Estudos sobre Religião - Biblioblog

quarta-feira, 2 de setembro de 2026




RESUMO

O Decreto Apostólico de Atos 15 constitui uma das primeiras formulações normativas destinadas a regular a incorporação de gentios ao movimento de Jesus. Este artigo investiga historicamente a relação entre as quatro prescrições do Decreto — abstinência das coisas sacrificadas aos ídolos, do sangue, dos animais sufocados e da porneia — e a formação das fronteiras de pertencimento no cristianismo antigo. Parte-se da distinção entre recepção textual, recepção normativa e prática comunitária, evitando identificar automaticamente a existência de uma norma com sua observância universal. Argumenta-se que a unidade histórica das quatro prescrições não depende necessariamente de uma origem genealógica comum, podendo estar relacionada à sua seleção conjunta para responder ao problema da convivência entre judeus e gentios. O testemunho paulino permite observar que questões relacionadas à participação em práticas cultuais e alimentares do mundo pagão já constituíam problemas concretos de convivência comunitária; a documentação cristã posterior permite acompanhar formas desiguais de continuidade normativa e prática, enquanto a literatura apologética evidencia a transformação de determinadas diferenças comportamentais em elementos de identidade pública. Sustenta-se, por fim, que o Decreto não criou uma identidade cristã gentílica já constituída, mas ofereceu uma solução normativa mínima que tornou socialmente possível uma forma específica de pertencimento: o gentio podia integrar-se à comunidade de Jesus sem converter-se ao judaísmo e, simultaneamente, sem permanecer simplesmente identificado às práticas religiosas do mundo pagão.

Palavras-chave: Decreto Apostólico; Atos 15; gentios; cristianismo antigo; identidade religiosa; fronteiras de pertencimento.


1 INTRODUÇÃO

O problema do gentio: entre judaísmo e paganismo

O chamado Decreto Apostólico de Atos 15 ocupa uma posição singular na história do movimento de Jesus. A decisão atribuída à assembleia de Jerusalém estabelece um conjunto restrito de prescrições dirigidas aos gentios: a abstinência das coisas sacrificadas aos ídolos, do sangue, dos animais sufocados e da porneia. Qualquer tentativa de compreender historicamente essas quatro determinações, contudo, precisa evitar uma dupla redução. De um lado, não é suficiente tratá-las simplesmente como um código moral embrionário do cristianismo posterior; de outro, tampouco basta reconstruir sua possível origem judaica sem procurar compreender o que ocorreu quando essas normas passaram a circular entre comunidades concretas, compostas também por não judeus. O problema histórico, portanto, não termina com a identificação das prescrições. Começa, em certo sentido, justamente aí: que tipo de pertencimento se tornava possível quando um gentio podia integrar-se ao movimento de Jesus sem assumir integralmente a identidade judaica, mas também sem continuar simplesmente inserido nas práticas religiosas do mundo pagão?

A historiografia sobre o Decreto Apostólico percorreu caminhos distintos. Parte da discussão concentrou-se na relação das quatro prescrições com Levítico 17–18 e com tradições judaicas relativas aos estrangeiros residentes; outra linha procurou compreendê-las no contexto mais amplo das condições de incorporação dos não judeus ao movimento de Jesus. A comparação com tradições posteriormente associadas às chamadas leis noáquicas também produziu hipóteses relevantes, embora sua aplicação direta ao primeiro século exija cautela. Estudos sobre o contexto e a composição do Decreto procuraram explicar tanto sua relação com tradições legais judaicas quanto sua função diante do problema da incorporação dos gentios (Callan, 1993; Bauckham, 1996). Neste sentido, uma questão particularmente fecunda é compreender o que acontece quando essas prescrições deixam de ser apenas uma decisão normativa e passam a orientar práticas pelas quais os membros de uma comunidade podem ser reconhecidos como pertencentes a ela. É precisamente neste ponto que a discussão sobre Atos 15 pode dialogar com estudos contemporâneos sobre identidade religiosa e construção de fronteiras. Judith Lieu demonstrou a importância das práticas, dos limites, da corporeidade e da representação do “outro” na construção da identidade cristã (Lieu, 2004); Paul Trebilco chamou atenção para a função das designações de pertencimento e exterioridade e para a construção social das fronteiras entre grupos (Trebilco, 2017); estudos sobre identidades pagãs e cristãs insistem, por sua vez, na natureza fluida, negociada e contextual dessas categorias (Ritari; Stenger; Van Andringa, 2023). O que essas perspectivas permitem perceber é que a pergunta pode ser deslocada. Em vez de procurar apenas saber se os cristãos obedeceram ao Decreto, podemos perguntar que tipos de diferença suas prescrições tornavam possíveis e de que maneira essas diferenças podiam participar da formação dos vínculos de pertencimento.

A hipótese deste estudo é que o Decreto Apostólico não criou uma identidade cristã gentílica já pronta, nem constitui um código completo da moral cristã posterior. Ele estabeleceu uma solução normativa para um problema específico de pertencimento e, ao selecionar determinados comportamentos como condições da convivência comunitária, participou da formação de uma forma específica de pertencimento cristão entre os gentios. O testemunho paulino permite observar que problemas relacionados à alimentação, ao culto e à sociabilidade já eram negociados em comunidades cristãs inseridas no ambiente greco-romano; a recepção posterior demonstra continuidade da memória normativa e observância desigual de algumas de suas prescrições; determinadas práticas, sobretudo nos domínios do culto, da alimentação e da sexualidade, passaram a desempenhar funções de diferenciação social. A literatura apologética não reproduz simplesmente o Decreto, mas transforma determinados elementos dessa diferença em linguagem pública de autodefinição. Não se pretende, portanto, substituir as interpretações genealógicas e normativas existentes, mas colocá-las em diálogo com uma abordagem histórica e sociológica da prática e da identidade. A sequência investigativa será, assim, acontecimento histórico → prática comunitária → diferenciação social → construção identitária → discurso público. Essa sequência, contudo, não deve ser entendida como uma cadeia causal mecânica. Nem toda norma produz automaticamente uma prática; nem toda diferença produz conflito; nem toda formulação apologética deriva diretamente de uma norma anterior. Trata-se, antes, de acompanhar as diferentes etapas pelas quais uma decisão normativa pode participar da formação histórica das fronteiras de pertencimento.


2 O DECRETO: UMA SOLUÇÃO PARA A INCORPORAÇÃO DOS GENTIOS

O problema que conduz Atos 15 é conhecido: como incorporar os gentios ao movimento de Jesus sem exigir deles a conversão ao judaísmo? A questão não era secundária. Circuncisão, observância da Lei e mesa compartilhada não eram simplesmente temas internos de disciplina religiosa. Envolviam fronteiras étnicas, práticas corporais, alimentação, sociabilidade e reconhecimento comunitário. A controvérsia em torno dos gentios obrigava o movimento de Jesus a responder a uma questão que não podia ser resolvida apenas pela afirmação de que Deus havia acolhido também os não judeus. Era necessário definir sob quais condições esse acolhimento poderia assumir uma forma comunitária estável. É nesse contexto que o Decreto deve ser lido. A decisão não determina aos gentios a observância integral da Torah. Tampouco os deixa completamente sem obrigações. Entre a conversão ao judaísmo e a liberdade absoluta diante das práticas anteriores, estabelece-se uma terceira possibilidade: o gentio pode entrar na comunidade sem tornar-se judeu, mas sua entrada implica determinadas rupturas comportamentais. A interpretação do Decreto como resposta ao problema da incorporação dos gentios constitui, neste sentido, uma das linhas importantes da discussão sobre Atos 15 (Bauckham, 1996; Callan, 1993).

Essa estrutura é historicamente significativa. O Decreto não apresenta uma legislação completa sobre a vida cristã. Ele seleciona quatro campos específicos de comportamento e os transforma em condições de convivência. A proibição das coisas sacrificadas aos ídolos atinge simultaneamente culto, alimentação e sociabilidade. A abstinência de sangue estabelece uma fronteira alimentar e corporal. A proibição dos animais sufocados pertence ao mesmo universo alimentar, embora sua interpretação e sua permanência histórica sejam mais complexas. A porneia, por sua vez, introduz uma fronteira relacionada ao corpo, à sexualidade e às relações sociais. A unidade documental do Decreto não implica necessariamente unidade genealógica das quatro prescrições. Elas podem ter histórias anteriores distintas e podem ter sido reunidas precisamente porque, no contexto da incorporação dos gentios, respondiam a problemas concretos de convivência. A pergunta histórica não precisa, portanto, restringir-se a “de onde vieram as quatro prescrições?”. É igualmente necessário perguntar por que foram selecionadas juntas naquele contexto. Essa distinção é importante porque permite evitar uma falsa alternativa. Não precisamos demonstrar que todas as quatro prescrições nasceram naquele momento para reconhecer que sua seleção possuía uma função histórica específica. O significado do Decreto está também no ato de selecionar, reunir e dirigir essas normas aos gentios.

Temos, portanto, uma incorporação seletiva. O gentio entra, mas entra sob determinadas condições. Não se exige dele uma transformação integral de identidade religiosa; exige-se, porém, uma transformação suficientemente concreta de comportamento para tornar possível sua participação na comunidade. A questão que se abre é precisamente a seguinte: que tipo de pertencimento se torna possível quando a entrada na comunidade exige diferenciação sem conversão integral ao judaísmo?


3 DA NORMA À PRÁTICA

Uma das maiores dificuldades para a reconstrução histórica do Decreto está na tendência de transformar sua existência documental em prova automática de sua observância. O fato de uma norma ter sido estabelecida não demonstra que tenha sido universalmente praticada. Da mesma forma, a presença posterior de determinada prática entre cristãos não demonstra, por si só, que ela tenha sido adotada em razão de Atos 15. Cumpre, portanto, distinguir três níveis diferentes: recepção textual, recepção normativa e prática comunitária. A primeira diz respeito ao conhecimento e à transmissão da decisão apostólica. A segunda refere-se ao reconhecimento de sua autoridade. A terceira pergunta se determinada norma efetivamente orientava comportamentos concretos. Essa distinção torna-se fundamental quando acompanhamos a documentação cristã dos séculos seguintes.

Essa distinção entre norma e prática pode ser aprofundada quando observamos que o problema das relações entre pertencimento cristão e práticas associadas ao culto dos ídolos já aparece, em uma fonte paulina, como questão concreta de convivência comunitária. Em 1 Coríntios 8–10, Paulo discute a participação dos cristãos em situações nas quais alimentos sacrificados aos ídolos podiam integrar refeições e formas de sociabilidade. Seu argumento não reproduz o Decreto de Atos 15 e não permite estabelecer uma dependência textual entre a correspondência paulina e a decisão de Jerusalém. O interesse histórico da passagem é outro: ela demonstra que a relação entre fé cristã, alimentação, culto e participação social no ambiente pagão já constituía um problema prático dentro do movimento de Jesus. A discussão envolve tanto a possibilidade de comer alimentos associados aos sacrifícios quanto os limites da participação em refeições cultuais. Em 1 Coríntios 10, particularmente, Paulo estabelece uma fronteira mais nítida diante da participação no culto pagão, enquanto em outros contextos admite que alimentos encontrados no mercado ou oferecidos em determinadas refeições não sejam tratados da mesma maneira. A questão, portanto, não é simplesmente alimentar. Ela envolve culto, consciência, sociabilidade e definição dos limites da participação cristã no ambiente religioso circundante. Estudos sobre 1 Coríntios 8–10 destacam precisamente a dimensão comunitária, social e cultual desse problema (Gooch, 1993; Fotopoulos, 2003).

O testemunho paulino é particularmente importante para o argumento deste estudo porque permite distinguir duas operações históricas que não devem ser confundidas: a existência de um problema prático e sua posterior formulação normativa. 1 Coríntios 8–10 documenta a negociação comunitária de uma fronteira relacionada ao culto e à alimentação; Atos 15 apresenta uma decisão normativa dirigida aos gentios. A relação histórica entre esses dois testemunhos não precisa ser reduzida a uma genealogia direta para que ambos sejam relevantes. Paulo mostra o problema vivido; Atos 15 mostra uma forma institucional de responder a problemas desse universo. Essa aproximação não significa afirmar que Paulo esteja aplicando o Decreto ou que Atos 15 tenha simplesmente codificado a posição paulina. Significa reconhecer que o problema da participação gentílica em práticas sociais e cultuais do mundo pagão já possuía uma dimensão concreta antes de sua posterior recepção normativa. É precisamente essa passagem — da experiência concreta à formulação normativa, e depois da norma à recepção e à prática — que permite compreender por que as prescrições do Decreto podem adquirir importância sociológica sem serem tratadas como um código cuja observância tenha sido uniforme.

Clemente de Alexandria, no final do século II e início do III, conhece a tradição da carta apostólica dirigida às comunidades gentílicas e preserva as quatro prescrições (Paedagogus, II, 7, 56, 2). Seu testemunho é particularmente importante porque demonstra que o Decreto não desaparecera da memória normativa cristã e continuava associado à decisão apostólica. Clemente demonstra, portanto, que a tradição do Decreto continuava presente na memória normativa cristã; não demonstra, por si só, a observância universal das prescrições. Irineu também conhece a decisão de Jerusalém, embora a forma do Decreto preservada em sua citação apresente características associadas à tradição textual ocidental, na qual a referência aos animais sufocados não aparece e surge, em seu lugar, a formulação da chamada Regra de Ouro negativa (Adversus haereses, III, 12). O interesse de Irineu está justamente aí: sua versão do texto mostra que a tradição do Decreto não circulou de maneira absolutamente uniforme. Irineu, portanto, não é utilizado como prova adicional de que todas as quatro prescrições fossem observadas, mas como controle documental contra uma reconstrução excessivamente homogênea da tradição.

Tertuliano fornece evidências de natureza diferente. Em De pudicitia (12), invoca explicitamente a decisão apostólica relativa aos gentios e associa sua autoridade à abstinência de sacrifícios, fornicação e sangue. Em Apologeticum (9), por outro lado, descreve a abstinência cristã do sangue animal e de animais sufocados como uma prática observada pelos cristãos. As duas passagens são, portanto, complementares: a primeira documenta a recepção normativa do Decreto; a segunda documenta a existência de uma prática alimentar compatível com algumas de suas prescrições. Entretanto, mesmo aqui é necessário evitar uma conclusão excessiva. Tertuliano demonstra a importância normativa da abstinência de sangue em seu contexto e documenta práticas alimentares compatíveis com o Decreto, mas não prova que toda prática cristã posterior de abstinência tenha sua origem direta em Atos 15. A documentação relativa às comunidades cristãs de Lyon e Vienne, preservada por Eusébio, oferece um testemunho de outra natureza. No relato preservado por Eusébio, Biblis afirma que os cristãos sequer tinham permissão para consumir sangue de animais (Historia ecclesiastica, V, 1, 26). Essa evidência é relevante porque documenta uma prática cristã compatível com uma das prescrições do Decreto. Mas, novamente, a prática não deve ser convertida automaticamente em prova de dependência histórica: podemos demonstrar o testemunho da prática; sua origem exata permanece indeterminada.

Agostinho oferece, por sua vez, um testemunho particularmente importante da transformação histórica das restrições alimentares. Em Contra Faustum (XXXII, 13), ele relaciona explicitamente a exigência de abstinência de sangue em Atos 15 à carne cujo sangue não havia sido derramado e observa que, numa Igreja que se tornara predominantemente gentílica, essa observância já não possuía a mesma força prática. Seu testemunho é valioso precisamente porque registra não o desaparecimento da memória normativa, mas a mudança na força prática da prescrição. Esses testemunhos são suficientes para estabelecer uma distinção fundamental. Podemos demonstrar que o Decreto continuava sendo conhecido e reconhecido como tradição apostólica; podemos demonstrar que determinadas prescrições continuaram a orientar práticas cristãs em contextos específicos; e podemos demonstrar que sua transmissão textual não foi completamente uniforme. O que não podemos estabelecer é uma observância integral e universal das quatro prescrições como conjunto.


Tabela 1 – Função das fontes na reconstrução histórica do Decreto

FonteFunção da evidênciaO que permite afirmarLimite
Atos 15; 21:25Norma e continuidadeO Decreto estabelece prescrições para os gentios e continua referido na narrativaNão demonstra sua observância posterior
1 Coríntios 8–10Testemunho de negociação práticaO problema da participação em práticas cultuais e alimentares associadas aos ídolos era concretamente negociadoNão demonstra conhecimento ou aplicação do Decreto
Clemente de AlexandriaRecepção normativaA tradição das prescrições permanece associada à autoridade apostólicaNão demonstra observância universal
IrineuControle textualA tradição textual do Decreto conheceu variaçõesNão demonstra prática
TertulianoRecepção normativa e práticaDe pudicitia explicita a autoridade do Decreto; Apologeticum documenta abstinência de sangue e animais sufocadosNão prova origem direta de toda prática em Atos 15
Lyon e VienneTestemunho de prática comunitáriaBiblis afirma que aos cristãos não era permitido consumir sangue animalA origem da prática é indeterminada
AgostinhoTransformação históricaAlgumas restrições alimentares haviam perdido força práticaNão significa desaparecimento da tradição

Fonte: Elaborado pelo autor.


A documentação permite, assim, uma conclusão mais rigorosa do que a simples afirmação de que “as quatro prescrições foram observadas de maneira desigual”. A documentação disponível demonstra observância desigual de algumas das prescrições, mas não permite estabelecer o grau de observância das quatro como conjunto entre as comunidades gentílicas. O que emerge é uma história de norma → recepção → interpretação → prática seletiva, e não uma transmissão linear e homogênea.


4 AS QUATRO PRESCRIÇÕES COMO FRONTEIRAS DE PERTENCIMENTO

Se o Decreto não deve ser reduzido a um código moral completo, como compreender sua seleção? Uma possibilidade particularmente fecunda surge quando observamos que as quatro prescrições atingem áreas nas quais a pertença comunitária pode ser corporalmente experimentada e socialmente percebida. Judith Lieu mostrou como a identidade cristã não pode ser reduzida a uma simples declaração doutrinária. Ela envolve práticas, fronteiras, relações com o outro, representação do corpo e formas de sociabilidade (Lieu, 2004). Nesse sentido, uma norma alimentar ou sexual pode interferir na maneira como uma comunidade se reconhece e se diferencia, produzindo efeitos que ultrapassam sua formulação jurídica. Stephen Barton, em seu estudo sobre santificação, unidade comunitária e “casamentos mistos” em 1 Coríntios, oferece um elemento complementar: determinadas práticas corporais e cultuais podem funcionar como expressões concretas da pertença religiosa (Barton, 2017). O próprio corpus paulino permite observar essa dimensão de maneira particularmente concreta em 1 Coríntios 8–10, onde alimentação, culto e sociabilidade aparecem entrelaçados na negociação dos limites da participação cristã. O valor desse testemunho para o presente estudo não está em estabelecer uma genealogia entre Paulo e o Decreto, mas em mostrar que uma das fronteiras posteriormente reunidas em Atos 15 já podia ser experimentada como problema de prática comunitária.

Nesse sentido, as quatro prescrições podem ser compreendidas como pertencentes a três grandes domínios de diferenciação: culto, alimentação e sexualidade.


Tabela 2 – Prescrições do Decreto e domínios de diferenciação

PrescriçãoDomínioRelação com práticas pagãsPotencial função identitária
Coisas sacrificadas aos ídolosCulto / alimentaçãoRuptura com práticas cultuais e formas de sociabilidade ligadas ao sacrifícioDiferenciação cultual e social
SangueAlimentaçãoDistanciamento de determinados hábitos alimentaresMarcador corporal e comunitário
Animais sufocadosAlimentaçãoDiferenciação alimentarMarcador comunitário específico
PorneiaSexualidadeDistanciamento de comportamentos considerados incompatíveis com a nova pertençaFronteira corporal e moral

Fonte: Elaborado pelo autor.


Essas relações devem ser compreendidas como possibilidades históricas de diferenciação, e não como efeitos automaticamente produzidos pelo Decreto. A abstinência das coisas sacrificadas aos ídolos podia interferir diretamente em banquetes, refeições e formas de sociabilidade nas quais o consumo de alimentos sacrificados estivesse envolvido. O sangue introduzia uma diferença alimentar potencialmente observável. Os animais sufocados pertenciam a uma zona mais específica e cuja permanência histórica foi desigual. A porneia incidia sobre o corpo e sobre relações sexuais consideradas incompatíveis com a pertença comunitária. O que une essas áreas não é necessariamente sua origem histórica comum, mas sua capacidade de produzir diferença incorporada. Uma pessoa pode afirmar que pertence a determinado grupo; mas essa pertença adquire maior consistência social quando se manifesta no que ela come, no que recusa, com quem participa de determinados banquetes, como organiza suas relações sexuais e quais práticas cultuais considera incompatíveis com sua fé.

É justamente nesse ponto que a relação entre Atos 15 e a formação das fronteiras de pertencimento se torna historicamente interessante. O Decreto não fornece uma descrição completa do que significa ser cristão. Ele institucionaliza, antes, um conjunto específico de fronteiras normativas que pode tornar possível a convivência entre judeus e gentios dentro de uma mesma comunidade. A correspondência entre uma prescrição e uma prática posterior, contudo, não prova dependência histórica. O fato de cristãos posteriores recusarem o culto aos ídolos, praticarem disciplina sexual ou evitarem sangue não significa necessariamente que estejam conscientemente executando o Decreto. Essas práticas também podem decorrer de outras tradições judaicas, cristãs ou filosófico-morais. O argumento, portanto, deve ser mais preciso. Atos 15 institucionaliza um conjunto específico de fronteiras normativas; outras tradições cristãs desenvolvem e ampliam campos de diferenciação que, em alguns casos, cumprem funções semelhantes.



5 O GENTIO ENTRE JUDAÍSMO E PAGANISMO

A compreensão do Decreto exige abandonar uma imagem excessivamente simples na qual existiriam apenas dois campos perfeitamente definidos: judeus de um lado e pagãos de outro. O mundo religioso do Mediterrâneo antigo era mais complexo. Havia diferentes formas de aproximação ao judaísmo, graus diversos de participação em suas práticas e múltiplas formas de pertencimento religioso. Fontes judaicas e greco-romanas preservam referências a pessoas ou grupos gentílicos religiosamente próximos do judaísmo, embora a terminologia empregada para designá-los não constitua uma categoria social única e perfeitamente delimitada. Josephus, por exemplo, distingue, em Antiquitates Judaicae XIV, 110, os judeus daqueles que “adoravam a Deus” ao mencionar contribuições enviadas ao Templo por pessoas da Ásia e da Europa. O testemunho é relevante porque sugere a existência de formas de relação com o judaísmo que não precisam ser reduzidas à alternativa entre pertencimento judaico pleno e exterioridade absoluta. Não é necessário, contudo, transformar a expressão de Josefo em uma categoria técnica equivalente a um grupo cristão ou a uma classe uniforme de “tementes a Deus”. O valor desse testemunho permanece contextual, e não probatório em relação ao Decreto. Ele demonstra a possibilidade de formas não binárias de relação entre gentilidade e judaísmo; não demonstra que os cristãos gentios fossem simplesmente uma dessas categorias. O mesmo cuidado vale para o caso de Izates, narrado por Josephus. Sua história demonstra que podia existir tensão entre aproximação ao judaísmo, exigências da Torah e manutenção de uma identidade não judaica (Antiquitates Judaicae, XX, 17–48); mas não constitui prova de que os cristãos gentios tenham sido simplesmente uma variante desse fenômeno.

O valor desses exemplos é, portanto, estrutural. Eles demonstram que o Mediterrâneo do primeiro século conhecia formas de pertencimento que não cabem perfeitamente em uma divisão binária entre judeu e pagão. Estudos contemporâneos sobre identidade religiosa reforçam essa percepção. Como referência comparativa e conceitual, as pesquisas reunidas por Katja Ritari, Jan R. Stenger e William Van Andringa mostram como identidades pagãs e cristãs puderam ser construídas, negociadas e representadas de maneiras diversas (Ritari; Stenger; Van Andringa, 2023). Essas abordagens ajudam a evitar uma compreensão excessivamente rígida das categorias religiosas. O gentio cristão aparece, portanto, como alguém situado entre diferentes formas de pertencimento, e não como uma categoria intermediária rigidamente estabelecida.

A tabela abaixo deve ser lida nesse sentido: como instrumento analítico, não como taxonomia social rígida. As posições apresentadas são relacionais e ideal-típicas; não constituem categorias mutuamente exclusivas nem pressupõem uma sequência evolutiva entre judaísmo, paganismo e cristianismo gentílico. Um mesmo indivíduo ou comunidade podia ocupar posições diferentes conforme o contexto social, religioso e jurídico em que fosse observado. O objetivo é visualizar combinações possíveis de aproximação e afastamento, e não classificar de maneira exaustiva as populações do Mediterrâneo antigo.


Tabela 3 – Posições relacionais entre judaísmo, paganismo e cristianismo gentílico

Posição relacionalRelação com o judaísmoRelação com o paganismoForma de pertencimento
JudeuPertença judaicaRuptura com o culto pagãoIdentidade judaica
ProsélitoConversão / aproximação formalRuptura mais profundaPertença judaica adquirida
Gentio simpatizanteAproximação seletivaDistanciamento parcialGentilidade religiosamente diferenciada
Gentio cristãoApropriação seletiva de normasRuptura seletivaPertença à comunidade de Jesus sem conversão judaica
PagãoExterioridade em relação ao judaísmoParticipação nas tradições cultuaisPertença às formas religiosas tradicionais

Fonte: Elaborado pelo autor.


As categorias apresentadas nesta tabela têm aqui apenas função analítica. Não constituem uma taxonomia rígida das populações judaicas e cristãs do período. As fronteiras de pertencimento eram historicamente móveis, sobrepostas e dependentes do contexto. O que interessa aqui é a dupla diferenciação. O gentio cristão aproxima-se seletivamente do universo normativo judaico, mas não precisa converter-se ao judaísmo. Ao mesmo tempo, distancia-se seletivamente de determinadas práticas pagãs, mas continua sendo gentio. Seu pertencimento é, portanto, construído simultaneamente por aproximação e afastamento.

É precisamente essa posição que o Decreto torna historicamente possível. A pergunta pode ser formulada de maneira ainda mais simples: como o gentio pode entrar sem deixar de ser gentio e sem continuar sendo simplesmente pagão? A resposta de Atos 15 não é uma teoria da identidade. É uma solução normativa. O Decreto estabelece condições mínimas para que esse novo tipo de pertencimento possa funcionar socialmente.


6 QUANDO A DIFERENÇA SE TORNA VISÍVEL

Uma norma só se transforma em marcador social quando passa a produzir comportamentos reconhecíveis. É precisamente neste ponto que a história do Decreto encontra a documentação cristã mais ampla dos séculos II e III. A Epístola a Diogneto fornece uma formulação particularmente expressiva dessa lógica. Os cristãos vivem nas mesmas cidades que os demais habitantes, usam as mesmas roupas e participam da vida social; contudo, afirmam possuir uma forma distinta de vida (Epistula ad Diognetum, 5–6). A diferença cristã não depende, portanto, de isolamento físico. Trata-se de uma diferença praticada dentro da sociedade.

Plínio, o Jovem, oferece outro tipo de testemunho. Ao descrever os cristãos da Bitínia, informa que se reuniam, cantavam hinos a Cristo, assumiam compromissos morais e partilhavam uma refeição considerada comum e inocente (Epistulae, X, 96). Seu valor é sobretudo externo: oferece uma observação administrativa romana sobre práticas cristãs reconhecíveis. Mas não demonstra que aqueles cristãos estavam observando o Decreto de Atos 15. Demonstra, sim, que existiam práticas comunitárias e compromissos morais suficientemente identificáveis para serem relatados a uma autoridade romana. A dimensão cultual desse testemunho é ainda mais significativa. No procedimento descrito por Plínio, a disposição dos acusados de invocar os deuses e oferecer incenso e vinho diante da imagem imperial funciona como critério prático para distinguir aqueles que abandonaram o cristianismo daqueles que permanecem identificados como cristãos. A diferença cultual, portanto, não permanece confinada ao interior da comunidade. Ela pode tornar-se observável, testável e administrativamente relevante diante de uma autoridade externa. A literatura apologética torna a questão ainda mais evidente. Aristides descreve cristãos que rejeitam a idolatria, praticam disciplina sexual e recusam alimentos consagrados aos ídolos (Apologia, 15). Seu testemunho é particularmente útil porque concentra, em uma única fonte, diferentes dimensões da diferença cristã que interessam ao presente estudo: culto, alimentação e comportamento sexual.

Não é necessário multiplicar os apologistas para demonstrar esse fenômeno. Para o argumento aqui desenvolvido, Aristides pode funcionar como testemunho apologético principal, enquanto Tertuliano já cumpre a função específica de documentar a disciplina do sangue. Essa economia documental é importante porque impede que a repetição de testemunhos seja confundida com força probatória. A questão não é quantos apologistas dizem que os cristãos eram diferentes, mas quais dimensões dessa diferença podemos efetivamente demonstrar e que relação elas mantêm com a hipótese do Decreto. A documentação permite observar uma assimetria significativa. A rejeição da idolatria aparece com enorme força na apologética. A disciplina sexual também é recorrente. A abstinência de sangue encontra testemunhos importantes, sobretudo em Tertuliano. Já a proibição específica dos animais sufocados possui presença muito menos consistente no discurso apologético geral. Isso torna improvável a hipótese de que os apologistas tenham simplesmente reproduzido, como pacote integral, as quatro prescrições de Atos 15.

O que encontramos são campos de diferenciação recorrentes. Essa diferença entre norma e identidade pública pode ser resumida por uma sequência de perguntas:

Atos 15 pergunta: “Quem pode entrar?”

A prática comunitária pergunta: “Como esse pertencimento é vivido?”

A sociedade pergunta: “Quem são essas pessoas?”

A apologética responde: “É assim que vivemos e é por isso que somos diferentes.”

A diferença, entretanto, não produz automaticamente conflito. O fato de os cristãos serem socialmente reconhecíveis não significa que tenham sido necessariamente perseguidos. James Corke-Webster propõe deslocar a questão tradicional sobre a perseguição para a identificação dos agentes, contextos e relações sociais concretas nas quais os cristãos eram percebidos como diferentes (Corke-Webster, 2023). A sequência historicamente mais segura é outra: diferenciação pode produzir visibilidade; visibilidade pode, em determinados contextos, produzir tensão; tensão pode eventualmente transformar-se em conflito. Nenhuma dessas etapas é automática. O Decreto, portanto, não deve ser transformado retrospectivamente em uma teoria da perseguição. Sua importância está antes em ajudar a compreender como determinadas práticas podiam tornar a pertença cristã socialmente perceptível.


7 DA FRONTEIRA À IDENTIDADE PÚBLICA

É nesse ponto que a literatura apologética adquire importância especial. O Decreto é essencialmente uma decisão normativa voltada à incorporação dos gentios e à organização da convivência entre membros de diferentes origens dentro do movimento de Jesus. A apologética, ao contrário, dirige-se ao ambiente externo. Ela precisa explicar quem são os cristãos, o que fazem, o que recusam e por que as acusações dirigidas contra eles são falsas. Essa diferença de orientação é fundamental. Atos 15 estabelece fronteiras mínimas de pertencimento; a prática comunitária lhes dá corpo; a sociedade percebe essa diferença; e a apologética transforma algumas dessas diferenças em identidade pública conscientemente defendida.

Não se trata, porém, de uma cadeia causal rígida. Os apologistas não parecem estar simplesmente comentando Atos 15 quando descrevem a vida cristã. Eles recorrem a um conjunto muito mais amplo de tradições, argumentos bíblicos, categorias filosóficas e experiências comunitárias. A correspondência com algumas das prescrições do Decreto diz respeito, em muitos casos, à função que essas práticas desempenham, e não a uma dependência documental direta. Judith Lieu é particularmente importante neste ponto porque chama atenção para o modo como os textos cristãos constroem sua representação do grupo. A apologética não é uma janela transparente para a vida cotidiana. Ela seleciona, organiza e apresenta comportamentos com o objetivo de produzir determinada imagem do grupo (Lieu, 2004). O cristão apologético é apresentado como alguém que não participa dos cultos tradicionais, rejeita determinadas práticas sexuais e manifesta uma ética de autocontrole e cuidado.

Paul Trebilco, ao estudar as designações de pertencimento e exterioridade no Novo Testamento, oferece outro instrumento importante. A identidade não é construída apenas por aquilo que um grupo diz sobre si mesmo, mas também pela maneira como identifica e nomeia os outros (Trebilco, 2017). A identidade cristã se constitui simultaneamente por “como vivemos” e por “quem são os outros”. Aristides, nesse sentido, permite observar como a diferença cristã podia ser apresentada apologeticamente. Ao apresentar os cristãos como pessoas que rejeitam a idolatria, praticam disciplina sexual e recusam alimentos consagrados aos ídolos (Apologia, 15), ele transforma práticas e comportamentos em elementos de autodefinição pública. Tertuliano ocupa aqui uma posição complementar e específica. Sua importância não está em representar genericamente toda a apologética cristã, mas em mostrar como uma determinada prática — a abstinência de sangue — podia ser mobilizada como argumento público e disciplinar (Apologeticum, 9). Assim, Aristides e Tertuliano não são dois exemplos redundantes: Aristides permite observar a apresentação ampla da diferença; Tertuliano documenta uma dimensão alimentar específica dessa diferença.

O padrão é significativo. A identidade pública cristã é construída também por oposição a práticas que a sociedade greco-romana podia associar à vida religiosa tradicional, mas também por afirmação de uma ética positiva: fidelidade, continência, caridade, honestidade e autocontrole. Por isso, a expressão “identidade de separação” precisa ser usada com alguma cautela. Os cristãos não estavam simplesmente separados da sociedade. Eles viviam nas mesmas cidades, frequentavam mercados, exerciam profissões, mantinham relações sociais e compartilhavam muitos elementos da vida cotidiana. A separação era seletiva. Uma formulação mais precisa seria identidade cristã de diferenciação comportamental. O cristão podia estar fisicamente inserido no mundo greco-romano e, simultaneamente, recusar determinados elementos de sua vida cultual, sexual e alimentar. A separação não era geográfica. Era normativa, corporal, ritual e social. É nesse sentido que a antiga fórmula pode ser reconstruída historicamente: estar no mundo sem participar integralmente de suas práticas religiosas e sociais consideradas incompatíveis com a nova pertença. A apologética transforma essa diferença em argumento público. O cristão não é apenas aquele que acredita em Cristo; é aquele cuja forma de vida pode ser apresentada como prova de que sua pertença produz uma transformação moral e social.

A relação com Atos 15 deve, entretanto, permanecer metodologicamente controlada. Não podemos afirmar que Aristides ou Tertuliano estejam conscientemente aplicando um “código de quatro pontos” derivado do Decreto. O que podemos observar é algo historicamente mais interessante: determinadas fronteiras normativas estabelecidas no contexto da incorporação dos gentios encontram correspondência em práticas que, posteriormente, tornam-se componentes da diferenciação pública dos cristãos.


8 CONTINUIDADE, TRANSFORMAÇÃO E LIMITES

A história do Decreto não é a história de uma norma simplesmente obedecida ou abandonada. É uma história de continuidade, interpretação e seleção. Podemos demonstrar com segurança que a decisão de Jerusalém foi conhecida e transmitida em diferentes tradições cristãs. Clemente e Irineu fornecem evidências distintas dessa continuidade: o primeiro é importante para a permanência da memória normativa; o segundo, para a variação da transmissão textual. Podemos igualmente demonstrar que algumas de suas prescrições tiveram continuidade prática em determinados contextos, especialmente a abstinência de sangue, documentada em Tertuliano e no testemunho de Lyon e Vienne. Podemos ainda identificar a rejeição da idolatria e a disciplina sexual como campos centrais da diferenciação cristã em Aristides. Diogneto permite observar que essa diferença podia coexistir com inserção social, enquanto Plínio fornece um testemunho externo de práticas comunitárias reconhecíveis.

Mas não podemos demonstrar que todas as comunidades gentílicas observaram integralmente as quatro prescrições como um pacote normativo uniforme. Tampouco podemos afirmar que toda abstinência cristã de sangue tenha derivado diretamente de Atos 15. A documentação não permite estabelecer uma genealogia tão simples. Também não podemos afirmar que a apologética tenha construído conscientemente sua identidade pública a partir do Decreto. A correspondência existe, mas a dependência histórica direta não pode ser presumida. As comunidades cristãs herdaram diferentes tradições judaicas, desenvolveram práticas próprias e responderam a situações sociais concretas. O resultado foi uma identidade construída historicamente, e não a simples execução de um programa normativo preestabelecido. Da mesma forma, não podemos transformar a diferenciação cristã em causa automática de perseguição. Corke-Webster reforça a necessidade de investigar os contextos sociais concretos nos quais os cristãos eram identificados e eventualmente hostilizados (Corke-Webster, 2023). Esses limites não enfraquecem a hipótese. Ao contrário, tornam-na historicamente mais precisa.

Podemos demonstrar a existência de uma decisão normativa; podemos acompanhar sua continuidade desigual; podemos observar práticas que correspondem a alguns de seus campos; podemos identificar a crescente visibilidade social da diferença cristã; podemos acompanhar a apresentação apologética dessa diferença. O que não devemos fazer é transformar essas etapas em uma linha genealógica única e inevitável. É justamente aqui que a contribuição deste estudo se situa. O foco não precisa permanecer exclusivamente na origem das quatro prescrições nem na questão abstrata de sua obrigatoriedade. Podemos perguntar que papel histórico elas desempenharam na formação das fronteiras de pertencimento. O Decreto não é, portanto, um código completo da identidade cristã. Ele é uma solução normativa mínima para um problema específico: a incorporação dos gentios. Essa distinção permite compreender sua importância sem exagerá-la. Atos 15 não inventa a rejeição da idolatria, não cria a disciplina sexual, não inaugura necessariamente a abstinência de sangue e não estabelece toda a ética que será posteriormente associada ao cristianismo. O que faz é reunir determinadas exigências e colocá-las no centro de uma decisão sobre quem pode pertencer à comunidade e sob quais condições. É justamente essa dimensão que transforma o Decreto em um documento de importância sociológica.


9 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Decreto Apostólico não deve ser compreendido apenas como uma lista de quatro proibições nem como um código embrionário da moral cristã posterior. Sua importância histórica está vinculada a uma questão mais específica: como incorporar os gentios ao movimento de Jesus sem exigir deles a transformação em judeus e, ao mesmo tempo, sem deixar indefinidas as fronteiras comportamentais da nova comunidade? A resposta de Atos 15 é seletiva. Em vez de exigir a observância integral da Torah, estabelece um pequeno conjunto de prescrições relacionadas a culto, alimentação e sexualidade. A unidade dessas normas não precisa depender de uma origem histórica comum. Elas podem ter genealogias distintas e, ainda assim, adquirir unidade quando selecionadas para responder ao problema da convivência entre judeus e gentios.

O conjunto documental permite acompanhar diferentes momentos desse processo. Em Paulo, encontramos o problema da participação em práticas cultuais e alimentares do mundo pagão sendo negociado dentro de uma comunidade concreta; em Atos 15, encontramos uma formulação normativa dirigida aos gentios; na recepção posterior, encontramos continuidade, variação e perda desigual de força prática; na documentação apologética e externa, encontramos a transformação de determinadas diferenças em elementos reconhecíveis da identidade cristã.

A recepção posterior confirma que a decisão permaneceu conhecida, mas também demonstra que norma e prática não são equivalentes. Algumas prescrições conservaram força significativa; outras foram reinterpretadas ou perderam parte de sua obrigatoriedade prática. A tradição textual também conheceu variações. O Decreto permaneceu como memória normativa, mas sua história não foi linear. Quando deslocamos o foco para a sociologia da pertença, porém, sua importância torna-se ainda mais clara. As prescrições incidiam sobre práticas capazes de tornar a diferença visível. Recusar alimentos associados ao culto pagão, evitar sangue, rejeitar determinadas práticas sexuais e afastar-se de formas de participação cultual tradicional eram comportamentos potencialmente reconhecíveis dentro de uma sociedade na qual religião, alimentação, sexualidade e sociabilidade estavam profundamente interligadas.

A identidade cristã gentílica não surgiu, portanto, simplesmente de uma oposição entre cristãos e pagãos. Ela foi construída em um espaço relacional mais complexo, no qual o gentio podia aproximar-se de determinadas tradições judaicas sem converter-se ao judaísmo e, simultaneamente, afastar-se de determinadas práticas pagãs sem deixar de ser gentio. Essa é a dupla diferenciação que torna o Decreto historicamente significativo:

aproximação normativa ao universo judaico + não assimilação ao judaísmo + ruptura seletiva com determinadas práticas pagãs = uma forma específica de pertencimento cristão gentílico.

A prática comunitária dá corpo a essa fronteira. A sociedade pode percebê-la. Em determinados contextos, essa diferença pode produzir tensão. A literatura apologética, então, transforma algumas dessas diferenças em linguagem pública de autodefinição. Os cristãos passam a apresentar sua forma de vida como evidência de sua identidade e a responder às acusações precisamente nos campos nos quais sua diferença se tornou socialmente perceptível.

Não se trata, porém, de uma genealogia simples. A apologética não é uma repetição tardia de Atos 15. Ela amplia, reorganiza e ressignifica tradições diversas. O que existe é uma convergência histórica entre a necessidade inicial de estabelecer fronteiras mínimas de pertencimento e o desenvolvimento posterior de práticas através das quais os cristãos passaram a definir publicamente sua diferença. Nesse sentido, a contribuição deste estudo não consiste em afirmar que o Decreto “criou” a identidade cristã. Ele não a criou. Tampouco estabeleceu um código universal de comportamento que teria sido uniformemente aplicado pelas comunidades gentílicas.

O que ele fez foi mais específico — e historicamente talvez mais importante.

O Decreto Apostólico ofereceu uma solução normativa para tornar possível uma forma de pertencimento na qual o gentio podia entrar na comunidade de Jesus sem tornar-se judeu e, simultaneamente, sem continuar sendo simplesmente pagão. Essa solução produziu uma fronteira mínima. A história posterior mostrou que essa fronteira poderia ser interpretada, ampliada, relativizada ou parcialmente abandonada. Mas ela permaneceu como uma das primeiras respostas institucionais documentáveis ao problema de uma comunidade religiosa que já não podia ser definida apenas por sua origem judaica e que, ao mesmo tempo, ainda não possuía uma identidade gentílica plenamente estabilizada.

Atos 15 não encerra o problema da identidade cristã gentílica. Ele inaugura uma de suas soluções históricas. E talvez seja justamente nessa condição que esteja sua importância sociológica: o Decreto não criou a identidade cristã gentílica; ele ajudou a tornar socialmente possível uma forma específica de pertencimento cristão gentílico.

Em última análise, sua lógica pode ser condensada em uma única pergunta e em uma única resposta:

Como o gentio pode permanecer gentio e, ainda assim, deixar de ser simplesmente pagão?

Atos 15 responde estabelecendo uma fronteira mínima dentro da qual isso se torna possível. A prática comunitária dá corpo a essa fronteira; a diferenciação torna-a perceptível; a experiência histórica a transforma; e a apologética converte parte dessa diferença em identidade pública.

O Decreto Apostólico estabelece, assim, uma fronteira dentro da qual o gentio pode permanecer gentio e, ainda assim, deixar de ser simplesmente pagão.


REFERÊNCIAS

Fontes primárias

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IRINEU DE LIÃO. Contre les hérésies. Edição crítica sob a direção de Adelin Rousseau, com colaboração de Bertrand Hemmerdinger, Louis Doutreleau e Charles Mercier. Paris: Éditions du Cerf, 1965–1982. (Sources chrétiennes).

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TERTULIANO. De pudicitia. In: DEKKERS, Eloi (ed.). Quinti Septimi Florentis Tertulliani Opera. Turnhout: Brepols, 1954. v. 2. (Corpus Christianorum. Series Latina, 2).

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terça-feira, 1 de setembro de 2026

 


Representações do mal no judaísmo do Segundo Templo e no cristianismo primitivo


RESUMO

Este artigo investiga a formação histórica das representações do mal que convergem na figura do Dragão em Apocalipse 12. Em lugar de propor uma genealogia linear segundo a qual a serpente de Gênesis teria se transformado em Satanás, ou o Leviatã em Dragão, a análise procura reconstruir uma história de funções, atributos e possibilidades de combinação entre diferentes repertórios simbólicos. Propõe-se, para esse fim, a categoria analítica de “gramática do mal”, entendida como o conjunto historicamente variável de categorias, funções, agentes e formas simbólicas mediante os quais diferentes tradições judaicas procuraram tornar inteligível a ação do mal. A investigação distingue entre continuidade de repertório simbólico, reutilização ou ressonância intertextual e hipótese de transmissão histórica, evitando transformar paralelos em evidências de dependência textual. São examinadas, em perspectiva histórica e literária, as figuras da serpente, Leviatã, Rahab e outras representações monstruosas; a transformação da monstruosidade em linguagem de interpretação histórica e escatológica em Daniel; a pluralização dos agentes adversariais no judaísmo do Segundo Templo; a tradição dos Vigilantes e outras formas de demonologia; a configuração histórica de Satanás; os paralelos narrativos mediterrânicos relativos à mulher perseguida e ao monstro adversário; e, finalmente, a representação do Dragão em Apocalipse 12. A hipótese central é que a singularidade do Dragão resulta de uma recombinação e condensação de linguagens do mal historicamente distintas. Apocalipse 12,9 constitui o ponto textual em que Dragão, antiga serpente, Diabo e Satanás são explicitamente identificados. A unidade simbólica dessa formulação é sincrônica, mas seus componentes possuem histórias diacrônicas parcialmente independentes. O artigo sustenta, assim, que a história das representações do mal é melhor compreendida não como a trajetória de uma entidade que muda de nome, mas como a história de diferentes repertórios que, em determinados contextos, tornam-se mutuamente compatíveis e podem ser condensados em uma única figura escatológica.

Palavras-chave: judaísmo do Segundo Templo; demonologia; Satanás; Leviatã; serpente; Dragão; Apocalipse; literatura apocalíptica; mal; história das religiões.


1 INTRODUÇÃO: O PROBLEMA HISTÓRICO DO DRAGÃO

Poucas imagens possuem, na tradição judaico-cristã, a força simbólica do Dragão apresentado em Apocalipse 12. A narrativa o descreve como um enorme monstro vermelho, dotado de sete cabeças e dez chifres, que combate no céu, é lançado à terra e passa a perseguir a mulher e sua descendência (Ap 12,3–17). Entretanto, é em Apocalipse 12,9 que encontramos uma formulação particularmente significativa: “o grande Dragão” é identificado como “a antiga serpente”, “o Diabo” e “Satanás”. A formulação parece simples, mas, quando procuramos situá-la historicamente, percebemos que ela reúne repertórios simbólicos que possuem histórias diferentes: a serpente de Gênesis 3, os monstros marinhos da tradição bíblica, a linguagem do combate cósmico, as representações monstruosas da literatura apocalíptica, os adversários supramundanos do judaísmo do Segundo Templo e a função adversarial associada a Satanás. A unidade simbólica de Apocalipse 12 é, portanto, sincrônica; seus componentes são diacrônicos. Aquilo que aparece simultaneamente no texto possui histórias diferentes e não deve ser reconstruído como se tivesse surgido de uma única tradição contínua. No âmbito cristão, nossa análise concentra-se particularmente no Apocalipse de João, sobretudo nos capítulos 12 e 20, onde a identificação entre Dragão, antiga serpente, Diabo e Satanás recebe sua formulação explícita.

É justamente aqui que se encontra o problema histórico deste artigo. Não se trata de demonstrar que a serpente “virou” Satanás, que o Leviatã “virou” o Dragão ou que todas essas figuras constituíram, desde o princípio, diferentes nomes de uma mesma entidade. Uma reconstrução dessa natureza transformaria uma história complexa de apropriações, deslocamentos e recombinações em uma genealogia linear que as fontes não autorizam. O que pretendemos fazer é diferente: reconstruir uma gramática do mal, categoria analítica que utilizaremos para designar o conjunto historicamente variável de categorias, funções, agentes e formas simbólicas mediante os quais diferentes tradições judaicas procuraram tornar inteligível a ação do mal. A gramática não cria os símbolos; ela nos ajuda a compreender as possibilidades históricas de sua combinação. Essas possibilidades não se restringem necessariamente a um único universo cultural. Textos judaicos e cristãos do período foram produzidos em um ambiente mediterrânico no qual repertórios distintos podiam coexistir, ser apropriados ou tornar-se estruturalmente comparáveis. Por isso, ao longo da análise, será necessário distinguir três níveis que frequentemente acabam confundidos: continuidade de repertório simbólico, reutilização ou ressonância intertextual e hipótese de transmissão histórica. A presença de uma imagem semelhante em dois textos pode indicar continuidade cultural ou compartilhamento de um repertório; em determinados casos, pode sugerir uma relação intertextual; mas não demonstra, por si só, dependência textual direta ou transmissão histórica específica.

Essa distinção é especialmente necessária porque a história das representações do mal não se desenvolve por uma única linha. Podemos identificar, de maneira analítica, linhas históricas parcialmente independentes. Uma delas corresponde à representação da ameaça cósmica em forma monstruosa: serpentes, monstros marinhos, Leviatã, Rahab e outras figuras dracônicas. Outra corresponde à transformação dessa monstruosidade em linguagem de interpretação histórica e escatológica, particularmente evidente em Daniel. Uma terceira diz respeito à emergência e à diversificação de agentes supramundanos associados à oposição, acusação, tentação ou corrupção dos seres humanos. Uma quarta acompanha a transformação da serpente edênica em objeto de interpretações posteriores que a aproximam de uma agência adversarial. Há ainda um repertório narrativo mediterrânico mais amplo, no qual a perseguição de uma mulher grávida por um monstro em razão da criança que está para nascer oferece um paralelo estrutural relevante para a configuração narrativa de Apocalipse 12. Essas linhas não possuem a mesma cronologia, não derivam necessariamente umas das outras e não precisam convergir desde o início.

É nesse ponto que se situa a contribuição investigativa deste artigo. Não pretendemos propor uma nova identificação das figuras que aparecem em Apocalipse 12, nem reivindicar que a relação entre a serpente, o Leviatã, o Dragão e Satanás tenha permanecido despercebida pela pesquisa anterior. O que pretendemos é reconstruir essas relações não como uma genealogia de entidades, mas como uma história de funções, atributos e possibilidades de combinação. Para tanto, propomos a categoria analítica de “gramática do mal” e, por meio dela, procuraremos descrever quatro operações — diferenciação, distribuição funcional, recombinação e condensação — pelas quais repertórios originalmente distintos puderam tornar-se historicamente compatíveis. A hipótese é que a singularidade do Dragão de Apocalipse 12 não reside na origem isolada de nenhum de seus componentes, mas na condensação sincrônica de funções cuja formação pertence a histórias diacrônicas parcialmente independentes.

A hipótese central, portanto, é que Apocalipse 12,9 pode ser compreendido como resultado de uma recombinação e condensação de diferentes linguagens do mal. O Dragão não é simplesmente o sucessor do Leviatã, nem a serpente transformada em Satanás. Ele resulta de uma operação de condensação na qual diferentes linguagens do mal tornam-se mutuamente compatíveis: a serpente fornece o paradigma do engano; o repertório de Leviatã, Rahab e outras figuras monstruosas oferece antecedentes importantes para a morfologia do antagonista cósmico; Daniel oferece um repertório particularmente importante para representar o poder persecutório e o conflito escatológico; determinadas tradições demonológicas oferecem modelos de agência pessoal do adversário; e repertórios narrativos mediterrânicos fornecem estruturas comparáveis de perseguição, nascimento excepcional e ameaça monstruosa. Apocalipse 12 reúne essas dimensões e lhes confere uma identidade textual única: o Dragão é a antiga serpente, o Diabo e Satanás.

Essa reconstrução não pressupõe que o autor do Apocalipse tenha conhecido diretamente todos os textos e tradições mobilizados pela análise. O que procuramos reconstruir é o campo histórico de repertórios e possibilidades simbólicas dentro do qual a representação do Dragão pode ser compreendida. Isso é diferente de afirmar que o autor tenha consultado diretamente cada uma das tradições nas quais esse repertório pode ser documentado. Uma coisa é reconstruir o campo cultural no qual determinada representação se torna inteligível; outra, bastante diferente, é demonstrar uma relação específica de dependência textual.


2 A SERPENTE, LEVIATÃ, RAHAB E O DRAGÃO: AS LINGUAGENS DO MAL

O primeiro estrato dessa história encontra-se no próprio repertório bíblico de imagens monstruosas. A Bíblia hebraica conserva diferentes representações de criaturas e forças associadas ao caos, ao mar e à ameaça cósmica: Leviatã, Rahab, tannin e a serpente fugitiva aparecem em contextos distintos e não constituem originalmente uma única personagem. Day (1985) demonstrou como essas imagens preservam ecos de antigas tradições de combate entre a divindade e o monstro marinho, posteriormente reelaboradas dentro da teologia israelita. Em Jó 26,12–13, por exemplo, a ação divina é descrita em relação ao mar e à “serpente fugitiva”; no Salmo 74,12–15, Deus é apresentado como aquele que despedaça as cabeças do Leviatã e quebra as cabeças dos monstros das águas. Isaías 51,9–10 mobiliza novamente essa linguagem ao evocar Rahab e o dragão no contexto da ação vitoriosa de YHWH sobre as águas e da libertação de seu povo. Isaías 27,1, por sua vez, desloca a imagem para uma perspectiva explicitamente futura: naquele dia, YHWH castigará “Leviatã, serpente fugitiva”, “Leviatã, serpente tortuosa”, e matará o monstro que está no mar. O repertório monstruoso, portanto, não possui uma única função. Ele pode representar o caos, a ameaça cósmica, a vitória divina, a memória da criação ou a expectativa escatológica.

A interpretação histórico-religiosa desse conjunto é particularmente importante porque impede que todas essas figuras sejam reduzidas retrospectivamente ao conceito cristão de “demônio”. A reconstrução de Day (1985) permite reconhecer a permanência de motivos relacionados ao combate cósmico sem transformar cada ocorrência em manifestação de uma mesma entidade. As tradições bíblicas reelaboram motivos presentes no antigo repertório do Oriente Próximo dentro de diferentes contextos teológicos e poéticos. A existência de motivos compartilhados, entretanto, não demonstra por si só uma cadeia contínua de transmissão textual entre cada representação. O que persiste pode ser menos uma personagem do que um repertório de possibilidades simbólicas.

O Salmo 104,25–26 oferece um contraponto indispensável. Ali, Leviatã aparece no mar como criatura de Deus, criada para brincar nas águas. Essa passagem nos impede de projetar retrospectivamente sobre toda e qualquer ocorrência do Leviatã uma concepção demonológica. O mesmo símbolo pode ser mobilizado em registros diferentes. Em um contexto, o monstro representa uma força que Deus derrota; em outro, é simplesmente uma criatura integrada à ordem da criação. A polissemia não é um detalhe secundário: ela constitui uma das condições históricas que tornam impossível falar em uma identidade estável do monstro. A figura pode conservar sua morfologia enquanto sua função narrativa e teológica se modifica.

Algo semelhante ocorre com a serpente. Charlesworth (2010) chama atenção para a diversidade histórica dos significados atribuídos à serpente, mostrando que sua simbologia não pode ser reduzida à representação do mal. Em Gênesis 3, a serpente é o agente da sedução e da transgressão, mas o texto não a identifica com Satanás. Essa identificação emerge em determinadas tradições interpretativas posteriores, nas quais a narrativa edênica passa a ser relacionada a concepções mais desenvolvidas de agência adversarial. Trata-se, portanto, de uma história de interpretação e recombinação, e não de uma característica explicitamente presente no enunciado original de Gênesis.

O dado fundamental, neste primeiro horizonte, é a existência de um repertório simbólico diversificado. Serpente, Leviatã, Rahab, tannin e outras figuras dracônicas compartilham determinadas características — especialmente associações com ameaça, monstruosidade, águas, caos e oposição ao poder divino — sem que isso os transforme automaticamente em uma única entidade. As tradições não precisam ter produzido uma mesma figura para que seus atributos se tornassem combináveis. A história posterior do imaginário do mal depende precisamente dessa possibilidade: diferentes símbolos podem conservar sua identidade própria e, ao mesmo tempo, fornecer elementos para novas configurações.



3 DANIEL E A TRANSFORMAÇÃO DA MONSTRUOSIDADE EM CONFLITO HISTÓRICO E ESCATOLÓGICO

A literatura apocalíptica acrescenta uma dimensão decisiva a esse repertório ao converter a monstruosidade em linguagem de representação histórica. Daniel 7 apresenta quatro grandes feras que emergem do mar e representam poderes imperiais; a monstruosidade não é apenas uma característica física dos seres representados, mas um mecanismo simbólico de interpretação da história. Os poderes humanos aparecem como animais porque a violência imperial é apresentada como uma deformação da ordem humana. Daniel 7 transforma, assim, a monstruosidade em linguagem capaz de articular história, poder e escatologia. A fera não é somente um monstro; ela é também uma forma de representar um poder político em sua dimensão persecutória e transitória.

Essa transformação é decisiva para a história posterior do imaginário monstruoso. A figura monstruosa passa a possuir uma capacidade que ultrapassa sua função cosmológica: ela pode representar a história. O monstro torna-se uma forma de tornar visível uma estrutura de poder, uma violência ou uma ameaça que, em sua dimensão política, poderia permanecer abstrata. A monstruosidade deixa de ser apenas aquilo que habita as margens do cosmos e passa a ser também uma linguagem para interpretar os acontecimentos humanos.

Daniel 8 desenvolve essa lógica ao representar um poder persecutório por meio de uma figura que cresce, desafia o exército celeste e profana aquilo que pertence ao domínio sagrado. Daniel 10–12 amplia ainda mais a dimensão cósmica do conflito: os conflitos entre os reinos terrestres encontram correspondentes no plano celestial, e Miguel aparece como figura associada à defesa do povo de Deus. A fronteira entre história terrestre e conflito supramundano torna-se porosa. A perseguição histórica pode, então, ser interpretada como manifestação de uma disputa que possui também uma dimensão celestial e escatológica.

Esse desenvolvimento não significa que Daniel tenha produzido a demonologia encontrada posteriormente. Seu significado histórico é outro. Daniel oferece um repertório de articulação entre poder, monstruosidade, história e escatologia. A representação monstruosa passa a permitir que diferentes níveis da realidade sejam lidos simultaneamente: o político, o histórico, o celestial e o escatológico. Essa possibilidade será particularmente importante para o Apocalipse de João, onde o conflito entre poderes celestiais e históricos volta a ser narrado por meio de figuras monstruosas.

Collins (2001) mostrou a importância do motivo do combate para a compreensão da literatura apocalíptica e, particularmente, do Apocalipse de João. Esse motivo permite situar Apocalipse 12 dentro de uma tradição mais ampla de representação do confronto entre forças divinas e poderes monstruosos. Mas a estrutura do combate não explica, por si só, a identidade do Dragão. O que nos interessa aqui é justamente a transformação de uma linguagem: a monstruosidade deixa de funcionar apenas como imagem cosmológica e passa a integrar um repertório capaz de representar poderes históricos, perseguição, conflito celestial e expectativa escatológica. A partir desse momento, o monstro pode ser simultaneamente uma figura cósmica e uma representação da ação histórica do mal.



4 O JUDAÍSMO DO SEGUNDO TEMPLO: A PLURALIZAÇÃO DOS ADVERSÁRIOS

É em parte da literatura judaica do Segundo Templo que encontramos um cenário particularmente complexo para a compreensão das representações do mal. Não temos, nesse período, uma concepção única e acabada acerca de sua origem, de sua natureza ou dos agentes responsáveis por sua ação. Ao contrário, diferentes tradições procuram explicar o problema recorrendo a personagens e estruturas diversas: monstros associados ao caos, espíritos malignos, anjos que transgridem sua condição, acusadores, adversários celestiais e figuras individualizadas. Em 1 Enoque 60,7–10, por exemplo, Leviatã e Beemote aparecem como grandes criaturas inseridas em uma cosmologia na qual ocupam lugares próprios. Isto é importante para nossa análise porque mostra que a existência de monstros cósmicos e a emergência de agentes pessoais do mal não pertencem necessariamente a uma mesma história. As duas formas de representação podem coexistir. Assim, quando encontramos posteriormente figuras que desempenham funções mais individualizadas, não devemos imaginar que elas simplesmente tenham ocupado o lugar anteriormente reservado a outras personagens. O problema histórico é outro: como diferentes tradições passaram a atribuir a diferentes figuras funções que, em determinados contextos posteriores, poderiam ser aproximadas?

A tradição dos Vigilantes nos oferece um exemplo bastante claro dessa situação. Em 1 Enoque, uma parte importante da explicação do mal encontra-se na transgressão de seres celestiais, na corrupção introduzida no mundo e na multiplicação dos espíritos malignos. O mal possui, portanto, uma história própria, que começa no âmbito supramundano e produz consequências no mundo humano. Não é necessário, contudo, considerar essa narrativa como uma explicação “primitiva” que posteriormente teria sido abandonada em favor de uma concepção centrada em Satanás. Trata-se de uma explicação própria, desenvolvida dentro de determinada tradição judaica. Os Vigilantes, seus descendentes e os espíritos malignos desempenham funções que não precisam ser transferidas para uma única personagem. Temos, mais uma vez, uma pluralidade de agentes e de explicações para a presença do mal.

Essa pluralidade é importante porque nos impede de tratar o judaísmo do Segundo Templo como se ele estivesse caminhando de maneira uniforme em direção àquilo que posteriormente reconheceríamos como uma demonologia cristã. Farrar (2019), ao estudar a satanologia do Novo Testamento em relação aos principais adversários supramundanos presentes na literatura judaica do período, chama atenção justamente para essa diversidade. A figura de Satanás deve ser compreendida dentro de um universo no qual outras personagens também desempenham funções adversariais. Em Jubileus 10,8–11, por exemplo, Mastema aparece como uma figura individualizada que solicita que parte dos espíritos malignos permaneça sob seu poder para exercer autoridade sobre os seres humanos. Ele possui vontade própria, exerce autoridade e comanda outros espíritos, mas continua subordinado a Deus. A existência de Mastema mostra que a representação pessoal da oposição ao ser humano não depende exclusivamente de Satanás. Outras tradições podiam construir seus próprios adversários e atribuir-lhes funções semelhantes ou parcialmente semelhantes.

Algo semelhante pode ser observado no caso de Azazel. No Apocalipse de Abraão, Azazel exerce uma função adversarial específica dentro da narrativa. Orlov (2011) chama atenção para a existência de tradições nas quais Azazel e Satanael pertencem a configurações distintas e posteriormente podem ocorrer aproximações entre elementos de suas respectivas mitologias. O interesse desse fenômeno para nossa investigação está justamente no fato de que ele nos mostra uma circulação de atributos e funções entre figuras diferentes. Não temos necessariamente a substituição de uma personagem por outra. Temos aproximações, transferências e reelaborações. Azazel não é simplesmente Satanás, assim como Satanás não é simplesmente a serpente. O que pode mudar é a maneira pela qual determinadas tradições passam a relacionar essas figuras e a distribuir entre elas funções semelhantes.

É nesse ambiente de pluralidade que devemos situar as tradições posteriores relativas a Adão e Eva. A Vida de Adão e Eva, conhecida em sua versão grega como Apocalipse de Moisés, amplia consideravelmente a narrativa de Gênesis e constitui um testemunho importante para a história da relação entre a narrativa edênica e a figura do adversário. O texto não se limita a repetir a história da serpente. Ele desenvolve uma narrativa mais ampla sobre a queda, suas consequências e a ação de uma potência adversarial. Com isso, o episódio de Gênesis passa a ser interpretado dentro de um universo no qual a oposição à humanidade possui uma dimensão supramundana e pessoal.

A questão é particularmente interessante quando observamos a relação entre serpente e Satanás. Em Gênesis 3, não encontramos a identificação da serpente com Satanás. A serpente é apresentada como personagem da narrativa e como agente da sedução de Eva, mas o texto não afirma que ela seja Satanás nem introduz, nesse episódio, uma figura pessoal chamada Satanás como responsável oculto pela transgressão. A associação entre esses elementos pertence, portanto, à história posterior da interpretação de Gênesis. Em tradições como a Vida de Adão e Eva, a narrativa da queda pode ser inserida em um quadro mais amplo no qual Satanás desempenha uma função adversarial diante da humanidade. A pergunta deixa de ser somente o que a serpente fez e passa a envolver também a identidade e a intenção daquele que se opõe à humanidade.

Temos aqui uma mudança importante na maneira de representar o mal. A narrativa edênica deixa de ser apenas uma história sobre sedução, desobediência e consequência da transgressão e passa a integrar uma estrutura mais ampla de oposição entre a humanidade e uma potência adversarial. O mal passa a possuir, nessa configuração, uma intenção mais claramente definida e uma continuidade que ultrapassa o episódio do jardim. O repertório de Gênesis permanece reconhecível — o jardim, a serpente, a transgressão e a perda da condição primordial —, mas passa a ser interpretado dentro de uma estrutura demonológica mais desenvolvida.

Não devemos, contudo, simplificar esse processo dizendo que a serpente simplesmente “se tornou” Satanás. A própria lógica dessas tradições não exige necessariamente tal identificação. A serpente continua sendo um elemento da narrativa edênica, enquanto Satanás pode aparecer como o adversário associado à queda e às suas consequências. Temos, portanto, uma aproximação entre duas figuras que não precisam ter sido originalmente uma única personagem. É justamente essa distinção que nos permite compreender melhor a transformação posterior. Uma tradição pode aproximar personagens diferentes sem eliminar completamente a diferença entre elas.

Neste sentido, a Vida de Adão e Eva é importante não porque constitua necessariamente uma fonte do Apocalipse de João, mas porque documenta uma possibilidade interpretativa que interessa diretamente à nossa investigação. A narrativa de Gênesis podia ser lida dentro de um universo no qual o adversário pessoal já possuía identidade e função próprias. O repertório da serpente podia, assim, ser relacionado ao repertório demonológico. Isso não demonstra uma dependência textual entre a Vida de Adão e Eva e o Apocalipse; demonstra algo mais circunscrito: que determinadas tradições judaicas tornaram historicamente possível pensar conjuntamente a narrativa da serpente e a ação de um adversário pessoal.

A importância dessa distinção aparece com maior clareza quando chegamos a Apocalipse 12,9. Ali, encontramos uma situação diferente. O texto não apenas aproxima duas figuras ou associa duas tradições. Ele afirma expressamente que “o grande Dragão” é “a antiga serpente”, “o Diabo” e “Satanás”. A monstruosidade do Dragão, a memória da serpente de Gênesis e a identidade do adversário pessoal são reunidas em uma única formulação. Aquilo que em tradições anteriores podia aparecer distribuído entre personagens e funções diferentes encontra agora uma unidade textual explícita.

É justamente nesse ponto que podemos perceber a diferença entre aproximação e identificação. Na Vida de Adão e Eva, encontramos uma tradição que permite aproximar a narrativa edênica de uma concepção pessoal do adversário. Em Apocalipse 12,9, encontramos uma afirmação muito mais abrangente: Dragão, antiga serpente, Diabo e Satanás são apresentados como a mesma figura. Não precisamos estabelecer uma relação direta entre os dois textos para perceber a importância histórica dessa diferença. O primeiro documenta uma possibilidade de aproximação entre repertórios; o segundo realiza uma identificação textual.

Essa distinção é importante também para evitar uma reconstrução excessivamente linear da história de Satanás. Não seria adequado imaginar uma sequência na qual primeiro encontramos a serpente, depois Satanás e, finalmente, o Dragão, como se cada personagem fosse simplesmente a forma posterior da anterior. As fontes não apresentam esse desenvolvimento de maneira tão regular. Serpentes, monstros, espíritos malignos, anjos transgressores, Mastema, Azazel, Satanás e outras figuras podem coexistir em tradições diferentes, desempenhando funções que algumas vezes se aproximam e outras permanecem distintas. O que muda historicamente é a maneira pela qual essas tradições podem relacionar seus personagens, suas funções e seus atributos.

A Vida de Adão e Eva ocupa, nesse sentido, um lugar particularmente interessante. Ela não precisa ser transformada em um elo obrigatório entre Gênesis e Apocalipse para possuir importância histórica. Seu testemunho é suficiente para mostrar que a narrativa edênica podia ser incorporada a uma compreensão mais desenvolvida da ação de um adversário pessoal. A serpente permanece vinculada ao episódio original, mas o episódio pode ser relido dentro de uma narrativa demonológica mais ampla. Temos aí uma das formas pelas quais diferentes repertórios se tornam compatíveis.

Esse dado, entretanto, não resolve a questão histórica de Satanás. Ele apenas mostra que, em determinadas tradições, a narrativa da queda podia ser relacionada a uma concepção pessoal da oposição à humanidade. A história dessa figura precisa ser examinada em seu próprio desenvolvimento, levando em consideração textos nos quais o adversário aparece como acusador, agente de Deus, tentador ou opositor dos justos. É essa transformação da função adversarial em uma figura cada vez mais definida que será examinada a seguir.

A pluralidade das tradições do período é, portanto, o ponto de partida, e não um problema a ser eliminado. Monstros, espíritos malignos, anjos transgressores, Mastema, Azazel e Satanás não precisam ser compreendidos como nomes sucessivos de uma mesma entidade. Suas histórias podem permanecer distintas, ainda que determinadas funções e atributos se aproximem. É nesse campo de possibilidades que devemos situar a história particular de Satanás.



5 SATANÁS E A PERSONALIZAÇÃO DA FUNÇÃO ADVERSARIAL

A categoria de Satanás exige uma distinção semelhante. Em textos como Jó 1–2 e Zacarias 3, ha-satan designa uma figura que exerce uma função adversarial ou acusatória dentro da ordem narrativa apresentada pelo texto. A figura exerce uma função de oposição ou acusação, mas não aparece simplesmente como o princípio independente do mal em oposição a Deus. Stokes (2019) chama atenção para essa dimensão funcional ao reconstruir a transformação histórica da figura de the Satan, inicialmente apresentada como agente de YHWH e, em desenvolvimentos posteriores, cada vez mais configurada como adversário de Deus e de seu povo.

A importância desse desenvolvimento não está em afirmar uma passagem mecânica de “função” a “personagem”. Mesmo nas representações iniciais há uma figura que exerce uma função específica. O que se transforma é a relação entre designação, função, agência e identidade narrativa. Um agente que exerce determinada função pode, em diferentes tradições, adquirir características mais individualizadas, uma história própria, capacidade de comandar outros seres e uma posição mais definida dentro da cosmologia do mal. O desenvolvimento histórico de Satanás deve, portanto, ser observado como transformação das configurações da agência adversarial, e não simplesmente como criação repentina de uma nova entidade.

O ponto decisivo não está em transformar essa história em uma sequência evolucionista. O que se verifica é uma mudança na distribuição da função adversarial. A oposição, a acusação, a tentação, a liderança de espíritos malignos e o conflito com os justos podem ser atribuídos a diferentes figuras em diferentes tradições. Em algumas delas, Satanás desempenha a função de acusador; em outras, figuras como Mastema, Belial ou Azazel assumem papéis semelhantes ou parcialmente sobrepostos. A função não pertence necessariamente a um único agente em toda a história da tradição.

É nesse sentido que podemos falar em personalização da função adversarial. Empregamos aqui “personalização” como categoria analítica para descrever a atribuição de funções adversariais a agentes individualizados; não como categoria nativa empregada uniformemente pelas fontes. Ela descreve um processo observável em diferentes configurações textuais: funções adversariais podem ser representadas por agentes individualizados, dotados de identidade narrativa e capacidade de ação própria. Mas personalização não significa exclusividade. A existência de uma figura pessoal do adversário não elimina monstros, espíritos ou outros agentes.

Esse ponto permite compreender uma importante diferença entre as linhas históricas aqui reconstruídas. A história da monstruosidade e a história da agência adversarial não caminham necessariamente juntas. Uma criatura pode representar caos sem ser Satanás; um adversário pode exercer função pessoal sem possuir forma monstruosa. O fato de posteriormente encontrarmos as duas dimensões reunidas não significa que elas tenham sido sempre uma única realidade simbólica. A convergência é justamente o fenômeno que precisa ser explicado.

Essa distinção é essencial para compreender a relação posterior entre Satanás e o Dragão. A existência de uma figura chamada Satanás não explica, por si mesma, por que ela assume a forma monstruosa do Dragão em Apocalipse 12. Para isso, é necessário considerar simultaneamente duas histórias: a história da agência adversarial e a história da representação monstruosa. É justamente sua convergência, dentro de uma configuração textual específica, que torna possível compreender a condensação.



6 APOCALIPSE 12: A MONSTRUALIZAÇÃO DO ADVERSÁRIO

Apocalipse 12 realiza uma operação simbólica específica. O adversário não é apresentado apenas como uma função ou como um agente supramundano individualizado; ele recebe uma forma monstruosa altamente elaborada. O Dragão possui sete cabeças, dez chifres e sete diademas; sua cauda arrasta a terça parte das estrelas do céu e ele se posiciona diante da mulher para devorar seu filho (Ap 12,3–4). A monstruosidade constitui, nesse caso, uma forma de corporalização da agência adversarial: a ameaça ganha corpo, intenção e capacidade de ação dentro de uma narrativa cósmica e histórica.

Essa representação não deve ser interpretada como simples sobrevivência de um antigo “monstro do caos”. A forma do Dragão é construída dentro de uma narrativa específica e articula diferentes repertórios. Seus elementos podem ser relacionados ao repertório monstruoso, mas sua função narrativa é inseparável do conflito celestial e da perseguição histórica. O monstro não está simplesmente no mar, distante da história humana; ele atua contra a mulher, contra sua descendência e contra aqueles que guardam os mandamentos de Deus e mantêm o testemunho de Jesus (Ap 12,17). A monstruosidade passa a ser uma forma de representar agência histórica.

A narrativa desloca ainda o combate para o plano celestial. Miguel e seus anjos combatem o Dragão e seus anjos, e o Dragão é lançado à terra (Ap 12,7–9). A estrutura lembra o antigo repertório do combate cósmico, mas agora encontra-se integrada a uma narrativa apocalíptica na qual o conflito celestial possui consequências históricas concretas. A expulsão do Dragão não encerra sua atividade; ela modifica o espaço no qual ele exerce sua ação. Lançado à terra, ele intensifica a perseguição à mulher e à sua descendência. O conflito celestial e a história humana tornam-se, assim, partes de uma mesma narrativa.

É nesse ponto que a contribuição de Daniel se torna especialmente importante. Assim como as feras de Daniel representam poderes históricos em uma linguagem monstruosa, o Dragão de Apocalipse 12 reúne dimensão cósmica e ação histórica. Ele é simultaneamente criatura monstruosa, adversário celestial e agente da perseguição contra os seguidores de Deus. A monstruosidade não é simplesmente ornamental: ela constitui uma maneira de tornar visível a natureza do poder adversarial.

A dimensão histórica dessa representação não deve ser perdida. O Dragão não permanece no plano de uma cosmologia distante: depois de sua expulsão do céu, volta-se contra a mulher e contra “o resto de seus descendentes”, identificados como aqueles que guardam os mandamentos de Deus e mantêm o testemunho de Jesus (Ap 12,17). O conflito cósmico fornece ao sofrimento presente uma moldura escatológica: aquilo que acontece na terra pode ser compreendido como manifestação de um conflito que ultrapassa a esfera humana. A representação do adversário adquire, desse modo, uma função simultaneamente teológica, narrativa e sociopolítica. O Dragão torna visível, em escala cósmica, a estrutura de oposição na qual a comunidade leitora do Apocalipse compreende sua própria existência histórica. Isso não exige determinar previamente uma única situação política para o texto; basta reconhecer que a linguagem cósmica está vinculada a uma experiência comunitária concreta de oposição e perseguição.

A categoria analítica que melhor descreve esse movimento é monstrualização: a incorporação de uma ameaça ou de uma função adversarial em uma forma monstruosa. Não se trata de afirmar que Apocalipse inventou o monstro, nem de pressupor que o Dragão seja simplesmente uma transformação visual de Satanás. Trata-se de observar que o texto reorganiza uma linguagem antiga dentro de uma configuração nova. O Dragão mobiliza o repertório do monstro cósmico e, simultaneamente, assume funções que determinadas tradições demonológicas haviam atribuído a agentes pessoais do mal. A monstrualização, portanto, não substitui a personalização; ela torna visível a agência adversarial em uma nova forma narrativa.



7 APOCALIPSE 12,9: A GRANDE CONDENSAÇÃO

É em Apocalipse 12,9 que essa história de aproximações atinge sua formulação mais explícita. Depois de narrar a expulsão do Dragão, o texto o identifica como “a antiga serpente, aquele que se chama Diabo e Satanás, o sedutor de toda a terra”. A identificação textual é inequívoca. Não se trata aqui de uma inferência posterior do intérprete: o próprio texto articula explicitamente o Dragão com três outras designações: a antiga serpente, o Diabo e Satanás. A figura monstruosa do Dragão passa a ser simultaneamente a antiga serpente, o Diabo e Satanás.

A identificação não é isolada no corpus joanino. Apocalipse 20,2 retoma a mesma associação ao chamar novamente o Dragão de “antiga serpente, Diabo e Satanás”. A repetição é importante porque demonstra que a relação estabelecida em Apocalipse 12,9 não constitui uma metáfora ocasional ou uma associação passageira. Ela integra a caracterização do adversário dentro da própria arquitetura narrativa do Apocalipse.

O que ocorre nesse ponto pode ser descrito como recombinação e condensação. Recombinação porque elementos provenientes de repertórios diferentes são aproximados e articulados em uma única representação. Condensação porque funções, atributos e identidades anteriormente distribuídos passam a ser concentrados em uma única figura narrativa. A serpente fornece o paradigma do engano e da sedução; o repertório de Leviatã, Rahab e outras figuras monstruosas fornece antecedentes importantes para a morfologia do antagonista cósmico; Daniel oferece uma linguagem particularmente importante para o poder perseguidor e o conflito escatológico; determinadas tradições demonológicas oferecem modelos de agência pessoal do adversário; a tradição de Satanás fornece a função de oposição e acusação.

A configuração narrativa de Apocalipse 12 também possui um paralelo particularmente significativo em tradições greco-romanas relativas a Leto, Píton e Apolo. Em versões do mito, Leto é perseguida por Píton em razão da criança que está para nascer, enquanto Apolo, posteriormente, derrota o monstro. A aproximação com Apocalipse 12 é mais específica do que uma simples correspondência temática: em ambos os casos, uma figura feminina grávida é ameaçada por uma criatura monstruosa em razão da criança que está para nascer, e a narrativa articula nascimento, perseguição, preservação e derrota do adversário. Collins (2001) examinou esse paralelo no contexto de sua análise do mito de combate em Apocalipse 12. A comparação, entretanto, deve ser tratada com a mesma cautela metodológica aplicada às tradições judaicas. Sua existência não demonstra, por si só, dependência direta do autor do Apocalipse em relação a uma versão específica do mito greco-romano. Ela demonstra, antes, que a configuração narrativa de Apocalipse 12 participa de um campo mediterrânico mais amplo no qual a mulher perseguida, a criança extraordinária e o monstro adversário podiam ser articulados em uma mesma estrutura narrativa. Esse paralelo possui, contudo, estatuto distinto daquele atribuído aos repertórios judaicos anteriormente examinados: trata-se de uma aproximação estrutural no interior do ambiente mediterrânico, e não de uma identificação textual nem de uma demonstração de continuidade genealógica.

É importante, portanto, precisar o estatuto de cada uma dessas relações. A identificação do Dragão com a antiga serpente é explícita no próprio texto de Apocalipse. A relação entre o Dragão e Satanás também é explícita. Já a relação entre o Dragão e o repertório de Leviatã, Rahab e outras figuras monstruosas pertence a outro nível de análise: trata-se de uma reconstrução histórico-literária baseada em continuidades, paralelos, reempregos e ressonâncias de motivos. Do mesmo modo, a relação entre Daniel e Apocalipse deve ser formulada em termos de repertório e linguagem apocalíptica, sem converter automaticamente paralelos em dependência textual. O paralelo com Leto, Píton e Apolo pertence igualmente ao campo comparativo e estrutural, não ao nível de uma identificação textual explícita. Não devemos colocar essas relações no mesmo plano de evidência. A força da hipótese está justamente em reconhecer essa diferença.


Tabela 1 – Repertórios e funções relacionados à configuração do Dragão

Tradição ou repertórioFunção ou atributo predominanteEstatuto da relação com o Dragão
Serpente de Gênesis 3Engano, sedução e transgressãoIdentificação explícita como “antiga serpente” em Ap 12,9
Leviatã, Rahab e outras figuras monstruosasMonstruosidade e ameaça cósmicaContinuidade e reemprego de repertório simbólico
DanielPoder persecutório e conflito escatológicoReemprego de linguagem e motivos apocalípticos
Miguel e tradição do conflito celestialGuerra contra poderes adversáriosEstrutura narrativa do conflito celestial
SatanásFunção adversarial e acusaçãoIdentificação explícita em Ap 12,9
Mastema e outros agentes supramundanosAgência pessoal do malParalelos funcionais, não identidade
Vigilantes e espíritos malignosTransgressão supramundana e corrupçãoRepertório demonológico paralelo
Tradições edênicas posterioresAproximação entre o episódio da serpente e a agência adversarialCampo de recombinação interpretativa
Leto, Píton e ApoloMulher perseguida, nascimento excepcional e ameaça monstruosaParalelo narrativo mediterrânico
Apocalipse 12Recombinação e condensaçãoConfiguração textual específica

Fonte: elaboração própria.


Essa matriz não pretende reconstruir uma cadeia de transmissão na qual cada elemento passa diretamente ao seguinte. Seu objetivo é mostrar que diferentes tradições fornecem diferentes possibilidades funcionais, narrativas e simbólicas. O Dragão não precisa ser historicamente descendente de cada uma dessas figuras para incorporar atributos que pertenciam a seus respectivos repertórios. A identificação textual de Apocalipse 12,9 é sincrônica; sua composição simbólica pode ser analisada diacronicamente.

Podemos formular o problema de maneira ainda mais precisa: a unidade alcançada pelo texto não exige uma unidade histórica de origem. O fato de o autor do Apocalipse poder identificar Dragão, serpente, Diabo e Satanás em uma mesma frase pressupõe que, em seu universo cultural e literário, essas linguagens já podiam ser reconhecidas como compatíveis. Mas essa compatibilidade não nos autoriza a projetar a identidade final para trás, como se ela estivesse presente em todas as tradições anteriores. A condensação é precisamente a operação pela qual diferenças históricas se tornam, em determinado contexto, uma unidade simbólica.


8 A GRAMÁTICA DO MAL: FUNÇÕES, ATRIBUTOS E CONVERGÊNCIAS

A expressão “gramática do mal” não designa uma doutrina judaica unificada sobre a origem ou a natureza do mal. É uma categoria analítica proposta neste estudo, destinada a descrever o conjunto historicamente variável de categorias, funções, agentes e formas simbólicas mediante os quais diferentes tradições judaicas procuraram tornar inteligível a ação do mal. Falar em gramática significa, portanto, observar não apenas quais figuras aparecem, mas também quais atributos podem ser associados a elas, quais funções podem ser transferidas ou compartilhadas e em que condições diferentes repertórios podem ser combinados. A gramática não cria os símbolos; ela nos ajuda a compreender as possibilidades históricas de sua combinação.

Quatro operações analíticas permitem descrever esse processo: diferenciação, distribuição funcional, recombinação e condensação. A diferenciação corresponde à existência de figuras originalmente distintas — serpente, Leviatã, Rahab, Satanás, Mastema, Azazel e outras. A distribuição funcional corresponde à atribuição de diferentes modalidades de ação a agentes diferentes. A recombinação ocorre quando tradições posteriores aproximam funções ou atributos anteriormente separados. A condensação acontece quando múltiplas funções e identidades são reunidas em uma única figura, como ocorre explicitamente com o Dragão em Apocalipse 12,9.

Essas operações não devem ser entendidas como quatro estágios obrigatórios de uma sequência evolutiva. São categorias analíticas destinadas a descrever movimentos que podem ocorrer em ordens diferentes, coexistir ou mesmo retroagir sobre repertórios anteriores. Uma tradição pode conservar a diferenciação entre figuras enquanto outra já realiza recombinações. A personalização pode ocorrer sem monstrualização; a monstrualização pode ocorrer sem identificação com Satanás; a condensação pode reunir elementos cuja formação histórica ocorreu em períodos muito diferentes. A própria noção de “gramática” exige essa flexibilidade, porque uma gramática não determina uma única frase possível; ela define um campo de combinações possíveis.

As quatro operações também não correspondem às diferentes linhas históricas mobilizadas pela reconstrução. As linhas históricas constituem recortes dos repertórios e funções a serem acompanhados; as operações constituem instrumentos analíticos para descrever as formas pelas quais esses repertórios podem relacionar-se. Essa distinção impede que o modelo conceitual seja confundido com uma cronologia universal.


Tabela 2 – Horizontes históricos e transformações analíticas

Horizonte históricoRepertório predominanteTransformação analítica relevante
Tradições bíblicasSerpente, Leviatã, Rahab, tanninDiferenciação das imagens da ameaça
Literatura apocalípticaFeras, poderes e conflito celestialHistoricização e escatologização da monstruosidade
Judaísmo do Segundo TemploSatanás, Mastema, Belial, Azazel, Vigilantes e outros agentesPluralização e personalização da agência adversarial
Tradições edênicas posterioresSerpente e adversárioAproximação entre repertório edênico e demonológico
Repertórios mediterrânicosMulher perseguida, criança excepcional e monstroEstruturas narrativas comparáveis
Apocalipse 12Dragão, serpente, Diabo e SatanásRecombinação e condensação

Fonte: elaboração própria.


A disposição desses horizontes é analítica e não implica que cada configuração tenha sucedido historicamente à anterior, nem que todas constituam elos necessários de uma cadeia de transmissão. As tradições podem coexistir, sobreviver umas às outras e adquirir novos significados em contextos posteriores. Não há necessidade de imaginar que o surgimento de uma nova figura tenha provocado o desaparecimento das anteriores. O que muda é, em determinados contextos, a possibilidade de combinar seus atributos e funções dentro de novas construções narrativas.

As diferentes linhas abaixo tampouco constituem genealogias completas. São recortes analíticos destinados a acompanhar repertórios e funções que posteriormente podem aparecer combinados. Seus pontos de contato são historicamente variáveis e não autorizam pressupor uma transmissão contínua entre os elementos.


Tabela 3 – Linhas de análise da formação simbólica do Dragão

Linha de análiseRepertórios acompanhadosFunções predominantesConvergência em Apocalipse 12
MonstruosidadeMonstros cósmicos, Leviatã, Rahab e imagens dracônicasCaos, ameaça, oposição e poder monstruosoForma do Dragão
Agência adversarialha-satan, Satanás, Mastema, Belial, Azazel e outros agentesAcusação, oposição, tentação e liderança de forças malignasAgência adversarial do Dragão
SerpenteGênesis 3 e releituras posterioresSedução, engano e transgressão“Antiga serpente”
Conflito histórico-celestialTradições de combate, Daniel e apocalípticaGuerra cósmica, perseguição e poder históricoCombate contra Miguel e perseguição dos santos
Transgressão supramundanaVigilantes, espíritos malignos e tradições demonológicasCorrupção, violência e propagação do malCampo demonológico compatível
Estrutura narrativa mediterrânicaLeto, Píton e Apolo e outros paralelosMulher perseguida, nascimento excepcional e ameaça monstruosaConfiguração narrativa de Ap 12

Fonte: elaboração própria.


Essa representação deixa evidente a defasagem histórica das funções. A forma monstruosa não surge no mesmo momento que a função adversarial; a associação entre serpente e Satanás não está presente em Gênesis 3; a interpretação histórica da monstruosidade possui uma trajetória própria; as tradições de transgressão angelical desenvolvem outra modalidade de explicação do mal; e a condensação dessas dimensões em uma única figura pertence a uma configuração textual posterior. O que Apocalipse 12 apresenta simultaneamente foi construído historicamente em tempos e contextos diferentes.

Essa perspectiva também permite compreender por que a história do mal não deve ser reduzida a uma genealogia de nomes. A serpente, o Leviatã, Rahab, Satanás, Mastema, Azazel, os Vigilantes e outras figuras não precisam constituir etapas sucessivas de uma mesma entidade. Suas histórias são parcialmente independentes, seus contextos são diferentes e suas funções nem sempre coincidem. O que se transforma é a capacidade de determinadas tradições de reconhecer semelhanças funcionais, aproximar repertórios e condensar atributos. A gramática do mal é precisamente essa estrutura histórica de possibilidades.

A unidade alcançada em Apocalipse 12 não apaga a diversidade anterior. Ao contrário, depende dela. O Dragão pode ser identificado como antiga serpente, Diabo e Satanás porque diferentes linguagens do mal já haviam desenvolvido elementos que, no universo textual do Apocalipse, podiam ser articulados. A condensação pressupõe a existência anterior de elementos diferenciados. O que aparece como unidade no texto final é, portanto, resultado de uma história de diferenciação, distribuição e recombinação, ainda que não possamos transformar essa história em uma cadeia única de transmissão.



9 CONSIDERAÇÕES FINAIS: O DRAGÃO COMO CONDENSAÇÃO

A história reconstruída aqui não é a história de uma entidade única que teria atravessado séculos sob nomes diferentes. As fontes não sustentam uma genealogia tão linear. O que elas permitem observar é algo mais complexo: a permanência de repertórios simbólicos associados ao caos, à monstruosidade, à perseguição, à acusação, à sedução e à oposição a Deus; a distribuição dessas funções entre diferentes figuras; a posterior aproximação de alguns desses repertórios; e, finalmente, sua condensação em uma representação única dentro de uma configuração textual específica.

A primeira camada é constituída pelo antigo imaginário da ameaça cósmica: serpentes, monstros marinhos, Leviatã, Rahab e outras figuras monstruosas. A segunda corresponde à transformação apocalíptica da monstruosidade em linguagem de interpretação histórica e escatológica, especialmente visível em Daniel. A terceira é a pluralização dos agentes supramundanos em parte da literatura judaica do Segundo Templo, na qual Satanás, Mastema, Azazel, Belial, os Vigilantes e outros personagens ou agentes podem desempenhar funções adversariais distintas. A quarta corresponde à aproximação, em determinadas tradições posteriores, entre o repertório edênico e a demonologia. A quinta envolve repertórios narrativos mediterrânicos nos quais a mulher perseguida, a criança excepcional e o monstro adversário podem aparecer articulados. A sexta é a condensação joanina, na qual o Dragão é explicitamente identificado com a antiga serpente, o Diabo e Satanás.

Essas camadas, contudo, não devem ser confundidas com etapas sucessivas de uma evolução necessária. Elas correspondem a histórias que se cruzam sem perder completamente sua autonomia. A monstruosidade possui uma história; a agência adversarial possui outra; a serpente possui outra; a tradição dos Vigilantes possui outra; a articulação entre conflito terrestre e conflito celestial possui outra; e determinados repertórios narrativos mediterrânicos possuem ainda outras. O Apocalipse não precisa ser entendido como o resultado final necessário dessas histórias. Sua especificidade narrativa está na capacidade de fazer com que repertórios distintos funcionem conjuntamente dentro de uma única narrativa escatológica.

A identificação sincrônica de Apocalipse 12,9 é, desse modo, o resultado de uma história diacrônica de aproximações. O que aparece simultaneamente no texto possui histórias diferentes. A força da imagem não deriva da existência anterior de uma doutrina única sobre o mal, mas da capacidade de uma tradição literária de reunir repertórios distintos em uma representação coerente. O Dragão pode ser simultaneamente monstro cósmico, adversário pessoal, perseguidor histórico, inimigo celestial e sedutor porque essas funções já haviam sido elaboradas, em diferentes contextos, dentro de tradições parcialmente independentes.

É por isso que a categoria de gramática do mal permite uma leitura mais precisa do fenômeno. Ela desloca a pergunta de “quem era realmente o Dragão?” para outra, historicamente mais produtiva: como diferentes tradições tornaram possível representar o mal por meio de figuras cujas funções e atributos podiam ser combinados? A resposta não está em uma linha evolutiva que conduza inevitavelmente da serpente ao Satanás e deste ao Dragão. Está na história das possibilidades de combinação entre símbolos, funções, agentes e estruturas narrativas.

A contribuição desta investigação está, portanto, menos na identificação isolada de antecedentes do Dragão do que na proposição de uma chave de leitura capaz de relacioná-los sem dissolver suas diferenças históricas. Ao distinguir entre continuidade de repertório, ressonância ou reutilização intertextual e transmissão histórica, e ao descrever os movimentos de diferenciação, distribuição funcional, recombinação e condensação, torna-se possível compreender Apocalipse 12 como resultado de uma convergência de repertórios no interior de uma configuração textual específica, e não como o ponto final de uma linhagem contínua de entidades.

O Dragão de Apocalipse 12 é, nesse sentido, menos uma personagem simplesmente herdada do que uma construção simbólica de alta densidade. Sua singularidade está justamente na capacidade de reunir linguagens anteriormente distribuídas: a serpente do engano, o monstro do caos, a linguagem do poder persecutório, o adversário celestial, o acusador e, no plano narrativo, a figura do monstro que ameaça uma mulher e uma criança destinada a sobreviver à sua violência. A gramática não elimina as diferenças entre essas tradições; ela nos permite compreender como elas puderam tornar-se mutuamente compatíveis. O monstro não desaparece quando surge o adversário pessoal; o adversário pessoal não precisa abandonar sua função quando assume uma forma monstruosa. A condensação ocorre justamente porque essas dimensões puderam ser articuladas.

Não estamos, portanto, contando a história de uma entidade que mudou de nome. Estamos reconstruindo a história de como diferentes tradições passaram a representar, combinar e finalmente condensar as formas da ação do mal.


REFERÊNCIAS

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