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sábado, 4 de fevereiro de 2017

O General Romano Pompeu, os Piratas da Cilícia, e as Políticas de Segurança Pública do Brasil

Faz uns dez anos, li uma coluna do jornalista Mauro Santyanna que falava de como o Pompeu, o Grande, subjugou os piratas da Cílicia, e como a combinação de uma ação repressiva resoluta do estado e a presença de liderança com sensibilidade social resolveu um dos maiores problemas de "criminalidade" da história antiga por séculos.Não acho mais o artigo do Mauro Santyanna em lugar nenhum, mas a idéia vai render um post.


A situação reflete um paralelo interessante com o estado da segurança pública no Brasil. Conforme dados referentes a 2015, constantes no Anuário Brasileiro da Segurança Pública de 2016, publicação do Forum Brasileiro de Segurança Pública. Segundo os dados apresentados pelo anuário 58.467 pessoas sofreram morte violenta - por homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte ou em  decorrência de intervenções policiais. A cada 9 minutos, uma pessoa morreu assassinada no Brasil em 2015 [1]. A publicação compara o número de mortes por assassinato no Brasil entre 2011 a 2015, estimadas em 279.567, com os 259.124 mortes verificadas na Guerra Civil da Síria em período equivalente [1]. Mais da metade dos cidadãos assassinados (54 %), tem entre 15-24 anos, e 73 % são negros e pardos. Além disso, se somam 45.460 estupros (um cada 12 minutos), cerca de um milhão de carros roubados ou furtados nos anos de 2014-2015[1]. O Brasil, em suas três esferas de governo, gasta R$ 76,3 bilhões com os custos da violência, ou 1,38 % do PIB. Disto resulta, que um país com cerca de 552 mil policiais, tenha quase o mesmo número de vigilantes ativos (519.014). A população, amedrontada, faz o que pode, e 76 % tem medo de morrer assassinado, o que resulta em profundo ressentimento em relação garantias e direitos fundamentais dos criminosos, 57 % acreditam que "bandido bom, é bandido morto"[1].

Mosaico de um Trieme romano, Tunísia. via wikipedia commons
Conforme Plutarco de Quironea, (45-120 DC), por volta do ano 75 A.C, o mediterrâneo estava infestado por piratas, que tinham sua base na região da Cilícia, sul da atual Turquia. Em face da lenta decadência do Império Seleucida, a partir do ano 150 DC, e da queda de Cartago após sua derrota nas  guerras punica, as condições se tornaram propícias para as atividades de pilhagem. Posteriormente, as duas primeiras guerras entre os romanos e Rei Mitridades VI do Ponto, nos anos 80 AC, contribuíram ainda mais para desestabilizar a região. 


Os dois principais relatos em relação a atividade dos piratas são o de Plutarco (Vidas Paralelas, Pompeu, 24-28), escrito por volta do ano 100 DC, e Apiano de Alexandria (95-165 DC), no livro 12, §91-96, de sua Historia Romana, escrito entre 120 a 160 DC [2]. Em face de não serem fontes contemporâneas dos eventos, são extremamente relevantes as alusões aos eventos e personagens contidos no Discurso de Marcos Tulio Cícero, Pro Lege Manilia, proferido em 66 AC [3]. Todos esses relatos concordam entre si nos seus fatos fundamentais, e sua historicidade será presumida à grosso modo nos seus elementos básicos. Abaixo serão transcritos e comentados partes do relato de Plutarco, sendo os demais relatos mencionados ocasionalmente, junto com as analogias a situação brasileira. Nos diz Plutarco:
(...) O poder dos corsários do mar, que começou nas costas da Sicília, do qual no começo não fizeram caso porque não se aperceberam, veio a tomar corpo e aumentar no tempo da guerra contra o rei Mitridates, quando se alugaram aos serviços desse rei. E os romanos, impedidos com suas guerras civis e combatendo entre si às portas da cidade de Roma, deixando o mar sem guarda, isto levou os corsários adiante em seus propósitos e deu-lhes coragem para ir além do que já haviam feito, de sorte que não somente destruíam os navegantes, indo e vindo pelo mar como forçavam também as ilhas e cidades marítimas, pelo que já havia até homens opulentos e de antiga nobreza, e que eram tidos como pessoas conceituadas, que embarcavam em navios dos corsários e se uniam a eles, como se a pirataria se tivesse tornado louvável e honesta,[2]

Neste interim, os piratas da Cílicia se tornaram extremamente organizados e apresentavam um desafio para os governos do Mediterrâneo Oriental, nenhum dos quais com condições navais de opor-se a eles. As comunidades tiveram que firmar acordos e fazer concessões aos piratas. Além disso, como observa o Professor Jona Lendering, "desesperados de todos os países afluiram para aquelas regiões, e começaram nova vida como piratas"[4] , uma vez que as constantes guerras deixaram regiões inteiras em ruína econômica, como a ilha de Creta. Por fim, além da pilhagem de navios e cidades costeiras, os piratas passaram a ter como sua principal atividade o tráfico de escravos, e seus cativos eram vendidos em mercados como Delos. Nesta época, Roma demandava grande e crescente quantidade de escravos, já que, na Italia, as grandes fazendas dos senadores e cavaleiros precisavam de mão de obra intensiva (com o inconveniente adicional dos escravos retirarem as oportunidades de trabalho dos romanos livres). Sendo assim, Roma evitou o quanto pode confrontar os piratas. Semelhantemente, no Brasil do sec. XXI, o crime organizado se beneficia das fraquezas dos governos estaduais, (a maioria não capacitada para enfrenta-lo), da falta de perspectivas econômicas, (após várias décadas perdidas), de populações empobrecidas e com pouca chance de absorção no mercado de trabalho, e das conveniências do sistema politico e econômico que frequentemente se beneficia do crime organizado, na forma de suborno ou apoios políticos, e estabelece alianças tácitas ou explicitas.

Levantaram os piratas, em vários lugares, arsenais, portos e torres de vigia para fazer sinais com fogo ao longe, das praias fortificadas, e além disso, formaram-se frotas de navios, compostas não somente de bons e fortes galeões para o remo, com pilotos astutos e marinheiros espertos, com navios ligeiros para servir na ocasião precisa, mas também enfeitados profusamente, o que os tornava odiados mais ainda pela sua superfluidade, não temendo o perigo de suas forças; pois tinham as popas de suas galeras todas douradas, os tapetes e cobertores de púrpura, os remos prateados,’ como se tivessem prazer em fazer demonstração de sua pilhagem. Não se viam nem se ouviam por todos os lados das costas senão sons de instrumentos de música, canções, banquetes e festins, prisões de capitães e de pessoas de qualidades, resgates de mil prisioneiros, todas aquelas coisas se faziam, para a desonra e vergonha do povo romano. Possuíam já uns mil navios e já haviam tomado umas quatrocentas cidades, onde destruíram e roubaram vários templos, que até então jamais haviam sido poluídos nem pilhados, como o dos Gêmeos na ilha de Claros, o de Samotrá-cia (23), o de Ceres na cidade de Hermíona, de Esculápio em Epidauro, os de Netuno em Istmo, em Tanara, e na Calábria, os de Apoio em Actium, na ilha de Leucá-dia, os de Juno em Samos, em Argos e na Leucânia.

Além de organizados, bem armados e insolentes, os piratas se tornavam cada vez mais ousados. Possuiam uma frota poderosa, tripulações capacitadas e seus cofres eram irrigados com crescente fluxo de recursos de suas atividades. Possuiam 1000 navios e exerciam domínio sobre 500 cidades. Neste ponto, pode ser estabelecida outra analogia com a criminalidade brasileira. O domínio efetivo de amplas porções de território urbano, principalmente nas periferias e comunidades pobres, em geral desprovidas de serviços públicos e atuação do estado. Em Porto Alegre, por exemplo, facções criminosas dominam 38 dos 83 bairros, segundo reportagem do G1. como nos relata Plutarco:

 Além das insolências e injúrias que esses piratas faziam aos romanos sobre o mar, ainda desembarcavam em terra e iam espreitar os caminhos, arruinando e destruindo suas casas de campo, que se encontravam ao longo das praias e capturaram uma vez dois pretores romanos, Sextílio e Belino, vestidos com seus longos trajes de púrpura e acompanhados de seus sargentos e oficiais. Também foi assaltada por eles a filha de Antônio, personagem que havia recebido as honras do triunfo, quando ela ia para os campos, tendo sido resgatada por uma grande quantia de dinheiro; mas onde demonstravam mais desdém e sarcasmo, era quando aprisionavam alguém que se punha a reclamar, dizendo ser cidadão romano e dava seu nome; então eles fingiam estar admirados e ter grande medo; batiam as mãos sobre as coxas dos prisioneiros e se punham de joelhos diante dele, suplicando que os perdoasse. O pobre prisioneiro, pensando que essa comédia era sincera, vendo-os humildes e disfarçando tão bem assim, vinham alguns que lhe punham sapatos nos pés e outros que o vestiam com um traje longo à moda romana, para que, diziam eles, não fosse outra vez estranhado; depois, quando haviam zombado bastante dele, no que sentiam grande prazer, finalmente, em alto mar, atiravam fora do navio uma escada e mandavam que o prisioneiro descesse e fosse em boa hora; e se não quisesse descer por si mesmo, eles o atiravam à forca no mar e o faziam assim afogar. Com o seu poder, os ladrões ocupavam e tomavam inteiramente o mar Mediterrâneo em sua sujeição, de tal forma que não havia mercador que pudesse por ali navegar [2].
Denário com efigie de Gneu Pompeu , via wikicommons
A situação, porém, só começou a assustar Roma realmente, no momento em que suas elites começaram a se sentir ameaçadas. Primeiro o risco físico, Plutarco relata como dois Pretores foram capturados. Para tornar a situação mais humilhante, os magistrados estavam acompanhados de seus oficiais (lictores). Destruiam as casas de campo dos ricos, e sequestravam seus familiares. Solicitavam vultosos resgates. Matavam cruelmente cidadãos romanos. Tais fatos forçaram as elites romanas a uma reação, os riscos agora se tornavam palpáveis. Além disso, o comércio marítimo se tornou inviável  e os preços do trigo e outros cereais - dos quais a Itália não produzia em quantidade suficiente, dependendo de importações do Norte da África - disparou, desestabilizando os fundamentos econômicos da República (Apio é mais explicito, e diz que alguns romanos já passavam fome). É possível uma analogia com a situação atual do Brasil, traficantes queimam ônibus com frequência, e, as vezes, com seus passageiros, Os custos da criminalidade impactam pesadamente os cidadãos e o setor produtivo. Dados recentes, indicam que no Rio de Janeiro transportadoras empregam até 20% do orçamento em segurança.

No ano 67 AC, o povo, desesperado, recorreu ao Senado. Surgiu a proposta de dar poderes extraordinários ao  general mais habilidoso de Roma, a época, Gneu Pompeu, o Grande (106-48 AC):

Isto foi a principal causa de agitação dos romanos, temendo a necessidade de víveres e augurando carestia e fome. fazendo-os enviar Pompeu para tomar o domínio do mar a esses corsários; e quem primeiro levou avante o propósito, foi Gabínio, um de seus familiares» que não lhe queria dar por edital somente a autoridade de um almirante ou comandante da marinha, mas o poder de uma monarquia soberana sobre todas as espécies de pessoas, sem estar sujeito a prestar contas, nem depois sindicado pelo que teria feito no cargo; pois o teor do edital lhe dava plenos poderes para comandar soberanamente em todos os mares, desde as colunas de Hércules e em toda a terra firme nos arredores, até vinte e cinco léguas atrás do mar (Havia então poucos países sob o domínio romano, que ficavam mais afastados, mas estavam compreendidos ali grandes nações e príncipes poderosos). Com vantagem deu-lhe também o direito de escolher de entre os do Senado, quinze tenentes para dar a cada um os cargos que bem quisesse e receber dinheiro do tesouro ou das mãos dos coletores, para manter a frota de duzentas velas, e com todo o poder de levar quantos guerreiros e quantos galeões e remadores lhe aprouvesse. Esta proposição, tendo sido lida publicamente, o povo aprovou e autorizou-a com prazer; mas aos principais do Senado, pareceu que aquilo lhe dava um poder que não suplantava somente todo o desejo mas lhe infundia grande temor, em dar assim a um particular uma autoridade tão absoluta e tão pouco limitada [2];

Os poderes que seriam concedidos a Pompeu, segundo a proposta inicial, do Tribuno do Povo Aulo Gabínio, eram superiores até mesmo ao dos ditadores na República Romana, ainda que com escopo mais específico. Como já observamos aqui no AD Cummulus, na República Romana, em situações de grave crise ou iminente perigo para o estado, um ditador poderia ser eleito. Era um magistrado com poderes amplos e excepcionais, com ascendência sobre os consules, o senado e demais oficiais. Para que não fosse tentado a se perpertuar no poder e/ou tornar-se um tirano, seu mandato era limitado a seis meses, devendo prestar contas de seus atos quando deixasse o poder. A proposta de Gabinio era de transformar Pompeu em uma espécie de ditador maritimo, com domínio sobre o Mediterrâneo e áreas costeiras, até cerca de 50 km do mar, só que, diferentemente de outros magistrados que exerciam a figura de Ditador, Pompeu não teria de prestar contas de seus atos posteriormente. Tal proposta constituía um risco muito grande para a República e as garantias dos cidadãos romanos. No entanto, conforme Plutarco, o povo aprovou eloquentemente, tal o desespero que a situação provocava. Da mesma forma, no Brasil, é crescente a pressão por medidas de força na área criminal, independente de sua efetividade. 
    
 por esta razão todos se opuseram, exceto César, o qual favoreceu o projeto, não que se preocupasse em dar prazer a Pompeu, mas porque então já procurava insinuar-se nas boas graças do povo; mas houve outros que apertaram e repreenderam gravemente Pompeu, chegando um dos cônsules a censurá-lo por querer seguir os passos de Rômulo, e advertindo-o a que não procurasse o mesmo fim que ele. O povo desejou até espancar esse cônsul por isto. Catulo apresentou-se em seguida para falar contra; o povo, de início, deu-lhe pacífica audiência, porque era uma pessoa venerável; começou ele por deduzir, sem nenhuma demonstração de inveja, muitas e belas coisas em louvor de Pompeu, e por fim, aconselhou o povo a poupá-lo e não expô-lo ao perigo de tantas guerras, umas sobre as outras, a um personagem como êle, que lhes devia ser tão querido: — "Pois se vós vindes a perdê-lo, disse êle, a quem podeis em seu lugar?" O povo então exclamou bem alto: —"Tu mesmo". Vendo então que perdia seu trabalho procurando desviar o povo desse propósito, saiu. Róscio apresentou-se depois procurando falar também, mas não pôde nem conseguir audiência; e vendo que não queriam ouvi-lo de outra forma, mostrou por sinais com os dedos que não deviam entregar esta responsabilidade a Pompeu só, mas também a um outro com êle. O povo, não gostando, pôs-se a gritar tão forte, que um corvo, voando na ocasião por cima, caiu entre a multidão; por onde se pode compreender que os pássaros caem do ar na terra, não porque o ar, agitado por alguma veemente concussão se rompa e venha a fender-se; mas porque o golpe da voz, quando é tão forte e tão violento, produz como que uma tormenta no ar, os atinge e abate [2].

A oposição entre o anseio do povo por mais segurança e o desejo dos políticos pela manutenção do status quo chega ao auge. Não nos referimos ao Brasil, por óbvio, mas ao relato de Plutarco sobre as medidas a serem adotadas para conter os criminosos. Júlio César é o único dos principais  senadores a apoiar a medida, não pelo interesse público, mas para cortejar o povo e Pompeu. No entanto, apesar das motivações apontadas por Plutarco, César, cerca de 10 anos antes, já havia tido uma experiência com aqueles mesmos piratas. Foi sequestrado quando seu navio passava pela Ilha de Rodes, e ficou em poder dos piratas por cerca de 40 dias. Seus companheiros de viagem foram enviados para recolher 50 talentos, para seu resgate. César manteve um relacionamento amistoso com seus captores, e "brincava" que seria misericordioso com eles quando os derrotasse. Libertado, César contratou um frota, prendeu aqueles piratas e os mandou crucificar, mas para cumprir sua promessa, cortou suas gargantas antes [5]. Seja como for, o apoio de César foi bem vindo, uma vez que os lideres do Senado, tais como os poderosos Quinto Lucácio Catulo e o tribuno Lúcio Roscio Oto se recusaram a apoiar a proposta.

Nesse dia a assembléia foi dissolvida sem ficar nada concluído e na data prefixada para passar o decreto pelas vozes e sufrágios do povo, Pompeu foi para os campos, onde recebeu a comunicação de que havia sido autorizado, voltou e entrou de noite na cidade para evitar manifestações de inveja contra ele, devido a multidão que acorreu de todas as partes da cidade à sua frente e que o acompanhou até sua casa. No dia seguinte, cedo, saindo em público, sacrificou aos deuses, e sendo-lhe dada audiência em plena assembléia, fez que ajuntassem ainda muitas coisas ao seu poder, o dobro quase do que lhe havia sido concedido no primeiro decreto; pois obteve que o público lhe armasse quinhentos navios e levasse cento e vinte mil combatentes a pé e cinco mil a cavalo; escolheu mais, dentro do Senado, vinte e quatro personagens, os quais haviam sido todos governadores e com encargos de armas e também dois tesoureiros gerais.   Nesse ínterim,  os vivedores de aventuras se encolheram, pelo que o povo ficou à vontade, tendo ocasião de dizer que só o nome de Pompeu havia amortecido aquela guerra [2]. 

Na República Romana, as leis eram, tecnicamente, aprovadas pela Assembléias, formadas pelos cidadãos romanos, Cabia ao Senado a análise prévia das leis  a serem submetidas a aprovação e orientar os magistrados quanto a sua aplicação. No caso, a assembléia "atropelou" as reservas e oposição do Senado. Enquanto os senadores se questionavam quanto a conveniência de uma ação decisiva contra os piratas, com o inconveniente de prejudicar o tráfico de escravos e concentrar poderes sobre Pompeu, o povo levou em conta o risco palpável de morrer de fome em face da escassez e aumento do preço do trigo pela ação dos piratas. Os ricos tinham opções, os pobres não. Semelhantemente, no Brasil do século XXI, os ricos contratam seguranças, vivem em condomínios fechados e blindam carros. Como observa Alon Feuwerker "(...) Os pobres são, ao contrário, quem mais precisa do aumento da capacidade de dissuasão do Estado contra o crime. O pobre não mora em condomínio fechado, não tem segurança particular, não usa carro blindado. Nem o pobre nem a classe média. O pobre, aliás, volta para casa muitas vezes a pé em ruas sem iluminação. Quem está mais sujeita a ser estuprada e morta na volta da escola ou do trabalho? A filha do rico ou a filha do pobre? Quem tem mais probabilidade de morrer num assalto ao ônibus em que viaja? O filho do rico ou o filho do pobre? [6]

Foi aprovada a Lei Gabinia,  que deu o dobro dos recursos que o Senado hesitara em conceder. A mobilização do estado seria integral, como típico de Roma em momentos em que a sobrevivência do estado era ameaçada. Plenos poderes foram concedidos a Pompeu (por três anos, no relato de Apiano), o marco legal da República foi alterado, para compatibilizar com os poderes extraordinários concedidos. recursos do Tesouro Romano foram disponibilizados. Pompeu tinha agora um exército de 120 mil de infantaria, 5 mil cavaleiros, e 500 navios (segundo Apiano, 4 mil cavaleiros e 270 navios, mas tanto é possivel que tanto a esquadra de Pompeu, qunato a dos piratas tenha sido exagerada). Sabiamente, Pompeu escolheu 24 senadores experientes, que já haviam governado provincias,  para dividir as responsabilidades e auxília-lo, além de sinalizar seu respeito pela ordem estabelecida e que não tentaria subverter a República. Alguns desses oficiais são mencionados por Apiano.


Assim, dividiu o mar entre terras, em treze regiões em cada uma das quais ordenou um certo número de navios com um de seus tenentes; e, tendo espalhado suas forças, envolveu dentro de suas redes todos os navios dos corsários que se achavam juntos, aprisionou-os e os fez vir para terra; mas aqueles que em boa hora debandaram ou que puderam escapar dessa caçada geral, foram todos se esconder na Cilícia, nem mais, nem menos como as abelhas na colméia, contra os quais quis ir ele mesmo pessoalmente com sessenta dos melhores navios; todavia, não se preparou para ir sem que primeiramente tivesse limpo todo o mar da Toscana, as costas da Líbia, da Sardenha, da Sicília e da Córsega, de todos esses ladrões, que anteriormente aí costumavam pilhar, o que foi feito no espaço de quarenta dias, mediante o trabalho que teve e a boa diligência que tiveram também seus tenentes [2].
Ulisses e as sereias, mosaico no Museu Nacional do Bardo, Túnis, Tunisia,
século II DC, via wikicommons
Os piratas atuavam em quase todo Mediterrâneo, de forma descentralizada. Pompeu então dividiu seus navios em 13 distritos, que passaram a atacar localmente o criminosos, que não tiveram tempo de se reagrupar, sendo assim cercados e derrotados. Primeiro as regiões mais próximas de Roma, depois  as grandes ilhas vizinhas da Itália, Sicília, Córsega e Sardenha, e em seguida as costas da Líbia, no outro lado do mar. Em quarenta dias, Pompeu havia desarticulado os piratas que ameacavam as rotas vitais de cereais provenientes do Norte da Africa até Roma.

Plutarco continua seu relato, contando um pouco da política em Roma, Cornélio Piso, um dos cónsules, tentou minar a posição de Pompeu, mas foi contido por Auleo Gabínio. Pompeu voltou brevemente a Roma, onde foi aclamado pelo povo, para organizar a fase final da campanha, atacando os piratas em sua base na Cilícia.

Tendo aprisionado alguns corsários daqueles que se achavam ainda juntos, pilhando o mar aqui e acolá, tratou-os humanamente quando pediram perdão, e tendo seus navios e suas pessoas em seu poder, não lhe fez mal algum, pelo que seus companheiros, com esperança, fugiram aos outros capitães, assim como seus tenentes e foram entregar-se a ele com suas mulheres e filhos. Pompeu perdoou a todos os que se entregaram voluntariamente, e assim veio a descobrir e a seguir o rasto dos outros, que aprisionou afinal, os quais se sentindo culpados de casos irredimíveis, esconderam-se; todavia, o maior número desses, os mais ricos e mais poderosos, haviam retirado suas mulheres, seus filhos, seus bens e todo o seu povo inútil para a guerra, para dentro dos castelos e pequenas fortalezas do monte Tauro, e aqueles que eram aptos para defesa, embarcaram em seus navios diante da cidade de Coracésio onde esperaram Pompeu e lhe deram combate, no qual foram derrotados primeiramente no mar, depois sitiados em terra; mas pouco depois pediram que os tomasse a seu favor e se entregaram com suas cidades, suas ilhas fortificadas, de sorte que estas eram bem difíceis não somente de serem não só forçadas, como também abordadas. Assim, esta guerra foi terminada e todos os corsários, em qualquer parte ou lugar em que estivessem, foram expulsos fora do mar no espaço de três meses, não mais. Aí ganhou ele grande número de navios, além de noventa galeras armadas (...);[2]

Segundo Plutarco, Pompeu mostrou-se clemente com os piratas que se entregavam. Isso acabou incentivando a deserção entre eles, que cada vez mais se reduziam em número de combatentes. Os que se entregavam traziam informações importantes sobre o inimigo. Em algum tempo, os remanescentes foram derrotados no mar e em terra.  A abordagem de Pompeu foi tão engenhosa como atípica para os comandantes romanos, que na repressão a movimentos de rebelião costumavam ser extremamente cruéis.  Pouco anos antes, em 71 AC, Marcus Licínio Crassus havia derrotado os escravos rebeldes comandados por Espartaco, e mandado crucificar 6 mil dos insurgentes as margens da Via Appia, entre Roma e Cápua  (uma das mais importantes estradas romanas), para que seus restos fossem vistos por meses e anos [7], no relato de Apiano [8]. Cerca de 60 anos depois, Flávio Josefo narra que Quintilio Varo crucificaria, praticamente sem critério, 2 mil judeus na revolta após a morte de Herodes [9]. Tipicamente, os romanos buscavam expor o máximo possível os individuos condenados por pertubarem a ordem pública. A exibição das mortes cruéis dos criminosos era um mecanismo de disuasão. Como observa o Professor Bart Erhman, da Universidade da Carolina do Norte, em relação a crucificação, se o Central Park (Nova Iorque) fosse território romano, e houvesse problemas com roubos de carro, as autoridades romanos crucificariam um punhado de ladrões de carro nas imediações, para que todos vissem, e aí veríamos quantos ousariam roubar uma BMW depois disso [10]. A estratégia de Pompeu, embora possa ter parecido estranha para os líderes romanos, uma ruptura com a abordagem anterior e posterior, foi eficiente e inteligente. Em três meses, os piratas haviam sido totalmente subjugados.

Os altos níveis de violência no Brasil, tem facilitado a proliferação de idéias que visam negar qualquer tipo de direito humano básico aos criminosos. Adicionalmente, tal percepção é muito forte no aparelho repressivo do estado. No entanto, do que adiantou? Em suas abordagens, as forças políciais brasileiras matam 5 pessoas a cada dia, cinco vezes mais que nos EUA, ainda que os indíces de criminalidade nos Estados Unidos sejam muito inferiores. A vida dos policiais também não é segura. No Estado do Rio de Janeiro, 3 mil policiais morreram em serviço entre 1994 e 2016, ou 3,59% do efetivo empregado, maior que a chance de ser morto entre os soldados do Exército Americano nas duas guerras mundiais. No mesmo período, mais de 14 mil policiais foram feridos. É 765 vezes mais fácil você ser ferido servindo na polícia do rio do que estando em guerras".

e, quanto às pessoas, que eram mais de vinte mil, não pôs somente em deliberação se as devia fazer morrer, mas deixou-as ir e afastar-se à vontade, ou então se reunirem, visto serem em tão grande número, acossados pela pobreza e todos guerreiros, que não lhe pareceu que condená-las fosse sabiamente feito. Ainda mais, discorrendo consigo mesmo, que o homem por sua natureza não é indomável nem feroz, mas ao contrário, que sai fora de seu eu e de seu natural, quando se dá ao vício e que se habitua pouco a pouco, com a mudança de lugar e maneiras de viver; atendendo que os animais mesmo que por sua natureza são selvagens e ferozes, se suavizam bem e se despojam de sua altivez natural, quando habituados, pouco a pouco a uma vida mais suave, resolveu transportar esses corsários do mar para a terra e fazê-los ter a vida justa e inocente dos moradores das cidades e lavradores da terra. Alojou alguns dentro de algumas pequenas cidades dos cilicianos, que eram meio desertas, e que por esta causa os receberam voluntariamente, dando-lhes terras para os alimentar. Também a cidade dos solianos havia antes sido destruída e despovoada por Tigranes, rei dos armênios; querendo levantá-la, aí deixou um grande número desses homens e logrou igualmente colocar diversos na cidade de Dima no país de Acaia, que então tinha falta de habitantes e possuía grande quantidade de belas e boas terras[2]

Pompeu, tenho subjugado totalmente os piratas, tem que decidir o que fazer com eles. Sua primeira observação é de que são seres humanos, semelhantes a ele e aos romanos. É fácil esquecer a humanidade de nosso inimigos, e de criminosos mais ainda. A natureza humana faz pessoas serem capazes de matar, roubar e impor sofrimento por lucro, mas em muito maior proporção a constituir famílias, criarem filhos, viverem em sociedade, trabalhar e seguir leis, e que as circunstâncias passadas e o ambiente presente são determinantes. Entende também que, ainda que, seus inimigos fossem feras e não humanos, poderiam ser domesticados. Sendo assim, Pompeu arrisca em transformar esses criminosos, e suas famílias, em colonos.  No Brasil, com todos os problemas do sistema carcerário, algumas experiencias, como as APACs (Associação de Proteção e Assistência aos Condenados) tem conseguido - pela combinação de trabalho, estudo, religião, projetos sociais - recuperar a maioria dos presos, a custos significativamente menores. Na experiência internacional, a Noruega chega a recuperar 80 % dos presos.

A aposta de Pompeu rendeu frutos e a pirataria seria reduzida drasticamente no Mediterrâneo por séculos, as rotas marítimas floresceram e o comércio internacional prosperou. A combinação entre políticas repressivas, com total mobilização dos recursos do Estado, com o entendimento da realidade social e da natureza humana dos agressores e políticas sociais adequadas foi o segredo do sucesso.  Os ex-piratas recebem terras em áreas desertas da Cilícia  e fundaram os assentamentos de Malo, Pompeiopolis (em homenagem a Pompeu), Epifanéia (atual Hama) e Adana, cidade vizinha a Tarso, onde algumas décadas depois nasceria um judeu romano chamado Saulo, ou Paulo de Tarso, que, um século depois, aproveitaria o Mediterrâneo livre de pirataria para fazer suas viagens missionárias e levar a semente do cristianismo  da Judéia a Espanha. Talvez tenha pensado nos mares em que se circulava  livres de pirataria, protegido pela ordem romana,  como parte da "plenitude dos tempos", preparada por Deus, para enviar seu filho ao mundo (Gl. 4:4). Os piratas seriam relevantes nos séculos seguintes pois, segundo Plutarco, "(...) ofereciam estranhos sacríficios sobre o Monte Olimpo, e realizavam certos ritos secretos, dentre os quais os mistérios de Mitras foram preservados até os hoje, tendo sido instituidos previamento por eles (...). [2] Mas essa, é outra história, que os leitores podem conferir aqui mesmo no Adcummulus, em nossa série sobre Mitras.

Referências
[1] Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2016, fls 6-7. Fórum Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo http://www.forumseguranca.org.br/storage/10_anuario_site_18-11-2016-retificado.pdf, acessado em 17.01.2017.
[2] Plutarco de Quironeia, Vidas ParalelasPompeu, 24-28, tradução em português em http://www.consciencia.org/roma-antiga-pompeu-vidas-paralelas-plutarco/4, e Apiano de Alexandria,  Historia Romana, livro 12, §91-96, http://www.livius.org/articles/person/appian-of-alexandria/?, acessados em 03.02.2017
[3] Marco Túlio Cicero, Pro Lege Manilia, http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus%3Atext%3A1999.02.0019%3Atext%3DMan.%3Achapter%3D1%3Asection%3D1 , acessado em 02.02.2017
[4] Jona Lendering (2015) Cilician Pirates, http://www.livius.org/articles/people/cilician-pirates/?,  artigo de 2001, revisado em 2015, acessado em 30.01.2017
[5] Suetônio, Vidas dos Césares, Julio César 4.1 e 74.2, acessado em 01.02.2017
[6] Alon Feuwerker (2007) Falsa defesa dos pobres, de 14,2.2007  http://www.blogdoalon.com.br/2007/02/ricos-e-pobres-1402.html, acessado em 02.02.2007.
[7] Jona Lendering (2016) Spartacus, http://www.livius.org/articles/person/spartacus/, artigo de 2002, revisado em maio de 2016, acessado em 02.02.2017
[8] Apiano de Alexandria, Guerras Civis, 1:120 http://www.livius.org/sources/content/appian/appian-spartacus/, acessado em 02.02.2017
[9] Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 17.286 http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus%3Atext%3A1999.01.0146%3Abook%3D17%3Asection%3D286, acessado em 02.02.2017.
[10] Bart Erhman (2000) Jesus, Apocaliptic Prophet of the New Millenium, fl. 223, via googlebooks

sábado, 31 de agosto de 2013

Mitra, Mitras, Mitraismo, Jesus e Cristianismo - Existem Paralelos? - Parte III - Mitraismo Romano e Zoroatrismo

Taq-e Bostan: Alto Relevo da investidura de Ardeshir II (379-383 DC),
Mitra (esquerda), Shapur II e Ahura Mazda (direita), sobre o corpo caido
 do Imperador Juliano. Via Wikipedia Commons, foto de Phillipe Chavin 
O deus persa Mitra e a religião de mistério  Mitraismo são citados frequentemente, e na internet principalmente, como inspiração para a vida de Cristo. Contudo, na grande maioria das vezes não são citadas as fontes dessas afirmações, e quando são, consistem em textos exóticos, teorias da conspiração ou muito antigas (século XVIII ou XIX). Mas, existe algum fundamento nessas afirmações?  Continuando nossa série: vamos tentar responder a pergunta: 
O deus mitra no Zoroatrismo e as origens do Mitraismo Romano




Um dos argumentos usados para dizer que os cristãos usaram Mitra como modelo da vida de Jesus, e de que ele é uma divindade antiga, adorada na antiga religião persa e no hinduismo muitos séculos antes do cristianismo.

Contudo, o que sabemos sobre o deus Mitra no Zoroatrismo, e no culto mitraista do Império Romano? Existiam diferenças entre um outro? Eram significativas? E quando são apontados paralelos, eles existem mesmo? E se existem se referem ao Mitraismo Romano ou ao Mitra zoroatrista/hindu? Ou ambos?

Para essa pergunta, temos duas formas de responder. Uma curta, e a outra longa. Em poucas palavras, podemos citar o Professor Manfred Clauss "Não podemos descrever o Mitras Romano em termos emprestados do Mitra Persa". As razões dadas por Clauss e vários outros estudiosos fazem parte da resposta longa, abaixo, para qual convido os leitores do adcummulus.

Professora Alison Griffith, da Universidade de Canterbury (Nova Zelândia), relata como os primeiros estudos das origens dos Místerios de Mitras insistiam na continuidade a partir da divindade Mitra do panteão zoroatrista. 
The precise relationship between the Roman cult of Mithras as it developed during the empire and the Mitra and Mithra of the Hindu and Zoroastrian pantheons, respectively, is unclear.The theory that Roman Mithraism had its roots in Zoroastrianism was first put forward by Franz Cumont, (...)publication Textes et monuments figurés relatifs aux mystères de Mithra in 1896 and 1899. Cumont compiled a catalogue of every known mithraic temple, monument, inscription, and literary passage relating to Mithras and claimed on the basis of his study of this body of evidence that Roman Mithras was, ultimately, Zoroastrian Mithra. (Tradução): A relação precisa entre o Culto romano a Mitras desenvolvido durante e o Império e  Mitra dos panteões Hindu e Zoroatrista, respectivamente, é incerta. A Teoria de que o Mitraismo Romano teve suas origens no zoroatrismo foi primeiramente apresentada por Franz Cumont (...) a publicação Textes et monuments figurés relatifs aux mysteres de Mithra em 1896 e 1899. Cumont compilou um catálogo de cada mitrario, monumento, inscrição e passagem literárias relativas a Mithras e argumentou com base em seu estudo que o Mitras Romano era, ao fim e ao cabo, o Mitra do zoroatrismo.[1]
No Zoroastrismo, Mitra é um dos Yazatas, ou seja, um dos seres divinos criados por Ahura Mazda, para auxilia-lo na luta contra os poderes das trevas, e, portanto, dignos de veneração e louvor. Como já descrito pelo Professor Richard Gordon, da Universidade de Erhfurt  a devoção a Mitra foi introduzido no mundo ocidental e mediterrâneo, na região da Anatólia (atual Turquia), durante a expansão do Império Persa Aquêmida, no século VI AC [2]. Com a derrota dos persas, e a efetiva destruição e conquista de seu Império por Alexandre Magno, a lembrança do deus persa se esvaiu, não tendo restado evidências de culto instituicionalizado ou de  grandes templos erigidos em sua honra durante o período helenístico, embora sua lembrança tenha sido mantida em âmbito privado, entre a diáspora iraniana [2]. Gordon observa, e veremos o porque adiante, que "(...) é improvável que algum dia haja evidência suficiente para preencher a lacuna entre o Mitra iraniano, conhecido basicamente através do Hino Avesta (Yast) in sua honra, composto entre 450-400 AC, e o culto romano a Mitras/Mitres Muitos tentaram - este é um dos pontos nevralgicos do estudo do Mitraismo - mas não nenhuma evidência genuina e incontestávelmente relevante"[2]

Uma das tentativas, e que foi a proposta dominante até cerca de 40 anos atrás, foi a tese do Professor Franz Cumont (1868-1947), que teve o mérito de prover uma explicação coerente para o desenvolvimento dos Mistérios de Mitra, que ele chamava "Mazdeismo Romano" baseado na evidência arqueológica disponível no início do século XX. Conforme sumário do Professor Roger Beck, da Universidade de Toronto em Mississauga (Canadá), em artigo na Encyclopaedia Iranica[3], Cumont propunha que
For Cumont, Mithraism in the West was Romanized Mazdaism, thus still at its core a Persian religion, though one which had undergone extensive metamorphoses in its passage first through Chaldaea, where it acquired its astrological overlay and the syncretic assimilation to Mithra of the Babylonian Sun god Šamaš; and secondly through Anatolia and the culture of the Magusaeans, the Hellenized Magi of the Iranian diaspora (on whom see Bidez and Cumont 1938, Beck 1991), where it acquired a Stoic cosmology of sorts, especially in its eschatology (on which see Cumont 1931, Beck 1995). (Tradução)   Para Cumont, o Mitraísmo no ocidente era mazdeismo romanizado, e assim em essêncialmente uma religião persa, ainda que tivesse passado por extensiva modificação, primeiramente, em suas passagem pela Caldéia, onde teria adquirido seu elemento astrológico e assimilado sincréticamente o deus solar babilônio Shamash, e em seguida na Anatólia e da cultura do Maguseanos, os Magos helenizados da diáspora iraniana ( arespeito dos quais consultar Bidez e Cumont 1938, Beck, 1991), onde adquiriu um tipo de cosmologia estóica, especialmente em sua escatologia (ver Cumont, 1931, Beck 1995).[3]              
 Mas como pesquisador minucioso e cuidadoso que era, Cumont reconhecia as vulnerabilidades de sua teoria, como relata a Professora Alisson Griffith

Cumont himself recognized possible flaws in his theory. The most obvious is that there is little evidence for a Zoroastrian cult of Mithra (Cumont 1956), and certainly none that suggests that Zoroastrian worship of Mithra used the liturgy or the well-devoloped iconography found in the Roman cult of Mithras. Moreover, few monuments from the Roman cult have been recovered from the very provinces which are thought to have inspired worship of Mithras (namely the provinces of Asia Minor). (...)Cumont's large scholarly corpus and his opinions dominated mithraic studies for decades. A series of conferences on Mithraism beginning in 1970 and an enormous quantity of scholarship by numerous individuals in the last quarter century has demonstrated that many of Cumont's theories were incorrect (see especially Hinnells 1975 and Beck 1984).
(Tradução) O próprio Cumont reconheceu possíveis inconsistências de sua teoria. A mais óbvia é que existe muito pouca evidência para um culto a Mitra no zoroatrismo (Cumont, 1956), e certamente nenhuma indicação de que adoração de Mitra no zoroatrismo utilizasse a bem desenvolvida iconografia encontrada no culto romano a Mitras. Além disso, poucos monumentos do Culto romano foram recuperados nas provincías que se acreditava terem inspirado a adoração a Mitras (principalmente as províncias da Asia Menor).  (...) O vasto trabalho acadêmico de Cumont e suas opiniões dominaram os estudos mitraisticos por décadas. Um série de conferências sobre o Mitraismo iniciadas na decada de 1970, e uma enorme quantidade de estudos acadêmicos de muitos pesquisadores no último quarto do século, demonstraram que muitos das teorias de Cumont estavam erradas.[4]
Assim, como observa Griffits, entre os problemas reconhecidos por Cumont estava o fato de que Mitra não tinha um culto desenvolvido em torno de si no Zoroatrismo, e o elemento icionográfico, fortíssimo dos mistérios romanos de Mitras, não tinha paralelo na religião persa. Pesava ainda, o fato de que a evidência arqueológica mais ampla e antiga dos mistérios de Mitra concentrava-se nas fronteiras do Reno e Danúbio, bem como na cidade de Roma, e não na Asia Menor, e províncias do leste, vizinhas a fronteira com o Império Parto.

A tese de Cumont sobre o desenvolvimento dos Mistérios de Mitras foi exposta, principalmente, em seu livro Les Mystères de Mithra (1900), a qual os leitores do adcummulus podem encontrar em sua versão inglesa, The Mysteries of Mithras. O livro descreve também os principais paralelos com o cristianismo [5], segundo Cumont: batismo, eucaristia, guarda do domingo, valorização da ética e pureza moral, a existência do céu, inferno, juizo final e ressureição dos mortos no último dia. Ou seja, não há na construção Cumontiana, praticamente, paralelos com a Vida de Cristo, mas sim com o ritual e elementos doutrinários da Igreja. Ainda,  Cumont, não arriscou um julgamento em termos de "quem copiou quem" e considerava plausível que "muitas correspondências entre a doutrina mitráica e a fé católica são explicáveis por sua origem oriental comum"[5]. (Alías, podemos comentar aqui, que uma vez que as religiões são também fenômenos sociais, interagindo com os anseios e tensões vividos por seus adeptos, apresentem semelhanças quando se desenvolvem em contextos históricos semelhantes. Não só  nas suas origens orientais, judaismo e zoroatrismo, como também no seu desenvolvimento no mundo mediterrâneo).

Na FAQ, do Electronic Journal of Mithraic Studies (EJMS), Professor Richard Gordon, que é membro do Board Editorial daquele jornal, comenta   as origens do mistérios de Mitras, como incialmente proposta por Franz Cumont,
(...) Cumont's book is thus more than a century old. In the meantime, there have been many very important archaeological finds, some of which you will perhaps have learned about from Vermaseren's book of 1960. It would be a good idea to look at Manfred Clauss' book, which is well-illustrated and provides a much more up-to-date idea of modern work. But even from reading Cumont, it must be clear to you that the main problem with the cult of Mithras is that we know hardly anything about it. There are virtually no ancient sources to tell us what the archaeology - of which there is almost too much, scattered about over the entire Roman world -- might mean. As for Cumont, the difficulty is twofold: not merely did he write his “Conclusions” before 70% of the now known archaeology was discovered, but his solution to the problem posed by the lack of written evidence.(...) (Tradução) (...) O livro de Cumont tem mais de um século. Nesse meio tempo, muitas descobertas arqueológicas significativas foram feitas, algumas das quais você pode verificar no livro de Vermaseren de 1960. Seria uma boa idéia conferir o trabalho de Manfred Clauss, que é muito bem ilustrado e apresenta uma perspectiva atualizada dos estudos atuais. Mas mesmo lendo Cumont,deve ficar claro para você que o maior problema com o Culto a Mitras é que nós não sabemos quase nada sobre ele. Praticamente não há fonte antiga para nos contar o que a arqueologia - que nós temos muito, espalhada por todo o mundo romano - pode significar. E para Cumont a dificuldade é dupla, pois não apenas ele escreveu suas conclusões antes que 70 % do material arqueológico atual tivesse sido descoberto, mas a solução que ele propôs carecia de evidência textual. (...). [6]

O Professor David Ulansey, da Universidade da California em Berkeley e do California Institute of Integral Studies,  apresenta alguns dos pontos que levaram ao gradual abandono da síntese Cumontiana, notadamente na associação entre o zoroatrismo e os Mistérios de Mitras, a partir de 1970.
"However, from the beginning there were obvious problems with Cumont's interpretation. The Western mistery cult of Mithraism as it appeared in the Roman Empire derived its very identity from a number of characteristcs which were completely absent from the Iranian worship of Mithra: a series of initiations into ever higher levels of the cult accompanied by strict secrecy about the cult's doctines; the distinctive cavelike temples in which the cult's devotees met; and, most important, the iconography of the cult, in particular tauroctony. None of these essential characteristics of Western Mithraism were to be found in the Iranian Worship of Mithra. Cumont therefore attempted to explain these characteristics as transformations which the "Iranian" religion underwent during its supposed passage from Persia to the Roman Empire. Thus, to take what is perharps the most important example, there is no evidence that the Iranian god Mithra ever had anything to do with killing a bull. (Tradução) No entanto, desde o início havia obvios problemas com a interpretação de Cumont. A religião de mistério Mitraista, que existiu no período romano no ocidente, deriva sua própria identidade de uma série de carcterísticas completamente ausentes da adoração iraniana a Mitra: uma série de iniciações a níveis mais altos do culto acompanhadas de estrito segredo sobre suas doutrinas; os peculiares templos em forma de caverna onde os devotos se reuniam; e, mais importante, a iconografia do culto, em particular a tauroctonia. Nenhuma dessas características essenciais do Mitraismo ocidental foram encontradas na adoração iraniana a Mitra. Cumont havia tentado explicar estas características como transformações que a religião iraniana sofreu em sua suposta passagem da Pérsia para o Império Romano. Assim, tomando o que talvez seja o mais importante exemplo. Não há evidência alguma de que o deus iraniano Mitra tivesse tido em algum momento matado um Touro. [7]
Mosaico no Mitrário de Felicissimo, Ostia, Itália, Seculo II DC,
imagem via Wikipedia.
Não obstante, Ulansey observa Cumont até encontrou um mito persa em que o Touro Celeste era morto [7]. No  entanto, tal feito era realizado por Arimã (ou Angra Mainyu), o chefe dos poderes malignos na religião zoroatrista. Ademais, o mito nos é conhecido a partir de uma versão do século IX, já no período islâmico, contida em textos que recontam o mito zoroatrista de fundação do mundo [7]. Os estudiosos acreditam que esse mito incorpora tradições muito antigas, mas sua identificação e datação é incerta [7]. Ulansey observa:

"Cumont did manage to locate an Iranian myth in which a bull is killed. However, in the myth which Cumont chose the bull is killed not by the expected Mithra but rather by Ahriman, the power of cosmic evil, Thus Cumont was forced to hypothesize the existence of a variant on this myth - a variant for which there was no Iranian evidence - in which the bull slayer had become Mithra rather than Ahriman. The myth which Cumont used is found in the Bundahishn ("Original Cretion"), a Zoroastrian text of the ninth century C.E. incorporating earlier traditions, im which the story is told of the creation of an archjetypal man and a bull by Ahura Mazda, the supreme god of goodness. According to the story, the forces of evil, led by Ahriman, attacked these creatures nad killed them. From their bodies there then sprang forth the different forms of life which inhabit the earth. (...) Despite the problems with this Iranian hypothesis, Cumont's vison of the nature of Mithraism remained virtually unchallenged for a full seventy years. But the flaws in Cumont theory could not go unnoticed forever, and things reached a head in 1971 at the First International Congress of Mithraic Studies, held at Manchester University" (Tradução) Na verdade, Cumont conseguiu localizar um mito iraniano em que um touro é morto. No entanto, no mito que Cumont selecionou o touro não é morto por Mitra, como seria esperado, mas por Arimã, o poder cósmico do mal. Assim Cumont foi forçado a postular a existência de uma variante deste mito - uma variante para a qual não havia evidência iraniana - em que o matador do touro seria Mitra, em vez de Arimã. O mito utilizado por Cumont é encontrado no Bundahishn ("Criação Original"), um texto zoroastriano do século IX DC incorporando tradições anteriores, em que é contada a história da criação de um homem arquétipo e um touro por Ahura Mazda, o deus supremo de bondade. Segundo a história, as forças do mal, lideradas por Arimã, atacaram estas criaturas e as mataram. De seus corpos então brotaram as diferentes formas de vida que habitam a Terra. (...) Apesar dos problemas com esta hipótese iraniana, a visão Cumontiana da natureza do mitraísmo permaneceu praticamente sem contestação por cerca de 70 anos. Mas as falhas na teoria Cumont não poderiam passar despercebidas para sempre, chegando ao limite em 1971 no Primeiro Congresso Internacional de Estudos Mitraisticos, realizado na Universidade de Manchester [7]

A partir do colapso  da sintese Cumontiana nos estudos mitraísticos, foram propostas várias teorias para explicar o desenvolvimento dos mistérios, algumas tentando manter parte do legado de Cumont, outras rompendo abertamente com sua tese. O Professor Roger Beck faz uma avaliação das questões em discussão e do estado das concepções acadêmicas:
That Roman Mithras was a Persian god in more than just the perception and self-definition of his Roman initiates is indisputable. To say that he was “the same” god, or that he “came from” Iran is equally true, though it begs as many questions as it appears to answer. Did he emigrate together with his cult? Was institutionalized Mithra-worship transmitted from East to West? Likewise the Mithra myth(s) and the concepts of the god, his powers, and his functions? Was he “the same” god in that strong sense? Or was he re-invented in the West, perhaps by those with some knowledge of the East, as a new god for new mysteries in a new type of cult association appropriate to the different social and cultural environment of the Roman Empire? Was he “the same” merely in the weaker sense that he was re-outfitted with Iranian trappings sufficient to authenticate him as “Persian” in his new context? . (TraduçãoQue Mitras Romano era um deus persa em um sentido mais abrangente do que  a percepção e auto-definição de sua iniciados é indiscutível. Dizer que ele era "o mesmo" deus, ou que ele "veio do" Irã é igualmente verdadeiro, embora isso levante tantas perguntas do que parece responder. Será que ele emigrou, juntamente com o seu culto? Um culto mitraista institucionalizado teria sido transmitido do oriente para o ocidente? E, semelhantementem o mito de Mitra, seus conceitos, poderes e funções? Ele era "o mesmo" deus em um sentido forte? Ou ele foi re-inventado no Ocidente, talvez por indíviduos com algum conhecimento do Oriente, como um novo deus para novos mistérios em um tipo novo de associação/culto apropriado para o ambiente social e cultural diferenciado do Império Romano? Ou será ele era "o mesmo" apenas no sentido mais fraco que ele foi remodelado com atributos iranianos suficientes para autentica-lo como "persa" em seu novo contexto? [8]
A forma como os estudiosos tem avaliado as evidências e respondido a cada uma  dessas perguntas, define seu posicionamento frente ao surgimento dos Mistérios de Mitras, admitindo um amplo espectro de possibilidades entre os extremos de total reinvenção e total continuidade.  
Beck continua:
 Two statements at least may be made with some confidence about the century-long scholarly controversy over these questions: first, that at the beginning of the third millennium there is still no consensus; secondly, that in the last three decades the balance of opinion has shifted, rightly or wrongly, in favor of re-invention over continuity. (Tradução) Pelo menos duas afirmações podem ser feitas com alguma confiança sobre a secular controvérsia acadêmica sobre as questões seguintes: em primeiro lugar, que, no início do terceiro milênio, ainda não há consenso, em segundo lugar, que, nas últimas três décadas, o balanço de opinião tem se deslocado, correta ou incorretamente, em favor da re-invenção em detrimento a continuidade.[8]
Arqueiro a Cavalo Parto, no Palazzo Madama (Turim), foto de
Jean Chadrin, via Wikipedia.
Desta forma, começando  do Primeiro Congresso Internacional de Estudos Mitraísticos de 1971, em Manchester (Inglaterra) houve uma profunda mudança da visão acadêmica da origem dos Mistérios de Mitras. Embora não haja um consenso ainda, a tendência crescente é o entendimento de que o desenvolvimento do culto ocorreu no ocidente romano (e não no vizinho Império Parto, atual Irã)  e que há poucas semelhanças com o seu correspondente persa. Assim,  Roger Beck distingue duas posturas básicas entre os estudiosos vinculados a tendência dominante. Uma parte destes estudiosos acredita que a partir de uma figura divina da religião zoroatrista foi criada uma religião totalmente nova, sem qualquer correspondência com o culto original. Outros também crêem que o culto se originou no ocidente mas vêem algumas semelhanças com a forma persa. 
 Of the latter position there is a strong and a weak form. The strong form, having noted the undeniable similarities, then describes the cult, its origins, and its early development entirely in terms of the socio-religious culture(s) of the Roman empire. A typical proponent of this strong form is M. Clauss (2000: pp. 3-8, 21-2), who locates the cult’s origins and point of departure firmly in late first-century CE Rome (...) Discontinuity’s weaker form of argument postulates re-invention among and for the denizens of the Roman empire (or certain sections thereof), but re-invention by a person or persons of some familiarity with Iranian religion in a form current on its western margins in the first century CE. Merkelbach (1984: pp. 75-7), expanding on a suggestion of M.P. Nilsson, proposes such a founder from eastern Anatolia, working in court circles in Rome. So does Beck 1998, with special focus on the dynasty of Commagene (see above). Jakobs 1999 proposes a similar scenario. (TraduçãoNessa segunda corrente,  há uma forma forte e outra fraca. A forma forte, tendo notado as semelhanças inegáveis​​, em seguida, descreve o culto, as suas origens e seu desenvolvimento precoce inteiramente em termos da cultura(s) sócio-religiosa do império romano. Um proponente típico desta forma forte é M. Clauss (2000, pp 3-8, 21-2), que situa as origens do culto e ponto de partida firmemente na Roma final do primério século da era cristã   (...) descontinuidade é forma mais fraca do argumento, e postula re-invenção entre e para os habitantes do Império Romano (ou em certas regiões dele), ressalvando que essa re-invenção teria sido por uma pessoa ou pessoas de alguma familiaridade com a religião iraniana corrente em suas fronteiras ocidentais, no primeiro século DC . Merkelbach (1984, pp 75-7), ampliando uma tese de MP Nilsson, situa os fundadores no leste da Anatólia, trabalhando em círculos imperiais romanos. O mesmo acontece com Beck 1998, com especial enfoque na dinastia de Comagene (veja acima). Jakobs 1999 propõe um cenário semelhante [8]
Professor Richard Gordon pondera também sobre o colapso da síntese Cumontiana, e das tendências atuais dos estudiosos do campo, e de forma ainda mais contundente que Beck, constata a completa mudança de posição dos estudiosos, hoje em sua maioria convencidos que o culto mitraísta era iraniano apenas em um sentido muito fraco, talvez apenas pseudo-iraniano.
(...) the final judgement and the resurrection of the dead are tenets ofZoroastrianism - it is perfectly possible that they derive from Judaism, but no one knows for sure: it is usually considered that the Jews got these ideas from the Iranians after the captivity in Babylonia At any rate, sine he believed the entire cult to be a thinly-disguised from of Zorastrianism, Cumont thought they must also have been present in the Roman cult Since the 1970s, Cumont’s entire construction has come under heavy fire. One can say that there is no one now working on Mithraism who believes in it. This change of heart was largely due to articles published in the proceedings of the first Mithraic conference in Manchester in 1971: Mithraic Studies, ed. J.R. Hinnells (Manchester, 1975). (...) We may say that at the most scholars now believe that the cult of Mithras was Iranian only in a weak sense; indeed, many people think it wasn't Iranian at all, but simply pseudo-Iranian, and that the cult was created in Italy. I think that goes too far;
(Tradução) (...) O julgamento final e ressurreição dos mortos são crenças do zoroatrismo - é perfeitamente possível que elas sejam derivadas do judaísmo, mas ninguém sabe ao certo, geralmente se considera  que os judeus absorveram essa idéias dos iranianos após o cativeiro babilônico. Em todo o caso, já que ele acreditava que o culto era uma forma de zoroatrismo disfarçada, Cumont pensava que tais crenças forçosamente estavam presentes no culto romano. Desde os anos de 1970, porém, toda o edificio teórico de Cumont tem sofrido pesados ataques. Pode-se dizer que ninguém hoje que trabalhe com o Mitraismo acredita mais nele. Esta mudança de disposição foi em grande parte devido aos artigos publicados nos anais da Primeira Conferência de Mitraismo em Manchester em 1971: Mithraic Studies, ed. J.R. Hinnells (Manchester, 1975). Nos podemos dizer que, atualmente, a maioria dos estudiosos acredita que o Culto a Mitras era apenas levemente iraniano; de fato, muita gente pensa que não era Iraniano de forma alguma, mas pseudo-iraniano, e que o culto foi criado na Itália. Eu até acho que isso é um pouco extremo;[9

"A Queda de Faeton", Peter Paul Rubens, 1604, National
Gallery of Art, Washington (DC), via Wikipedia Commons.
Gordon forneçe um exemplo de como a evidência textual e arqueológica do culto romano de Mitras em relação ao julgamento final e ressureição foi interpretada por Cumont em conjunto com os escritos sagrados do zoroatrismo, em conjunto  apontando para uma famosa passagem polêmica em que Tertuliano de Cartago, abre fogo contra os seguidores de Mitras, levando a uma conclusão de continuidade,  e como tal avaliação foi revista posteriormente.
Cumont himself was aware that the Roman Mithraic evidence for the resurrection of the body and the judgement at the end of the world was very thin, so he was delighted when the excavation of the mithraeum at Dieburg in 1926 produced a very unusual Mithraic relief (CIMRM 1247) with a scene of Phaethon receiving his father's Sun-chariot. In view of the well-known result of this voyage, Cumont argued in an article published in 1931 that the scene was intended as an illustration of the Frasegird, the final conflagration of the world in Zoroastrianism. But the story of Phaethon was understood in many less adventurous ways in the Roman period, which he did not attempt to explore. The only other evidence for the idea of resurrection occurs in a sentence of the Church Father Tertullian, De praescriptione haereticorum 40 (written AD 203), where he says '(Diabolus) celebrat et panis oblationem et imaginem resurrectionis inducit et sub gladio redimit coronam': (The Devil) celebrates the ritual offering of bread, performs a semblance of resurrection, redeems a crown under threat of death. Although the last phrase may indeed relate to the cult of Mithras, there is no reason to think the others do: the passage as a whole simply lists a variety of ways in which Tertullian seeks (absurdly) to explain the numerous similarities between pagan and Christian rituals by saying the Devil has deliberately imitated Christian rituals. At any rate,this passage is the SOLE evidence Cumont could find for Mithraic belief in resurrection - why of the body, is anyone's guess. We can see clearly that he needed to reinforce his belief that Roman Mithraism was really a form of Zoroastrianism, and thus ended up by arguing in a complete circle. (TraduçãoO próprio Cumont estava ciente de que  a evidência no Mitraismo Romano na crença da ressurreição do corpo e do julgamento no fim do dias, era tênue, então ele ficou encantado quando a escavação do mitrário de Dieburg em 1926 produziu um relevo muito incomum (CIMRM 1247) com uma cena de Faeton recebendo a carruagem solar de seu pai. Tendo em vista o resultado bem conhecido desta viagem, Cumont argumentou em um artigo publicado em 1931 que a cena foi concebida como uma ilustração da Frasegird, a conflagração final do mundo no Zoroastrismo. Mas a história de Faeton foi entendido de maneiras muito menos aventureiras no período romano, que ele não tentou explorar. A única outra evidência para a idéia de ressurreição ocorre em uma frase do Padre da Igreja, Tertuliano, De Praescriptione haereticorum 40 (escrito AD 203), em que ele diz "(Diabolus) cele et panis et oblationem Imaginem Resurrectionis inducit et sub gladio redimit coronam ': (o Diabo) celebra a oferta do pão, realizando um simulacro da ressurreição, resgatando uma coroa sob ameaça de morte. Embora a última frase pode de fato se relacionar com o culto de Mitra, não há nenhuma razão para pensar que as outros o fazem: a passagem como um todo simplesmente lista uma variedade de maneiras em que Tertuliano procura (absurdamente) explicar as numerosas semelhanças entre rituais pagãos e cristãos  dizendo que o diabo tinha deliberadamente imitado rituais cristãos. De qualquer forma, esta passagem é a única evidência Cumont pode encontrar para uma crença mitraíca na ressurreição - por que do corpo, é uma incógnita. Podemos ver claramente que ele precisava para reforçar sua convicção de que o mitraísmo romano era realmente uma forma de zoroastrismo, e, assim, acabou em uma argumentação completamente círcular. [9]
 A questão da vida após a morte entre os adeptos dos Mistérios de Mitras foi discutida de forma mais detalhada aqui no adcummulus no post anterior dessa série (ver nota de rodapé 14, e seção "Iconográfia, Inscrições e Expectativas dos seguidores de Mitra"). Como observa o Professor Richard Gordon acima, a evidência de que os adeptos dos Mistérios de Mitras esperassem do deus persa auxílio quando deixassem esse mundo  é escassa. A quase totalidade das inscrições votivas é por agradecimento por bençãos concedidas nessa vida. Contudo, uma vez que essas crenças existiam no zoroatrismo,   dentre algumas (poucas) passagens nos pais da igreja, havia uma menção de Tertuliano (Da Prescrição dos Hereges, 40),  bem  como o relevo, num contexto do culto de Mitras, de Faeton e carruagem do sol [10] descoberto em Dieburgo (Alemanha) em 1926, houve a tentativa de Cumont e outros estudiosos de postular a existência de uma crença dessa natureza entre os seguidores  do deus persa no período romano. O problema é que se os anos se passaram após a descoberta de 1926, e não foram descobertas novas evidências arqueológicas e textuais que corroborassem a proposta Cumontiana. Somado ao fato da desconstrução da tese básica de continuidade entre o Zoroatrismo e os Misterios de Mitras no periodo romano, formou-se uma situação de circularidade. So faz sentido assumir que os mitraistas romanos acreditam em ressureição porque se assume a continuidade com o Zoroatrismo, mas a continuidade com o Zoroatrismo é justamente o ponto que esta sendo questionado.        
É claro que os testemunhos de autores antigos devem também ser considerados, e poderiam esclarecer esses fatos. Mas confiar em autores como Tertuliano pode não ser a melhor escolha. Como observa o Professor Gordon, a passagem é ambigua quanto a sua vinculação a crença na ressureição final. Tertuliano, a partir da ceia entre Mitras e o Sol, encenada pelos adeptos do culto passa a interpretar o ritual como tendo implicações semelhantes a Eucaristia, bem como do milagre da água, em que Mitras acerta uma rocha com uma pedra, e dela sai água, em relação ao batismo. Esses dois rituais, como mostrado aqui no adcummulus no post anterior (ver seção "paralelos, existe algum"), são os dois principais paralelos entre  o Mitraismo e o Cristianismo.  No entanto, os Mistérios de Mitras, como o próprio nome indica, implica que só os iniciados, e apenas de forma gradual, tinham conhecimento das doutrinas, ensinos e significado dos ritos, sendo improvável que não adeptos como Tertuliano tivessem um conhecimento correto dos mistérios.
Outro motivo pelo qual os pais da igreja devem ser lidos com cautela quanto a eventuais similaridades, é sua postura agressiva quanto  a suposta "Imitação Diabólica". Uma vez que    pregavam que Jesus Cristo era o cumprimento das Escrituras Judaicas, e a Igreja o Novo Israel, eventuais semelhanças com outros cultos e religiões de mistério eram explicadas como uma cópia diabólica das profecias judaicas, para afastar as pessoas do conhecimento de Cristo!!! Embora isso possa nos parecer absurdo, para os polemistas e apologistas cristãos a vantagem era dupla i) O cristianismo era uma religião ilegal e perseguida, uma superstição nova e depravada, enquanto que os cultos pagãos eram frequentemente sancionados pelas autoridades, se havia semelhanças isso mostrava que o cristianismo não era tão perigoso assim ii)  O Judaísmo, embora visto com restrição pelos romanos, era reconhecido como uma religião antiga e venerável. O Historiador e Politico Romano Cornélio Tácito, ao descrever a origem dos judeus (adotando um tom agressivo e deselegante), liga as origens dos judeus aos tempos do "Reinado de Isis", ou quando Saturno foi destítuido por Júpiter (Zeus), e afirma que a religião dos judeus se sustenta por sua antiguidade (Histórias V: 2-5). Estrabo também descreve as origens antigas da religião judaíca (Geografia, Livro XVI.ii.34-46), então, para os antigos, argumentar que o cristianismo era, simplesmente, o cumprimento das profecias do judaísmo, era um bom argumento para mostrar que a nova fé não era uma superstição nova, mas estava ligada a uma religião antiga e veneranda.  Então, por esses motivos, há uma tendência dos pais da igreja de exagerar os paralelos. Obviamente, isso não deve nos fazer descartar totalmente a existência de paralelos e mesmo eventuais influências, mas considerar eventuais argumentos com cuidado.
Já houve, inclusive, defesas acadêmicas de influências do judaismo sobre o Mitraismo. Como já propôs o Professor J.H.Wolf G. Liebeschuetz, da Universidade de Nottingham:
 "It was, of course, a commonplace of Christian apologetics that whenever pagan authors expounded doctrines that bore a resemblance to Christian teaching, the pagans (e.g. Plato) had learned them from the ancient "prophecies" of Moses  (Justin Ap. 59). But in the case of Mithraism Justin cites evidence (Dial Tryph 70). According to him words closely resembling Isaiah XXXIII 13-19 were used in Mithraic ritual. Justin cites the whole passage , presumably because all of it is close to what was said in a Mithraic service. But the precise moral teaching of the passage is not what one expect to find in Graeco Roman ritual. It suggest that the author of Mithraic ritual was aware of biblical religion, and that the resemblance between Christianity and Mithraism are not coincidental. Jewish-Christian elements have probably contributed to Mithraism.  (Tradução)  Naturalmente, era um lugar-comum da apologética cristã que sempre que  autores pagãos expunham doutrinas que tinham semelhança com os ensinamentos cristãos, os pagãos (por exemplo, Platão) tinham aprendido dos antigos "profecias" de Moisés (Justino Ap. 59). Mas, no caso do mitraísmo Justina cita evidências (Dialogo com Trifo 70). Segundo ele palavras muito semelhantes a Isaías XXXIII 13-19 eram usados ​​em ritual mitraico. Justino cita a passagem inteira, provavelmente porque parecia com o que era dito nos rituais mitraicos. Mas o ensinamento moral precisa da passagem não é o que se esperaria encontrar em ritual greco romano. Isso sugere que o autor do ritual mitraico conhecia a religião bíblica, e que a semelhança entre o cristianismo eo mitraísmo não seria coincidência. Elementos judaico-cristãos, provavelmente, contribuíram para o mitraísmo[11]
Retornando a questão da descontinuidade entre mitraismo romano e zoroatrismo, como poderíamos entende-la? Como o culto de uma divindade persa poderia se diferenciar tanto no Império Romano , até o ponto de estudiosos, como visto acima, chegarem a afirmar que o culto era pseudo-iraniano e se originou na Itália. O Professor Jona Lendering, da Livius Onderwijs, faz uma analogia com o desenvolmento do cristianismo, e suas várias correntes, em relação ao judaísmo. O cristianismo proto-católico, proto-ortodoxo, manteve o Antigo Testamento, seus ensinos e heróis, bem como a crença de Jesus de Nazaré representou o cumprimento das expectativas messiânicas, além de doutrinas como imortalidade, julgamento final, ressureição dos mortos, dentre outras. No entanto, outros grupos cristãos tinham idéias bastante distintas, propondo o rompimento quase completo com a herança judaica, e tais idéias, como o Marcionismo, foram extremamente populares, e poderiam ter sido vitoriosas. Como observa Lendering:   

It often happens that elements from one civilization cross over to another, and it would certainly have been possible for an Iranian god to join the Roman pantheon. But how much that was Iranian was he allowed to take with him? Compare it to Christianity, which is essentially a type of Judaism accepted by Greeks and Romans. Some converts believed that only a couple of ideas were really useful; men like Marcion of Sinope thought that the Old Testament books could be done away with, and that the Jewish context was best forgotten. Other Christian authors, like Irenaeus, stressed the need to keep in touch with the original foundations. The Roman cult of Mithras seems to have originated with a Marcion-like prophet, who took a couple of lose elements and abandoned the rest of Iranian Mithraism. (Tradução) Acontece frequentemente que os elementos de uma civilização são assimilados por outra, e certamente teria sido possível para um deus iraniano se juntar ao panteão romano. Mas quanto de seu caráter iraniano lhe seria autorizado conservar? Comparemos com o cristianismo, que é essencialmente um tipo de judaísmo aceita por gregos e romanos. Alguns convertidos acreditavam que apenas algumas poucas ideias eram realmente úteis; homens como Marcião de Sinope pensavam que os livros do Antigo Testamento poderiam ser descartados, e que o contexto judaico deveria ser esquecido. Outros autores cristãos, como Irineu, ressaltaram a necessidade de se manter a ligação com as bases originais. O culto de Mitra romano parece ter tido como fundador um profeta que agiu de forma semelhante a Marcião conservando alguns poucos elementos, e abandonando o resto do mitraísmo iraniano. [12]
Mas antes de descartar a possibilidade de continuidade entre o Mitraismo Romano e a devoção de Mitra no religião persa zoroatrista Richard Gordon o supostos paralelos com crenças como ressureição dos mortos e julgamento final, professadas pelos cristãos, a luz dos trabalhos acadêmicos mais recentes.
(...) but, thanks primarily to the work of Shaul Shaked, Dualism in Transformation: Varieties of Religion in Sasanian Iran (London, 1994), we do now know that there was no such thing as Zoroastrianism in a sense reasonably familiar to us until the Sasanid reforms of the religion in the third century AD; even for the Sasanid form of the religion it is difficult to find reliable evidence, because of the extent of the censorship and pruning imposed by the priests who created the Pahlavi sacred books of Zoaroastriansim in the ninth century AD after the Muslim conquest of Iran.But I do think there are some features of the Roman cult of Mithras his association with light, might and fertility, for example, and the moral stringency, which have old-Iranian origins- at any rate, they are all found in the Avestan Hymn to Mithra, composed in the second half of the fifth century BC But this is not the same as saying that the Roman cult of Mithras was Iranian in a strong sense, let alone that it contained numerous Zoroastrian features. And unless one starts from that hypothesis, there is no good reason to suppose that the Roman cult believed either in the resurrection of the dead, or in a final judgement at the end of the world. (Tradução) mas, graças principalmente ao trabalho de Shaul Shaked, Dualism in Transformation: Varieties of Religion in Sasanian Iran (Londres, 1994)Nós sabemos agora que não existia um zoroatrismo razoavelmente familiar a nós até as reformas Sassanidas da religião no século III DC e mesmo para a forma Sassanida da religião é difícil encontral evidências confiáveis, devido a extensão da censura e mutilação impostas aos sacerdotes que criaram os livros sagrados Pahlavi do zoroatrismo no século IX DC após a conquista muçulmana do Irã. Eu até acredito que há algumas semelhanças com o culto romano a Mitras: sua associação com a luz, força e fertilidade, por exemplo, seu rigor moral, todas associadas a origens iranianas antigas - e que ademais, são encontradas no Hino Avesta dedicado a Mitra, da segunda metade do século V AC.  Mas isso não é o mesmo que dizer que o culto romano a Mitras era fortemente iraniano ou tivesse muitas características zoroatristas. E a menos que se começe com essa premissa não há nenhuma boa razão para supor que o culto romano crêsse tanto em ressureição dos mortos quanto em juizo final nos fins dos tempos.[13]

 Como observa o Professor Gordon, além da incerteza quanto a se o culto romano a Mitras envolvia a crença na ressuereição dos mortos e Juízo Final, é incerto até mesmo de que forma essas doutrinas existiam no Zoroatrismo durante o período arsacida ou parto (247 AC a 224 DC) da história do Irã, uma vez que os Avesta, livros sagrados daquela religião foram compilados durante as reformas da religião iniciadas em meados do século III - coincidente com a deposição do Rei arsacida Artabano V por Ardashir, fundador do  Império Sassânida (224-651 DC) - embora contenha tradições orais muito mais antigas, parte do periodo Aquêmenida (550-330 AC), e algumas, provavelmente, que remontam ao próprio Zoroastro

A acusação de “plágio” cristão não se sustenta. O mitraismo surgiu no Império Romano, no I século DC, mais ou menos na mesma época que o cristianismo, e a maioria dos especialistas vê pouco ou quase nada do zoroatrismo em suas crenças. Além disso, o Zoroatrismo sofreu profundas transformações ao longo de sua história, e reconstituir suas crenças a partir do Avesta e dos textos Pahlavi, que embora contenham tradições orais muito antigas, foram compilado séculos depois de Cristo. Adicionalmente, não há evidência sólida de ressurreição dos mortos, julgamento final, ou fim do mundo no mitraismo e, mais ainda, que o cristianismo copiou essas idéias.

Todos os mitrários encontrados no Império Romano são datados após o séc. I DC, não temos nenhum escrito mitraista, e as fontes externas começam em Plutarco, em cerca de 80 DC, No Oriente não romano existia um Mitra, mas, até onde se sabe, ele não tinha seu próprio culto, e hoje boa parte dos estudiosos, senão a maioria, acredita que o mitraismo romano tem muito pouco do Irã, se não apenas um "cheirinho" de Irã e da antiga tradição zoroatrista? Donde vem tanta confiança em relação ao conhecimento do que era o Mitraismo, no séc I, para dizer o que o cristianismo plagiou?

Concluimos essa parte citando Manfred Clauss, Professor Emérito da Universidade Goethe de Frankfurt (Alemanha),  que de forma categórica comenta:

It Should be emphasised that the purpose of this summary account is not to suggest that such ideas were taken over directly into the Roman mystery-cult. On the contrary, no direct continuity, either of a general king or in specific details, can be demonstrated between the Perso-Hellesnistic worship of Mitra and Roman mysteries of Mithras. The oft-repeated attempts to trace a seamless history of  Mithras from the second millenium BC to the fourth century AD simply tell us something quite general about the relative stability, or, as it may be, flexibility. We cannot account for Roman Mithras in terms borrowed from Persian Mitra. (Tradução) Deve ser enfatizado que o propósito desse relato sumário não é sugerir que essas idéias foram utilizadas diretamente no Mitraismo Romano. Pelo contrário, nenhuma continuidade, seja geral ou especifica pode ser demosntrada entre a adoração persa-helenistica de Mitra com os Misterios Romanos de Mitras. As frequentes tentativas de traçar uma história contínua de Mitras do II milênio AC ao IV século DC apenas nos revelam em termos bem gerais a relativa estabilidade, ou melhor dizendo, flexibilidade, das idéias religiosas. Não podemos descrever o Mitras Romano em termos emprestados do Mitra Persa". [14]

E conclui
There is another reason too for thinking that it makes little sense to treat the mysteries of Mithras as but one stage in a longer evolution. The mysteries cannot be shown to have developed from Persian religious ideas nor does it make sense to interpret them as a fore-runner of Christianity. Both views neglect the sheer creativity that gave rise to the mystery-cult, Mithraism was an independt creation with its own unique value within a given historical, specifically roman, context.  (Tradução) Há uma outra razão para concluir que faz pouco sentido tratar os Mistérios de Mitras como mais um estágio de uma longa evolução. Não se conseguiu demonstrar que os Misterios de Mitras se desenvolveram a partir de idéias religiosas persas, como também não faz sentido interpreta-lo como predecessor do cristianismo. Em ambos os casos se ignora a criatividade que deu origem a religião de mistério. Mitraismo foi uma criação independente cujo valor reside numa dada situação histórica, e especifica romana.[14]

CONTINUA

Referências Bibliográficas
[1] Alison Griffith (1996) Mithraism, Exploring Ancient World Cultures: Essays on Ancient Rome,  http://eawc.evansville.edu/essays/mithraism.htm  acessado em 20.08.2013
[2]    Richard Gordon (2007) Institutionalized Religions Options: Mithraism In Jorg Rüpke (2007) Companion to Roman Religion, fls. 394-395, Wiley Blackwell. Citado no primeiro post desta série http://adcummulus.blogspot.com.br/2012/07/mitra-mitras-mitraismo-jesus-e-o.html
[3]  Roger Beck (2002) Mithraism, Encyclopaedia Iranica, edição online, artigo de 20.07.2002, disponivel em http://www.iranicaonline.org/articles/mithraism , acessado em 22.08.2013
[4] Alison Griffith (1996) Mithraism, Exploring Ancient World Cultures: Essays on Ancient Rome, http://eawc.evansville.edu/essays/mithraism.htm acessado em 20.08.2013
[5] Franz Cumont (1903)  The Mysteries of Mithra, fl. 191-194;  (Cap. Mithraism and the Religions of Empire, http://www.sacred-texts.com/cla/mom/mom09.htm), acessado em 27.08.2013 
[6] Richard Gordon (2005?) Frequently Asked Questions (FAQ) - Electronic Jounal of Mithraic Studies (EJMS),  http://www.hums.canterbury.ac.nz/clas/ejms/faq.htm, seção Resurrection of the Dead. Final Judgement,
[7] David Ulansey (1991), The Origins of the Mithraic Mysteries: Cosmology and Salvation in the, fl. 8-9, Oxford University Press
[8] Roger Beck (2002) Mithraism, Encyclopaedia Iranica, edição online, artigo de 20.07.2002, disponivel em http://www.iranicaonline.org/articles/mithraism , acessado em 22.08.2013
[9] Richard Gordon (2005?) Frequently Asked Questions (FAQ) - Electronic Jounal of Mithraic Studies, http://www.hums.canterbury.ac.nz/clas/ejms/faq.htm , seção Resurrection of the Dead. Final Judgement.
[10] Faeton, filho de Apolo, pediu ao seu pai insistentemente para conduzir a carruagem do Sol. Ao conseguir seu desejo, não tinha a força e habilidade necessária para controlar os cavalos, e acabou  tumultuando e incendiando os céus. Para evitar que o Universo fosse destruído, Zeus o derrubou com um raio, e caindo na Terra, Faeton morreu. 

[11] Richard Gordon (2005?) Frequently Asked Questions (FAQ) - Electronic Jounal of Mithraic Studies, http://www.hums.canterbury.ac.nz/clas/ejms/faq.htm , seção Resurrection of the Dead. Final Judgement.
[12] JHWG Liebeschuetz (1994) The expansion of Mithraism among the religious cults of the second century republicado em JHWG Liebeschuetz (2006) Decline and Change in Late Antiquity: Religion, Barbarians and their Historiography, fl. 453 (fl. 197).
[13] Jona Lendering (2009)   http://rambambashi.wordpress.com/2009/11/26/mithra-and-mithras/, Mithra and Mithras acessado em 27.08.2013
[14] Manfred Clauss (2001) The Roman Cult of Mithras: The God and his Mysteries,
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