Ela bate de frente com a perspectiva da formação paulatina
através do sincretismo e assimilação de idéias alheias as quais não encontravam
fundamento ou ressonância em períodos anteriores, emergindo assim destas
incorporações, uma configuração completamente nova em relação à matiz judaica
da igreja nascente.
Nesta postagem, trabalhei primeiramente com pontos de
retórica paulina, argumentando que ela adotava estratégias e pontes que
consistiam em “em reapresentar e/ou confrontar termos e formulações de
doutrinas ou pensamentos alternativos e/ou divergentes de maneira a usa-los
como apoio ao seu evangelho, como instrumento de demonstração do papel de Jesus
num quadro de pensamento mais amplo numa atividade fagocitária.” E mais adiante
afirmei que (...)”O autor de Efésios, na linha do ambiente de Paulo, utiliza a
mesma estratégia”.
Para poder ter uma visualização mais próxima, nesta postagem
agora debruçaremos especificamente em um documento importante no Novo
Testamento, emanado de e para um ambiente judaico helenizado. Já fora
mencionada na postagem sobre a qual comentara, que “Perspectivas, crenças e
expectativas judaicas que eram polêmicas para com o cristianismo poderiam ser
sujeitas do mesmo recurso tal como mencionamos em relação às outras linhas de
pensamento ou visões de mundo. O livro de Hebreus ilustraria isso através das
diversas
drashs -
'interpretação; descobrir o significado através da midrash, por comparação
palavras e formas e também por ocorrências semelhantes noutros locais'-
desenvolvidas envolvendo a figura de Melquisedeque, Moisés, os serviços rituais
do Templo...”

Este livro possui datação controversa, variando entre os
especialistas de ser dos meados dos anos 60 a última década do século I. Eu me
inclino a considerar ser de pouco após a destruição do Templo de Jerusalém. O
autor é ainda mais controverso, para o qual temos menos dados aproximativos
ainda e o grau especulativo é bem maior. É notório que se trata de algum judeu
helenizado e bastante culto, conhecedor de técnicas rabínicas de exegese e
exposição.
Já
foi apresentado aqui no blog um importante autor e pesquisador,
David Flusser, com um ímpar conhecimento de fontes judaicas do século I a.C., e
dos sécs. I e II. Em um importantíssimo trabalho [1], ele se debruça sobre a retórica e matiz hermenêutica do autor de
Hebreus.
Flusser apresenta uma série de discussões presentes em
Midrashs (sobretudo de Salmos como o 8, 22, 68, 84, 110), targuns aramaicos
(sobretudo do livro de Isaías e Zacarias), comentários presentes nos
manuscritos do Mar Morto, Documento de Damasco, Pergaminho de Ação de Graças, debates
entre rabinos e escolas rabínicas, em que se debate o papel e o grau do status
do Messias; em que são justapostas as figuras do Messias Sacerdotal, de
descendência levita e referenciando-se a Aarão, com o Messias de Realeza, referenciando-se
em Davi, com escolas diferentes exaltando um a mais do que outro. Discussões
envolvendo traduções e interpretações bíblicas, incluindo a versão da
Septuaginta, sobre interpretações diferentes dos status dos anjos, ante à
figuras importantes no imaginário judaico, como Moisés, Abraão, Davi,
Zorobabel, e o Messias, com diversas apontando o status superior deste. Também
com Melkizedeque, que é visto como uma figura de expressão de Deus, até mesmo
com um ser arquetípico da realeza davídica (Malkhi-Zedek = Rei de Justiça). Essas
figuras apareciam em diversas expressões, como mais exaltadas ontologicamente
do que qualquer outro ser humano, a nível acima do humano.
O autor de Hebreus teria se engajado então em toda essa
matiz, em que haviam debates contemporâneos a ele, que permaneceram por tempos,
mas também diversos textos atestando controvérsias anteriores, como os Salmos
de Salomão, que permaneciam fortes em seu tempo. Ele teria usado um método de
argumentação semelhante às discussões rabínicas, pegando o gancho para trazer
para discussões internas nas igrejas cristãs judaico-helênicas, com uma noção
nova, em que imagens e artes retóricas são tomadas de empréstimo de forma útil
para apresentar a superioridade de Jesus Cristo e seu papel elevado exaltado ao
lado de Deus. Combinaria já na glorificação de sua missão terrena o papel
presente do Mais Alto Sacerdote, junto com Deus, com sua obra presente, ainda a
ser consumada, de Grande Juiz e Rei sobre o cosmo. Sua eternidade com a
ressurreição, sua preexistência na hipóstase da “Sabedoria” de Deus, seu papel
de Filho ante aos ministradores e servos, o testemunho direto de Deus, são
motivos invocados ligados com passagens-chave dos debates.
Segundo Flusser (pg 38, 39),
Por um lado, o tema principal de Hebreus é a tentativa de
provar, a partir das Escrituras, que a nova dispensação é superior à antiga e
que, para esse propósito, o autor tenta persuadir seus leitores da vantagem de
Cristo como Filho de Deus sobre várias personalidades, instituições e criaturas
celestiais do Velho Testamento. Por outro lado, a justaposição não se origina
de uma luta espiritual entre a nova comunidade cristã e a velha comunidade de
Israel, ou um de seus grupos. Pelo contrário, o autor cristão toma, para sua
polêmica, material literário do judaísmo de seu tempo. Os próprios judeus, em
debates internos ou num esforço comum, estavam então discutindo o grau mais
alto ou mais baixo de personalidades bíblicas e criaturas celestiais.(...)
A fusão de idéias e motivos judaicos com a nova perspectiva
cristã é típica não apenas da Epístola aos Hebreus, mas também de todos os
escritos do segundo estrato do cristianismo.
(...)Temos de lembrar que nem todos os motivos usados no
cristianismo do Novo Testamento a fim de descrever o caráter divino de Cristo e
sua tarefa cósmica são especificamente cristãos. Muitos deles se originaram de
especulações judaicas sobre a pessoa e grau do Messias e figuras bíblicas, bem
como de outros theologoumena judaicos.
Outros pesquisadores de formação diversa detêm-se em pontos
específicos que ampliam nossa percepção a respeito deste trabalho no livro.
Christopher Richardson [2], PhD pelo Covenant Theological
Seminary, argúi a respeito da discussão do autor de Hebreus circundando a
figura enigmática de Melquisedeque, que sua discussão visa ao ponto de que “(...)Como
Melquisedeque , a quem 'não tem fim de dias' mas 'para sempre
permanece sacerdote', o sacerdócio de
Jesus também 'é dependente da....qualidade de vida' que ele possui
(78). No caso de Jesus , é vida ressurreta que é decisiva , já que ele se 'tornou-se um sacerdote ... através do poder de uma vida indestrutível' (7:16 , ver também 7:24-25)" .
Tratando da arte argumentativa do autor, Herbert W. Bateman,
professor de Novo Testamento no Southwestern Baptist Theological Seminary em
Fort Worth, Texas, faz [3] uma contribuição colocando as abordagens das Escrituras
pelo autor de Hebreus em paralelo com documentos de Qumrã e as
sete regrasexegéticas atribuídas a Hillel,
no que frisa a questão messiânica da realeza davídica.
Pamela Eisebaum [4] professora Associada de Estudos Bíblicos
e Origens Cristãs,no Center for Judaic Studies da Universidade de Denver, escreveu uma importantíssima dissertação em que ela expõe
sobre Hebreus 11, traçando paralelos com listas de heróis da Bíblia Hebraica,
da literatura judaica do século I e listas greco-romanas de heróis. Ela entrevê
alusões com retóricas em Aristóteles, Quitiliano, Isócrates e Cícero, deixando
evidente, contudo, a proximidade bem maior com as listas judaicas, ainda que em
sua complexidade, não fica nada a perder com a retórica helênica, que oferece
uma caracterização considerável, em sua multidimensionalidade, para o estudo do
capítulo, na estratégia de legitimação da comunidade cristã à qual o livro é
endereçado.
Análises de pequenas partes-chave do livro servem para
assentar de maneira mais opaca este vislumbre.
Craig Keener, Ph.D. na Universidade de Duke,
professor de Novo Testamento no Asbury
Theological Seminary, discorre sobre 2.10 [4]:
O termo archçgos, traduzido “autor”, ou “príncipe”,
significa “pioneiro”, “líder” ou “campeão”. O termo era usado para heróis
humanos e divinos, fundadores de escolas ou aqueles que cortavam um caminho
adiante para os seus seguidores.
Sobre 1.5, uma passagem-chave, Keener explica:
O autor cita
o Salmo 2.7 e 2 Samuel 7.14, textos que já haviam sido ligados a especulações
sobre a vinda do Messias (nos Manuscritos do Mar Morto). Os intérpretes judeus
frequentemente ligavam os textos por meio de uma palavra-chave comum; a palavra
aqui é “Filho”. Como muitos outros textos messiânicos, o Salmo 2 originalmente
celebrava a promessa para a linha davídica em 2 Samuel 7; a “geração” se refere
à coração real – no caso de Jesus, sua exaltação (cf. similarmente a At.
13,33).
Como ressaltado na postagem “Transculturalismo e retórica”,
esta estratégia abre campos de pesquisa ampliados sobre a retórica e
apologética no cristianismo nascente, com imensa demanda de pesquisadores e
trabalhos.
Há um amplo campo sob o escopo do que se mostra como um espectro de tentativas de pensar o divino e sua relação com o mundo à medida que se busca comunicar as convicções do cristianismo nascente acerca do papel de Jesus para com o a história e com o culto e seu papel redentor, de acordo com as matizes culturais do ambiente de vida da igreja nascente. Um marco em amplitude de abordagem e que abre diversos caminhos a serem explorados, dentro do que trabalhamos nesta postagem espeficicamente, relacionando com um ângulo alternativo, o impacto e reação dos rabinos e os reflexos e reações nos movimentos gnósticos, é a
obra de
Alan F. Segal, "
Two Powers in Heaven: Early Rabbinic Reports about Christianity and Gnosticism".