele relata a execução de Tiago, irmão de Jesus, chamado o Cristo. Neste post, onde ainda estamos discutindo algumas questões preliminares em nossa série "Jesus na História Richter de Impacto Histórico", vamos falar sobre essa referência a Josefo a Tiago, irmão de Jesus, e suas implicações.



Josefo, Tiago e Jesus


Em Antiguidades 20:200, Josefo descreve a execução de "Tiago, irmão de Jesus chamado o Cristo" por ordem do Sumo Sacerdote Anás, o jovem (também chamado Anã, Ananias e Ananus):


"O jovem Anás (...) era precipitado em seu temperamento e inusitadamente ousado. Seguia a Escola dos Saduceus, que são de fato mais insensíveis que qualquer dos outros judeus (...) quando julgam. Sendo portanto este tipo de pessoa, Hananias, pensando ter uma oportunidade favorável, pois que Festo tinha morrido e Albino estava a caminho, convocou o Sinédrio e colocou diante dele o irmão de Jesus, o assim chamado Cristo, de nome Tiago e alguns outros. Acusou-os de terem transgredido a lei e os entregou para serem apedrejados. Mas isso exasperou até os mais zelosos observadores da lei, que mandaram um encarregado ao Rei com o pedido de exigir por escrito de Anás que desistisse de qualquer outras ações, pois não havia sido correto em seu primiero passo. Alguns deles foram ter com Albino, que estava a caminho proveniente de Alexandria, e informaram-no de que Anás não tinha autoridade para convocar o Sinédrio sem seu consentimento. Convencido por essas palavras, Albino rapidamente escreveu a Anás ameacando-vingar-se dele. O Rei Agripa, por causa da atitude de Anás, afastou-o do sumo sacerdócio que ele exercera por três meses e o substituiu por Jesus, o filho de Damasco" (Antiguidades Judaicas 20.9.1 § 200-203)"


O Tiago em questão era o líder da Igreja de Jerusalém, a qual é atribuída a carta de mesmo nome no Novo Testamento, e o mesmo a quem Paulo se refere em sua carta aos Galatás, que ao visitar Jerusálem para encontrar Pedro, tendo demorado com ele 15 dias, afirma "Mas não vi a nenhum outro dos apóstolos, senão a Tiago, irmão do Senhor" (Gal. 1:19). Não confundir esse Tiago com Tiago "Boanerges", irmão de João e Filho de Zebedeu, morto por ordem de Herodes Agripa (Atos 12), cerca de 44 DC. Já o Anás aqui é o filho daquele Anás que é mencionado nos evangelhos de Lucas e João como Sumo-Sacerdote (junto com Caifás) quando Jesus foi crucificado. Segundo Josefo ele e cinco de seus filhos foram Sumo-Sacerdotes. Além disso, o evangelho de João informa que Caífas era genro de Anás, o velho, o que aumenta para sete o número de sumo-sacerdotes daquela família.


Há consenso quase universal entre os estudiosos de que a passagem é autentica:


Em analise detalhada da literatura acadêmica em relação a essa passagem, o Professor Louis Feldman, da Yeshiva University, decano dos estudos sobre Flavio Josefo, nos informa em relação a autenticidade:


"Que, de fato, Josefo realmente escreveu algo sobre Jesus é indicado, acima de tudo, pela passagem - que é reconhecida quase universalmente como autêntica - sobre Tiago, que é referido (Antiguidades XX:200) como o irmão do já mencionado Cristo" [1]


Da mesma forma, Dr. Paul Winter, que analisou quase meia centena de estudos acadêmicos sobre Josefo e Jesus, observa:


"os estudiosos que consideram a segunda passagem [a de Tiago] genuina são mais numerosos que aqueles que o consideram a primeira (Testemunho Flaviano). A maiores dos autores que rejeitam Antiguidades 18.3.3 (63-64) como espúria, não tem dúvidas em relação a autenticidade de Antiguidades XX.9.1.200" [2]


Dos 47 estudiosos consultados por Winter, entre 1812 e 1968, ele cita apenas 5 que consideraram tanto o Testemunho Flaviano (Antiguidades 18:63) como inteiramente falso e a frase "Tiago, irmão de Jesus, chamado do Cristo" (Antiguidades 20:200) como interpolada. Dos 25 estudos realizados de 1918 a 1968, somente 1 (4 %) considerou falsas as duas passagens[2].


Argumentos favoráveis a autenticidade:


A aceitação da passagem como autentica é quase unânime. Uma vez, porém, que existe alguma literatura acadêmica que conteste a frase "Tiago, irmão de Jesus, chamado Cristo", embora bastante reduzida, e uma infinidade de páginas na internet, elaboradas por leigos, que a rejeite violentamente, vamos analisar aqui tanto os argimentos para autenticidade, como aqueles que afirmam que a frase foi inserida (interpolada) no texto original de Josefo por escribas cristãos.


a) A passagem consta em todos os manuscristos e versões de Josefo: Professor John Painter observa que a passagem acima sobre Tiago, irmão de Jesus ocorre em todos os manuscritos existentes, em grego e outras linguas, o que implica que, aqueles que negam a autenticidade tem sobre si o ônus da prova [3].


b) Contexto: Os professores Gerd Thiessen e Annete Merz, das Universidades de Heildelberg e Utrecht, apresentam algumas razões para o texto ser ao autentico, ligadas ao contexto: i) texto estar bem ligado ao contexto, ii) não há interesse da passagem em Jesus, iii) o termo "tou legomenos Christos" (que é chamado Cristo) "não implica aprovação ou dúvida". O cognome "Cristo" aparece apenas para diferenciar Jesus das inúmeras pessoas com o mesmo nome. [4].

c) O foco da passagem é na conduta e deposição de Anás II, e não em Tiago: John P.Meier, professor da Universidade de Notre Dame, observa que tem-se aqui uma referencia banal, de passagem, a alguém chamado Tiago, que Josefo certamente considera um personagem menor, o foco não é em sua execução, mas na forma em que foi decidida, uma atitude precipitada de Ananias, que convoca o Sinédrio ilegalmente, estando o governador romano ausente, e que resulta em uma série de eventos que culmina em sua deposição do cargo [5].

d) A identificação Tiago, irmão de Jesus chamado Cristo" não é encontrada em nenhum lugar da literatura cristã: Meier também observa que em nenhum lugar da vasta literatura cristã (NT, Apócrifos, Nag Hammadi, Pais da Igreja) pré Origenes, existe a expressão, digamos, mundana "Tiago, irmão de Jesus, chamado Cristo" (ton adelphon Iesou tou legomena Christou). Com a deferência e respeito habitual dos cristãos, temos sempre "Tiago, o irmão do Senhor" (ho adelphos tou Kyrious), o irmão do Salvador (ho adelphos tou Soter), no mínimo Tiago, o Justo ou Tiago de Jerusalém. De modo geral, um interpolador utilizaria frases ou termos emprestados do Novo Testamento e/ou da literatura ou pregação cristã. Uma vez que em lugar nenhum se encontra essa frase nos textos cristãos, é muito pouco provável que a frase tenha sido inserida no texto por um escriba, e quase certo que a identificação "irmão de Jesus, chamado Cristo" venha de Josefo [5].


e) A história de Josefo é completamente diferente da versão cristã: Meier também observa que a narração de Josefo do martirio de Tiago difere em tempo e forma do autor cristão Hegesipo (segunda metade do século II), no qual os escribas e fariseus emperraram Tiago, o Justo, das arreias do Templo de Jerusalém; começaram a apedreja-lo, mas foram detidos por um sacerdote, finalmente, um lavandeiro o matou a pauladas. Pouco tempo depois Vespasiano cercou a cidade e Jerusalém foi destruida (Historia Eclesiastica 2.23.12-18). Segundo Eusébio de Cesaréia, o relato de Clemente de Alexandria (Historia Eclesiastica 2.23.3,19), é basicamente o mesmo de Hegesipo. Em Josefo, a ordem de execução de Tiago é do sacerdote saduceu (Ananias) e são os fariseus que se revoltam contra isso. "Mais uma vez", nos diz Meier, "é altamente improvável que a versão de Josefo seja resultado de uma montagem cristã"[5].

f) A passagem não dá testemunho das virtudes de Tiago, o Justo: Em linha com as razões c) e e), o Professor Geza Vermes argumenta que não só o interesse de Josefo está centrado na conduta precipitada e inadvertida de Anás, mas como nada diz sobre as admiráveis virtudes que Hegesipo atribui a vítima. Na versão cristã, Tiago, o Justo, era consagrado ao Senhor desde seu nascimento, não bebia vinho ou bebida forte, e sobre sua barba e cabelo nunca havia passado navalha. Josefo diz apenas que era o irmão Jesus, chamado Cristo, focando seu interesse na atmosfera política conturbada da Jerusalém do I século, usando a história como exemplo dessa realidade [6]. Ou seja, se a frase que identifica Tiago com Jesus Cristo tivesse sido inserida no texto por cristãos, seria muito estranho que eles tivessem parado por aí, não aproveitando para escrever um breve testemunho do grande Tiago, o Justo.

g) A frase é mencionada pelos pais da Igreja, a partir do início do sec. III: Além disso, Orígenes (cerca de 240 DC) cita uma referência de Josefo a Tiago "o irmão de Jesus, chamado Cristo" que se encontrava no "Livro XX de Antiguidades" (Contra Celso 1.47; Contra Celso 2.13; Comentário em Mateus 10:13), e a frase é encontrada desta forma neste mesmo livro. O que é por si só, é uma evidência textual de primeira ordem. Dr. Paul Winter observa que uma vez que a frase em Antiguidades 20:9:1 (§200) é, dessa forma, atestada como anterior a Orígenes, não há nenhuma boa razão para acreditar que "irmão de Jesus, chamado Cristo" na passagem sobre Tiago foi escrita por qualquer outra pessoa que não o próprio Josefo [7].

Só que Origenes (e Eusébio e Jerônimo) cita a passagem bem mais "embelezada", dizendo que "Josefo, que não acreditava que Jesus era o Messias [Cristo], quando estava a buscar as razões da destruição de Jerusalém e a demolição do Templo, e deveria ter dito que as maquinações contra Jesus foram a causa das misérias que atingiram o povo, pois tinha matado o Cristo que foi anunciado pelos profetas. Ele, embora não estivesse disposto a admitir, e ainda como alguém não distante da verdade diz: Estas tragédias atingiram os judeus como retribuição ao que fizeram com Tiago, o Justo, irmão de Jesus chamado o Cristo, pois eles o mataram, mesmo sendo uma pessoa distinta por sua justiça". O mais provável é que esses acréscimos sejam devido a um erro de Origenes ou que ele tenha misturado o relato de Josefo e Hegesipo, uma vez, como observa a Dra. Alice Whealey, que os nomes tem grafia semelhante em grego, e ambos escritores mencionam a morte de Tiago e o cerco e destruição de Jerusalém [8].


No entanto, alguns estudiosos, como o Professor James Tabor, da Universidade da Carolina do Norte [9], acreditam que tenha havido uma segunda passagem referindo-se a Tiago em Antiguidades, hoje perdida (existe algum precedente para isso, em Antiguidades 20.7.2, Josefo diz que o filho do Procurador Felix e Drusila, chamado Agripa morreu na erupção do Vesuvio. Ele diz que descreveria o ocorrido, mas não encontramos esse relato no texto atual de Antiquites.


[adicionado em 15.07.2011: De qualquer forma, vale observar que na seção em que a execução de Tiago é descrita, Josefo observa várias vezes uma situação de crescente degradação e desordem no país. Assim, no parágrafo seguinte (20:9:2 §206), lemos que os servos do Sumo-Sacerdote Ananias se associaram a alguns marginais para roubar os dízimos recebidos pelos outros sacerdotes, espancando aqueles que resistiam, e que os servos dos outros sumo-sacerdotes começaram a agir da mesma forma, "e ninguém os impedia, levando aos sacerdotes que nos tempos antigos eram mantidos pelo dízimo pago a morrerem de fome" (§207). Os sicários então sequestraram o filho do Sumo-Sacerdote Ananias, que foi forçado a convencer o Procurador Albino a libertar dez membros daquele grupo, "o que foi o começo de grandes calamidades" (§ 209), pois os bandidos passaram então a capturar servos do Sumo-Sacerdote para forçar a libertação de seus cumplices, e assim seu número cresceu cada vez mais " e se tornaram mais ousados, e eram uma fonte tormento para a nação" (§ 210). Um pouco adiante, Josefo relata que Jesus, filho de Damasco, foi substituido por Jesus, filho de Gamaliel, e que isso causou um tumulto entre os dois sumos-sacerdotes, e seus partidários formaram bandos que brigavam e se apredejavam nas ruas (§ 213), enquanto que dois membros da familia real, Costobarus e Saulo, parentes do Rei Herodes Agripa, reuniram um grande número de marginais, que usaram de violência contra o povo "e a partir dai, principalmente, a cidade estava em grande desordem, e a nossa situação piorava cada vez mais" (§ 214). Provando a eficiência da Lei de Murphy, Albino, sabendo que havia sido substituido por Géssio Floro, ordenou a execução de muitos prisioneiros, e libertou varios outros, obtendo deles suborno, de forma que "as prisões ficaram vazias, mas o pais cheio de ladrões" (§ 215). Por fim, Josefo expressa sua insatisfação com os Levitas, que persuadiram o Rei Agripa e o Sinédrio a lhes conceder o direito de utilizar as mesmas vestes dos sacerdotes, afirmando "tudo isso é contrário aos costumes de nossa nação, que sempre que foram transgredidos, foram causa de punições que nós nunca conseguimos evitar" (§ 218). Um pouco depois, Jesus filho de Gamaliel foi substituido por Matias, Filho de Teófilo, sob o qual a Guerra com os Romanos começou (§ 223). Nesse contexto de várias calamidades e infortúnios, não é estranho que Orígenes tenha sido induzido a pensar que Josefo estava procurando as causas da destruição de Jerusalém.]


h) Os comentários sobre os efeitos da execução de Tiago, atribuidos a Josefo por alguns pais da Igreja, não foram incorporados a Antiguidades, apesar de seu valor teológico: Conforme observa Alice Whealey [10], é estranho que um eventual interpolador se contentasse com uma versão tão neutra e limitada, e que contradizia o relato cristão tradicional (de Hegesipo) da morte de Tiago. Se, afirma Whealey, como alguns dizem, escribas cristãos "fabricavam" passagens inteiras, porque simplesmente não inseriram em Antiguidades o que Orígenes escreveu (e Eusébio e Jerônimo repetiram) - que Josefo disse, que os judeus diziam, que desastres como a queda de Jerusálem e a destruição do Templo ocorreram como retribuição divina a morte de Tiago - já que seria uma versão teologicamente muito mais interessante? Porque inserir apenas a identificação de que Tiago "era o irmão de Jesus, chamado Cristo" e foi apenas uma vítima de uma ato de um Sumo-Sacerdote afobado, deixando de colocar o comentário atribuído a Josefo por Orígenes, de extrema relevância teológica, de que pensava-se que a morte deste Tiago, o Justo, foi a causa das misérias que atingiram os Judeus? Se, como a maioria dos estudiosos acredita hoje, a referência original a Jesus por Josefo foi "harmonizada" com a versão mais "edificante" encontrada em Eusébio, resultando no atual Testimonium Flavianum, (lembrando que um minoria razoavel de acadêmicos consideram que o Testimonium foi fabricado in totum e inserido em Josefo), porque o mesmo não foi feito com as observações teologicamente interessantes sobre a queda de Jerusalém atribuídas a Josefo pelo mesmo Eusébio (e Orígenes antes dele)? O fato do mesmo não ter acontecido com a passagem sobre Tiago é fortíssima evidência de que o texto não foi alterado ou manipulado uma vez que seria relativamente mais simples harmonizar Antiguidades 20:200 com Orígenes, Eusébio e Jerônimo, inserindo as (supostas) observações de Josefo, sobre a morte de Tiago e queda de Jerusalém feitas por aqueles pais da Igreja.


i) A partir do final do século II, houve uma tendência dos cristãos de considerar Tiago não mais irmão, mas meio ou primo irmão de Jesus: Alice Whealey [11] enfatiza um outro ponto. Chamar Tiago de irmão de Jesus não seria problema para um escritor judeu não cristão do I século. Como também não o foi para Paulo e os evangelistas. No entanto, a partir de meados do II século, referir-se a Tiago como irmão de sangue do Senhor se torna cada vez mais problemático, em virtude da doutrina, cada vez mais disseminada, da virgindade perpétua de Maria. No Proto-Evangelho de Tiago (cerca de 150 DC), Tiago, Simão, Judas e José são retratados como filhos do 1° casamento de José, que agora sendo um viúvo de avançada idade, se casa com Maria, uma menina, para viverem em castidade. Também na literatura não-ortodoxa, o vínculo de sangue entre Jesus e Tiago passa a ser negado, como no e Apocalipse de Tiago e o Apócrifo de Tiago. Os pais da igreja, dos séculos III e IV, como Hipólito, Clemente de Alexandria, Orígenes, Eusébio ao citar o termo bíblico os "irmãos do Senhor" se apressam a esclarecer que eles não eram irmãos de sangue, mas meio-irmãos por parte de pai. Posteriormente, Jerônimo, no final do século IV, defende vigorosamente a vingindade perpétua de Maria, e afirma que Tiago sequer era irmão de Jesus, mas apenas primo-irmão, acusando de heresia aqueles que, como Helvídio e Joviano, diziam que Maria e José tiveram filhos. Aqui podemos acrescentar as observações do Prof. Bart Erhmann, da Universidade da Carolina do Norte, de que virgindade perpétua de Maria se torna desde cedo uma doutrina importante da igreja, e evidenciada pela popularidade do proto-evangelho de Tiago, com numerosos manuscritos antigos descobertos, principalmente na cristandade oriental, na área de influência da Igreja Ortodoxa Grega. Da mesma forma, no ocidente, o Proto-Evangelho de Tiago não encontrou recepção tão positiva, justamente pela força da posição de Jerônimo, que rapidamente se tornaria a posição católica-romana sancionada [12]. Em face da poderosa doutrina da virgindade perpétua de Maria, observa Whealey [13], seria quase inconcebível um cristão nos séculos IV ou V, referir-se a Tiago como irmão de Jesus, sem nenhuma ressalva, como Tiago "meio" ou "primo", arriscando-se a incorrer em heresia, por sugerir que Maria pudesse ter outro filho além de Jesus, quanto mais inserir no texto de Josefo a frase "irmão de Jesus, chamado o Cristo" sem adicionar também "primo" ou "meio" na mesma sentença. No período em que a suposta interpolação teria ocorrido, um cristão escreveria "o meio-irmão" ou o "primo-irmão" de Jesus, chamado o Cristo.


É interessante que, após o tempo de Jerônimo, poucos escritores cristãos fariam menção a essa passagem de Josefo, possivelmente por implicar que Jesus e Tiago eram irmãos de sangue, o que contrariava a visão da Igreja, tanto no oriente como no ocidente.






Objeções a autenticidade:


a) "Porque um sumo sacerdote perderia o cargo por executar o irmão de Jesus"?


De fato, uma vez que o cristianismo era um movimento marginal, visto com desconfiança pelas autoridades romanas e judaicas, a objeção faz sentido.



No entanto, observamos que, conforme pode ser visto da leitura atenta da passagem, a questão é de procedimento legal, e suas consequências. Josefo diz que Ananias, que era precipitado e muito ousado, e membro da seita dos saduceus, que mais cruéis e insensíveis no julgamento que os outros grupos, convocou o sinédrio de forma ilegal, na ausência do Procurador Romano.





O Dr.Paul Winter chama a atenção da frase "Anás (Anã) não tinha autoridade para convocar o Sinédrio sem seu consentimento":




"a queixa, embora baseada na desaprovação da execução de Tiago, irmão de Jesus, não remetia formalmente a execução em si, mas o fato de Anás II ter convocado o Conselho sem a devida autorização (...) deste modo não era permitido a Anás convocar o Conselho sem a aprovação do Governador. A ilegalidade da medida de Anás não residia no fato de ele ter executado Tiago, mas sim nas circunstâncias em que ele convocou o Conselho, sem a autorização de seus superiores políticos, nem das autoridades romanas, nem das Herodianas (...) Os romanos, em particular, teriam visto com desconfiança uma reunião do Grande Conselho durante um interregno, quando nenhum procurador estava presente na Judéia; decisões tomadas nesses períodos podiam facilmente contrariar seus interesses.


A ilegalidade da atitude de Anás não estava no fato de ele ter executado Tiago. Se fosse essa a acusação contra ele, os romanos não teriam ficado satisfeitos com a mera destituição do Sumo-Sacerdote por Agripa, Rei de Calcis, teriam-no processado bem como todos os que participaram dos procedimentos contra Tiago, por assassinato. Como nenhuma medida foi tomada contra nenhum dos membros do Sinédrio, exceto o próprio sacerdote que convocara a sessão, e como Anás II foi simplesmente afastado do seu cargo, sem nenhuma acusação contra ele ou qualquer de seus aliados, torna-se claro que os romanos não consideraram ilegal a execução de Tiago, mas fizeram objeções a convocação não autorizada do Grande Sinédrio durante a ausência do representante do Imperador [14]


Além disso podemos acrescentar, a carta de Paulo aos Galátas recorda os conflitos entre ele e os judaizantes, que insistiam que os novos convertidos gentios deviam seguir a Lei Judaica e se circuncidar. Somente com o endosso das colunas (Tiago, irmão do Senhor, Pedro e João) é que Paulo pode prosseguir com sua missão (Galatas 2:9-10). Em todo caso, o rigor de Tiago com a observância da Lei é evidenciado quando Paulo relata que teve um desentendimento com Pedro em Antioquia, por que ele (e Barnábe), que comiam com os gentios, se separaram deles quando emissários da parte de Tiago, que eram da circunsição, chegaram (2:11-12). Também o relato do Concílio de Jerusalém (Atos 15), mostra uma preocupação de Tiago, para que os crentes judeus, permanecessem na observância da Lei e da circunsição, liberando os crentes gentios dessas exigências. Por volta de 140 DC, Justino Martir nos diz que os cristãos judeus continuavam a observar a Lei Mosaica, contudo alguns não exigiam que os cristãos gentios o fizessem, enquanto outros insistiam na observância da Lei também para os gentios, referindo-se, provavelmente, a nazarenos e ebionitas, respectivamente, ambos tendo Tiago em altíssima conta, mas esses últimos aparentemente rejeitando os ensinos de Paulo.



Assim, sendo Tiago um judeu que zelosamente seguia a Lei, sua condenação pelo Sinédrio seria injusta, e só poderia ser explicada por ele ser irmão de Jesus de Nazaré. A exasperação de alguns mestres da lei, pode ser resultado dessa percepção, talvez Tiago até merecesse um castigo, um corretivo, mas a execução combina com o rigor dos saduceus, "mais insensíveis que outros judeus quando julgam". No entanto, mesmo que esses cidadãos zelosos com a Lei tenham ficado aborrecidos, o fato é que, a princípio, se limitaram a exigir que "Anás desistisse de outras ações", como aquela, uma atitude do tipo "o que passou, passou, mas não faça isso de novo, por favor". Apesar da exasperação dos que eram zelosos da Lei, nada se diz sobre o caráter das vitimas, não se diz se a execução era injusta ou apenas exagerada. Alguns outros fazem uma queixa aos romanos, mas não dizem que Anás mandara executar um homem justo, mas que convocara o Sinédrio sem autorização. Em suma, o senso de que Anás exagerara no castigo possivelmente se combinou a deposição abrupta de seu antecessor (Jose, chamado Cabi, filho de Simão), a possibilidade de remover sua influente família do cargo (que já contara 6 sumo-sacerdócios), abrindo caminho para oligarquias não contempladas.




(acrescentado em 23.02.2011) [Alías, o uso de um deslize de uma figura poderosa, como pretexto para enfrace-lo, por seus adversários políticos não é algo incomum seja na Antiguidade quanto no presente. O fato de que Josefo, explicitamente, começa seu relato afirmando que Anás era saduceu, enquanto que indica que a ação para contesta-lo teve origem nos que eram "zelosos observadores da Lei" (fariseus), é forte indício de que o ato precipitado de Anás foi visto por alguns como uma oportunidade para indispor ele e sua poderosa família com os romanos, dando chance a um novo equilibrio de poder. Assim, a pressa de alguns desses zelosos observadores da Lei em encontrar Albino ainda no caminho de Alexandria, não se deu tanto em razão de sua angustiados pela execução de Tiago e seus companheiros, ou porque estivessem preocupados com minúcias do direito romano, mas porque a ação precipitada e inusitadamente ousada do Sumo Sacerdote, usurpando poderes formais do Procurador, abriu uma avenida de oportunidades para seus adversários políticos.

Tenos exemplos na obra de Josefo. Geza Vermes observa um outro caso semelhante, envolvendo um revolucionário galileu no tempo de Herodes:
"Ezequias, o capitão ladrão, foi o líder de um bando de soldados que vagavam pela Galiléia quando o futuro Rei herodes, o Grande, então com cerca de 25 anos de idade, era seu Governador em meados do século I AC. Tudo o que sabemos com certeza é que Ezequias foi capturado e condenado a morte por Herodes . Mas, ao invés de ser cumprimentado por livrar a província de bandidos, Herodes foi levado perante o Sinédrio e julgado por execuções sumárias depois que as queixas das mães dos executados foram ouvidas por Hircano II, Sumo Sacerdote e Etnarca" [15]



"Herodes derrotou, capturou e executou Ezequias, o capitão ladrão revolucionário galileu, e alguns de seus seguidores. Herodes foi convocado perante o Sinédrio por execuções ilegais, mas escapou impune graças a interferência do Sumo sacerdote Hircano II" [15]

O episódio é relatado em Antiguidades 14:9:3-5 (§163-177). Da mesmo forma, é pouco provável que o Sinédrio tenha ficado tão enfurecido "apenas" por Herodes ter livrado a Galíleia de bandidos, capturando e executando o "arqui-ladrão" Ezequias. Josefo escreve que os "principais lideres dos judeus" (§163) ficaram exasperados com a crescente influência da Herodes, seus irmãos e seu pai Antipatro, e crescentemente atemorizados porque percebiam que Herodes era "um homem violento e atrevido, e dado a agir tiranicamente", e portanto utilizaram o fato de Herodes ter executado Ezequias por conta própria, sem leva-lo a julgamento ao Sinédrio, como pretexto para eliminar a crescente ameaça representada por Herodes. Aqui, como no caso de Anás, adversários politicos preocupados com o poder crescente concentrado sob um jovem de temperamento ousado, e dado a violência e crueldade, utilizam um erro processual para tentar se livrar dele.

(Mesmo Julio César não esteve livre desse tipo de "ardil". O Professor Adrian Goldsworthy, observa que Catão, o Jovem, propôs ao Senado que Cesar fosse processado porque havia atacado bárbaros na Galia durante uma tregua [16]. Obviamente, bem estar dos barbáros, sejam gauleses, tradicionais inimigos de Roma, ou germânicos era basicamente um pretexto utilizado por Catão e outros Senadores para tentar destituir, o arrojado e crescentemente poderoso, Júlio César de seus poderes, bem como seus exércitos.) ]



Para os romanos, como diz Winter, o ponto é direto. Anás poderia estar certo em executar Tiago, e nada se objetaria a isto, em condições normais. Mas se ele convocou o Grande Conselho, com o Procurador ausente, para julgar Tiago e seus amigos, poderia te-lo feito para coisas que contrariassem o interesse de Roma, ou mesmo dele, Albino (vale lembrar, conforme Ant. 18:85-89, 30 anos antes, o Senado samaritano se reuniu e articulou a deposição do Governador Pôncio Pilatos junto ao seu chefe, o legado romano na Síria).







b) A identificação do Tiago em questão foi alterada: Embora não tenha visto essa objeção na literatura acadêmica, já a vi na wikipedia e outros sites na internet. Argumenta-se aqui, que ao invés de "irmão de Jesus chamado Cristo" era "irmão de Jesus, filho de Damneu (ou Damasco)". Vários problemas acompanham essa hipótese, em primeiro lugar todos os manuscritos e versões da obra de Josefo disponíveis apresentam "irmão de Jesus chamado Cristo", e por natureza a hipótese é especulativa ; Segundo, nem Josefo e nenhum fonte antiga mencionam um Tiago, filho de Damneu ou Damasco, então teríamos que especular sobre a existência de um personagem hipotético, não atestado em lugar nenhum, para aceitar essa objeção; Terceiro, se o Tiago em questão era o irmão de Jesus, filho de Damasco, que se tornou Sumo-Sacerdote, então seria um ultraje nunca visto a execução de um membro de uma família tão ilustre e aristocrática, principalmente em um julgamento apressado com procedimentos ilegais. Poderíamos nos questionar como o Sinédrio condenaria alguém de tão nobre estirpe nessas condições, e mais ainda como Josefo nada fala sobre seu caráter e origem, e seria inconcebível os anciãos, ainda que indignados, se limitarem a exigir que Anás "se abstivesse de outras ações" pois não fora "correto em seu 1° passo". E mesmo aqueles que foram encontrar-se com Albino não terem mencionado que, além do julgamento ter sido ilegal, o fato de que Anás ter mandado executado Tiago, um nobre, membro de uma família ilustre, aristocrática. Em Quarto, e último, se o irmão de Jesus, filho de Damneu foi o executado, de forma precipitada, injusta, desnecessária e ilegal, não faz sentido, como Josefo relata no paragrafo seguinte a tragédia, que após sua deposição, Anás tenha sido bem sucedido em cultivar "a amizade de Albino e do Sumo Sacerdote (Jesus), lhes dando presentes" Antiquidades 20:9:2 (§205).




Conclusão


Certeza é algo que é raramente obtido em história. Mas, pelo que vimos acima, não há razão para questionar o quase consenso dos estudiosos da matéria, de que Josefo mencionou Jesus, chamado o Cristo em conexão com seu irmão Tiago. Desta forma , se seguirmos o entendimento (quase) universal dos estudiosos, e aceitarmos a autenticidade da passagem sobre Tiago, Josefo já nos dá, no mínimo, uma evidência independente da existência de Jesus.




Referencias Bibliograficas
[1] Louis Feldman & Gohei Hata (1989), "Josephus, Judaism, and Christianity", pagina 56


[2] Paul Winter (1968), "Excursus II -Josephus on Jesus and James," in E. Schurer, The History of the Jewish People in the Age of Jesus Christ, rev. and ed. by G. Vermes and F. Millar, fl 430. Paul Winter cita os trabalhos de Benedict Niese (1893), Emil Schurer (1901), G. Holscher (1904) e J. Juster (1914) como aqueles que rejeitaram tanto o Testimonium Flavianum quanto a referência a Tiago, "irmão de Jesus, chamado o Cristo" como interpolações. Posteriores a I Guerra Mundial, e até a conclusão do estudo de Winter, temos Solomon Zeitlin (1928). Observamos, por relevante, que todos esses autores acreditavam na existência e influência de Jesus.


[3] John Painter (2004) "Just James: The Brother of Jesus in History and Tradition", fl. 134


[4] Gerd Thiessen e Annete Merz (1996), O Jesus Histórico, um Manual, fl. 85
[5] John P. Meier (1991), Um Judeu Marginal, Volume 1, fl 67.
[6] Geza Vermes (2010), "Jesus in the Eyes of Josephus", Staindpoint mag, jan/fev. 2010, http://www.standpointmag.co.uk/node/2507/full, acessado em 08.02.2010

[7] Paul Winter (1968), "Excursus II -Josephus on Jesus and James," in E. Schurer, The History of the Jewish People in the Age of Jesus Christ, rev. and ed. by G. Vermes and F. Millar, fl 432

[8] Alice Whealey (2005), "Josephus, Eusebius the Ceasarea, and the Testimonium Flavianum" in Christfried Bottrich, Jens Herzer, Torsten Reiprich eds. (2007), Josephus und das neue Testament, Wechselseitige Wahrnehmungen II, fls. 108-109.

[9] James Tabor (2006), A Dinastia de Jesus, fl. 300

[10] Alice Whealey (2005), "Josephus, Eusebius the Ceasarea, and the Testimonium Flavianum" in Christfried Bottrich, Jens Herzer, Torsten Reiprich eds. (2007) .... fls. 110-111.

[11] Alice Whealey (2005), "Josephus, Eusebius the Ceasarea, and the Testimonium Flavianum" in Christfried Bottrich, Jens Herzer, Torsten Reiprich eds. (2007) .... fls. 112-113.

[12] Bart Erhmam, (2003) "Evangelhos Perdidos: As Batalhas pela Escritura e os Cristianismos que não chegamos a conhecer", fl. 210.

[13] Alice Whealey (2005), "Josephus, Eusebius the Ceasarea, and the Testimonium Flavianum" in Christfried Bottrich, Jens Herzer, Torsten Reiprich eds. (2007) .... fl. 114.

[14] Paul Winter (1961), Sobre o Processo de Jesus, fls. 55-57

[15] Geza Vermes (2005), Quem é Quem na època de Jesus, fls. 107 e 131

[16] Adrian Goldsworthy (2002), Caesar's civil war, 49-44 BC, fl. 29; Ver também Luciano Canfora, Julius Caesar, The People's Dictator, fl. 122. Julio César, A Guerra Civil, 4:12-15, bem como Plutarco, Cesar, 22:4 e Catão, o Jovem, 51.
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