
Não posso deixar de comentar a notícia publica pelo
NY Times sobre a recente descoberta de uma Estela na região da Turquia onde fica a atual cidade de
Zincirli (e onde ficava a antiga cidade de Sam´al), contendo uma inscrição mortuária
semítica referente à separação da alma do corpo. Uma outra variante da notícia pode ser encontrado no
PaleoJudaica. A notícia tem corrido o mundo dos biblioblogs (tais como o
Balshanut e o
NT Wrong, dentre outros), gerando variados comentários. Eu serei mais um destes.
Para aqueles que não sabem, a crença corrente entre os povos semíticos sobre o post-mortem era a de que a alma acompanhava o corpo em sua peregrinação para o mundo dos mortos (no caso dos israelitas e judaítas - o
sheol)! A estela de Sam´al, no entanto, datada do século VIII a.C. nos fornece uma outra perspectiva e abre um novo campo de investigações sobre o assunto, fazendo com que tal tema seja melhor esquadrinhado. A estela encontrada é basicamente uma lápide mortuária, elaborada ainda no período em que o sepultado se encontrava ainda vivo.
O texto assim diz:
"Eu, Kuttamuwa, servo de [o rei] Panamuwa, sou o único que supervisionou a produção desta estela para mim mesmo enquanto ainda estava vivo. Eu a coloquei em uma eterna câmara [?] E criou um banquete, nesta câmara: um touro para [o deus] Hadad, um carneiro para [o deus] Shamash e um carneiro para a minha alma que se encontra neste estela ".
A tradução para o inglês foi feita pelo Dennis Pardee, um professor de Civilização e Linguagem do Oriente Próximo na Universidade de Chicago. De acordo com ele, a palavra usado por Kuttamuwa em sua estela para alma é a palavra aramaica
nabsh. O alfabeto utilizado é o fenício, mas linguagem é aramaica. A representação pictórica da estela é também impressionante, dado que mostra um indivíduo barbado [Kuttamuwa, provavelmente] sentado em uma cadeira se alimentando de pão e tomando vinho. Tal representação nos dá indicações sobre a concepção post-mortem naquela região e contexto histórico. Mais impressionante ainda é o fato de que Kuttamawa afirmar que a sua alma se separou do corpo e agora reside ali mesmo na pedra da estela! O autor da estela faz referência a duas divindades:
Hadad e
Shamash. O primeiro é o conhecido deus da tempestade, Baal. Já o segundo é o deus semítico do sol.
Tal descoberta é realmente desconcertante para as até então concepções sobre o
post-mortem entre os semíticos. A concepção judaica antiga, por exemplo, era a de que os indivíduos, após sua morte, desciam ao reino dos mortos e dos túmulos e ficavam por lá em um estado enfraquecido de existência (perambulando desnorteados ou semi-adormecidos). A idéia de uma vida boa no
post-mortem entre os semitas, regada a boa comida e vinho, é realmente um achado inusitado. Mais além, nos dá informações sobre a separação entre corpo e a alma.
Muito do que se fala, por exemplo, sobre as concepções cristãs sobre o
post-mortem se referem à hipótese de uma incorporação de conceitos platônicos, quer nas primeiras gerações de cristãos, através da junção entre a filosofia grega e as escrituras, notadamente nos tratados de apologética e posteriores tratados teológicos, quer no próprio repensar conceitual judaico no pós-exilio babilônico, desenvolvido notadamente a partir do século III a.C. sobre as idéias de imortalidade da alma e da ressurreição dos corpos. Supostamente, a helenização advinda do império alexandrino e seus sucessores selêucidas e ptolomeus teria atuado como um
melting pot cultural, facilitando a incorporação dos conceitos platônicos sobre a alma.
A estela samaliana introduz todo um novo rumo na pesquisa sobre tais conceitos. Tudo terá que ser revisto, a partir de agora. Encontramos ali, três séculos antes de Platão, em uma cultura tipicamente semítica, a idéia desconcertante de que a alma de um morto se incorporou a uma tumba e lá vive em uma condição de abundância, separada de seu corpo original. É importante frisarmos que aparentemente há ali nesta cidade de Sam´al uma certa herança
cananéia misturada com a cultura
hitita, por fim sob domínio
assírio.
Ps 1 - Uma imagem em alta resolução da estela pode ser encontrada
aquiPs 2 - A apresentação oficial sobre os dados de Zincirli, feita por Dennis Pardee e David Schloen, acaba de ser comentada pelo blog
Biblia Hebraica.