Estudos sobre Religião - Biblioblog

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Quando se pergunta pelo “Jesus histórico”, as parábolas ocupam um lugar singular. São talvez o material mais distintivo da tradição sinótica. Diferentemente dos ditos proféticos ou das controvérsias halákhicas, elas trazem a marca de uma imaginação própria: a de um contador de histórias que falava do Reino por meio de cenas da vida camponesa na Palestina do século I. Essa singularidade, porém, levanta um problema metodológico antigo: como chegar, a partir das narrativas dos evangelhos, ao Jesus que as contou, sem confundir a mediação literária com o acontecimento histórico e sem dissolver a agência do narrador na mera convenção de gênero? 


A matriz teórica que adoto oferece ferramentas fecundas para isso. Ao distinguir os níveis empírico, efetivo e real da realidade histórica, ao incorporar a Análise Crítica do Discurso (ACD) como dimensão analítica das mediações de poder e ao recorrer ao conceito de emergência social de R. Keith Sawyer para pensar a relação entre agente e estrutura, é possível reformular a questão em termos mais rigorosos. O objetivo deste texto é aplicar essa matriz ao tema “Jesus histórico: autor de parábolas”, em diálogo com a literatura recente. 

A tese do “No Quest” de Zeba Crook sustenta que, se a memória é reconstrução sujeita a distorções e não há critério seguro para separar lembrança de invenção, a busca pelo Jesus histórico estaria inviabilizada (CROOK, 2013). O diagnóstico, contudo, confunde a falibilidade da memória com a impossibilidade da investigação histórica. Tradições orais se mantiveram por milênios quando sustentadas por práticas sociais de salvaguarda e verificação cruzada. Isso indica que a transmissão não é um processo aleatório de corrupção, mas um processo socialmente condicionado, cujas condições podem ser investigadas. Além disso, a “distorção” raramente é só ruído: muitas vezes é trabalho ativo de atribuição de sentido. Os desvios, portanto, podem ser lidos como dados históricos, desde que se analise a relação entre fonte, tradição e pesquisador. 

1. O nível empírico: as parábolas como dados discursivos 

O ponto de partida são os textos. No nível empírico, encontramos as parábolas em Marcos, Mateus, Lucas, no material do Quarto Evangelho (no caso, miniaturas parabólicas como a do grão de trigo que morre para dar fruto, em João 12:24, ou da mulher que dá à luz em João 16:21) e, eventualmente, no Evangelho de Tomé. Há variantes textuais, diferenças de enquadramento narrativo, contextos de inserção distintos e um vocabulário moldado pelas convenções dos bioi antigos. 

A literatura recente insiste, com razão, que esse nível não é um repositório neutro de “ditos autênticos” à espera de extração. Ruben Zimmermann (2015) argumenta que o significado teológico de uma parábola não pode ser separado de sua forma parabólica. Cada fonte é um “texto de memória” que preservou e remodelou uma versão da parábola. A tarefa do intérprete, então, não é reconstruir uma suposta versão original, mas analisar como a parábola funciona em cada contexto literário. 

Amy-Jill Levine (2014) leva essa ênfase adiante ao situar as parábolas no mundo judaico do século I. Mostra como leituras alegóricas e antijudaicas distorceram sistematicamente seu sentido e como a recuperação dos contextos econômico, agrícola e social da Galileia é indispensável para ouvir a provocação original das histórias. Para Levine, as parábolas não são lições morais atemporais; são narrativas que desarmam expectativas e confrontam os ouvintes com outra visão da realidade social. 

Ernest van Eck (2025) desenvolve uma “leitura realista” centrada nas condições socioeconômicas da Palestina do primeiro século. Segundo ele, as parábolas pressupõem um mundo de camponeses, arrendatários, mercadores e trabalhadoras que serve de cenário concreto às histórias. Trata-se de um realismo que não é ingênuo: busca reconstruir o “mundo do texto” com base em evidências históricas e sociais, reconhecendo que as parábolas são ficções realistas e só funcionam retoricamente porque os ouvintes reconhecem nelas a própria vida material (VAN ECK, 2025). 

No nível empírico, portanto, os discursos organizam as parábolas de modos distintos, e a ACD acrescenta uma camada decisiva: esses discursos não são veículos neutros. Escolhas lexicais, enquadramentos, omissões e ênfases constroem versões do mundo social. Utami, Yulianto e Rustipa (2024) aplicam a ACD às parábolas de Mateus e mostram como o evangelista avalia o que Jesus diz, manifestando ideologia e poder. Outro estudo, sobre a parábola do servo incompassivo (Mt 18,23–35), argumenta que as escolhas linguísticas atribuídas a Jesus endossam ideologias sobre capitalismo, escravidão e desigualdade, ao mesmo tempo que promovem uma ética da misericórdia e do Jubileu. Esses trabalhos sugerem que a análise das parábolas não pode prescindir de uma hermenêutica atenta às relações de poder inscritas na linguagem. 

2. O nível efetivo: o acontecimento de Jesus contando parábolas 

Se o nível empírico nos dá os textos, o nível efetivo diz respeito aos acontecimentos que ocorreram, tenham sido ou não observados e registrados. A pergunta é: Jesus contava parábolas? E, se sim, que tipo de acontecimento foi esse? 

A hipótese mais plausível, sustentada pela convergência das fontes e pela plausibilidade contextual, é que Jesus foi um contador de parábolas. Isso não significa que cada parábola registrada remonte a ele na forma atual, nem que possamos reconstruir com certeza cada detalhe de sua performance oral. Significa que a existência de uma tradição parabólica diversificada, atestada em fontes independentes (Marcos, Q, o material próprio de Mateus e de Lucas e, possivelmente, Tomé), é mais bem explicada pela hipótese de que um agente histórico chamado Jesus usou esse tipo de discurso de forma marcante. 

Zimmermann rejeita tanto os critérios de autenticidade baseados em “ditos originais” quanto a dissolução da figura de Jesus na criatividade das comunidades. Para ele, as parábolas são “medidas da memória coletiva”: formas genéricas que moldam não apenas o que se lembra, mas também a identidade da comunidade que lembra (ZIMMERMANN, 2015). O acontecimento efetivo, portanto, não é apenas “Jesus disse X”, mas “Jesus disse X de uma forma que se tornou memorável e comunitariamente significativa”. 

Van Eck, por sua vez, entende as parábolas como “histórias de um profeta social”: elas pressupõem e intervêm em conflitos concretos sobre terra, dívida, honra e poder na Galileia. Nessa leitura, o acontecimento efetivo é a performance de um agente que, por meio de narrativas ficcionais, diagnostica e desafia as estruturas de opressão de seu tempo (VAN ECK, 2025). 


3. O nível real: mecanismos, estruturas e a emergência do discurso parabólico 

O nível real é o mais importante para a matriz realista crítica. Ele diz respeito às estruturas, aos mecanismos e aos poderes causais que tornam os acontecimentos possíveis e explicam sua ocorrência. Aplicado às parábolas, envolve: 

  • As estruturas sociais e econômicas da Galileia do século I: o sistema de arrendamento, a dívida camponesa, a produção agrícola, as relações de patronagem e as tensões entre camponeses e elites urbanas. 

  • As ordens do discurso disponíveis: os gêneros proféticos, sapienciais, apocalípticos e legais do judaísmo do Segundo Templo, que forneciam a Jesus um repertório de formas e temas. 

  • As intenções e disposições do agente Jesus: sua percepção da crise, sua leitura das Escrituras, sua visão do Reino. 

  • Os mecanismos de memória e transmissão que permitiram que as parábolas fossem preservadas, adaptadas e reinterpretadas pelas comunidades. 

É aqui que o conceito de emergência social de Sawyer (2005) se mostra útil. Para Sawyer, fenômenos coletivos emergem de processos de interação entre indivíduos e, uma vez estabilizados, passam a condicionar interações futuras. A transposição para as parábolas é heurística, e não uma demonstração, mas permite organizar o processo em cinco níveis: 

  1. Nível A (indivíduo): Jesus, com suas intenções, percepções e capacidades narrativas, conta parábolas em situações concretas. 

  1. Nível B (interação): As parábolas são contadas em interações com discípulos, adversários e multidões. O significado não é apenas produzido pelo narrador, mas negociado na interação. 

  1. Nível C (emergentes efêmeros): Dessas interações surgem efeitos imediatos: perplexidade, indignação, insight, identificação. Muitos desaparecem rapidamente. 

  1. Nível D (emergentes estáveis): Algumas parábolas se tornam padrões de recordação, formas típicas de contar a história de Jesus. São repetidas, adaptadas e combinadas com outras tradições. 

  1. Nível E (estrutura social): Com o tempo, essas formas estabilizadas passam a fazer parte da identidade e da prática das comunidades cristãs, integrando um “cânone” informal que estrutura a autocompreensão do movimento. 

Esse modelo evita duas reduções simétricas. De um lado, não trata as parábolas como meras ilustrações de ideias teológicas preexistentes, como se Jesus fosse apenas veículo de doutrinas. De outro, não as trata como criações arbitrárias de comunidades posteriores. A perspectiva da emergência social mostra que as parábolas são o resultado contingente de interações concretas que, sob certas condições, adquiriram estabilidade e eficácia histórica. 


4. A Análise Crítica do Discurso e as parábolas como prática de poder 

A ACD não é um apêndice metodológico: atravessa todos os níveis. As parábolas não apenas “representam” o mundo social; contribuem para constituí-lo. Ao narrar um samaritano como herói moral, um pai que acolhe o filho pródigo sem exigir reparação ou um administrador desonesto elogiado por sua astúcia, Jesus intervém em disputas discursivas sobre identidade, autoridade e legitimidade. 

A ACD permite perguntar: quem fala, de onde fala, com que autoridade, em que gênero, com que interesses e com que efeitos? Aplicada às parábolas, essa pergunta leva a: 

  • analisar como as parábolas posicionam Jesus como agente: profeta, mestre, sábio, provocador; 

  • examinar como os personagens são nomeados, qualificados e avaliados, e que categorias sociais são assim construídas ou subvertidas; 

  • identificar os intertextos bíblicos e a recontextualização de tradições proféticas e sapienciais; 

  • mostrar como as parábolas estabilizam memórias e constroem identidades coletivas; 

  • criticar os discursos da própria historiografia, incluindo as interpretações que transformam as parábolas em alegorias teológicas ou em lições moralizantes descontextualizadas. 

Levine faz, nesse sentido, uma ACD avant la lettre ao expor como leituras antijudaicas converteram o “legalismo” fariseu em contraponto negativo para a graça de Jesus. Recuperar o contexto judaico não é apenas questão de precisão histórica: é uma operação discursiva que desmonta uma economia de poder interpretativo. 

5. O Argumento para a Melhor Explicação (ABE) e as hipóteses concorrentes 

A matriz realista crítica exige que hipóteses históricas concorrentes sejam comparadas segundo critérios explícitos. Para isso, vale o Argumento para a Melhor Explicação (ABE), tal como discutido por Lipton (2004). No caso das parábolas, há quatro hipóteses principais: 

  • H1: Jesus foi um contador de parábolas cujas histórias, em núcleo, remontam a ele, mas foram radicalmente transformadas pela transmissão. Explica a atestação múltipla e a diversidade de formas, mas exige postular um alto grau de criatividade comunitária. 

  • H2: Jesus foi um contador de parábolas, e as parábolas preservadas refletem de perto suas performances originais, com adaptações menores. Explica a coerência temática e estilística, mas pode subestimar a reelaboração literária. 

  • H3: As parábolas são, em sua maior parte, criações das comunidades pós-pascais, projetadas retroativamente em Jesus. Explica a diversidade teológica, mas exige um número elevado de pressupostos ad hoc e tem dificuldade em explicar a presença de material parabólico disperso em fontes independentes. 

  • H4: Jesus foi um “profeta social” cujas parábolas visavam intervenções concretas em conflitos socioeconômicos. Explica o realismo socioeconômico das parábolas e sua força provocativa, mas pode reduzir a dimensão teológica a uma função política apenas. 

Antes de avaliá-las, é preciso reconhecer uma fragilidade. Boa parte do material exclusivo de Lucas (a chamada fonte L, ou Sondergut lucano) é atestada uma única vez. Nesses casos, o critério da atestação múltipla não decide nada, nem a favor de H1 ou H2, nem contra H3. Isso muda o peso da argumentação: ela precisa apoiar-se em outros critérios, como coerência interna, coloração contextual e tensão com a redação lucana. Mas pesquisadores divergem sobre o peso de cada um dos critérios, não há um dispositivo algorítmico que pondera os pesos entre estes critérios. Eles orientam a escolha, mas não a determinam. Por isso, a argumentação deve explicitar a ponderação.  

Aplicando os cinco critérios do ABE (escopo explicativo, poder explicativo, plausibilidade, menor dependência de hipóteses ad hoc e capacidade iluminadora), uma versão da hipótese H2 que reconheça um núcleo histórico substancial parece explicar melhor o conjunto das evidências. Ela dá conta da coerência entre as parábolas e o contexto judaico-galileu, da força retórica das histórias e de sua capacidade de iluminar outros aspectos da atividade de Jesus, como sua crítica ao Templo, sua mesa com pecadores e sua visão do Reino. A diferença entre H2 e H1 moderada é, afinal, de grau, e não é necessário decidi-la aqui. Zimmermann oferece uma versão sofisticada dessa posição: ao recusar a alternativa entre “autêntico” e “inautêntico” e propor uma análise da dinâmica do discurso parabólico, o que importa não é isolar um ditado original, mas compreender como a forma parabólica, em suas múltiplas realizações, dá acesso a uma prática histórica de contar histórias que transformou a memória de Jesus (ZIMMERMANN, 2015). 

5.1. O caso das parábolas exclusivas de Lucas 

Quando se afirma que as parábolas exclusivas de Lucas seriam criações da comunidade primitiva, com base na ausência de atestação múltipla, o argumento revela uma fragilidade de princípio: a ausência de paralelos não prova criação. 

A fonte L não é um bloco homogêneo de invenção lucana. Suas parábolas formam um conjunto com coerência temática em relação ao núcleo da mensagem de Jesus atestado em Marcos e Q: a busca dos perdidos (Lc 15), a crítica à riqueza e à autossuficiência religiosa (Lc 12,13–21; 16,19–31; 18,9–14) e a inclusão de marginalizados e estrangeiros (Lc 10,25–37; 14,15–24). Além disso, trazem colorido palestino: práticas agrícolas, relações de patronagem, costumes jurídicos e sociais do judaísmo do Segundo Templo. 

A objeção mais séria é que Lucas é um redator com estilo próprio, e é perfeitamente possível que tenha composto ou reescrito parábolas em sua linguagem e teologia. Há estudos que apontam, no material exclusivo de Lucas, traços lexicais e temáticos que destoam da redação lucana típica. Mas essa conclusão depende de uma avaliação do estilo de Lucas que não é consensual. O que se sustenta aqui é, portanto, mais modesto: a análise de estilo e de conteúdo torna a hipótese de criação integral pela comunidade menos econômica, mas não a torna descartável. 

Algumas dessas histórias são também difíceis de conciliar com a ética que se esperaria de uma comunidade interessada em legitimar seus líderes. O filho pródigo (Lc 15,11–32) apresenta um pai que antecipa a partilha da herança, gesto de desprezo, corre ao encontro do filho, atitude indigna de um patriarca no contexto da honra mediterrânea, e o restaura sem reparação ou penitência formal. A parábola do administrador desonesto (Lc 16,1–8) é ainda mais problemática: seu protagonista é elogiado por astúcia num esquema de fraude financeira. Não é fácil imaginar por que uma comunidade preocupada com a ética econômica e com a reputação de seus líderes criaria um herói fraudador. Convém, contudo, não sobrecarregar o critério do embaraço. A corrida do pai pode ter sido também elaborada teologicamente, e a parábola do administrador é notoriamente difícil de interpretar, o que a torna controversa em si mesma. O argumento reforça a hipótese, mas não a decide sozinho. 

Nesse quadro, a hipótese da criação comunitária (H3) tem escopo explicativo limitado. Ela explica a ausência de paralelos sinóticos, mas não a coerência temática com o Jesus histórico, nem o caráter desconfortável de certos elementos, nem a coloração palestina. A hipótese da autenticidade mediada pela fonte L (H2 ou H1 moderada) explica um conjunto mais amplo de dados. Ainda assim, ela tem seu próprio pressuposto, a saber, que a fonte L preservou material antigo e esse pressuposto precisa ser justificado caso a caso. 

A ACD acrescenta uma pergunta decisiva: quais interesses de poder e de identidade estariam em jogo na criação comunitária dessas parábolas? Se a comunidade as inventasse, esperaríamos que elas promovessem a autoridade de seus líderes, legitimassem a missão aos gentios ou resolvessem controvérsias internas. Parábolas como a do fariseu e do publicano (Lc 18,9–14), no entanto, condenam justamente a autossuficiência religiosa, tema que poderia ser tão incômodo para líderes cristãos quanto para fariseus. A do rico insensato (Lc 12,13–21) adverte contra o acúmulo de bens, mensagem potencialmente subversiva em comunidades que começavam a se institucionalizar e a lidar com membros mais abastados. 

Snodgrass (2008), em resposta direta a Meier (1994), afirma: “ninguém estava contando parábolas narrativas como as de Jesus, certamente não na igreja e nem nas parábolas rabínicas primitivas. Se Jesus não contou essas parábolas, quem as contou?”. A afirmação precisa de qualificação. As parábolas rabínicas (mashal) são numerosas e frequentemente narrativas, de modo que o contraste com Jesus está menos na forma do que na função e na autoridade com que as histórias são usadas. Como argumento sobre a relativa raridade do gênero nas comunidades, a objeção é forte; como prova de exclusividade, é mais frágil. Ainda assim, a proposta de atribuir integralmente essas parábolas à comunidade só se sustenta se postular uma criatividade comunitária singularmente extraordinária e seletivamente autocrítica, o que é difícil de justificar. 

Isso sugere que a precisão da transmissão depende menos de uma memória individual excepcional do que de estruturas sociais de lembrança. As comunidades que preservaram as parábolas contavam com mecanismos de verificação cruzada entre gerações. A forma parabólica, com sua estrutura memorável e sua força retórica, funciona como um desses dispositivos: uma história bem contada se preserva mais facilmente do que um ditado abstrato. As diferentes versões de uma parábola, como a dos talentos (Mt 25,14–30) e a das minas (Lc 19,11–27), não são necessariamente “corrupções” de um original, mas realizações concretas de um mesmo campo de possibilidades em contextos interacionais distintos. 

As parábolas não são apenas histórias sobre o Reino; são formas de premediação que tornam o Reino pensável e memorável para seus ouvintes. A parábola do bom samaritano articula a memória da hostilidade entre judeus e samaritanos com a exigência ética do amor ao próximo, produzindo uma reconfiguração das identidades coletivas. Do mesmo modo, a parábola do juiz iníquo e da viúva persistente articula a memória da opressão judicial com a da resistência persistente, abrindo espaço para que comunidades marginalizadas se identifiquem com a viúva e nela encontrem um modelo de agência. 

Quando as comunidades pós-pascais reinterpretam a história de Jesus à luz da ressurreição, fazem-no por meio de remediações dessas formas: as parábolas são relidas, recombinadas e inscritas em novos gêneros, como os evangelhos. A força com que algumas delas foram preservadas, sobretudo as que tratam de perda, crise e restauração (o filho pródigo, o bom samaritano, a viúva persistente), pode ser entendida não apenas como fidelidade histórica, mas também como necessidade de elaborar uma identidade marcada por um evento fundacional traumático (a crucificação) e por uma expectativa não cumprida (a parusia). Trata-se de uma hipótese de trabalho, sendo que as parábolas sugerem essa explicação, mas não a demonstram. 


6. Metacrítica: os pressupostos ocultos na pesquisa sobre as parábolas 

A metacrítica realista exige que o pesquisador examine os próprios pressupostos. No estudo das parábolas, dois riscos simétricos se apresentam. 

O primeiro é o risco da alegorização teológica. Interpretar as parábolas como veículos de doutrinas cristãs posteriores (a expiação, a justificação pela fé, a Igreja como novo Israel) pode apagar a especificidade histórica das histórias e projetar no século I categorias que só fazem sentido no século II ou IV. Levine documenta amplamente esse risco. 

O segundo é o risco do reducionismo socioeconômico. Reduzir as parábolas a reflexos de conflitos de classe ou de interesses econômicos pode apagar a dimensão teológica que lhes é intrínseca. Van Eck, embora insista no realismo socioeconômico, mostra que o mundo material é o meio pelo qual a mensagem do Reino ulterior se torna palpável. 

6.1. Memória de longa duração e dois preconceitos simétricos: Nunn e Reid 

Nunn e Reid (2016) documentam casos em que tradições orais preservaram memórias por milênios, quando sustentadas por práticas culturais de salvaguarda. A metacrítica deve usar esse dado contra dois preconceitos simétricos. 

O primeiro é o preconceito cético: supor que a oralidade se degenera rapidamente e que, portanto, tudo o que não tem atestação múltipla é criação comunitária. Nunn e Reid mostram que essa premissa é historicamente ingênua, pois a durabilidade depende de estruturas sociais de lembrança, não de uma suposta fragilidade intrínseca da oralidade. 

O segundo é o preconceito credencialista, que aqui designa a confiança ingênua na tradição: supor que, porque a oralidade pode ser durável, é possível recuperar na tradição parabólica o que remontaria ipsis verbis a Jesus. A metacrítica realista exige reconhecer que a durabilidade é contingente e socialmente condicionada. A pergunta não é “a oralidade é confiável?”, mas “quais práticas de transmissão, verificação cruzada e autoridade narrativa estavam em jogo?”. Isso desloca a discussão da alternativa estéril entre “autêntico” e “inventado” para a investigação dos mecanismos sociais de preservação e transformação. Em outras palavras, a questão não é “memória individual falha versus fonte escrita confiável”, mas quais instituições sociais de memória estabilizam o conhecimento. 

6.2. Premediação e os conceitos do historiador: Erll 

Astrid Erll (2009) mostra que as formas culturais disponíveis premedeiam o que pode ser experienciado e lembrado. A metacrítica deve aplicar essa lição ao próprio vocabulário da pesquisa. Categorias como “parábola”, “autêntico”, “criação comunitária”, “tradição oral”, “gênero literário” e “memória social” são formas premediadoras que organizam o campo do visível e do dizível. A variação e a reelaboração não provam que a memória é “inventada”; mostram que ela é relacional e intersubjetiva, produzida na interação entre narrador, ouvinte, comunidade, suporte material e contexto. 

6.3. Pós-memória e os afetos herdados: Hirsch e Rothberg 

Marianne Hirsch (2012) mostra que a pós-memória é a estrutura pela qual gerações posteriores se relacionam com traumas que não viveram diretamente, mas que lhes foram transmitidos por imagens, objetos, histórias e silêncios. A metacrítica do estudo das parábolas precisa reconhecer que o campo é atravessado por memórias herdadas, que podem estruturar a experiência e a identidade dos descendentes com grande intensidade. 

Michael Rothberg (2009) propõe que a memória é multidirecional: lembranças de diferentes eventos e grupos podem articular-se produtivamente, gerando novas formas de solidariedade e identificação. Para Rothberg, a memória é um espaço de negociação entre versões do passado, no qual conflitos e solidariedades podem emergir justamente da circulação de narrativas. 

Rothberg permite perguntar: que memórias estou colocando em relação? A parábola do bom samaritano pode ser lida como articulação entre a memória da hostilidade étnica e a memória da exigência ética de hospitalidade. A metacrítica consiste em analisar como o próprio pesquisador articula memórias e que efeitos de poder essa articulação produz. 

6.4. Protocolo metacrítico para o estudo das parábolas 

A metacrítica realista não procura destruir a confiança na tradição nem dissolvê-la em pura invenção comunitária. Procura impedir que essa tradição seja convertida em premissa de exclusão, seja para negar a singularidade de Jesus, seja para isolá-lo de seu contexto judaico. Procura também tornar visíveis as tensões internas, as vozes silenciadas e os efeitos de poder que atravessam tanto as parábolas quanto a historiografia que as interpreta. O historiador, ao comparar hipóteses, não está fora do processo mnemônico: participa dele, negociando sentidos com as fontes. 


Considerações finais 

A durabilidade da tradição oral não é nem automática nem impossível. Depende de práticas sociais concretas de salvaguarda, verificação cruzada e autoridade narrativa, o que impede tanto o ceticismo apressado quanto a confiança ingênua. Ao mesmo tempo, o testemunho que chega até nós é co-construído na relação entre fonte, tradição e pesquisador, de modo que reconstruir o “núcleo histórico” é também uma prática de epistemologia da memória. 

A memória pode ser socialmente transmitida e historicamente significativa mesmo sem correspondência biográfica direta, sem que isso a reduza a invenção arbitrária. A pergunta “Jesus histórico: autor de parábolas?” não admite resposta binária. A matriz do Realismo Crítico, complementada pela ACD e pela teoria da emergência social, permite formulá-la com mais precisão: que combinação de acontecimentos, estruturas, interações e mecanismos discursivos explica melhor a existência da tradição parabólica tal como a encontramos? 

A hipótese de uma origem histórica em Jesus não é incompatível com o reconhecimento de sua profunda reelaboração comunitária. A questão não é escolher entre “autenticidade” e “criatividade”, mas entender como um núcleo de performances parabólicas foi progressivamente inscrito em uma ecologia de práticas mnemônicas que o preservou, transformou e tornou significativo para comunidades em formação. As parábolas são, nesse sentido, um testemunho privilegiado da emergência social da memória. Elas surgem de interações concretas, estabilizam-se em formas narrativas e, uma vez estabilizadas, passam a condicionar a maneira como as comunidades posteriores recordam, interpretam e vivem sua identidade. 

A hipótese mais plausível é que Jesus foi um agente histórico que, em interações concretas na Galileia do século I, contou histórias que mobilizavam linguagens proféticas, sapienciais e apocalípticas disponíveis. Histórias cuja matriz é o ambiente de vida dos ouvintes. Essas histórias, por sua força retórica e por sua ressonância com a experiência dos ouvintes, adquiriram estabilidade na memória das comunidades, foram reinterpretadas e transmitidas, e chegaram até nós como os textos que chamamos de parábolas. 

Isso não significa que tenhamos acesso direto às parábolas “originais”. Significa que a tradição parabólica é uma mediação que nos permite reconstruir, com maior ou menor grau de confiança, um aspecto central da atividade de um agente histórico real. As parábolas não são nem janelas transparentes para o Jesus histórico, nem cortinas que nos impedem de vê-lo. São, como todo discurso, práticas sociais que medeiam o acesso a uma realidade que não se reduz a elas. E é justamente por isso que continuam a nos provocar. 


Referências 

CROOK, Zeba A. Collective memory distortion and the quest for the historical Jesus. Journal for the Study of the Historical Jesus, v. 11, n. 1, p. 53-76, 2013. 

DU TOIT, Charel D.; VAN ECK, Ernest. Unhiding female characters in the parable of the sower: Reimagining fields and farms. Verbum et Ecclesia, v. 46, n. 1, p. 3442, 2025.  

ERLL, Astrid. Remembering across time, space, and cultures: premediation, remediation and the “Indian Mutiny”. In: ERLL, Astrid; RIGNEY, Ann (ed.). Mediation, remediation, and the dynamics of cultural memory. Berlin: De Gruyter, 2009. 

GANIYU, S. O. A Critical Discourse Analysis of Jesus’ Parable of the Unforgiving Servant. IWEMI, [s. d.]. Disponível em: https://www.iwemi.com/a-critical-discourse-analysis-of-jesus-parable-of-the-unforgiving-servant. Acesso em: 20 out. 2026.  

HIRSCH, Marianne. The generation of postmemory: writing and visual culture after the Holocaust. New York: Columbia University Press, 2012. 

LEVINE, Amy-Jill. Short stories by Jesus: the enigmatic parables of a controversial rabbi. New York: HarperOne, 2014. [O texto cita edição de 2024; conferir a edição utilizada.] 

LIPTON, Peter. Inference to the best explanation. 2. ed. London: Routledge, 2004. 

MEIER, John P. A marginal Jew: rethinking the historical Jesus. v. 2: Mentor, message, and miracles. New York: Doubleday, 1994. 

NUNN, Patrick D.; REID, Nicholas J. Aboriginal Memories of Inundation of the Australian Coast Dating from More than 7,000 Years Ago. Australian Geographer, v. 47, n. 1, p. 11–47, 2016. https://doi.org/10.1080/00049182.2015.1077539.  

ROTHBERG, Michael. Multidirectional memory: remembering the Holocaust in the age of decolonization. Stanford: Stanford University Press, 2009. 

SAWYER, R. Keith. Social emergence: societies as complex systems. Cambridge: Cambridge University Press, 2005. 

SNODGRASS, Klyne. Stories with intent: a comprehensive guide to the parables of Jesus. Grand Rapids: Eerdmans, 2008. [Conferir a obra e a página da citação; o link original aponta para volume da Brill.] 

UTAMI, Neiva Cahya; YULIANTO, Henrikus Joko; RUSTIPA, Katharina. Manifestation of Ideology and Power in Matthew’s Parables: Investigation of Appraisal in View of Critical Discourse Analysis. English Education Journal, v. 14, n. 1, 2024.  https://journal.unnes.ac.id/journals/eej/article/download/13490/2006/46490. 

ZIMMERMANN, Ruben. Puzzling the parables of Jesus: methods and interpretation. Grand Rapids: Baker Academic, 2015. [Edição espanhola revista: Enigmáticas parábolas de Jesús, 2024; completar editora.] 


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