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quinta-feira, 14 de junho de 2018

Sobre aquele manuscrito do evangelho de Marcos: Publicado o papiro P137 (200 DC)

Marcos, o evangelista, Icone Copta
Concord, California, via wkicommons
Em fevereiro de 2012, falamos aqui de notícias referentes a possível descoberta do mais antigo manuscrito bíblico já conhecido, que conteria um fragmento do evangelho de Marcos do século I, anunciada pelo Professor Daniel B Wallace, do Dallas Theological Seminary..

Atualmente, o mais antigo manuscrito do Novo Testamento conhecido é um fragmento do evangelho de João, o P52, geralmente datado entre 125-175 DC. Outros importantes papiros são o P90, também do evangelho de João (2° século DC),  P46, datado de 175-225 DC, que contem o texto das cartas paulinas, e P45, que contém partes substanciais dos evangelhos e atos dos apóstolos, e é datado de cerca de 250 DC.

O manuscrito, porém, foi cercado de polêmica desde o seu anuncio. Havia um acordo de preservação de confidencialidade dos estudiosos que tiveram acesso ao manuscrito, até sua publicação, e assim boa parte das informações disponíveis eram fragmentadas, desencontradas, ou simplesmente  proveniente de boatos e rumores. Em 2015, chegou a ser divulgado por alguns meios que o papiro estava associado a mascaras mortuárias de múmias egípcias do período romano.

Em 24 de maio deste ano, porém, os manuscritos foram publicados pela equipe do Professor Dirk Obbink, da Universidade de Oxford, em conjunto com a Egypt Exploration Society, (EES) em Oxyrhynchus Papyri, Volume LXXXIII (Graeco-Roman Memoirs), que editou uma nota relativa a descoberta:

In the latest volume of the Oxyrhynchus Papyri, volume LXXXIII text 5345, Professor Obbink and Dr Colomo publish a fragment from a papyrus codex (book). The two sides of the papyrus each preserve brief traces of a passage, both of which come from the gospel of Mark. After rigorous comparison with other objectively dated texts, the hand of this papyrus is now assigned to the late second to early third century AD. This is the same text that Professor Obbink showed to some visitors to Oxford in 2011/12, which some of them reported in talks and on social media as possibly dating to the late first century AD on the basis of a provisional dating when the text was catalogued many years ago. Papyrus 5345 was excavated by Grenfell and Hunt, probably in 1903 (on the basis of its inventory number), and has never been for sale, whatever claims may have been made arising from individual conversations in the past. No other unpublished fragments of New Testament texts in the EES collection have been identified as earlier than the third century AD. 
(Tradução) No último volume de Oxyrhynchus Papyri, volume LXXXIII, texto 5345, professor Obbink e Dra. Colomo publicam um fragmento de um códice de papiro (livro). Cada um dos dois lados do papiro preserva breves traços de uma passagem, ambas provenientes do evangelho de Marcos. Depois de uma comparação rigorosa com outros textos objetivamente datados, o manuscrito deste papiro é agora atribuída ao final do segundo ao início do terceiro século DC. Este é o mesmo texto que o Professor Obbink mostrou para alguns visitantes de Oxford em 2011/12, que alguns deles relataram nas conversas e nas mídias sociais como possivelmente datando do final do primeiro século DC, com base em uma datação provisional quando o texto foi catalogado há muitos anos. O papiro 5345 foi escavado por Grenfell e Hunt, provavelmente em 1903 (com base no seu número de inventário), e nunca esteve à venda, seja qual for a alegação que possa ter sido feita a partir de conversas individuais no passado. Nenhum outro fragmento não publicado de textos do Novo Testamento na coleção EES foi identificado como antes do terceiro século DC.

O artigo apresentando o novo papiro foi disponibilizado aqui,  contendo o texto de Marcos 1:6-7 e 17-18. O papiro passa agora também a integrar a coleção de manuscritos antigos do novo testamento (séculos II a VIII)  como P137. Na publicação, a data do manuscrito foi corrigida em cerca de 100 anos, passando agora para o final do século II DC. A significância do achado é comentada em detalhes pelos Professores James McGrath, Airton José da Silva, Larry Hurtado, e Bart Erhman, que pontuam também questionamentos não tanto dirigidos a descoberta em si, mas aos vários rumores e informações desencontradas que circularam previamente a publicação, que levaram a EES a expandir a nota acima, com a resposta aos principais questionamentos, em 04/06/2018.

Sobre o papiro, Professor Bart Erhman disponibilizou o texto em seu post (link acima):

Frente:
(...) de suas sandálias, Eu os batizo com água mas ele batizará vocês com o Espirito Santo. E aconteceu naqueles dias (...)

Verso :
(...) No mar.  Pois eram pescadores. E ele lhes disse, venham comigo e eu os farei pescadores de homens. E imediatamente deixaram suas redes  (....).

De nossa parte, já havíamos nos manifestado quando as primeiras informações surgiram em 2012, no sentido de que a descoberta era provavelmente muito signikficativa, mas que se deveria "evitar colocar a carroça na frente dos bois", e os novos fatos não mudam nossa posição:

"É importante observar que, mesmo que haja (e provavelmente há) exagero na notícia, a sua publicação seria muito relevante para a critica textual do novo testamento e história do cristianismo primitivo. O Evangelho de Marcos é um dos textos neo-testamentários mais pobremente atestados, P45 é nossa melhor testemunha textual e data de meados do século III. Se esse novo papiro puder ser datado de 100 DC, por exemplo, seria o mais antigo manuscrito do novo testamento. Se, após analise dos especialistas, sua datação for corrigida em um século, ainda seria o fragmento mais antigo do segundo (e mais antigo) evangelho. Portanto, em se confirmando, essa descoberta tem potencial enorme para contribuir com nosso conhecimento do cristianismo primitivo.

Então, controvérsias a parte, a publicação do manuscrito é extremamente significativa.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

29/12/2013 - partira Birger Gerhardsson

         
           E 2013 despede-se com uma pesada baixa no corpo mundial dos estudiosos das origens cristãs: o estudioso sueco Birger Gerhardsson.
         
           Gerhardsson é amplamente famoso pela obra com a qual investiu contra postulados centrais da Crítica das Formas acerca da transmissão das tradições sobre Jesus no cristianismo nascente. Em 1961 ele lança "Memory and Manuscript: Oral Transmission and Written Transmission in Rabbinic Judaism and Early Christianity", um denso e documentado trabalho em que traça analogias entre a transmissão de tradições no judaísmo rabínico, envolvendo autoridade dos portadores delas bem como técnicas mnemônicas, além de restrições para com as expansões e margens de variações interpretativas de acordo com a referência nos portadores abalizados das tradições. Reconhecendo a posterioridade da tradição rabínica, ele enfatizava que descendiam de métodos educacionais comuns anteriores entre a escola farisaica que serviu de modelo para a igreja cristã.

           Gerhardsson advogava um sistema de transmissão formal e controlada das tradições evangélicas, com o núcleo girando em torno da figura dos Doze. Diante do que ele julgava excesso na informalidade, anonimidade e criatividade apregoados pela Crítica das Formas, ele ressaltou por demais a formalidade em sua postulação, o que fez com que sua obra criasse bastante polêmica e fosse abordada com cautela ainda pelos simpatizantes, que enfatizaram a demasiada ligação que fizera entre o farisaísmo da primeira metade do século I e as posteriores escolas rabínicas; ele fora ao longo do tempo publicando defesas ante os críticos e também revisões em alguns aspectos de sua tese, considerando que a transmissão das tradições seria um pouco mais difusa e suas fontes se expandiam para além dos Doze englobando outras correntes, numa coleção de estudos reunidas em "The Reliability of the Gospel Tradition".

           As contribuições de B. Gerhardsson para os estudos especializados se deram também em diversos outros tópicos, e destacamos algumas homenagens que recebera aqui e aqui.
       

domingo, 29 de setembro de 2013

Anotações AD CUMMULUS 04 - A escatologia no programa do evangelho joanino e no ideário de seu ambiente - revisado em 30/09

Em uma postagem no AD CUMMULUS, comento brevemente sobre alguns desdobramentos na caracterização das matrizes do evangelho de João. O fio condutor é a crescente “judaização” na concepção do ambientar dos ideários e expressões do documento.

Atravessara um processo interpretativo em que era concebido como um cristianismo já rompido com seu cerne judaico e de configuração helenizada, para um exemplo de expressões cristãs de segmentos marcados pelas religiões esotéricas e de mistério, mesmo já adiantadamente sincrético, passando por uma expressão de uma comunidade fortemente arcana, nos moldes da comunidade de Qumrã, tributária e devedora, ou mesmo emanada de segmentos desta; desembocando hoje para um panorama geral de um cristianismo alicerçado em formas judaicas com fortes marcas hierosolimitas tanto quanto de judaísmos da diáspora em forte polêmica com expressões religiosas mais ligadas ao Templo, no relativamente recente assentar na pesquisa, do polimorfismo que caracterizava a fé judaica daquele período em especial [ Eu particularmente não descarto a influência mesma de grupos samaritanos que ingressaram no cristianismo nos primeiros anos].

Essa conclusão se chega com a análise de correspondência de interpretações e elaborações teológicas do evangelho com documentos inter-testamentários e mesmo a partir de ambientações veterotestamentárias, inclusive de termos empregados que se consideravam antes essencialmente “pagãos”. E como se desdobram na teologia do evangelho em comum com temas característicos de expressões, expectativas, motivos, devoções do judaísmo contemporâneo a ele.

Apresentamos antes no AD CUMMULUS uma análise da linguagem do ”parto” e funções que adquirem nestas tônicas. Mencionaremos aqui mais brevemente [visto ser um tópico que rende extensos volumes no acúmulo da pesquisa], como ilustração de nossos pontos, o tema do “Logos” na introdução do livro.

Este termo recapitula a história da caracterização do evangelho como um todo mencionada. De um exemplo crasso dos motivos helênicos, a apelos de orientações de correntes cristãs esotéricas dissidentes e afeitas às religiões de mistério, à comunidades isolacionistas referenciadas nas comunidades do Mar Morto, para uma ênfase própria da comunidade arrabalde em motivos que, ainda com realces particulares da comunidade cristã, estão imersos no judaísmo de forma mais ampla e permeiam temas indistintos nele.

A princípio, se mostra a ligação com o estoicismo, que era, dentre as filosofias helênicas clássicas, talvez a de maior projeção na segunda metade do século I no império romano, período de transição entre as fases do estoicismo médio e o estoicismo romano mais desenvolvido [ vide: CHAUÍ,Marilena. Introdução à História da Filosofia. Companhia das Letras, 2002. Vl II As escolhas helenistas, pg. 289-90]

O estoicismo promovera uma adaptação ontológica do Logos tal como aparecera antes na filosofia dinâmica de Heráclito de Éfeso (530-470 a.C.), onde no pensamento deste aparece realçada tal como:  “[...] todas as coisas estavam em um determinado curso, e [...] nada permanece da mesma maneira. Entretanto, a ordem e o padrão podem ser percebidos em meio ao fluxo e ao refluxo eternos e incessantes das coisas no Logos – o princípio eterno de ordem no universo.” O Logos é o amálgama que confere unidade a tudo o que existe, que na representação da natureza por Heráclito em que a essência é a própria variação, o Logos é o Uno.  A filosofia do pensador então encara a pluralidade no Ser como constituída em essência segundo uma concepção monista; Heráclito: "homens são deuses e deuses são homens, porque o Logos é um só"[Hipólito, Refutações, IX, 10,6)].

No estoicismo também o Logos é a integração da totalidade das coisas, racionalidade que impede sua dissipação, embora no modelo estoico o Universo seja menos dinâmico, com o Logos interpenetrando nos seres ao invés de impulsionando a dinamicidade do devir.

Esta concepção em si, de um princípio abstrato impessoal e imanente não seria a apropriada para caracterizar o Logos tal como no prólogo Joanino, que o representa como transcendente mas volitivamente interatuante com o mundo, passivo de encarnação.

Criaram-se dificuldades para apresentar modelos explicativos sobre como se daria o processo de apropriação e ressignificação de fontes por parte de quem produzira o evangelho joanino. Cullmann aponta (pg. 331) que não se encontrara material, do século I, de suporte para a tese de Bultmann sobre o mito do Redentor Celestial gnóstico que baixou à terra análogo à concepção cristã; os indícios é que o gnosticismo partilhara de muitas fontes em comum com a igreja nascente. Contudo,em religiões antigas vê-se divindades portadoras da revelação as quais eram referidas como Logos, tal qual Hermes e o deus egípcio Thot. Nos textos mandeos, o Logos é associado à uma figura prototípica do “homem”.

Situação que perdurou até que convencionou-se propor como resposta, que tal se dera de forma mediada pelos escritos do erudito judeu-helenizado Fílon de Alexandria. Ele trabalhara com categorias medioplatônicas e estóicas no seu pensamento promovendo aportes para uma apresentação sistemática filosófica do judaísmo ante audiências helenizadas cultas ou de alto escalão social e político, moldando-as conforme o que julgava adequado para para apologia de sua fé.

Em Fílon, o Logos que toma de empréstimo na filosofia helênica é remodelado para tratar de como se dá a interação da divindade judaica com a criação, e não a criação com sua racionalidade organizadora inerente. Deus é o regente do mundo e o Logos é a razão que Deus imprime ao mundo, a racionalidade em como Deus o rege. É diferenciado de Deus, não uma “hipóstase” sua; é sua Palavra, instrumento prima facie de sua ação criadora, primordial assim a todas as outras coisas: “O que dizemos aproxima-se de um outro texto: 'o Logos divino se constitui como uma fronteira, voz por assim dizer em meio a elementos sem voz, a fim de que todo o Universo faça ouvir uma harmonia como que sob o comando da musa que compõe', pois ele [o Logos] intercede em meio às ameaças dos adversários pela mediação da persuasão, e restitui sua arbitragem.

Não é compartilha status pleno de Deus, mas é a sua imagem em termos da manifestação no mundo criado do cumprimento de sua vontade. Assim ele o identifica com a Torah dada a Moisés (Dufour, 1996, v. I, pg. 31)

 É a expressão da ação de Deus proveniente de seu intelecto. “Separa”, Fílon assinala, “tudo o que é criado, mortal, mutável, profano, de tua concepção de Deus, o incriado, o imutável, o imortal, o sagrado e unicamente santo". Não é Deus mas é distinto do mundo.

Obs. Todas as citações de Fílon extraídas de: REALE, GIOVANNI. “Filo de Alexandria e a 'filosofia mosaica'” - em “A redescoberta do incorpóreo e da transcendência – seção I”, de “História da Filosofia Antiga, vl.IV - As escolas da Era Imperial”. Edições Loyola, pgs. 215- 267.

Em João o Logos é representado em um papel ainda maior do que o de um intermediário: tal como antes da existência de qualquer algo mais que não Deus, remetendo ao prólogo do primeiro livro da Torah, o Logos estava com Deus e era Deus. No começar do livro do Gênesis, à referência “no princípio” - o primeiro termo das escrituras hebraicas - segue-se a ação de Deus, e em João, verbo de ligação, condição de ser. Desde essa singularidade inicial, “havia” ou “existia” o Logos; desde antes do começo do mundo o Logos estava lá. Diferentemente da Sabedoria, ele não é o começo do que apareceu no mundo, como um primeiro elo entre Deus e o mundo ou o primeiro de uma série temporal: ele existe no princípio, de forma absoluta. Ele não pode ser colocado pareado entre as criaturas (Dufour, p. 59). Concomitante, um passo além do que qualquer coisa passiva de ser figurada na filosofia religiosa de Fílon consta na teologia joanina: Que este Logos se fez “carne” no tempo (sarx egeneto) para trazer a revelação.

A construção joanina reporta-se a cenas de materiais escriturísticos judaicos que alimentavam e animavam a fé na amplitude das comunidades cristãs dos primórdios, com destaque a versão da Septuaginta, em que o Logos encontra-se congruente ao hebraico dabar,  como “Palavra” (Dufour, ibid). 

Assim nos equipamos para ver também tal associação com a tradição judaica da Sabedoria: A “Sabedoria” como reflexo da luz eterna - Livro da Sabedoria: 7,26 - e superior à toda luz criada - 7,29. Confira-se também em Sirácida, capítulo 24, e também Provérbios 8,22-31. Em I Henoque 42,12, a Sabedoria "tomou seu assento entre os anjos".

 “Sabedoria de Salomão (submetida já à influência alexandrina), onde lemos no capítulo 18:15: ‘Tua Palavra onipotente sai do trono real como um guerreiro implacável'...” (em Cullmann, p. 335). 

Em targuns aramaicos contemporâneos também vemos tal desenvolvimento: Menra (Palavra) – usada para nomear a presença de Deus, como Targum Onqelos sobre Ex. 3,12; e 19,17

Sem embargo, sugiro que, partilhando de nascentes em comum, das fontes de Fílon e as joaninas jorram córregos diferentes na formação do fluxo de emprego da imagem do Logos. Enquanto em Fílon os motivos eram de ordem ontológica para expressar uma cosmovisão do funcionamento do mundo e a relação de Deus com isto, em João os motivos eram eminentemente escatológicos: o destino do mundo, a partir de sua criação até o momento em que julgava fulcral nesta narrativa com o advento do Messias e o desembocar da história numa nova criação. Isto pode parecer em um momento algo muito estranho, dado que convencionalmente pensamos no evangelho como advogando uma escatologia realizada em um momento em que já se desvanecia o fervor escatológico.

Em consonância com o apresentado no estudo de caso sobre a imagem do parto na literatura joanina, neste comentário informal vou pontuar que podemos não só relativizar esta convenção colocando-a sob um prisma maior, como também pretendo assinalar que, compartilhando com atmosfera mais ampla da constelação de comunidades cristãs no século I este tema, podemos conceber que, concordando que nesta altura já não se tinha mais a mesma frenesi escatológica dos meados da década de 30 às iniciais da década de 50, significa que esta temática da nova criação é um aspecto crucial da fé do cristianismo nascente. Minha pretensão aqui neste texto é apenas lançar uma provocação para algo que pode ser melhor desenvolvido, um ponto de partida dentro de uma concepção de uma das funções na biblioblogosfera como sendo também de  instigar discussões concisas e fecundas.

Considero que o Prólogo não é carregado prima facie enquanto função poética, mas função apelativa; mais do que apenas uma abertura solene para suscitar espírito de devoção ao ler a narrativa, está ali para dar uma ideia do programa compreensivo e significado da mensagem que se pretende passar com o evangelho. Desta forma, possui uma estrutura de código que inclui uma retórica com enunciação e conclusão. O emprego de “no princípio” vem carregado com a elaboração de ideias sobre um novo gênesis da parte do poder redentor.

Ele proporciona uma ponte em que se liga a missão do Messias fundamentando-a numa teologia da criação. Em controvérsias quanto as questões religiosas, os evangelhos apresentam – apresentando assim o entendimento do ambiente de vida nos quais foram produzidos – Jesus referenciando-se numa teologia da criação, enquanto reforço da autoridade de sua interpretação ante a outras metodologias de outros mestres religiosos judaicos.
  • Então, lhe perguntaram: Quem és tu? Respondeu-lhes Jesus: Que é que desde o princípio (archēn) vos tenho dito? (Jo 8.25).
  • Respondeu-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher; entretanto, não foi assim desde o principio (archēs) (Mt 19.8).

E na ética do novo modo de vida apregoado, os evangelhos mostram Jesus fundando-se em imagens que representariam o relacionamento provedor de Deus com a criação – Mt 6,25-34; Lc. 12,22-31.

Também círculos cristãos da Ásia Menor (confira nota [11] do texto do AD CUMMULUS linkado aqui no começo [a imagem do parto...]) vemos a associação do Cristo Exaltado com:
  • Ele é o cabeça do corpo, da Igreja. Ele é o princípio (archē), o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia (Cl. 1.18).
  • ... Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio (archē) da criação de Deus...(Ap. 3.14).
  • ... ele veste um manto embebido de sangue, e o nome com que e chamado é 'Logos' de Deus. (Ap. 19,13)
  • ... Tudo está feito. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio (archē) e o Fim. Eu, a quem tem sede, darei de graça da fonte da água da vida (Ap. 21.6; 22.13).

*Arche: começo, ponto de partida, princípio, suprema substância subjacente, princípio supremo indemonstrável.

Já nos remetemos à referência do Logos com seu papel na criação, feita à maneira de Fílon contudo aparentemente dotado de um status ainda maior. Se vê neste prólogo também o Logos atuando na redenção do mundo.

Nos detendo ainda na fértil construção joanina do atributo do Logos na criação, visualizamos a ligação com a redenção e o messias redentor. Se retomarmos nosso ponto assinalado em que enfatizamos o quanto o evangelho se remete e buscar sorver primariamente sua teologia no Antigo Testamento, esta ligação íntima entre o processo Criador com o Redentor encontra fundamento nele? Vemos que em textos proféticos especialmente considerados nas expectativas judaicas de redenção, esta se fundava também, para com YWHW enquanto:
YWHW - Criador dos Confins da Terra: Is.40,28
             Criador de Israel Is.43,18
             Criador da Salvação e Justiça Is.45,8

As proezas de salvação e atos de criação intimamente relacionados 41, 17-20; 45,1-8; 47; 48,6. Em Isaías 41,17-20- o retorno dos exilados é proclamado como novo ato recriador. Culmina na proclamação dos Novos Céus e Nova Terra no livro isaiânico posterior, em 65,17.

Ainda em segmentos judaicos variados contemporâneos, dotados de forte ênfase escatológica, vemos esta comparticipação, como em I Henoque, 91,15-16, com o vaticínio da purificação da terra e o conseguinte resplandecer dos “novos Céus e da nova Terra’, 
...chegará o tempo fixado do grande juízo, durante o qual passará o primeiro céu e um novo céu aparecerá e todos os poderes celestes estarão brilhando pelos séculos dos séculos.
  • 4 Esdras 6,25: E acontecerá que qualquer que sobreviver a todas as coisas que eu te predisse será salvo e verá minha salvação e o fim do mundo.
  • Assunção de Moisés 10,1: E então seu reino se manifestará em toda a criação; Satanás já não existirá, e a tristeza irá embora com ele.
  • 4Q52,1: Os céus e a terra escutarão o seu Messias, e ninguém se desviará dos mandamentos dos santo

E é digno de atenção que este ideário encontra-se vinculado a conjuntos cristãos da Ásia Menor, com abordagens teológicas diversas da joanina, contemporaneamente ao Evangelho, como visto em Colossenses: Cristo na Criação 1,15-17; na reconciliação 18-20, 28 e 3,13; Efésios 1,10. E em outro segmento judaico-cristão da diáspora judaica, Hebreus 1,3.

Em outra oportunidade poderemos continuar dando um tratamento mais detalhado e amplo para as asseverações feitas acerca desta questão do evangelho joanino, que exigem um tratamento de tamanho muito mais condizente do que este esboço apresentado. Contudo, espero que este comentário tenha servido para chamar a atenção sobre uma das facetas que considero mais estimulantes nos estudos das origens cristãs, sobretudo na interface dos estudos sobre história, literatura, cultura e imaginários: é como na astronomia, em que algum detalhe acerca de uma luz que chega em um ângulo ao qual ainda não foi reparada, pode fazer raiar aos nossos olhos novas constelações; talvez, não só abre uma nova galáxia a ser explorada como joga novos lampejos sobre o entendimento do cosmo.

Aqui eu tento apresentar novas cores ao evangelho joanino que podem causar estranhamento: muito comum e frequentemente bem estabelecido que é um evangelho numa situação em que buscava-se saber como manter o fervor devocional diante do desvanecer do ardor escatológico, professando uma escatologia realizada [confira observação e nota [13] no texto do AD CUMMULUS linkado aqui no começo (A imagem do parto....)]  ao mesmo tempo que supramundana, somo aqui, ao tratamento dado à imagem do parto, esta abordagem do programa delineado a partir do prólogo: Criação - Redenção - Consumação no renovar do mundo, compartilhando concepções/expectativas de escopos mais amplos do cristianismo nascente. E que isto não vem à tona se esperarmos contar com declarações diretas ou quadros narrativos explícitos, mas com análises da simbologia dentro do mosaico da matriz judaica, onde podemos ver interconexões na literatura veterotestamentária, inter-testamentária e a partir daí, buscarmos ver paralelos em concepções nos legadas em outros documentos cristãos (aqui não abordamos por questão de espaço, materiais na literatura cristã não canônica dos finais do século I e começo do II). 

Advogo que o evangelho está embebido e reelabora a partir da crença de que o Messias já viera na pessoa de Jesus de Nazaré e o enxergar da sua pessoa e obra no quadro mais amplo da ação do Deus de Israel. Do que era concebido um evangelho helênico, à proto-gnóstico ou ocultista, fortalece-se seus alicerces em ideários judaicos amplamente partilhados, ainda que com sua peculiaridade sociológica e deixando entrever o quanto é multifacetado quanto a grupos de seu ambiente (hierosolimitas, judaico-helenistas e samaritanos). 

Coloco que mais além do que os apontamentos particulares, ressoa que a exegese e estudo histórico das ideias contidas no círculo joanino devem assim buscar criteriosa e cuidadosamente tratamentos análogos a midráshicos em pontos que anteriormente não se buscava tal, para desvendar melhor a cultura e visão de mundo que eles reverberam.

domingo, 8 de julho de 2012

Origens Cristãs e a Questão de Deus: A Metanarrativa na Historiografia de N.T.Wright

Neste nosso trabalho visamos apresentar o arcabouço epistemológico e metodológico do programa de pesquisa de Nicholas Thomas Wright para o estudo histórico das Origens Cristãs. Daremos um panorama geral, apresentaremos os postulados básicos tendo em vista disponibilizar os instrumentos para o exercício a quem se interessar por suas propostas, e brevemente, indicarmos alguns resultados a que ele chega. Trarei para colaboração um resumo de uma abordagem que julgo ter alguns bons paralelos, descontando o interesse sobremaneira diverso, para o leitor poder julgar por si se os instrumentos que Wright oferece são apropriados e úteis dentro da consideração pelo rigor crítico.

**Obs. Como o presente autor procedeu em outra ocasião, por questões de espaço/tamanho, realizara a tradução livre direta das citações em inglês - reportando a fonte. Reafirma como da outra vez que com prazer pode repassar, já que são citações breves, a parte original em inglês de onde extraira caso seja solicitado.

N. T. Wright, também conhecido como Tom Wright, é mais famoso no Brasil como um dos expoentes da chamada “Nova Perspectiva” sobre os estudos de Paulo. Contudo, ele é internacionalmente reconhecido como exímio debatedor e acadêmico dos estudos sobre Origens Cristãs e Jesus Histórico. Em sua formação inclui-se estudos em Literatura Clássica, Filosofia e História no Exeter College, em Oxford, onde também cursara teologia e também “Divindades”, também em Durham e St. Andrews. De 2003 até se aposentar em 2010 fora Bispo de Durham da Igreja Anglicana. Foi professor das universidades de Cambridge e Oxford por vinte anos, professor visitante de universidades como Harvard Divinity School, nos Estados Unidos, Universidade Hebraica de Jerusalém e Universidade Gregoriana em Roma.

Duas de suas mais importantes obras para os propósitos de nosso empreendimento aqui são os livros “The New Testament and the People of God” e “Jesus and the Victory of God”, os dois primeiros volumes da série: Christian Origins and the Question of God. London: SPCK; Minneapolis: Fortress.

Wright situa a matriz explicativa para o despontar do cristianismo dentro de um “quadro de referencia narrativo”, um grande raconto alimentado no incitamento de oferecer respostas para a expectativa do futuro diante da memória histórica e condição social relacionados aos mesmos fatores histórico-políticos. O cristianismo foi uma irrupção de uma maneira de estar no mundo, eclodida dentro de um caldo fervilhantes de diversas outras maneiras na fonte comum do Judaísmo do Segundo Templo. O arrabalde cultural carregado de teologia, que era a luz sob a qual o povo se interrogava sobre sua identidade e seu destino.

A visão de mundo básica, referenciada na história – passada, presente, possibilidades ( e ansiedades) futuras – e ultrapassando-a, articulava símbolos, costumes, narrativas, perguntas e respostas. Wright delineia essa busca em termos de: “Quem somos? Onde estamos? O que está errado? Qual a solução? Como virá?”

Interessante é que tomando este ponto de partida, vemos como apropriadamente serve para contemplar a característica narrativa dos evangelhos tratando-a adequadamente no momento que se toma como fonte para o estudo histórico crítico. É algo que o eminente filósofo Alasdair MacIntyre, chama a atenção:
O que chamo de história é uma narrativa dramática encenada, na qual os personagens também são autores. Os personagens, naturalmente, nunca começam literalmente ab initio; eles mergulham, in medias res, o iniciar de sua história já feito para eles por quem ou pelo quê passou por lá anteriormente.
(...)
O homem é, em seus atos e trabalhos, bem como em suas ficções, essencialmente um animal narrador de histórias. Não é, em essência, mas se torna no decorrer de sua história, um contador de histórias que aspiram à verdade. Mas a questão principal não é sobre sua própria autoria; somente posso responder à questão ‘O que devo fazer?’ se souber responder ao questionamento: ‘De que história ou histórias eu estou fazendo parte?’ [1]
Tom Wright advoga que a memória coletiva dos judeus ainda era marcada por um senso de continuarem no “Exílio”, sendo que mesmo após o retorno do cativeiro babilônico, continuaram dominados por nações estrangeiras, se debatendo sobre o porvir das promessas proféticas de Isaías, Ezequiel, etc., que do contrário estariam frustradas. Assim, aguardava-se a forma como YWHW iria intervir para novamente libertar e restaurar seu povo, tal como no Pentateuco. Wright aponta algumas referências na literatura do Judaísmo do Segundo Templo, como o livro de Baruc e os capítpulos 13 e 14 do livro de Tobias. 

 Assim, as respostas para as questões básicas levantadas giravam em torno de: “Nós somos Israel, o verdadeiro povo do deus criador; nós estamos em nossa terra (e/ou dispersos fora de nossa terra); nosso deus ainda não nos restaurou completamente como um dia o fará; portanto, nós buscamos restauração, que incluirá a justiça de nosso deus sendo exercida sobre as nações pagãs.”  [2]

Nuances de amplo espectro se davam entre diferentes grupos dentro do judaísmo. Era muito forte e intensa a expectativa de haveria uma vindicação do povo pela divindade israelita, com uma ação com impacto em todo o mundo e um grande julgamento final dos seres humanos. [3]

Tal maneira de pautar um programa de estudo histórico pode causar um estranhamento. Talvez essa abordagem enquadrando em um “grande quadro narrativo” retire o rigor científico minucioso; talvez esteja por demais configurado por e mergulhado em temáticas teológicas e assim constituir-se-ia uma agenda teleológica. Como Craig Keener acentua nesta entrevista:
Tom é mais sintético: ele brilhantemente reúne um vasto conjunto de ideias e vê como elas se encaixam. Eu faço um pouco disso, mas acho que sou uma pessoa mais detalhista: eu gasto muito tempo matutando através de textos antigos individuais e vendo onde a evidência me leva. Tom é muitas vezes mais diretamente teológico, eu sou quando eu prego, mas em alguns dos meus trabalhos acadêmicos despendo muito tempo em detalhes históricos. Eu acho que Tom também se concentra mais na leitura do Novo Testamento através da lente do Antigo Testamento.  
Eu gostaria de contribuir para nos ajudar com tais dúvidas, tratando de uma abordagem de um cientista social com formação e interesse totalmente diverso, a respeito de um tema histórico completamente diferente. Peço licença para fazer uma divagação por um assunto de interesse distante da proposta do blog, mas que nos ajudaria a captar melhor a propriedade desta proposta do Wright, para quem quiser fomentar a análise crítica.


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Immanuel Wallerstein e o aflorar ideológico da Modernidade

 Immanuel Wallerstein teve como formação o B.A. (1951), M.A. (1954) e Ph.D. (1959) na Universidade de Columbia, Nova Iorque; fora professor distinto de sociologia da Universidade de Binghamton (SUNY) de 1976 até sua aposentadoria em 1999, além de chefe do Centro Fernand Braudel para o Estudo das Economias, Sistemas históricos e Civilizações até 2005.

Wallerstein ocupou vários cargos como professor visitante em universidades em todo o mundo, recebeu vários títulos honoríficos, de forma intermitente serviu também como Directeur d'Études Associé na École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris, foi presidente da Associação Internacional de Sociologia entre 1994 e 1998. Durante os anos 1990 , ele presidiu a Comissão Gulbenkian sobre a Reestruturação das Ciências Sociais. Em 2000 ingressou no Departamento de Sociologia de Yale como Pesquisador Sênior. Em 2003 recebeu o Prêmio Career of Distinguished Scholarship dos Estados Unidos. Sua grande contribuição revolucionária para o mundo do conhecimento das Ciências Sociais foi como, a partir da sistematização e reformulação de categorias de Karl Marx,  Nikolai Kondratiev, Max Weber, Karl Polanyi, Fernand Braudel, da Teoria da Dependência, dos estudos do pós-colonialismo, criador da Análise de Sistemas-mundo

O cientista social engendra uma explicação para o irromper de três movimentos ideológicos marcantes do mundo moderno: o conservadorismo, o liberalismo e o socialismo. A apresenta dentro de um plano maior que contempla uma grande narrativa que combina revoluções estruturais na história que perpassavam preocupações, angústias e aspirações no imaginário e no inconsciente coletivo das pessoas do ambiente social e cultural de onde irromperam. Ele situa esta emergência em um intervalo que compreende o período em torno da Revolução Francesa. E que esta se dera, concomitante, no mesmo bojo , tendo um suscitado e desencadeado outro. Foram as racionalizações de respostas que se fizeram necessárias a temas cuja resolução exigia uma postura social e programas políticos, sendo que não se engendrara, porém, apenas como questão intelectual, mas de alternativas sociais e existenciais para as pessoas. Dentre a vasta obra, dois artigos podem ser selecionados para nossos fins. “The West, capitalism, and the modern world-system”, e “The French Revolution as a World-historical Event. In Unthinking Social Science: The Limits of Nineteenth-century Paradigms”. 

Seu raciocínio é desenvolvido apontando que a partir do século XVI irrompera um novo Sistema Histórico, o Capitalismo Histórico. Um "sistema histórico" se constrói de vários tipos de instituições as quais governam, ou moldam a ação social de forma a manter e operar os mecanismos básicos deste sistema, proporcionar relativa coesão social entre pessoas e grupos para que o comportamento seja compatível com esse sistema no grau mais ótimo possível, em torno de uma divisão do trabalho que lhe permite sustentar-se e reproduzir-se. Articula assim essas instituições, que agem reciprocamente de maneira econômica, política, sociocultural, de forma que o sistema “funcione em essência em termos das consequências de seus processos internos". [4]

Este sistema viera se formatando a partir de processos já desencadeados em que o autor destaca as cidades-estado italianas e o centro financeiro em flandres. E a grande irrupção adviera com os empreendimentos de grandes navegações e a chegada europeia nas Américas. Na mesma zona geocultural onde então predominavam os sistemas feudais, estes foram substituídos pelo Capitalismo Histórico. Nos padrões de mudanças de sistema que o autor articula, o que ocorrera fora que o sistema anterior ao capitalismo histórico experimentara a falência das estruturas e tendências seculares que garantiam a viabilidade renovada de suas instituições, não podendo mais fazer “os ajustes necessários para continuar operando segundo suas próprias regras”. 

Três instituições-chave entraram em colapso: o Senhorio, os arranjos estamentais, a igreja. “De um modo geral, as estruturas políticas estavam a tornar-se mais fracas, e a sua preocupação com as lutas internas dos politicamente poderosos significava que pouco tempo restava para reprimir a força crescente das massas da população. O cimento ideológico do catolicismo estava sujeito a uma grande tensão”. Convulsões demográficas desestabilizavam o sistema de servidão na terra dos senhores feudais, além de insurreições camponesas. As lutas entre as nobrezas mais a queda na arrecadação colapsaram os estados reais; isto enfraqueceu também economicamente a igreja, gerou dificuldade de sustentar sua autoridade ao mesmo tempo que fomentou grupos libertários no seu interior. 

Immanuel Wallerstein aponta que normalmente na história, sistemas assim desmoronam e os estratos governantes se renovam devido, mais frequentemente, a conquista externa ( um parâmetro que poderia servir para analisar a história judaica). Não tendo sido possível, e com o colapso do papel destas instituições no feudalismo, um fator emergente que assumira preponderância fora o “capital”. Passou a ser uma força de motivação social e dinâmica econômica à medida que firmou-se a característica primária de ser acumulativo autorreplicante, rompendo todos os constrangimentos culturais. O grande fator a destravar qualquer instituição inibidora para a “Mudança Social” e a mais potente “força motivadora”. [5]

O que fora catalizado então se estabelecera como elemento aglutinador da "geocultura", segundo o autor, com a eclosão da Revolução Francesa. É a questão definidora de como o autor delineia a “Modernidade”, como uma combinação de uma determinada realidade social com uma determinada “Weltanschauung”, ou visão de mundo geral. A Revolução Francesa fora assim um “ponto de inflexão” no qual se gerara respostas, em forma de programas socioculturais, à pautas civilizatórias para o horizonte, de forma a propiciar a realização das pessoas na sociedade; pautas estas: a “Mudança social, estabelecida agora como algo 'normal', 'inevitável' ”; a questão da legitimidade do poder político, ou 'a questão da soberania'."

A resposta inovadora viera nos tons dos apelos ao “progresso” e à “soberania popular”. E as três ideologias se concatenaram como respostas diferentes dadas a estas questões. Para o “Conservadorismo”, a mudança social poderia representar um perigo se não fosse bem “circunscrita” e limitada; para o “Liberalismo” [político], ela deveria ser administrada tecnicamente; para o “Socialismo”, deveria ser acelerada com luta política. Os liberais tenderam a representar o “povo” com a figura abstração do “indivíduo” em suas competências; os conservadores, em termos dos grupos “tradicionais” em graus hierárquicos na sociedade; os socialistas (antes, chamados "democratas"), em termos mais totalizantes e universais, embora enfatizando o recorte dos trabalhadores não-capitalizados. [6]

Enfim, para o interesse estrito da nossa apresentação, é importante destacar que, a despeito das grandes diferenças, vemos paralelos em dois tratamentos de origens de grandes movimentos socioculturais em reação a memórias históricas dentro de realidades sociais, em busca de configurar um cenário para o futuro. O autor trabalhou com um amplo plano temporal de escala analítica para analisar o que suscitara as inquietações e anseios a que os movimentos ofereceram como resposta para o povo.  Chama a atenção o quanto, considerando a matéria histórica tratada, o período, o foco e o fenômeno histórico, impera a necessidade de não somente ter sensibilidade para, diálogo com, mas embebimento em discussões de filosofia política. Assim também nas origens cristãs, para com inquéritos teológicos. 

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Ainda dentro da discussão dos aspectos básicos do programa de pesquisa de Wright, ele esmiúça um pouco mais questões de metodologia. Promove uma recapitulação dos diferentes estados da arte do campo de pesquisa desde o século XIX até os anos 90. Perpassa as críticas de Johannes Weiss e Albert Schweitzer aos contemporâneos que produziam um Jesus "sem escatologia", reproduzindo-o às suas imagens e semelhanças. A escola fideísta de Bultmann, às preocupações alemãs com os "ditos mais originais" que se espalharam pelo ambiente de língua inglesa, à inflexão com a ambientação judaica... Apresenta as teorias, os pressupostos, promovendo uma discussão crítica quanto até que ponto contemplavam as realidades do período histórico das origens cristãs. Ele promove uma comparação entre as abordagens positivistas ou objetivistas (afirmam que as entidades postuladas pelas teorias são realidades possíveis de serem captadas à parte da interferência do observador, interessando-se pela captura dos “fatos históricos” objetivos, a priori da interpretação), e as fenomenológicas-construtivistas ( se interessam pelo que se pode apresentar a respeito do “fenômeno” observável, não pela “coisa-em-si”, ou o “fato-em-si”, a preocupação focal é quanto aos procedimentos descritivos e suas propriedades), apontando pontos fracos e pontos fortes. 

A partir daí ele explica sua posição que considera escapar das armadilhas das outras duas e unir o que de mais teriam de consistente: o Realismo Crítico. Esta [ i.e., o Realismo Crítico] é uma maneira de descrever o processo de "saber" que reconhece a realidade da coisa conhecida, como algo diferente do que é o conhecedor (daí o ‘realismo’), enquanto também reconhecendo plenamente que o único acesso que temos a esta realidade encontra-se ao longo do trajeto em espiral de diálogo adequado ou uma conversa entre o conhecedor e a coisa conhecida (daí o 'crítico’). Este caminho leva à reflexão crítica sobre os produtos do nosso inquérito sobre a ‘realidade’, para que nossas afirmações sobre ela reconheçam a sua própria provisoriedade. O conhecimento, em outras palavras, embora em princípio concebe a realidade independente da mediação do conhecedor, nunca é em si mesmo independente do conhecedor.  [7] 

 Desta forma, ele acredita que a epistemologia para o estudo do caráter literário dos evangelhos pode se envolver com eles, sem se deixar ser tomada e perder o caráter crítico. Fechando uma encorpada sessão em que analisa a paisagem sociocultural da Palestina do século I d.C., ele recapitula eventos-chave para entender como se chegou àquele cenário; destarte ele explica a formação dos diferentes “partidos” no Judaísmo de então, os ramos mais sectários, e os pontos que ele considera em comum, elementais para se chamar Judaísmo. Ele focaliza sua preocupação depois com a vida e mentalidade do “judeu comum”. 

Assemelha-se este foco com o que o historiador Fernand Braudel chamava de “vida material”: 
Parti do cotidiano, daquilo que, na vida, se encarrega de nós sem que o saibamos sequer: o hábito ­ melhor, a rotina ­ mil gestos que florescem, se concluem por si mesmos e em face dos quais ninguém tem que tomar uma decisão, que se passam, na verdade, fora de nossa plena consciência. Creio que a humanidade está pela metade enterrada no cotidiano. Inumeráveis gestos herdados, acumulados a esmo, repetidos infinitamente até chegarem a nós, ajudam-nos a viver, aprisionam-nos, decidem por nós ao longo da existência. São incitações, pulsões, modelos, modos ou obrigações de agir que, por vezes, e mais freqüentemente do que se supõe, remontam ao mais remoto fundo dos tempos. [8]                                                     
Chama a atenção que tal historiador também trabalha com um vasto horizonte analítico, chamado "longue durée", marcado por interações físicas, ecológicas, geográficas, socioculturais, numa escala de tempo em que há estruturas básicas comuns.

Tom conclui que os judeus eram rigorosamente monoteístas, referendando-se no atributo criador da divindade, igualmente no papel redentor e escatológico, aguardando que ela os resgataria e livraria de toda dominação. Mais controvertida é sua posição de que as imagens e descrições apocalípticas, sobre fenômenos de cataclismos terrenos e cósmicos, eram figuras para expressar mudanças procelosas em toda ordem mundial [ similares seriam Richard Horsley, “Jesus e a Espiral da Violência”, pgs 118-128; Marcus J. Borg [ (embora o tom na escatologia de Wright seja muito mais proeminente), Conflict, Holiness and Politics in the Teachings of Jesus, pgs 22-35] , 


Para corroborar sua posição, procede uma análise dos capitulos clássicos apocalípticos em Daniel e na literatura chamada pseudepígrafa. Essa foi a matiz cultural e motivacional para os nascimento do cristianismo. Wright aponta que a literatura cristã está marcada pela convicção de que os cristãos viram esta redenção expressa no Messias Jesus, narrando suas histórias na perspectiva e expetação moldada pela personificação em sua obra dos temas do “êxodo, conquista, exílio e restauração” - “batismo , ministério, morte, ressurreição, ascensão”; paralelos com figuras como Samuel, Davi, Elias, Eliseu expressadas em João e Jesus, projeções da imagem do Lógos... em Jesus eles viram o cumprimento das promessas do judaísmo e assim configuraram seu narrar sobre ele. 

Aqui temos uma síntese das conclusões a que chega:

Essa idéia do plano a ser revelada é novo, caracteristicamente judaica, e os contemporâneos de Jesus tinham desenvolvido uma forma complexa de pensar nisso. Eles usaram imagens , muitas vezes sensacionalistas e espetaculares, elaborada a partir das Escrituras , para falar sobre coisas que estavam acontecendo no mundo público, o mundo da política e da sociedade, e dar a esses acontecimentos o seu significado teológico. 

Assim, ao invés de dizer "Babilônia vai cair, e isso vai ser como um colapso cósmico", disse Isaías: "O sol escurecerá, a lua não dará a sua luz, e as estrelas cairão do céu". (Isaías 13:10). A Bíblia Judaica está repleta de tal linguagem, que é muitas vezes chamada de "apocalíptica", e seria um grande erro imaginar que tudo estava predestinado a ser tomado literalmente. Era uma forma, para repetir ponto, de descrever o que poderíamos chamar de eventos no espaço-tempo e investi-los com o seu significado teológico ou cosmológico. Os judeus da época de Jesus não estiveram, em grande parte, a esperar que o universo no espaço-tempo chegasse a ficar inerte. Eles esperavam que Deus iria agir de forma tão dramática dentro do universo no espaço-tempo, como ele tinha agido antes em momentos-chave, como o Êxodo, que a única linguagem apropriada seria a linguagem de um mundo desmontado e renascido. 

Estes avisos se agrupam no chamado Breve Apocalipse de Marcos 13 e seus paralelos em Mateus 24 e Lucas 21. O capítulo inteiro é para ser lido, sugiro, como uma previsão não do fim do mundo, mas da queda de Jerusalém. A coisa crítica, aqui e alhures, é entender como funciona a linguagem apocalíptica. Como eu disse antes, a linguagem do sol e a lua se escurecendo, e assim por diante, é regularmente usada nas Escrituras para designar as grandes convulsões políticas ou sociais da ascensão e queda de impérios, como nós dissemos, e, pelo uso dessa linguagem, para conotar de significado cósmico ou teológico que eles atribuem a esses eventos. [9]

A linguagem de Marcos 13 então, sobre o Filho do Homem vindo sobre as nuvens não deve ser tomada literalmente a ferro e a fogo, como no decurso de gerações de ambos, estudiosos críticos e crentes não-críticos têm tomado. A linguagem aqui é retirada de Daniel 7, onde os eventos referidos são da derrota e do colapso dos grandes impérios que se opuseram ao povo de Deus e à vindicação do verdadeiro povo de Deus, os 'santos do Altíssimo'. A frase sobre "o filho do homem vindo sobre as nuvens" não iria ser lida, por um judeu do primeiro século debruçado sobre Daniel, como se referindo a um ser humano "aproximando-se" para baixo em direção à terra montado em uma nuvem real . Ele seria visto como a previsão de grandes eventos e através dos quais Deus iria vindicar seu povo verdadeiro após o seu sofrimento. Eles "chegariam", não à terra, mas a Deus. 

Jesus está assim usando alguns temas-padrão dentro da expectativa judaica do Segundo-Templo de uma forma radicalmente nova. Ele estava tomando o material sobre a destruição da Babilônia, ou Síria, ou quem quer que seja, e aplicando-o a Jerusalém. E redirecionando para ele e seus seguidores as previsões proféticas de vindicação. [10]    


Para ser possível concatenar coerentemente a partir desta verificação, Wright observa que é crucial conseguir engendrar uma análise da mentalidade motivacional das visões de mundo, se atendo ao estudo histórico e evitando psicologizar conjecturas, algo que está em descrédito fazem muitos anos nos estudos bíblicos. Desta forma ele adapta ferramentas desenvolvidas pelo semiólogo lituano Algirdas Julien Greimas  nos seus estudos sistemáticos das personagens das narrativas, de acordo com as interações nas sequências ao longo do esquema narrativo [11], onde a narratividade pode ser compreendida como um elemento organizador e fundador do sentido, o modo de se aperceber do sintagma; desta forma, um número finito de temas funcionais justapostos em oposição binária com possíveis papéis ( sujeito-objeto; emissor-receptor ; ajudante-adversário ) geraria as estruturas que chamamos de histórias. Com isto N.T. Wright consegue entretecer as perícopes dos evangelhos, que narram eventos e proclamações independentes, em um enredo interligada com o grande plano geral que traça afim de captar um sentido contatenado através das ações nas tramas. 

 É o ponto a partir do qual ele chega a uma das principais problematizações que desenvolve: a esperança judaica. Ele rechaça tentativas de se trabalhá-la em esquemas sistemáticos de dogmática; antes de tudo, para Wright, se dava como reação às pressões de dimensões sociais, econômicas, políticas e culturais, sempre sob o auspício da humilhação da dominação romana e opressão pelos líderes vassalos de Roma. Isso acrescenta altissonância ao centrar na “vinda do Deus de Israel” para a libertação nacional, em contraste com expectativas de desencarnação para sobrevivência post-mortem. [12]

Tal abordagem inverte os lugares-comuns sobre o “legalismo” judaico para com a Lei (Torá); as observâncias de regras de pureza não eram para “ganhar a salvação individual”, mas a sua tônica era a preocupação em manter sua distinção dado por Deus em contraste com as nações pagãs , especialmente aquelas que se julgavam como estando a oprimi-los. Era a demarcação do “povo da aliança”; as “obras da Torá" não eram degraus de uma escada legalista, na qual alguém subia para ganhar o favor divino, mas foram os emblemas que se usavam como as marcas de identidade [13]

Isto é o que ele focaliza o conceito de narrativas formadoras de identidades, em que podemos recapitular: 

Assim é então como ela deve ser entendida, lida em contextos apropriados, dentro de uma acústica que irá permitir os seus tons serem ouvidos. Deve ser lida com distorção tão pouca quanto possível, e com a sensibilidade , tanto quanto possível aos seus diferentes níveis de significado. Estes devem ser lido como histórias, e a História, à qual se diz poder ser consistente chegar com as histórias, e não como formas de declarar 'ideias a-históricas'. Deve ser lida sem o pressuposto de que já sabemos o que vai se dizer, e sem a arrogância que assume que 'nós '- que pode ser qualquer grupo- já temos direitos ancestrais sobre esta ou aquela passagem , livro, ou escritor [14] .

Desta forma está preparado o palco interativo para “Jesus and the Victory of God”. Wright postulando um critério que ele chama de “Dupla Similaridade e Dupla Dissimilaridade” [15] 

Dupla Similaridade tenta descobrir como Jesus cabe dentro judaísmo do primeiro século e como tal um Jesus Judeu poderia explicar a ascensão do cristianismo primitivo. A Dupla Dissimilaridade procura explicar por que Jesus foi rejeitado pelo judaísmo e como as tradições evangélicas, devido à sua dissemelhança , não poderiam ter se originado dentro da igreja primitiva. Assim, sua principal ferramenta é muito mais abrangente do que o muito mais limitado “critério de dissimilaridade”. Com ela, vai se afigurando uma figura profética peculiar, que passava de aldeia em aldeia, dizendo substancialmente as mesmas coisas onde quer que fosse, com variações e novidades surgindo em resposta a uma situação nova, um questionamento afiada ou desafio. Contudo, com o critério da Dupla Similaridade Wrigth postula que Jesus repetira certas parábolas-chave muitas vezes, provavelmente com pequenas variações . . . 

Meu palpite seria que temos duas versões da parábola Grande Ceia , duas versões da Parábola dos Talentos/Libras, e duas versões das Bem-aventuranças, não porque um é adaptado a partir do outro, ou ambos a partir de uma fonte comum de um único escrito, mas porque estas são duas em uma dúzia ou mais variações possíveis que, se alguém tivesse estado na Galileia com um gravador poderia ter 'recolhido' " [16].

Wright desmembra esta imagem na parte 2 do livro, "Perfil de um Profeta". Ela consiste em seis capítulos. No Capítulo 5, intitulado " A Práxis de um Profeta", Wright, com as ferramentas acima apontadas, argumenta que a melhor categoria para classificar Jesus é a de uma “ Liderança Profética e Oracular" (162-68 ). Explica de forma meticulosa nos capítulos 6, 7 e 8; "Histórias do Reino", subdivididos em "Anúncio", "Convite, Boas-vindas, Desafio e Convocação"e "Julgamento e Vindicação". Prossegue com o capítulo 9 intitulado "Símbolo e Controvérsia", onde discute as ações de Jesus e os ensinamentos sobre o símbolos da identidade judaica, ou seja, Sábado , Comida, Nação, Terra e Templo, problematizando o emprego próprio por parte de Jesus dos símbolos do Reino, que tratam do “retorno do exílio”, a “restauração da terra e da nação”, a “nova família de Deus”, “o culto renovado”. 

Wright ilustra um exemplo de atitude de arrependimento individual análogo nos escritos de Josefo, descrevendo um chefe de turba de bandidos tramando contra sua vida, ao passo que Josefo lhe diz: “Eu gostaria, no entanto, de desculpar suas ações se ele mostrasse arrependimento e provasse sua lealdade a mim”. É uma alusão que transmite a introspecção necessária para a conclamação de Jesus “se ele arrepender e crer em mim”. [17]


 “A parábola do filho pródigo é a história do exílio de Israel e sua restauração. Este é o tema principal. 

A Babilônia tinha tomado o povo em cativeiro; Babilônia caira, e voltou o retornara. Mas nos dias de Jesus muitos, se não a maioria, dos judeus consideravam o exílio como ainda a permaneccer. O povo voltou em sentido geográfico, mas a grande profecia de restauração ainda não tinha chegado realmente. O que Israel fazia? Porque, se arrependera-se do pecado que o havia levado ao seu exílio, e retornara a YHWH com todo o seu coração, então quem ficara em seu caminho para evitar seu retorno? A multidão mista, e não menos importante os samaritanos, tinham permanecido na terra enquanto o povo estava no exílio. Mas Israel iria voltar, submisso e redimido: os pecados seriam perdoados, a aliança renovada, o Templo reconstruído e os mortos ressuscitados. O que seu deus havia feito por ela no êxodo . . . ele iria enfim fazer de novo, ainda mais gloriosamente. YHWH finalmente tornar-se-ia rei, e faria por Israel, em aliança de amor, o que os profetas haviam predito. [18]

(...)"Aqueles que reclamam [ representados pelo irmão mais velho na parábola ] do que está acontecendo estão escalado para o papel do judeus que não foram para o exílio, e que se opunham as pessoas que regressaram.  Eles são, com efeito, virtualmente samaritanos" [19]

 O tema de Jesus assim seria eminentemente escatológico, e assim se descortina seu senso de vocação em sua pregação e visão de seu papel: 

Se, então , alguém fosse falar com os contemporâneos de Jesus de YHWH tornando-se rei, podemos seguramente assumir que eles têm em mente, de uma forma ou outra, essa história de dois lados sobre a dupla realidade de exílio. Israel faria "realmente" o retorno do exílio; YHWH finalmente retornaria a Sião. Mas, se isto viesse a acontecer teria que ser um terceiro elemento, tal como: o mal, geralmente em a forma dos inimigos de Israel, deve ser derrotado. Juntos, esses três temas formar a metanarrativa implícita na línguagem do reino”. [20]

 E consequentemente articula o programa do ideário do nascer do cristianismo: 

A práxis de Jesus, histórias e símbolos, assim, indicam suas respostas, implícitas e às vezes explícitas, às cinco grandes questões da visão de mundo: 'Quem somos nós?' Jesus e seus seguidores formam o povo do real retorno do exílio, o remanescente, a semente, o pequeno rebanho. 'Onde estamos?' Estamos na terra, embora ainda dominados, mas o nosso Deus nos fará herdar a terra. 'Em que tempo estamos?' Em tempo de crise, a grande tribulação através da qual o reino virá, o momento tão esperado, quando o Êxodo será re-promulgado, quando terminará o exílio, o mal será derrotado e YHWH irá retornar a Sião. 'O que está errado?' O mal está desenfreado não apenas dentro do paganismo, mas dentro de Israel: do regime opressivo dos chefes sacerdotais para os movimentos populares revolucionários, o mal do mundo radicalmente infectara Israel também. 'Qual é a solução?' Tudo o que sabemos sobre Jesus sugere que, no fundo de seu coração, ele deu a resposta: 'Eu sou'.  [21]



[1] MacINTYRE, Alasdair. After Virtue. Indiana: University of Notre Dame, 1984, pgs.215-16.
[2] The New Testament and the People of God, pg. 118.
[3] como desenvolvido em "The New Testament(...)", parte 3.
[4]  “The Rise and Future Demise of the World Capitalist System: Concepts for Comparative Analysis”, republicado em WALLERSTEIN, I. The Essential Wallerstein. New York: The New York Press, 2000
[5] “The West (...)”, pgs. 561-619.
[6] “The French Revolution”(…) pgs. 7-22.
[7] The New Testament and the People of God, pg. 35
[8] BRAUDEL, Fernand. (1987), A dinâmica do capitalismo.  Rio de Janeiro, Rocco. pg. 13-14
[9] em "The Challenge of Jesus", 38
[10] The Challenge of Jesus, 51
[11] conferir GREIMAS, A. J, Semântica Estrutural: Pesquisa de Método, Ed. Cultrix, Säo Paulo, 1976
[12] The New Testament and the People of God, 169-170
[13] The New Testament and the People of God, 237-238 
[14] Jesus and the Victory of God, pg. 6
[15] Jesus and the Victory of God131-33.
[16] Jesus and the Victory of God, 170
[17] Jesus and the Victory of God, 250
[18] Jesus and the Victory of God, 126-127
[19] Jesus and the Victory of God127
[20] Jesus and the Victory of God206.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Artigos Acadêmicos sobre Simão de Peréia, Judas Galileu, Jesus de Nazaré, Messianismo, e Análise Histórica dos Evangelhos de Acesso Livre na Internet



Eu entendo que para aqueles interessados nas origens do cristianismo e no judaísmo do segundo templo, uma das maiores dificuldades é identificar e encontrar fontes acessíveis e confíaveis. Muito do que se encontra se perde em polêmicas ou apogética contra ou a favor do cristianismo. Além disso, muitas vezes as fontes não são citadas, ou não são confiáveis, ou citadas de forma distorcida.


Portanto, para suprir essa lacuna, e como já haviamos feito, apresentamos abaixo artigos acadêmicos acessíveis ao público leigo. Verdadeiro ouro garimpado da internet.



1) Messianismo e Pretendentes Messiânicos: O Professor Jona Lendering, lecionou Teoria da História e História Antiga na Universidade Livre de Amsterdã, e é um dos fundadores da Livius Onderwijs, associação de professores voltados para a historia antiga, sediada em Amsterdã, que promove cursos e palestras sobre a Antiguidade Clássica. Já haviámos falado do trabalho de Lendering sobre o Jesus Histórico em um dos posts da Série Quem Eles dizem que Eu Sou, junto com Martin Goodman, John P Meier e André Chevitaresi.


Lendering aborda o fenômeno do Messianismo em vários artigos, que abrangem as origens do conceito (o ritual da unção do Rei, nos profetas e salmos messiânicos, e figuras como o Rei Josias, o Imperador Ciro, e Zorobabel). Também analisa a evolução histórica do conceito de Messias, desde os Macabeus até a destruição do Templo, com suas várias facetas "Um Rei e Lider Militar como Davi", "Um profeta como Moisés", "um Mestre de sabedoria como Salomão", ou um "Sacerdote como Melquisedeque".

Lendering também discute os líderes que reivindicaram a condição messiânica, ou foram vistos assim por seus seguidores, como Simão de Peréia, Judas Galileu, João Batista, e, obviamente, Jesus de Nazaré, avaliando fontes históricas como os evangelhos, Josefo e Tácito.

O leitor pode seguir os links acima, ou ir direto para o overview aqui.


2) Análise Histórica dos Evangelhos: Samuel Nunes dos Santos (2011) O Evangelho de Lucas Enquanto Fonte Histórico-Biográfica. Revista Jesus Histórico e sua Recepção - Ano IV [2011] - volume 7, fls. 89-110.

Resumo: O nosso objetivo no presente artigo é avaliar o evangelho de Lucas enquanto uma fonte histórico-biográfica. Para tanto, analisaremos algumas palavras/expressões contidas no texto grego em que ele foi escrito e sua vinculação com o trabalho de um historiador em aspectos tais como: caráter narrativo, discurso de verdade, organização dos fatos, pesquisa. E, apresentaremos, em forma narrativa, uma síntese das informações colhidas em Lucas sobre o Jesus Histórico.
Palavras-Chave: Fonte Histórica, Biografia, Jesus Histórico, Discurso de verdade

O uso dos evangelhos como fonte histórica é tema constante aqui no blog, tal como na série, em progresso, "Quem Eles Dizem que Eu Sou", em que buscamios apresentar como vários estudiosos abordam a questão. O artigo de Samuel dos Santos é muito interessante pois aborda de forma muito sensata e equilibrada as limitações dos evangelhos enquanto fontes históricas, que, contudo não inviabiliza sua utilização, situando suas virtudes e limitações no contexto mais amplo de outros escritos da Antiguidade Clássica. Ele conclui:

(Samuel Nunes dos Santos) "Por fim, podemos constatar que o Evangelho de Lucas possui diversos fragmentos biográficos passíveis de análise histórica, ricos em detalhes úteis na construção de uma Vita de Jesus. Pode-se observar que os aspectos histórico-biográficos detectados no evangelho, atribuído ao evangelista Lucas, revelam o interesse não de escrever uma biografia, mas de relatar eventos históricos. Sua preocupação é com os “fatos que entre nós se cumpriram”, e neles o seu principal personagem é Jesus. O relato destes fatos, o autor deste evangelho os denomina de tratado (loghon) em Atos 1.1: “Fiz o primeiro tratado, ó Teófilo”.
Verificamos então que o Evangelho de Lucas não é uma obra biográfica sobre Jesus. Lucas escreveu em um gênero que estava nascendo naquele século: o evangelho. Nele se inseriram parábolas, sentenças, narrativas, alegorias e também fragmentos biográficos. O que se vê nele é uma variedade de gêneros muito grande. É coerente a afirmação de Klaus Berger que diz haver uma multiplicidade de gêneros nos Evangelhos, entre eles a biografia (KLAUS BERGER, 1998: 5-6). O material biográfico existente no evangelho lucano é suficientemente rico em detalhes da vida e pessoa de Jesus, o que possibilita a grande utilidade deste evangelho como fonte histórico-biográfica."[O Evangelho de Lucas Enquanto Fonte Histórico-Biográfica, fl. 19 (pagina 107)],

Outros artigos como este podem ser encontrados na Revista Jesus Histórico., publicada pelo IFCS/UFRJ.
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