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sábado, 5 de outubro de 2013

ANOTAÇÕES AD CUMMULUS 005: O "Agnostos Theos" de Epimenides e o Deus Desconhecido de Paulo



Pregação de Paulo em Atenas, de Anton Dietrich, 1877, afresco
no Christian-Weise-Gymnasium, Zittau, Saxonia, Alemanha
via wikipedia commons.
Então Paulo levantou-se na reunião do Areópago e disse: “Atenienses! Vejo que em todos os aspectos vocês são muito religiosos,  pois, andando pela cidade, observei cuidadosamente seus objetos de culto e encontrei até um altar com esta inscrição: AO DEUS DESCONHECIDO. Ora, o que vocês adoram, apesar de não conhecerem, eu lhes anuncio.“O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há é o Senhor dos céus e da terra, e não habita em santuários feitos por mãos humanas. Ele não é servido por mãos de homens, como se necessitasse de algo, porque ele mesmo dá a todos a vida, o fôlego e as demais coisas. De um só fez ele todos os povos, para que povoassem toda a terra, tendo determinado os tempos anteriormente estabelecidos e os lugares exatos em que deveriam habitar. Deus fez isso para que os homens o buscassem e talvez, tateando, pudessem encontrá-lo, embora não esteja longe de cada um de nós. (Atos 17:22:27)

Os Atos dos Apóstolos registra a narrativa de como o Apóstolo Paulo, estando em Atenas, e aguardando a chegada de Silas e Timóteo, se indignou com os vários idólos espalhados pela cidade. Aqui no Adcummulus, nosso amigo Flávio, já fez um análise interessantíssima sobre a passagem, que o leitor não deve perder. 

O Areopago, situado na Colina de Marte, era o lugar em que se reuniam, desde tempos muito antigos, os Arcontes de Atenas,  o conselho de magistrados da cidade. Desde as reformas de Solón, no início do sec VI AC, o Areopago foi gradualmente esvaziado de seus poderes políticos, ainda que, mesmo no período romano, retivesse significativa autoridade para os assuntos internos, além de exercer funções cerimoniais, detendo assim considerável prestigio [1].

Significativamente,  naquele mesmo local, cinco séculos antes, o Areópago havia julgado Socrátes. Como observa o Professor C. Kavin Rowe, da Universidade Duke (EUA), Socrates havia sido julgado e condenado a morte "por rejeitar os deuses reconhecidos pelo Estado, e trazer outras, novas, deidades", nas palavras de Xenofonte e Platão [1].  Conforme Atos 17:19, Paulo foi "trazido", "levado" ao Areópago, (com o verbo grego conotando um elemento de coerção), para explicar suas novas idéias (já que Jesus e Ressureição  foram entendidos pelos atenienses como novos deuses), com a narrativa lucana aludindo  ao bem conhecido julgamento de Socrates [1]. Em suma, Paulo foi "levado para averiguação", ou "intimado para prestar esclarecimentos", e deveria se explicar convincentemente.

Paulo, porém, foi extremamente hábil e político, dadas as circunstâncias. A menção ao Deus Desconhecido, naquele cenário, não deve ter passado desapercebida daqueles leram e ouviram a narrativa. Séculos antes de Paulo, por volta do ano 595 AC, o filósofo cretense Epimenides teria estado em Atenas, na mesma Colina de Marte em que se reunia o Areopago.  Diógenes Laércio (início do século III DC), escreve:
 Assim, quando os atenienses foram atacados pela peste, e as Pitonisas ordenaram-lhes purificar a cidade, enviaram um navio comandado por Nicias, filho de Nicerato, para Creta para pedir a ajuda de Epimenides. E ele veio na 46ª Olimpíada [593-595 AC] e purificou a cidade, e fez cessar a peste da seguinte maneira. Ele tomou ovelhas, algumas pretas e outras brancas, e os trouxe ao Areópago, e as soltou ali, deixando ir para onde quisessem, instruindo que os animais fossem seguidos, para que fosse para marcado o local onde cada ovelha havia descansado, e oferecido um sacrifício à divindade local. E assim, diz-se, a praga cessou. Daí, até hoje altares podem ser encontrados em diferentes partes do Atica sem nome inscrito sobre elas, que são memoriais desse livramento [2]

Muitas das construções, jardins e lugares públicos de Atenas estavam associadas a uma ou outra divindade. Assim, dedicar um sacríficio a divindade local, implicava em dedica-lo aquele deus ou deusa. No entanto, como essa lenda diz que em vários locais da Àtica, foram dedicados altares sem nome, isso implica que se desconhecia a divindade associada aos locais em que pelo menos algumas das ovelhas descansaram. Foi a forma que se encontrou para se justificar a existência de altares dedicados ao "Deus Desconhecido" (Agnostos Theos).

Pieter Willen van der Horst, Professor (aposentado) da Universidade Utrecht (Holanda), é autor de um dos mais relevantes estudos sobre "O Deus Desconhecido", chamado "The Altar of the Unknown God in Athens (Acts 17:23) and Cults of Unknown Gods in Graeco Roman World" [3], onde procura responder três questões:

1) Existia um altar ao deus desconhecido em Atenas e/ou outros lugares?
2) Se existia, qual o significado  desta e outras inscrições similares?
3)Qual é a função do altar/inscrição na narrativa lucana

Prof. Van der Horst cita duas passagens do livro "Descrições da Grécia" (160-176 DC), escrito pelo geográfo Pausânias, que se referem a altares ao(s) deus(es) desconhecido(s), em Atenas e Olimpia:
Os atenienses também têm outro porto, em Muniquia, em que se localiza um templo de Artemis de Muniquia, e ainda outro na Faliro, como já afirmei, e perto dele um santuário de Deméter. Aqui também existe um templo de Atena Sciras, e um dedicado a Zeus a alguma distância, e os altares dos deuses chamados desconhecidos, e de heróis
 Do relato do grande altar  que eu mencionei um pouco antes, chamado de altar de Zeus OlímpicoMas é um altar dos deuses desconhecidos, e depois desta um altar de Zeus Purificador, um dedicado a Vitória e outro de Zeus - desta vez cognomidado . Há também os altares de todos os deuses, e de Hera sobrenome olímpico, isso também está sendo feito de cinzas.[4]
Van der Host nota a diferença entre a existência de um altar ao "deus desconhecido" (como em Atos), ou de "deuses desconhecidos".  A existência de um altar aos "deuses desconhecidos" em Atenas é indicada também por Lúcio Flávio Filostrato (170-247 DC), que no início do século III, em sua biografia de Apolonio de Tiana, coloca na boca daquele mestre o seguinte ensino:

E a mera aversão a qualquer um dos deuses, como Hipólito entretêm em relação a Afrodite, eu não considero como uma forma de sobriedade, pois é muito maior prova de sabedoria e sobriedade louvar a todos os deuses, como é feito especialmente em Atenas, onde altares foram erigidos em honra ate mesmo dos deuses desconhecidos. [5].
Além de Pausânias e Filostrato, Professor Van der Host inclui entre as referências literárias o apologista cristão Tertuliano de Cartago, contêmporaneo desses autores pagãos. Em sua violenta crítica ao herege Marcião de Sinope:

Convença-me que possa ter havido um deus desconhecido. Sem dúvida, sei que existem altares que foram oferecidos a deuses desconhecidos, que, no entanto, é a idolatria de Atenas. E a deuses incertosque, também, é apenas superstição romana. [6].
Tertuliano, afirma aqui que não só os atenienses e gregos em geral, tinham o hábito de construirem altares aos "deuses desconhecidos", os romanos também faziam isso. Isso é relevante em nossa discussão, pois o Professor Van der Host observa que a evidência arqueológica, em lingua grega, para os altares ao(s) "deus(es) desconhecido(s)" é limitada, sendo o mais relevante candidato uma inscrição de Pergamo, na Asia Menor, mas que é fragmentária e cuja menção aos "deuses desconhecidos" é disputada entre os estudiosos [7]. No entanto, podemos acrescentar, a evidência em lingua latina, é superior.  



Altar ao deus (ou deusa) desconhecido, início do século I AC, Colina Palatina, Roma, via Wikipedia
O altar ao lado foi encontrado, em 1820, na Colina Palatina, em Roma,  O altar traz a seguinte inscrição:

SEI·DEO·SEI·DEIVAE·SAC
G·SEXTIVS·C·F·CALVINVSPR
DE·SENATI·SENTENTIA
RESTITVIT
 Ao santo deus, ou deusa
 Caio Sexto Calvino, filho de Caio, Pretor
 Por ordem do Senado
Restituiu [8]
O Caio Sexto Calvino mencionado no altar (reconstruido por volta do ano 92 AC), seria filho do Pretor Caio Sexto Calvino, que foi Consul da República Romana em 124 AC.
 O altar romano é relevante também porque é seguramente datado do século anterior a Paulo, e toda a evidência literaria apresentada acima é encontrada em autores que viveram de 100 a 150 anos após o Apóstolo Paulo, alguns dos quais podem ter tido contato com os evangelhos e novo testamento (como Lúcio Flávio Filostrato). Se Tertuliano estiver correto, os altares gregos eram semelhantes aos romanos, ou seja, dedicados de forma genérica a "deuses desconhecidos". 
Por último, alguns autores cristãos do final do século IV em diante, observam que a inscrição no altar em Atenas, continha alguns elementos adicionais aos mencionados por Paulo. Professor Van der Host, cita, por exemplo, o testemunho de Jerônimo.
Não é estranho que ele [Paulo] tenha utilizado versos dos poetas pagãos quando fosse oportuno, haja visto que em seu discurso aos Atenienses ele chegou a mudar alguns elementos da inscrição do altar. Pois ele diz [citação de Atos 17:23]. No entanto, a inscrição não era, como Paulo afirma "Ao deus desconhecido" mas sim "aos deuses da Asia, Europa e Africa, aos deuses estrangeiros e desconhecidos". Uma vez que Paulo não necessitava de vários deuses, mas apenas um Deus desconhecido, ele usou o singular" [9].
 Van der Horst observa que um quase contemporâneo de Jerônimo, Eutálio, o diácono (também conhecido como Eutálio de Alexandria), cita a inscrição de forma identica a Jerônimo, diferindo apenas na segunda parte, que seria "ao deus estrangeiro e desconhecido"[10]. A versão de Jerônimo é atípica  pois não só os autores cristãos, mas também vários autores pagãos, que viveram antes dele, nos séculos II e III, referem-se ao um altar em Atenas ao(s) deuse(s) desconhecido(s) , sem mais a acrescentar. No entanto, é improvável que Jerônimo tivesse expandido uma inscrição apenas para contradizer o Apóstolo Paulo! Van der Host oferece então uma solução de compromisso: o altar possivelmente tinha inscrições dos dois lados, uma mais antiga "aos deus(es) desconhecido(s) e estrangeiro(s)", conhecida dos autores do século I e II, e outra, posterior, possivelmente fruto de uma re-dedicação do altar "aos deuses da Ásia, Europa, e Africa" , de forma a tornar o altar ainda mais claro, atendendo a todos os deuses possíveis e imagináveis [10]. Seja como for, reforça a percepção de que o altar era dedicado aos deuses desconhecidos, e não a um deus desconhecido.
Professor Van der Host, observa que essa dedicação genérica, a deuses desconhecidos, era motivada pelo temor de que alguma divindade negligenciada, ficasse magoada pelo desprezo, e buscasse vingança, e cita o Bispo João Crisóstomo, no século IV:
Ou seja, os atenienses, como em muitas ocasiões haviam recebido também deuses estrangeiros como, por exemplo, o templo de Minerva, Pan, e outros de diferentes países, temendo que pudesse existir algum outro deus que ainda não lhes fosse conhecido, mas adorado em outro lugar, por mais segurança, em verdade, ergueram um altar para aquele Deus também, e como deus não era conhecido, puseram uma inscrição, "a um Deus Desconhecido". [ 11 ].
Desta forma, fica claro que os altares refletem o reconhecimento por parte de gregos e romanos das suas limitações quanto ao conhecimento das coisas divinas. Temendo ofender os poderes celestiais, buscavam garantir que todos fossem honrados, garantindo, em outro altar específico, a menção pelo nome porém daqueles a qual, imediatamente, se buscava o favor. Ou seja, independente se tais altares eram dedicados ao "deus desconhecido", ou aos "deuses desconhecidos", seu caráter genêrico e "politico" é claro. Consideradas as devidas proporções, é semelhante, no contexto cristão, ao dia, ou ao alteres ou igrejas dedicados hoje "a todos os santos". Pregadores da nova fé como Paulo, viram porém naquele altar, a oportunidade de falar sobre o Deus que os sábios gregos e romanos não haviam esquecido sem sequer ter conhecido. Além disso, ao associar o Deus Desconhecido ao Deus de Israel, apontando para um altar erigido desde tempo muito antigos, construído pelos próprios atenienses séculos antes, dizendo "o que vocês adoram, apesar de não conhecerem, eu lhes anuncio", Paulo refuta de forma brilhante a grave acusação de trazer novos deuses ou deuses estranhos, pois "(...) ligando a identidade do deus desconhecido com a criação é a forma mais radical possível de desacreditar a acusação de pregar novas divindades (...)" nas palavras do Professor Rowe [12].
 Referências Bibliográficas
[1] C. Kavin Rowe (2009), World Upside Down : Reading Acts in the Graeco-Roman Age, Oxford University Press, fls. 30-32
[2] Diógenes Laercio, Vida dos Filósofos Eminentes, Livro I, 110, Epimenides
[3] Pieter Willem van der Horst (1998). Hellenism, Judaism, Christianity: essays on their interaction. The Altar of the 'Unknown God' in Athens (Acts 17:23) and the Cults of 'Unknown Gods' in the Graeco-Roman World. Peeters Publishers. pp. 187–220.
[4] Pausânias, Descrição da Grécia, Livro I.1.4 e Livro V.14.8, acessado em 29.09.2013 (em inglês, tradução própria para o português). citado por Van Der Horst [2] fl. 191
[5] Filostrato, Vida de Apolonio de Tiana, Livro VI.3, (em inglês, tradução própria para o português). citado por Van Der Horst [2], fl. 193
[6] Tertuliano de Cartago, Contra Marcião, Livro I. 9 (em inglês, tradução própria para o português).  citado por [2] fl. 200-201
[7] Pieter Willem van der Horst (1998). Hellenism, Judaism, Christianity: essays on their interaction. The Altar of the 'Unknown God' in Athens (Acts 17:23) and the Cults of 'Unknown Gods' in the Graeco-Roman World. Peeters Publishers. fl. 194-195
[8] Corpus Inscriptorum Latinarum (CIL)VI. 110 = VI. 30.694 = I, 801., Roma, Colina Palatina, 92 AC,  http://db.edcs.eu/epigr/bilder.php?bild=$CIL_06_00110.jpg;$CIL_01_00801.jpg
[9] Jerônimo, Comentário a Epistola de Tito, I,12
[10] Pieter Willem van der Horst (1998). Hellenism, Judaism, Christianity: essays on their interaction. The Altar of the 'Unknown God' in Athens (Acts 17:23) and the Cults of 'Unknown Gods' in the Graeco-Roman World. Peeters Publishers. fl. 203
[11] João Crisóstomo, Homilía 38 de Atos dos Apóstolos,
 [12] C. Kavin Rowe (2009), World Upside Down : Reading Acts in the Graeco-Roman Age, Oxford University Press, fl. 34

sábado, 9 de junho de 2012

O que aconteceu com os doze apóstolos? Será que Filipe foi sepultado em Hierapolis? Parte 1


O excelente blog Investigador Cristão, faz quase um ano, trouxe um link muito interesante da possível descoberta do Túmulo de Filipe  na Turquia. A notícia já havia sido uma das manchetes da Biblical Archeological Review (BAR), em agosto do ano passado. Faz alguns meses, BAR revisitou a questão (edição 38:01, janeiro/fevereiro de 2012) [1].


Confesso que a primeira vez que eu ouvi (li) essa história, fiquei com os dois pés atrás. Descobertas fantásticas, muitas vezes anunciadas de forma precipitada, ou por aventureiros, alcançam as manchetes dos jornais e breakings news da CNN com muita facilidade, apenas para serem desacreditadas depois. É o prego da cruz de Jesus, o verdadeiro Titulus Crucis, a Tumba Perdida de Maria Madalena (na França), tudo isso foi propalado recentemente pela mídia.


No entanto, lendo o artigo com cuidado e atenção, percebi que a descoberta é palpável e plausivel. A imprensa exagera um pouco, mas isso é normal. Primeiramente, não se trata do trabalho de aventureiros. O professor Francesco D'Andria, ensina arqueologia e história da arte grega na Universidade de Salento, e, desde 2007, é diretor da Missão Arqueológica Italiana em Hierapolis, que escava o local desde 1957, e congrega pesquisadores de 10 universidades italianas e quatro universidades e instituições de pesquisa de outros países. Isso não garante, obviamente, que as conclusões do grupo estejam corretas. Mas é evidencia "prima-facie" de que se trata de um trabalho para ser levado a sério. Contudo, somente com a publicação dos resultados, e a análise dos estudiosos da área é que poderemos chegar a conclusões sólidas.

Hierapolis/Pamukale, Turquia (via Wikipedia)


Em segundo lugar, e será que vou desenvolver nesse e num próximo post, existe uma tradição literária e alguns indícios arqueológicos que apontam de forma consistente para uma associação de Filipe com a cidade de Hierapolis (atual Pamukale, na Turquia). Em minha opinião, a evidência mostra uma associação possível e plausível, e com muita, mas muita, ousadia podemos arriscar um (quase) provável, como pretendo apresentar abaixo. Mas, sempre lembrando, só teremos segurança, quando , o Professor D'Andria e sua equipe apresentarem resultados mais concretos (como os grafittis e inscrições identificadas).


Na edição de julho/agosto da BAR, foi publicado um artigo do Professor Francesco D'Andria com informações contextuais e "background" da relação de Filipe com Hierapolis na tradição antiga, "Conversion, Crucifixion and Celebration",, hoje disponível para consulta apenas para assinantes da Revista [2].

Mas o "Sepulcro Perdido de Filipe" nos desperta a curiosidade para as tradições associadas aos doze apóstolos após a morte e ressureição de Jesus, e a possibilidade de análise histórica, apesar do forte conteudo lendário e da sua aparição relativamente tardia no registro histórico dessas mesmas tradições. Pretendemos escrever alguns posts sobre isso aqui no adcummulus, começando por Filipe, que exemplifica muito bem o tipo de material histórico disponível para a maior parte dos apóstolos de Jesus. Nossos leitores podem encontrar boas análises do assunto por estudiososde primeira linha nos livros de John P Meier (Um Judeu Marginal, Volume 3, Livro I, fls. 210-296, Ed. Imago) e Geza Vermes (Quem é Quem na Época de Jesus, Editora Record). 

Qual Filipe?


No Novo Testamento, temos, aparentemente, dois Filipes.


Filipe, Catedral de St. Isaac
Um esta entre os doze discipulos escolhidos por Jesus. Nos evangelhos sinóticos Filipe é um nome em uma lista (Mc. 3.18, Mt 10:3, Lc 6:14), sem nenhuma outra informação relevante, (salvo, talvez, que ele sempre é citado junto com Bartolomeu). O evangelho de João, contudo, apresenta Filipe em um papel um pouco mais proeminente. É dito que ele é proveniente de Betsaida (cidade de André e Pedro) e traz Natanael ao círculo dos díscipulos de Jesus (João 1:43-47). Uma vez que Bartolomeu não seria propriamente um nome, mas um patronímico (Bar-Tolmai, ou filho de Tolomeu ou Tolmai, em aramaico), frequentemente, observa Geza Vermes [3], Natanael é identificado com Bartolomeu (opinião rejeitada por Meier[4]). Filipe também apresenta gregos a Jesus (João 12:20-36), em um dos raros episódios em que os evangelhos relatam interação de Cristo com gentios).

O "segundo" Filipe, é apresentado nos Atos dos Apóstolos. Ele é escolhido como um dos sete diáconos (Atos 6:5), prega entre os Samaritanos, no célebre relato da "conversão" de Simão, o Mago (At. 8:3-24), e, na sequência, na pregação e batismo do eunuco étiope, servo da Rainha Candance ( At. 8:25-40). Vários capítulos depois, vemos este Filipe, chamado de Evangelista, agora estabelecido em Cesaréia, com suas quatro filhas que profetizavam, recebendo Paulo em sua casa quando este se dirigia a Jerusalém (Atos 21:8-10).
Batismo do Eunuco, Rembrandt, 1626

Não iremos analisar historicamente cada uma das perícopes dos evangelhos e de Atos que mencionam Filipe. Contudo, é possível observar alguns padrões na narrativa, que podem ser utilizados para algumas inferências históricas sobre a tradição. Filipe é um nome grego (usado por exemplo por um dos Reis da Familia Herodiana), assim como André, e constrasta fortemente com os nomes patriarcais e macabeus utilizados por quase todos os associados de Jesus como Simão (de Simeão, um dos doze filhos de Jacó), Pedro e Zelote, Judas (de Yehuda ou Judá), Tiago (derivado, assim como os nomes Jaime, James, Jacó, e Iago do hebraico "Ia'akov") "Boanerges", "Menor" e o "irmão do Senhor" , Saulo (de Saul) "Paulo" de Tarso, as inúmeras Marias (correspondente grego do Hebraico Miriam). É como encontrar um Jefferson ou Washington, cercado de vários Severinos, Josés, Ribamares e Marias de varias alcunhas (das Dores, das Graças, ou Auxiliadoras). Se é possível imaginar que os pais queiram transmitir algo quando dão um nome a seus filhos, o que um nome tão helenizado, constrastante de seu contexto indica?


Além disso, o Filipe dos evangelhos surge apresentando "gregos" a Jesus. O Filipe de Atos é escolhido entre os helenistas, e faz parte do grupo dos díaconos, também escolhidos dentre os helenistas e todos com nomes helenistas. Surge sempre pregando a gentios e não judeus, e escolhe Cesaréia - um enclave gentio na Palestina do sec. I - para morar. Hospeda também o Apóstolo Paulo, o controverso apóstolo dos gentios, em sua casa. Os textos que mencionam um, não mencionam o outro. Seriam mesmo personagens distintos? Ou teria sido o Filipe do grupo dos doze, deslocado para o novo grupo dos diáconos de forma a, junto com outros seis homens "cheios do poder de o Espírito e de sabedoria", estancar a crise que se formava entre os grupos helenista e judaizante na Igreja de Jerusalém? É uma hipótese atraente. Mas vamos deixa-la de lado, por enquanto.


Filipe na Tradição: A natureza fragmentária das fontes é um problema também na tradição da igreja primitiva e patrística sobre Filipe (como quase todos os apóstolos).

Martírio de Filipe, José de Ribera, 1639
O principal texto é o assim chamado "Atos de Filipe", que conta a atuação de Filipe, Bartolomeu e de uma discípula chamada Mariame, que seria irmã de Filipe. Segundo esse relato, Jesus, após sua ressurreição, comissiona seus discipulos para pregar o evangelho, e Filipe e seus companheiros são enviados a Grécia, Frígia e Siria. Em Hierapolis, ele são bem sucedidos em converter e curar muitas pessoas, eventualmente entrando em conflito com as lideranças do culto a Serpente Echidna [5]. Após curar Nicanora, a esposa do Proconsul, o conflito chega ao auge, e Filipe, Bartolomeu e Marianne são presos, torturados e condenados a execução, pendurados de cabeça para baixo, com seus pulsos e tornozelos pregados por ganchos. Uma intervenção divina salva Bartolomeu e Marianne, mas Filipe prefere o martírio. Ele é então enterrado e uma igreja construída sob sua tumba.


Atos de Filipe é historicamente confiável? A resposta é um sonoro NÃO. Em primeiro lugar o relato foi escrito cerca de 300 anos após a morte de seu protagonista [5], estando muito, mas muito longe de ser um texto contemporâneo dos fatos que narra.


O fato de estar tão distanciado dos fatos que narra não seria, por si, um obstáculo intransponível. Se a intenção do autor fosse apresentar um relato da vida e obra de Filipe, (e Bartolomeu e Marianne) após a morte de Jesus, é bem provável que ele fosse capaz de encontrar textos e tradições orais antigas, quase contemporâneas, que, com todas as limitações, trouxessem notícias históricas confiáveis. Temos exemplo disso na Antiguidade, como já vimos aqui mesmo no adcummulus, como Títo Lívio (30 DC) ao descrever a República Romana Primitiva (509-264 AC), ou Jerônimo em sua coleção de biografias "De Viris Ilustribus" (Dos homens ilustres). O Grande problema, porém, é que o autor de Atos de Filipe , como vários outros Atos Apócrifos, não tem essa intenção. O texto é uma novela histórica, seu objetivo é apresentar uma narrativa que fosse edificante e interessante aos olhos de seus leitores, do século IV ou V. Assim temos relatos de conversão de leopardos e bezerros falantes, da vitória sobre um dragão ...


Ou seja, utilizando uma analogia, Atos de Filipe estaria para o Filipe Histórico, de forma semelhante que "Dracula" de Bram Stoker (1897) está para o Principe Romeno Vlad "Dracul" III, o Impalador (1431-1476). Ou seja, é uma história fictícia sobre um personagem histórico. A diferença, em favor do príncipe Vlad, é que temos muito mais evidência contempôranea e semicontemporânea a seu respeito (mas, mesmo assim, definir até que ponto Stoker se baseou no "Vlad DraculaHistórico" é problemático). Da mesma forma, "os três mosqueteiros" é uma novela histórica de Alexandre Dumas, mas o personagem D'Artagnan se baseia no oficial mosqueteiro Charles de Batz-Castelmore, Conde de Artagnan (1611-1673), que morreu heroicamente na conquista de Maastrich pelas tropas do Rei Luis XIV, em junho de 1673; por sua vez, Atos, Portos e Aramis são inspirados por Armand d'Athos (1615-1643), Isaac d'Porthau (1617-1712), e Henry d'Aramitz (1620-1655?), também integrantes dos mosqueteiros de Luis XIV. Dumas desenvolveu sua novela baseado nas "Les mémoires de M. d'Artagnan: capitaine lieutenant de la première compagnie des Mousquetaires du Roi " (As memórias de Monsieur d'Artagnan, Capitão-Tenente da Primeira Companhia dos Mosqueteiros do Rei), publicado em 1701, por Gatien de Courtilz de Sandras (1614-1712), cuja obra era, na verdade, um romance biográfico, misturando elementos históricos do Capitão Castelmore com muita imaginação, com ficção e realidade tão intimamente entrelaçadas que é muito difícil separa-las.

 
Vale Tudo, 1988
Ainda, mesmo as novelas que declaradamente nos informam que "as situações apresentadas são fictícias e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência", podem nos ensinar muito sobre a realidade histórica em que foram produzidas. Odete Roitman, Raquel Accioly e Heleninha nunca existiram. Mas Vale-Tudo, reflete muito bem o Brasil no final dos anos de 1980, o vestuário, as expectativas, tensões políticas, sociais e econômicas, o estado de espírito de nosso País. As diferenças entre as versões de "O Astro" de 1977 e 2011, evidenciam as profundas transformações do Brasil no período.


Das Estórias para História, passando pela tradição


Atos de Filipe foi escrito, provavelmente, por um comunidade herética da Asia Menor do século IV, e o texto permite entender suas crenças e convicções - tais como vegetarianismo, celibato, e mulheres exercendo funções sacerdotais - que estavam dissônancia com as crenças mais ortodoxas. O manuscrito mais completo conhecido foi descoberto pelo Professor François Bovon, de Harvard, no Monastério Xenofontos, no Monte Atos. Bovon observa que os manuscritos conhecidos apresentam diferenças em seu conteúdo, com tendência de censurar os elementos mais heréticos do texto [6]. O texto atual parece uma compilação de blocos de narrativa, que podem ter sido compostos anteriormente. Bovon escreve:


"According to the last part of the work, The Martyrdom, it is in Ophiorymos that Phillip dies. It is also in Hieropolis of Phrygia that, according to witnesses dated as early as the second century C.E., Phillip's tomb was located. Veneration of Phillip seems to have been particulary intense in this part of the ancient world. As a location for the writing of the Acts of Phillip, thenm Asia Minor seems probable, even certain"
"Although Scholars suggest that the work was written in the fourth ou fifth century C.E, it is extremely difficult to assign a date to this work. Parts of the Acts of Phillip may be earlier than the fourth century. Some prayers and stories, for example, go back to the third if not second century C.E. Indeed the work is the result of a literary process that merged at leats two cycles of stories, one related to Phillip the evangelist of the canonical Acts (Acts of Phillip 3-7) and the other related to the apostle Phillip found in the Gospels and in the lists of Jesus' disciples (Acts of Phillip 8- Martyrdom). In the final version of the work, these two disciples constitute a single apostolic figure"[6]
(tradução) De acordo com a parte final do texto , O Martírio, é em Ophiorymos que Filipe morre. É também em Hieropolis da Frígia que, segundo testemunhos datados já no século II DC, o túmulo de Filipe se localizava. A veneração de Filipe parece ter sido particularmente intensa nesta parte do mundo antigo. Como lugar de composição de Atos de Filipe, a Ásia Menor parece provável, até mesmo certo "Embora os estudiosos sugiram que a obra foi escrita no quarta ou quinto século DC, é extremamente difícil atribuir uma data para este trabalho. Partes dos Atos de Filipe pode ser anteriores ao século IV. Algumas orações e estórias, por exemplo , são do terceiro, se não segundo século DC. Na verdade, o texto atual é o resultado de um processo literário que fundiu pelo menos dois ciclos narrativos, um relacionado a Filipe Evangelista dos Atos canônicos (Atos de Filipe 3-7) e o outro relacionados ao Filipe Apóstolo encontrados nos Evangelhos e nas listas dos discípulos de Jesus (Atos de Filipe 8 - Martírio). Na versão final do texto, estes dois discípulos constituem uma única figura apostólica.[6]


Desta forma, temos um texto que chegou a sua forma final no século IV ou V, e que é, basicamente, um romance ou novela histórica, compilado a partir de vários ciclos narrativos, um associado a Filipe apóstolo, ou a Filipe evangelista. No entanto, existem elementos na narrativa que são provenientes do século III, e mesmo século II. Allguns desses elementos, como a existência de uma Tumba de Filipe em Hieralópolis, já se encontram em tradições cristãs do século II.

Ou seja, embora existe a possibilidade de alguma memória histórica, as tradições sobre Filipe parecem muito mais complicadas de analisar historicamente do que outros textos antigos que costumamos abordar aqui no adcummulus como, por exemplo, os Evangelhos Sinóticos e os Atos do Apóstolos. Metodologicamente, como podemos proceder? É possível? Como?


Uma alternativa nos é oferecida pelo Professor James McGrath, da Buttler University, analisou recentemente as possibilidades de método histórico para análise de um escrito semelhante ao de Atos de Filipe, os Atos de Tomé, que narra a missão do apóstolo na India [7]. Ele observa que, enquanto os historiadores do cristianismo primitivo tendem a considerar Atos de Tomé como quase que totalmente irrelevante, aqueles cujo foco é a história da India tendem a utiliza-lo, uma vez que é uma das poucas fontes disponíveis [7]. McGrath propõe um equilibrio nas duas abordagens:


I would argue that behind the fictional Acts of Thomas there most likely lies a genuine historical kernel, namely the activity of Judas the Twin in India. Beyond that, the only way to determine whether any particular detail has historical value is to engage in painstakingly careful analysis of each and every person, place, and event, building on a broad foundational knowledge of both Indian and Syrian history. Although in the end it will almost certainly remain a largely fictional novel, embedded within the Acts of Thomas are certainly nuggets of historical gold waiting to be brought to light.
(tradução) Eu diria que por trás da [narrativa] fictíca dos Atos de Tomé provávelmente reside um núcleo histórico genuíno, ou seja, a atividade de Judas, o gêmeo na India. Além disso, a única maneira de determinar se algum detalhe em particular tem um valor histórico é se engajar na análise meticulosa e cuidadosa de cada pessoa, lugar e evento, com base em um amplo conhecimento das Histórias da Índia e da Síria. Embora no final é quase certo que ainda tenhamos um romance largamente ficcional, dentro de Atos de Tomas certamente estão escondidas pepitas de ouro de históricidade à espera de serem trazido à luz.


Tendo isso em mente, os elementos da tradição, representada em Atos de Filipe, conexos as notícias mais antigas da tradição, dos autores do século II, dos evangelhos e de Atos, são candidatos a possibilidade de historicidade. É são estes elementos da tradição que analisaremos aqui no adcummulus em um post futuro, junto com a eveidência arqueológica.

CONTINUA

Referências Bibliograficas
[1] Bible Archeology Staff (2012) Strata, “Philip’s Tomb Discovered—But Not Where Expected,” Biblical Archaeology Review, January/February 2012.
[2] Francesco D'Andria (2011), Conversion, Crucifixion and Celebration: St. Philip’s Martyrium at Hierapolis draws thousands over the centuries, Biblical Archeology Review (BAR), 37:04 julho/agosto de 2011
[3] Geza Vermes (2006). Quem é quem na época de Jesus, fl.78-79
[4] John P Meier (2001) Um Judeu Marginal, Livro 3, volume I, fls. 210-211
[5] Francesco D'Andria (2011), Conversion, Crucifixion and Celebration: St. Philip’s Martyrium at Hierapolis draws thousands over the centuries, Biblical Archeology Review (BAR), 37:04 julho/agosto de 2011
[6] François Bovon, "Women Priestesses in the Apocryphal Acts of Phillip" In Francois Bovon, Glenn E. Snyder (2009) New Testament and Christian apocrypha: collected studies II, fls. 246-247
[7] James McGrath (2008) History and Fiction in the Acts of Thomas: The State of the Question Journal for the Study of the Pseudepigrapha June 2008 17: 297-311.
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