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domingo, 13 de junho de 2021

Quando Israel era Menino - Arqueologia e o Livro de Reis - Parte 2 - Origens (Josué, Juízes e Samuel)

Débora e Baraque, Século XIII, Saltério
de São Luiz
, via wikicommons
 Continuando, após dois anos e meio, nossa série sobre a arqueologia bíblica. Agora, utilizaremos não só exemplos do livro de I e II Reis, mas também Juízes e I e II Samuel.

Como abordamos anteriormente, a utilização do Antigo Testamento como fonte histórica gera uma divisão entre arqueólogos, historiadores e biblistas no campos minimalista e maximalista. Entre aqueles que entendem que a narrativa dos livros históricos da Bíblia deve ser considerada como factual até que expressamente contradita pela evidência literária ou arqueológica contemporânea, e aqueles que defendem que o texto bíblico somente deve ser utilizado quando "provado" por evidências externas.

Na prática, porém, tais visões demarcam os extremos, estando a grande maioria dos pesquisadores entre esses polos. O período a ser considerado também é extremamente relevante, uma vez que há atestação muito maior para os reinados de Omri ou Ezequias do que, por exemplo, o tempo de Isaque e Jacó.


Professor Michael Coogan, de Harvard, ilustra como a evidência diferenciada entre os vários períodos descritos na história bíblica orienta a percepção dos estudiosos:

"The evidence, then, is fragmentary, but when all of it is considered - texts from the ancient Near East, the Bible, and archeological data - it does, generally, fit together. An analogy is a large jigsaw puzzle that is missing many of its pieces - but enough of them fit so that the reconstruion is probable, if not certain. This applies to chronology, and thus to persons or events, throughout the first millennium, that is, from the time of the dividion of the United Monarchy of Israel in the late tenth century to the time of the Maccabees in the second century BCE. With some diffidence we may push this back slightly, to David and Solomon, the second and third kings of Israel in the tenth century, but probably not before (tradução) As evidências, então, são fragmentárias, mas quando todas são consideradas - textos do antigo Oriente Próximo, a Bíblia e dados arqueológicos - geralmente se encaixam. Uma analogia é um grande quebra-cabeça do qual faltam muitas de suas peças - mas cabem em número suficiente para que a reconstrução seja provável, senão certa. Isso se aplica à cronologia e, portanto, a pessoas ou eventos, ao longo do primeiro milênio, isto é, desde a época da divisão da Monarquia Unida de Israel no final do século X até a época dos Macabeus no segundo século AEC. Com alguma hesitação, podemos recuar um pouco, para Davi e Salomão, o segundo e o terceiro reis de Israel no século dez, mas provavelmente não antes[1] 

Assim, a postura minimalista ou maximalista, para a grande maioria dos estudiosos, é uma abordagem metodológica que leva em conta as particularidades de cada período. De Gênesis até, digamos, I Samuel (ou Juízes) e do tempo de II Samuel em diante. O posicionamento dessa "fronteira" é objeto também de intensa discussão. Eric H. Cline, Professor da Universidade George Washington, é outro a demarcar a "fronteira" em termos de atestação externa de figuras e eventos bíblicos, considerando as descobertas arqueológicas relativas aos cananeus, sírios, hititas, egípcios e povos da Mesopotâmia, mas que indica também um território não tão bem demarcado, entre, digamos, o século XIII AC (data tradicional do Êxodo) e o início do século X AC (divisão dos reinos de Israel e Judá).

"such discoveries have shed relatively little light on the actual stories found in the Hebrew Bible - particularly those in Genesis ans Exodus. As a result, many of the earlier stories of the Hebrew Bible, especially those from Creation to the Exodus, have not been corroborated by archeologists and remain a matter of faith. On the other hand, events from a slightly later period, i.e., during the era of the Divided Kingdoms in the first millenium BCE after the empire of David and Solomon broke assunder, benefit from extrabiblical inscriptions, records, and other data that can be used to corroborate biblical details. (tradução) tais descobertas lançaram relativamente pouca luz sobre as histórias encontradas na Bíblia Hebraica - particularmente aquelas em Gênesis e Êxodo. Como resultado, muitas das histórias anteriores da Bíblia Hebraica, especialmente aquelas da Criação ao Êxodo, não foram corroboradas por arqueólogos e permanecem uma questão de fé. Por outro lado, os eventos de um período ligeiramente posterior, ou seja, durante a era dos Reinos Divididos no primeiro milênio antes da era cristã, depois que o império de Davi e Salomão rachou subitamente, se beneficiam de inscrições extra-bíblicas, registros e outros dados que podem ser usados para corroborar detalhes bíblicos.[2]

Vamos esse período de "fronteira", abordando algumas evidências arqueológicas desse período entre os século XIII e X AC, período antecedente ao Livro de Reis, descrito nos livros de Josué, Juízes e I e II Samuel.

 1) A Estela de Merneptah, 1208 AC

Estela de Merneptah, Museu do Cairo, via wikicommons 
Os israelitas viviam entre os cananeus, os hititas, os amorreus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus. Tomaram as filhas deles em casamento e deram suas filhas aos filhos deles, e prestaram culto aos deuses deles. (Juízes 3:5-6);

O Faraó Merneptah (1213-1203 AC) empreendeu uma campanha militar na Palestina no 5° ano do seu reinado (c. 1208 AC). Os egípcios tinham importantes interesses no território, recolhendo tributos dos reis cananeus e utilizando como "tampão" frente a expansão do Reino de Mittani, e posteriormente, do Império Hitita.

Para celebrar suas vitórias, Merneptah comissionou uma inscrição, descoberta em 1896, em Tebas, por Sir Flinders Petrie. Hoje a estela de Merneptah, se encontra no Museu Egípcio, no Cairo. 

Os principes se prostraram, dizendo, "Paz!"
Ninguém levanta a cabeça entre os nove arcos.
Agora, os Tehenu (Libia) foram arruinados,
Hatti foi pacificada;
Canaã foi despojada de toda a maldade:
Ascalon foi conquistada;
Gezer foi capturada;
Yenoam já não existe.
Israel foi destruído e sua descendência já não existe;
A Siria tornou-se uma viúva para o Egito.

A menção a Israel por Merneptah é a primeira em fontes egípcias e extrabíblicas. Professor Mario Liverani, da Universidade de Roma La Sapienza, comenta sua significância:

"(...) Uma estela de Merneptah celebra o triunfo do faráo numa campanha dele através da Palestina, citando entre os inimigos vencidos cidades como Ascalon e Gezer, países como Canãa e Kharu, acompanhando esses nomes com o determinativos de "região"; mas entre eles há um nome com o determinativo de "gente" (portanto, um gupo tribal, não sedentário) e é Israel. É a primeira menção em absoluto do nome, que, provavelmente deva ser posto na zona dos altiplanos centrais. Na verdade, a sequência das três localidades Ascalon-Gezer´-Yeno'am está como enquadrada entre os dois termos (mais amplos) Canaã e Israel; e se Canaã se situa por certo no início da sequência, na planície costeira do sul, Israel se situa por certo também nos altiplanos centrais. [3]

O fato de Israel ser citada é significante por ser uma menção que atesta a existência de um grupo tribal que vagava na Palestina, principalmente nas regiões montanhosas centrais, sem uma associação definida as cidade estado cananeias, e sem constituir ainda um estado organizado, o que é consistente com o contexto geral descrito no livro de Juízes. No entanto, a estela faz menção a um conflito que não é mencionado na Bíblia. Da mesma forma, o domínio dos egípcios sobre Canaã não é uma memória existente nos livros de Josué e Juízes, ainda que a presença dos israelitas, como um dos causadores de problemas para os egípcios não tenha passado desapercebida. 

Liverani descreve a natureza da dominação egípcia:

Por cerca de três séculos (1460 - 1170 AC) a Palestina foi submetida ao domínio direto dos Egípcios (...) o controle egípcio era em grande parte indireto e os "pequenos reis" locais conservaram sua autonomia (mas não a independência) como "servos" e tributários do Faraó. O quadro fornecido pelas cartas de El-Amarna (1370-1350 AC) mostra que somente três centros siro-palestinos eram sede de governadores egípcios: Gaza na costa meridional, Kumidi na Beq'a Libanesa e Sumura na costa setentrional, junto a atual fronteira siro-libanesa. Havia guarnições egípcias também em algumas outras localidades: Jafá (perto da hodierna Tel Aviv) Bet-She'an (na passagem entre a planície de Yizre'el e o vale do Jordão), Ulaza (na abertura para o mar da via proveniente do vale do Orontes). Calculando as pequenas guarniçoes permanentes e a tropa que (como veremos) efetuava o giro anual de cobrança, pode-se calcular que o Egito do período armaniano empregasse na gestão e no controle de seu "império" siro-palestino não mais que setecentas pessoas  [4]

 

Dessa forma, para um habitante comum de Canaã do século XIII AC, a presença militar egípcia passaria praticamente desapercebida, fora da base de Bete Seã. Não era, portanto, um cenário de ocupação, mas de suserania, onde os reis das cidade-estado cananeias prestavam fidelidade ao Faraó, pagavam tributo, e davam satisfações (como indicam as cartas de Amarna), mantendo porém um grau elevado de autonomia para tratar dos assuntos do dia a dia. Era um esquema que permitirá aos egípcios manterem seus interesses por quase 300 anos, recebendo tributo, e com manutenção de força militar e administrativa mínima.

Deve ser observado ainda, que o discurso triunfalista de Merneptah esconde o enfraquecimento do domínio egípcio, que estava utilizando seus recursos para enfrentar os vários inimigos descritos na Estela, simultaneamente, sejam cananeus, povos do mar (Filisteus), israelitas ou líbios. Assim, a despeito de seu discurso triunfante, a estela captura um momento em que a hegemonia egípcia era questionada, súbita e intensamente, em varias frentes.  

Professor Kenneth Kitchen, egiptologista da Universidade de Liverpool, contextualiza os vários inimigos mencionados na Estela de Merneptah, e seu papel na queda da hegemonia egípcia sobre Canaã:

Then new factors came in circa 1230 onward, clearly attested in first-hand Egyptian texts. Rebuffed by Egypt (ca 1177), the Sea People ended up in Canaan - the Pilisti or Philistines in the southwest, and Sikils and Shekelesh farther north (Dor, Jezreel). In Transjordan, new names appeared: Edom and Moab, plus the Ammonites (as yet unmentioned in contemporary texts). Arameans now become more prominent from the north. And, as Merneptah made clear in 1209, a group called Israel was present in Canaan, most likely in the hill country. All these peoples were to have a long and varied history for the next six or seven centuries (...) we have an outline, basic correspondence of the two sources, Egyptian and Biblical. (tradução) Então, novos fatores surgiram por volta de 1230 em diante, claramente atestados em textos egípcios contemporâneos. Repelidos pelo Egito (cerca de 1177), o Povo do Mar acabou em Canaã - os Filisti ou Filisteus no sudoeste, e Sikils e Shekelesh mais ao norte (Dor, Jezreel). Na Transjordânia, novos nomes apareceram: Edom e Moabe, mais os amonitas (ainda não mencionados em textos contemporâneos). Os arameus agora se tornam mais proeminentes no norte. E, como Merneptah deixou claro em 1209, um grupo chamado Israel estava presente em Canaã, provavelmente na região montanhosa. Todos esses povos estão para posicionados para uma longa e variada história pelos seis ou sete séculos seguintes (...) temos assim um esboço, correspondência básica das duas fontes, egípcia e bíblica.[4]

 Os egípcios devem também ter ficado alarmados, assim, com o aparecimento súbito desses vários atores no cenário canaanita. No que tange aos israelitas, surgem, em número considerável, vilas e povoados, nas montanhas da Palestina na segunda metade do século XIII AC, com vertiginoso crescimento ao longo da Idade de Ferro I (1200 a 1000 AC)

Professor Israel Finkelstein, da Universidade de Tel Aviv, elaborou um levantamento arqueológico nas terras altas centrais da Palestina (correspondente ao antigo Efraim, e depois Samária) entre 1250 e 1000 AC com os seguintes resultados:

"A queda das cidades-Estado do Bronze Tardio e o colapso do governo egípcio em Canaã resultou em dois processos distintos. Nas terras altas, uma onda de assentamentos que pode ter se iniciado tão cedo quanto no final do século XIII AC, e acelerado nos séculos XII e XI AC (Finkelstein, 1988). O número de sítios cresceu dramaticamente, de cerca de 30 sítios com uma área total construída de aproximadamente 50 hectares no Bronze Tardio II (século XIII AC) para algo como 250 sítios com uma área construída de aproximadamente 220 hectares dois séculos e meio depois, no Ferro Tardio I (o início do século XII AC). Isso significa que a população sedentarizada aumentou ao menos quatro vezes seu tamanho. (...) A maioria desses assentamentos continuou ininterrupta até o Ferro IIA-B - o tempo do Reino do Norte - e disso eles podem ser rotulados "israelitas" tão certo quanto o Ferro I. Em outras palavras, essa onda de assentamentos fez nascer o Israel Primitivo (Finkelstein, 1988, Faust, 2006) [5]

Kenneth Kitchen, complementa os dados da pesquisa de Finkelstein, já referenciada acima, com o levantamento de  Adam Zertal (1936-2015), na região imediatamente ao norte, correspondente as áreas montanhosas da tribo de Manassés:

Surface surveys have been undertaken in some depth in central Canaan, notably by the Filkenstein team in the terrain of ancient Ephraim/Samaria, and by Zertal and colleagues in the adjoining territory of ancient West Manasseh. (...)  Next door in West Manasseh, Zertal note some 39 sites for Late Bronze but over 200 for Iron I, again a huge increase. This great rash of farmsteads, hamlets, and small villages represents a wholly new development, as universally admited (tradução)  Os levantamentos da superfície foram realizados em alguma profundidade no centro de Canaã, notavelmente pela equipe Filkenstein no terreno da antiga Efraim / Samaria, e por Zertal e colegas no território adjacente da antiga Manassés Ocidental. (...). No vizinho Manassés Ocidental, Zertal observa cerca de 39 sítios no Bronze Tardio, e mais de 200 na Idade de Ferro I, novamente um grande aumento. Esta grande onda de fazendas, aldeias e pequenas aldeias representa um desenvolvimento totalmente novo, como é universalmente admitido [6]

Por fim Amihai Mazar, Professor da Universidade Hebraica, apresenta uma visão mais ampla, considerando toda Palestina, no que tange a localização desses novos assentamentos:

"Intensivos levantamentos arqueológicos de superfície revelaram um padrão de assentamento inteiramente  novo na Idade do Ferro I. Centenas de pequenos sítios novos estavam habitados nas áreas montanhosas da Alta e Baixa Galileia, nas colinas de Samaria e Efraim, em Benjamim, no Negueb setentrional e em partes da Transjordânia central e setentrional. Boa parte pode ser relacionada a tribos israelitas, muito embora a atribuição étnica em algumas dessas regiões seja questionável.[7] 

 A explosão de assentamentos com um novo padrão de ocupação, "israelita", ou "protoisraelita", a partir do final do século XIII AC, marca assim um crescimento populacional impressionante, indicando, como observa Kitchen, um número muito maior de habitantes que o existente no Bronze Tardio II (1400-1200 AC). Citando Filkenstein, a população de Canaã, como um todo, mais que duplicou entre 1150 AC e 1000 AC (início do reinado de Saul), passando de 21.000 para 51.000 pessoas, e quadruplicou ou quintuplicou no intervalo maior de 1250 e 1000 AC [8]. No entanto, considerando apenas as terras altas do centro do país, o aumento de população pode ter sido de 5 vezes nos primeiros 100 anos desse período [8]. 

Resta porém a questão, de onde veio tanta gente?

Mario Liverani descreve as várias teorias existentes:

"Influenciados - positiva ou negativamente - pela narrativa bíblica, os estudiosos modernos (arqueólogos não menos que biblistas) propuseram teorias unívocas, com forte polêmica reciproca, sobre a explicação da etnogenia de Israel (...) bastará lembrar aqui as principais teorias que se sucederam e se confrontaram. (1) A teoria da conquista "militar" compacta e destrutiva, de direta inspiração bíblica, é ainda afirmada em alguns ambientes tradicionalistas (especialmente norte-americanos e israelitas), mas é agora deixada a margem do debate. (2) Prevalece hoje a ideia de uma ocupação progressiva, nas duas variantes (mais complementares do que exclusivas entre sí) de sedentarização de grupos pastoris já presentes na área e da infiltração do adjacente pré-deserto (3) Enfim, a teoria (chamada "sociológica") da revolta camponesa, que privilegia totalmente o processo por linhas internas sem contribuições externas, depois dos consensos dos anos 1970-1980, é atualmente malvista, por motivos às vezes declaradamente políticos. Ainda hoje as várias propostas são normalmente contrapostas, quando deveriam ser todas utilizadas para compor um quadro multifatorial próprio de um fenômeno histórico complexo. [9].

 Como evidenciado acima, os últimos 50 anos marcaram uma perda de força da teoria da conquista, outrora dominante entre os estudiosos, bem como a dificuldade de estabelecimento de um novo consenso. De qualquer forma, deve ser questionado até que ponto a própria narrativa bíblica propõe uma conquista avassaladora, irresistível e inexorável dos israelitas, ou um misto de confronto e convivência entre os israelitas e os vários grupos que habitavam Canaã, ao longo de várias gerações, até o surgimento da monarquia. 

O livro de Juízes faz menção a várias batalhas, mas também afirma sem rodeios não só que "os israelitas viviam entre os caananitas", e "tomaram as filhas deles em casamento e deram suas filhas aos filhos deles", bem como "prestaram culto aos deuses deles". Esses elementos indicam a possibilidade de um grupo estrangeiro tenha se fixado na região montanhosa central de Canaã e se associado a população local, e após várias gerações, assumiu uma consciência étnica e nacional. Como observa Avraham Faust, da Universidade Bar Ilan, a posição dominante entre os estudiosos é que pelo menos uma parte dos habitantes desses novos assentamentos eram provenientes das regiões transjordânicas e do deserto e, provavelmente, de uma forma ou outra, do Egito, indicando pelo menos uma núcleo de memória nas narrativas do Exodo [10]. 

Assim, a concepção de que houve uma confluência entre um fluxo populacional de origem estrangeira e outro autóctone, com conquista e coexistência é uma possibilidade a ser explorada. A vertente de convivência e posterior associação do elemento "proto-israelita" e cananeu, pode ser exemplificada pela cidade estado de Siquém, cuja evolução é descrita por Liverani:

"Diferente é o caso de Siquém, que a tradição apresenta sob o signo da progressiva assimilação - como confirmado arqueologicamente pelo continuísmo que marca a passagem da florescente cidade do século XIV (estrato XIII), à mais modesta do século XIII (estrato XII) - ao assentamento "proto-israelita" do Ferro I (extrato XI). [11]

A  vertente de confronto é exemplificada por Hazor, na próxima parte do post

2) Destruição de Hazor

 

Carta de Amarna, do Rei Abdi-Tirzi, de Hazor
para o Faráó Amenotep (ou seu filho, Akenaten)
Sec. XIV AC, Museu Britânico, via wikicommons
Quando Jabim, rei de Hazor, soube disso, enviou mensagem a Jobabe, rei de Madom, aos reis de Sinrom e Acsafe, e aos reis do norte que viviam nas montanhas, na Arabá ao sul de Quinerete, na Sefelá e em Nafote-Dor, a oeste; aos cananeus a leste e a oeste; aos amorreus, aos hititas, aos ferezeus e aos jebuseus das montanhas; e aos heveus do sopé do Hermom, na região de Mispá. Saíram com todas as suas tropas, um exército imenso, tão numeroso como a areia da praia, além de um grande número de cavalos e carros. Todos esses reis se uniram e acamparam junto às águas de Merom, para lutar contra Israel. E o Senhor disse a Josué: "Não tenha medo deles, porque amanhã a esta hora entregarei todos mortos a Israel. A você cabe cortar os tendões dos cavalos deles e queimar os seus carros". Josué e todo o seu exército os surpreenderam junto às águas de Merom e os atacaram, e o Senhor os entregou nas mãos de Israel, que os derrotou e os perseguiu até Sidom, a grande, até Misrefote-Maim e até o vale de Mispá, a leste. (...) Na mesma ocasião Josué voltou, conquistou Hazor e matou o seu rei à espada. ( Hazor tinha sido a capital de todos esses reinos. ).Matou à espada todos os que nela estavam. Exterminou-os totalmente, sem poupar nada que respirasse, e incendiou Hazor. (Josué 11:1-11)

 


 Como descrevemos acima, a teoria da conquista não é mais o modelo dominante para explicar a emergência do antigo Israel em Canaã. Várias teorias alternativas foram propostas, mas nenhuma obteve o mesmo grau de dominância que esta teve, ou chegou próximo de estabelecer um consenso. Os motivos são apontados pelo Professor Eric Cline:

Many of the sites mentioned in the biblical account and specifically noted as being destroyed by the invading Israelites have now been excavated by biblical archeologists, with an interesting conundrum resulting. On the one hand, most of the sites described as being destroyed do not show any archeological evidence of destruction - and some, such as Jericho, were not even occupied at the time. On the other hand, there are sites in the region that were definitely destroyed at that time, but none of these sites is mentioned in the biblical account. One of the few places named in the Bible as being destroyed by the Israelites and at which a destruction has been found by archaelogists is the site of Hazor (traduçãoMuitos dos locais mencionados no relato bíblico e especificamente indicados como destruídos pelos invasores israelitas foram agora escavados por arqueólogos bíblicos, resultando em um enigma interessante. Por outro lado, a maioria dos locais descritos como destruídos não apresentam nenhuma evidência arqueológica de destruição - e alguns, como Jericó, nem estavam ocupados na época. Por outro lado, existem locais na região que foram definitivamente destruídos naquela época, mas nenhum desses locais é mencionado no relato bíblico. Um dos poucos lugares mencionados na Bíblia como tendo sido destruído pelos israelitas e no qual evidências de destruição foi encontrada por arqueólogos é Hazor. [12].

No livro de Josué, a conquista militar de Canaã se inicia com a travessia do Jordão, a completa destruição de Jericó e Ai, e o estabelecimento de uma aliança com a cidade-estado de Gibeão. Josué, então, inicia uma campanha contra a liga de cidades sulistas, lideradas pelo Rei de Jerusalém. Após a vitória no sul, Josué enfrenta uma coalização das cidades-estado do norte, lideradas por Jabim, Rei de Hazor. A coalização é derrotada, e Hazor completamente destruída. A "terra teve descanso da guerra" (Js 12:23) e houve a divisão entre as tribos. 

Juízes, começa com várias tribos conduzindo esforços isolados de ocupação. No capítulo 1, a tribo de Judá, por exemplo, consegue várias vitórias, mas a resultante de seus esforços foi que "(...)ocuparam a serra central, mas não conseguiram expulsar os habitantes dos vales, pois estes possuíam carros de guerra feitos de ferro.("(v. 19). As tribos centrais, Manassés e Efraim, também não teriam conseguido prevalecer contra importantes centros como Dor, Megido, e Gezer, "pois os cananeus estavam decididos a permanecer naquela terra."(v. 27), bem como a tribo de Benjamim não conseguiu tomar  Jerusalém dos Jebuseus. No norte, as tribos de Aser, Zebulom e Naftali, viviam "entre os cananeus que habitavam naquela terra.(v. 32)". A relação conflituosa, mas também cooperativa entre os israelitas e os demais habitantes de Canaã é indicada pelo fato de que  "os israelitas viviam entre os cananeus, os hititas, os amorreus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus. Tomaram as filhas deles em casamento e deram suas filhas aos filhos deles, e prestaram culto aos deuses deles"(Jz 3:5). O livro descreve a resistência organizada por vários juízes contra incursões de midianitas, amonitas, arameus, amalequitas, filisteus, bem como a grande vitória de Débora e Baraque contra uma nova coalização nortista liderada por Hazor.

 Hazor era uma das mais importantes e poderosas cidade-estado na palestina, pedra angular do sistema de suserania egípcio na região, e principal praça do norte de Canaã [13][14][15].

Israel Finkelstein comenta a destruição de Hazor, que parece ter precedido a queda de outras cidades cananeias em algumas décadas, e suas implicações:

Hazor, provavelmente a cidade-Estado mais importante do Norte, foi destruída num violento incêndio, provavelmente na segunda metade do século XIII a.C (Yadin, 1972; Kitchen, 2002; Ben-Tor, 2008). Outras cidades-Estado, incluindo aquelas situadas no vale de Jezrael, assim como um centro egípcio em Betsã, continuaram ininterruptamente por quase um século. O sistema de cidades-Estados canaanitas sob dominação egípcia nos vales do Norte chegou ao fim numa série de destruições no final do século XII a.C. [13].

Esses efeitos da destruição de Hazor, e os prováveis culpados, são discutidos por Amihai Mazar:

Hasor é descrita no livro de Josué como a maior das cidades cananéias "Hasor era outrora a capital de todos esses reinos" (Josué 11,10). Depois da batalha junto às águas do Meron, Hasor foi nivelada: "Todavia, todas as cidades que estavam erigidas sobre suas colinas de ruínas, Israel não as incendiou, salvo Hasor, que Josué incendiou" (Josué 11,13). Vimos que Hasor foi de fato a maior cidade cananéia durante toda a duração das idades do Bronze Médio e Recente. A última cidade cananéia lá (Estrato XIII), que era bastante pobre em comparação com as suas predecessoras, foi destruída em algum momento durante o século treze a.C, provavelmente cerca de meio século antes da aniquilação de Laquis. Os escavadores assumiram que o fim de Hasor cananéia deve ser atribuido aos israelitas. [14]

Uma descrição dessa Hazor do estrato XIII, que corresponderia ao período entre 1400 a 1200 AC foi apresentada por Kenneth Kitchen

In the second millenium Hazor consisted of an upper citadel (on a high mound) which dominated a large "lower city" on its north side - a vast site, certanly then "head of all [Canaan's] kingdoms". Both areas were destroyed  along with a massive conflagration in the thirteenth century, probably towards its end (citadel, stratum XIII; lower city, stratum Ia). Insofar as the results of Yadin's work are confirmed by the new excavations under Ben-Tor, then it will seem very probable (as it did to Yadin, long ago) that the massive destruction of greater Hazor was that wrought by Joshua. (tradução) No segundo milênio, Hazor consistia em uma cidadela superior (em um monte alto) que dominava uma grande "cidade baixa" em seu lado norte - um vasto local, certamente então "cabeça de todos os reinos [de Canaã]". Ambas as áreas foram destruídas juntamente com uma grande conflagração no século XIII, provavelmente no final (cidadela, estrato XIII; cidade baixa, estrato Ia). Na medida em que os resultados do trabalho de Yadin são confirmados pelas novas escavações sob Ben-Tor, então parece muito provável (como para Yadin, há muito tempo) que a destruição massiva da grande Hazor foi feita por Josué [15].

 A existência de uma memória histórica do confronto entre os (proto) israelitas e a entidade política de Hazor é reforçada pela menção em Josué e Juízes do Rei (Yabin), em confronto com Josué e seu filho de mesmo nome contra Débora e Baraque. (O Jabin de Josué é identificado como Rei de Hazor. O Jabin de Débora e Baraque, como Rei de Canaã). Nos arquivos da cidade de Mari, na Mesopotâmia, há referencias do século XVIII AC ao comércio entre Hazor e Mari. Há uma menção a um certo Rei Ibni, que é o exato correspondente ao hebraico Yabin (Jabin), nome do Rei de Hazor em Josué e depois em Juízes. Professor William Dever, da Universidade do Arizona, escreve:

It would appear that the authors of this passage in the Hebrew Bible, however late, had some knowledge of an Ibni (that is, a Yabin) dinasty in Hazor, stretching all the way back to the middle Bronze Age centuries earlier. To me, this suggest strongly that the writers of the book of Joshua did not entirely "invent" the story of the fall of Hazor. They had reliable historical sources, oral and/or written. They also knew correctly that Hazor had indeed been the "head of all these kingdoms" or city-states in the north, as the current excavations have made abundantly clear (tradução) Parece que os autores desta passagem na Bíblia Hebraica, embora tardia, tinham algum conhecimento de uma dinastia Ibni (isto é, um Yabin) em Hazor, remontando à Idade do Bronze, séculos antes. Para mim, isso sugere fortemente que os escritores do livro de Josué não "inventaram" inteiramente a história da queda de Hazor. Eles tinham fontes históricas confiáveis, orais e / ou escritas. Eles também sabiam corretamente que Hazor tinha de fato sido  "chefe de todos esses reinos" ou cidades-estado no norte, como as escavações atuais deixaram bem claro [16]

Liverani, por sua vez, também aponta os israelitas (ou proto israelitas) como os responsáveis pela destruição, mas associa ao período de Debora e Baraque (Juizes 4), alguma décadas depois. Aponta o cântico de Debora, considerado entre os estudiosos como uma das partes mais antigas da Bíblia (provavelmente anterior em vários séculos a redação final de Juízes), para indicar a coalização de seis tribos, nortistas e centrais, contra a coalização cananeia. 

"O conflito historicamente mais plausível é, porém, o segundo, a batalha em Taa'nak, perto de Megido, que vê as milícias tribais da Galiléia (Zabulon, Issacar e Neftali) e centrais (Makir/Manassés, Efraim, e Benjamim) guiadas por Baraq e cercadas por Débora descerem de suas montanhas para enfrentar os temidíssimos carros de guerra das cidades cananéias, sob a hegemonia de Yabin, Rei de Hasor, e guiadas pelo general Sisera. O "cantico de Débora", por todos considerado um dos textos mais antigos da Bíblica, constituiu o núcleo sobre o qual depois de construiu o texto narrativo que o engloba. [17]

 

Em suma, a evidência até aqui indica que por volta de 1200 AC, havia o conhecimento em fontes egípcias de um grupo étnico (não ainda organizado em cidades estado ou reinos) que habitava Canaã, provavelmente em sua região montanhosa. A evidência arqueológica indica "explosão" de assentamentos "israelitas" nesse período, e que esse grupo provavelmente esteve associado a destruição da grande cidade de Hazor, pedra angular do sistema das cidades estado do norte, e possivelmente toda  Canaã (tendo sido, provavelmente, um dos motivos pelo qual a dominação egípcia se enfraqueceu no longo prazo, e ter levado Merneptah em tentar restabelece-la), e que o quadro geral apresentado por Juízes, do antigo Israel coexistindo e interagindo com os vários povos que habitavam a Palestina, reflete provavelmente uma memória histórica.

A emergência (e decadência) de Siló.

Eli e Samuel no Tabernaculo, 1780
por John Singleton Copley, via wikicommons
 Toda a comunidade dos israelitas reuniu-se em Siló e ali armou a Tenda do Encontro. A terra foi dominada por eles; Josué 18:1

Samuel, contudo, ainda menino, ministrava perante o Senhor, vestindo uma túnica de linho. Todos os anos sua mãe fazia uma pequena túnica e a levava para ele, quando subia a Siló com o marido para oferecer o sacrifício anual. (...) Todo o Israel, de Dã até Berseba, reconhecia que Samuel estava confirmado como profeta do Senhor. O Senhor continuou aparecendo em Siló, onde havia se revelado a Samuel por meio de sua palavra. I Samuel 1 2:18,19 e 3:20,21.

Sabendo-o Deus, enfureceu-se e rejeitou totalmente a Israel;
abandonou o tabernáculo de Siló, a tenda onde habitava entre os homens. Salmos 78:59,60

"Portanto, vão agora a Siló, o meu lugar de adoração, onde primeiro fiz uma habitação em honra do meu nome, e vejam o que eu lhe fiz por causa da impiedade de Israel, meu povo. Jeremias 7:12

Como indicado nos textos bíblicos acima, os livros de Josué, Juízes e I Samuel apontam Siló como o mais importante centro religioso dos antigos israelitas, onde estava o Tabernáculo e a Arca da Aliança. Na falta de uma estrutura política central, o santuário servia como a "capital" informal das tribos. Ainda segundo o texto bíblico, os israelitas foram derrotados pelos filisteus na 1ª batalha de Ebenézer, a arca da aliança foi capturada pelo inimigo, o sacerdote Eli morreu com a notícia, e a "a glória se foi de Israel". Porque a arca foi tomada (1 Samuel 4:22). A narrativa progride com Samuel liderando a revanche israelita na 2ª batalha de Ebenézer, mas os filisteus já haviam devolvido a Arca, que estava em Quiriate Jearim. Vinte anos depois, Davi traz a arca para Jerusalém (II Samuel 6), e com a construção do Templo, ela foi acomodada no "Santo dos Santos". Jeroboão, ao promover a revolta das 10 tribos e fundar o reino de Israel do Norte, mesmo tendo sido ungido por Aias, o Silonita, decidiu construir santuários rivais ao Templo de Jerusalém nas cidades de Betel e Dã (colocando em cada uma um bezerro de ouro). Assim, embora a Bíblia não mencione explicitamente como e quando ocorreu a destruição do santuário de Siló, o fato é que após a morte do sacerdote Eli, Siló entra em decadência e praticamente desaparece do registro bíblico.

Arqueologicamente falando, a evidência relativa a Silo é bem interessante, indicando um sítio bastante utilizado entre os séculos XIII e XI AC, e praticamente abandonado posteriormente, como apontam Amihai Mazar:

"A evidência arqueológica de práticas religiosas israelitas durante o período de Juízes é escassa. Em Siló, a parte central do sítio, onde provavelmente ficava o santuário foi totalmente destruída pela erosão e pelas atividades bizantinas de construção. A evidência de que existia um lugar de culto neste sítio já na idade do Bronze Recente é de considerável importância. Ele provavelmente servia a tribos de pastores seminômades que viviam nas vizinhanças, pois não foi encontrado no cômoro nenhum assentamento real desse período. Siló, portanto, parece ter sido um local sagrado desde muito antes da Idade do Ferro, e talvez essa tradição tenha levado a sua escolha como centro religioso dos israelitas durante o período dos Juízes [18]

 

Israel Finkestein:

Os livros de Josué, Juízes e I Samuel descrevem Silo como um santuário central dos primeiros israelitas - a localidade da Arca da Aliança. Jeremias (7:12,14; 26, 6.9) refere-se ao antigo templo de Yahweh que tinha estado em Siló e que foi destruído pela iniquidade de Israel. E embora Silo não fosse um importante local no final do Ferro II, quando a maioria desses textos foi colocada por escrito, sua localização - entre Jerusalém e Siquém - era bem conhecida pelo Historiador Deuteronomista (Juízes 21:19). A arqueologia demonstrou que Silo foi abandonada após sua destruição no Ferro I. Resultados de radiocarbono alocam essa destruição na segunda metade do século XI a.C (Finkelstein e Piasetzky, 2006). Não há assentamentos significantes ali nos períodos do Ferro II e persa. Vestígios datados desses períodos são escassos e de nenhuma importância especial; eles não revelam sinais de um lugar de culto ou de destruição por fogo. É impossível, assim, ler a tradição do santuário de Silo contra o panorama do Ferro II ou posterior. [19].

E Kenneth Kitchen:

The Iron I phase at the site was violently destroyed about 1050 or so, in line with the veiled allusions in Jer. 7:12-14 and Ps 78:60-61. There is no reason to view Shiloh in Iron I as anything other than an early Israelite center, amidst an area of considerable early Israelite settlement. (traduçãoA fase Ferro I do sítio foi violentamente destruída por volta de 1050 ou mais, em acordo com as alusões veladas em Jer. 7: 12-14 e Sl 78: 60-61. Não há razão para ver Shiloh em Iron I como outra coisa senão um centro israelita primitivo, em meio a uma área de considerável colonização israelita inicial [20]

Se o santuário de Siló foi praticamente abandonado em meados do século XI AC, e o deuteronomista foi escrito no século VII AC, o fato de existir uma memória de que aquele local era um importante santuário séculos antes é relevante e indica pelo menos uma possibilidade de que outras memórias semelhantes tenham sido preservadas.

Nos anos de 1930, o estudioso alemão Martin Noth postulou que as tribos de Israel se organizavam numa anfictionia, ou seja, uma liga ou confederação cujas instituições funcionavam em torno de um santuário central, a semelhança das cidades estado gregas (em torno de Delfos), que se organizaram para manter o santuário de Apolo e que com o tempo incorporou também funções políticas.

A tese de Noth foi criticada por considerar um contexto distante milhares de quilômetros e atestada pelo menos meio milênio depois do tempo de juízes. No entanto, a existência de uma organização tribal, e alguma solidariedade entre seus membros tem paralelos em contextos mais próximos aos da antiga Canaã, como observa Kitchen:

However, as lomg sice proposed, there were analagous institutions much near home, in the Near East. Hallo gave a detailed account of a Neo-Sumerian "amphictyony" of twelve or more cities that contributed supplies of a twelve monthly basis to the upkeep of the holy Sumerian city of Nippur, under the rules of the third dinasty of Ur circa 2000. As with Greece, the central central temples were the focus of attention (...) Alongside these concrete cases the Hebrew tribal federation can stand, with its shrine. The better comparison is with tribal federations, as at Mari and early Arabia (...)" (traduçãoNo entanto, como há muito proposto, havia instituições análogas muito perto de casa, no Oriente Próximo. Hallo fez um relato detalhado de uma "anfictonia" neo-suméria de doze ou mais cidades que contribuíam com suprimentos de doze meses para a manutenção da sagrada cidade suméria de Nippur, sob as regras da terceira dinastia de Ur por volta de 2000. Como com a Grécia, os templos centrais centrais eram o foco das atenções (...) Ao lado desses casos concretos pode se manter a federação tribal hebraica, com seu santuário. A melhor comparação é com as federações tribais, como em Mari e no início da Arábia [21]

Assim,  além de um santuário comum, as tribos empreendem ações militares conjuntas, um dos principais exemplos contido no cântico de Débora, como observa Liverani:

"É um texto importante para nos fazer entrever uma agregação tribal que teoricamente compreende dez tribos, seis das quais participam do empreendimento; as outras quatro julgam não faze-la (e são, por isso, ridicularizadas): Asher e Dan, porque empenhadas em trabalhar nas esquadrilhas fenícias, Rubem e Gile'ad, porque empenhadas em seus pastos estivais na Transjordânia. Observe-se que a coalização é definida como Israel (e na verdade coincide com o Reino do Norte) ou "o povo de Yahweh", mas se usa o também o coletivo "aldeões" (perazot) contraposto as cidades de muros e portas e portas dos cananeus (...)" [22].

Liverani também pontua que as fronteiras dessas tribos, pelo menos das maiores, corresponde aos padrões de assentamento das vilas "protoisraelitas"  do século XIII/XII AC  

"Não por acaso a situação das tribos principais corresponde muito bem a distribuição das vilas "proto-israelitas" e fornece uma confirmação cruzada avaliada como positiva. Mas diversas outras tribos que depois passaram a fazer parte da lista "canônica" são ou nitidamente funcionais (mas que de estirpe), como Levi (mas também Issacar, ou também os qenitas), ou de origem e pertença duvidosas (como Dan) ou desaparecidas tão cedo (Simeão) que somos levados a duvidar se algum dia existiram [23].

Assim, Silo parece ter representado um papel fundamental no período anterior a  monarquia, por servir de centro de agregação das várias tribos de Israel, permitindo algumas ações conjuntas, além da cooperação religiosa. No entanto, o livro de Juízes indica frequentemente dificuldades de mobilização conjunta entre as várias tribos. Assim, Débora consegue mobilizar seis tribos, tendo convidado 10; Gideão apenas Manassés, Aser, Zebulom e Naftali (Jz 6:35); e Jefté fica restrito as tribos de além do Jordão, tanto Gideão como Jefté recebem reclamações de Efraim, que alega que não foi adequadamente convocada para guerra. 

Desta forma, temos um Israel, ou "proto israel", que surge de forma súbita no registro histórico e arqueológico, em pequenas vilas e assentamentos nas regiões montanhosas centrais da Palestina, no final do século XIII AC. Esse grupo tem elementos autóctones, convivendo com outras populações que habitavam a região, mas também se envolve em conflitos contra forças regionais, como a cidade de Hazor e seus aliados. Suas tribos tinham algum grau de coesão, organizando ações militares conjuntas, bem como mantendo um santuário em Siló.

Referencias Bibliográficas:

[1] Michael Coogan (2008) The Old Testament, a Very Short Introduction, fl.31

[2] Eric H Cline (2009) Biblical Archaelogy, A Very Short Introduction, fl. 72

[3]  Mario Liverani (2003), Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 52

[4] Mario Liverani (2003), Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fls 37 e 38

[5]  Israel Finkesltein (2013), O Reino Esquecido - Arqueologia e História de Israel do Norte, fl. 39 

[6] Kenneth Kitchen (2003) On the Reliability of the Old Testament, fl. 225

[7] Amihai Mazar (1990) Arqueologia das Terras da Bíblia, fl. 328

[8] Kenneth Kitchen (2003) On the Reliability of the Old Testament, fl. 226

[9] Mario Liverani (2003), Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 59-60

[10] Avraham Faust (2015), The Emergence of Iron Age Israel, an Origin and Habits, fl. 476

[11] Mario Liverani (2003), Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 120

[12] Eric H Cline (2009) Biblical Archaelogy, A Very Short Introduction, fls. 77-78

[13] Israel Finkesltein (2013), O Reino Esquecido - Arqueologia e História de Israel do Norte, fl. 38

[14] Amihai Mazar (1990) Arqueologia das Terras da Bíblia, fl. 326

[15] Kenneth Kitchen (2003) On the Reliability of the Old Testament, fl. 184

[16] William Dever (2006) Who were the early Israelites, and where did they come from?, fl. 68

[17] Mario Liverani (2003), Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 122

[18] Amihai Mazar (1990) Arqueologia das Terras da Bíblia, fl. 341

[19] Israel Finkesltein (2013), O Reino Esquecido - Arqueologia e História de Israel do Norte, fls. 70-71

[20] Kenneth Kitchen (2003) On the Reliability of the Old Testament, fl. 231

[21] Kenneth Kitchen (2003) On the Reliability of the Old Testament, fl. 222

[22] Mario Liverani (2003), Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 122

[23] Mario Liverani (2003), Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 93



domingo, 7 de julho de 2019

O que aconteceu com os doze apóstolos de Jesus? Parte 3: A Casa de Pedro em Cafarnaum?


A Cura dos Leprosos de Cafarnaum
James Tissot, 1886, Brooklin Museum
O cristianismo se inicia como um movimento de judeus discípulos de Jesus de Nazaré, por volta do ano 30. De pouco mais que uma centena de seguidores, se expandiu por todo o Império Romano, de forma continua e gradual ao longo dos 300 anos seguintes até atingir milhões de pessoas na época de Constantino. 

Este desenvolvimento produziu um vibrante e impressionante volume de literatura, não só o Novo Testamento, como os vários volumes dos Pais da Igreja, livros apócrifos,  e heterodoxos. O consenso histórico-critico é que os livros do NT e alguns apócrifos, como o evangelho de Tomé, o Didaquê, e a carta de Clemente, foram escritos entre 50 a 130 DC. No final do século I e início do  II DC, o cristianismo começa a chamar a atenção de observadores externos, como Flávio Josefo, Tácito, Plínio e SuetônioOs primeiros artefatos conhecidos são manuscritos, como o P52 e P90, geralmente datados por volta de 150 DC. Inscrições e estruturas claramente ligados ao movimento surgem a partir do início do século III, como a Igreja de Dura Europos, na Síria. 

Há porém uma outra candidata ao posto de primeira igreja e mais antiga estrutura associada ao cristianismo. Localizada em Cafarnaum, na mesma Galileia em que Jesus atuou a maior parte de seu ministério, há uma casa que pode ter sido usada desde o primeiro século como santuário e pertencido ao próprio Apóstolo Pedro.

Casa de Pedro: No ano 383, uma peregrina chamada Egéria, escreveu um detalhado relato de suas viagens aos lugares sagrados do oriente. Proveniente, provavelmente, do norte da Espanha ou sul da França,  chegou a Constantinopla em 381, e de lá foi para a Palestina, visitando Jerusalém, Jericó, Nazaré, e Cafarnaum. Se dirigiu ao Monte Sinai, Alexandria, Tebas e o Mar Vermelho, no Egito. Conheceu também Antioquia na Síria, "esticando" para Edessa e o Rio Eufrates. Junto com Descrições da Grécia, de Pausanias, a "Peregrinação de Egéria" é um dos mais interessantes exemplos de "roteiro de viagem" do mundo antigo, e mais ainda por ter sido um dos raros casos na antiguidade de literatura escrita por uma mulher.  De Cafarnaum, Egeria escreveu:

"Em Cafarnaum a casa do Príncipe dos Apóstolos foi transformada em uma Igreja, mas suas paredes originais ainda permanecem. Foi lá que o Senhor curou o paralítico"  
No século V, uma Basílica foi construída no lugar atribuído a "Casa de Pedro". No entanto, além do relato de Egeria, 350 anos depois do tempo de Jesus e Pedro, e a Basílica construída 400 anos mais tarde, existe evidência da associação da estrutura com o famoso apóstolo?


A associação de artefatos e estruturas ao ministério de Jesus e seus apóstolos é uma constante desde os primeiros séculos do cristianismo, frequentemente sob bases inexistentes ou extremamente frágeis. No entanto, como observam os Professores John Dominic Crossan, e Jonathan Reed, da Universidade La Verne, a casa é uma candidata promissora:


Presume-se que tenha pertencido à família de Pedro e que seria o lugar onde sua sogra fora curada de severa febre, segundo Marcos 1:29-31. Trata-se, na verdade, de uma das poucas localizações plausíveis na tradição do Novo Testamento [1]

Professor  James Charlesworth, do Seminário Teológico de Princeton, descreve a estrutura e a natureza de sua associação ao cristianismo:


A casa do primeiro século recentemente escavada em Cafarnaum por baixo da igreja octogonal de São Pedro pode até ser a casa que Pedro possuiu (Marcos 1:29; Mateus 8:14; ver ilustração 6) e a casa-igreja em que os primeiros seguidores de Jesus reuniam-se para devoção e estudo. Essa possibilidade é tão notável que pode levar as pessoas a serem acusadas de esquecer os rigores da erudição e cair no sensacionalismo. Contudo, não é essa possibilidade, mas sim a descoberta, que é sensacional.[2]
.

Um princípio fundamental da arqueologia é que as várias camadas de ocupação humana, os contextos, vão se sobrepondo a medida que o tempo vai passando, de forma  que é possível inferir a história da ocupação do sítio em função de sua estratigrafia. Utilizando este princípio para santuários antigos, é de sua natureza serem construídos, reformados, reconstruídos ao longo dos anos, sobre o mesmo espaço. Aqui no adcummulus, por exemplo, já falamos sobre isso quando descrevemos o provável sepulcro do apóstolo Felipe, sobre o qual foi construída uma Igreja, conforme proposta do professor Francesco D'Andria. No caso da "Casa de Pedro". A história de ocupação do sítio, conforme os Professores Gerd Thiessen, da Universidade de Heildelberg, e Annete Merz, a Universidade de Utrecht, indica que:

 "(...)  Sob uma esplendorosa igreja octogonal do período bizantino foram encontrados restos de habitações - casas pobres que remontam ao séc. I AC. Anzóis encontrados dão a entender que os habitantes eram pescadores. Uma dessas pobres casas foi evidentemente "restaurada" entre 50 e 100 DC. Suas paredes rústicas foram rebocadas, seu chão coberto com várias camadas de cal. No reboco que caiu há símbolos e inscrições que apontam uma congregação doméstica cristã. Jesus é mencionado várias vezes com títulos honoríficos, e o nome de Pedro possivelmente também ocorre. Tudo indica que a casa de Pedro foi localizada aqui  já -no século I- possivelmente por causa de uma tradição local acurada. Será então que encontramos a casa de Pedro? [3].

A basílica do tipo octogonal, um martírio, é um tipo de estrutura associada a lugares como a paixão de Cristo ou seus mártires, como a Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, o Martírio de Filipe, em Hierapolis, ou a Basílica de São Pedro, em Roma. Estas basílicas foram construídas nos lugares em que se acreditava que Jesus, Felipe e Pedro teriam sido sepultados. A basilica em Cafarnaum é do período bizantino, mas sabemos que o local possuía uma igreja que  recebia peregrinos no século IV. Contudo, o mais relevante é que abaixo destas estruturas existe o que pode ser um santuário do século II, ou final do século I, e uma casa de pescador no início da era cristã.

Crossan e Reed descrevem de forma mais detalhada o sítio:


Arqueólogos franciscanos, trabalhando em volta deste sítio entre 1968 e 1985, descobriram três camadas ou strata: a igreja octogonal do quinto século (classificada por eles como stratum III), uma casa-igreja ou santuário do século quarto (stratum II) e uma casa que teria sido habitada desde o primeiro século  A.C (stratum I). Os oito lados concêntricos da Igreja abrigavam outro octógono interno cujo teto era apoiado por oito colunas. Podia-se entrar neste espaço por diversos lados. Mosaicos decorados com desenhos geométricos simples e flores de lótus nas margens decoravam o piso entre as duas estruturas em forma de pórtico. A sala central já havia sido separada do resto, no quarto século, quando a parede quadrilátera de 80 por 80 pés isolava o local para uso sagrado. O teto apoiado por um arco cobria o recinto que fora foco de atenção possivelmente desde o século II.O piso e as paredes haviam sido reparadas constantemente em contraste com resto do edíficio. As paredes ostentavam centenas de inscrições semelhantes a grafites - em grego, siríaco, hebraico e latim. [4]

Pedro e João correm para o Sepulcro, Eugene Burnand, 1898
Museu D'Orsay, via wikicommons
Melhor descrevendo, a história de ocupação do sítio indica que uma casa comum do século I AC, semelhante as outras casas da vila no período,  sofreu alterações em sua função, a partir do final do século I, sendo adaptada como congregação e santuário cristão, como indicam os grafites , em várias línguas, e símbolos em suas paredes, até ser convertida em uma igreja propriamente dia, no século IV, que continuou sua expansão tornando-se uma monumental basílica no século V. 


Essa evolução é descrita de uma forma  mais detalhada pelo Professor Charlesworth:


Sete estágios das pesquisas levam a conclusão de que a Casa de Pedro possa ter sido descoberta. 
Primeiro, os peregrinos antigos, como Egeria, que visitou Cafarnaum entre 381 e 384 E.C. identificam o lugar como sítio da Casa de Pedro e dos primeiros cultos cristãos. 
Em segundo lugar, a casa contém cruzes gravadas, um barco e mais de uma centena de grafitos gregos, aramaicos, siríacos, latinos e hebreus de cristãos dos séculos segundo e terceiro que veneravam o lugar.
Em terceiro lugar, a casa está situada sob uma igreja octogonal do século V, um tipo de arquitetura especialmente usado para venerar lugares sagrados mais antigos (uma igreja octogonal foi construída por ordem de Constantino sobre o sítio celebrado como sendo o local de nascimento de Jesus, em Belém). E
Em quarto lugar, a casa pode ser retraçada ao primeiro século A.E.C (foi provavelmente construída entre 100 a 60 A.E.C) por causa das condições estratigráficas e da recuperação de antigas candeias e moedas herodianas.
Em quinto lugar, foram achados anzóis debaixo do pavimento do que é identificado como sendo uma casa-igreja; por isso é concebível que ali tenha vivido um pescador.
Em sexto lugar, é evidente um pavimento antigo, notadamente o Pavimento Romano B, mas o mais notável é a descoberta que o chão e as paredes da casa foram argamassados não menos que três vezes, a partir de meados do primeiro século E.C. 
Em sétimo lugar, o grande aposento, depois de argamassado, foi provavelmente convertido numa "casa-igreja" (em Cafarnaum não foram encontradas outras casas com argamassa). Nesse aposento amplo só foram desenterrados grandes jarros para armazenamento e candeias a óleo; não se recuperou qualquer cerâmica de uso doméstico [5]


Nenhuma das evidências apontadas, isoladamente, é prova de que a casa pertencia a Pedro. Mesmo que fosse possível demonstrar que o proprietário da casa no século I se chamava Simão, não seria incontestável que seria o mesmo Simão que procuramos, já que se estima que esse era o nome de 1 em cada 11 homens judeus no século I [6]. Na verdade, é o conjunto de evidências circunstanciais   que importa. O fato de que o lugar era venerado nos séculos IV/V como "Casa de Pedro", é corroborado pelo fato de que nas camadas arqueológicas mais antigas encontramos grafites de conteúdo cristão, em várias línguas (grego, aramaico, siríaco, latim e hebreu), utensílios  cerâmicos no cômodo principal que não são compatíveis com uso doméstico,mas típicos de um lugar de culto e peregrinação, e que essas características  coincidem com  uma série de intervenções estruturais na casa (chão e paredes argamassados pelo menos 3 vezes) a partir de meados do século I, diferenciando-se das demais da vila, sendo que, anteriormente seu uso era compatível com o lar comum de um pescador. Desta forma, a interpretação de que a casa do Apóstolo Pedro foi convertida em santuário e local de peregrinação a partir do final do século I, se torna altamente plausível, mesmo que não se concorde totalmente com a interpretação que os arqueólogos franciscanos deram aos achados. Como observam Crossan e Reed:  

Algumas frases parecem ter saído das mãos de visitantes e de peregrinos cristãos, embora quase sempre ilegíveis  e até mesmo de origem profana. Os grafites são importantes mesmo, mesmo se as transliterações exageradamente tendenciosas e piedosas dos escavadores franciscanos, envolvendo teorias sobre a existência de uma comunidade judeo-cristã e incluindo elaboradas especulações a respeito de simbolismos e acrósticos, não sejam persuasivas. Os grafites nas paredes e as diversas camadas de reboco mostram que se tratava de lugar singular em Cafarnaum e mesmo na Galiléia toda, e demonstra que fazia parte de uma residência particular considerada muito especial por diversas pessoas apenas um século depois das atividades de Jesus na Galiléia. [7].

Os grafites nas paredes apresentam claro caráter cristão.  "A maioria das inscrições dizem coisas como "Senhor Jesus Cristo ajuda teu servo", "Cristo tem piedade", e foram escritas em grego, siríaco, e hebreu, algumas vezes acompanhadas por incisões de pequenas cruzes e até um barco. Os arqueólogos alegam que o nome de Pedro é mencionado em vários grafites, embora muitos estudiosos contestem essa leitura, [8]


James Charlesworth apresenta outra interessante evidência, desta vez associando o relato do evangelho de Marcos com os dados arqueológicos relativos a casa.

(...)  As paredes da casa, levantadas no primeiro século, são demasiado fracas para sustentar um teto de telhas, como em Roma ou Pompéia. O teto teria sido construído com três galhos cobertos por folhas de palmeira e barro cozido. Os especialistas refletiram corretamente sobre o seguinte episódio: [9]

Cita Marcos 2:1-5:

Poucos dias depois, tendo Jesus entrado novamente em Cafarnaum, o povo ouviu falar que ele estava em casa. Então muita gente se reuniu ali, de forma que não havia lugar nem junto à porta; e ele lhes pregava a palavra. Vieram alguns homens, trazendo-lhe um paralítico, carregado por quatro deles. Não podendo levá-lo até Jesus, por causa da multidão, removeram parte da cobertura do lugar onde Jesus estava e, pela abertura no teto, baixaram a maca em que estava deitado o paralítico. Vendo a fé que eles tinham, Jesus disse ao paralítico: “Filho, os seus pecados estão perdoados”. 
A "Casa de Pedro", no estrato relativo ao primeiro século, apresenta paredes que não suportariam o peso de um teto convencional. Desta forma, possuía uma cobertura que poderia ser removida, como no relato evangélico. Tal característica era extremamente comum nas casas da Galiléia, mas não era o padrão em outras partes do Império Romano. No entanto, como Marcos, vivendo em Roma ou na Síria, saberia que as casas em Cafarnaum que não tinham cobertura fixa? Possivelmente, porque tinha acesso a uma memória histórica que remonta a Cafarnaum dos anos 30 DC.

A Cura do Paralítico, James Tissot, 1890
Brooklin Museum, via wikicommons

Nessa linha, o Professor Maurice Casey,(1942-2014), da Universidade de Nottingham, pondera entre uma diferença relevante entre o relato de Marcos e Lucas quanto ao teto da casa, que reforça ainda mais a possibilidade de uma memória histórica:
 "(...) a evidência arqueológica é clara de que as casas de Cafarnaum não foram construídas para suportar um segundo andar. As paredes das casas eram construídas com basalto negro colado com argila, não possuindo suficiente resistência para suportar o peso de um segundo andar. Telhados eram edificados com vigas de madeira intercaladas e cobertas com ramos, caniços e argila. (...) Lucas porém altera o relato. Ele retira a parte de descobrir o telhado, e afirma que ele desceram o paralítico por entre as telhas (Lucas 5:19). Nas cidades helenístics que Lucas conhecia, o teto das casas era coberto com telhas. [10]

Fotos de reconstituições de telhados de casas da Galileia do século I podem ser visualizadas aqui. Lucas utiliza o termo Keramos  que geralmente é a associado a cerâmica, uma cobertura de telhas, incomum entre nas vilas da Palestina do século I, mas o padrão nas cidades helenísticas. Marcos, por sua vez, relata que os quatro amigos do paralítico fizeram uma abertura no telhado, por entre os ramos, caniços e argila. Como pontua o Professor Douglas R Edwards, da Universidade de Puget Sound  "(...) O relato marcano reflete o tipo de telhado encontrado em vilas e cidades do período romano. Este tipo de telhado está presente nas estruturas de Séforis, e nas vilas de Jotapata e Khirbet Cana. As coberturas de telhas, do relato de Lucas, contudo, são uma estória diferente. Na Galileia a evidência para coberturas de telhas no período romano, principalmente em vilas e pequenas cidades é praticamente inexistente até o segundo século depois de Cristo (...)" [11].  Assim, Lucas, que usou o relato de Marcos, "corrigiu" sua fonte nesse ponto, pois em sua experiência uma "perfuração" ou afastamento da cobertura do teto da casa se faria pela retirada das telhas, sem saber que esse tipo de telhado não existia na Galileia do primeiro século, e que o relato de Marcos corresponde precisamente a realidade histórica e arqueológica.

Além disso, no mesmo episódio, Maurice Casey identificou outra evidência de memória histórica, pois a passagem seria um dos textos em que pode ser utilizado o critério de traços do aramaico (como já discutimos aqui no adcummulus), a qual é um dos principais proponentes. Casey descreve a crença comum na época que culpa causada pelo pecado causaria doenças físicas, conforme interpretação do Salmo 32, "(...) Enquanto escondi os meus pecados, o meu corpo definhava de tanto gemer. Pois de dia e de noite a tua mão pesava sobre mim; minha força foi se esgotando como em tempo de seca (....)", e dos rabinos Hyya Bar Abba e Alexandri,  discutindo o Salmo 103:3, "uma pessoa doente não se levanta de sua enfermidade até que todos os seus seus pecados sejam perdoados".[12]

Casey faz uma comparação entre esse "modelo explanatório" de enfermidades no tempo de Jesus com casos relatados na literatura médica de "transtornos de conversão"  associados a paralisia histérica; como a de uma mulher que ficou paralisada por dois anos após testemunhar um crime violento, e que se sentiu curada após ser convencida de que não tinha nenhuma culpa do ocorrido, e de um homem que era despertado de seu estado de paralisia ao ouvir "levante". Casey observa no verso 9 a pergunta de Jesus "O que é mais fácil dizer ao paralítico: “Os seus pecados estão perdoados” ou “Levante-se, pegue a sua cama e ande”?" que o termo grego para o comparativo mais fácil (eukopoteron), não tem correspondente em aramaico. O termo aramaico qalltl equivale a, literalmente, a "mais leve" (em peso). Em sentido figurativo, porém, era utilizado para mandamentos e julgamentos legais no sentido de menos importante, insignificante, ou leniente. Segundo Casey, diante de escribas e fariseus, Jesus teria utilizado o sentido figurativo de qalltl para questionar qual das ações propostas - declarar a liberação do pecado ou ordenar que o paralítico se levantasse - era de menor importância. Assim, propõe Casey, o atual texto de Marcos traduziu para o grego um relato original em aramaico de que ao retirar o peso da culpa e do pecado sobre o paralítico, ele se torna "leve", e capaz de superar sua enfermidade.[12].



Os estudos que indicam evidências arqueológicas e textuais em favor da "Casa de Pedro", porém, devem ser avaliadas em conjunto com aqueles que chegam a conclusão opostas. A professora Joan Taylor, da Universidade de Londres, apresentou uma consistente crítica na cronologia dos estratos da casa antes do IV século, contestando em primeiro lugar, a interpretação de que a casa foi utilizada como igreja antes do IV século, uma vez que os grafites, em sua grande maioria em grego, e objetos encontrados sugeririam um uso como local de peregrinação e"museu". Além disso, Taylor revisa em quase 150 anos as datas em que foram efetivadas, as reformas da casa, como a colocação do reboco e piso calcário, do final do primeiro e início do segundo século, para o início do terceiro e meados do querto século DC. Ela também associa o início, ou pelo menos a consolidação da associação da casa ao Apóstolo Pedro com a atividade de José de Tiberias, um estudioso judeu convertido ao cristianismo, que teria sido membro do Sinédrio, e que recebeu do Imperador Constantino a incumbência de supervisionar e construir igrejas na Galiléia [13].

Professor Anders Runesson, da Universidade de Oslo, contudo, considera que se de um lado "Taylor enfatizou corretamente a falta de provas conclusivas de uma comunidade judaico cristã venerando a casa e a domus-eclesia anteriores a igreja ortogonal", por outro lado "quanto todas as evidências são consideradas, inclusive circunstanciais e literárias, a balança de evidências favorece a reconstrução  feita pelos escavadores do sítio"[14]. Runesson, pontua ainda que, em parte, a crítica de Taylor a interpretação tradicional do sítio já havia sido trazida nos anos de 1970/1980 pelo Professor James Strange, da Universidade do Sul da Florida, que, contudo, considerou também o efeito cumulativo dos vários indícios arqueológicos e literários afirmando que "(...) prova conclusiva ainda não foi encontrada, e possivelmente nunca será, mas todos os indícios apontam como provavel que  a Casa de São Pedro, onde Jesus se hospedou, perto da famosa sinagoga de Cafarnaum, seja uma reliquia autêntica", e esta é "(...) provavelmente a casa de São Pedro onde Jesus ficou quando esteve em Cafarnaum (...)". [14].

Professor Cilliers  Breytenbach, da Universidade Humboldt de Berlim, argumenta, por sua vez, que mesmo que a conclusão de Joan Taylor seja aceita, o relato de Egeria indica que "(...) as paredes da casa do príncipe dos apóstolos eram, em seus dias, como sempre foram (...)", e, principalmente, a casa de Pedro e André é o centro espacial do relato de Marcos na primeira parte de seu evangelho. A casa de Pedro é mencionada em Mc 1:29-35, 2:1-12; 3:20-35, 9:33-34 e, talvez, em 7:17. Desta forma, observa Breytenbach, "(...) cura e especialmente ensino dos discipulos? Muito provavelmente porque a casa de Pedro e André já se tornara um centro de reunião e ensino desde antes do evangelho ser escrito"(...)" [15].

Desta forma, concluimos que a correção de Joan Taylor a interpretação de Corbo e Loffreda é correta no sentido de que não há prova definitiva de que a estrutura em Cafarnaum seja a casa de Pedro. Contudo, mesmo que não se possa afastar a dúvida na identificação, o balanço das evidências arqueológicas e literárias, quando tomadas em conjunto, indicam que a casa é a mesma descrita no evangelho de Marcos. 

Referências Bibliográficas:

[1]  John Dominic Crossan e Jonathan L Reed (2001), Em Busca de Jesus, Debaixo das Pedras, atrás dos textos, Edições Paulinas, 2007, fl. 130
[2] James Charlesworth (1988), Jesus Dentro do Judaísmo, Editora Imago, 3ª edição, 1992, fls. 118-119.
[3] Gerd Theissen e Annete Merz (1996), Jesus Histórico, Um Manual, Edições Loyola, fls 188-189.
[4] John Dominic Crossan e Jonathan L Reed (2001), Em Busca de Jesus, Debaixo das Pedras, atrás dos textos, Edições Paulinas, 2007, fl. 130-131
[5] James Charlesworth (1988), Jesus Dentro do Judaísmo, Editora Imago, 3ª edição, 1992, fls. 118-119
[6] Richard Bauckham (2007), Jesus and Eyewitness, fls 70-71
[7] John D Crossan e Jonathan L Reed (2003) Em Busca de Jesus - Debaixo das Pedras, atrás dos textos, fl. 130-131.
[8] Bible History Daily (2018), The House of Peter: The Home of Jesus in Capernaum? 22.04.2018,https://www.biblicalarchaeology.org/daily/biblical-sites-places/biblical-archaeology-sites/the-house-of-peter-the-home-of-jesus-in-capernaum/,
[9] James Charlesworth (1988), Jesus Dentro do Judaísmo, 1988, Editora Imago, 3ª edição, 1992, fl. 125)
[10] Maurice Casey (2010) Jesus of Nazareth: An Independent Historian's Account of His Life and Teaching, fl 126.
[11] Douglas R. Edwards (2009) Walking the Roman Landscape in Lower Galilee: Sepphoris, Jotapata e Khirbet Cana, In Zuleika Rodgers, Margaret Daly Denton, Anne Fitzpatrick McKinley (ed) A Wandering Galilean: Essays in Honour of Seán Freyne, fl 225-226.
[12] Maurice Casey (2010) Jesus of Nazareth: An Independent Historian's Account of His Life and Teaching, fls. 259-260
[13] Joan E Taylor (1990) Capernaum and its 'Jewish-Christians': A Re-examination of the Franciscan Excavations,Bulletin of the Anglo-Israel Archaeological Society, Volume 9, fls 7-28 
[14] Anders Runesson (2007), Architecture, Conflict, and Identity Formation, In Jurgen Zangenberg, Harold W Attridge e Dale Martin, Religion, Ethnicity, and Identity in Ancient Galilee: A Region in Transition, fl.242
[15] Cilliers Breytenbach (1997), Mark in Galilee: Text world and History World In Eric M Meyers: Galilee Through the Centuries: Confluence of Cultures, fl, 82-84
Pois de dia e de noite a tua mão pesava sobre mim; minha força foi se esgotando como em tempo de seca

Salmos 32:3,4
Enquanto escondi os meus pecados, o meu corpo definhava de tanto gemer.
Pois de dia e de noite a tua mão pesava sobre mim; minha força foi se esgotando como em tempo de seca

Salmos 32:3,4

Enquanto escondi os meus pecados, o meu corpo definhava de tanto gemer.
Pois de dia e de noite a tua mão pesava sobre mim; minha força foi se esgotando como em tempo de seca

Salmos 32:3,4Enquanto escondi os meus pecados, o meu corpo definhava de tanto gemer. Pois de dia e de noite a tua mão pesava sobre mim; minha força foi se esgotando como em tempo de seca
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