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domingo, 31 de dezembro de 2023

Jesus na Escala Richter de Impacto Histórico: breves anotações sobre Flegon de Trales

"Cristo na Cruz", por Carl Heinrich Bloch (1870). Museu de 
História Natural, Copenhague, Dinamarca, via wikicommons
 

Por volta de 240 DC, o erudito, filósofo e teólogo Orígenes de Alexandria (185-254 DC), escreveu uma defesa do cristianismo em contraposição a um ataque do filósofo Celso, que, entre 160-180 DC, escrevera uma obra chamada "o verdadeiro discurso". Em sua obra, já discutida aqui, Celso critica sistemática e detalhadamente os cristãos, apresenta argumentos filosóficos e supostas inconsistências nas narrativas evangélicas, faz comparações com outros cultos e seitas existentes à época e alguma familiaridade com os vários grupos cristãos existentes e "fatos" da vida de Jesus não existentes em qualquer escrito cristão, derivados de tradições que circulavam entre os judeus no início do II século. 

Em sua defesa, Orígenes utiliza vários argumentos, e cita alguns autores não cristãos para corroborar, de alguma forma, aspectos positivos do cristianismo. A abordagem, tinha suas dificuldades, porém. Com Flavio Josefo, por exemplo, Orígenes utiliza o relato que menciona Tiago, irmão de Jesus, mas acaba reconhecendo que, seja o que fosse que Josefo tivesse escrito, ele não reconhecia que Jesus fosse o Cristo. 


Um autor, porém, que Orígenes cita algumas vezes é Flegon de Tralles.

E Flegon, no decimo terceiro ou décimo quarto livro, se não me engano, de suas crônicas, não somente atribui a Jesus o conhecimento de eventos futuros, mas também testifica que o resultado corresponde a suas previsões. (...) mas ele também, por estas mesmas admissões em relação a previsão, mesmo que contra sua vontade, expressa sua opinião de que as doutrinas ensinadas pelos pais não foram desprovidas de poder divino (Origenes, Contra Celso, 2:14);

E no que diz respeito ao eclipse no tempo de Tibério César, em cujo reinado Jesus parece ter sido crucificado, e aos grandes terremotos que então ocorreram, Flegon também, creio, escreveu no décimo terceiro ou décimo quarto livro de suas Crônicas (Origenes, Contra Celso, 2:33);

Ele imagina também que tanto o terremoto quanto a escuridão foram uma invenção; mas com relação a isso, nas páginas anteriores, fizemos nossa defesa, de acordo com nossa capacidade, apresentando o testemunho de Flegon, que relata que esses eventos ocorreram no momento em que nosso Salvador sofreu.(Origenes, Contra Celso, 2:59);


Professora Leslie Kelly, da Universidade Pública da América, apresenta alguns detalhes sobre Flegon de Trales.

Phlegon of Tralles was a freedman of Emperor Hadrian who, in addition to his history, wrote books on Sicily, the topography of Rome, Roman festivals, and marvels (tradução) Flegon de Tralles foi um liberto do imperador Adriano que, além de sua história, escreveu livros sobre a Sicília, a topografia de Roma, festivais romanos e maravilhas.[1]

Trazendo a citação em contexto, entre os autores geralmente citados como evidência externa da vida e ministério de Jesus de Nazaré, os principais testemunhos  são os de Flávio Josefo e Tácito. O parágrafo sobre Jesus na obra de Josefo, chamado Testemunho Flaviano, é considerado pela grande maioria dos estudiosos como tendo sido alterado a partir de um texto original menos laudatório ou hostil (como já vimos aqui no Adcummulus). Outra menção a Jesus no texto de Josefo, referente a seu irmão, Tiago, é menos polêmica. Quanto a Tácito, a discussão, em geral, não se centra na autenticidade, mas a fonte das informações que dispunha, como também já discutido aqui no adcummulus, junto com menções mais breves de historiadores romanos, como Suetônio e Plínio.  Se expandimos para menções externas posteriores, que podem conservar memórias antigas, temos as respostas polêmicas dos oponentes dos apologistas Justino e Tertuliano, do filósofo Celso, e dos rabinos no Talmude, autores como Luciano, Galeno e Mara Bar Serapion que reagem de formas diferentes a Jesus como mestre dos cristãos. Assim, de forma geral, as fontes não cristãs podem ser classificadas em quatro linhas de tradição:

  • Segundo as versões mais aceitas do texto de Flávio Josefo, Jesus foi um pretendente messiânico que atraia (ou aliciava) multidões com seus ensinos, realizava feitos controversos (paradoxa), e foi executado por Pôncio Pilatos, sob acusação dos líderes judeus. Após sua execução, seus seguidores relataram que ele havia ressuscitado e proclamavam que ele era o Cristo.
  • Na visão de magistrados romanos, como Cornélio Tácito, Gaio Suetônio e Plínio, o Jovem,  Jesus foi um agitador crucificado na Judéia por Pôncio Pilatos, tendo sido o fundador da seita dos cristãos, um grupo que seguia uma "superstição nova e depravada" (Suetônio), e "mortal", que "irrompeu novamente, não apenas na Judéia, terra onde se originou o mal, mas também na cidade Roma, onde todos os tipos de práticas horrendas e infames de todas as partes do mundo se concentram e são fervorosamente cultuadas" (Tácito), e se reuniam numa associação secreta e ilegal (segundo Plínio);
  • Na polêmica judaica em relação ao cristianismo, os oponentes de Justino (130-150 DC), Celso (170 DC), Tertuliano (200 DC) e alguns rabinos do Talmude acusam Jesus de ter sido um "mágico e enganador do povo" e seus paradoxa (feitos controversos)  foram devidos a utilização de poderes mágicos, tendo sido "pendurado" por ser um "praticante de feitiçaria que induziu Israel a pecar". A acusação, inclusive, já havia sido recordada nos evangelhos (ex. "Ele está possesso de Belzebu; e: É pelo príncipe dos demônios que expulsa os demônios", em Mc 3:22).
  • Autores como Luciano, Galeno e Mara Bar Serapion destacam o papel de Jesus como o "primeiro legislador" dos cristãos.  O "homem crucificado na Palestina", por dar origem ao culto (Luciano de Samosata), a "escola  (...) de Cristo", em que se ensinam "leis não demonstráveis" e mestres que "ordenavam aceitar tudo pela Fé" (Claúdio Galeno). O próprio Galeno, porém, admite mérito nos ensinos cristãos, pois incutia nas massas posturas positivas, semelhantes a dos "verdadeiros filósofos" (Galeno).  De qualquer forma, Jesus "continuou a viver nos ensinamentos que transmitiu" (na visão positiva de Mara Bar Serapion, destoante dos outros autores não cristãos).

Assim, a visão de Jesus e dos primeiros cristãos como pessoas à margem da sociedade é recorrente entre observadores externos do início do cristianismo. Se houvesse jornais semelhantes aos que existem hoje na Siria-Palestina do século I, Jesus e seus seguidores estariam na página policial ou nos tabloides populares. Os programas de TV em que apareceriam seriam do tipo popular/policial/sensacionalista. Como vimos também em nossa série dos cristãos ascendendo a alta sociedade romana, a chegada na elite social, política e intelectual do Império demorou, pelo menos, 150 anos. 

Grafite de Aleximeno, caricatura anti cristã da segunda 
metade do século II DC, "Alexamenos sebete Theon"
("Alexandre adora Deus"), Roma,via wikicommons
O conhecimento de Flegon sobre Jesus, tais como outros autores pagãos e judeus de seu tempo, pode decorrer tanto de uma exposição a pregação cristã e/ou evangelhos, bem como de fontes judaicas e romanas sobre Cristo e o cristianismo. Como observam os professores Gerd Theissen (Universidade de Heidelberg) e Annete Merz (Universidade de Utrecht), "(...) os testemunhos não cristãos sobre Jesus correm o  duplo perigo de ser supervalorizados ou subestimados. São supervalorizados quando se espera um acesso "neutro" ao "Jesus histórico", livre de "verniz" cristão. Tácito não oferece um relato que remonta aos Atos de Pilatos, tampouco Josefo, uma descrição que remonta aos protocolos do Sinédrio. Contudo, "(...) as fontes extracristãs são provavelmente uma reação a declarações cristãs. Mas não devemos diminuir seu valor enquanto fontes. Primeiro, elas remetem a afirmações cristãs que provavelmente são independentes de nossos evangelhos. São um testemunho autonômo. Segundo, documentam a postura ambivalente dos contemporâneos judeus e pagãos (...) Terceiro, elas mostram que os contemporâneos dos séculos I e II não tem motivos para questionar a existência de Jesus"[2]. 


Sendo assim, do que sabemos sobre Flegon ele reage as afirmações contidas nos relatos evangélicos, no contexto de seus próprios interesses, o de um autor cujo o interesse em Jesus e nos cristãos não é decorrente de uma disposição necessariamente polêmica (como Celso), ou incidental, para explicar acontecimentos mais amplos em que Jesus e seus seguidores eram figurantes (como Josefo, Tácito ou Suetônio). A obra de Flegon revela um autor com interesse no popular, fantástico, controverso, e no paradoxal. Como descrito pelo Professor Markus Bockmuehl (Oxford):

P. Aelius Phlegon (no relation to his namesake in Rom. 16:14) was an educated freedman in the imperial household of Hadrian (AD 117-138), a native greek speaker from Tralles in Caria, Asia Minor. Among his various literay activities is a Book of Marvels, composed in the sensationalist genre known to classicists as "paradoxography" - entertaining collections of weird and wonderful tales in the best tradition of tabloid journalism. By far the most substantial and best known of Phlegon's works was a chronology of the Olympic Games grom their begining in 776 BC to 229th Olympiad (AD 137-140), during which Hadrian died. Although this work survives only in fragments, it is clear that, in addition to a listing of the Olympic victors at each of the games, Phlegon discusses notable persons and events of the respective period, including various miracles and oracles.

(Tradução) P. Aelius Flegon (sem relação com seu homônimo em Romanos 16:14) foi um liberto educado na casa imperial de Adriano (117-138 DC), um falante nativo de grego de Tralles em Caria, Ásia Menor. Entre suas diversas atividades literárias está um Livro de Maravilhas, composto no gênero sensacionalista conhecido pelos classicistas como "paradoxografia" - divertidas coleções de contos estranhos e maravilhosos na melhor tradição do jornalismo tablóide. De longe, o trabalho mais substancial e mais conhecido de Flegon foi uma cronologia dos Jogos Olímpicos desde seu início em 776 AC até a 229ª Olimpíada (137-140 dC), durante a qual Adriano morreu. Embora esta obra sobreviva apenas em fragmentos, é claro que, além de uma lista dos vencedores olímpicos em cada um dos jogos, Flegon discute pessoas e eventos notáveis ​​do respectivo período, incluindo vários milagres e oráculos [3]

Em seu livros Flegon demonstra interesses diversos. Suas crônicas se estruturam em torno dos jogos olímpicos, evento central para identidade das populações gregas, desde tempos antigos. Os jogos da antiguidade eram realizados na cidade de Olímpia, a partir de 776 AC (data tradicional), a cada quatro anos. Os jogos eram sagrados em toda Grécia, com uma trégua olímpica (ékécheiria) sendo observada, de forma que a integridade e segurança dos participantes em seu caminho para Olímpia e a proteção do próprio santuário fosse garantida. Assim, uma crônica estruturada em torno dos conclaves olímpicos era uma forma bastante tradicional de recordar a história, e cobriria um período de cerca de 900 anos, do ano 776 AC até 140 DC. Da mesma forma, Flegon teria escrito uma descrição da Sicília (que pode ter sido análogo ao "descrições da Grécia" de Pausânias). Tanto "Crônicas" quantos "Descrição da Sícilia" não chegaram até o nosso tempo, embora partes das "Crônicas" sejam citadas por autores posteriores, como Eusébio, George Sincelo e Fócio de Constantinopla.

Por outro lado, Flegon foi também o autor de obras com uma veia mais "sensacionalista". Assim, ele percorre os censos romanos para encontrar cidadãos com mais de 100 anos de idade ("sobre pessoas velhas" ou "Peri Macrobion"). E, principalmente, seu "livro das maravilhas", que coleciona relatos de fatos estranhos, sensacionais e maravilhosos, no melhor estilo "Acredite se quiser", e sua obra é representativa de um gênero chamado paradoxografia. Flegon descreve a descoberta de ossadas gigantescas, nascimentos "monstruosos", hermafroditas e locais mal assombrados. Essas duas obras foram preservadas e existem até hoje.

Considerando esses interesses de Flegon, de que forma a vida de Jesus poderia ter lhe chamado a atenção? No que se refere as menção as previsões de Jesus e sua acurácia, Professora Kelly observa:

This passage from Phlegon (by way of Origen) indicates that some pagans among the well - connected, intellectual set understood Jesus of Nazareth to have been a prophet. Jesus' actions and message could be understood as being intentionally in line with prophets of the jewish scriptures or as a representative of a new type of eschatological prophet, with a focus on the in-breaking age of catastrophic (and then heavenly) change. (tradução) Esta passagem de Flegon (citada por Orígenes) indica que alguns pagãos no meio intelectual e bem relacionado entendiam que Jesus de Nazaré era um profeta. As ações e a mensagem de Jesus podem ser entendidas como estando intencionalmente alinhadas com os profetas das escrituras judaicas ou como representantes de um novo tipo de profeta escatológico, com foco na era iminente de mudanças catastróficas (e depois celestiais). [4]

 Conforme já descrevemos acima, além do interesse em Jesus como o fundador da seita dos cristãos (que, no tempo de Flegon, já eram conhecidos da elite romana desde, pelo menos, o tempo de Nero, 80 anos antes), este era apresentado como "poderoso em palavras e obras" pelos seus seguidores, "mestre e realizador de feitos controversos" (admitindo um texto "neutro" por Josefo), ou "mágico e aliciador do povo" (seguindo Celso, os oponentes de Justino e Tertuliano, o Talmude, e se for considerado um texto original hostil no texto de Josefo). Em todo caso, Jesus seria um personagem que, potencialmente, se adequa aos interesses de Flegon, como indica o Professor Bockmuehl:

 It is clear this work, composed in sixteen books, that Origen cites here. Assuming that after the extant account of the founding of the games, the remainder of the 916-year history is evenly divided over the sixteen books, it is indeed book 13 that may plausible be assumed to cover the lifetime of Jesus, and book 14 the apostolic period. Another popular patristic citation from book 13, known to Origen (Cels. 2.33, 59), Jerome, and others, concern a solar eclipse associated with the darkness at the crucifixion of Jesus. Quite what Phlegon says ou Known, whether about Jesus's predictions or Peter's, is impossible to tell from Origen's fleeting comment. It seems nevertheless fair to assume that it must have been a sufficiently impressive tale for Phlegon to have heardof it and to comment on it. - though it is impossible to be more precise than that. In interpreting Origen's obscure citation, then, it is significant that he does not attribute any explicit knowledge of Peter. (tradução) Fica claro esta obra, composta em dezesseis livros, que Orígenes cita aqui. Supondo que, após o relato existente sobre a fundação dos jogos, o restante da história de 916 anos esteja dividido igualmente entre os dezesseis livros, é de fato o livro 13 que pode ser plausivelmente assumido como cobrindo a vida de Jesus, e o livro 14, o período apostólico. Outra citação patrística popular do livro 13, conhecida por Orígenes (Cels. 2.33, 59), Jerônimo e outros, diz respeito a um eclipse solar associado às trevas na crucificação de Jesus. Exatamente o que Flegon diz ou sabe, seja sobre as predições de Jesus ou de Pedro, é impossível dizer a partir do comentário fugaz de Orígenes. No entanto, parece justo supor que deve ter sido uma história suficientemente impressionante para que Flegon a tenha ouvido e comentado. - embora seja impossível ser mais preciso do que isso. Ao interpretar a obscura citação de Orígenes, então, é significativo que ele não atribua nenhum conhecimento explícito de Pedro.[5]

Professor Martin Hengel (1926-2009), também pondera o interesse de Flegon por Jesus, já atestando a uma distribuição relativamente ampla dos evangelhos na primeira metade do século II. De fato, os fragmentos mais antigos do evangelho, na forma do papiro John Rylands (P52) e P90, contendo versos de João, são geralmente datados da mesma época em que Flegon escreveu (120 -150 DC). Os papiros foram preservados no clima quente e seco do Egito, distante do seu provável local de composição na Ásia Menor ou Síria, indicando uma distribuição ampla do texto do evangelho. Na mesma época, Justino, em seu dialogo com Trifo, tem seu oponente, um rabino helenista, afirmando que  (...) tomou conhecimento e leu com atenção os preceitos dos evangelhos cristãos, os considerou maravilhosos e grandes, de tal forma que suspeitava que ninguém seria capaz de cumpri-los"

 From this same time of Hadrian, we also have the earliest example of a Gentile author who was familiar with a gospel. Phlegon of Tralles, who was freed by Caesar, loved sensational stories. He not only describes an eclipse of the sun that took place at the time of Jesus' crucifixion but, according to Origen, produced "Pertaining to Christ's advange knowledge of Future Events", and, in a most remarkable way, mention in this context also the person of Peter (tradução) Da mesma época de Adriano, também temos o exemplo mais antigo de um autor gentio familiarizado com um evangelho. Flegon de Trales, liberto do imperador, adorava histórias sensacionais. Ele não apenas descreve um eclipse do sol que ocorreu no momento da crucificação de Jesus, mas, de acordo com Orígenes, escreve "referente ao conhecimento presciente de Cristo sobre eventos futuros", e, de uma forma mais notável, menciona neste contexto também a pessoa de Pedro [6]

Além da referência a capacidade profética de Jesus, Origenes afirma que Flegon também deu testemunho em relação as trevas e o terremoto durante a Paixão, descritas nos evangelhos. Desde cedo, porém, um contemporâneo de Orígenes, Julio Africano, que já mencionamos aqui no adcummulus, cita o relato de Flegon em conjunto com Talo, que é geralmente associado a um samaritano, outro liberto imperial, mencionado por Josefo, e que teria escrito em meados do século I DC, por volta do ano 50 DC. A Crônica de Talo, segundo Eusébio de Cesareia, reconta a história do mundo grego desde a Guerra de Tróia até 167ª ou 207ª Olímpiada (112-109 AC ou 49-52 DC, uma vez que os manuscritos são problemáticos nesse ponto, mas a segunda data é preferida pela maioria dos estudiosos)[7]. O fragmento de Júlio Africano que menciona Talo e Flegon é preservado por George Sincelo (que escreveu no século IX DC) 

Esta escuridão Talo, no terceiro livro de sua História, chama, como me parece sem razão, um eclipse do sol. Pois os hebreus celebram a páscoa no 14º dia de acordo com a lua, e a paixão de nosso Salvador termina no dia anterior à páscoa; mas um eclipse do sol ocorre apenas quando a lua fica sob o sol. E isso não pode acontecer em nenhum outro momento, a não ser no intervalo entre o primeiro dia da lua nova e o último da lua antiga, ou seja, na sua junção: como então deveria acontecer um eclipse quando a lua está quase diametralmente oposta? o sol? Deixe essa opinião passar, entretanto; deixe-o levar consigo a maioria; e que este presságio do mundo seja considerado um eclipse do sol, como outros, um presságio apenas para os olhos. Flegon registra que, no tempo de Tibério César, na lua cheia, houve um eclipse total do Sol da sexta à nona hora - manifestamente aquela da qual falamos. Mas o que um eclipse tem em comum com um terremoto, com as rochas dilaceradas e com a ressurreição dos mortos, e com uma perturbação tão grande em todo o universo? Certamente nenhum evento como este é registrado por um longo período. Mas foi uma escuridão induzida por Deus, porque aconteceu então que o Senhor sofreu.

O (possível) testemunho de Talo sobre os eventos da paixão de Cristo é um assunto que merece um post por si só, em nossa opinião (podemos incluir entre as resoluções para 2024!!!). Em geral, há uma polêmica significativa em relação ao que Talo (e Flegon) teriam escrito em relação a crucificação de Jesus, as trevas e o terremoto, com vários historiadores do cristianismo primitivo expressando opiniões divergentes. Mas como a discussão se dá principalmente em relação a relevância do que Talo teria escrito (até pela sua maior proximidade, em quase um século, com a crucificação), podemos manter nosso foco em Flegon. Sobre isso, Professora Loveday Alexander, da Universidade de Sheffield:

It is not surprising, then, to find that the first part of the gospel story known to pagans in the second century is the fact (and to differing degrees the manner) of Jesus' death. Possibly the earliest references to the gospel narratives occur in two early chronographers, Thallos (?mid to the late first century CE) and Phlegon of Tralles (second century CE), who report a solar eclipse with the in the reign of Tiberius. Both are cited by later Christian writers, who connect the eclipse with the gospel report of 'darkness' at the time of the crucifixion (a connection denied by Julius Africanus); thought it is unclear whether either Thallos or Phlegon mentioned the crucifixion himself (traduçãoNão é surpreendente, então, descobrir que a primeira parte da história do evangelho conhecida pelos pagãos no segundo século é o fato (e em graus diferentes a maneira) da morte de Jesus. Possivelmente, as primeiras referências às narrativas do evangelho ocorrem em dois primeiros cronógrafos, Talo (de meados ao final do século I dC) e Flegon de Trales (século II dC), que relatam um eclipse solar no reinado de Tibério. Ambos são citados por escritores cristãos posteriores, que conectam o eclipse com o relato do evangelho sobre as “trevas” no momento da crucificação (uma conexão negada por Júlio Africano); pensei que não estava claro se Talo ou Flegon mencionaram a crucificação[8];

De qualquer forma, a indícios de que Flegon tenha dito "algo" sobre um eclipse contemporâneo a crucificação, até pelas várias vezes em que é mencionado por escritores cristãos posteriores. Além disso, a menção ao eclipse parece surgir no contexto da outra observação sobre os poderes premonitórios de Jesus, também no mesmo 13° ou 14° livro. 

Os astrônomos Pang e Yau [9], observam que há registro de um eclipse solar em 24 de novembro do ano 29 DC, e de um eclipse lunar em 3 de abril de 33 DC. No entanto, apontam a inconclusividade dessas associações uma vez que "(...) Humphreys e Waddington (Nature 306, 743) sugeriram o escurecimento meteorológico e o eclipse lunar de 3 de abril de 33 DC. Schaefer questionou a visibilidade do eclipse em Jerusalém (31.46N, 35.14E). Os seis cálculos que ele citou deram respostas diferentes devido às taxas imprecisas da aceleração lunar secular e ao prolongamento do dia usado (...)", indicam que seus próprios cálculos, baseados em registros chineses, indicavam que o eclipse de abril de 33 DC foi visto em Jerusalém com a Lua em 1/3 na umbra (encoberta) e que "(...)o escurecimento meteorológico remanescente com massa de ar de absorção longa também poderia ter ajudado a avermelhar a lua (...)"[9].  o Professor Fred Espenak lista as várias vezes em que eclipses e outros eventos naturais foram associados pelos povos antigos a eventos de significância [10]. Por exemplo, as legiões na Panônia (Hungria) tinham iniciado uma rebelião ao serem informados da morte do Imperador Augusto (ocorrida em 19 de agosto do ano 14 DC, mas omitida por alguns dias pela sua esposa, Lívia, até que Tibério retornasse da Ilíria), mas teriam sido contidas ao presenciarem um eclipse lunar (que aconteceu em 27 de setembro do mesmo ano), conforme Cassio Dio e Tácito [10].

Assim, entendemos como o cenário mais provável uma citação ao eclipse, talvez contestando diretamente o relato evangélico. Mas desenvolveremos esse ponto em um post futuro.

Referências Bibliográficas

[1] Leslie Kelly, 2018 Prophets, Prophecy and Oracles in the Roman Empire: Jewish, Chrstian, and Greco-Roman cultures, fl. 29)
[2] Gerd Theissen e Annete Merz (1996) Jesus Histórico, Um Manual, fl. 83
[3] Markus Bockmuehl, 2012, Simon Peter in Scripture and Memory, fl. 107
[4] Leslie Kelly, 2018 Prophets, Prophecy and Oracles in the Roman Empire: Jewish, Chrstian, and Greco-Roman cultures, fl. 29)
[5] Markus Bockmuehl, 2012, Simon Peter in Scripture and Memory, fl. 107 
[6] Martin Hengel (2006) Saint Peter: The Underestimated Apostle, fl. 33
[7] Robert Van Voorst (2000) Jesus Outside the Gospels, fl. 21
[8] Loveday Alexander (2005) "Four Among the Pagans", in Markus Bockmuehl e Donald Hagner, The Written Gospel, fl. 225; 
[9] K D Pang e Yau K.K (2000) Eclipses and the Olympics, In American Astronomical Society, 197th AAS Meeting, id.23.01; Bulletin of the American Astronomical Society, Vol. 32, p.1439
[10] Fred Espenak  NASA - Lunar Eclipses of History Eclipse Predictions by Fred Espenak, NASA's GSFC. Cassio Dio, História Romana, Livro 57, 4 Cassius Dio — Book 57 (uchicago.edu) e Tacito, Anais, Livro 1, 28 LacusCurtius • Tacitus, Annals — Book I Chapters 16‑30 (uchicago.edu)

domingo, 8 de setembro de 2013

O purgatório dos fariseus e o estágio intermediário da alma




Como é sabido, o cristianismo católico desenvolveu o conceito de purgatório ao longo de seu desenvolvimento histórico-teológico. Mas enfim, estariam os cristãos católicos solitários acerca dessa noção do estágio intermediário da alma? Nos parece que não.

De acordo com o cristianismo da Igreja Ortodoxa, os mortos vão para o chamado Hades. Lá as almas ficarão à espera do julgamento final. No entanto, estarão divididas: os pios estarão no chamado Seio de Abraão e os ímpios estarão em um local de tormentos, bem separados uns dos outros.


No Islamismo temos o Barzakh, um estágio posterior à morte no qual os indivíduos ficam à espera do julgamento final em um processo de descanso [ou de punições]. Também encontramos o Araf. Este estágio se refere àqueles que conseguiram fugir do inferno, mas que não estão ainda aptos a entrar no paraíso. No Zoroastrismo encontramos o chamado Hamistagan, um estágio, de certa forma, neutro semelhante ao Barzakh ou ao Limbo católico.

Como é possível perceber, todas essas antigas tradições: o Cristianismo, o Judaísmo, o Zoroastrismo bem como o Islamismo desenvolveram concepções acerca de um estágio intermediário da alma post mortem. Neste sentido, a postulação da não-existência de um estágio intermediário da alma é pois uma anomalia as essas tradições, as quais, apesar da aparente diversidade, possuem núcleos íntimos de interdependência.

No Judaísmo temos o chamado Gehinon (ou a Geena), “local” de purificação no qual a alma passará por um período máximo de doze meses, de acordo com as faltas cometidas em vida. “A dor espiritual do Guehinon – o sofrimento da alma ao enfrentar a verdade da sua vida – purifica e cura a alma das manchas e falhas que seus erros provocaram nela. Livre desta camada de negatividade, a alma agora está apta a apreciar realmente o imenso bem que sua vida engendrou e "banhar-se na radiância Divina" emitida pela Divindade que trouxe ao mundo.”

Interessante o fato de que, de acordo com o judaísmo, os vivos terem a possibilidade de atenuar o período do sofrimento de seus entes queridos no Guehinon. Isso se dá através das orações do Kaddish em intercessão ao ente que se foi.

Em um pequeno artigo publicado em 2010, elenquei alguns elementos sobre o chamado "Seio de Abraão", comentado sobre a geografia deste "lugar" no post mortem cristão e judaico. Neste novo texto, pretendo desenvolver um pouco mais a questão da geografia do além, procurando enfocar tipicamente o pensamento farisaico sobre o tema.

 
Painel da Sinagoga de Dura-Europos:"anjo" revive 
indivíduos no Sheol. Interpretação pictórica 
de passagem do Livro de Ezequiel.




Tratado sobre o começo do ano (Ros Ha-Sana


"Ensina-se, segundo a escola de Shammay: no julgamento haverá três grupos: os dos justos perfeitos, os dos ímpios perfeitos e dos intermediários. Os justos perfeitos são logo lançados e confirmados para a vida do século; os ímpios perfeitos são logo lançados e confirmados para a geena, segundo o que é dito (Daniel, XII, 2). Quanto aos intermediários, descem à geena, ficam enclausurados e voltam a subir, segundo o que é dito (Zacarias, XVIII, 9 e I, Samuel, II, 6). Mas os hilelitas dizem: aquele que abunda em misericórdia, tende para a misericórdia, e é destes que fala David (Salmo CXVI, I) ao afirmar que Deus escuta e pronuncia em relação a eles todo este trecho... pecadores israelitas e estrangeiros que pecaram no seu corpo, punidos com a geena durante doze meses e depois aniquilados." [citado por LE GOFF, Jacques. O nascimento do purgatório. Lisboa: Editorial Estampa, 1993, p.58-9]

Tratado sobre os tribunais (Sanhedrin)

"Os da escola de Shammay dizem: há três grupos, um para a vida do século, o outro para a vergonha e o desprezo eternos; são os ímpios perfeitos, dos quais os casos menos graves descem à geena para lá serem punidos e voltam a subir curados, segundo Zacarias, XIII, 9; é deles que se diz (I Samuel, II, 6): Deus dá a morte e vivifica. Os hilelitas dizem (Êxodo, XXXIV, 6) que Deus abunda em misericórdia; tende para a misericórdia e deles David diz todo o trecho do Salmo CXVI, I. Os pecadores de Israel, culpados no seu corpo, e os pecadores das nações do século, culpados no seu corpo, descem à geena para lá serem punidos durante doze meses, depois as suas almas são destruídas e os seus corpos queimados e a geena vomita-os, tornam-se cinza e o vento dispersa-os sob os pés dos justos (Malaquias 4,3,2,21)."[citado por LE GOFF, Jacques. O nascimento do purgatório. Lisboa: Editorial Estampa, 1993, p.59]

Hillel e Shammay são lideranças do protorabinato farisaico que exerceram profunda influência no pensamento judaico, tendo estabelecido duas escolas centrais para o estudo da Torah. A Beit Hillel [Casa de Hillel ou Academia de Hillel] e a Beit Shammay [Casa ou academia de Shammay]. Em termos sintéticos, a escola de Shammay tradicionalmente assumia uma postura mais estrita e rigorosa quanto à interpretação da Torah, atendo-se mais à literalidade do texto. Já a tradição de Hillel é mais liberal, procurando analisar a Torah a partir da essência dos seus conteúdos.

É possível argumentar que Jesus tenha tido contato com o ensinamento destas escolas, dado que podemos verificar "ecos", notadamente de Hillel, nos ditos de Jesus, mas também algumas tendências de Shammay, em menor número. O fato, neste caso, que nos interessa é que tanto Jesus quanto seus seguidores se encontravam neste ambiente do judaismo do Segundo Templo no qual, tal como pudemos perceber através dos dois tratados, a concepção sobre a geena como um local intermediário já era um dado. Havia uma discussão entre as duas escolas, mas a idéia do intermedium já estava posta.

Vamos sintetizar:

Para Shammay:

1 - Existem 3 grupos de indivíduos: justos perfeitos, ímpios perfeitos e intermediários.
2 - Os justos perfeitos são lançados para a vida. Os ímpios perfeitos serão lançados à geena e por lá ficarão eternamente. Os intermediários ficarão um tempo na Geena, ficarão enclausurados, serão punidos, mas após um determinado período subirão de lá curados. 3 - Ou seja, há em Shammay a idéia de que determinados indivíduos, devido ao fato de não serem nem totalmente justos, nem totalmente pecadores, passarão por um processo purgatório de punição e enclausuramento, com vista à cura.

Painel completo da Sinagoga de Dura-Europos - "anjo" revive
mortos e estes migram novamente para a vida. Interpretação
pictórica de passagem do Livro de Ezequiel.
Para Hillel:

1 - Hillel, no entanto, não faz esta divisão tripartite. Para ele a punição para o pecado não será eterna. Ela terá um prazo de doze meses na Geena. Após este período, suas almas serão destruídas e seus corpos serão queimados. 2 - O entendimento misericordioso da concepção de Hillel se dá no fato de que a seu ver não existe punição eterna. Existe um prazo demarcatório de 12 meses para a punição na Geena. Após este período, no entanto, não haverá a cura da alma [tal como proposta por Shammay para os intermediários]. A alma dos pecadores será aniquilada.

A visão tripartite de Shammay confere àqueles casos intermediários uma possibilidade de redenção. Após a punição, as almas serão curadas. Por outro lado, para aqueles ímpios imperfeitos, o sofrimento será eterno na Geena. Hillel é mais brando quanto à punição, demarcando-a temporalmente. No entanto, não há possibilidade de redenção para este rabi.

Vamos ver um relato de Flávio Josefo sobre os fariseus.

"Os fariseus vivem de forma humilde e desprezam as delícias na dieta. Eles seguem a conduta da razão e o que eles prescrevem a eles como bom, eles assim o fazem. Eles pensam que deveriam honestamente se dedicar a praticar aquilo que a razão lhe dita.  Eles também prestam respeito aos de elevada idade de tal modo que nem ousam contradizê-los.  Atribuem ao destino tudo o que acontece, sem, todavia, tirar ao homem o poder de consentir. De sorte que, sendo tudo feito por ordem de Deus, depende, no entanto, da nossa vontade entregarmo-nos à virtude ou ao vício. Eles julgam também que as almas são imortais, e que sob a terra elas serão recompensadas ou punidas, de acordo com o que elas fizeram de forma virtuosa ou viciosa nesta vida. As últimas serão detidas em uma prisão eterna, mas as primeiras terão o poder de reviver e viver novamente. Por tais doutrinas eles são poderosamente capazes de persuadir o corpo da população. E tudo o que eles fazem sobre o culto divino, orações e sacrifícios, eles o fazem de acordo com esta direção. Assim, cidades inteiras dão testemunhos valiosos de sua virtude, de sua maneira de viver e de seus discursos." [JOSEFO, Flávio. Antiguidades Judaicas, Livro XVIII, cap.I, § 3. Trad. própria]

Cruzando as referências do texto de Flávio Josefo com os dois tratados, temos finalmente uma compreensão clara sobre o que eles nos dizem quando afirmam:

a) " Quanto aos intermediários, descem à geena, ficam enclausurados e voltam a subir, segundo o que é dito (Zacarias, XVIII, 9 e I, Samuel, II, 6)." ou; b) quais os casos menos graves descem à geena para lá serem punidos e voltam a subir curados, segundo Zacarias, XIII, 9; é deles que se diz (I Samuel, II, 6): Deus dá a morte e vivifica.

Trata-se pois da reencarnação???

Os indivíduos nem perfeitamente justos, nem perfeitamente ímpios vão para a Geena passar por um processo de punição e cura. Após este processo, eles retornam para uma nova encarnação.
Josefo fala desta crença com relação aos fariseus em geral. Mas pelo que podemos perceber, esta era uma crença defendida pelos seguidores de Hillel.

Quer nos parecer que a base conceitual da idéia cristã sobre o purgatório já estava assentada na tradição judaica da escola de Shammay.

"E muitos dos que dormem no solo poeirento acordarão, uns para a vida eterna e outros para o opróbio, para o horror eterno. Os que são esclarecidos resplandecerão, como o resplendor do firmamento: e os que ensinam a muitos a justiça serão como as estrelas, por toda a eternidade." [Daniel, 12:1-3]

[Ressurreição: Macabeus 7:9+]

"Em verdade, e verdade, vos digo: quem escuta a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não vem a julgamento, mas passou da morte à vida. Em verdade, em verdade, vos digo: vem a hora — e é agora — em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus e os que o ouvirem, viverão. Assim como o pai tem a vida em si mesmo e lhe deu o poder de exercer o julgamento, porque é Filho do Homem. Não vos admireis com isto: vem a hora em que todos que repousam nos sepulcros ouvirão sua voz e sairão; os que tiverem feito o bem, para uma ressurreição de vida; os que tiverem praticado o mal, para uma ressurreição de julgamento." [João 5,24-30]


Referências Bibliográficas:

JEWISH ENCYCLOPEDIA. Eschatology.
JOSEFO, Flávio. Antiguidades Judaicas.
LE GOFF, Jacques. O nascimento do purgatório. Lisboa: Editorial Estampa, 1993.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Geza Vermes "Jesus in the the eyes of Josephus" - homem sábio e realizador de feitos controversos

Faz alguns anos, eu escrevi uma série de posts sobre a imagem de Jesus como Mestre e Sábio, em alguns dos primeiros testemunhos não cristãos do século I e II. Na introdução, escrevemos:


"Jesus como homem sábio e mestre é uma das imagens mais presentes nos evangelhos. Ao fim do sermão do monte as "multidões maravilhavam-se de seu ensino porque as ensinava como tendo autoridade, e não como os escribas" (Mateus 7:27). Também na sinagoga de Cafarnaum (Marcos 1:22). Em uma das mais antigas confissões credais da Igreja Primitiva, Jesus é chamado de profeta poderoso em palavras e atos (Lucas 24:19; Atos 2:22 e 10:38). A fonte Q, assim chamada por conter material comum a Mateus e Lucas, não encontrado em Marcos, é formada basicamente por ditos e ensinos. Na literatura apócrifa temos também importantes testemunhos dessa imagem. (http://adcummulus.blogspot.com.br/2009/05/jesus-como-mestre-e-sabio-na-visao-das.html)



Naquela ocasião, nós abordamos Josefo, Mara Bar Serapion, Luciano de Samosata e Galeno.

Esses foram os meus primeiros posts aqui no Adcummulus. E ficamos muito felizes com a oportunidade de interagir com essas fontes, e quando os posts foram publicados na seção de Novo Testamento do Biblical Studies Carnival XLII (maio de 2009).

Desde então, revisitamos a referência em Josefo algumas vezes, principalmente ao discutirmos o Testemunho Flaviano.

Por isso é importante apresentar a opinião de um estudioso do porte de Geza Vermes. Há algum tempo, ele escreveu sua peça anual para a revista Slate, onde ele analisa as referências de Josefo a Tiago, Irmão de Jesus, João Batista e o Testemunho Flaviano.

Jesus, in the Eyes of Josephus (Geza Vermes)

Ele conclui pela autenticidade das duas primeiras referências, e de um núcleo autêntico no Testemunho Flaviano, que descreveria a crucificação de Jesus, e sua atuação como "Homem Sábio" e 'Realizador de Feitos Controversos", e ressalta a significância dessa menção para os estudos de Jesus Histórico.


(Geza Vermes) Both "wise man" and "performer of paradoxical deeds" take us to plain Josephus territory. Great biblical and post-biblical characters like the priest Ezra, the miracle-worker Honi-Onias (Hame'agel, the circle-maker), and the Pharisaic leader Samaias are regularly portrayed as "just men" and John is called a "good man". More specifically, the legendary King Solomon and the Prophet Daniel carry the title of "wise man", and the miracle-working prophet Elisha is said to have performed "paradoxical deeds". The notion of a paradox is commonly used by Josephus in relation to extraordinary events caused by God (the manna or the burning bush) and to miracles performed by Moses (Ant. 3:37-38) and by the prophet Elisha (Ant. 9:182).
In contrast, the phrase "wise man" has no New Testament parallels in reference to Jesus and falls far short of an honorific title that a Christian forger would choose to describe the divine Christ. Note that in Paul "wise man" has a pejorative onnotation (1 Cor 1:18-31) and in a saying of Jesus "the wise" are unfavourably compared to "babes" (Mt 11:25; Lk 10:21). Furthermore, a Christian interpolator would be presumed to use phrases borrowed
from the New Testament such as "mighty deeds" or "signs" instead of the neutral "paradoxical deeds". The term "paradoxical" is found only once in the New Testament on the lips of uncommitted witnesses of a Gospel miracle (Lk 5:26).
e
So by portraying Jesus not unsympathetically, yet without fully embracing his cause, he achieved what none of his ancient Jewish successors managed to do: he sketched a non-partisan picture of Jesus. The Testimonium lies half way between the reverential portrait of the early church and the caricatures of the Talmud and of the early medieval Jewish lives of Jesus (Toldot Yeshu). In conclusion, what seems to be Josephus's authentic portrait of Jesus depicts him as a wise teacher and miracle worker, with an enthusiastic following of Jewish disciples who, despite the crucifixion of their master by order of Pontius Pilate in collusion with the Jerusalem high priests, remained faithful to him up to Josephus's days.


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

post sobre Tiago irmão de Jesus atualizado

O post sobre a referência a Tiago, irmão de Jesus, por Flavio Josefo, em Antiguidades 20:9:1 (§ 200), na Série Jesus na Escala Richter de Impacto Histórico, foi atualizado, com algumas observações acrescentadas.

" Alías, o uso de um deslize de uma figura poderosa, como pretexto para enfrace-lo, por seus adversários políticos não é algo incomum seja na Antiguidade quanto no presente. O fato de que Josefo, explicitamente, começa seu relato afirmando que Anás era saduceu, enquanto que indica que a ação para contesta-lo teve origem nos que eram "zelosos observadores da Lei" (fariseus), é forte indício de que o ato precipitado de Anás foi visto por alguns como uma oportunidade para indispor ele e sua poderosa família com os romanos, dando chance a um novo equilibrio de poder. Assim, a pressa de alguns desses zelosos observadores da Lei em encontrar Albino ainda no caminho de Alexandria, não se deu tanto em razão de sua angustiados pela execução de Tiago e seus companheiros, ou porque estivessem preocupados com minúcias do direito romano, mas porque a ação precipitada e inusitadamente ousada do Sumo Sacerdote, usurpando poderes formais do Procurador, abriu uma avenida de oportunidades para seus adversários políticos."

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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Josefo, Jesus, os Cristãos, Messianismo e Apocaliptismo no Judaismo do Primeiro Século: Tudo Junto e Misturado

Faz algum tempo, em nossa série sobre Jesus na Escala Richter de Impacto Histórico, abordamos algumas das principais objeções a autenticidade (parcial) do Testemunho Flaviano. No entanto, "por falta de espaço", duas ficaram faltando i) A de que Jesus e os cristãos não são citados por Josefo quando ele descreve os grupos religiosos tradicionais (ou peculiares) aos judeus ii) Jesus e os cristãos terem crenças messiânicas e apocalípticas, e portanto Josefo os abominaria.

Refletindo sobre essas questões, e já que falamos de seitas judaicas, messianismo, apocaliptismo, acho interessante aumentar o escopo da discussão. A questão das objeções ao Testemunho Flaviano servirá então como ponto de partida, para uma discussão mais ampla de como Jesus e os cristãos se inserem na "panela de pressão" da Palestina do Século I.

Os cristãos no Judaísmo: Josefo afirma que os judeus por muito tempo tiveram três filosofias peculiares. Os essênios, os saduceus e os fariseus. O esboço abaixo é baseado nas descrições de Josefo em várias partes da sua obra, sintetizadas pelos Professores Gerd Thiessen, da Universidade de Heildelberg, e Annete Merz , da Universidade de Utrecht [1]

Os saduceus, segundo Josefo, não acreditavam na imortalidade da alma e negavam penas ou recompesas depois da morte. Em sua visão, o homem é responsável pelo seu próprio destino. Seguiam apenas aLei Mosaica e rejeitavam a tradição dos pais. Debatiam entre si frequente e calorosamente, mesmo com seus mestres. No entanto, sua doutrina era aceita por poucos, ainda que esses poucos fossem influentes e poderosos. Por causa disso, quando assumiam o poder, "emprestavam" idéias e conceitos farisaicos, pois, de outra forma, não teriam suporte popular.

Os fariseus acreditavam na imortalidade da alma, que Deus puniria dos ímpios e recompensaria os justos, na ressureição dos mortos, que ressuscitariam. Eram sinergistas, istoé, acreditavam que os acontecimentos decorriam vontade divina em cooepração/conflito com os atos humanos. Seguiam a escritura e a tradição oral, acrescentando mandamentos as leis dos pais. Os mestres mais experientes entre eles eram muito honrados, e, diferentemente dos saduceus, apreciavam a harmonia entre si. Eram próximos do povo, que aceitava amplamente seus preceitos e estaria mais inclinado a seguir sua liderança do que os outros grupos.

Os essênios acreditavam na imortalidade da alma, no castigo dos maus e que os justos seriam recompensados com uma vida de alegrias, fora do corpo. Eram deterministas, o destino dos homens dependia da vontade de Deus. Viviam em comunidades separadas, eram celibatários, dividiam seus bens entre si, não possuiam servos, e se abstiveram do serviço do Templo de Jerusalém. Tinham livros e ensinos secretos.

Josefo descreve ainda uma quarta escola ou filosofia, aquela inspirada por Judas Galileu, que seguiam em tudo as doutrinas e concepções farisaicas, "mas possuiam um vinculo inquebrantável com a liberdade, e diziam que Deus era o seu único Senhor e Rei". Sua valentia era tanta que não davam valor a suas vidas, nem dos seus parentes e amigos. Não aceitavam ser súditos de homem algum. A ação e influência desses agitores e a inépcia dos goverdores romanos foi a causa dos tumultos e da Guerra, conforme Josefo.

Quanto ao Testemunho Flaviano, a implicação deste fato é pouco relevante para a questão da autenticidade. Um dos motivos é que Josefo descreve os fariseus, saduceus e essênios, sem citar as origens, os fundadores ou principais líderes destes grupos. Portanto, não haveria porque, necessariamente, citar a origem, fundador e lideres dos cristãos. O único dos quatro grupos que Josefo menciona o fundador, foi o dos revolucionários que seguiam a filosofia de Judas Galileu. Mas esses eram uma facção do grupo farisaico no aspecto religioso, tendo porém concepções políticas diferenciadas. E mesmo assim, é questionavel que figuras tão diferentes como Teudas, o profeta egípcio, e Menahem possam ser postos no mesmo bolo. O mais provável é que Josefo, convenientemente, classifica esses "renegados" como um nova escola, os isolando de outros grupos, mais antigos e venerandos. Assim, foi uma filosofia nova, recente, e não os preceitos tradicionais, combinado a governadores romanos ineptos (e não o domínio romano em si) que incitou a nação e a levou a revolta. Judas Galileu é importante também não só por seu ensino mas porque muitos de seus descendentes estiveram envolvidos em momentos decisivos de agitação revolucionária. Em 47 DC, os Tiago e Simão, filhos de Judas, foram executados pelo Procurador Tibério Alexandre (Ant. 20.100-103), em um momento em que o país passava por uma grande fome (o que pode ter sido utilizado por eles para fomentar a rebelião). Durante a Guerra Judaica, Menaem, descendente de Judas, proclamou-se Rei. Quando Jerusalem caiu, Eleazar ben Jair, primo de Menahem (e portanto parente de Judas), foi um dos líderes da resistência em Massada. A menção a Judas Galileu e sua família são essenciais para as finalidades apologéticas da narrativa de Josefo junto a seus leitores da aristocracia romana. As inovações de Judas teriam iludido e desencaminhado a nação, pois seus ensinos "alteraram o modo de vida de nossos pais, de tal maneira, que pesaram decisivamente para trazer tudo para a destruição" (Ant. 18:9), o legado de sua loucura foi de agitação, fome, destruição das cidades e do Templo de Deus (18:7-8). Judas Galileu e sua escola são o bode expiatório perfeito para Josefo, e caem como uma luva para sua narrativa.

Mas se a menção da seita por Josefo não implica, necessariamente, em citar seus fundadores, - e a excessão no caso de Judas Galileu e sua escola é explicada pela seu papel relevante nos tumultos do seculo I DC e na Guerra Judaica, e consequente destruição de Jerusalém e do Templo - porque Josefo não relaciona os cristãos entre as seitas judaicas? Essenios, Fariseus e Saduceus eram grupos antigos e tradicionais que existiam desde meados do II seculo AC, e os revolucionários são importantes por sua função na narrativa de serem a razão da ruína da nação, assim os outros grupos e facções podem não ter sido citados simplesmente por não serem importantes e/ou tradicionais o suficiente. Seu eu digo que os britânicos estão divididos entre conservadores, trabalhistas e liberais democratas, ou os americanos entre Democratas e Republicanos, isso não quer dizer que não existam partidos menores, ou subgrupos e movimentos relevantes cuja influência se estende tanto fora como dentro desses partidos. O mesmo pode ser dito ao mencionar PT, PSDB, PMDB, DEM e PP como as forças políticas tradicionais no Brasil, sem citar os inúmeros partidos e movimentos parlamentares menores. De fato, em uma passagem do Talmude de Jerusalem, o Rabi Yehoanam (século III DC) afirma que existiam 24 seitas entre os judeus [2]. Isoladamente, a confiabilidade desta tradição é duvidosa, porém varios textos e materiais datáveis dos séculos I AC e sec I DC indicam a existência de outros grupos. Em geral, os estudiosos concordam que existiam mais grupos religiosos além de essênios, fariseus e saduceus nos anos anteriores a destruição do Templo (70 DC) [3]. Existe também um consenso de que esta esquematização, é anacrônica e exclui importantes grupos como os samaritanos, zelotes, sicários, grupos batistas, enoquianos, judeus seguidores de magia, betusianos, escribas, milagreiros galileus, simpatizantes romanos, e muitos outros que reivindicavam ser judeus seguidores da Lei, e obviamente, os seguidores de Jesus na Judeia. [3]

Assim, independente da autenticidade do Testemunho Flaviano, o fato é que os cristãos existiam na Judéia como demonstram o complexo relacionamento entre Paulo e a Igreja de Jerusalém (Gl. 1:18-22 e 2:1-5; Rom. 15:26; I Tes. 2:14-16; I Cor. 16:1-4), e o fato de ser de conhecimento público entre os leitores de Josefo de que os cristãos - perseguidos em Roma desde o tempo do Imperador Nero (Tacito, Anais 15:44; Suetonio, De Vita Nero, 16:2) - eram originários da Judéia. Isso é consistente com o fato de Josefo não oferecer uma descrição dos cristãos entre os grupos tradicionais entre os judeus - existentes a mais de 250 anos e atores principais dos acontecimentos - e os cita (provavelmente) brevemente como uma seita sem muita importância que, surpreendentemente, ainda não se extinguira 60 anos após a morte de seu fundador.

Apocaliptismo, Messianismo, os Cristãos, Jesus e Josefo: Deve ser observado que as seitas judaícas, de modo geral, eram messiânicas. Inclusive os fariseus, grupo a qual Josefo se identificava. Além disso, as crenças messiânicas e apocalipticas estavam no auge entre o povo, e somadas a condições econômicas, sociais e políticas bastante específicas, exerceram grande pressão na palestina no período. Entre a morte de Herodes (4 AC) e a derrota de Simão Bar Kokhba (135 DC) a Judéia foi envolvida por três grandes rebeliões e vários tumultos, enquanto que nos séculos anteriores de domínio persa, helenista e herodianos so há registro de uma única grande rebelião (a dos macabeus). Portanto, para entender essas tensões vamos analisar agora as crenças desses grupos.

Josefo descreve os essênios em sua obra, com palavras de admiração e louvor:
"Merece nossa admiração quanto aos essênios que superaram todos os outros homens que se dedicavam a virtude , e o faziam com retidão e de tal forma que jamais aconteceu entre outros homens, nem gregos, nem judeus". (Antiguidades Judaicas 18:21)
"Há mesmo entre eles os que se tornam capazes de prever o futuro, exercitados que são no estudo dos livros santos, dos escritos sagrados e das sentenças dos profetas; e é raro que aconteça de se enganarem em suas predições" (Guerras Judaicas 2:159)

Filo também faz observações semelhantes em Hipotética 11:14-17.
Mas o que sabemos sobre os essênios, e suas crenças?

Professor David Flusser, da Universidade Hebraica:
"Ja os essênios eram de outra espécie. Originalmente, formavam um movimento revolucionário apocaliptico, que desenvolveu uma amálgama ideológica de pobreza e predestinação dupla. Eram os verdadeiros filhos da luz, os pobres divinamente eleitos. No iminente fim dos dias, pelo poder das armas e assistência das hostes celestiais herdariam a terra e conquistariam o mundo. Os filhos das trevas - o resto de Israel, os gentios e os poderes demoníacos que governam o universo - seriam aniquilados" [4]

Surpresa!!! Os essênios também eram messiânicos e apocalípticos. O que pode ser demonstrado analisando os Manuscitos do Mar Morto. Na opinião da grande maioria dos estudiosos, a maior parte desses textos seriam de autoria de uma comunidade de essênios, radicados em Quram, atual Jordânia [5]. De fato, os autores dos manuscritos do Mar Morto tem uma concepção apocaliptica muito agressiva. Professor Geza Vermes , da Universidade de Oxford, observa:

"A oração conhecida como a benção do Príncipe da Congregação, o futuro chefe militar da Comunidade de Qumrã, concebe uma figura guerreira semelhante dotada com características de sabedoria divina:
O Mestre abençoará o Principe da Congregação
Que há de Estabelecer o seu reino para sempre
Que o Senhor o erga a alturas perpétuas como uma torre fortificada
[Que derrotes os povos] com o poder de tua mão e devastes a terra com seu cetro
Que tragas a morte para o incréu com o hálito dos teus lábios
[Que ele derrame sobre ti o espirito do conselho] e o poder eterno do Espirito do conhecimento e o temor de Deus (1 QS 5:20-25)


Admitidamente, essa oração não contém o termo "Messias" propriamente, mas outras passagens do Mar Morto vêm em nosso socorro e esclarecem a questão. Eles fazem referência, por exemplo, ao "Messias dos Justos" a descendência de Davi (4 Q252 6 sobre Genêsis 49:10) ou descrevem o último Príncipe da Congregação como "Descendência de Davi e que derrotará os Cetim - Romanos (4Q285). [6].

O texto é radicalmente apocalíptico. Mas, como já dissemos, o apocaliptismo e o messianismo não são uma característica apenas dos sectários essênios. Na verdade, esses traços permeavam em maior ou menor grau todo o judaísmo, antes e depois da 1ª Guerra Judaico Romana (66-73 DC).

"Eis que o machado esta posto sobre a raiz das árvores" - O apocaliptismo e messianismo no Judaismo do Segundo Templo: O Professor Vermes também analisou as crenças apocalipticas e messiânicas dos essênios em contexto mais amplo, a luz das crenças comuns do judaismo do tempo de Jesus, tendo em vista das orações do povo judeu.

"As orações são provavelmente a melhor fonte a consultar para tentarmos descobrir que tipo de libertador a gente comum esperava. Os Salmos de Salomão (17 e 18), do século I AC, bem como a maior parte dos textos messiânicos entre os manuscristos do Mar Morto de data semelhante, juntamente com a famosa oração sinagogal das dezoito bençãos, em substância atribuiveis ao século I DC, transmitem-nos um quadro vivo do esperado Messias real. Eis o governante ungido dos Salmos de Salomão (17:23-24), poderoso justo e sagrado

Vê Senhor, e erige-lhes o seu rei, o Filho de Davi...
E cinge-o de força para que possa abalar os regentes injustos
E ele congregará um povo santo...
E servirá as nações pagãs sob seu jugo...
E será o Rei justo ensinado por Deus...
E não haverá injustiça nenhuma em seu meio no seus dias
Pois todos serão santos e seu Rei o ungido [do] Senhor"
[6]

As dezoito bençãos, como veremos adiante, eram recitadas diariamente nas sinagogas judaicas, não só em Israel, mas em todo Império. Os Salmos de Salomão também refletem também uma concepção judaica tradicional e popular do Messias.

Vermes observa também:
"Finalmente, talvez a mais influente de todas as orações judaicas, as dezoito bençãos, aqui citada a partir de sua versão palestina, também dá testemunho da esperança central da vinda de um rei ungido justo.
"Sejas bondoso, ó Senhor, Nosso Deus, conforme as tuas grandes mercês.
Para com Israel, o teu povo, e Jerusalém, a tua cidade, e a Sião, a residência da sua glória
e para com teu Templo e altar
e o reino da casa de Davi, o teu virtuoso Messias""
[6]

Professor Jona Lendering [7], observa que a literatura acadêmica distinguiu quatro tipos messiânicos no I século DC: o Messias Militar, um Rei Guerreiro, na semelhança e descendência de Davi, que derrotará as nações impías; o Messias Sábio, um mestre capaz de interpretar as escrituras de maneira correta, curar os enfermos e predizer o futuro (que também era chamado Filho de Davi); o Messias Sacerdotal, que derrota os inimigos de Israel (em um sentido mais afeito as forças malignas, demoniácas), traz boas novas de salvação, seria sacerdote para sempre, restabeleceria o culto verdadeiro e julgaria as nações; e o Messias "profeta como Moisés", que apareceria para guiar o povo e seria investido da autoridade que Moisés teve. A maioria das pessoas acreditava que o Messias combinaria todos os pelo menos alguns desses aspectos. Por exemplo, João Batista pode ter sido visto como um "profeta como Moisés" e Jesus de Nazaré é descrito nos evangelhos principalmente como um "messias sábio" (alguém que traz novas leis, cura, e profetiza), mas também como um Messias sacerdotal e um "profeta como Moisés". A idéia de um Messias Militar é claramente rejeitada nos evangelhos.

O professor Louis Feldman , da Yeshiva University, levanta mais alguns pontos, observando a prevalência das crenças messiânicas entre fariseus e rabinos posteriores
"Zeitlin observa que tanto na obra de Filo, quanto na de Josefo, não há qualquer menção ao Messias ou a expectativas messiânicas (Zeitlin não aceita a afirmação de que Jesus era o Messias em Antiguidades 18:63 como autêntica), e que essa omissão não se deve ao temor de seus benfeitores [de Josefo], os flavianos, mas ao fato dele não compartilhar essa crença. Nos podemos, entretanto, observar que, uma vez que Josefo se declara um fariseu (Vita, 12) é díficil acreditar que ele não aceitasse uma crença tão crucial entre os fariseus. Rivkin, deve ser dito, com base em Josefo, conclui que nem os fariseus, nem a maioria do povo judeu estava esperando o Messias; mas essa opinião esta em desacordo com o sentimento generalizado e esmagador do Talmude, e o fato de que, com excessão de Hilel II, no quarto século, nenhum outro rabino é citado como sendo cético da vinda do Messias" [8]

Desta forma, mesmo que se rejeite a autoria essênia dos manuscritos do Mar Morto, o fato é que o judaismo do I Século esta permeado dessas concepções, pedindo a Deus todos os dias pelo "reino da casa de Davi seu servo" e o "teu virtuoso Messias". E seus rabinos, nos séculos posteriores, discutiriam sobre o Messias e seu advento, como pode ser visto no Talmude. Desta forma, podemos dizer que os cristãos partilhavam uma crença judaica comum generalizada no apocalipse e no Messias. Essas crenças estavam firmemente enraizadas no judaismo em geral, e fazia parte do imaginário do povo e das elites, de uma ou de outra forma, com maior ou menor intensidade. Não se discutia se haveria ou não um Messias, mas sim como seria o seu advento, e a natureza de sua manifestação (se sacerdotal, ou militar, sabio/filosofo/milagreiro ou profética) .
É relevante que ainda que a identificação dos manuscritos do Mar Morto com os essênios seja equivocada, o ponto de vista da prevalência de crenças messiânicas entre os judeus do I século não é prejudicado, em vista das hipóteses concorrentes a posição dominante. Professor James Vanderkam, da Universidade Notre Dame, cita duas teorias alternativas a hipótese essênia dignas de alguma consideração [9]. O Prof. Norman Golb, da Universidade de Chicago, propõe que os manuscritos não foram compostos em Quram, mas em Jerusalém - por judeus de várias correntes religiosas, bem como sacerdotes do Templo - e que foram escondidos lá por refugiados da Guerra Judaico-Romana, Quram seia na verdade uma fortaleza. Já a segunda hipótese alternativa, é a do Professor Lawrence Schiffman (New York University), que o grupo de Quram e os textos escritos lá eram de origem saducaica. O termo saduceu, na teoria de Schiffman, merece algumas qualificações. Para ele tanto os saduceus da elite do Templo (mencionados no Novo Testamento e Josefo), quanto os essênios, tiveram uma origem comum, um grupo de sacerdotes do Templo do século II A.C, que se auto-denominava Filhos de Zadoque, ou Zadoqueus. Mas que, nos séculos seguintes, os dois grupos tomaram caminhos bastante distintos (e, certo sentido, como nas crenças de anjos e predestinação, seu oposto). Mas, como observa Vanderkam, a teoria de Schiffman não é, na verdade, uma negação da identificação com essênios, mas uma tese sobre uma origem comum deles com os saduceus [9]. E ainda que aceitemos a teoria de Golb, se torna ainda mais claro que o messianismo e apocaliptismo estavam entranhados no imaginário e convicções judaicas (até mesmo entre sacerdotes da elite do templo da classe saduceia dominante).

Flusser observa que "seitas radicais podem, com frequência, ser bastante afáveis"[10]. Ao longo de sua história o fervor apocalíptico dos essênios foi se amainando, e isso talvez explique o retrato como "monges" tranquilos, serenos, contudo arredios que fascinou Josefo, Filo e mesmo o romano Plinio, o Velho. De fato, apesar dos vários escritos apocalípticos, messiânicos, que previam a derrota dos impíos e a destruição de seu poder, que, obviamente, implicava na derrocada dos romanos, não há registro de envolvimento dos essênios nos numerosos tumultos e rebeliões ocorridos, excetuando-se a Guerra Judaica-Romana de 66-73 DC, quando os país inteiro se levantou contra os romanos.

Bandidos, Profetas e Messias: Josefo também descreve João Batista com algumas similaridades com os essênios (um profeta, que vivia no deserto, se dedicava a virtude, fazia banhos de purificação...). João Batista atrai multidões e causa alvoroço. Herodes Antipas fica alarmados, e tentam (e, efetivamente conseguem), silencia-lo. A acusação ou motivo da execução é a possibilidade de que as massas, excitadas pela pregação de João, fossem induzidas a rebelião (contra os Herodianos, e, em todo caso, contra Roma).

Falando sobre os efeitos da pregação de João sobre as massas, Professor John Dominic Crossan observa:
"De repente, tudo muda, mas sem qualquer explicação. Quem são esses outros, porque são tão incitados, qual é o conteúdo desses sermãos , onde João levaria aqueles que o obedecem em tudo o que faziam e como poderia tudo isso levar a alguma forma de sedição ou mesmo a uma sublevação? Depois de ler esta segunda parte, não surpreende que Antipas tenha rapidamente decidido eliminar João" [11]

A possibilidade, ainda que remota, de que João Batista se torne o líder de uma revolta (para se tornar rei?), leva a sua execução. Como diz Crossan, é possível que Josefo não tenha contado toda a história em relação a João Batista, deliberadamente relatando menos que sabia, para que os detalhes não ferissem suscetibilidades de seus leitores da elite greco-romana . É concebível que em seus sermões pudessem ser interpretados de forma revolucionárias.É pouco provável que multidões se deslocassem de seus lares apenas para ouvir homílias abstratas sobre a virtude, e mesmo se o fizessem, é inverossímil que tais sermões os deixassem "excitados" a tal ponto que uma raposa como Herodes Antipas viesse a temer uma rebelião. A pregação de João era certamente virtuosa, mas, com toda probabilidade, revolucionária. Provavelmente não da forma de um Judas Galileu, mas algo como um dos profetas do Velho Testamento. Josefo sabia mais sobre João do que ele conta. É bem provável que isso também se aplique aos essênios. No seu afã de tentar provar a seus leitores romanos e gregos que existiam grupos e profetas judeus que pregavam a virtude e não seguiam a quarta filosofia, ele torce os fatos. Nem João era um simples pregador da virtude, nem os essênios eram monges inofensivos (o que é um elemento que reforça a tese de que na parte josefana do Testemunho Flaviano, ele chamou Jesus de "homem sábio" e "realizador de feitos maravilhosos", ocultando o conhecido fato de que Jesus foi executado como "Rei dos Judeus").

E no que se refere aos cristãos, o único caso de sedição atribuído a eles, o incêndio de Roma em 64 DC, relatado por Tácito, que claramente afirma que eles foram utilizados como bode expiatório por um governante insano, Nero. Diferentemente do que a maioria dos pretendentes messiânicos a qual Josefo menciona - como Atronges, Judas Galileu, o profeta egípcio, Menaem e Simão Bar Giora - que invariavelmente se envolviam em rebeliões, e, conforme Josefo, "agiam pretensamente a título do bem público, mas na realidade com esperança de ganho pessoal, fomentando a sedição, e causando mortícinios". [Ant. 18: capítulo 1, seção 1 (§ 7-9)]

Mas mesmo a respeito desses messianistas revolucionários, Josefo reflete alguma ambiguidade. A passagem citada acima é de Antiguidades Judaicas (cf Ant. 18:4-9 e 23), e basicamente reitera, nesta parte do texto, o que ele havia escrito 15 anos antes em Guerras Judaicas. Contudo, segundo o Professor Giorgio Jossa, da Universidade Federico Napolitano (Itália), em Antiguidades, Josefo também parece indicar uma mudança de julgamento em relação a Judas Galileu, o inspirador desses rebeldes, e seus seguidores [12]. Jossa observa que em Guerras, Judas Galileu é mestre de uma escola "peculiar, e totalmente estranha as outras" (Guerras 2:118). Já em Antiguidades, Judas (junto com o fariseu Zadoque) é referido como fundador de uma nova filosofia - junto com as tradicionais dos saduceus, essênios e fariseus - similar em suas concepções a dos fariseus (Ant. 18:23), grupo a qual Josefo diz pertencer, e difere deste grupo apenas em seu apaixonado amor pela liberdade e por não admitir nenhum outro Senhor, se não Deus [12]. Prof. Jossa aponta também o fato de que Josefo agora admite que Judas e seu grupo conquistaram a admiração da população (Ant. 18:6) - e não apenas de um grupo de fanáticos, como em Guerras Judaicas [12]. Em suma, Josefo chega perto de elogiar Judas Galileu (Geza Vermes usa o termo bajular) [13]. Agora ele não é apenas um bandido disposto a insuflar as massas para o ganho pessoal, mas também um mestre tão apegado a liberdade, e tão cioso da devoção exclusiva de Deus sobre o povo judeu, que não aceita o domínio romano. Josefo reitera sua palavras de reprovação a esse grupo, mas a descrição muda significativamente.

Ou seja, mesmo em Antiguidades, até os "bad boys", os messianistas fanáticos, tem sua avaliação melhorada. Desta forma, se Josefo diz que um perigosos revolucionário - cujos os ensinos levaram a nação a catástrofe - era também um filosofo fundador de um escola, um amante inveterado da liberdade, que acreditava que o único Senhor era Deus, porque não pode chamar Jesus de homem sábio e realizador de feitos surpreendentes?

Assim, como os essênios (e o judaismo do I seculo em geral) os cristãos eram messiânicos. Tinham crenças apocalipticas. E seus textos evidenciam isso. Entretanto, apesar dessas crenças, Josefo pode apresentar um retrato extremamente favorável dos essênios, ainda que ele mesmo fosse fariseu. De fato, ele não poderia ignorar as crenças igualmente messiânicas e apocalipticas de seus companheiros fariseus. Provavelmente, as crenças apocaliptícas cristãs não destoavam tanto assim do que o restante dos judeus acreditava, e possivelmente fossem até bastante moderadas, se considerarmos o sucesso que as idéias de messianismo radical do fariseu Zadoque e Judas Galileu tiveram entre a população, como admite Josefo. Em suma, é razoavel que Josefo tivesse uma opinião neutra ou ligeiramente favoravél de Jesus, a despeito das crenças messiânicas e apocaliptícas de seus seguidores, pois mesmo quando descreve os perigosos messianistas radicais, ele tem algumas coisas boas a dizer. Além disso, o messianismo cristão não era o único, fariseus e essênios também criam no advento do "reino da casa de Davi, o teu virtuoso Messias".

Referência Bibliográficas
[1] Descrição baseada em Gerd Thiesen e Annete Merz (1996), O Jesus Histórico, Um Manual, fl. 159 que esquematiza também em Antiguidades Judaicas 18: capitulo 1, (§ 11-25), Antiguidades Judaicas 13, capítulo 5, seção 9 e capítulo 10, seção 5 (§ 171-173 e 297), Guerras Judaicas 2, capítulo 8 (§ 118-166)
[2] Talmude de Jerusalem, Tratado Sinédrio 10.6.29.c. Ver também Louis Feldman (1996) Jewish life and thought among Greeks and Romans: primary readings
[3] James H. Charlesworth (2006), "The Dead Sea Scrolls: Their Discovery and Challenge to Biblical Studies," in The Bible and the Dead Sea Scrolls: Vol 1: Scripture and the Scrolls ed. J.H. Charlesworth, p.7
[4] David Flusser (1998), "Jesus", fls. 70-71
[5] James Tabor, "Getting all the facts wrong: Time Magazine on the Dead Sea Scrolls", em http://jamestabor.com/2009/03/17/getting-all-the-facts-wrong-time-magazine-on-the-dead-sea-scrolls/, acessado em 17.03.2009
[6] Geza Vermes (2000), "As Várias Faces de Jesus", fls 213-214
[7] Jona Lendering, "Messiah, From 'anointed one' to 'eschatological king'", artigos 7, 8, 9 e 10,
http://www.livius.org/men-mh/messiah/messiah00.html#overview, acessado em 17.01.2011
[8] Louis Feldman (1984), Flavius Josephus Revisited, In Wolfgang Haase & Temporini; Aufstieg und Niedergang der römischen Welt, fl. 828
[9] David Flusser (1998), "Jesus", fls. 70-71
[10] James Vanderkam (2010), The Dead Sea Scroll Today, fls. 119 a 124
[11] John D. Crossan (1994), Jesus uma Biografia Revolucionária, fl. 50
[12] Giorgio Jossa (2005), Jews, Romans and Christians, from the Bellum Judaicum to Antiquities In Joseph Sievers & Gaia Lembi (2005): Josephus and Jewish History in Flavian Rome and Beyond, fls. 335-337
[13] Geza Vermes (2005), Quem e Quem na época de Jesus, fls 192-193

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A Significância de Jesus e a Escala Richter de Impacto Histórico Parte 2C: Resposta as objeções a autenticidade (parcial) do Testimonium Flavianum

Neste post, continuamos a discutir questões preliminares em nossa série "Jesus na História Richter de Impacto Histórico", e uma vez que no post anterior, aceitamos a autenticidade parcial do Testimonium Flavianum, respondemos agora as principais objeções a essa posição.


1) O Testimonium não é citado pelos apologistas cristãos e pais da igreja antes de Eusébio
Possivelmente é a objeção mais forte a autenticidade do Testimonium, pelo menos na sua forma atual. Como poderiam os numerosos escritores cristãos do II e III século ter ignorado uma passagem como essa e não tenham citado um autor judeu que reconhecesse que Jesus era o Messias, sua condição sobre-humana e sua ressurreição?
O fato é que as perguntas acima já trazem as possíveis respostas. O silêncio dos autores cristãos é decisivo para demonstrar que o texto atual não foi escrito por Josefo. Contudo, a teoria da autenticidade parcial, na opinião da maioria dos críticos, é capaz de explicar esse fato. Sem as frases claramente cristãs, o que sobra não é suficiente para atender aquilo que os primeiros escritores cristãos buscavam, uma prova apologética.

Como observa o Professor John P. Meier
" O tom neutro ou ambiguo, ou talvez um tanto desdenhoso, do Testimonium é provavelmente o motivo pelo qual os primeiros escritores cristãos (em especial os apologistas do século II) mantiveram silêncio sobre essa obra, motivo das queixas de Orígenes, segundo o qual Josefo não acreditava que Jesus fosse o Cristo, o que levou a algum interpolador, ou mais que um, a acrescentar as afirmações cristãs no final do século III" [1].

Um ponto importante para nossa análise é tentar compreender quem lia Josefo na Antiguidade, e com que finalidade.

Se Eisler, Bammel ou Bruce estiverem certos, e a versão original de Josefo fosse negativa, mesmo que levemente, em relação Jesus e/ou aos cristãos, seria pouco provável que apologistas o utilizassem. Observamos no post anterior, que aqueles autores apontam que pequenas alterações na parte inicial do Testimonium, lhe daria um sentido completamente diferente. Se ao invés de sábio (grego: sophos") Josefo tivesse chamado Jesus de astuto ou sagaz ("sophiste"), e que o verbo epêgageto, traduzido como atrair, tenha sido empregado no sentido de aliciar, "muitos judeus e muitos gregos", e que Jesus realizou feitos controversos (sentido possível do termo grego "paradoxa"), foi seguido por pessoas que recebiam coisas estranhas (aethe), ao invés de verdadeiras (alethe), com prazer, é que "acreditaram" que "ele [Jesus] era o Cristo" (uma variante do Testimonium que encontramos em Jerônimo e Miguel, o Sírio, e explicaria o termo "assim chamado Cristo" da passagem sobre Tiago). Se este for o caso, é inteiramente plausível que "Pilatos tivesse aceitado a acusação dos homens mais proeminentes, condenando Jesus a cruz". Que os que amaram Jesus não o abandonaram após sua morte é demostrado pelo fato dos cristãos, continuarem existindo, e, como diz Agápio, -que, muito surpreendentemente, não cita a frase da condição sobre-humana de Jesus - relatavam que seu mestre apareceu vivo, no terceiro dia, como os profetas disseram....". Assim, alterando algumas letras, em duas palavras, em combinação com a ambiguidade de duas outras palavras, e uma omissão e duas variações de frase encontradas em versões do TF citadas por Jerônimo e Agápio, diminuiriam tanto a significância do testimonium, que não haveria vantagem para os cristãos em cita-lo. Ainda, mesmo na versão negativa os fatos não seriam alterados, mas apenas a avaliação de Josefo. Jesus agora seria um sofista, que usou seu conhecimento para aliciar pessoas ansiosas por coisas estranhas, mas o fato que reuniu muitos judeus e gregos, sendo crucificado pelas autoridades judaicas e Pilatos, e a que foi considerado o fundador da seita cristã se mantém. A hipótese é atrante, mas como não temos manuscrito de Josefo ou citação com versão negativa, consideraremos um texto neutro, como o de J. P Meier ou Geza Vermes.

Josefo, cristãos, pagãos e judeus: Dr. Alice Whealey, que analisou aprofundadamente a utilização de Josefo em geral, e do Testimonium em particicular, observa que, ao contrário do que geralmente se supõe, Antiguidades Judaicas e as outras obras de Josefo, foram pouco utilizadas pelos autores cristãos, antes de Eusébio de Cesaréia. Os pais da Igreja antes de Origenes (180-254 DC), citam ocasionalmente Contra Ápio e Guerras Judaicas, para comentar sobre assuntos judaicos, tais como figuras do Velho Testamento, cronologia e a 1ª Guerra Judaico-Romana, não se referindo a personagens citados no Novo Testamento. Adicionalmente, é incerto se qualquer escritor cristão antes de Orígenes teve acesso direto a Antiguidades Judaicas, sendo claro que nenhum deles esta familiarizado com os livros finais da obra, em que são discutidos os assuntos do século I. Segundo Whealey, Orígenes é pioneiro entre os cristãos em utilizar Antiguidades na discussão de figuras e assuntos do Novo Testamento, e apenas nas obras compostas a partir de sua mudança de Alexandria para Cesaréia, por volta de 240 DC. [2]

Prof. Robert Kraft, da Universidade da Pensilvania, faz uma lista dos autores da Antiguidade que citaram Josefo. Assim como Roger Pearse. Como pode ser visto, a grande maioria é de escritores cristãos, começando por breves citações de Teófilo de Antioquia e Irineu, por volta de 180 DC, seguidos por Clemente de Alexandria (início do sec. III). A lista de Pearse acrescenta ainda breves menções por Tertuliano (final do sec. II), Minúcio Félix (início do século III), que na melhor das hipóteses tem conhecimento superficial de Josefo, e mesmo assim de Guerras Judaicas e Contra Ápio. É interessante observar que o primeiro escritor cristão a utilizar Josefo com alguma frequência é Origenes, de forma que ele é a figura chave em nossa discussão.

O uso de Josefo por escritores não cristãos é decepcionante. A despeito de ter contado com o suporte e patrocínio dos imperadores da dinastia Flaviana (69-96 DC), o fato é que as menções a sua obra são escassas. O Professor Jona Lendering observa que Porfírio de Tiro, que viveu no final do século III, é o primeiro escritor pagão a citar expressamente a obra de Josefo, [3]. Suetônio (125 DC) e Cassio Dio (230 DC) mencionam o episódio em que Josefo profetiza a ascensão do então General Vespasiano ao trono imperial, mas não citam suas obras [4]. Entre os autores judeus, Josefo foi ignorado durante vários séculos, não sendo mencionado na vasta obra Talmúdica, possivelmente por ter sido considerado por muitos de seus compatriotas como um traidor, um Joaquim Silvério dos Reis, Benedict Arnold ou Pierre Laval da Antiguidade; um comandante revolucionário, que se deixou capturar pelo inimigo, profetizou o sucesso do general adversário, se tornou seu interprete, aconselhou outros líderes a se render, e ao fim da guerra recebeu casa, sustento e patrocínio daqueles que destruiram Jerusalém e incendiaram o Templo.
Alice Whealey considera como indício indireto de que Origenes teve acesso a uma versão do Testimonium Flavianum o fato de que ele observa de que os judeus não fazem ligação entre Jesus e João Batista, nem da execução de João com a de Jesus (Contra Celso 1:48), que é exatamente a situação do livro 18 de Antiguidades, que menciona a execução de Jesus (18:63-64) e de João Batista (18:117-119), não fazendo conexão entre os dois eventos e figuras [5].

Assim caso o Testemunho tenha sido em parte escrito por Josefo, as partes possivelmente autênticas teriam uso apologético? Analisaremos cada frase, em vista da proposta de J.P Meier:

Frases possivelmente inautênticas: A primeira a ser considerada é "Ele era [o] Cristo", o reconhecimento da condição messianica de Jesus por alguém como Josefo seria o "sonho de consumo" de qualquer apologista. No entanto, Orígenes nos diz com todas as letras que Josefo não acreditava que Jesus fosse o Messias. Além disso, Jerônimo, no início do século V, cita o Testimonium em latim sem variação relevante, com excessão da frase crucial, "Acreditou-se que ele era o Messias", que é encontrada também em Miguel, o Sírio. Então é muito improvável que a frase, como esta hoje, seja autêntica. Contudo, alguma coisa parecida com a variação latina e siríaca, que apenas atesta a existência de uma crença, é factível. Josefo apenas relata o fato de que algumas pessoas, como os muitos gregos e judeus atraídos/aliciados por ele, que se tornariam a seita cristã, por acreditarem que Jesus era o Cristo. Seria sensacional para os primeiros cristãos que Josefo afirmasse que Jesus "apareceu vivo ao terceiro dia, como os divinos profetas disseram estas e ...", dificilmente passaria desapercebida, o que é um forte indício de que essa frase não é autêntica. Contudo, temos em Agápio uma variação interessantíssima, onde os cristãos relatam/afirmam que Jesus lhes apareceu vivo, o que era um elemento importantíssimo da pregação cristã. Assim Josefo apenas estaria relatando o que os cristãos diziam. Se Josefo tivesse dito ainda que Jesus era um homem sagaz que aliciou gente que gostava de coisas estranhas, o fato de acreditarem que um homem crucificado era o Messias e ressuscitou seria uma boa ilustração para explicar porque os cristãos eram estranhos. Se é que podemos chama-lo de homem: provável interpolação identificada no estudo de estilo e vocabulário de Meier. Agápio, vivendo em um ambiente muçulmano, em face do Corão afirmar que Jesus era sábio, fazia milagres e era o Messias de Israel, teria nessa frase a única parte do Testimonium realmente útil, mas não a cita. Ainda, a frase parece como um parentese "Nessa epoca viveu Jesus, um homem sábio (se é que podemos chama-lo de homem) ....". Professor David Flusser, da Univ. Hebraica, observa que "é justamente essa interpolação infeliz que garante a autenticidade da declaração Jesus era um homem sábio" [6].

Frases provavelmente autênticas: Josefo inicia o TF com "neste tempo viveu Jesus", é um fato incontroverso, pelos menos na Antiguidade. Tácito, escrevendo 20 anos após Josefo, diz que Cristo foi executado por Pôncio Pilatos, no reinado de Tibério César (Anais 15:44). A afirmação que Jesus "atraiu muitos judeus e gregos" não seria absurdo para não cristãos, uma vez que o Tácito afirma que, trinta anos após a morte de Jesus, a "superstição mortal" havia se espalhado da Judéia e chegado a Roma, onde Nero, em 64 DC, capturou uma grande multidão de cristãos (Anais 15:44); Plínio, o Moço, governador da Bitínia (Norte da Africa), relata em uma carta ao Imperador Trajano, em cerca de 110 DC, que em sua província "muitas pessoas, de todas as idades e condição social, homens e mulheres, estão e estarão em risco, visto que o contágio desta superstição espalhou-se não somente às cidades, mas igualmente nas vilas e áreas rurais" (Cartas 10:96-97). Assim, havia a percepção de que a seita cristã crescia rápido, até demais. . Também era incontroverso que "Pilatos, por causa de uma acusação feitas pelos nossos homens mais proeminentes, condenou-u a cruz", Tácito, também em Anais 15:44, nos diz que Pilatos condenou Jesus a ser supliciado. Luciano de Samasota (175 DC), diz que o legislador dos cristãos foi "crucificado na Palestina", por dar origem a este culto (Passagem do Peregrino, 11). Celso (178 DC) ressalta o fato de Jesus ter sido executado como um criminoso contra os cristãos, prova de que ele não era o Logos e o Messias (Contra Celso II, 31 e II, 44), o mesmo argumento usado pelo judeu Trifo em cerca de 150 DC, ainda que de forma mais polida (Dialogo com Trifo, 32). Mas "aqueles que o haviam amado antes não deixaram de faze-lo. E até hoje a tribo dos cristãos, que deve esse nome a ele, não desapareceu", outro fato aceito pelos oponentes do cristãos, Jesus é o fundador do nome (Tácito) e "legislador" (Luciano) dos cristãos, que eram pessoas iludidas (Celso). A surpresa de Josefo, da tribo cristã ainda existir décadas após a morte de Jesus, foi compartilhada por autores pagãos e judeus, frustrados por aquela "superstição", além de não ter desaparecido, crescer significativamente por séculos. Em suma, até aqui, nada que autores como Tácito e Plínio não digam, e correspondendo ao conhecimento comum dos não-cristãos da época.

Continuando, quanto a Jesus "realizar feitos extraordinários" , não é tão problemático como parece a primeira vista, uma vez que a palavra utilizada, paradoxa, é ambigua (espetaculares, surpreendentes ou controversos). No século II, Celso, um violento crítico do cristianismo, não nega Jesus era capaz de realizar tais feitos, mas relata que fontes judaícas afirmavam que Jesus fazia seus paradoxa através do conhecimento de mágia que adquiriu no Egito (Contra Celso 1:6; 16-17), assim como alguns rabinos posteriores no Talmude (bSanhedrin 43b) [12]. Justino (150 DC) e Tertuliano (190 DC) defendem Jesus da acusação de ser um mágico [7]. Mesmo entre os mais ferrenhos adversários do cristianismo, a linha de ataque mais comum não era negar que Jesus de fez milagres, mas atribui-los a um suposto conhecimento de mágica e associação com poderes demoníacos. Nos círculos cristãos, como demonstram os estudos de Geza Vermes e Alice Whealey [8], os atos de Jesus eram definidos como "feitos poderosos" (grego: dunameis), ou sinais (semeia), e não como paradoxa, palavra utilizada em associação a Jesus uma única vez em todo o Novo Testamento e raras vezes entre os pais da igreja pré-Concílio de Nicéia. Enquanto isso, Josefo utiliza paradoxa cerca de 50 vezes, para diversas pessoas, e Celso também emprega paradoxa, para descrever os feitos de Jesus. Por último, talvez a mais interessante frase do Testimonium seja a qualificação de Jesus como "homem sábio" e "mestre de pessoas que recebiam a verdade com prazer", que pode ser considerado um elogio de Josefo a Jesus, o que seria útil aos cristãos, uma vez que Tácito, Plínio e Suetônio, no início do século II, chamam o cristianismo de superstição mortal, maligna e depravada [9] , e Jesus é acusado de ser um mágico e enganador do povo por Celso e os oponentes judeus de Justino e Tertuliano. No entanto, como vimos em série de posts anterior, por volta de meados do século II, possivelmente com a popularização dos evangelhos, surgem evidências que cada vez mais pagãos e judeus estão dispostos a considerar Jesus como um sábio, e a reconhecer méritos nos ensinos cristãos, principalmente nos aspectos morais. Assim, cerca de cinquenta anos após Josefo, o judeu Trifo, ao expressar as razões de seu ceticismo, reconhece os ideais elevados dos preceitos éticos dos evangelhos. Luciano de Samosata, em 165-175 DC, crítico da excessiva ingenuidade dos cristãos, reconhece que são corajosos diante da morte e extremados em cuidar dos seus em situação adversa. Galeno - que passou quarenta anos como médico da corte dos imperadores Marco Aurélio (que perseguiu os cristãos), Cômodo e Sétimo Severo - e apesar da suas reservas as bases intelectuais do cristianismo, escreve em cerca de 190 DC, que a "Escola de Cristo era capaz de transformar pessoas simplórias em verdadeiros filósofos disciplinados, corajosos e ansiosos pela justiça". Até mesmo o fílosofo Porfírio de Tiro (232-305 DC), que elaborou um violentos ataque ao cristianismo, Adversus Christianos ("Contra os Cristãos") em 15 volumes, e uma defesa do paganismo, "Da filosofia dos oráculos", chega a dizer que "Jesus foi um homem e virtuoso e sábio, querido até mesmo pelos deuses"[10].

Concluindo, as partes tidas como autênticas do Testimonium, basicamente correspondem ao conhecimento comum dos escitores não cristãos dos séculos II e III. A única informação de utilidade apologética, seria a qualificação de Jesus como homem sábio, que ensinava a verdade. Contudo, a partir de meados do século II, cada vez mais pagãos e judeus estão dispostos a reconhecer méritos nos ensinos éticos cristãos e considerar Jesus como um filósofo, centrando o ataque no fato dos cristãos terem transformado um simples sábio (na melhor das hipóteses) em Méssias e Filho de Deus, e terem deixado de observar os deveres cívicos, a religião e práticas de seus antepassados para seguir os preceitos do Evangelho. Como observa John P. Meier:

"(...) Se até pouco tempo antes de Eusébio o Testimonium não continha as três interpolações cristãs que destaquei, os padres da igreja não estariam assim tão ansiosos para cita-lo, pois o texto não reforça a linha principal da fé cristã em Jesus como o Filho de Deus que ressuscitou dos mortos. Isto explicaria o fato de Orígenes ter afirmado, no século III, que Josefo não acreditava que Jesus fosse o Messias (Commentary on Matthew 10.17;Contra Celsum 1.47). O texto de Origenes do Testimonium não incluia as interpolações e, sem estas, aos olhos dos cristãos, a Obra de Josefo simplesmente atestava sua descrença´- e não seria um instrumento apologético útil para ser apresentado aos pagãos, nem material polêmico para as controvérsias cristológicas entre os próprios cristãos. Na verdade, se algo parecido com m inha reconstituição não existia na cópia de Josefo feita por Orígenes, fica a pergunta: o que havia no texto para faze-lo declarar de forma incontestável que Josefo não acreditava que Jesus fosse o Cristo? A passagem sobre Tiago no livro 20 não é suficiente para esta conclusão" [11].

Se também as variações encontradas em Agápio, Jerônimo e Miguel, o Sírio, refletirem o texto original, Josefo apenas atestaria o fato de alguns acreditaram que Jesus era o Cristo; que os cristãos relatavam que ele resuscitou ao 3° dia, de que não havia menção de seu caráter sobre-humano, o impacto apologético seria mínimo, o que justificaria o silêncio dos escritores cristãos.


2) O Testimonium é muito curto, se Josefo tivesse escrito sobre Jesus o texto seria maior;
"Tamanho não é documento": A brevidade do relato de Josefo acaba reforçando a autenticidade do Testemunho Flaviano. Quem esta mais propenso o escrever longas linhas sobre Jesus? Um cristão ou um historiador judeu do I século que conhecia o cristianismo como uma pequena seita do judaismo e uma das centenas de cultos que havia no Império? Alguém que considerasse Jesus o Salvador do mundo, ou como um simples sábio, curandeiro e profeta? Se um cristão tivesse criado a interpolação, provavelmente ele teria muito mais a dizer. Um dos grandes suportes para a teoria de autenticidade parcial, é justamente a brevidade e termos utilizados no testimonium reconstituído e na versão de Agápio. Tivesse o interpolador plena liberdade para inserir o testimonium no texto de Antiguidades, poderia escrever muito mais e descrever de forma mais ampla o ministério de Jesus, ligando o também a João Batista, por exemplo. Se, por outro lado, já houvesse uma referência a Jesus, seu "campo de ação" ficaria mais limitado a revisar ou acrescentar o que Josefo escreveu.

Mas será mesmo o Testemunho Flavianum tão curto assim? Sim e não. De fato, Josefo escreve mais sobre figuras como João de Giscala, Menaem e Simão Bar-Giora. Contudo, a maior parte desses relatos são tratados no âmbito de seu primeiro livro "Guerras Judaicas". Esses homens foram contemporâneos de Josefo, e ele teve oportunidade de interagir com eles. Eles são apontados como rebeldes fanáticos que levaram o povo judeu a catástrofe que levou a destruição de Jerusalém. Então eles são, de alguma forma, a razão de ser daquela narrativa. Ainda, em Antiguidades Judaicas, temos algumas figuras que ocupam mais espaço do que Jesus, tais como Simão de Peréia, Atronges, João Batista e Judas Galileu. Mas é incorreto dizer que o TF seja "muito curto". Se não vejamos:

"Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio, se na verdade podemos chama-lo de homem. Pois ele foi o autor de feitos surpreendentes, um mestre de pessoas que recebem a verdade com prazer. E ele ganhou seguidores tanto entre muitos judeus, como dentre muitos de origem grega. Ele era Cristo, E quando Pilatos, por causa de uma acusação feitas pelos nossos homens mais proeminentes, condenou-u a cruz, aqueles que o haviam amado antes não deixaram de faze-lo. Pois ele lhes apareceu no terceiro dia, novamente vivo, exatamente como os profetas divinos haviam falado deste e de incontáveis outros fatos assombrosos sobre ele. E até hoje a tribo dos cristãos, que deve esse nome a ele, não desapareceu"(Antiguidades Judaicas, 18:63-64)

Temos aqui um relato de 118 palavras, em português. Se retirarmos as (prováveis) interpolações, seguindo a proposta de John P. Meier temos:

"Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio. Pois ele foi o autor de feitos surpreendentes, um mestre de pessoas que recebem a verdade com prazer. E ele ganhou seguidores tanto entre muitos judeus, como dentre muitos de origem grega. E quando Pilatos, por causa de uma acusação feitas pelos nossos homens mais proeminentes, condenou-u a cruz, aqueles que o haviam amado antes não deixaram de faze-lo. E até hoje a tribo dos cristãos, que deve esse nome a ele, não desapareceu"(Antiguidades Judaicas, 18:63-64).

O relato se reduz para 82 palavras (o de Agápio tem cerca de 80 palavras). Vamos ver agora a descrição de Josefo de uma outra figura famosa, Teudas, citado também em Atos dos Apóstolos (5:36).

"Durante o período quando Fado era procurador da Judéia, um certo mágico, de nome Teúdas, persuadiu a maioria das massas que levassem os seus pertences e o seguissem ao rio Jordão. Declarou que seria um profeta e por seu comando o rio seria partido e proveria uma fácil passagem. Com essa fala decepcionou muitos. Fado, porém, não permitiu colherem os frutos de sua tolice, enviando contra eles um esquadrão de cavalaria. Este caiu sobre eles de imprevisto, matou muitos deles e tomou muitos prisioneiros. O próprio Teúdas foi capturado, e então cortaram-lhe a cabeça e a levaram a Jerusalém." (Antiguidades. 20, 97-98)

Isso é que Josefo tem a dizer sobre Teudas, 99 palavras. Ou seja, mesmo com a remoção das possiveis interpolações, a diferença entre Testemunho Flaviano e o relato sobre Teudas, é de cerca de 15 %, equivalente aqui a uma frase. E Teudas, com certeza, não foi um personagem insignificante, pois, além de Judas Galileu, foi o único pretendente messiânico citado pelo Novo Testamento, e Josefo diz que ele "persuadiu a maioria das massas" a levar seus pertences ao Rio Jordão. Mesmo que haja aqui um certo exagero, o fato é que o governador Fado teve que intervir. Teudas foi uma figura muito importante, mas Josefo utiliza mais ou menos a mesma quantidade de tinta que usou para Jesus.

Essa diferença é eliminada, ou até revertida, se admitirmos a possibilidade razoável de que Josefo tenha escrito era na verdade "Acreditou-se que ele era o Cristo" (como esta em Jerônimo e Miguel o Sírio) ou "Ele era o assim chamado Cristo", ao invés de "Ele era [o] Cristo". Ou então a que o original tinha uma frase em que os cristãos "contavam que três dias após sua crucificação lhes teria aparecido, estaria vivo, e por isso seria o Messias sobre o qual os profetas contavam maravilhas.", como na versão de Agápio.

Temos outro exemplo em Filo de Alexandria (20 AC-50 DC). Além de um grande escritor, filósofo e teólogo, Filo foi uma das figuras mais eminentes e respeitadas entre os judeus da diaspora. Por volta do ano 40 DC, os judeus de Alexandria (Egito) entraram em conflito com a população grega da cidade, causando uma grande tumulto. Segundo a descrição de Josefo (Antiguidades 18:8: § ), o caso foi levado ao Imperador Gaio Caligula (37-41 DC), para julgamento, sendo enviados três embaixadores de cada lado. O Chefe da delegação grega, Ápio, acusou os judeus de não darem as honras devidas a César, pois se em todo o Império eram construidos altares e templo dedicados a Gaio, sendo o Imperador adorado como um deus, os judeus julgavam ser desonroso erigir estátuas para César e jurar em seu nome.

Mas Filo, o mais respeitado membro da delegação judaica, homem eminente em todos os aspectos, irmão de Alexandre , o Alabarca, e alguém não indouto em filosofia, estava pronto para fazer sua defesa contra aquelas acusações; Mas Gaio o proibiu, e o mandou embora; Eles estava tão enraivecido, que demonstrava claramente estar pronto para realizar alguma grande desvario. Assim sendo, portanto, Filo, afrontado, saiu, e disse aos judeus que estavam com ele, que deveriam ser corajosos, uma vez que, ainda que as palavras de Gaio revelavam seu odío contra eles, ele ja tinha, na realidade, posto Deus contra si mesmo [Antiguidades Judaicas 18:8:1 (§).

Então, para tão eminente figura, líder de uma embaixada que poderia mudar os rumos do povo judeu, tanto em Alexandria, quanto em todo o Império, Josefo dedica 99 palavras, também um pouco a menos do que dedicaria para Jesus de Nazaré, segundo a reconstituição mais aceita. Então, de novo, tamanho não é documento. Josefo afirma que Filo era um dos homens mais eminentes entre os judeus de sua geração, mesmo assim não escreve muito sobre ele.

Por fim, temos o caso de um agitador que viveu no tempo do procurador Festo (por volta de 60 DC), que embora tenha levantado um grande número de seguidores e criado muitos problemas, foi retratado por Josefo em poucas linhas.

Festo enviou tropas, tanto cavaleiros quanto infantes, que atacaram aqueles que foram persuadidos por um certo impostor, que lhes prometeu livramento e libertação das misérias a qual estavam submetidos, se eles o seguissem até o deserto. Assim, as tropas cairam sobre, que os havia enganado, e sobre seus seguidores da mesma forma. [Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 20.188]

Aqui, a história do impostor é contada em 52 palavras, bem menos que a descrição de Jesus. Ele apenas diz que reuniu seguidores e pretendia leva-los ao deserto, e que ele criou tantos problemas que Festo teve de lançar mão de suas tropas. O interesante é que Josefo não nos dá o nome, a origem, e a área de atuação do "impostor".

Devemos observar que a comparação foi feita nos textos em português, e um trabalho mais rigoroso e acadêmico tornaria imperioso a comparação do tamanho dos textos em grego. No entanto, o objetivo é basicamente demonstrar que pessoas eminentes, sobre o qual muito poderia ser dito, foram mencionadas por Josefo em curtos parágrafos, mais ou menos do mesmo tamanho que a parte considerada autêntica do Testimonium Flavianum.

3) Não há uma descrição, mesmo que sumária, dos feitos ou ensino de Jesus
O que ele disse": Podemos responder a objeção de que os ensinos e feitos de Jesus não são apresentados com detalhes, mesmo que de forma resumida. A descrição de Filo de Alexandria por Josefo é tão curta quanto a de Jesus, e não detalha porque Filo era eminente em todos os aspectos (salvo pelo seu parentesco com Alexandre, o Alabarca) e seu conhecimento filosófico. Filo de Alexandria foi um dos maiores pensadores da Antiguidade e os livros atribuidos a ele chegam a quase meia centena. Entretanto, ainda que Filo tenha escrito vários comentários de livros do Velho Testamento; tratados filosóficos, que poderiam despertar o interesse dos leitores de Josefo; uma apologia dos judeus, que poderia ser útil para responder críticas, ataques e impressões equivocadas existentes entre os aristocratas romanos (e Josefo também escreveu uma Apologia, em defesa do povo judeu); e uma narrativa do próprio Filo dos eventos que testemunhou em sua embaixada ao Imperador Gaio Caligula, Legatus Gaio; além de outra ("Contra Flaco") que relata os fatos que levaram aos tumultos entre judeus e gregos em Alexandria, e os abusos a qual os judeus foram submetidos com a leniência do Governador Flaco. Assim, embora Josefo pudesse escrever muito mais sobre Filo, seu conhecimento filosófico, seus livros, suas experiências, se ele era platonico, neo-pitagórico ou estóico .... coisas que certamente seriam de interesse de seus leitores, e permitiriam uma melhor compreensão dos acontecimentos, ele não o faz. Diz apenas que Filo era "eminente em todos os aspectos" e "dominava a filosofia", e descreve, brevemente, seu encontro com Calígula. Jesus, (que para Josefo não era tão ilustre quanto Filo) é descrito como sábio ou filósofo, que realizava feitos extraordinários, ensinava pessoas ávidas pela verdade, sem que seus ensinos ou feitos sejam detalhados, e que se defronta com as autoridades romanas e judaicas, sendo executado.

Da mesma forma, para alguns dos lideres carismáticos que Josefo não gostava, ele não entra em muitos detalhes, mesmo quando essas informações seriam necessárias para situar os leitores no contexto em que os fatos aconteceram. Teudas, já citado, é descrito como alguém que persuadiu o povo a segui-lo até o Jordão, que se abriria para que a multidão passasse. Josefo não explica o significado desse ato, e suas implicações, como a lembrança dos feitos de Josué, ao levar o povo a atravessar o Jordão e conquistar a terra prometida, derrotando seus inimigos. Também não são explicitados os outros ensinamentos de Teudas, suas crenças, sua origem, e o que fazia. Na narrativa de Josefo, Teudas surge do nada, lidera seus seguidores iludidos no caminho até o Rio Jordão, é interceptado pelo Governador Fado, que o captura e executa. Também aqui podemos fazer paralelos com a descrição de Jesus, como Teudas, Jesus é um lider carismático que "surge" na narrativa, sem maiores explicações de sua origem, atrai (ou alicia) uma multidão, o que chama a atenção das autoridades, que o capturam e o executam. É fato que Josefo diz que Teudas levou seus liderados ao Jordão, mas Josefo também diz que Jesus foi seguido como Cristo, seja porque seus seguidores foram chamados "cristãos", seja por que eles "acreditavam que ele era o Cristo".

4) Josefo era fariseu, não poderia ter visto Jesus de forma "neutra" ou positiva:
"Entre tapas e beijos": Já respondemos essa questão, nestes posts aqui. Resumindo, o Novo Testamento é a principal fonte antiga sobre as controvérsias de Jesus e os cristãos com os fariseus. Uma análise mais atenta ao texto bíblico demonstra uma relação complexa, de tensão e atração, concordância e conflitos. Nos evangelhos, Jesus frequentemente critíca os fariseus. Contudo, o Novo Testamento apresenta José de Arimatéia e Nicodemos como fariseus. Os primeiros cristãos compartilhavam com os fariseus as crenças em anjos, ressurreição, vida após a morte, os que os aproximava mais dos fariseus do que qualquer grupo judaíco de então. Lucas relata que alguns fariseus avisaram Jesus que Herodes Antipas queria mata-lo (Lucas 13:31-35), e que, em pelo menos três ocasiões Jesus foi convidado a comer na casa dos fariseus (Lc 7:36, 11:37, e 14.1). Professor Geza Vermes observa que nos relatos de prisão, julgamento e crucificação de Jesus, a ausência dos fariseus é notória [12]. De fato, já notamos que nas narrativas da paixão nos evangelhos sinóticos, os grupos oponentes de Jesus são mencionados 28 vezes - mas quase todas elas referindo-se aos chefes dos sacerdotes, escribas, e anciãos - com uma única menção aos fariseus. Enquanto isso, nos demais relatos dos evangelhos, das 37 disputas de Jesus com outros grupos judaícos, 24 mencionam os fariseus. Das 13 vezes em que os fariseus não são citados, seis se referem a passagem em que Jesus prediz a seus discípulos que em Jerusalém os principais sacerdotes entregariam o Filho do Homem aos gentios (Mt 16:21 e 20:18; Mc 8:31 e 10:33; Lc 9:22 e18:31). Observamos um padrão nos evangelhos de conflito constante entre Jesus e os fariseus sobre a observância da Lei, mas nos relatos de prisão e morte os atores principais são os "chefes dos sacerdotes, escribas e anciãos", e os fariseus estão (praticamente) ausentes.

Nos Atos dos Apóstolos e Cartas Paulinas o padrão se mantém. Na Igreja de Jerusalém havia alguns fariseus que haviam crido (Atos 15:5), e um forte partido judaizante, ou os "da circunsição" (Atos 15:1, Galatás 2), que eram numerosos e influentes o suficiente para pedir explicações a Pedro por ele ter batizado o Gentio Cornélio (Atos 9), e entrar em conflito com Paulo em relação aos cristãos gentios e a observância da Lei (Atos 15, Galatás 5:2-3). Foi necessária a intervenção de Tiago, irmão do Senhor, Pedro, e dos outros apóstolos para tentar resolver a controvérsia ( Atos 15). A decisão tomada ( Galatás 2:1-9; Atos 15:22-31), enquanto a determinava que os crentes gentios deviam se abster "das coisas sacrificadas aos idolos, do sangue, da carne sufocada e da imoralidade sexual" (Atos 15:29), e o "cuidado dos pobres" (Galatás 2:10), não isentou os crentes judeus de observar a lei mosaica e os costumes ancestrais. Mesmo depois do Concílio, vemos Paulo em conflito com outros cristãos que continuaram a insistir na necessidade da circunscição, da observância da Lei, das festas e alimentos puros para os gentios (Galátas 3:1-5, 5:1-12; Filipenses 3:2-6; I Corintios 7:18-20; Romanos 14:1-5). Enquanto que, em Jerusalém, Tiago continuava a conduzir sua igreja de forma alinhada aos costumes e leis judaícas (Atos 21:18-25). O autor de Atos relata ainda que quando o sumo sacerdote e seus aliados saduceus prenderam os apóstolos (Atos 5:17), o líder fariseu Gamaliel convenceu o Sinédrio a não executa-los, e após terem sido açoitados, foram soltos (5:40). O próprio Paulo, ao ser julgado pelo Sinédrio, não se inibiu em dizer "Sou fariseu, filho de fariseus, e por causa da ressureição dos mortos estou sendo julgado" (Atos 23:6), a menção ressureição dos mortos, ponto de tensão entre saduceus e fariseus, levou o sinédrio a se dividir. Se mesmo Paulo, pivô da controvérsia sobre a lei e os gentios pode ser "adotado" pelos líderes fariseus, os cristãos judaizantes deveriam se sentir "em casa".

Professor Bart Ehrman, da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, faz as seguintes observações sobre as tensões entre Jesus e fariseus, Paulo e judaizantes.
"Os fariseus tinham sérias disputas entre si quanto a como interpretar e implementar essas leis. Jesus também tinha dispustas com eles. Algumas coisas ditas no calor da discussão não eram gentis. Dentro da tradição cristã, os fariseus vieram a ser conhecidos como "sepulcros caiados" (Mt 23:27) - limpos e atraentes por fora, mas cheios de carne apodrecida por dentro. Eles eram hipócritas, que enxotavam um mosquito de seu calíce mas engoliam um camelo (Mt 23:24) Não há dúvida de que esssas difamações cristãs eram respondidas pelos fariseus, que estavam, afinal, fazendo o melhor que podiam para entender e praticar o que Deus queria. Em conflitos religiosos, a questão é sempre dar e receber. Mesmo assim, não se deve imaginar que Jesus se opôs as interpretações farisaícas porque eles estivessem muito distantes na maioria das questões. Na verdade, estavam bastante próximos, e dai a retórica emocional. Tendemos a discutir mais frequentemente e mais acaloradamente com aqueles que estão mais próximos a nós" (...) Quando movemos o calendário para vinte anos depois, até Paulo, o eloquente apóstolo de Jesus, encontramos uma situação comparável, só que agora os conflitos "internos' envolvem batalhas dentro da Comunidade Cristã, fundada após a morte de Jesus. Cada Igreja que Paulo fundou parecia ter se envolvido no tumulto. As cartas de Paulo tinha a intenção de resolver os problemas. Ao longo delas, encontramos oposição severa e direta a falsos professores. Porém, é importante notar que eram falsos professores cristãos, que estavam nas igrejas de Paulo." [13]

É importante observar que as considerações acima independem da confiabilidade ou historicidade das narrativas. Ainda que boa parte ou mesmo a totalidade dessas narrativas sejam criações literárias de Lucas e dos outros evangelistas, ou Paulo não relate os fatos corretamente, elas ainda dizem muito sobre os grupos cristãos que escreveram os textos e sua visão dos seus oponentes. Se "Lucas", no final do I século ou início do II, inventou as histórias de Pedro, João e Paulo no Sinédrio e do Concílio de Jerusalém, não faria sentido ser simpático aos fariseus, afirmar que havia cristãos fariseus, ou fazer Paulo declarar que ainda era fariseu, mesmo depois de sua conversão, se os fariseus fossem inimigos mortais da Igreja. Temos aqui duas alternativas (ou a combinação de ambas), ou são criações literárias que refletem a existência de algum tipo de dialogo, afinidade e possibilidade de proselitismo, ainda que com altas doses de tensão, com os fariseus, ou são baseadas em fatos reais em que os fariseus dialogaram e mesmo defenderam os cristãos de ataques de outros grupos judaicos, como os saduceus.

O Dr. Paul Winter analisa a questão:
"Isto indica que judeus que pertenciam ao grupo que Josefo fazia parte - farisáico sem dúvida - ainda não tinham aplicado a Jesus uma reputação de herético, ou o denuciado como rebelde. Que vários circulos farisáicos mantiveram relações amistosas com judeus cristãos ainda por um longo tempo após a crucificação é demonstrado, não só pelo relato do ressentimento causado pelo apedrejamento do irmão de Jesus por ordem do sumo-sacerdote saduceu, mas pelo fato significativo de que certas tradições comunais de procedência palestina (parte da assim chamada 'fonte especial" de Lucas) descrevem vários fariseus e outros judeus não membros do grupo de discipulos de Jesus como expressando sentimentos e intenções de amizade com Jesus emnatendo contato com ele" [14]

De fato, Justino Martir, em cerca de 150 DC, cem anos após o tempo de Paulo, nos diz que os cristãos judeus continuavam a observar a Lei de Moisés, ainda que divergissem sobre se os cristãos gentios deveriam faze-lo.

5) O Testemunho ocorre fora de contexto;

"Fora de lugar??": Professor John P. Meier responde a crítica de que o Testimonium ocorre fora de contexto:
"não me detive sobre a objeção segundo a qual o Testimonium quebra o fio da narrativa do Livro 18; se houver interesse nessa linha de raciocínio, consultar Thackeray (...) Talvez a melhor apreciação de toda a análise de Thackeray seja essa simples observação "a obra de Josefo é uma concha de retalhos". Cohen é ainda mais rude: "Nós enfatizamos um outro aspecto da obra de Josefo, seu inveterado desleixo". Textos que dão margem a revisões tendenciosas, assim como passagens que contradizem suas motivações são, por vezes, deixadas intocadas. A narrativa é frequentemente confusa, obscura e contraditória (...) fica-se a imaginar se para Josefo seria necessário uma conexão mais forte de o relato de Jesus (mandado crucificar por Pilatos) ser precedida de uma história sobre pilatos em que muitos judeus são mortos (ant. 18.3.2.§60-62) e ser seguido de outra em que trapaçeiros são punidos com a crucificação (18.3.4§65-80)". [15]

Isso pode ser melhor evidenciado, utilizando um esquema com o resumo dos acontecimentos descritos.:
18.35: Pilatos é apresentado, como sucessor de Valerio Grato.
18.36-38: Herodes Antipas constroi Tiberíades. (Pilatos não é citado).
18:39-52: Morre Phraates, Rei dos Partos. Crise de sucessão envolve Roma. (Pilatos não é citado).
18:53-54: Morre Antioco, Rei de Comagene. Embaixadores são enviados a Roma para transformar o pequeno reino em província. (Pilatos não é citado)
18.55-9: Pilatos introduz imagens imperiais no Templo, causando tumultos
18.60-2: Pilatos utiliza fundos do Templo para construir um aqueduto, na repressão ao tumulto muitos judeus são mortos.
18.63-4: Testemunho Flaviano. Jesus é crucificado por Pôncio Pilatos.
18.65-80: Em Roma, uma aristocrata chamada Paulinia, devota de Isis, é enganada e seduzida por Decius Mundus, que se faz passar pelo deus Anubis. Não há judeus ou Pilatos na narrativa. 18.81-4: Ainda em Roma, quatro judeus convencem a aristocrata romana Fúlvia, a doar ouro e purpura para o Templo em Jerusalém. Os vigaristas se apropriam da doação para si próprios. O caso é levado a Tibério que os manda crucificar e expulsa os judeus de Roma. Pilatos não é citado. 18.85-7 : Em Samária, um profeta reune uma multidão no Monte Gerizim dizendo que lá estariam vasos sagrdos enterrados por Moisés. Pilatos, preocupado, reune uma tropa de cavaleiros e infantes que atacam a multidão. Muitos morrem.
18.88-9: O senado Samaritano manda emissários a Vitélio, Legado Romano na Síria e chefe de Pilatos. Pilatos é enviado a Roma, e substituido por Marcelo.

Então, porque o Testimonium Flavianum estaria fora de contexto? Porque não a morte do Rei Antioco? Ou a sedução de Paulínia, devota de Isis? Ou então a construção de Tiberíades? Se o fio da narrativa é o governo de Pilatos, quem esta fora de contexto são os eventos em Roma (Ant. 18: 65-84).

Ainda que consideremos as tragédias, tumultos e afrontas como um dos elementos comuns dessa parte de Antiguidades, temos que ter em mente o seguinte: Se Josefo disse que Jesus era um homem sábio e realizador de feitos extraordinários e surpreendentes (ainda que eventualmente controversos), sua crucificação seria uma afronta, pois teríamos Pilatos matando um homem inocente, arbitrariamente, da forma mais bárbara possível (algo não sem precedente em Antiguidades, vide João Batista, Jesus Filho de Ananias, Onias e Tiago, irmão de Jesus).

Como observam Gerd Theissen e Annete Merz, o testimonium descreveria então uma desgraça ou calamidade, palavra que, por sinal, é utilizada por Josefo no parágrafo seguinte.[16] Se, por outro lado, aceitarmos teses como a de Eisler, Brandon e Biernet - de que Josefo originalmente descreveu Jesus como um charlatão astuto e revolucionário, que desencaminhou judeus e gregos que "ouviam coisas estranhas com prazer" e foi por isso crucificado - teríamos agora o tumulto ou calamidade que procurávamos.

6) Josefo, como protegido da familia imperial, não poderia ter sido crítico a Pilatos e administração romana;

"Pilatos, o açougueiro": Quanto a objeção de que Pilatos não poderia ser retratado negativamente por Josefo, temos a dizer que fato de Josefo ser leal a Roma, não implicou em uma atitude acrítica em relação aos procuradores romanos na Judéia. De fato, ele é extremamente crítico em relação a boa parte deles. Pilatos não é excessão. Tanto Filo como Josefo são extremamente críticos a Pilatos. Josefo descreve o governo de Pilatos como uma série de abusos e violências, um banho de sangue.

John D Crossan e Jonathan Reed, observam que mesmo autores romanos, como Cornélio Tácito (um senador e ex-proconsul), reconheceram que o caráter violento e corrupto dos procuradores romanos foi causa determinante nas revoltas na Palestina.

"Quando Tácito volta-se da etnografia para a história, não culpa a religião judaica pela rebelião. Na verdade, culpa os governantes imperiais romanos. Em 44 DC afirma que "Cláudio transformou a Judéia em província, e a entregou a cavaleiros romanos e alforriados. Um destes, Antônio Félix (52-60) praticava todos os tipos de crueldade e depravação (...) A paciência dos judeus durou até que Géssio Floro tornou-se Procurador" (Historias 5.9.3 e 5.10.1). Tácito quase chegou a afirmar que a Guerra Judaica fora provocada por Roma [17]

Professor Klaus-Stefan Krieger vai além, observando uma mudança na atitude de Josefo em Antiguidades (93 DC) em relação a Guerras Judaicas (79 DC). Antiguidades é muito mais crítica em relação a administração romana do que Guerras . "Antiguidades" retrata os governadores romanos, todos eles, como incompetentes, corruptos e/ou anti-judaicos. Em Guerras apenas Albino e Géssio Floro são culpados de má administração. Krieger usa como exemplo bem acabado dessa mudança o retrato do Governador Félix, já mencionado. Se em Guerras Judaicas ele é retratado um oficial enérgico e rigoroso que combate com algum sucesso inicial os bandidos que infestavam o país (Guerras 2:253), ele se torna em Antiguidades um tirano egocêntrico que suborna sicários (assassinos) para matar um Sumo-Sacerdote que ele considerava incoveniente (Antiguidades 20:162-166) . Em contrapartida, observa Krieger, o Legado Romano na Síria, "chefe" desses prefeitos ou procuradores, é geralmente retratado em Antiguidades como sensíveis e simpaticos aos judeus, e como modelo de administrador romano [18].

Na verdade, Josefo não tem nada de bom a dizer sobre o Governo de Pilatos.

Prof. Geza Vermes, observa:
"Com efeito, Filo de Alexandria e Flávio Josefo, os dois escritores judeus daquela época, muito tem a relatar sobre o prefeito da Judéia, e o que tem a dizer esta longe de ser elogioso. Filo (Embaixada a Gaio 299-305) cita a opinião do rei judeu Herodes Agripa I, que, escrevendo ao Imperador Gaio Caligula, retrata Pilatos como um homem teimoso, irascível, vingativo, naturalmente inflexível, obstinado e insensível que cometia insultos, roubos afrontas e injustiças gratuitas. Ele também ficou famosos por sua venalidade e muitos atos de crueldade, bem como por numerosas execuções sem julgamento prévio. O Pilatos de Josefo também é um funcionário ríspido, irrefletido e impiedoso. Logo depois da sua chegada a Judéia, rompeu a tradição de seus antecessores e ofendeu grosseiramente as sensibilidades religiosas dos judeus de Jerusalém, dando ordem a seus soldados de entrarem na cidade carregando estandartes romanos com a figura do Imperador. [19]

Vermes continua:
Sabe-se do massacre de judeus desarmados que protestaram contra a sua apropriação ilegal do Corban (oferta sagrada). Entre as calamidades causadas por Pilatos, Josefo lista a crucificação de Jesus. Outro ato criminoso contra um grupo de samaritanos, finalmente obrigou Vitélio, embaixador romano na Síria, a tirar Pilatos da sua governadoria e envia-lo a Roma para prestar contas de seus crimes ao Imperador (Guerra Judaica 2,169-177, Antiguidades 18:35-89). Essas representações negativas por escritores judeus do século I D.C, que definitivamente não eram anti romanos, encontraram um eco surpreendente mesmo no Novo Testamento" [19]

Prof. David Flusser concorda:
"Filo, o filósofo judeu de Alexandria, disse que Pilatos "era um homem de uma disposição inflexivel, obstinada e cruel". Filo também enumerou os sete pecados mortais de Pilatos, "sua venalidade, violência, sua ladroagem, suas agressões, seu comportamento abusivo, suas execuções frequentes de prisioneiros, sua ferocidade selvagem e infinita". Esta avaliação negativa não difere muito do relato de Josefo" [20].

Assim como Paul Winter:
"Josefo oferece mais informações do que Filo sobre o governo de Pilatos na Judéia, registrando vários acontecimentos ocorridos durante sua gestão. Todos ilustram amplamente o modo arrogante com que Pilatos lidava com os habitantes da província. O que importa para assegurar a credibilidade desses registros é o fato de Josefo também mencionar o comportamento cruel de Pilatos com relação aos samaritanos, nação pela qual Josefo não tinha a menor simpatia" [21].

O episódio dos Estandartes com a figura do Imperador é emblemático, porque Pilatos é acusado de fazer isso com intuito de abolir as leis judaicas (Antiguidades 18:55). Ou seja, segundo Josefo, o protegido da familia imperial, não teria sido um acidente, resultado da inexperiência do recém nomeado Governador Pilatos quanto aos assuntos judaícos, mas uma provocação deliberada e calculada, visando atacar injustificadamente os costumes religiosos de uma nação sujeita a Roma, algo que nenhum outro governador ousara fazer. É uma acusação gravíssima para um oficial cuja principal atribuição era evitar problemas, e não provoca-los. Desviar fundos do Templo, mesmo que com intuito de construir um aqueduto, e mandar matar judeus inocentes que protestavam contra a iniciativa não é também um feito louvável para um governador. Podemos acrescentar, ainda, o episódio relatado no evangelho de Lucas (Cap. 13), onde Jesus relata a sorte de infelizes galileus a qual Pilatos ordenou que o sangue fosse misturado a seus sacrifícios.

De todas as fontes, a mais "branda" com Pilatos são os relatos da paixão, no Novo Testamento. É possível, porém, que Filo e Josefo tenham sido um pouco injustos com Pilatos.

Paul Winter faz um contraponto:
É praticamente impossível fazer justiça a Pilatos, vendo-o "sine ira et studio" como o homem que realmente foi. Provavelmente, foi um dos mais hábeis administradores enviados por Roma a Judéia. O período relativamente longo de sua gestão, por si só, é prova de suas capacidades. Ele tampouco era tão desatento aos interesses daqueles sobre os quais governava. Josefo, ou o cronista responsável pela fonte de Josefo, que o detestava com fervor, registra que algumas medidas de Pilatos foram tomadas em benefício da população" [21]

Pilatos foi o governador que mais tempo exerceu o cargo na conturbada província da Judéia, cerca de 10 anos. A construção do aqueduto, embora financiada, em parte, com recursos do Templo, foi uma obra benéfica para a população de Jerusalém. Além disso, Pilatos não era muito diferente de um governador romano típico. Entretanto, isso torna ainda mais evidente que mesmo escritores judeus pró-Roma não tinham problema em criticar prefeitos e procuradores.

7) O Testemunho Flaviano não diz as razões pela qual Jesus foi executado

"Sem motivo?": Para a objeção de que o Testimonium não diz as razões porque Jesus foi executado, observamos que Jesus reunir grande número de seguidores, cujo o vínculo era intenso (sobrevivendo décadas depois de sua morte), que foram chamados de "cristãos" por causa dele, (indicando, mesmo que Josefo, originalmente, possa não ter dito diretamente), "que eles acreditavam que ele era o Cristo", e algo que, nas condições explosivas da palestina do sec. I, podia alarmar Pilatos.

Adicionalmente, Filo de Alexandria, que foi contêmporâneo de Pilatos, apresenta um relato do Governador Romano:
"(...) eles também exporiam o restante de sua conduta enquanto Governador, declarando na íntegra os subornos, os insultos, os roubos, os ultrajes, e as injurias maldosas, as execuções sem julgamento, repetidas constantemente, a crueldade incessante e extremamente dolorosa" (Filo, Legatus ad Gaium, cap. 38:302)

Pilatos era conhecido por executar prisioneiros sem julgamento, de forma totalmente arbitrária. Logo, porque precisaria de motivos razoáveis para executar Jesus?

Além disso, Geza Vermes, faz observações sobre as condições políticas e religiosas que levaram a prisão e morte de Jesus, e compara com outros exemplos encontrados na obra de Josefo:

"Tenho sido frequentemente confrontado por ouvintes e leitores perplexos com a pergunta: "Se, como o Senhor alega, Jesus era um judeu pio sem culpa de nada que pudesse acarretar a sentença de morte com base em religião, e se não era um agitador anti-romano ou pretendente ao trono de Messias real, por que ele foi executado?" A resposta a esta legítima questão é que nas circunstâncias politícas e religiosas incertas da Palestina intertestamental, era fácil alguém perder a vida sem ter cometido nenhum ato culpado contra a lei judaica ou o estado romano. Josefo nos dâ três exemplos além do Testemunho Flaviano (...) Josefo parece indicar que a sentença foi um erro judicial visto que, segundo o texto do parágrafo seguinte das Antiguidades , teria sido seguida por outra deínon, istoé, afronta, calamidade, injustiça (XVIII,65), mas ele não revela porque a sentença de morte de Jesus seria uma afronta (...) [22]

Após mencionar o caso de Tiago, irmão de Jesus, Vermes cita os três paralelos, Honi, o fazedor de chuva; João Batista e Jesus, Filho de Ananias:

"O primeiro dos três paralelos é o de Honi, o único outro hasside mencionado em Antiguidades. Este homem de Deus foi apedrejado até a morte por se recusar a empregar o poder da oração em favor de um partido judeu contra o outro no contexto de uma disputa civil. Aqui Josefo não hesita em botar a culpa do assassinato do justo Onias em judeus vilões"
O relato de Josefo sobre a execução de João Batista (Antiguidades XVIII, 117-119) é muito diferente e plenamente relevante para a execução de Jesus. O historiador descreve João, que ele não liga a Jesus, como um "homem bom", "que exortava judeus a levarem vidas virtuosas, praticarem a justiça para com seus semelhantes e a piedade para com Deus, e para tanto unirem-se no batismo". A sua sentença de morte é vista como um crime, e ele nos conta que alguns judeus reconheceram na derrota subsequente do exército de Antipas pelo Rei Nabateu Aretas IV uma justa vingança pelo assassinato de Batista (...) a desgraça de João teria sido o poderoso apelo de sua pregação (...) a sua execução em segredo foi uma medida drástica contra uma figura potencialmente perigosa, que hoje lidava com religião, mas amanhã podia tornar-se líder de uma revolução
[22]

João Batista é um pregador da virtude, que atrai multidões e causa alvoroço. Os principais (no caso, Herodes Antipas) ficam alarmados, e tentam (e nesse caso, efetivamente conseguem), silencia-lo. A acusação ou motivo da execução é a possibilidade de que as massas, excitadas pela pregação de João, fossem induzidas a rebelião (contra Antipas, e, em todo caso, contra Roma).

Falando sobre os efeitos da pregação de João sobre as massas, John Dominic Crossan observa:
"De repente, tudo muda, mas sem qualquer explicação. Quem são esses outros, porque são tão incitados, qual é o conteúdo desses sermãos , onde João levaria aqueles que o obedecem em tudo o que faziam e como poderia tudo isso levar a alguma forma de sedição ou mesmo a uma sublevação? Depois de ler esta segunda parte, não surpreende que Antipas tenha rapidamente decidido eliminar João" [23]

A possibilidade, ainda que remota, de que João Batista se torne o líder de uma revolta (para se tornar rei?), leva a sua execução. Como diz Crossan, é possível que Josefo não tenha contado toda a história em relação a João Batista, deliberadamente relatando menos que sabia, para que os detalhes não ferissem suscetibilidades de seus leitores da elite greco-romana . É concebível que em seus sermões pudessem ser interpretados de forma revolucionárias. Nesse aspecto, o relato do Novo Testamento complementa o de Josefo. Uma crítica a vida promiscua dos monarcas herodianos, combinado a multidões alvoroçadas por um profeta, e que o seguem em tudo que ele diz e faz (até em uma revolta) pode ser um bom motivo para cortar cabeças.

Concluindo
Desta forma, no que se refere a Josefo, podemos concluir citando o Professor Steve Mason, da York University, que após ponderar as dificuldades com o texto do Testimonium, e fazer um balanço das evidências disponíveis afirma:

"Levando em conta todos esses problemas, uns poucos estudiosos afirmam que a passagem inteira (o testimonium) como se encontra em Josefo é uma fraude cristã. Escribas cristãos que copiaram os escritos do historiador judeu pensaram ser intolerável que ele não tivesse escrito nada sobre Jesus e colocaram o parágrafo onde mais provavelmente deveria ficar, no relato Josefano do governo de Pilatos. A maioria dos críticos, entretanto, tem sido relutante em ir tão longe. Eles observaram que, em geral, os copistas cristãos eram bastante conservadores na transmissão de textos. Em nenhum outro lugar na volumosa obra de Josefo há suspeita fundamentada de manipulação escribal. Copistas cristãos também gtransmitiram as obras de Filo, que disse muitas coisas que poderiam ser elaboradas em um sentido cristão, mas não há evidência que em centenas de anos de transmissão, os escribas inseriram seus próprios pensamentos no texto de Filo. Por certo, acredita-se que muitos dos "pseudepigrafa" que existem hoje apenas na forma cristã tenham sido elaborados a partir originais judaicos, mas neste caso é provável que seja resultaado da elaboração de textos cristãos a partir de modelos, e não inserções por escribas. Esta discussão esta em curso entre os estudiosos. Mas nos casos de Filo e Josefo, os quais os escritos foram preservados em sua forma e lingua original, é muito díficil encontrar um único exemplo de alteração escribal digna de nota. Criar o Testimonium do nada seria um ato de audácia sem precedentet para um escriba" [24]



O caso de Filo de Alexandria é realmente impressionante. Suas idéias foram utilizadas intensamente pelos pais da Igreja, como Origenes e Clemente, e sua repercussão entre os cristãos foi provavelmente maior que a de Josefo. Sua definição do "Logos" encontrou espaçõ até no evangelho de João. Alguns o consideraram um "cristão honorário", havendo lendas de que ele se encontrou com Pedro em Alexandria. Não obstante, a despeito de Filo ter escrito vários livros, que constituem várias centenas de páginas, que foram copiados e recopiados por escribas cristãos por mais de mil anos, não há um "Testimonium Filosianum". Não se conhece nenhuma passagem falando dos feitos maravilhosos de Jesus, da crucificação, ressureição, escrita pelo sábio judeu de Alexandria. Filo não fala de Jesus, e até onde se sabe não houve tentativa dos escribas "interpoladores compulsivos" de mudar essa realidade, mesmo havendo inúmeras oportunidades para isso. Também é estranho ver Fócio de Constantinopla, no sec. IX, reclamar que Justo de Tiberíades (historiador contemporâneo de Josefo) não tenha falado de Jesus.

Se, como é dito, o texto de Josefo foi interpolado duas vezes, porque não fizeram o mesmo com Filo de Alexandria e Justo de Tiberíades? É uma forte evidência que Josefo realmente mencionou Jesus, e que embora o Testimonium possa ter sido alterado não foi criado do nada.

Todavia, já que a maior parte daqueles que dominam a evidencia concordam que ele [Josefo] disse algo sobre Jesus, podemos nos sentir livres para cita-lo [o testimonium] como uma fonte independente que Jesus realmente existiu, caso essa evidência fosse necessária. Mas para isso já seria suficiente a referência de Josefo a Tiago (Ant. 20.200), além do fato que a maioria dos historiadores considera a existênicia de Jesus como a única explicação adequada para as muitas tradições indepentes nos escritos neeotestamentários." (25)

Referências Bibliográficas
[1] John P Meier (1991), Um Judeu Marginal, Volume 1, fls. 76-77
[2] Alice Whealey (2005), "Josephus, Eusebius the Cesarea, and the Testimonium Flavianum in Christifried Bottrich, Jens Herzer, Torsten Reiprch (2007) , Josephus und das neue Testament, Wechselseitige Wahrnehmungen II, fls. 74-75.
[3] Jona Lendering, Flavius Josephus, Livius, acessado em 15.06.2010
[4] Suetônio, A Vida dos Doze Césares, Vespasiano; Cassio Dio, História Romana, Livro 66, Capítulo 1, seção 4
[5] Alice Whealey (2005), "Josephus, Eusebius of Cesarea and Testimonium Flavianum", in Christopher Bottrich, Jens Herzer, Torsten Reiprich (2007) .... fl. 83, nota 27



[6] David Flusser (1998), Jesus, fl. 12.



[7] Justino, Dialogo com Trifo, Capítulo 69, verso 5 e Tertuliano, Apologetica 21:17



[8] Geza Vermes (1998) "Jesus in His Jewish Context" fl. 91-96; Alice Whealey (2005), "Josephus, Eusebius the Ceasarea, and the Testimonium Flavianum" in Christfried Bottrich, Jens Herzer, Torsten Reiprich eds. (2007), Josephus und das Neue Testament, Wechselseitige Wahrnehmungen II, fls. 82-83.



[9] Tácito, Anais 15:44; Plínio, Cartas 10:96-97; Suetônio, A Vida dos Doze Césares, Nero, 16:2



[10] Porfírio, "Filosofia dos Oráculos", em Santo Agostinho Cidade de Deus, Livro 19, capítulo 23



[11] John P. Meier (1991), Um Judeu Marginal, volume 1, pagina 86, nota 38



[12] Geza Vermes (2003), Quem é Quem na Época de Jesus, fl. 159



[13] Bart D Ehrman (2003), Evangelhos Perdidos, As batalhas pela escritura e os cristianismos que não chegamos a conhecer, fl. 236.



[14] Paul Winter (1968) "Excursus II -Josephus on Jesus and James," em E. Schurer, The History of the Jewish People in the Age of Jesus Christ, rev. and ed. by G. Vermes and F. Millar, fl. 441.



[15] John P. Meier (1991), Um Judeu Marginal, Volume 1, fl. 92, nota 54



[16] Gerd Thiessen e Annete Merz (1996), O Jesus Histórico, um Manual, fl. 93



[17] John Dominic Crossan e Jonathan Reed (2001), Em Busca de Paulo, fl. 321



[18] Klaus-Stefan Krieger (2000), A Synoptic Approach to War 2 §§ 117-283 and Antiquities 18-20 http://pace.cns.yorku.ca:8080/media/pdf/sbl/krieger2000.pdf



[19] Geza Vermes (2003), A Paixão, fl. 116.



[20] David Flusser (1998), Jesus, fl. 49



[21] Paul Winter (1968), Sobre o Processo de Jesus, fl. 122



[22] Geza Vermes (2001), As várias faces de Jesus, fl. 308



[23] John D Crossan (1995), Jesus uma Biografia Revolucionária, fl. 50



[24] Steve Mason (1992), Josephus and The New Testament, fl.170-171



[25] Steve Mason (1992), Josephus and The New Testament, fl.174


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