
Há uma passagem particularmente reveladora na documentação produzida no contexto da conquista persa da Babilônia em 539 a.C. O chamado Cilindro de Ciro, inscrição elaborada segundo a tradição política e religiosa babilônica, apresenta a ascensão de Ciro como resultado da escolha de Marduk, principal divindade da Babilônia. É importante corrigir, desde o início, uma identificação que às vezes aparece em formulações populares do problema: Marduk não é uma divindade zoroastriana, mas a principal divindade do panteão babilônico. O texto não pertence, portanto, à religião persa de Ciro, mas ao universo religioso mesopotâmico e procura interpretar a conquista persa a partir da perspectiva da própria Babilônia. A passagem é extraordinária porque descreve a escolha do soberano por meio de uma imagem corporal que encontraremos, quase com as mesmas palavras, no Segundo-Isaías:
“Marduk examinou e inspecionou todos os países, procurando um governante justo segundo o seu coração. Ele tomou Ciro, rei de Anshan, pela mão, chamou-o pelo nome e pronunciou seu nome para a realeza sobre toda a terra. Ele fez a terra de Gutium e todos os medos prostrar-se aos seus pés. E ele apascentou com justiça e retidão todos os povos sobre os quais havia obtido a vitória. Marduk, o grande senhor, contemplou com alegria suas boas ações e seu coração reto.” (OPPENHEIM, 1955, p. 315-316, tradução nossa).
A estrutura do relato é suficientemente precisa para que sua importância não possa ser reduzida a uma simples coincidência. Marduk procura, escolhe, toma Ciro pela mão, pronuncia seu nome e lhe concede a soberania. A conquista militar aparece, portanto, como consequência de uma eleição divina anterior. Ciro não é apresentado como alguém que simplesmente construiu seu império mediante sua capacidade militar; sua vitória é incorporada à ordem cósmica babilônica. A divindade encontra o soberano adequado, toma-o pela mão e o transforma em instrumento de sua própria vontade. A mão de Marduk funciona, assim, como imagem da condução divina da história.
É justamente nesse ponto que o texto do Segundo-Isaías adquire uma dimensão extraordinária. O profeta conhece o mesmo acontecimento histórico, conhece Ciro, conhece a queda da Babilônia e conhece a emergência do Império Persa. Entretanto, quando interpreta esses acontecimentos, utiliza uma linguagem que parece responder diretamente à linguagem política babilônica. Em Isaías 45,1-3, Iahweh declara:
“Assim diz Iahweh a seu ungido, a Ciro, a quem tomei pela destra, para subjugar diante dele as nações e desarmar reis, para abrir diante dele as portas, a fim de que nenhuma porta lhe fique fechada. Eu mesmo irei à tua frente e aplainarei os lugares montanhosos; arrebentarei as portas de bronze, despedaçarei os ferrolhos de ferro. Dar-te-ei os tesouros ocultos e as riquezas escondidas, para que saibas que eu sou Iahweh, aquele que te chama pelo teu nome, o Deus de Israel.” (Is 45,1-3).
A correspondência é impressionante. Marduk toma Ciro pela mão; Iahweh toma Ciro pela destra. Marduk pronuncia o nome de Ciro; Iahweh afirma que o chama pelo nome. Marduk concede a Ciro vitória sobre as nações; Iahweh declara que o fará subjugar os reis. Marduk conduz Ciro à Babilônia; Iahweh afirma que irá à sua frente. Não estamos, portanto, diante de duas descrições inteiramente independentes da ascensão persa, mas diante de duas interpretações religiosas do mesmo acontecimento histórico. A questão decisiva passa a ser saber por qual divindade a história de Ciro deve ser interpretada.
É justamente aqui que aparece a diferença fundamental. No Cilindro de Ciro, Marduk é o sujeito da história. É ele quem procura o governante, escolhe Ciro, toma-o pela mão e lhe entrega o domínio. Em Isaías, entretanto, Iahweh ocupa exatamente essa mesma posição. O profeta apropria-se de uma linguagem política e religiosa reconhecível e a reorganiza em torno do Deus de Israel. O problema não é, portanto, negar que Ciro tenha poder. O problema é determinar de onde procede esse poder e quem possui autoridade para explicar seu significado. Como observa Kuhrt (2007), o Cilindro deve ser compreendido dentro da tradição mesopotâmica de legitimação da realeza; Ciro é apresentado segundo uma linguagem que o integra à ordem religiosa babilônica. O Segundo-Isaías realiza uma operação semelhante, mas com uma finalidade teológica radicalmente diferente.
Essa diferença torna-se ainda mais evidente quando o profeta afirma que Ciro não conhece Iahweh:
“Por causa de meu servo Jacó e de Israel, meu eleito, eu te chamei pelo teu nome; dei-te um título, embora não me conhecesses. Eu sou Iahweh, e não há outro; fora de mim não há Deus. Eu te cingi, embora não me conhecesses, para que se saiba, desde o nascente do sol até o poente, que não há ninguém além de mim. Eu sou Iahweh, e não há outro.” (Is 45,4-6).
A formulação é teologicamente desconcertante. Ciro não precisa conhecer Iahweh para ser escolhido por ele. A relação é unilateral: Ciro não conhece Deus, mas Deus conhece Ciro. O soberano persa permanece estrangeiro, não pertence à comunidade de Israel e não recebe sua missão em razão de uma conversão religiosa. Sua eleição ocorre precisamente para demonstrar que a soberania de Iahweh não está limitada àqueles que o conhecem. A utilização do termo “ungido” (māšîaḥ) para designar um rei persa torna essa afirmação ainda mais radical. Como demonstra Fried (2002), a passagem atribui a um soberano estrangeiro uma categoria carregada de significado na tradição israelita, deslocando a expectativa tradicional de um agente exclusivamente israelita da ação divina.
O problema ganha sua verdadeira dimensão quando consideramos o contexto histórico. A Babilônia havia destruído Jerusalém e o templo; a elite de Judá encontrava-se no exílio; o império babilônico parecia representar a potência que dominava a história. A ascensão de Ciro poderia ser interpretada simplesmente como uma nova demonstração da superioridade dos deuses babilônicos. O Cilindro oferece exatamente essa possibilidade: Marduk abandona o governante inadequado, encontra Ciro, conduz sua vitória e restaura a ordem de Babilônia. O Segundo-Isaías produz uma inversão dessa interpretação. A queda da Babilônia não é apresentada como demonstração da supremacia de Marduk, mas como resultado da ação de Iahweh, que utiliza Ciro para realizar um propósito relacionado à restauração de Israel. A mesma conquista recebe, portanto, dois significados religiosos incompatíveis.
Podemos compreender essa diferença mediante uma estrutura bastante simples. No Cilindro, a sequência é Marduk → escolha de Ciro → conquista → restauração da Babilônia. Em Isaías, a sequência é Iahweh → escolha de Ciro → queda da Babilônia → libertação de Israel. O acontecimento histórico é semelhante; o sistema de significação é completamente diferente. Ciro é o mesmo personagem, o Império Persa é o mesmo agente histórico e a Babilônia é a mesma cidade conquistada. O que muda é o sujeito teológico que reivindica a autoria da história.
Essa característica é fundamental para compreender o monoteísmo do Segundo-Isaías. Quando o profeta declara “Eu sou Iahweh, e não há outro”, não está formulando apenas uma proposição abstrata acerca da existência de Deus. Está produzindo uma afirmação sobre quem governa efetivamente a história. Os impérios podem possuir exércitos, reis e territórios; podem destruir cidades e transportar populações; podem parecer determinar o destino dos povos. Entretanto, segundo o profeta, existe uma soberania anterior à soberania imperial. Ciro pode conquistar Babilônia, mas a interpretação dessa conquista pertence a Iahweh. O conquistador é transformado em instrumento.
É justamente nesse sentido que a imagem da mão se torna tão poderosa. A mão de Marduk e a mão de Iahweh representam, em ambos os textos, uma relação de condução. Mas a apropriação da imagem pelo Segundo-Isaías produz uma inversão teológica: aquele que parece conduzir a história é apresentado como alguém que está sendo conduzido. Ciro domina as nações, mas é conduzido por Iahweh; Ciro conquista Babilônia, mas não controla o significado de sua própria conquista; Ciro é o soberano do maior império de seu tempo, mas o profeta afirma que existe uma soberania acima da sua.
Chegamos, assim, à questão que inicialmente parece apenas retórica: ao final das contas, quem tomou Ciro pelas mãos? Historicamente, não podemos transformar essa pergunta em uma afirmação sobre qual divindade efetivamente interveio na história. Podemos, porém, afirmar algo muito mais interessante: duas tradições religiosas diferentes reivindicaram para suas respectivas divindades a autoridade de interpretar a ascensão de Ciro. O texto babilônico afirma que foi Marduk quem o tomou pela mão; o Segundo-Isaías afirma que foi Iahweh. A disputa não é sobre Ciro, mas sobre quem possui o direito de explicar Ciro.
E talvez seja justamente aí que esteja a força extraordinária dessa pequena coincidência textual. O Cilindro diz, em essência: Marduk tomou Ciro pela mão e, por meio dele, restaurou Babilônia. Isaías responde: Iahweh tomou Ciro pela mão e, por meio dele, libertará Israel. A mesma mão, o mesmo rei e acontecimentos históricos relacionados tornam-se instrumentos de duas cosmologias políticas distintas.
O problema, portanto, não é simplesmente perguntar quem tomou Ciro pela mão, mas perguntar quem tinha o direito de dizer que havia tomado Ciro pela mão. Para a Babilônia, era Marduk. Para o profeta de Israel, era Iahweh. E nessa disputa aparentemente pequena encontra-se uma das mais sofisticadas operações teológicas do Segundo-Isaías: retirar do império vencedor o monopólio sobre a interpretação de sua própria vitória. Ciro pode conquistar o mundo; mas, para o profeta, ele próprio é alguém que está sendo conduzido. O rei que parece dominar a história é, na realidade teológica do texto, apenas aquele cuja mão foi tomada por outro.
Referências
FRIED, Lisbeth S. Cyrus the Messiah? The historical background to Isaiah 45:1. Harvard Theological Review, Cambridge, v. 95, n. 4, p. 373-393, 2002.
KUHRT, Amélie. The Persian Empire: A Corpus of Sources from the Achaemenid Period. London: Routledge, 2007.
OPPENHEIM, A. Leo. The Cyrus Cylinder. In: PRITCHARD, James B. (ed.). Ancient Near Eastern Texts Relating to the Old Testament. 2. ed. Princeton: Princeton University Press, 1955. p. 315-316.
Fontes primárias: Cilindro de Ciro; Isaías 44–45.
4 comentários:
Olá, quem pegou Ciro pela mão, YaHWeH=YHWH, ou MARDUK ???
Pelas pesquisas que já fiz e NÃO paro ou seja, continuo indo fundo, é que este, é o mesmo YAH, EA, simplesmente o mesmo ENKI, o pai de MARDUK, este, é pai de NABU, este, é neto de YAH/ENKI, tanto é que, NABUcodonosor é um servo de "deus" correto ??? NABU é uma homenagem, então quem era o "deus" de NABUcodonosor, era simplesmente MARDUK, inclusive NABUcodonosor dizia ser opreferido do "deus" NABU, o mesmo NEBO da bíblia, nome do monte em homenagem onde supostamente morreu Moisés.
O dia que os seguidores de YAH descobrirem isso, vai ser uma decepção, pois, o CdLB=biblia, fala de DOIS, ENLIL/YeHoWaH/JEOVA, e de ENKI/YaHWeH, os DOIS corregam o YHWH confundindo os DESAVISADOS que tem o PAPEL como VERDADE.
Abraço.
Essa pessoa equivocada fala que só há um DEUS verdadeiro e não percebe. Justamente por que só vale as consoantes é que se trata da mesma pessoa ( o grande EU SOU, DEUS de Israel) e que Marduque tem sua lenda humana e nada tem a ver com YHWH.
Essa pessoa equivocada fala que só há um DEUS verdadeiro e não percebe. Justamente por que só vale as consoantes é que se trata da mesma pessoa ( o grande EU SOU, DEUS de Israel) e que Marduque tem sua lenda humana e nada tem a ver com YHWH.
Olá DeCristo, TU poderia pesquisar mais pois, "YHW" já estava classificado como o 'nome' de uma cidade do POVO SHASU igualmente seu 'deus' tinham essas letras "YHW'. Mas, DeCristo, pesquise pois, esse POVO SHASU se mistura a um POVO HABIRU muito mais antigo, e esse POVO HABIRU já se intitulavam como POVO ESCOLHIDO/POVO SAGRADO desde a cidade de URUSILIM que já tinha o título de CIDADE SANTA/CIDADE sagrada, sabe onde ??? Lá na SUMÉRIA !!!
E claro, nessa época dos HABRIU's/SHASU's, nem se imaginava em existir CdLB(bíblia)/PAP+EL !!!
Abraço.
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