Racionalidade situada, interdependência estratégica, recursos, restrições e alcance da ação
Introdução
A Tetralogia da Guerra Santa pode ser submetida a uma segunda leitura transversal a partir da ação dos agentes que habitam os mundos históricos e narrativos reconstruídos por seus quatro livros. Essa leitura não substitui a arquitetura central da obra nem acrescenta uma nova teoria da soberania ou da eficácia. Seu propósito é introduzir uma perspectiva capaz de acompanhar, em escala concreta, como indivíduos, grupos e instituições atuam em situações caracterizadas por assimetrias de recursos, informação incompleta, expectativas concorrentes, normas compartilhadas, restrições institucionais e respostas recíprocas. A questão deixa de ser apenas quais forças conseguem produzir efeitos sobre corpos, comunidades, instituições ou significados e passa a incluir a maneira pela qual os agentes percebem as situações em que se encontram, reconhecem possibilidades de ação, mobilizam recursos, administram informação, avaliam riscos, respondem a outros agentes e reorganizam suas expectativas diante de acontecimentos que podem ultrapassar aquilo que inicialmente pretendiam realizar. O alcance da ação designa, aqui, a extensão espacial, social, temporal ou relacional de seus efeitos, sem pressupor que essa extensão permaneça inteiramente sob domínio do agente. Essa perspectiva permite acompanhar algo que atravessa os quatro livros sem constituir uma nova arquitetura para eles: os acontecimentos não são produzidos por forças abstratas que simplesmente atravessam personagens passivos, mas por agentes situados em campos nos quais toda ação encontra outras ações, recursos desigualmente distribuídos, oportunidades que podem desaparecer e respostas cuja direção não pertence integralmente a nenhum agente. A categoria de racionalidade empregada aqui dialoga com a tradição da escolha racional, mas não coincide com sua formulação forte. Em Weber, a ação social permanece ligada ao sentido que o agente lhe atribui e à orientação de sua conduta em relação aos outros, enquanto a racionalidade constitui apenas uma das formas possíveis de orientação da ação (WEBER, 1978). Em Elster, a escolha racional ocupa lugar central na explicação social, mas sua análise não se reduz à correspondência retrospectiva entre um resultado e algum objetivo atribuído ao agente. A reconstrução da ação envolve desejos, oportunidades, crenças e mecanismos que ligam estados mentais e condutas; envolve também situações nas quais a conduta de um agente depende da conduta de outros (ELSTER, 1989; ELSTER, 2015). A utilidade dessas contribuições para a Tetralogia não está em converter os episódios dos Evangelhos em modelos formais de maximização, mas em fornecer instrumentos para uma exigência metodológica: para compreender uma ação, é necessário reconstruir, tanto quanto as fontes permitam, as razões, informações, oportunidades e restrições que tornavam certa conduta possível ou inteligível, sem confundir o resultado conhecido pelo pesquisador com o conhecimento disponível ao agente.
Essa última ressalva é particularmente importante porque o objeto desta análise não é um universo social imediatamente acessível ao pesquisador contemporâneo. Os agentes dos Evangelhos pertencem ao judaísmo do Segundo Templo e às configurações políticas, religiosas, econômicas e culturais do século I, um mundo do qual possuímos apenas parcelas documentais, frequentemente fragmentárias, disputadas e transmitidas por textos que possuem seus próprios interesses literários, teológicos e comunitários. Mesmo uma investigação prolongada das fontes não elimina essa distância. Podemos reconstruir contextos, comparar tradições, identificar padrões, confrontar testemunhos, investigar instituições, linguagens e práticas e formular hipóteses cada vez mais controladas; não podemos, porém, presumir que conhecemos integralmente o universo de categorias dentro do qual aqueles agentes percebiam a realidade. A dificuldade não é apenas quantitativa, como se nos faltasse uma quantidade suficiente de informações para preencher lacunas. Ela é também qualitativa: determinadas categorias pelas quais aqueles sujeitos organizavam experiência, autoridade, corpo, pureza, pecado, demônio, aliança, eleição, restauração, Reino, messianismo, Templo, memória ou presença divina não possuem equivalentes transparentes nas categorias analíticas contemporâneas. Por isso, a reconstrução da lógica dos atores precisa manter uma diferença entre compreender a inteligibilidade de uma ação e pretender reproduzir integralmente o universo mental que a tornou possível. A primeira tarefa é historicamente necessária; a segunda frequentemente ultrapassa aquilo que as fontes autorizam. As categorias contemporâneas utilizadas nesta análise também não possuem todas o mesmo grau de proximidade com o universo histórico reconstruído. Algumas permitem descrever relações observáveis com relativa segurança; outras exigem reconstruções mais extensas e, portanto, maior carga de demonstração. Quanto maior a distância entre a categoria analítica e o universo categorial dos agentes, maior deve ser a exigência de evidência para sua aplicação.
A crítica de Fábio Wanderley Reis à concepção tautológica de racionalidade introduz uma cautela complementar. A racionalidade perde poder explicativo quando toda ação orientada para algum fim é simplesmente declarada racional pelo fato de possuir uma finalidade. A informação de que o agente dispõe, sua posição no contexto e as condições efetivas nas quais avalia alternativas precisam entrar na análise (REIS, 2000; REIS, 2002). Isso significa que uma ação pode ser inteligível sem ser ótima, uma escolha pode ser plausível sem ser bem-sucedida e uma decisão pode ser orientada por razões reconhecíveis sem que essas razões correspondam à informação que o pesquisador possui retrospectivamente. A racionalidade, nessa reconstrução, pode ser tratada não como uma propriedade abstrata do agente, mas como uma relação entre ação, informação, posição, finalidades reconhecíveis e oportunidades. Essa formulação, contudo, deve ser utilizada com cautela quando aplicada ao mundo do Segundo Templo: não se trata de pressupor que categorias desenvolvidas pela teoria social contemporânea correspondam diretamente às categorias nativas dos agentes. Elas funcionam como instrumentos analíticos do pesquisador e precisam demonstrar sua capacidade explicativa caso a caso. Uma ação pode ser descrita como estratégica porque sua estrutura relacional é reconstruível sem que se afirme que o agente concebia a situação nos mesmos termos utilizados pelo historiador.
Essa distinção é especialmente importante para a análise dos Evangelhos, nos quais o leitor conhece antecipadamente acontecimentos que os próprios agentes não conheciam: a prisão de Jesus, sua execução, a destruição de Jerusalém, a continuidade posterior das comunidades e a produção dos próprios textos. A análise histórica não pode devolver esse conhecimento retrospectivo aos personagens. Trata-se, portanto, de uma racionalidade situada e limitada, cuja reconstrução é necessariamente inferencial. O agente não escolhe entre todas as possibilidades imagináveis, mas entre aquelas que sua posição histórica torna reconhecíveis, praticáveis ou concebíveis — e nós, por nossa vez, só podemos reconstruir esse campo de possibilidades de maneira aproximativa, segundo o que as fontes permitem demonstrar. Recursos materiais, autoridade, reputação, pertencimento, conhecimento, redes de relação, mobilidade, tempo e proteção institucional ampliam ou restringem esse campo. Também o restringem categorias de percepção que não podemos simplesmente pressupor equivalentes às nossas. A racionalidade histórica exige, portanto, reconstruir tanto quanto possível o espaço de possibilidades do agente sem transformar essa reconstrução em acesso privilegiado à sua consciência. Não se trata de atribuir aos agentes a racionalidade retrospectiva do historiador, nem de pressupor uma capacidade de cálculo que as fontes não autorizam. A pergunta é mais precisa: dadas a posição, as informações, as restrições, as expectativas e o horizonte de inteligibilidade que podemos reconstruir, por que certa conduta podia aparecer como uma resposta inteligível? A formulação “podia aparecer” é deliberada: ela preserva o caráter inferencial da análise e impede que uma hipótese sobre a lógica da ação seja apresentada como descrição transparente da consciência do agente. A pergunta torna-se particularmente produtiva quando aplicada a episódios como a retirada de Jesus para lugares isolados diante da expansão de sua fama e da pressão das multidões, em GUERRA, capítulo 2, à fuga e posterior negociação de Josefo no horizonte reconstruído por MEMÓRIA, capítulos 1–2, às controvérsias públicas de Jesus com seus adversários em REINO, capítulos 7–8, ou às retiradas e deslocamentos deliberados que o Evangelho de João apresenta em LOGOS, capítulos 6–9. Em todos esses casos, a análise precisa começar pela situação concreta antes de atribuir à ação qualquer propriedade estratégica (REIS, 2000).
A distinção entre racionalidade e estratégia
Uma ação pode ser racionalmente inteligível sem ser estratégica. Um agente que age por hábito, por tradição ou por afeto pode ter uma conduta perfeitamente compreensível dentro de sua posição, sem que essa conduta incorpore a consideração da resposta de outros agentes. Do mesmo modo, uma ação pode ser estratégica sem ser plenamente racional no sentido de ótima: um agente pode calcular mal, possuir informações incompletas ou subestimar a resposta do adversário. A estratégia não garante o sucesso; a racionalidade não garante a eficácia. Essa distinção tem consequências metodológicas importantes. Ao analisar um episódio, é necessário perguntar separadamente se a ação é inteligível dentro da posição do agente, se incorpora a possibilidade de resposta de outros agentes, se produz os efeitos pretendidos e quais consequências se projetam além do que foi buscado. As quatro perguntas são independentes. Um agente pode agir racionalmente sem estratégia; pode agir estrategicamente sem eficácia; pode ser eficaz sem conseguir antecipar os efeitos posteriores de sua ação. A estratégia surge quando a conduta de um agente incorpora, de forma demonstrável ou historicamente plausível, a consideração da ação de outros agentes capazes de responder, resistir, cooperar, negociar, reinterpretar ou modificar sua própria conduta. Essa definição, entretanto, não implica que o agente tenha formulado conscientemente a situação nos termos de uma teoria estratégica. Trata-se de uma descrição analítica de uma estrutura relacional que o historiador reconstrói a partir das fontes. A teoria dos jogos oferece uma formalização rigorosa dessa interdependência, mas a Tetralogia não precisa transformar seus personagens em jogadores dotados de preferências quantificáveis, conjuntos previamente especificados de estratégias e informação formalizada. O que interessa é a estrutura relacional subjacente: a ação ocorre em uma situação na qual a resposta de outros agentes entra, de modo demonstrável ou plausível, nas condições da conduta. Elster é particularmente útil nesse ponto porque trata explicitamente da interação estratégica e das situações em que a escolha de um agente depende da conduta de outros (ELSTER, 2015). Essa definição permite distinguir, por exemplo, uma cura narrada simplesmente como acontecimento eficaz de uma controvérsia na qual uma resposta é formulada diante de uma acusação pública; permite distinguir a execução de Jesus como exercício de poder de uma sequência na qual Judas, autoridades, Pilatos e soldados ocupam posições distintas e suas ações se articulam; permite ainda distinguir a destruição de Jerusalém como acontecimento militar de sua posterior utilização como objeto de memória, interpretação e reorganização comunitária.
A consequência dessa distinção é que estratégia não é sinônimo de plano abrangente. Um agente pode adaptar sua conduta depois de uma resposta inesperada sem ter previsto o conjunto da situação; pode negociar uma posição, ocultar informação, escolher um momento, testar uma reação, preservar um recurso, abandonar uma alternativa ou reposicionar-se diante de uma mudança do campo. São formas de ação estratégica mesmo quando não existe um plano mestre. A racionalidade adquire dimensão estratégica, em cenário de conflito, quando a orientação da ação incorpora a presença de outros agentes capazes de responder, dentro dos limites da informação disponível. Em GUERRA, capítulo 2, o retiro para lugares desertos depois da expansão da fama e da pressão das multidões pode ser lido como preservação de margem de ação, desde que se mantenha a distinção entre aquilo que o texto afirma e aquilo que o historiador infere; em LOGOS, capítulo 6, a retirada de Jesus para o monte depois de perceber que a multidão pretendia fazê-lo rei constitui caso ainda mais explícito, pois a narrativa apresenta diretamente uma iniciativa coletiva e uma resposta que evita a posição que outros procuram impor-lhe. A estratégia pode, portanto, ser reconhecida na adaptação situada, na administração de recursos e na resposta a condutas alheias, sem exigir uma consciência integral do campo ou uma capacidade de antecipar todas as suas consequências. O objetivo não é substituir a incerteza histórica por uma linguagem de cálculo, mas utilizar categorias analíticas contemporâneas apenas na medida em que elas consigam iluminar relações que as fontes tornam efetivamente reconstruíveis. Essa distinção preserva simultaneamente a agência dos personagens e os limites do conhecimento histórico: reconstruir uma estrutura estratégica não equivale a inventar uma psicologia oculta.
Critérios para a reconstrução da ação estratégica
A análise da ação racional e estratégica exige distinguir aquilo que o texto efetivamente apresenta daquilo que o pesquisador reconstrói a partir dele. Uma ação observável não demonstra, por si mesma, que o agente tenha calculado antecipadamente seus efeitos; uma consequência eficaz não demonstra que tenha sido pretendida; e uma decisão inteligível não equivale necessariamente a uma escolha instrumentalmente racional. A categoria estratégica ganha força quando a narrativa permite identificar uma relação de interdependência na qual a ação de um agente altera as condições de ação de outros agentes e, em resposta, esses agentes ajustam sua própria conduta. Quanto mais a interpretação depender de estados mentais não documentados — preferências, expectativas, planos ocultos ou cálculos retrospectivamente atribuídos —, maior deve ser a cautela. A análise, portanto, não perguntará apenas se certa ação parece racional, mas que elementos observáveis permitem reconstruir sua racionalidade, quais respostas de outros agentes entram efetivamente no campo da ação e até onde a evidência permite avançar sem converter uma hipótese interpretativa em fato histórico. A distância entre o universo categorial dos atores e as categorias analíticas do pesquisador constitui aqui uma restrição epistemológica permanente. Não basta perguntar se uma categoria moderna descreve adequadamente o comportamento observado; é preciso perguntar se ela preserva, ou distorce, as condições históricas de inteligibilidade daquele comportamento. A reconstrução pode partir de uma sequência mínima de perguntas: quem age; com quais recursos; sob quais restrições; em relação a quem; com quais informações; diante de quais respostas possíveis; o que a ação efetivamente produz; e quais efeitos permanecem sujeitos a intervenções posteriores do próprio agente ou de outros agentes. Essas perguntas não constituem um formulário mecânico, mas uma disciplina de observação capaz de impedir que a interpretação salte diretamente do acontecimento para a intenção. No primeiro nível, descrevemos a ação observável: X fez certa coisa em certa situação. No segundo, reconstruímos a estrutura relacional: a ação de X ocorreu em um campo no qual Y podia responder, e essa possibilidade fazia parte das condições da ação. No terceiro, reconstruímos uma motivação estratégica específica: X escolheu certa alternativa porque esperava que Y respondesse de determinada maneira. A Tetralogia deve operar predominantemente no segundo nível. O terceiro é possível, mas exige evidência adicional. Quanto mais distante estivermos de uma interação explicitamente estruturada por respostas recíprocas, maior deve ser a cautela na utilização da categoria estratégica. Uma interpretação estratégica também precisa admitir, ao menos em princípio, aquilo que poderia refutá-la. Se qualquer ação puder ser reinterpretada como estratégica independentemente das evidências disponíveis, a categoria deixa de explicar e passa apenas a renomear.
Essa disciplina é particularmente importante porque os textos evangélicos possuem narradores que conhecem acontecimentos que os agentes não conhecem e que organizam episódios retrospectivamente. A coerência narrativa não pode ser automaticamente convertida em intenção histórica. Da mesma maneira, a eficácia de uma ação não autoriza atribuir-lhe um objetivo que o texto não documenta. A convergência do resultado não prova a convergência das intenções. A estratégia não é uma propriedade permanente do personagem; é uma propriedade relacional de determinadas situações de ação. O mesmo agente pode agir estrategicamente em um episódio e não em outro, pode formular uma resposta diante da conduta alheia sem possuir um plano abrangente e pode produzir consequências que ultrapassam radicalmente sua capacidade de previsão. Essa cautela é ainda mais necessária quando lidamos com categorias religiosas e cosmológicas cuja lógica não pode ser reduzida às nossas distinções contemporâneas entre material e simbólico, racional e irracional, real e imaginário. Para os agentes do mundo reconstruído pelos Evangelhos, determinadas entidades, expectativas e relações podiam possuir eficácia histórica precisamente porque integravam o horizonte no qual a realidade era percebida e interpretada. O pesquisador pode analisar essa lógica sem precisar adotá-la como sua própria ontologia e sem reduzi-la a uma variável psicológica. A questão histórica é compreender como determinada categoria funcionava para os agentes e nas relações em que estavam inseridos, na medida em que as fontes permitam reconstruí-lo. Essa distinção é decisiva para uma leitura histórica dos Evangelhos porque a narrativa oferece frequentemente uma sequência coerente de acontecimentos que, para o leitor, parece conduzir a um resultado conhecido desde o início, enquanto os agentes envolvidos experimentam incerteza, riscos e alternativas que permanecem abertas. A análise estratégica deve recuperar essa abertura sem destruir a forma literária do texto. Seu objeto não é descobrir um plano secreto por trás da narrativa, mas reconstruir, quando as fontes permitem, as relações de ação e resposta que tornam inteligível o desenvolvimento dos episódios.
As modalidades da ação
A varredura da Tetralogia permite identificar seis modalidades recorrentes pelas quais a ação se torna analiticamente observável: confronto, informação, posicionamento, relação, temporalidade e continuidade. As quatro primeiras possuem relação mais direta com a estratégia; as duas últimas condicionam a possibilidade de ação ao longo do tempo. O confronto aparece quando agentes possuem objetivos, posições ou pretensões incompatíveis e precisam responder uns aos outros, podendo assumir a forma de violência, controvérsia, disputa normativa, acusação ou competição pela autoridade. A informação diz respeito à aquisição, ocultação, transmissão e interpretação de conhecimentos relevantes para a ação: quem sabe onde alguém está, quem conhece uma ameaça, quem transmite uma notícia ou quem dispõe de acesso privilegiado a determinada informação ocupa uma posição diferente daquela de quem depende de informações produzidas por terceiros. O posicionamento corresponde à ocupação, preservação ou alteração de uma posição dentro do campo de ação: retirar-se, aproximar-se, permanecer oculto, deslocar-se, formar um grupo ou ocupar determinado espaço podem modificar as alternativas disponíveis. A relação diz respeito à dependência recíproca entre agentes: seguidores, adversários, patronos, comunidades, autoridades, testemunhas e interlocutores entram na ação não como elementos decorativos, mas como capacidades potenciais de resposta. Essas modalidades permitem acompanhar a ação sem reduzi-la ao confronto aberto, pois uma mudança de informação ou posição pode ser estrategicamente decisiva mesmo quando não ocorre violência. A temporalidade introduz, então, a dimensão da sequência: uma ação realizada antes ou depois de determinada resposta não produz necessariamente as mesmas consequências, e o momento da exposição, da retirada, da negociação ou da transmissão pode modificar as alternativas disponíveis. A continuidade, por sua vez, diz respeito à preservação de capacidades para ações posteriores: recursos materiais, redes de relação, informação, memória, identidade, confiança e possibilidade de transmissão. Nenhuma dessas modalidades deve ser tomada como categoria nativa dos agentes nem como prova de que eles percebiam conscientemente suas condutas nesses termos. São instrumentos do pesquisador para organizar fenômenos históricos que permanecem parcialmente opacos. Sua validade depende, portanto, da capacidade de iluminar as relações efetivamente reconstruíveis sem substituir o universo histórico por um modelo abstrato. Essas modalidades não constituem uma grade que deva ser aplicada mecanicamente a cada episódio. Funcionam como instrumentos de disciplina analítica. Quando existe resposta de outro agente, podemos perguntar se há interdependência estratégica; quando há informação relevante, podemos perguntar quem a possui e quem depende dela; quando ocorre reposicionamento, podemos investigar o que se alterou; quando uma capacidade é preservada, podemos perguntar quais ações futuras permanecem possíveis. O objetivo não é classificar cada acontecimento em uma categoria, mas tornar visíveis as relações pelas quais uma ação modifica as condições das ações seguintes.
II — MEMÓRIA
Ação depois da derrota
MEMÓRIA desloca o problema estratégico para um campo no qual a ação continua depois que determinados acontecimentos já não podem ser revertidos. A questão não começa, entretanto, com uma comunidade simplesmente colocada diante dos escombros de Jerusalém. O próprio livro insiste que a gramática da restauração presente nas tradições sobre Jesus é anterior à Guerra Judaico-Romana. Cura, exorcismo, alimentação, reintegração, reunião e restauração pertencem a tradições nas quais a ação de Jesus já aparece associada à recomposição de pessoas, relações e condições de vida atingidas pela desintegração. A guerra não precisa, portanto, ser tomada como origem dessas tradições para adquirir importância em sua recepção posterior. O acontecimento de 70 d.C. modifica as condições históricas nas quais tradições anteriores passam a ser lembradas, transmitidas e interpretadas. A questão não é descobrir uma mensagem produzida pela catástrofe, mas compreender como tradições anteriores podem ser relidas por comunidades que conhecem a derrota sem que a realidade dessa derrota seja apagada. MEMÓRIA trabalha precisamente nessa tensão: a destruição ocorreu, o Templo foi destruído, Jerusalém sofreu uma ruptura histórica profunda, mas a destruição não precisa constituir a interpretação definitiva daquilo que aconteceu.
A estrutura do livro torna essa questão ainda mais complexa porque coloca em relação duas catástrofes que não devem ser confundidas. A primeira é a morte de Jesus; a segunda, a destruição de Jerusalém e do Templo. A execução de Jesus é uma derrota corporal e política efetiva. A destruição da cidade e do santuário é igualmente um acontecimento material efetivo. A ressurreição não desfaz a crucificação, assim como a expectativa de restauração não desfaz a ruína de Jerusalém. O que permanece aberto é a posição que esses acontecimentos ocuparão dentro de uma história mais ampla. O livro conserva a dispersão e apresenta a reunião; conserva a morte e proclama a ressurreição; conserva a derrota e apresenta a vindicação. A restauração já começou, mas ainda não terminou. Essa estrutura temporal é decisiva para a análise da ação porque impede que o resultado material de um acontecimento seja confundido com o encerramento de todas as suas consequências. A derrota estabelece novas condições e, ao mesmo tempo, deixa aberto um campo de ações posteriores que se desenvolvem dentro delas.
A estratégia, nesse campo, não consiste em procurar uma reversão impossível do acontecimento passado. Ela envolve aquilo que permanece disponível depois que o acontecimento produziu seus efeitos. Uma comunidade derrotada pode conservar tradições, reorganizar relações, transmitir relatos, reinterpretar experiências, preservar identidades e sustentar expectativas. Um autor pode registrar uma destruição; uma tradição pode reorganizar acontecimentos anteriores à luz de uma experiência histórica posterior; uma comunidade pode transmitir uma memória que não coincide com a interpretação do poder vencedor. Essas ações não possuem a mesma natureza de uma resistência militar ou de uma intervenção sobre um corpo, mas continuam sendo ações porque envolvem agentes, recursos, restrições, públicos e respostas possíveis de outros agentes. A mudança fundamental está nas condições do campo. A destruição de Jerusalém modifica território, instituições, autoridade, relações e possibilidades materiais; simultaneamente, aumenta a importância de capacidades que não dependem da recuperação imediata daquilo que foi perdido. Memória, testemunho, transmissão, interpretação e expectativa adquirem relevância precisamente porque a derrota restringiu outras formas de intervenção.
O problema pode ser formulado, então, como uma transformação do repertório de ação. Antes da catástrofe, determinadas respostas dependem de território, instituições, proteção, recursos materiais e capacidade de intervenção direta. Depois dela, algumas dessas capacidades desaparecem, enquanto outras permanecem ou adquirem novo valor. A escrita pode conservar uma experiência que não pode mais ser reproduzida; a tradição pode manter uma identidade cuja base institucional foi atingida; a transmissão pode transportar para outra geração uma promessa cuja realização não ocorreu; a expectativa pode organizar o presente em função de um futuro ainda aberto. Isso não significa que a dimensão simbólica substitua a materialidade. MEMÓRIA não permite essa redução. A fome narrada por Josefo, a destruição do Templo, a dispersão, a morte e a perda institucional permanecem acontecimentos materiais. A memória opera sobre uma realidade que já aconteceu, não sobre uma realidade imaginária. Sua dimensão estratégica está em trabalhar as condições de continuidade produzidas por essa ruptura.
Flávio Josefo ocupa nesse quadro uma posição importante porque seu relato conserva uma memória narrativa da destruição. MEMÓRIA não precisa transformá-lo em protagonista de uma história individual para reconhecer a importância de sua posição documental. A narrativa de Josefo registra a guerra atingindo corpos, famílias, relações, práticas funerárias, instituições e o próprio espaço sagrado. A destruição do Templo e de Jerusalém não aparece apenas como resultado de uma operação militar; compromete elementos que estruturavam a continuidade de uma sociedade. Para a análise estratégica, interessa observar o que acontece quando uma realidade destruída passa a existir também como objeto de relato. O acontecimento terminou; a possibilidade de narrá-lo, transmiti-lo e interpretá-lo permanece.
Essa posição não autoriza, contudo, tratar a Guerra dos Judeus como relato transparente do passado. O próprio fato de existir uma narrativa significa que acontecimentos foram selecionados, organizados e apresentados a determinados públicos a partir de uma posição histórica posterior. Há, portanto, pelo menos três níveis que precisam permanecer distintos: o acontecimento da guerra, a representação que dele produz Josefo e as possibilidades de recepção dessa representação. A escrita constitui uma forma de ação situada porque mobiliza informações, experiência, posição autoral e condições de circulação. Josefo escreve sob condições políticas específicas, dirige-se a públicos determinados e produz uma narrativa que poderá ser recebida, contestada ou reutilizada por outros agentes. Isso não permite atribuir cálculo consciente a cada escolha narrativa, nem transforma sua obra em manipulação integral. Permite reconhecer que registrar e transmitir uma narrativa sobre a derrota também intervém nas condições pelas quais essa derrota será posteriormente conhecida.
A comparação com os Evangelhos torna essa diferença ainda mais importante. MEMÓRIA não estabelece dependência literária entre Josefo e os Evangelhos nem transforma a Guerra Judaico-Romana em alegoria das narrativas sobre Jesus. O que interessa é que diferentes operações de memória respondem a um mesmo mundo histórico. Josefo conserva uma memória narrativa da destruição; os Evangelhos preservam, ao lado da violência e da morte, tradições nas quais a restauração já começou e a derrota não constitui o encerramento da história. A diferença entre essas operações permite observar como agentes situados em condições distintas preservam, reorganizam e transmitem acontecimentos e tradições. A memória torna-se, desse modo, um campo relacional: aquilo que um agente transmite pode ser recebido por outros, incorporado a novas interpretações ou colocado em relação com experiências posteriores.
A fórmula derrota real + interpretação adiada resume essa estrutura. A derrota não é relativizada. Roma destrói, ocupa, mata, dispersa e modifica materialmente as condições de existência. A vitória militar permanece um fato material da guerra; o que permanece aberto é a posição desse fato dentro da interpretação histórica posterior. MEMÓRIA insiste nessa distinção porque a narrativa evangélica pode conservar a realidade da derrota e, simultaneamente, afirmar vindicação, julgamento e restauração. O problema estratégico desloca-se então para as condições pelas quais diferentes interpretações podem circular depois do acontecimento. Quem transmite a memória? Quais acontecimentos são preservados? Quais relações são estabelecidas entre passado, presente e futuro? Que tipo de continuidade pode ser afirmado quando a continuidade material anterior foi interrompida? A ação posterior à derrota passa por essas questões porque o significado do acontecimento se torna parte das condições nas quais agentes posteriores agirão.
A assimetria de informação adquire, nesse campo, uma importância específica. Depois de uma catástrofe, ninguém dispõe necessariamente de uma visão integral do acontecimento. Testemunhas conhecem determinadas experiências; sobreviventes carregam informações que outros não possuem; comunidades preservam tradições; autores selecionam relatos; gerações posteriores recebem narrativas já organizadas. Saber o que aconteceu e conseguir fazer com que aquilo que se sabe circule são capacidades diferentes. O agente que possui testemunho direto ocupa uma posição diferente daquele que depende de uma tradição recebida. O autor que reúne informações e as organiza para um público dispõe de recursos diferentes daqueles que permanecem restritos à memória local. A transmissão também depende de relações sociais: textos precisam circular, tradições precisam ser preservadas, comunidades precisam reconhecê-las e novas gerações precisam recebê-las. A memória não é apenas conteúdo armazenado; é uma prática de transmissão realizada em condições históricas concretas.
4 Esdras e 2 Baruc adquirem importância para o problema estratégico justamente por apresentarem, em tradições judaicas distintas, operações de inteligibilidade diante da catástrofe. Seu valor, tal como trabalhado em MEMÓRIA, não depende de demonstrar influência direta sobre os Evangelhos. Os dois textos mostram como a destruição de Jerusalém e do Templo pode ser incorporada a uma temporalidade mais ampla, na qual passado, presente e futuro permanecem relacionados. Em 4 Esdras, a catástrofe desencadeia perguntas sobre justiça, eleição, revelação, pecado, juízo e restauração. Esdras procura compreender aquilo que aconteceu porque o presente da derrota não lhe oferece, por si só, uma explicação suficiente. Em 2 Baruc, a devastação de Sião é igualmente inserida em uma reflexão sobre fidelidade, responsabilidade, juízo e renovação futura. O interesse desses textos para a análise da racionalidade situada está nessa busca de inteligibilidade: os agentes narrados não dispõem de conhecimento absoluto sobre o acontecimento e seu futuro, mas procuram compreender e responder dentro de uma situação marcada pela perda.
A assimetria entre aquilo que o agente sabe e aquilo que procura saber aparece de maneira particularmente clara em 4 Esdras. Esdras pergunta, insiste e contesta porque a catástrofe produziu um problema que não pode ser resolvido pela simples observação dos acontecimentos. Seu interlocutor possui conhecimentos aos quais ele não tem acesso imediato. A narrativa organiza, assim, uma relação entre posições informacionais diferentes. O interesse estratégico não está em transformar Esdras em um “estrategista” no sentido militar, mas em reconhecer que perguntar, buscar informação, testar respostas e reorganizar a própria compreensão são formas de ação quando o campo de possibilidades depende daquilo que o agente consegue compreender. A racionalidade permanece situada porque a informação é limitada. O agente não age a partir de uma visão total do mundo; age a partir de uma posição que pode ser modificada por novas informações.
2 Baruc apresenta uma operação semelhante em outro registro. Baruc enfrenta a destruição de Jerusalém, lamenta, pergunta, recebe visões e transmite aquilo que recebeu. Sua atividade não restaura materialmente a cidade destruída. Seu problema é outro: como manter uma continuidade inteligível depois de uma ruptura que poderia ser tomada como encerramento da história. A transmissão torna-se, então, uma forma de ação. A revelação recebida não permanece apenas como conhecimento individual; pode ser comunicada, interpretada e incorporada à continuidade de uma comunidade. O agente atua sobre as condições nas quais outros agentes poderão compreender sua situação. O futuro esperado não elimina a derrota passada; fornece uma estrutura temporal dentro da qual a derrota pode ser interpretada sem se tornar a palavra final.
A memória coletiva reforça essa dimensão relacional. Maurice Halbwachs é importante aqui porque permite afastar a ideia de memória como simples armazenamento de experiências individuais. A lembrança é reconstruída dentro de quadros sociais, por meio de relações e referências compartilhadas (HALBWACHS, 1992). Para a análise estratégica, a pergunta não deve ser apenas o que uma comunidade lembra, mas quem transmite, para quem, por quais meios, dentro de quais relações e em função de quais necessidades presentes. A continuidade de uma memória depende de agentes capazes de preservá-la e transmiti-la. Uma tradição pode ganhar novas funções quando encontra uma comunidade capaz de incorporá-la a uma situação histórica diferente; outra pode desaparecer quando deixa de possuir redes de transmissão. A memória é, portanto, simultaneamente herdada e trabalhada. Ela oferece recursos aos agentes, mas também estabelece limites: ninguém começa do zero depois da catástrofe.
Essa relação entre recurso e restrição aparece com particular clareza na temporalidade. MEMÓRIA não apresenta 70 d.C. como o momento em que a tradição restauradora passa a existir. O acontecimento posterior modifica as condições de recepção de tradições anteriores. O passado fornece promessas, acontecimentos e formas de identidade; o presente é marcado pela destruição; o futuro permanece aberto. A temporalização da catástrofe consiste justamente em inserir a destruição, sem negá-la, numa sequência mais ampla na qual o presente não possui sozinho a autoridade para encerrar a história. Essa operação possui relevância estratégica porque permite que agentes organizem ações presentes em relação a um futuro esperado. Juízo, restauração, vindicação e renovação podem orientar comportamentos mesmo quando sua realização não está disponível no presente. A expectativa, nesse sentido, não é apenas uma proposição sobre o futuro; pode constituir uma condição temporal da ação presente.
A restauração já iniciada nas tradições sobre Jesus torna essa estrutura particularmente significativa. O Reino é anunciado e reconhecido em ações concretas; corpos são curados, pessoas são reintegradas, a fome é enfrentada e poderes hostis são confrontados. A restauração, portanto, não pertence exclusivamente ao futuro. Mas a história também não chegou ao seu termo: Jesus morre, a violência permanece e Jerusalém é destruída. O resultado é uma estrutura temporal na qual eficácia e consumação não coincidem. Para a análise da ação racional, isso significa que agentes podem agir a partir de resultados efetivamente produzidos sem tratar esses resultados como conclusão definitiva do processo. A experiência de restauração anterior à catástrofe fornece um repertório; a experiência da derrota posterior modifica o horizonte no qual esse repertório será transmitido. A continuidade da ação depende justamente dessa articulação entre aquilo que já ocorreu e aquilo que ainda permanece esperado.
A questão estratégica de MEMÓRIA pode, então, ser formulada de maneira mais precisa: o que os agentes podem fazer quando o acontecimento que os atingiu já não pode ser alterado, mas suas consequências continuam constituindo o ambiente de ações futuras? A resposta não está na substituição da guerra pela memória nem da materialidade pelo símbolo. Sobrevivência, deslocamento, reorganização comunitária, transmissão, escrita, interpretação e expectativa pertencem a um mesmo campo de ação em transformação. O agente continua dependente de recursos materiais, relações sociais e condições institucionais; ao mesmo tempo, passa a depender também da capacidade de conservar informações, sustentar vínculos, transmitir tradições e orientar comportamentos por meio de expectativas. A derrota altera a composição do campo, mas não elimina sua dimensão relacional.
Por isso, a passagem de GUERRA para MEMÓRIA não deve ser compreendida como passagem da ação para a contemplação. GUERRA acompanha ações que intervêm diretamente sobre corpos, relações, autoridades e formas de sujeição; MEMÓRIA acompanha aquilo que acontece quando uma parte dessas possibilidades é interrompida pela derrota, mas a cadeia de consequências permanece aberta. O problema deixa de ser apenas como agir dentro do conflito e passa a incluir como agir dentro do mundo produzido pelo conflito. A memória, a transmissão, a interpretação e a expectativa tornam-se dimensões dessa ação porque o acontecimento continua produzindo condições para outros agentes. O que foi destruído não retorna simplesmente; o que sobrevive precisa ser reorganizado.
A derrota, nesse sentido, não constitui o desaparecimento da agência, mas uma alteração profunda de suas condições. Roma pode vencer a guerra e destruir Jerusalém; não decorre daí que a narrativa posterior tenha de aceitar essa vitória como determinação definitiva do significado da história. Josefo conserva a memória da destruição. Os Evangelhos conservam a morte e a violência, mas também a vindicação e a restauração. 4 Esdras e 2 Baruc inserem a catástrofe em horizontes temporais nos quais juízo e renovação permanecem possíveis. Comunidades transmitem tradições anteriores em condições históricas novas. O ponto comum não é uma estratégia única, nem uma reação uniforme à derrota. É a continuidade de agentes que precisam reorganizar sua ação dentro de um campo transformado pelo acontecimento.
O problema estratégico de MEMÓRIA não é descobrir quem venceu a disputa pela memória. É compreender como a derrota modifica os recursos, as posições, as informações, as relações e os horizontes temporais a partir dos quais agentes posteriores continuam agindo. O acontecimento é irreversível; suas consequências não são automaticamente encerradas por ele. A memória conserva o acontecimento sem permitir que ele seja simplesmente esquecido; a interpretação reorganiza sua inteligibilidade; a transmissão permite que experiências e tradições atravessem a ruptura; a expectativa mantém aberto um futuro que o presente da derrota não consegue encerrar. A passagem de GUERRA para MEMÓRIA pode ser compreendida, assim, como uma transformação do regime estratégico da obra: a ação continua, mas em um campo cuja configuração foi profundamente alterada pela derrota.
III — REINO — Ação estratégica, soberania adversária e disputa pelo campo institucional
A Tetralogia da Guerra Santa pode ser submetida a uma segunda leitura transversal a partir da ação dos agentes que habitam os mundos históricos e narrativos reconstruídos por seus quatro livros. Essa leitura não substitui a arquitetura central da obra nem acrescenta uma nova teoria geral aos argumentos já desenvolvidos; desloca o foco para uma pergunta específica: como os agentes agem quando ocupam posições diferentes, dispõem de recursos desiguais, possuem informações parciais, perseguem objetivos distintos e precisam antecipar, ainda que de maneira limitada, as possíveis reações dos demais? A racionalidade que interessa aqui não é a de indivíduos oniscientes capazes de calcular todas as consequências de seus atos, mas a de agentes situados em relações concretas. A ação social, em Weber, encontra-se ligada ao sentido que orienta a conduta e às formas de autoridade no interior das quais ela se desenvolve (WEBER, 1978). Elster desloca essa questão para situações nas quais uma escolha se realiza diante de outras escolhas possíveis, tornando a interdependência entre agentes parte constitutiva da ação (ELSTER, 1989). Bourdieu permite acrescentar uma dimensão que não pode ser reduzida à posse abstrata de recursos: seu valor depende das relações nas quais são reconhecidos e mobilizados, bem como da posição ocupada por quem os possui (BOURDIEU, 1998). Elias, por sua vez, torna difícil pensar essas posições como propriedades isoladas, pois os agentes exercem suas capacidades e encontram seus limites dentro de configurações de interdependência que os vinculam uns aos outros (ELIAS, 1978). O que resulta desse diálogo não é um modelo matemático aplicado aos Evangelhos, mas uma disciplina de leitura: reconstruir, sempre que as fontes permitirem, a posição ocupada pelo agente, os recursos de que dispõe, as restrições que enfrenta, aquilo que pretende alcançar, as alternativas abertas diante dele e as possíveis respostas dos demais. A vantagem dessa perspectiva está em permitir que episódios conhecidos sejam observados não apenas pelos resultados que produziram, mas também pelas relações estratégicas nas quais se tornaram possíveis.
No REINO, essa perspectiva aparece com especial nitidez na relação entre Jesus e Satanás, embora os dois pertençam a registros diferentes de representação. Satanás não pode ser simplesmente convertido em Roma, no Templo ou em qualquer instituição histórica; sua presença pertence à linguagem cosmológica e apocalíptica dos Evangelhos. Roma, por outro lado, é uma formação histórica concreta, constituída por administração, tributação, força militar, tribunais, autoridades locais e mecanismos de coerção. A distinção precisa ser preservada. O que permite aproximá-los analiticamente é outra coisa: o Evangelho pode representar a ação adversária como uma disputa pela orientação da ação humana, pela captura do desejo, pela utilização da autoridade e pela capacidade de fazer certas possibilidades parecerem legítimas ou desejáveis. A tentação de Jesus, nesse sentido, é particularmente reveladora. A proposta do pão não exige que Jesus abandone sua autoridade; a narrativa a coloca diante da possibilidade de orientá-la para a satisfação imediata da necessidade. A proposta do Templo não nega sua relação com Deus; procura transformá-la em espetáculo público, vinculando proteção divina e reconhecimento. A oferta dos reinos não elimina a possibilidade de soberania; oferece uma forma específica de exercê-la, fundada no domínio. A questão estratégica não é, portanto, autoridade contra ausência de autoridade, mas o uso da autoridade, os critérios que orientam seu exercício e as consequências que diferentes formas de mobilizá-la podem desencadear. Jesus recusa transformar poder em espetáculo, necessidade em instrumento de legitimação e soberania em domínio. Sua resposta não é uma retirada da esfera da ação; ao contrário, ele continua ensinando, reunindo discípulos, curando, expulsando espíritos impuros, perdoando, confrontando interpretações da Lei e intervindo publicamente no mundo social. A disputa está no interior da própria ação.
A representação narrativa da ação adversária permite observar um deslocamento do ponto de intervenção. Quando a ação adversária não incide diretamente sobre a conduta de um agente, a narrativa apresenta outras formas de interferência: Satanás retira a palavra do coração dos ouvintes na parábola do semeador; a riqueza e os desejos sufocam a palavra; Pedro pode tornar-se, na linguagem de Jesus, ocasião de desvio quando tenta afastá-lo do caminho da paixão; Satanás aparece associado à prova dos discípulos e, em Lucas, à entrada em Judas. Essas passagens não precisam ser transformadas em uma sequência causal rígida nem pressupõem que os evangelistas tenham elaborado uma teoria única da ação demoníaca. O que se pode reconstruir é uma regularidade narrativa: a disputa pode deslocar-se do agente principal para as mediações de sua missão. Palavra, interpretação, reconhecimento, comunidade, lealdade e decisão tornam-se lugares nos quais a ação adversária pode interferir. A perspectiva estratégica acrescenta uma pergunta que a simples descrição dos episódios não formularia: quando uma ação não consegue alterar diretamente a conduta de outro agente, por quais relações, informações, interpretações ou vínculos ela pode continuar incidindo sobre a situação? A resposta dos Evangelhos não é formulada nesses termos, mas sua narrativa permite reconstruir esse problema sem reduzir o demonológico ao psicológico ou ao político. Trata-se, portanto, de analisar a lógica de ação representada pelo texto, não de converter uma figura cosmológica em agente histórico do mesmo tipo que Jesus, Pilatos ou os grupos sacerdotais.
Essa lógica ajuda também a compreender a relação entre exorcismo, cura e anúncio do Reino. Jesus não aparece apenas como alguém que realiza atos extraordinários sobre corpos individuais. A tradição sinótica associa sua atuação à proclamação do Evangelho, à chegada do Reino de Deus, à expulsão de espíritos impuros, à cura dos enfermos e à convocação de Israel. Quando João Batista pergunta o que está acontecendo, a resposta de Jesus reúne precisamente esse conjunto de sinais: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciado o Evangelho (Mt 11,4-5; Lc 7,22). A ação não se limita, portanto, à restauração corporal. Ela torna visível uma pretensão sobre a situação presente e sobre seu futuro. O anúncio do Reino possui uma dimensão político-religiosa porque afirma que uma nova ordem de soberania se aproxima e já começa a ser reconhecida em atos concretos; curas e exorcismos podem ser lidos, nesse quadro, como sinais de que forças, corpos e relações são apresentados como passíveis de reorganização sob outra autoridade. Quando Jesus afirma que, se expulsa os demônios pelo dedo de Deus, então o Reino de Deus chegou (Lc 11,20), o exorcismo deixa de ser apenas um acontecimento privado. O corpo libertado torna-se evidência pública de uma disputa mais ampla. O conflito cosmológico e a intervenção histórica permanecem distintos, mas encontram-se no mesmo episódio.
A relação entre Jesus e o campo do Templo apresenta outra configuração estratégica, agora sem a necessidade de recorrer à linguagem cosmológica. O Templo concentrava recursos que não podem ser reduzidos ao dinheiro: autoridade cultual, prestígio sacerdotal, reconhecimento religioso, vínculos políticos, capacidade administrativa, relações econômicas e enorme densidade simbólica. A posição dos grupos ligados a essa instituição, inclusive os saduceus, precisa ser reconstruída historicamente e sem transformar um grupo social complexo em personagem coletivo dotado de uma única psicologia. As fontes de Josefo oferecem testemunho importante sobre sacerdotes, aristocracias e relações de poder em torno do Templo em diferentes momentos, embora não permitam converter esses grupos em blocos homogêneos (JOSEPHUS, 1927-1928). Os próprios Evangelhos apresentam uma pluralidade de adversários e controvérsias. Nem toda disputa de Jesus com fariseus, escribas, sacerdotes ou autoridades pode ser atribuída aos saduceus, e seria metodologicamente inadequado transformar cada controvérsia em uma operação coordenada de um único bloco institucional. O ponto estratégico é outro. Uma formação institucional dependente da continuidade de certas relações tende a ser afetada pela necessidade de preservar as condições de seu funcionamento, enquanto um agente carismático que reúne discípulos, atrai multidões, proclama a chegada do Reino, realiza curas e exorcismos e interpreta publicamente a Lei pode alterar o ambiente no qual essa instituição exerce sua autoridade. A questão relevante passa a ser aquilo que a atuação de Jesus modifica nas opções disponíveis aos agentes ligados ao Templo.
A própria natureza dos recursos de Jesus torna a situação mais complexa. Ele não possui exército, cargo administrativo ou posição institucional comparável à das autoridades romanas ou sacerdotais. Sua força está em outro lugar: reconhecimento público, autoridade carismática, domínio da palavra, capacidade de reunir seguidores, mobilidade, interpretação das Escrituras, atos de cura e exorcismo e capacidade de fazer do anúncio do Reino uma linguagem pública capaz de mobilizar expectativas. Esses recursos não funcionam como instrumentos independentes de seu contexto. A multidão, por exemplo, constitui recurso relacional, mas não propriedade de Jesus; pode ampliar sua proteção, visibilidade e alcance, mas também pode dispersar-se ou responder de maneira diferente daquela esperada. O prestígio pode favorecer a atuação de um agente em determinada situação e aumentar sua exposição em outra. Uma palavra que conquista reconhecimento entre alguns ouvintes pode elevar, para outros, o custo político de tolerar aquela atuação. Uma intervenção junto ao Templo pode atingir simultaneamente relações religiosas, econômicas, simbólicas e políticas. O valor de cada recurso depende, assim, da posição a partir da qual é mobilizado e das relações nas quais entra em circulação; a própria posição dos agentes, por sua vez, só adquire sentido dentro da rede de dependências que os vincula. A perspectiva de Bourdieu sobre os campos e a de Elias sobre as configurações de interdependência convergem aqui sem se confundirem: a primeira ilumina a diferença de valor dos recursos, enquanto a segunda torna visível a trama relacional na qual essas posições se formam e se transformam (BOURDIEU, 1998; ELIAS, 1978).
A ação junto ao Templo, por isso, representa uma mudança de escala. Não porque toda intervenção anterior fosse irrelevante, mas porque a ação passa a tocar uma concentração de recursos cuja preservação envolve agentes diferentes e interesses sobrepostos. Uma instituição pode ignorar uma atuação marginal, observar um movimento crescente, testar sua consistência, tentar enquadrá-lo discursivamente, limitar sua circulação, negociar com seus representantes ou recorrer à coerção. As possibilidades não são equivalentes e não precisam aparecer todas simultaneamente. A dimensão estratégica da ação aparece, nesse caso, justamente na necessidade de agir sob essa incerteza. Cada participante formula sua conduta diante de outras condutas possíveis, e a resposta de um agente passa a integrar a situação na qual os demais precisam decidir. As escolhas reciprocamente condicionadas constituem precisamente o tipo de situação para o qual a análise de Elster oferece instrumentos pertinentes (ELSTER, 1989). A pergunta histórica deixa então de ser apenas “por que Jesus fez isso?” e passa a incluir “que situação sua ação criou para os demais?”, “quais respostas se tornaram mais custosas ou mais urgentes?”, “quais recursos foram mobilizados por cada lado?” e “como a reação de um agente alterou as opções dos outros?”. Essa abordagem também explica por que o conflito não deve ser considerado inevitável desde o início. A escalada depende de sucessivas interações, avaliações e respostas. O confronto pode ser evitado, tolerado ou adiado; também pode tornar-se progressivamente mais difícil de evitar à medida que certas ações elevam o custo da inação para outros agentes.
A paixão constitui o momento em que essa estrutura relacional se torna mais evidente. A prisão, o abandono dos discípulos, os interrogatórios, a condenação, a intervenção de Pilatos, a atuação dos soldados e a execução romana não constituem uma ação única executada por um único agente. Diferentes agentes participam do processo, com posições, recursos e orientações que não precisam coincidir. Judas possui uma posição diferente daquela dos sacerdotes; estes não ocupam a mesma posição de Pilatos; Pilatos não age com os mesmos recursos dos soldados; os discípulos, a multidão e os demais participantes também entram no processo a partir de posições distintas. A execução romana constitui um acontecimento material e historicamente efetivo: Jesus é preso, julgado e morto; seus seguidores são desorganizados; sua missão pública é interrompida. A morte não é uma aparência de derrota. A prisão não é uma metáfora. A execução altera concretamente a situação dos participantes e inaugura condições novas para aqueles que continuarão a agir depois dela.
A proclamação da ressurreição introduz, contudo, uma nova configuração da ação. Aqueles que participaram da prisão, do julgamento e da execução passam a integrar a história de um acontecimento que será recebido, testemunhado e interpretado pelos discípulos em uma configuração nova. A memória de Jesus, o testemunho sobre sua morte, a interpretação da execução e a formação da comunidade tornam-se campos nos quais os discípulos podem atuar em condições diferentes daquelas existentes antes da paixão. A execução permanece real e irreversível; o que se transforma é a situação na qual seu significado será elaborado. A morte continua sendo morte. A novidade está na configuração de relações, posições e formas de transmissão que se desenvolve em torno da interpretação do acontecimento.
A mesma perspectiva permite compreender melhor a racionalidade dos agentes ao longo do REINO. A ação racional não precisa coincidir com sucesso, assim como uma ação estratégica não pressupõe cálculo perfeito. Um agente pode agir com informações limitadas, interpretar equivocadamente a situação, superestimar um recurso, subestimar a reação de outro agente ou alcançar um objetivo imediato ao preço de abrir possibilidades que não pretendia abrir. A inteligibilidade dessas condutas depende, de um lado, dos sentidos que os próprios agentes atribuem ao que fazem e, de outro, das condições concretas nas quais suas escolhas encontram as escolhas de outros. Weber é particularmente importante para o primeiro movimento; Elster, para o segundo (WEBER, 1978; ELSTER, 1989). A racionalidade histórica está situada justamente porque cada agente age a partir de uma posição que restringe aquilo que pode saber e fazer. A reconstrução estratégica precisa permanecer próxima das evidências disponíveis. Onde os textos permitem identificar objetivos, recursos, restrições e alternativas, podemos avançar; onde apenas conhecemos o resultado, não devemos inventar uma intenção (REIS, 2000; REIS, 2002). Essa cautela é especialmente necessária no estudo dos Evangelhos, nos quais narradores atribuem significado às ações e organizam episódios segundo arquiteturas teológicas próprias. A análise histórica pode trabalhar com essas representações sem confundir a racionalidade narrativa com uma janela transparente para a consciência dos agentes históricos.
No REINO, a disputa estratégica alcança, assim, não apenas pessoas ou instituições, mas os próprios critérios pelos quais autoridade, riqueza, pertencimento, grandeza e vitória são reconhecidos. Quando Jesus contrapõe o exercício do poder entre os gentios à autoridade como serviço (Mc 10,42-45), não está simplesmente recusando a existência da autoridade; está deslocando o princípio segundo o qual ela deve ser exercida. Quando acolhe aqueles que ocupam posições socialmente frágeis, partilha a mesa, reintegra enfermos e excluídos, confronta a ostentação religiosa ou questiona a relação entre riqueza e mérito, altera as relações nas quais determinados recursos obtêm reconhecimento. Quando anuncia o Reino, a questão não é apenas quem ocupará o topo de uma ordem existente, mas que tipo de relação fará com que alguém possa ser reconhecido como grande, legítimo, justo ou poderoso. A contestação torna-se, desse modo, mais profunda que uma simples disputa pela ocupação de posições. O que está em jogo é a própria configuração do campo no qual essas posições adquirem valor.
Essa leitura também ilumina a relação entre Jesus e Satanás sem fundir os dois registros. O Satanás dos Evangelhos pode ser lido como figura narrativa da soberania adversária porque sua representação aparece associada à captura do desejo, à sedução pelo poder, à fragmentação, à interferência sobre a palavra e à exploração de situações de vulnerabilidade. A representação adversária pode ser construída não apenas pela coerção direta, mas também por deslocamentos de decisão, alteração do significado de uma possibilidade, exploração de uma necessidade verdadeira, transformação da proteção em espetáculo ou conversão da autoridade em dominação. A força dessa representação está em tornar pensável uma ordem que pode ser preservada não apenas pela coerção direta, mas também pela adesão de pessoas que passam a reproduzir ou legitimar relações que as subordinam. O REINO formula a alternativa em termos igualmente concretos: onde a autoridade é redefinida como serviço, altera-se o critério pelo qual sua legitimidade é reconhecida; onde a exclusão é confrontada pelo acolhimento, as fronteiras sociais são reconfiguradas no interior da prática comunitária; onde a riqueza deixa de funcionar como prova automática de mérito, a hierarquia econômica passa a ser julgada por outros critérios; onde o corpo submetido pela doença ou pelo espírito impuro é restaurado à comunidade, a capacidade de participar da vida social pode ser recuperada. A soberania do Reino não se manifesta apenas em uma declaração abstrata de poder, mas na transformação das relações por meio das quais o poder se torna reconhecível.
A perspectiva estratégica permite, finalmente, reunir esses elementos sem transformar o REINO em uma teoria total da ação. Jesus age sobre corpos, relações, interpretações, instituições e expectativas; outros agentes respondem a essas ações; cada resposta altera parcialmente a situação; novos agentes entram no campo; recursos são preservados, perdidos ou ampliados; algumas ações parecem alcançar objetivos identificáveis, outras produzem resultados diferentes daqueles que os agentes parecem buscar; algumas consequências são previstas, outras aparecem apenas posteriormente. A história que resulta desse processo não pertence integralmente a nenhum dos agentes. Essa é uma contribuição importante dessa segunda leitura da Tetralogia: deslocar a pergunta da simples autoria dos acontecimentos para as condições concretas de ação. Quem podia agir? Sobre o quê? Com quais recursos? Sob quais restrições? Com que informação? Diante de quais outros agentes? Que possibilidades a ação ampliava ou fechava para aqueles que viriam depois? Essas perguntas permitem acompanhar Jesus, seus discípulos, as autoridades do Templo, as autoridades romanas, as multidões e as figuras cosmológicas do relato sem reduzir nenhum deles a uma função abstrata.
No interior do REINO, portanto, a racionalidade estratégica não substitui a linguagem religiosa, política ou cosmológica dos Evangelhos. Ela permite observá-las em sua articulação. O anúncio do Reino, as curas, os exorcismos, a reunião de discípulos, a presença das multidões, a crítica às formas de autoridade, a intervenção no Templo, a reação das autoridades, a prisão, a execução e a memória posterior pertencem a diferentes níveis da narrativa, mas podem ser examinados como episódios nos quais agentes ocupam posições, mobilizam recursos, enfrentam restrições e respondem uns aos outros. O resultado de uma ação não deve ser confundido automaticamente com aquilo que o agente pretendia alcançar, assim como a intenção de um agente não basta para explicar o resultado que emerge de uma configuração de interdependências. A história dos agentes não é apenas a história das ações que realizam, mas também das situações que deixam para aqueles que agirão depois. No REINO, essa dinâmica alcança sua forma mais radical porque a disputa não envolve somente quem possui autoridade, mas o que conta como autoridade, como ela deve ser exercida, quem pode participar da comunidade, o que confere legitimidade à riqueza e à posição social e, finalmente, quem pode definir o significado de uma derrota. A execução alcança Jesus e modifica radicalmente a situação dos que permanecem. A partir desse acontecimento, memória, testemunho e transmissão passam a constituir novos campos de ação. A racionalidade estratégica encontra seu limite na própria interdependência que torna a ação possível: cada agente age sobre uma situação que também é modificada pelas respostas dos demais e pelas condições herdadas de ações anteriores.
IV — LOGOS
Ação, informação e disputa pelo reconhecimento
No LOGOS, a análise da ação racional e estratégica alcança seu ponto mais agudo porque o conflito deixa progressivamente de se concentrar apenas na capacidade de agir sobre um corpo e passa a envolver a capacidade de reconhecer, classificar, testemunhar e transmitir uma identidade. A narrativa joanina apresenta uma configuração na qual diferentes agentes possuem recursos desiguais, informações incompletas, posições institucionais distintas e orientações que nem sempre coincidem. Jesus não age em um espaço vazio: sua presença pública encontra autoridades que o observam, multidões que o reconhecem, discípulos que o acompanham, adversários que procuram prendê-lo, pessoas capazes de informar seus deslocamentos e instituições capazes de responder coercitivamente às suas iniciativas. A racionalidade desses agentes precisa ser reconstruída a partir das condições concretas nas quais atuam. Pilatos age a partir de uma autoridade institucional; Jesus, a partir de uma posição materialmente vulnerável, mas dotada de outros recursos; os discípulos dependem de relações que precisam ser preservadas; as comunidades posteriores enfrentam o problema de transformar uma identidade compartilhada em práticas capazes de durar. Weber oferece uma linguagem particularmente adequada para acompanhar os sentidos que orientam essas condutas e as formas de autoridade em que se inserem; Elster torna visível a dimensão interativa das escolhas; Olson desloca a atenção para uma questão posterior e distinta, a da sustentação da ação coletiva quando os participantes precisam compartilhar custos e benefícios (WEBER, 1978; ELSTER, 1989; OLSON, 1965). Esses instrumentos não transformam a narrativa em um modelo formal de cálculo. Servem para reconstruir situações nas quais agentes concretos precisam escolher entre alternativas disponíveis, considerando que outros também podem agir, resistir, cooperar, denunciar, recuar ou modificar a situação. A estratégia aparece quando a possibilidade de ação de outro agente entra nas condições da própria conduta. As retiradas de Jesus, suas aparições públicas, a administração de sua exposição, o envio dos discípulos, a proteção de determinados vínculos e suas respostas às autoridades não constituem acontecimentos isolados: cada uma dessas ações modifica o campo de possibilidades no qual os demais participantes passarão a agir. O conflito não corresponde, portanto, a uma estratégia única e centralizada, mas a uma configuração de estratégias parcialmente sobrepostas, na qual a capacidade de cada participante depende também das respostas que encontra.
O primeiro grande confronto de LOGOS pode ser concentrado na relação entre Jesus e Pilatos. Pilatos ocupa uma posição institucional que lhe confere jurisdição sobre o corpo de Jesus e capacidade de transformar uma acusação em uma decisão executável. Sua autoridade não é abstrata: manifesta-se no interrogatório, na sentença, na entrega aos soldados e na administração da execução. Jesus, por sua vez, encontra-se em posição materialmente assimétrica, sem capacidade coercitiva equivalente, mas conserva recursos de outra natureza: palavra, testemunho, reconhecimento, autoridade sobre os discípulos e capacidade de responder ao enquadramento que lhe é oferecido. A análise da escolha racional permite reconstruir essa situação sem pressupor que todos os agentes tenham os mesmos objetivos ou as mesmas alternativas. Pilatos age dentro de uma situação que inclui as acusações das autoridades, a presença da multidão, a condição política de Jerusalém e os limites de sua própria posição. As autoridades sacerdotais também dependem de uma instância capaz de executar aquilo que pretendem contra Jesus. Judas converte conhecimento sobre o paradeiro de Jesus em recurso para a ação dos adversários. Os soldados transformam uma decisão institucional em violência corporal. Cada participante possui apenas uma parcela da capacidade de conduzir a sequência dos acontecimentos. A perspectiva weberiana ajuda a distinguir a posição socialmente significativa do agente das formas concretas de autoridade que estruturam sua ação; a perspectiva de Elster, por sua vez, permite acompanhar como cada decisão se realiza diante de informações incompletas e respostas possíveis dos demais (WEBER, 1978; ELSTER, 1989). A paixão aparece, assim, como uma configuração de ação interdependente. Pilatos não é apenas o indivíduo que pronuncia uma sentença; é o agente situado no interior de uma ordem imperial que lhe fornece autoridade. As autoridades sacerdotais não são apenas acusadores; mobilizam informação, apresentam uma acusação capaz de alcançar uma instância executiva e conduzem o conflito até essa instância. Jesus tampouco é um elemento passivo da sequência: suas respostas, recusas, silêncios e relações com os discípulos integram a configuração estratégica que antecede sua morte.
A relação entre Jesus e Roma amplia o conflito porque Pilatos passa a ser compreendido como representante concreto de uma ordem imperial dotada de jurisdição, coerção, soldados e capacidade de punição. A assimetria de recursos é radical, e qualquer análise estratégica precisa levá-la a sério. Jesus não dispõe de meios militares capazes de competir com Roma; sua ação ocorre por outros canais. Sua racionalidade não pode ser avaliada pela pergunta sobre como obter uma vitória militar que não constitui uma alternativa disponível. Ela precisa ser reconstruída a partir das possibilidades efetivamente abertas em cada situação: quando aparecer, quando retirar-se, quando responder, quando permanecer em silêncio, quando proteger os discípulos, quando aceitar o risco da exposição pública. A retirada para Efraim, apresentada por João depois da decisão das autoridades de eliminá-lo, constitui um exemplo claro de adaptação a uma alteração do ambiente. O mesmo vale para a maneira como João apresenta a gestão da presença pública de Jesus em Jerusalém e suas relações com discípulos e multidões. Estratégia, nesse nível, não significa cálculo perfeito nem conhecimento antecipado de todas as consequências. Significa agir considerando que outros agentes possuem capacidade própria de resposta. A racionalidade é situada porque cada escolha ocorre dentro de limites de informação, recursos e oportunidades. A conduta de Jesus não pode ser lida apenas pela lógica da preservação individual. Sua ação é orientada por sentidos, compromissos e uma concepção de missão que pertencem ao universo religioso reconstruído pela narrativa. A distinção weberiana entre diferentes formas de orientação da ação é útil justamente porque impede que toda conduta racional seja reduzida ao cálculo instrumental (WEBER, 1978). Elster acrescenta uma cautela de outra ordem: agir racionalmente a partir das informações disponíveis não significa possuir conhecimento antecipado do resultado. A escolha permanece aberta à resposta dos demais agentes e às consequências que emergem da interação (ELSTER, 1989). A história não é uma sucessão de planos executados com precisão; é uma sequência de escolhas que se encontram, interferem umas nas outras e modificam as condições das escolhas seguintes.
A cruz constitui o limite concreto dessa disputa. Roma consegue prender Jesus, submetê-lo à violência e executá-lo. A análise estratégica não ganha nada suavizando esse fato. A execução representa o encerramento da atuação corporal de Jesus e modifica profundamente a configuração na qual seus seguidores passam a agir. A questão decisiva surge depois: o que acontece quando o agente central deixa de atuar corporalmente, mas sua identidade continua disponível para o reconhecimento de outros agentes? A blindagem cristológica ocupa justamente essa posição estrutural dentro de LOGOS. Ela não é proteção física, não impede a prisão, não interrompe a violência e não evita a morte. Sua função é outra. A narrativa impede que aquilo que aconteceu ao corpo de Jesus encerre, por si só, a questão de quem ele é. A inscrição “Rei dos Judeus”, o testemunho sobre o corpo crucificado, a memória dos discípulos, o reconhecimento do ressuscitado e a atuação do Paráclito deslocam o acontecimento para um campo no qual outros agentes podem continuar agindo. A blindagem constitui, assim, o dispositivo teológico pelo qual o quarto Evangelho torna pensável a continuidade histórica da identidade depois da perda da presença corporal. A teoria da ação racional permite perceber a consequência dessa passagem: outros agentes podem receber informações, conservar memórias, reconhecer testemunhos, assumir práticas e orientar novas condutas a partir daquilo que receberam. A blindagem não garante o que esses agentes farão. Ela preserva a possibilidade de que tenham algo reconhecível a partir do qual agir.
A inscrição da cruz torna especialmente visível a disputa pelo reconhecimento. Pilatos possui autoridade para ordenar que ela seja colocada e recusa a solicitação para alterá-la. A ação administrativa cria um registro público da classificação atribuída a Jesus pela autoridade romana. Entretanto, a narrativa incorpora essa inscrição à própria apresentação da identidade de Jesus. O interesse estratégico está menos em afirmar que Pilatos perde capacidade de ação do que em observar que uma ação institucional pode continuar circulando depois que seu autor deixa de participar diretamente das relações nas quais ela será interpretada. Pilatos ordena a inscrição; posteriormente, ela passa a integrar outras relações de testemunho, memória e reconhecimento. O mesmo princípio aparece de maneira ainda mais ampla no destino da morte de Jesus. As autoridades podem prendê-lo, os soldados podem executá-lo e Pilatos pode autorizar a execução. Depois do acontecimento, testemunhas, discípulos e comunidades passam a trabalhar sobre a memória daquilo que ocorreu. O poder imperial alcança efetivamente o corpo; quando o acontecimento entra na memória e no testemunho de outros agentes, a configuração estratégica se transforma.
A blindagem cristológica funciona, nesse sentido, como a dobradiça entre dois momentos da história. Antes da morte, o conflito é travado em torno da presença, da exposição, da informação, da prisão e do corpo de Jesus. Depois da morte, a questão passa para a preservação da identidade, a transmissão do testemunho e a formação de uma comunidade capaz de continuar agindo. O quarto Evangelho constrói essa passagem por meio de uma cadeia de reconhecimento na qual ver, ouvir, tocar, lembrar, testemunhar e reconhecer não constituem atos equivalentes, mas momentos distintos, embora relacionados, de uma cadeia que ultrapassa a presença física. O Paráclito, em João 14, não substitui simplesmente Jesus como personagem; sustenta a capacidade dos discípulos de recordar e compreender aquilo que receberam. O testemunho preserva a referência ao acontecimento. A memória transforma a ausência em condição de transmissão. A comunidade torna possível que essa transmissão se estabilize em relações, práticas e pertencimentos. A leitura estratégica pode descrever essa transformação sem reduzir sua dimensão teológica: o agente original desaparece, mas outros agentes passam a ocupar posições nas quais podem agir a partir de uma identidade que continua reconhecível.
A memória de Jesus e a existência posterior de uma comunidade não constituem, contudo, o mesmo problema. Lembrar é uma atividade socialmente enquadrada: aquilo que um grupo conserva, reorganiza e transmite depende das relações coletivas nas quais o passado permanece disponível. Essa dimensão torna-se particularmente visível em Halbwachs (HALBWACHS, 1992). Olson conduz a análise para outra dificuldade: mesmo quando indivíduos compartilham um interesse ou uma identidade, a cooperação não decorre automaticamente desse compartilhamento. Participar possui custos, os incentivos podem ser desiguais e os bens coletivos podem ser usufruídos também por aqueles que não assumem integralmente os custos de sua sustentação (OLSON, 1965). A comunidade cristã pode, portanto, ser observada nos dois níveis sem que memória e ação coletiva sejam confundidas. A memória de Jesus não é simplesmente um estoque de informações preservado pela comunidade; ela é reorganizada em quadros sociais de pertencimento e reconhecimento. Ao mesmo tempo, uma identidade compartilhada não basta para explicar a cooperação necessária à transmissão, às práticas e à vida comunitária. A existência de um interesse comum não elimina problemas de participação, coordenação e distribuição de custos. A pergunta histórica torna-se, então, mais precisa: como uma identidade compartilhada se transforma em cooperação relativamente estável entre indivíduos que precisam agir juntos? A existência comunitária envolve indivíduos que precisam cooperar, assumir custos, transmitir práticas e sustentar bens compartilhados. Essa perspectiva não reduz o cristianismo a interesse racional nem substitui sua teologia por sociologia. Permite formular uma pergunta histórica mais precisa sobre as condições pelas quais uma identidade compartilhada pode adquirir formas relativamente estáveis de ação coletiva.
A relação entre a comunidade cristã e Roma constitui uma nova configuração do conflito. Roma permanece capaz de prender, punir e matar corpos, mas já não enfrenta Jesus individualmente. A capacidade de ação cristã passa a distribuir-se entre comunidades, relações e redes de transmissão. A memória de Jesus pode passar a funcionar como recurso coletivo; o testemunho oferece informação compartilhada; o pertencimento estabelece vínculos; as práticas comunitárias criam formas de cooperação; os textos permitem transmitir uma identidade para além da presença dos primeiros testemunhos. A dimensão memorial e a dimensão coletiva da ação tornam-se, nesse ponto, inseparáveis sem serem idênticas (HALBWACHS, 1992; OLSON, 1965). A racionalidade estratégica desses agentes não consiste em calcular uma vitória contra o Império. Consiste em organizar formas de continuidade disponíveis em situações concretas. Uma comunidade pode reunir-se, deslocar-se, transmitir textos, acolher novos membros, preservar testemunhos, criar relações de confiança ou adaptar práticas diante de ameaças. Cada escolha modifica as condições das escolhas seguintes. A continuidade não elimina a vulnerabilidade. A comunidade permanece exposta à coerção e à perda, mas passa a dispor de formas próprias de transmissão, cooperação e pertencimento.
O martírio torna esse processo particularmente visível. O mártir é um agente que assume um custo extremo, mas sua morte pode adquirir uma função para outros agentes. A literatura cristã antiga sobre o martírio fornece exemplos importantes desse processo porque apresenta a morte de determinados agentes como acontecimento integrado à memória e à formação das comunidades. A morte não é anulada nem romantizada pela análise estratégica. Ela possui custo real. O que precisa ser observado é aquilo que outros agentes fazem depois dela: recordam, narram, celebram, imitam e incorporam o acontecimento à própria identidade. A dimensão memorial desse processo aproxima-se daquilo que Halbwachs descreve como reconstrução social do passado; sua dimensão coletiva, por outro lado, remete ao problema olsoniano da sustentação da cooperação e da participação (HALBWACHS, 1992; OLSON, 1965). Nenhuma dessas consequências é necessária. Uma morte pode gerar medo, dispersão e silêncio; em circunstâncias específicas, pode também gerar solidariedade, memória e imitação. A análise histórica precisa demonstrar o que efetivamente aconteceu em cada caso.
A imitatio Christi leva essa dinâmica ainda mais longe porque a memória deixa de ser apenas conservação do passado e passa a orientar a ação de novos agentes. Serviço, hospitalidade, cuidado, fidelidade, sofrimento e testemunho podem tornar-se formas pelas quais indivíduos incorporam uma identidade recebida e a traduzem em condutas situadas. A comunidade não reproduz Jesus mecanicamente; forma agentes capazes de agir em circunstâncias que Jesus não encontrou. Essa capacidade é fundamental para compreender a universalização histórica do cristianismo. Uma identidade capaz de orientar condutas em diferentes ambientes pode atravessar cidades, línguas e configurações sociais sem depender da presença física do fundador. A circulação cristã não é simplesmente uma reprodução da expansão romana. Roma opera mediante território, administração, direito, infraestrutura e força militar; as comunidades cristãs desenvolvem sua continuidade mediante relações, testemunho, memória, hospitalidade, práticas, textos e pertencimento. São formas diferentes de integração histórica. A universalidade do Logos pertence ao plano cristológico; a universalização histórica pertence ao plano das ações de comunidades concretas. A primeira não garante automaticamente a segunda.
O capítulo 9, “A Suprassunção da Guerra”, pode ser compreendido, nesta leitura transversal, como consequência histórica da configuração estratégica construída nos capítulos anteriores. A morte de Jesus encerra uma série de possibilidades de ação para o agente individual, mas não encerra a capacidade de outros agentes de agir a partir de sua identidade. A guerra muda de sujeito. Primeiro, Jesus encontra agentes investidos da autoridade romana; depois, sua atuação entra em conflito com mecanismos da ordem imperial; depois de sua morte, a comunidade cristã passa a existir e agir dentro do mundo romano. O conflito não precisa ser descrito como uma cadeia necessária. Cada passagem depende de circunstâncias concretas, escolhas, recursos, relações, contingências e respostas de outros agentes. A categoria de suprassunção, quando utilizada em sentido histórico-crítico, serve para nomear retrospectivamente uma mudança de função: um acontecimento permanece real, mas passa a operar em uma configuração diferente. A execução continua sendo execução; a derrota continua sendo derrota; a memória, contudo, pode tornar-se testemunho; o testemunho pode participar da formação comunitária; a comunidade pode formar novos agentes; esses agentes podem transportar a identidade recebida para circunstâncias diferentes. Nada disso precisa ser considerado inevitável para ser historicamente significativo.
A análise estratégica de LOGOS alcança seu limite quando a ação deixa de estar concentrada nos agentes que participaram diretamente do acontecimento originário. A partir daí, a questão não é mais saber apenas o que Pilatos, Judas, as autoridades, os soldados ou Jesus conseguiram fazer uns contra os outros. A pergunta passa a ser o que discípulos, testemunhas, comunidades, mártires e novos membros conseguem fazer com aquilo que receberam. O problema já não está concentrado na capacidade de um agente individual, mas na passagem entre presença e transmissão, entre acontecimento e memória, entre identidade e pertencimento, entre reconhecimento e ação coletiva. A blindagem cristológica atravessa esse processo como o elemento teológico que preserva Jesus como referência reconhecível depois que sua presença corporal desaparece. Ela não protege Jesus contra a violência. Sua função é outra: manter aberta a possibilidade de que outros agentes reconheçam, transmitam e reorganizem aquilo que receberam.
Por isso, o grande movimento histórico de LOGOS não deve ser compreendido como uma sucessão de vitórias e derrotas militares, mas como uma transformação dos agentes e dos campos nos quais a ação continua. A relação entre Jesus e Pilatos concentra o conflito na autoridade, na jurisdição e no corpo. A relação entre Jesus e Roma amplia a confrontação para a ordem imperial e revela a profunda assimetria de recursos entre os agentes. A blindagem cristológica estabelece a passagem entre a derrota corporal de Jesus e a permanência histórica de sua identidade reconhecível. A relação entre a comunidade cristã e Roma desloca a disputa para a memória, o testemunho, a ação coletiva e a formação de novos agentes. O que começou como uma disputa em torno da presença de Jesus termina como uma disputa sobre a capacidade de uma comunidade continuar reconhecendo, transmitindo e encarnando sua identidade dentro de um mundo que continua capaz de exercer violência sobre seus corpos.
A análise racional e estratégica não substitui, portanto, a leitura teológica de LOGOS. Ela revela uma segunda arquitetura da obra: a arquitetura das capacidades de ação. Jesus age dentro de limites concretos; Pilatos decide a partir de uma posição institucional; Judas utiliza informação; as autoridades mobilizam recursos e relações; soldados executam ordens; discípulos reagem, recuam, lembram e testemunham; a comunidade organiza cooperação, autoridade e pertencimento; novos agentes recebem uma identidade e passam a agir em circunstâncias diferentes. Nenhum desses agentes conduz sozinho a sequência inteira. Os resultados emergem das relações entre ações, respostas, recursos e circunstâncias. LOGOS leva essa lógica até o ponto extremo: Roma chega ao corpo de Jesus; a blindagem cristológica preserva sua identidade como objeto de reconhecimento; a comunidade recebe essa identidade, transmite-a e, em configurações históricas determinadas, forma novos agentes. A guerra, então, não termina: muda de sujeito, de campo e de escala.
CONCLUSÃO
A ação situada e a transformação dos campos de possibilidade
A releitura dos quatro livros permite reconhecer uma arquitetura transversal da ação sem transformar essa arquitetura em uma nova teoria geral da Tetralogia. GUERRA, MEMÓRIA, REINO e LOGOS não apresentam simplesmente quatro aplicações sucessivas de um mesmo modelo. Cada livro coloca os agentes diante de uma configuração histórica diferente, na qual variam os recursos disponíveis, as formas de vulnerabilidade, os adversários relevantes, as possibilidades de resposta e as capacidades que podem ser preservadas. Em GUERRA, a ação aparece sob a pressão imediata do conflito, da assimetria e da necessidade de responder a forças que podem atingir corpos, movimentos e comunidades. MEMÓRIA desloca o problema para um mundo já transformado pela derrota, no qual recursos destruídos passam a ser parcialmente compensados por memória, informação, interpretação e transmissão. REINO acompanha a ação enquanto ela interfere nas relações sociais, nas formas de autoridade, nos critérios de pertencimento e nas instituições que organizam o campo religioso e político. LOGOS, por fim, leva a questão até o reconhecimento, o testemunho e a continuidade da identidade depois da perda da presença corporal do agente central. O que atravessa os quatro livros não é uma sequência rígida de operações, mas uma condição comum: todo agente age dentro de um campo que já possui estrutura, encontra outros agentes dotados de capacidades próprias e modifica, por sua ação, as condições nas quais novas ações serão realizadas. A ação, portanto, nunca começa em um espaço vazio: cada agente encontra relações, recursos, restrições e expectativas previamente existentes, e cada ação modifica a situação na qual os participantes realizarão as ações seguintes.
Essa perspectiva torna mais precisa a noção de racionalidade empregada ao longo do texto. Não se trata de atribuir aos agentes uma capacidade abstrata de cálculo, tampouco de considerar racional qualquer conduta pelo simples fato de que retrospectivamente podemos encontrar uma finalidade para ela. A racionalidade é situada porque depende da posição ocupada pelo agente, das informações às quais ele tem acesso, dos recursos que consegue mobilizar, das restrições que enfrenta e das alternativas que consegue reconhecer. Uma ação pode ser inteligível sem ser bem-sucedida; pode ser orientada por razões plausíveis e ainda produzir consequências inesperadas; pode preservar uma capacidade de ação mesmo quando fracassa em seu objetivo imediato. A estratégia acrescenta uma condição específica: a conduta passa a incorporar, explícita ou implicitamente, a possibilidade de resposta de outros agentes. Nem toda ação é estratégica. Uma cura, uma viagem, uma refeição ou uma oração podem ser compreendidas sem que seja necessário supor um cálculo relacional. A categoria estratégica ganha força quando a ação se encontra em uma situação na qual aquilo que um agente pode fazer depende também daquilo que outros podem fazer em resposta. A distinção preserva o valor explicativo da categoria ao impedir que ela se transforme em sinônimo de ação em geral.
A varredura dos quatro livros também mostra que essa interdependência assume formas diferentes. GUERRA torna especialmente visíveis o confronto, a assimetria de recursos, a circulação da informação, o posicionamento e a formação de capacidades coletivas. O agente age enquanto forças adversárias também se movimentam, e certas ações — retirada, deslocamento, reunião de discípulos, delegação, confronto público, silêncio ou exposição — modificam as possibilidades das ações seguintes. MEMÓRIA mostra que a derrota altera radicalmente os recursos disponíveis para a ação. Quando instituições, territórios, redes ou posições são destruídos, informação, memória, testemunho e expectativa podem adquirir importância que antes não possuíam. O passado torna-se irreversível, mas o futuro permanece aberto a novas ações, e essa abertura constitui condição para novas formas de atuação. REINO permite observar que os recursos não possuem valor fora das relações nas quais são reconhecidos e mobilizados: multidões, prestígio, autoridade, riqueza, pertencimento, conhecimento das Escrituras, vínculos institucionais e capacidade de circulação podem favorecer um agente em uma situação e expô-lo em outra. LOGOS leva essa interdependência ao domínio do reconhecimento: uma autoridade pode classificar, prender e executar, enquanto outros agentes passam a trabalhar sobre a memória, o testemunho e a identidade do acontecimento. A capacidade de agir muda de mãos sem que o acontecimento originário deixe de ser real.
As seis modalidades identificadas ao longo da análise — confronto, informação, posicionamento, relação, temporalidade e continuidade — ganham, nesse conjunto, uma função mais precisa. Elas não formam uma grade que deva ser aplicada mecanicamente a cada episódio. Funcionam como instrumentos para perguntar o que efetivamente está acontecendo em uma situação de ação. O confronto permite observar incompatibilidades de objetivos, acusações, disputas de autoridade e coerção. A informação permite perguntar quem sabe, quem ignora, quem transmite, quem oculta e quem interpreta. O posicionamento permite acompanhar deslocamentos, retiradas, ocupações e preservação de lugares no campo de ação. A relação torna visíveis dependências, alianças, lealdades, vínculos e antagonismos. A temporalidade impede que acontecimentos posteriores sejam devolvidos aos agentes como conhecimento antecipado. A continuidade permite observar aquilo que permanece disponível para novas ações depois que certas capacidades são perdidas. Essas modalidades se cruzam continuamente, mas não são intercambiáveis. A posse de informação não implica eficácia; uma posição institucional não garante eficácia; uma relação de dependência não produz necessariamente cooperação; uma ação eficaz não demonstra, por si mesma, intenção estratégica. A utilidade das categorias está em manter essas diferenças abertas.
Essa disciplina de leitura é especialmente importante porque a Tetralogia trabalha com fontes narrativas que já apresentam os acontecimentos sob formas de organização retrospectiva. O narrador conhece aquilo que os agentes ainda não conheciam; seleciona episódios; estabelece relações entre acontecimentos; oferece ao leitor informações que os personagens não possuem; e, sobretudo, atribui significado aos resultados. A análise histórica precisa resistir à tentação de transformar essa arquitetura narrativa em consciência antecipada dos agentes. O leitor sabe que Jesus será preso; os personagens de GUERRA não dispõem necessariamente dessa informação. O leitor conhece a destruição de Jerusalém; os agentes de MEMÓRIA viveram as incertezas que antecederam e acompanharam a catástrofe. O leitor conhece o desenvolvimento posterior das comunidades cristãs; os agentes de REINO não podiam simplesmente agir a partir desse futuro. O leitor conhece a forma final do Evangelho de João; isso não significa que os agentes apresentados pelo texto tenham acesso à perspectiva do narrador. A racionalidade histórica exige, portanto, separar o conhecimento retrospectivo do pesquisador das condições cognitivas atribuíveis aos agentes. Essa cautela é particularmente importante diante do risco de reconstruir como racionalidade aquilo que só se torna inteligível depois do resultado; a análise precisa considerar as informações efetivamente disponíveis, as alternativas reconhecíveis e as condições concretas nas quais a decisão foi tomada (REIS, 2000; 2002). Onde as fontes permitem reconstruir informação, expectativa e escolha, a análise pode avançar. Onde apenas o resultado está disponível, a intenção precisa permanecer uma hipótese controlada.
A mesma cautela vale para a distinção entre racionalidade, estratégia, eficácia, continuidade e significado. Racionalidade diz respeito à orientação inteligível da ação diante de uma situação concreta. Estratégia diz respeito à interdependência que surge quando a conduta leva em consideração a capacidade de resposta de outros agentes. Eficácia diz respeito aos efeitos efetivamente observáveis de uma ação. Continuidade diz respeito à preservação de recursos, vínculos, identidades ou capacidades para ações posteriores. Significado diz respeito às interpretações que podem ser elaboradas, disputadas e transformadas depois do acontecimento. Essas dimensões podem coincidir, mas não precisam fazê-lo. Uma ação pode ser racional e ineficaz; estratégica e mal-sucedida; eficaz em curto prazo e seguida por uma configuração inteiramente nova; destrutiva para um agente e geradora de recursos para outros; ou ainda produzir um resultado cujo significado histórico será elaborado apenas posteriormente. A distinção impede que o sucesso de uma ação seja tomado como prova de sua racionalidade e que uma consequência posterior seja devolvida ao momento inicial como se tivesse sido previamente calculada.
GUERRA fornece os exemplos mais claros dessa diferença porque acompanha agentes que atuam diante de ameaças concretas e respostas sucessivas. A retirada de Jesus para lugares isolados diante da crescente pressão provocada pela divulgação de suas curas pode ser compreendida como resposta a uma mudança no ambiente sem exigir que se atribua a ele um plano político completo. A formação dos Doze amplia a capacidade de circulação da mensagem sem significar que todos os agentes enviados atuarão de maneira idêntica. A atuação diante das multidões mobiliza recursos e riscos simultaneamente. Os exorcismos e as curas produzem efeitos corporais e sociais que ultrapassam o indivíduo atingido. A paixão demonstra, de maneira radical, que um agente pode perder sua capacidade corporal de intervenção e, ainda assim, deixar recursos simbólicos, relacionais e memoriais disponíveis para outros agentes. O ponto não está em transformar cada episódio em estratégia. Está em demonstrar, caso a caso, quando a relação entre ação, resposta e alteração das condições de ação permite falar em interdependência estratégica.
MEMÓRIA acrescenta uma dimensão que não poderia ser reduzida ao modelo de conflito imediato. Depois da destruição, certas capacidades desaparecem e outras ganham valor. Josephus precisa agir em condições que mudam radicalmente entre a guerra, a captura e a produção de sua obra; seu próprio relato permite acompanhar, ainda que mediado por uma narrativa retrospectiva, essa transformação de posições e possibilidades (JOSEPHUS, 1927–1928). Halbwachs permite aprofundar aqui a dimensão social da memória: lembrar não significa apenas conservar informação, mas fazê-lo dentro de quadros coletivos que selecionam, organizam e atualizam o passado (HALBWACHS, 1992). A memória coletiva não constitui simples depósito do passado: envolve seleção, preservação, transmissão e interpretação. A derrota permanece real, mas não encerra todas as possibilidades de ação. A informação sobre o passado pode tornar-se recurso; a interpretação pode disputar a leitura do acontecimento; a expectativa pode manter abertas possibilidades que a situação presente não realiza. O problema estratégico deixa de ser apenas como vencer uma confrontação e passa a incluir como conservar capacidade de agir depois que certas formas de ação foram destruídas. A continuidade, nesse caso, não significa restaurar aquilo que desapareceu, mas sustentar e reorganizar relações, narrativas e expectativas sob condições modificadas.
REINO amplia a análise porque mostra que a ação não ocorre apenas entre agentes que se enfrentam diretamente. Ela também transforma os campos nos quais esses agentes podem agir. Jesus não dispõe dos recursos institucionais do Templo ou de Roma, mas possui recursos de outra natureza: palavra, reconhecimento, mobilidade, discípulos, multidões, interpretação das Escrituras, curas, exorcismos e anúncio do Reino. Esses recursos adquirem valor conforme as relações nas quais são mobilizados. A multidão pode proteger e expor; a reputação pode ampliar o alcance e elevar o risco; uma intervenção localizada pode adquirir alcance institucional quando atinge um espaço de elevada concentração simbólica. Bourdieu é particularmente adequado para essa passagem porque permite analisar como diferentes formas de recurso adquirem valor conforme o campo e a posição ocupada pelo agente; Elias ajuda a impedir que esse campo seja concebido como uma estrutura estática, lembrando que as posições se constituem nas relações de interdependência entre os participantes (BOURDIEU, 1998; ELIAS, 1978). A ação junto ao Templo mostra que o conflito não é necessariamente inevitável desde o primeiro contato. O que ocorre é uma sucessão de ações e respostas na qual as alternativas disponíveis para os participantes podem se estreitar ou se ampliar. A paixão demonstra o resultado extremo dessa dinâmica, mas a própria execução deve ser analisada dentro da sequência de relações que a precede e das novas configurações que a sucedem.
LOGOS leva a distinção ao ponto em que a própria presença corporal do agente central deixa de estar disponível como recurso imediato de intervenção. Jesus pode ser preso, julgado e executado; Pilatos possui jurisdição e os soldados possuem força; Judas dispõe de informação situada sobre o grupo e seus movimentos, enquanto as autoridades possuem capacidade institucional de mobilização. Depois da morte, testemunho, memória, reconhecimento e comunidade tornam-se formas pelas quais outros agentes podem continuar agindo a partir dessa identidade. Halbwachs permite compreender a dimensão social da memória; Olson, a dimensão da cooperação e dos custos da ação coletiva; Elster, a relação entre escolhas individuais, interação e resultados contingentes (HALBWACHS, 1992; OLSON, 1965; ELSTER, 1989; 2015). O problema estratégico muda de sujeito porque muda o portador da capacidade de ação. A comunidade cristã não é simplesmente a continuação física de Jesus; é uma nova configuração de agentes que recebe uma identidade, interpreta um acontecimento, organiza formas de cooperação e passa a agir em circunstâncias que o fundador não encontrou. A guerra muda de sujeito, de campo e de escala.
Essa passagem é fundamental para compreender por que a continuidade constitui uma dimensão própria da ação estratégica. Um agente pode perder recursos sem perder todas as possibilidades de ação associadas àquilo que realizou. Um território pode ser perdido, mas a memória de uma comunidade pode sobreviver. Uma instituição pode ser destruída, mas testemunhos podem ser preservados. Um indivíduo pode morrer, mas sua identidade pode continuar orientando condutas de outros agentes. Isso não significa que a continuidade seja automática. Memória pode ser perdida; testemunhos podem desaparecer; comunidades podem se dispersar; identidades podem ser reinterpretadas; práticas podem ser abandonadas. A continuidade precisa ser sustentada por ações posteriores. O valor analítico da categoria está nessa transição: aquilo que permanece disponível depois de uma ruptura não é uma essência imutável, mas um conjunto de recursos, vínculos, informações e significados que novos agentes precisam mobilizar, conservar e transformar.
O problema torna-se especialmente nítido quando a ação deixa de depender de um único agente. Uma comunidade não existe apenas porque seus membros compartilham uma crença. Ela precisa organizar participação, sustentar práticas, transmitir informações, assumir custos, estabelecer formas de autoridade e manter bens compartilhados. A contribuição de Olson é especialmente útil nesse ponto: interesses comuns não eliminam o problema da participação, e a existência de um bem coletivo não garante que todos os que dele se beneficiam estarão igualmente dispostos a assumir os custos de sua sustentação (OLSON, 1965). A continuidade comunitária pressuposta pela Tetralogia, nesse sentido, não pode ser explicada apenas pela força interna de uma mensagem nem pela simples expansão de uma identidade. É necessário observar os agentes que transmitiram, ensinaram, acolheram, escreveram, viajaram, celebraram, sofreram, reorganizaram comunidades e formaram novos participantes. A dimensão coletiva da ação não elimina a agência individual; transforma suas condições. A ação de um indivíduo passa a depender da existência de relações capazes de sustentar, reproduzir ou contestar aquilo que ele faz.
A perspectiva de Elster torna especialmente clara a diferença entre escolha, interação e resultado. A Tetralogia não precisa converter seus personagens em jogadores de um modelo formal nem atribuir valores numéricos às suas preferências. O ganho está em perguntar quais alternativas estavam disponíveis, quais informações eram conhecidas, quais respostas eram possíveis e como a ação de um agente alterava a situação dos demais (ELSTER, 1989; 2015). Essa perspectiva permite reconhecer consequências não intencionais sem transformar toda consequência em acaso. Uma ação pode ser deliberada e ainda assim gerar efeitos que ninguém havia previsto. Uma reação pode ser previsível em termos gerais sem que sua forma concreta seja antecipada. Um agente pode agir racionalmente segundo suas informações e produzir um resultado que, retrospectivamente, parece inadequado. A racionalidade não desaparece porque a previsão falha; o que precisa ser abandonado é a identificação entre racionalidade e previsão perfeita.
A ação social tampouco se reduz à maximização instrumental. Agentes agem segundo sentidos, valores, expectativas, deveres, afetos, tradições e concepções de legitimidade; as formas de autoridade nas quais estão inseridos também fazem parte das situações em que suas escolhas se tornam inteligíveis. Weber permanece fundamental para a leitura proposta aqui porque mantém aberta a dimensão do sentido e das formas de autoridade (WEBER, 1978). A racionalidade estratégica empregada neste texto não precisa apagar essas dimensões para ser analiticamente útil. Ao contrário, precisa incorporá-las como parte da situação na qual as escolhas são feitas. Jesus não pode ser compreendido apenas pela pergunta sobre quais ações aumentariam sua sobrevivência; Pilatos não pode ser compreendido apenas como um maximizador abstrato de resultados; Josephus não pode ser reduzido à posição que ocupa em determinado momento; discípulos e comunidades não podem ser tratados como unidades indiferenciadas. A ação estratégica é sempre ação de agentes que atribuem sentido ao que fazem. O cálculo, quando existe, encontra-se inserido nesse universo de significados e restrições.
Nenhum desses autores precisa ser transportado integralmente para dentro da Tetralogia. O que interessa são os problemas que suas obras tornam mais visíveis. Weber mantém aberta a dimensão do sentido e das formas de autoridade; Elster torna mais nítida a relação entre escolha, informação, interação e consequências não intencionais; Bourdieu permite perceber que os recursos adquirem valor segundo os campos e as posições em que são mobilizados; Elias impede que essas posições sejam tomadas como propriedades estáticas, recolocando-as nas configurações de interdependência que as constituem; Olson chama atenção para as dificuldades próprias da ação coletiva; Halbwachs mostra que a memória permanece ligada aos grupos e aos quadros sociais que a sustentam; Reis acrescenta o controle epistemológico necessário para que racionalidade não se transforme em explicação retrospectiva dos resultados (WEBER, 1978; ELSTER, 1989; 2015; BOURDIEU, 1998; ELIAS, 1978; OLSON, 1965; HALBWACHS, 1992; REIS, 2000; 2002). A Tetralogia não precisa importar nenhuma dessas teorias como sistema fechado. Elas entram em momentos diferentes porque os próprios problemas examinados exigem perguntas diferentes. A unidade do procedimento não está, portanto, na aplicação uniforme de um conjunto de conceitos, mas na exigência de reconstruir com precisão as condições concretas nas quais os agentes agem.
A principal consequência dessa segunda leitura é uma mudança de escala analítica. A Tetralogia da Guerra Santa não deixa de investigar soberania, eficácia, derrota, memória, Reino e Logos. A leitura da ação mostra como esses processos se realizam por meio de agentes que possuem capacidades diferentes e que atuam em configurações nas quais as iniciativas de uns modificam as condições das iniciativas dos outros. A soberania não aparece apenas como propriedade formal de uma instituição; sua eficácia histórica pode ser investigada pelas capacidades efetivas de ordenar, punir, reconhecer, excluir ou mobilizar que determinadas posições institucionais tornam disponíveis. A eficácia diz respeito aos efeitos observáveis de ações concretas. A derrota não elimina necessariamente a capacidade de ação; pode reorganizar seus recursos. A memória não é apenas representação do passado; em determinadas configurações, pode constituir um recurso para novas ações. O Reino não é apenas anúncio de uma ordem futura; torna-se visível na reorganização concreta de relações, corpos, pertencimentos e critérios de autoridade. O Logos não é apenas uma afirmação cristológica; no interior da narrativa joanina, torna possível que a identidade continue reconhecível quando o agente corporal já não está presente.
Os quatro livros mostram, sob ângulos diferentes, que uma ação sempre se insere em relações já existentes e modifica as condições nas quais outras ações poderão ocorrer. Roma prende e executa Jesus; discípulos e testemunhas recebem o acontecimento e passam a agir a partir dele. Uma autoridade exclui alguém; a exclusão reorganiza relações que poderão gerar novas respostas. Um agente obtém uma informação e a utiliza; outros agentes respondem à iniciativa e alteram a situação. Uma comunidade preserva um testemunho; novos participantes recebem esse testemunho e o incorporam a práticas, vínculos e interpretações próprias. A análise estratégica acompanha precisamente essas passagens: quem age, em que condições, com quais recursos, diante de quais respostas e dentro de qual configuração histórica.
Essa conclusão também impõe um limite importante à própria categoria de estratégia. Se toda ação pudesse ser chamada estratégica depois do acontecimento, a categoria perderia valor explicativo. A interpretação precisa demonstrar a presença de interdependência, resposta, informação relevante, posicionamento ou adaptação. Quando esses elementos não podem ser sustentados pelas fontes, a análise deve permanecer no nível da ação observável e de seus efeitos. Quando podem ser demonstrados, a categoria estratégica acrescenta algo que a simples descrição não alcança: mostra como uma conduta se insere em uma situação na qual outros agentes possuem capacidade própria de modificar as condições da ação. A estratégia, portanto, não é uma característica permanente de Jesus, de Pilatos, de Josephus, das autoridades, dos discípulos ou das comunidades. É uma propriedade de certas situações relacionais.
A Tetralogia da Guerra Santa pode ser relida, então, como uma obra na qual a história se desenvolve pela transformação sucessiva das configurações nas quais agentes concretos precisam agir. GUERRA acompanha a ação diante do confronto; MEMÓRIA, a ação depois da ruptura; REINO, a ação que reorganiza relações e critérios de autoridade; LOGOS, a ação que preserva e disputa reconhecimento quando a presença corporal já não sustenta diretamente a intervenção. A unidade entre os quatro livros não depende de um mecanismo único. Ela aparece na recorrência de uma pergunta: o que os agentes conseguem fazer, em que condições, com quais recursos, diante de quais outros agentes, e como a resposta de uns transforma a situação na qual os demais continuarão a agir?
Agentes não são marionetes das estruturas, mas também não são soberanos de seus próprios resultados. Possuem recursos, reconhecem oportunidades, enfrentam restrições, interpretam informações, respondem a outros agentes, adaptam condutas, preservam capacidades e podem gerar efeitos que excedem suas intenções. As estruturas condicionam o campo da ação; as ações, por sua vez, modificam parcialmente esse campo. A história da Tetralogia da Guerra Santa aparece, sob essa segunda leitura, nesse intervalo: entre capacidades desiguais e respostas imprevisíveis, entre condições herdadas e possibilidades abertas, entre aquilo que um agente pode fazer e aquilo que os outros farão em resposta.
REFERÊNCIAS
BÍBLIA DE JERUSALÉM. Nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.
BOURDIEU, Pierre. Practical reason: on the theory of action. Stanford: Stanford University Press, 1998.
ELIAS, Norbert. What is sociology? New York: Columbia University Press, 1978.
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ELSTER, Jon. Explaining social behavior: more nuts and bolts for the social sciences. 2. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2015.
HALBWACHS, Maurice. On collective memory. Edited, translated, and with an introduction by Lewis A. Coser. Chicago: University of Chicago Press, 1992.
JOSEPHUS, Flavius. The Jewish War. Translated by H. St. J. Thackeray. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1927–1928. 3 v. (Loeb Classical Library).
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REIS, Fábio Wanderley. Sociologia Política, Ciência Política e “escolha racional”. Política & Sociedade, Florianópolis, v. 1, n. 1, 2002.
WEBER, Max. Economy and society: an outline of interpretive sociology. Edited by Guenther Roth and Claus Wittich. Berkeley: University of California Press, 1978. 2 v.