Estudos sobre Religião - Biblioblog

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

 


TERCEIRA PARTE DA TRÍADE — GUERRA, MEMÓRIA E REINO


RESUMO

Este artigo constitui a terceira parte da tríade GUERRA, MEMÓRIA E REINO e investiga a pregação do Reino de Deus nos Evangelhos como forma de soberania alternativa e de contestação da ordem. Partindo da Judeia romana como campo histórico plural de disputas por autoridade, território, riqueza, pertencimento e legitimidade, o estudo evita tanto a redução de Jesus à figura de um revolucionário armado quanto sua retirada do campo histórico das relações de poder. Propõe-se a categoria de gramática político-religiosa de contestação para analisar como a reivindicação da soberania divina interfere nos critérios pelos quais autoridade, grandeza, riqueza e pertencimento são reconhecidos. A análise articula quatro operações do Reino — INVERTE, ABRE, REDEFINE e JULGA — e as contrapõe à categoria analítica de soberania adversária, construída a partir da linguagem evangélica sobre Satanás, demônios, captura, divisão, sedução e domínio. A hipótese central é que a soberania adversária opera por um processo progressivo de corrupção de corpos individuais e corpos sociais, no qual a sedução do poder pode produzir desigualdade, concentração, violência, exclusão e hipocrisia, até que relações historicamente produzidas adquiram aparência de naturalidade. Em contraposição, o Reino aparece como restauração dos corpos, reconfiguração das relações e transformação dos critérios de legitimidade. As narrativas da tentação no deserto são tomadas como condensação narrativa desse conflito entre duas formas de soberania: Satanás oferece necessidade, espetáculo e domínio; Jesus recusa a utilização do poder segundo essa lógica. A conclusão sustenta que a radicalidade da proclamação do Reino não consiste simplesmente em substituir uma soberania por outra, mas em transformar as próprias regras pelas quais vitória, autoridade e poder podem ser reconhecidos.

Palavras-chave: Reino de Deus; Jesus; soberania; contestação; Satanás; poder; Judeia romana; Evangelhos; memória; guerra.


INTRODUÇÃO — DA GUERRA AO REINO

Este artigo constitui a terceira parte da tríade GUERRA, MEMÓRIA E REINO. No primeiro movimento, examinamos a presença do conflito nos Evangelhos a partir dos corpos, das relações, dos territórios simbólicos e das comunidades: possessão, exorcismo, cura, confronto, violência, prisão, crucificação e ressurreição foram analisados como elementos de uma narrativa na qual forças adversárias disputam pessoas, pertencimentos, autoridades e formas de ordenar a realidade. No segundo, deslocamos o problema do acontecimento para seus efeitos sobre a percepção do mundo: guerra, destruição, derrota, violência imperial, memória e restauração foram considerados como elementos de uma experiência histórica capaz de produzir rupturas que ultrapassam o momento dos combates. A terceira questão decorre dessas duas. Se a guerra torna visível um mundo em conflito e a memória preserva, reelabora e reorganiza a experiência da derrota, que ordem pode ser anunciada depois que a ordem existente se revelou incapaz de produzir justiça, segurança e continuidade? É nesse ponto que a pregação do Reino de Deus adquire sua função central. Marcos apresenta a atividade pública de Jesus sob o anúncio de que “o tempo está cumprido” e de que “o Reino de Deus está próximo” (Mc 1,14-15); Mateus conserva formulação semelhante (Mt 4,17). O dado textual não autoriza, por si só, transformar o Reino em equivalente moderno de programa político. Permite, contudo, reconhecer que a atividade de Jesus é narrada sob a irrupção de uma soberania que não coincide simplesmente com a ordem existente. Propomos, por isso, utilizar soberania alternativa como categoria analítica para designar uma forma de autoridade cuja legitimidade procede de outro princípio que não aquele pelo qual a ordem dominante se apresenta como legítima. Do mesmo modo, a expressão gramática político-religiosa será utilizada como categoria analítica para indicar que a pregação do Reino envolve simultaneamente questões de autoridade, pertencimento, riqueza, poder, legitimidade e organização das relações humanas, ao mesmo tempo que as ancora numa reivindicação religiosa de soberania divina. O problema central deste artigo não é, portanto, saber se o Reino é “político” ou “espiritual”, como se essas categorias fossem mutuamente excludentes, mas investigar como uma reivindicação sobre a soberania de Deus interfere nos critérios pelos quais uma ordem humana reconhece autoridade, distribui valor, estabelece pertencimento e define grandeza.

Essa hipótese precisa ser situada no mundo histórico da Judeia romana sem recorrer à simplificação de uma oposição binária entre “Roma” e “os judeus”. A própria historiografia diverge quanto ao modo de caracterizar essa sociedade e, sobretudo, quanto ao peso relativo de dominação imperial, conflito interno, estrutura econômica e agência local. Estudos sociopolíticos como os de Richard Horsley chamaram atenção para as relações de dominação, tributação, patronagem e resistência, privilegiando as condições sociais que tornavam inteligíveis diferentes formas de contestação. Gerd Theissen e Annette Merz, assim como Ekkehard e Wolfgang Stegemann, permitem visualizar uma sociedade marcada por posições sociais assimétricas, dependências econômicas e diferentes centros de autoridade, embora suas reconstruções não devam ser convertidas em uma descrição sociológica única e consensual da Judeia do período. A divergência é metodologicamente importante: não se trata de pressupor que toda tensão social possa ser explicada pela exploração romana, nem, no sentido inverso, de dissolver a dominação imperial em uma multiplicidade indiferenciada de conflitos locais. A contribuição desses estudos está justamente em permitir que a sociedade seja pensada como uma estrutura composta por relações entre grupos, instituições e posições, sem reduzi-la a uma única causalidade. Ainda assim, essa reconstrução sociológica não deve ser confundida com a evidência primária sobre cada episódio de contestação. Para isso, Flávio Josefo permanece fundamental. Sua narrativa registra personagens que reivindicam autoridade, resistem à tributação ou ao recenseamento, mobilizam seguidores em torno de expectativas proféticas, utilizam violência, ocupam espaços urbanos e disputam formas de soberania. Josefo fornece o campo documental; a historiografia disputa sua interpretação; nossa categoria de contestação procura tornar comparáveis fenômenos distintos sem transformar essa comparação em identidade histórica.


BLOCO I — A ORDEM HUMANA

1. UMA SOCIEDADE EM CONFLITO

A Judeia e as regiões adjacentes do período romano não constituíam um espaço politicamente imóvel. A narrativa de Josefo registra diferentes episódios nos quais autoridade, território, tributação, realeza, profecia e violência aparecem como objetos de disputa. Após a morte de Herodes, Judas, filho de Ezequias, mobiliza homens, ataca o palácio em Séforis e toma armas armazenadas ali, apresentando-se num contexto de instabilidade política em que reivindicações de autoridade podiam adquirir rapidamente dimensão militar (Antiguidades 17.271-272; Guerra 2.56). Simão da Pereia e Atronges aparecem, no mesmo contexto de desagregação da ordem herodiana, associados a reivindicações régias e à mobilização armada (Antiguidades 17.273-284; Guerra 2.57-65). Décadas depois, Josefo apresenta Judas, o Galileu, associado à resistência ao recenseamento promovido sob Quirino e à rejeição da submissão tributária a Roma (Antiguidades 18.1-10; Guerra 2.117-118). Em outro registro, Teudas mobiliza seguidores em torno de uma expectativa profética e de uma intervenção extraordinária junto ao Jordão (Antiguidades 20.97-98). O chamado Egípcio reúne multidões no contexto de uma expectativa profética ligada a Jerusalém (Guerra 2.261-263). Já durante a grande revolta de 66-70 d.C., Menahem, João de Giscala, Eleazar e, posteriormente, Simão bar Giora aparecem em uma conjuntura radicalmente distinta, na qual a contestação assume formas de guerra aberta, disputa pelo controle de Jerusalém, confrontos entre facções e reivindicações de liderança (Guerra 2.433-448; 4.503-544). A importância desses episódios não está, contudo, em produzir uma lista de “revolucionários” anteriores ou posteriores a Jesus. A própria designação desses personagens como “revolucionários” constitui uma questão historiográfica, e não um dado fornecido diretamente pelas fontes. Josefo descreve ações, reivindicações, mobilizações e conflitos; cabe à historiografia decidir como essas ações devem ser classificadas. Em alguns casos, a documentação permite reconhecer pretensões régias ou formas de resistência à autoridade; em outros, a dimensão profética ou escatológica é mais evidente; em outros ainda, categorias posteriores como “zelotismo”, “revolução” ou “messianismo” podem reunir sob uma mesma designação fenômenos que possuíam objetivos, recursos e bases sociais distintos. A categoria “revolucionário” é, portanto, utilizada aqui em sentido heurístico e não como classificação homogênea dos protagonistas. O que a documentação permite afirmar com maior segurança é que autoridade, território, tributação, realeza, profecia e violência podiam tornar-se objetos concretos de contestação. A questão sociológica não é estabelecer uma genealogia contínua de revoltas que culminaria em Jesus, mas identificar diferentes modalidades históricas de contestação da ordem.

É nesse ponto que a historiografia de Richard Horsley se torna especialmente importante, mas também precisa ser colocada em contraste com outras formas de reconstrução histórica. Sua leitura das sociedades camponesas da Galileia e da Judeia enfatiza que a resistência não pode ser compreendida apenas através de grandes líderes ou de uma sucessão de revoltas militares. Dominação, tributação, perda de autonomia, concentração de recursos e relações de patronagem constituíam, em sua interpretação, condições estruturais dentro das quais práticas de resistência podiam adquirir diferentes formas. O mérito dessa perspectiva está em deslocar a análise do acontecimento excepcional para as relações sociais que o tornam possível; seu limite, para os fins deste artigo, é que nenhuma reconstrução estrutural deve ser convertida automaticamente em explicação suficiente para cada mobilização individual registrada por Josefo. A reconstrução social de Stegemann e Stegemann reforça esse movimento ao mostrar a complexidade das posições sociais, dependência, honra e poder no mundo mediterrânico e judaico, enquanto Keddie permite colocar em primeiro plano a concentração econômica e as relações entre propriedade, riqueza e poder. Essas abordagens não são intercambiáveis: explicam dimensões diferentes do mesmo universo histórico. Por isso, não utilizamos Horsley como prova de que determinado personagem possuía determinada motivação, mas como modelo sociológico para interpretar as condições nas quais a contestação se tornou historicamente possível. Do mesmo modo, não utilizamos a descrição de Josefo como se ela fornecesse diretamente uma sociologia completa dos grupos envolvidos. A fonte registra acontecimentos e constrói sua própria interpretação; a historiografia procura reconstruir estruturas e relações; nossa análise compara modalidades de contestação a partir dessa dupla limitação.

As formas de contestação podem ser agrupadas, heuristicamente, segundo aquilo que procuram alterar. Algumas procuram SUBSTITUIR quem ocupa a posição dominante; outras procuram EXPULSAR o dominador; outras depositam a transformação decisiva na INTERVENÇÃO divina; outras podem ser compreendidas como tentativas de RECONFIGURAR a própria ordem. Essa classificação, entretanto, não pretende estabelecer quatro tipos empíricos mutuamente exclusivos. Um mesmo episódio pode combinar reivindicação de autoridade, resistência territorial, expectativa religiosa e transformação da ordem, e a documentação raramente permite separar essas dimensões de maneira absoluta. A primeira pergunta é: quem governa? A segunda: quem ocupa o território? A terceira: quando Deus intervirá? A quarta: segundo quais critérios a ordem deve funcionar? Essas perguntas não constituem uma tipologia utilizada pelos protagonistas antigos. São uma matriz contemporânea para comparar fenômenos historicamente diferentes. Uma reivindicação régia pode deslocar o ocupante do poder sem alterar necessariamente a lógica da autoridade; uma resistência armada pode procurar expulsar o dominador; uma mobilização profética pode esperar que Deus produza a transformação decisiva; uma comunidade pode, finalmente, alterar relações de autoridade e pertencimento sem procurar conquistar militarmente o centro da ordem. A utilidade da matriz está justamente em distinguir formas de contestação sem pressupor que todas pertençam ao mesmo movimento histórico. É precisamente nessa última questão que a tradição de Jesus começa a adquirir sua especificidade.

O argumento não exige, portanto, escolher entre duas imagens simplificadoras. A primeira faria de Jesus apenas mais um revolucionário armado cuja mensagem teria sido posteriormente espiritualizada. A segunda o retiraria completamente do campo histórico da contestação, transformando o Reino em experiência exclusivamente interior. Nenhuma das duas posições, porém, pode ser simplesmente assumida como conclusão antes que se distingam os níveis de evidência mobilizados para sustentá-las. Horsley ajuda a manter visível o mundo de dominação e resistência; Vermes e Flusser ajudam a impedir que toda linguagem de Reino, messianismo e escatologia seja imediatamente convertida em programa de insurreição; Stegemann e Stegemann tornam mais complexa a estrutura social; Keddie ilumina a economia política. Essas perspectivas não convergem porque descrevam o mesmo objeto da mesma maneira. Elas divergem quanto ao peso atribuído às dimensões social, política, econômica e religioso-escatológica. Nossa hipótese nasce desse cruzamento: Jesus pertence a um universo histórico no qual a soberania era disputada, mas sua forma de contestação não se deixa reduzir às modalidades conhecidas de substituição, expulsão ou conquista.


2. CONTESTAR A ORDEM

A centralidade do Reino é, portanto, um dado textual. A questão acadêmica começa depois: como compreender essa linguagem sem impor-lhe antecipadamente uma categoria moderna? Géza Vermes insistiu na necessidade de situar Jesus dentro do judaísmo de seu tempo e de evitar leituras que o retirem do horizonte escatológico judaico. David Flusser, igualmente atento ao contexto judaico, enfatizou a continuidade entre a mensagem de Jesus e determinadas tradições éticas e religiosas do judaísmo. Essas perspectivas funcionam como correção importante às leituras que transformam imediatamente o Reino em linguagem de insurreição política. Mas a correção pode produzir o efeito inverso se a contextualização religiosa for utilizada para neutralizar as consequências sociais da mensagem. A questão não é escolher entre “Reino espiritual” e “Reino político”; é perguntar como uma expectativa sobre a soberania de Deus produz consequências sobre as relações humanas, sem transformar essas consequências em equivalente moderno de política.

É por isso que preferimos falar em gramática político-religiosa de contestação. A expressão “programa político-religioso” seria excessivamente próxima de uma concepção moderna de programa organizado, enquanto “gramática” permite designar um conjunto de relações entre autoridade, pertencimento, valor, riqueza, serviço, julgamento e soberania sem pressupor que Jesus tenha elaborado um tratado sistemático sobre a sociedade. O caráter político da linguagem do Reino, nessa acepção, não depende da existência de uma plataforma institucional comparável às modernas formas partidárias ou estatais. Ele decorre do fato de que o Reino interfere na questão da autoridade e de sua legitimidade. Seu caráter religioso decorre do fato de que essa reorganização é fundada na soberania de Deus e em uma expectativa escatológica. O Reino não é político apesar de ser religioso; é precisamente sua reivindicação religiosa de soberania que produz consequências sobre a ordem humana.

Marcos 10:42-45 concentra essa questão de forma particularmente expressiva. Jesus contrapõe a maneira pela qual os governantes das nações exercem autoridade à forma como a autoridade deve funcionar “entre vós”. O maior deve ser servidor; aquele que pretende ser o primeiro deve tornar-se servo. O texto não elimina a autoridade como categoria relacional. O que ele contesta é a equivalência entre autoridade e dominação. A questão deixa de ser simplesmente quem ocupa a posição superior e passa a ser segundo qual princípio essa posição pode ser considerada legítima. Essa diferença é fundamental. Uma contestação pode procurar substituir o ocupante do centro da ordem sem alterar a estrutura pela qual o centro produz autoridade. A formulação de Jesus desloca a disputa para o próprio critério de legitimidade. A contestação muda de objeto: deixa de perguntar apenas quem vencerá e passa a perguntar que tipo de vitória poderá ser reconhecida como legítima.

A contestação, desse modo, desloca-se de maneira progressiva para autoridade, riqueza, pertencimento, honra e legitimidade. O poder é confrontado quando se transforma em dominação; a riqueza é relativizada quando pretende produzir segurança absoluta; a fronteira social é questionada quando transforma exclusão em normalidade; a grandeza é redefinida quando deixa de ser medida pela posição e passa a ser medida pelo serviço. Não se trata de afirmar que os Evangelhos apresentam uma teoria social sistemática. Trata-se de reconhecer uma regularidade narrativa: o Reino intervém precisamente nos lugares em que a ordem existente produz equivalências consideradas naturais — riqueza e segurança, posição e grandeza, autoridade e dominação, pureza e exclusão.


3. JESUS NO CAMPO DA CONTESTAÇÃO

A questão “Jesus foi revolucionário?” precisa, portanto, ser formulada com maior precisão. Se por revolucionário entendermos simplesmente líder de uma insurreição armada contra Roma, a evidência evangélica não sustenta essa identificação. Mas a ausência de evidência suficiente para classificá-lo como líder militar não resolve, por si só, a questão da contestação. Ela apenas elimina uma hipótese específica. Se, porém, entendermos contestação como questionamento da autoridade, da legitimidade, das relações de poder, da riqueza, do pertencimento e da ordem vigente, a resposta torna-se mais complexa. É precisamente aqui que o debate entre leituras sociopolíticas e histórico-religiosas se torna produtivo. Horsley permite perceber Jesus dentro de um ambiente de resistência e dominação; Vermes e Flusser impedem que essa localização seja convertida automaticamente em militância armada. O ponto não é escolher entre eles, mas determinar até onde cada perspectiva pode legitimamente levar a evidência. Jesus pertence a esse universo histórico. O que muda é a forma pela qual a contestação é narrativamente configurada.

Também é necessário evitar a equivalência entre as categorias régio, profético, escatológico e messiânico. Elas podem se sobrepor em determinados contextos, mas não constituem sinônimos. A tradição sobre Jesus reúne elementos que permitem aproximá-lo de expectativas régias, proféticas e escatológicas, enquanto a categoria messiânica adquire diferentes configurações conforme a tradição textual examinada. Podemos, em termos analíticos, falar em uma recombinação de funções tradicionalmente associadas ao rei, ao profeta e ao sacerdote, além de elementos de expectativa de intervenção e julgamento, mas não devemos atribuir a Jesus um projeto consciente de síntese dessas figuras. O que os textos permitem observar é que funções tradicionalmente associadas a diferentes formas de mediação da soberania aparecem concentradas em torno de sua pessoa e reorganizadas dentro da linguagem do Reino. A hipótese é, portanto, de recomposição narrativa e histórica de funções, e não de autoconsciência conceitual demonstrável.

A questão da autoridade torna-se particularmente importante em Marcos 10:42-45. A leitura de Peter-Ben Smit é relevante porque chama atenção para a estrutura relacional do servir e para a maneira como liderança e serviço são articulados no texto. Adam Winn, por outro lado, permite considerar a passagem diante do pano de fundo das formas romanas de autoridade e de sua representação política. As duas perspectivas não devem ser fundidas em uma única explicação: uma ilumina a estrutura interna das relações de serviço; a outra permite interrogar o contraste diante da cultura política imperial. O debate impede duas simplificações: não se trata apenas de uma ética privada de humildade, mas tampouco de uma declaração programática sobre o sistema imperial romano. O texto trabalha no espaço intermediário entre comunidade, autoridade e cultura política. Nossa categoria de inversão procura nomear essa operação sem transformar nenhuma dessas leituras secundárias em equivalente daquilo que o próprio texto afirma.

A paixão leva essa contestação ao nível do corpo. Marcos 15:2 preserva a pergunta de Pilatos — “Tu és o rei dos judeus?” — e Marcos 15:26 registra a inscrição “O rei dos judeus”. A crucificação, historicamente, pertence ao repertório penal romano e é inseparável da autoridade imperial que controlava a execução. Christopher Bryan é importante justamente por manter esse dado histórico sob controle sem transformar a execução em prova automática de que Jesus fosse um insurgente armado. Historicamente, Jesus foi executado sob autoridade romana; narrativamente, sua execução é apresentada em torno de uma reivindicação de realeza. A ordem estabelecida parece vencer. O corpo daquele que anuncia uma soberania alternativa é submetido à soberania histórica que controla a cidade, o tribunal e a execução. A tensão entre esses dois níveis será decisiva para compreender a reinterpretação da derrota na conclusão.

3.1 OS CASOS DIFÍCEIS: O TEMPLO E A ESPADA

A hipótese de uma contestação que reconfigura a lógica da soberania sem reproduzir sua gramática de domínio não pode ser sustentada sem enfrentar diretamente dois episódios que a pesquisa histórica trata como os candidatos mais sérios contra essa leitura: a ação de Jesus no Templo e o dito sobre a espada em Lucas 22:36.

A chamada "purificação do Templo" (Mc 11:15-17; Mt 21:12-13; Lc 19:45-46; Jo 2:14-16) constitui, para parte significativa da historiografia, o episódio historicamente mais seguro entre os que antecedem imediatamente a prisão de Jesus, e também o mais próximo de uma ação política direta contra um centro concreto de autoridade. E. P. Sanders (1985) argumentou que o gesto deve ser lido não como reforma moral do comércio no Templo, mas como ação simbólica anunciando sua destruição e substituição — um ato profético de ruptura, não de purificação. Se essa leitura estiver correta, o episódio não se distingue estruturalmente da tipologia de "reconfigurar a ordem" (seção 1), mas o faz por meio de uma ação física disruptiva contra um espaço de poder concentrado — mais próxima, nesse aspecto formal, da ação de Judas, filho de Ezequias, contra o palácio em Séforis (Antiguidades 17.271-272) do que das inversões verbais e das refeições que sustentam a maior parte da evidência mobilizada neste artigo. Não se trata de equiparar os dois episódios quanto à escala ou à intenção — a documentação não permite reconstruir um plano de tomada armada do Templo por parte de Jesus —, mas de reconhecer que a distinção entre "contestação simbólica" e "contestação por meios de força" é, neste caso específico, mais tênue do que em qualquer outro episódio examinado até aqui. A categoria de "julgamento" (seção 10) precisa, portanto, ser qualificada: ela inclui tanto o julgamento por critério relacional (a mesa, o serviço) quanto, neste caso singular, uma ação direta contra uma estrutura de poder, e essa segunda modalidade aproxima-se mais das formas de contestação social documentadas por Josefo do que o restante da evidência evangélica sugere.

O dito de Lucas 22:36 ("quem não tem espada, venda o manto e compre uma") apresenta uma dificuldade de outra natureza. Lido isoladamente, o versículo tem sido utilizado, inclusive por parte da historiografia mais próxima de Horsley, como possível indício de armamento entre os discípulos. O contexto imediato, contudo, oferece uma chave de leitura diferente: Lucas 22:38 encerra o diálogo com "basta", uma expressão que parte dos comentaristas interpreta como recusa de prosseguir a discussão, não como endosso do armamento; e Lucas 22:51, na cena da prisão, apresenta Jesus repreendendo o uso da espada e curando o ferido. Se essa leitura for aceita, o dito de 22:36 funciona antes como preparação retórica para a experiência da rejeição e do abandono (citada explicitamente no versículo seguinte, 22:37, com referência a Isaías 53:12) do que como instrução programática de armamento. A questão, porém, permanece genuinamente disputada, e não deve ser apresentada como resolvida.

Esses dois casos não invalidam a hipótese central deste artigo, mas exigem que ela seja formulada com maior precisão: a tradição de Jesus não apresenta uma recusa absoluta e sem exceção de qualquer ação disruptiva ou de qualquer menção a armamento, mas uma predominância robusta de formas de contestação não-violentas (mesa, cura, inversão, palavra), acompanhada por pelo menos um episódio de ação física direta contra uma estrutura de poder (o Templo) cuja classificação continua sendo objeto de debate historiográfico. A "soberania alternativa" proposta neste artigo descreve, portanto, uma tendência dominante e uma lógica declarada, não uma ausência absoluta de tensão ou exceção dentro da própria tradição.


4. O REINO INVERTE

Os Evangelhos apresentam reiteradamente operações de inversão: os primeiros tornam-se últimos, os últimos podem tornar-se primeiros, os grandes devem tornar-se pequenos, os poderosos são chamados ao serviço, os pobres são colocados em posição privilegiada na linguagem do Reino. Marcos 10:31, Mateus 19:30; 20:16 e Lucas 13:30 articulam essa inversão em diferentes contextos. Entretanto, o Reino não simplesmente troca as posições de lugar. Ele altera o critério pelo qual as posições recebem valor. O primeiro não se torna necessariamente segundo para que outro ocupe mecanicamente seu lugar; a própria relação entre posição e grandeza é questionada. Marcos 10:44 torna explícita essa operação ao transformar o serviço em critério de grandeza.

A riqueza constitui outro lugar de inversão. Lucas 6:20-26 aproxima pobres e ricos de destinos contrastantes; Marcos 10:17-27 apresenta a riqueza como obstáculo à entrada no Reino; Lucas 12:13-21 constrói a figura do homem que acumula recursos e imagina ter produzido segurança para si mesmo. Não há nesses textos uma teoria econômica moderna, tampouco uma crítica sistemática do capitalismo, inexistente como estrutura histórica no mundo em questão. Mas seria igualmente inadequado neutralizar a relação entre riqueza, segurança, posição social e valor. O problema não é simplesmente possuir bens. É a possibilidade de que a posse se transforme em fundamento da segurança, da honra e da autossuficiência. A inversão é uma operação sobre a relação entre posição e valor.

Grelot permite aprofundar a questão da riqueza e da pobreza dentro do horizonte bíblico e judaico, enquanto Keddie contribui para pensar concentração de recursos, propriedade e poder em sociedades antigas. As contribuições não operam no mesmo nível: Grelot ajuda a reconstruir o horizonte religioso e textual no qual pobreza e riqueza recebem significado; Keddie oferece instrumentos para compreender a dimensão material e estrutural das relações econômicas. Nenhum dos dois deve ser utilizado como prova de que Jesus estivesse formulando uma teoria econômica moderna. Sua utilidade está em impedir que a dimensão material das relações seja dissolvida numa espiritualização abstrata. O Reino não fornece uma política econômica moderna; ele desestabiliza a automaticidade com que riqueza, prestígio e posição podem aparecer como sinais legítimos de segurança ou grandeza.


5. AUTORIDADE, RIQUEZA E A MESA

A questão da autoridade encontra sua contraparte cotidiana na organização das relações de proximidade. As refeições dos Evangelhos não constituem simples cenários narrativos. Elas organizam reconhecimento, reciprocidade, honra e pertencimento. Em Lucas 14:12-14, Jesus recomenda que, ao oferecer uma refeição, não sejam convidados apenas aqueles capazes de retribuir. A recomendação desloca o princípio da reciprocidade que normalmente organiza relações sociais de prestígio e dependência. O problema não é apenas quem come, mas quem pode participar de uma relação quando não possui condições de devolver aquilo que recebeu.

John Dominic Crossan é especialmente importante nesse ponto por sua análise da comensalidade como prática de organização comunitária. A refeição pode funcionar como reprodução de hierarquias, mas também pode tornar-se espaço de uma comunidade alternativa quando os critérios de reciprocidade e honra são deslocados. A contribuição de Crossan é particularmente útil porque permite passar da afirmação genérica de que “Jesus comia com pessoas marginalizadas” para a análise da refeição como prática social capaz de produzir ou deslocar pertencimentos. Seu limite, para os fins desta análise, é que a categoria de comensalidade não pode, sozinha, demonstrar toda a extensão da transformação social atribuída ao Reino. A questão não é afirmar que toda refeição de Jesus constitua automaticamente um ato político. É observar que a escolha dos participantes, a relação entre anfitrião e convidado e a recusa da reciprocidade como único princípio de reconhecimento produzem uma forma diferente de pertencimento. A mesa é, nesse sentido, uma tecnologia de pertencimento.

A comparação com Qumran torna esse problema ainda mais significativo. A Regra da Comunidade e outros textos de Qumran apresentam uma comunidade profundamente preocupada com identidade, pureza, disciplina, pertencimento e separação. A comparação é metodologicamente útil justamente porque impede uma conclusão demasiado rápida de que toda comunidade escatológica judaica teria organizado o pertencimento segundo os mesmos critérios. Ela não demonstra dependência literária entre Qumran e Jesus. O que permite perceber é que ambos participam de um universo judaico no qual a organização comunitária e a expectativa escatológica constituem questões centrais. A diferença, em determinadas práticas e narrativas, está no modo de organizar a fronteira: Qumran tende a produzir pertencimento pela delimitação e pela separação; a tradição de Jesus, em determinadas práticas e narrativas, produz pertencimento pela aproximação e pela incorporação. Mas essa oposição também precisa ser limitada. Qumran não pode ser reduzido a uma comunidade de mera exclusão, assim como a tradição de Jesus não elimina fronteiras nem conflitos de pertencimento. O contraste é, portanto, de ênfase analítica e não de oposição absoluta entre “separação” e “inclusão”. Trata-se de diferença de solução para um problema compartilhado: como constituir uma comunidade considerada adequada diante de uma ordem percebida como inadequada?

Lucas 14:15-24 radicaliza a questão ao construir a imagem de um banquete para o qual são chamados aqueles que normalmente não ocupariam o centro das relações de honra. Marcos 2, com as refeições de Jesus entre publicanos e pecadores, reforça a tensão entre proximidade, pureza, reputação e pertencimento. A fronteira não desaparece, mas é deslocada. O problema passa a ser quem pode estar junto.

O episódio de Zaqueu, em Lucas 19:1-10, acrescenta à questão da mesa a dimensão econômica da reparação. A transformação de sua relação com os bens produz consequências materiais: distribuição e restituição. A comunidade alternativa não se constitui apenas pela declaração de novos princípios, mas por práticas que modificam relações concretas. A refeição, a partilha, a restituição e a acolhida aparecem, assim, como dimensões distintas de uma mesma operação: reorganizar relações sociais a partir de critérios que não reproduzem simplesmente a lógica anterior. A pregação anuncia o Reino; a mesa o ensaia.



BLOCO II — A ORDEM CÓSMICA

6. O MUNDO DAS APARÊNCIAS

A contestação evangélica ultrapassa as relações sociais imediatamente visíveis porque também questiona a maneira pela qual a própria ordem se apresenta como natural. A expressão mundo das aparências é utilizada aqui como categoria analítica contemporânea. Não significa que o mundo material seja ilusório ou que os Evangelhos estejam propondo uma metafísica segundo a qual tudo o que vemos seja falso. A categoria designa uma situação na qual relações historicamente produzidas — riqueza, autoridade, prestígio, pureza, hierarquia e exclusão — podem adquirir aparência de necessidade, naturalidade ou legitimidade. Mateus 23 trabalha repetidamente com o contraste entre exterior e interior; Lucas 18:9-14 opõe duas posições religiosas e sociais cuja avaliação diante de Deus não coincide com sua aparência pública. A posição ocupada por alguém não determina automaticamente seu valor diante do julgamento divino.

Grelot, ao discutir riqueza e pobreza, e Keddie, ao reconstruir relações entre concentração econômica e poder, ajudam a compreender como estruturas de desigualdade podem ser incorporadas como formas normais de organização social. A contribuição de Grelot permanece vinculada ao horizonte bíblico-teológico, enquanto Keddie opera sobretudo no plano socioeconômico; a categoria de aparência resulta, portanto, de uma operação analítica que não deve ser atribuída a nenhum dos dois autores. Horsley desloca essa questão para as relações de dominação e dependência. Nenhuma dessas perspectivas, entretanto, é idêntica à nossa categoria de “aparência”. Elas fornecem elementos históricos e sociológicos a partir dos quais podemos formular a hipótese de que uma ordem social se reproduz também quando suas relações contingentes passam a parecer naturais. O ponto central não é simplesmente que os ricos possuam mais ou que os poderosos ocupem posições superiores. É que riqueza, poder e posição podem adquirir valor de evidência: parecem provar que seus detentores merecem aquilo que possuem.

É possível formular, como ferramenta heurística, uma sequência mais simples: DESEJO → RELAÇÃO → ESTRUTURA → NORMALIZAÇÃO. Essa sequência não constitui uma cadeia causal explicitamente formulada pelos Evangelhos. Trata-se de uma modelização nossa a partir de elementos dispersos. Marcos 4:15 apresenta Satanás retirando a palavra; Marcos 4:18-19 associa a sedução das riquezas ao desejo e à sufocação da palavra. A questão é observar como aquilo que inicialmente aparece como disposição individual pode ser narrativamente relacionado a formas de vínculo, estrutura e normalização. Não estamos afirmando que Marcos apresente uma teoria da reprodução social. Trata-se de uma síntese analítica nossa, subordinada aos elementos efetivamente presentes na narrativa.

O Reino interfere justamente nessa camada da realidade. Ele retira dos sinais sociais seu valor automático. O rico não é necessariamente seguro; o poderoso não é necessariamente grande; o primeiro não é necessariamente legítimo; aquele que ocupa uma posição religiosa prestigiosa não é necessariamente justo. A contestação torna-se, assim, uma disputa sobre os critérios pelos quais a realidade pode ser reconhecida. O Reino não apenas propõe outra distribuição de posições; ele questiona a capacidade da ordem existente de dizer o que suas próprias posições significam.



7. SATANÁS, BELIAL E A SOBERANIA ADVERSÁRIA

A linguagem demonológica dos Evangelhos precisa ser tratada com controle histórico. Os textos do judaísmo do Segundo Templo não apresentam uma demonologia uniforme, e termos como Satanás, Belial, espíritos impuros e outras figuras adversárias não podem ser simplesmente fundidos numa genealogia linear. O Dictionary of Deities and Demons in the Bible ajuda a reconstruir a pluralidade terminológica e histórica dessas tradições, enquanto Elaine Pagels mostra como a linguagem de Satanás pode funcionar na construção de fronteiras identitárias e antagonismos. As duas contribuições devem ser distinguidas: o dicionário fornece controle histórico-terminológico sobre tradições e entidades; Pagels privilegia a função histórica e identitária da figura de Satanás. Nenhuma dessas abordagens deve ser convertida em uma chave totalizante. A diversidade das tradições demonológicas é parte do problema, não um obstáculo que precisamos eliminar para obter uma figura única do Mal.

Qumran oferece documentação especialmente relevante. A Regra da Comunidade (1QS 3–4) articula uma oposição entre espíritos de verdade e perversidade e associa Belial a uma estrutura cosmológica e moral de antagonismo. A Regra da Guerra (1QM) amplia essa oposição para uma representação escatológica entre filhos da luz e filhos das trevas, sob liderança de potências adversárias. Esses textos demonstram que o judaísmo do período conhecia formas complexas de pensar o conflito entre forças cósmicas, comunidades humanas e destinos escatológicos. Eles não demonstram, entretanto, uma identidade automática entre Belial e Satanás nem dependência literária entre Qumran e os Evangelhos. O valor comparativo está em mostrar um horizonte cultural no qual a ordem humana podia ser interpretada em relação a forças supramundanas de antagonismo.

A controvérsia de Beelzebu fornece uma das formulações mais importantes. Em Mateus 12:26, Jesus fala do “Reino de Satanás”; em Marcos 3:23-27 e Lucas 11:17-22, a mesma lógica aparece associada à imagem do homem forte. Mateus 12:28 e Lucas 11:20 contrapõem a expulsão dos demônios à chegada do Reino de Deus. Aqui temos uma distinção metodológica fundamental: “Reino de Satanás” é linguagem textual; “soberania adversária” é nossa categoria analítica. Não afirmamos que os Evangelhos apresentem uma teoria abstrata da soberania. Observamos que a linguagem de reino, domínio, captura, divisão e derrota permite analisar Satanás como figura de uma potência que disputa a organização da realidade.

A imagem do homem forte torna essa operação particularmente clara. Se alguém entra na casa de um homem forte, amarra-o e saqueia seus bens, a ação pressupõe uma disputa por domínio. O exorcismo deixa de ser apresentado apenas como libertação individual e passa a participar de uma narrativa de ruptura de domínio. O Reino de Deus é anunciado como presença que invade um espaço anteriormente controlado por uma potência adversária. Uma soberania é confrontada por outra.

É nesse ponto que Pagels e a literatura especializada em demonologia podem dialogar com nossa hipótese. Satanás não precisa ser reduzido a personagem psicológico, nem convertido em simples código para Roma. Mas também não é metodologicamente legítimo transformar a função cosmológica de Satanás em uma descrição sociológica da dominação romana. Pode funcionar narrativamente como figura de uma soberania adversária. A expressão continua sendo nossa categoria. A tradição evangélica fornece os elementos: Satanás tenta, captura, divide e combate; seu reino é contraposto ao Reino de Deus; sua força é apresentada como domínio que pode ser rompido. A passagem da linguagem cosmológica para a categoria de soberania é, portanto, uma inferência analítica nossa, e não uma equivalência lexical ou histórica encontrada nos textos.

Mas uma distinção permanece indispensável:

Satanás não é Roma.

Roma é uma formação histórica concreta, dotada de exército, administração, tributação, tribunais e coerção. Satanás pertence ao plano cosmológico e simbólico da narrativa. Os dois níveis podem ser articulados interpretativamente, mas não identificados histórica ou ontologicamente. Reconhecer que a dominação romana pode ser interpretada dentro de uma narrativa de oposição cósmica não autoriza afirmar que Satanás seja uma representação alegórica de Roma. A ordem imperial pode participar de uma ordem histórica percebida como adversa; Satanás figura, no plano cosmológico, a potência que se opõe ao Reino. Confundir os dois seria reduzir o argumento.





8. TRÊS NÍVEIS DA GUERRA

A partir dessa distinção, a guerra dos Evangelhos pode ser analisada em três níveis articulados: social, simbólico e cosmológico. No nível social aparecem poder, território, riqueza, recursos, pertencimento, dependência, tributação e violência. No nível simbólico aparecem verdade, mentira, pureza, honra, legitimidade, identidade e valor. No nível cosmológico aparecem Deus, Satanás, espíritos, luz, trevas, julgamento e derrota. Esses níveis não constituem, porém, três estágios de uma mesma realidade nem uma hierarquia explicativa na qual o cosmológico determine automaticamente o social. Não afirmamos que todo conflito social seja automaticamente uma guerra cósmica, nem que cada demônio represente uma instituição política específica. A hipótese é mais restrita: a narrativa evangélica pode utilizar registros diferentes para interpretar um mesmo campo de experiência. A articulação entre esses registros é uma característica da nossa leitura; não deve ser apresentada como estrutura conceitual explicitamente formulada pelos autores antigos.

Horsley ajuda a manter o nível social em primeiro plano; Pagels e a literatura demonológica ajudam a compreender o nível cosmológico e sua relação com identidade e antagonismo; Hanson permite acrescentar uma dimensão histórica importante: a linguagem apocalíptica pode ser compreendida em relação a experiências de crise, conflito e transformação das expectativas sobre a ordem existente. Sua contribuição, portanto, não consiste em demonstrar que determinado conflito social “é” uma guerra cósmica, mas em mostrar como experiências históricas de crise podem ser articuladas, em tradições apocalípticas, a representações de uma transformação radical da ordem. Essa contribuição também possui um limite: Hanson não fornece uma chave direta para interpretar cada narrativa demonológica dos Evangelhos, nem permite estabelecer uma relação causal simples entre determinada crise histórica e determinada formulação narrativa. As três perspectivas, portanto, operam em níveis diferentes e devem permanecer diferenciadas. O objetivo não é construir uma teoria única na qual toda dimensão possa ser reduzida às demais. O que propomos é uma leitura em camadas, capaz de conservar simultaneamente a materialidade histórica da dominação, a dimensão simbólica da disputa pela verdade e legitimidade e a linguagem cosmológica por meio da qual os Evangelhos interpretam o antagonismo.

O exorcismo constitui o ponto em que essas camadas podem aparecer condensadas. Em Marcos 1:27, a autoridade de Jesus sobre o espírito impuro é reconhecida publicamente. Em Mateus 12:28, a expulsão dos demônios é interpretada como sinal de que o Reino de Deus chegou. O corpo submetido a uma força adversária é libertado; a comunidade testemunha uma autoridade superior; o domínio adversário é rompido; uma nova ordem torna-se perceptível. A guerra cosmológica aparece no corpo. Isso não significa que o corpo seja apenas metáfora de um conflito político. Significa que, na narrativa, a experiência corporal constitui o lugar no qual a disputa entre soberanias se torna observável.

Essa formulação permite evitar duas reduções opostas. A primeira transformaria toda possessão em alegoria política, apagando a realidade cosmológica que os textos atribuem aos espíritos. A segunda trataria os exorcismos exclusivamente como acontecimentos sobrenaturais isolados, impedindo perceber sua função narrativa na proclamação do Reino. A leitura em três níveis preserva a tensão: o cosmológico não elimina o social; o social não esgota o cosmológico; o simbólico articula os dois sem dissolvê-los.

O mesmo cuidado deve ser aplicado à relação entre Satanás, desejo e reprodução da ordem. Marcos 4:15 apresenta Satanás como aquele que retira a palavra; Marcos 4:19 apresenta a sedução das riquezas e dos desejos. Podemos propor, a partir daí, que uma ordem adversária não precisa depender do controle direto de cada indivíduo. A narrativa também permite pensar que a ordem adversária não depende apenas de controle direto: sua eficácia pode ser representada pela captura do desejo, pela divisão e pela incorporação de disposições que reproduzem relações adversas ao Reino. Essa formulação, contudo, é uma síntese analítica nossa. Não é uma proposição literal dos Evangelhos. Sua função é explicar como a linguagem de captura, sedução e divisão pode ser relacionada à reprodução de relações sociais sem transformar Satanás em sociologia política.





9. A TENTAÇÃO E A DISPUTA PELA SOBERANIA

As narrativas da tentação em Mateus 4:1-11 e Lucas 4:1-13 condensam, em forma dramática, três dimensões de poder. O pão corresponde à capacidade de responder à necessidade material por meio de um exercício extraordinário de poder; o Templo envolve espetáculo, legitimação religiosa e demonstração pública; os reinos do mundo introduzem explicitamente a questão da autoridade política. Não é necessário transformar esses elementos em alegorias rígidas para perceber que a narrativa organiza diferentes formas de poder em torno de uma única pergunta: que tipo de soberania corresponde à missão de Jesus?

Flusser é particularmente importante porque impede que a tentação seja retirada de seu ambiente judaico e transformada em simples alegoria da política romana. Vermes, igualmente, ajuda a manter a discussão ligada ao problema da expectativa messiânica e escatológica. Mas essas cautelas também possuem um limite: preservar o horizonte judaico da narrativa não significa eliminar as implicações que suas categorias de autoridade, realeza e poder podiam adquirir em uma sociedade submetida a relações concretas de dominação. Horsley nos obriga justamente a não ignorar o fato de que autoridade, riqueza e dominação constituíam problemas concretos no mundo em que a narrativa circulava. As perspectivas, portanto, corrigem-se mutuamente: Flusser e Vermes limitam a redução sociopolítica; Horsley limita a despolitização produzida por uma leitura exclusivamente religioso-escatológica. As três perspectivas produzem uma questão comum, mas não uma resposta comum: que tipo de poder corresponde à missão de Jesus?

A resposta narrativa é construída como recusa. O pão não deve ser produzido simplesmente como demonstração de poder; o Templo não deve ser convertido em palco para obrigar Deus a demonstrar sua proteção; os reinos não devem ser apropriados mediante submissão à potência adversária. A tentação não oferece simplesmente três tentações morais distintas. Ela organiza três possibilidades de exercer poder: resolver a necessidade mediante capacidade extraordinária, obter legitimidade mediante espetáculo e conquistar autoridade mediante domínio. A resposta de Jesus desloca o fundamento da soberania para a fidelidade a Deus.

Satanás oferece, portanto, uma forma de vitória segundo os critérios da ordem que Jesus veio contestar. A questão não é simplesmente que o poder seja mau. É que existe uma forma de poder capaz de produzir resultados imediatos sem transformar a lógica pela qual esses resultados são obtidos. É possível vencer e, ao mesmo tempo, permanecer submetido à lógica do adversário. Essa questão aproxima a tentação de Marcos 10:42-45: poder sem serviço, autoridade sem responsabilidade, grandeza sem humildade e vitória sem transformação da ordem permanecem associados à mesma lógica de poder.

A sequência narrativa torna-se decisiva: poder oferecido → poder recusado → poder exercido contra Jesus → aparente derrota → ressurreição → reinterpretação da vitória. A paixão mostra a força da ordem existente. A ressurreição, dentro da narrativa, não apaga essa força, mas impede que ela tenha a palavra final sobre o significado da história. A questão já não é simplesmente saber se Jesus pode exercer mais poder que o adversário. É saber segundo qual lógica o poder deve ser exercido e segundo qual critério uma vitória pode ser reconhecida como vitória.


10. DUAS SOBERANIAS E A RECONFIGURAÇÃO DA ORDEM

O Reino de Deus é apresentado nos Evangelhos como soberania anunciada, experimentada em atos de libertação, expressa na comunidade e projetada para uma consumação futura. O “Reino de Satanás”, por sua vez, é linguagem textual para designar um domínio adversário cuja coerência aparece na capacidade de capturar, dividir, seduzir e resistir. A categoria soberania adversária é nossa tentativa de reunir essas funções sem atribuir aos Evangelhos uma teoria abstrata de soberania. A oposição entre os dois Reinos não significa que exista, no texto, uma equivalência simples entre dois Estados sobrenaturais. Significa que a narrativa constrói uma oposição entre duas formas de ordenar a realidade.

A lógica do Reino pode ser sintetizada em quatro operações analíticas:

INVERTE.

ABRE.

REDEFINE.

JULGA.

O Reino INVERTE quando desloca a relação entre primeiro e último, grande e pequeno, rico e pobre. ABRE quando desloca fronteiras de pertencimento e aproxima aqueles que a ordem social tende a manter à margem. REDEFINE quando transforma serviço em grandeza, partilha em relação legítima com a riqueza e responsabilidade em critério de autoridade. JULGA quando submete posições, riquezas, autoridades e formas de pertencimento a critérios que não coincidem com os critérios pelos quais a ordem existente se legitima. Essas quatro operações não constituem categorias nativas dos Evangelhos; são uma síntese analítica nossa, construída a partir de diferentes tradições textuais.

A evidência que sustenta essa síntese é dispersa. O Reino é anunciado em Marcos 1:15; a autoridade é redefinida em Marcos 10:42-45; a riqueza é problematizada em Marcos 10 e Lucas 12; a pertença é reorganizada nas refeições de Lucas 14 e em outras narrativas de mesa; a inversão aparece em Marcos 10:31 e paralelos; o “Reino de Satanás” aparece em Mateus 12:26; a tentação organiza formas de poder em Mateus 4 e Lucas 4. Não existe uma tabela dos quatro verbos nos Evangelhos. Existe um conjunto de operações narrativas que nossa análise reúne sob esses quatro termos.

É nesse ponto que Crossan, Flusser, Vermes, Horsley e Pagels podem ser colocados em diálogo, mas não apresentados como autores que simplesmente convergem para nossa conclusão. Crossan ajuda a perceber a dimensão comunitária e relacional da alternativa; Flusser e Vermes impedem que ela seja retirada do judaísmo e da escatologia; Horsley mantém a realidade histórica da dominação e da contestação; Pagels ajuda a compreender a linguagem do antagonismo cosmológico. Hanson acrescenta, em outro nível, a possibilidade de compreender a linguagem apocalíptica como uma forma de elaboração de crise e transformação da ordem, sem que isso autorize uma passagem direta da crise histórica para a narrativa evangélica. Cada autor, entretanto, opera em um nível diferente e estabelece limites diferentes para a interpretação. Crossan não fornece evidência primária sobre a sociedade de Jesus; Vermes e Flusser não eliminam a dimensão social da mensagem; Horsley não demonstra, por si só, a natureza da missão de Jesus; Pagels não transforma automaticamente demonologia em sociologia política; Hanson não oferece uma explicação causal direta para a estrutura narrativa dos Evangelhos. Nossa hipótese não é simplesmente a soma dessas posições. Ela nasce da tentativa de colocar seus diferentes níveis em uma única arquitetura interpretativa, assumindo precisamente o risco dessa operação e mantendo explícita a diferença entre o que os autores afirmam, aquilo que os textos permitem inferir e aquilo que propomos como síntese.

A operação de JULGAMENTO torna-se particularmente importante. A riqueza é julgada pela relação com aqueles que não possuem; a autoridade é julgada pelo modo como trata aqueles que estão sob sua responsabilidade; a grandeza é julgada pelo serviço; o pertencimento é julgado pela capacidade de acolher; a aparência religiosa é julgada por sua relação com justiça e interioridade. Mateus 25:31-46 leva essa lógica ao limite ao fazer da relação com os vulneráveis um critério de julgamento. A autoridade do Reino não apenas distribui novas posições: ela estabelece novos critérios pelos quais as posições podem ser avaliadas.

O Reino, entretanto, não é apresentado como transformação instantânea da totalidade do mundo. A parábola do joio e do trigo (Mt 13:24-30), a imagem da semente (Mc 4:30-32) e a comparação do fermento (Mt 13:33) mantêm uma tensão entre presença e consumação. O Reino já começa a tornar-se perceptível, mas ainda não encerra definitivamente o conflito. A ordem adversária continua funcionando. Essa tensão é decisiva porque impede interpretar a reconfiguração do Reino como simples tomada imediata do poder histórico.

A paixão e a ressurreição levam essa arquitetura ao limite. Jesus morre. No plano histórico reconstruído a partir da tradição da paixão, a execução ocorre sob autoridade romana; no plano narrativo, essa morte é posteriormente reinterpretada pela tradição da ressurreição. A ordem histórica vence segundo o critério da força. Mas a ressurreição impede, dentro da narrativa, que essa definição seja definitiva. Ela não transforma a derrota em algo que não aconteceu. A violência continua sendo violência; a execução continua sendo execução; a derrota continua sendo derrota histórica. O que muda é a interpretação de seu significado. A questão passa a ser quem possui autoridade para definir o resultado do conflito. Não afirmamos, portanto, que a narrativa “prove” historicamente uma vitória sobre Roma. A afirmação é mais precisa: a narrativa recusa permitir que a execução romana determine o significado final da missão de Jesus.


Soberania adversáriaSoberania do Reino
DominaçãoServiço
CapturaLibertação
DivisãoComunidade
AcumulaçãoPartilha
PrestígioHumildade
ExclusãoIncorporação
AparênciaVerdade
Hierarquia legitimada pela posiçãoGrandeza medida pelo serviço
Violência destrutivaRestauração
Vitória como domínioVitória como transformação


A tabela não pretende reproduzir uma estrutura literal encontrada nos Evangelhos. Ela modeliza, em forma comparativa, a hipótese desenvolvida ao longo do artigo. De um lado, reunimos operações associadas à soberania adversária: dominação, captura, divisão, acumulação, prestígio, exclusão e violência. De outro, reunimos operações atribuídas ao Reino: serviço, libertação, comunidade, partilha, humildade, incorporação e restauração. A oposição é analítica, não uma declaração de que os textos apresentem uma doutrina sistemática em termos binários.

O conflito entre os dois Reinos não se resume, portanto, à disputa pelo controle da ordem existente; trata-se da disputa entre duas formas de ordenar a realidade.


CONCLUSÃO — O EMBATE DOS DOIS REINOS






Ao longo desta análise, o Reino de Deus foi compreendido não como simples expectativa religiosa de uma realidade futura, nem como programa político no sentido moderno, mas como soberania alternativa: uma forma de organizar a vida social a partir de um princípio de legitimidade que não coincide com a ordem dominante. Sua chegada implica uma transformação dos critérios pelos quais autoridade, riqueza, pertencimento, grandeza e vitória são reconhecidos. O Reino inverte posições e valores, abre fronteiras de pertencimento, redefine a autoridade e julga a ordem existente. Os primeiros podem tornar-se últimos; os últimos, primeiros; o maior deve tornar-se servo; os pequenos adquirem centralidade; os excluídos podem ocupar a mesa; o rico já não pode tomar sua riqueza como garantia automática de legitimidade; o corpo doente ou possuído pode ser restaurado; a dívida pode ser interrompida pelo perdão; o inimigo pode ser incorporado por uma lógica que recusa a reprodução da violência. O Reino, portanto, não constitui simplesmente uma nova administração do mesmo mundo. Ele altera as relações que fazem de uma posição uma posição de poder, de uma riqueza uma riqueza legítima, de uma fronteira uma fronteira necessária e de uma derrota uma derrota definitiva. É por isso que a pregação de Jesus participa do campo histórico de contestação da Judeia sem poder ser reduzida a uma variante dos movimentos insurgentes conhecidos por Josefo. Jesus pertence ao mesmo mundo de desigualdade, dominação, violência, expectativas messiânicas e disputas pela soberania, mas reconfigura a gramática da contestação. A pergunta deixa de ser apenas quem substituirá o dominador e passa a ser que tipo de autoridade merece governar, que forma de poder pode ser legítima e que espécie de sociedade deve resultar da vitória.

Essa reconfiguração só pode ser compreendida plenamente quando se observa seu contraponto: aquilo que os Evangelhos denominam explicitamente “reino de Satanás” (Mt 12:25–29; Mc 3:23–27; Lc 11:17–22). A categoria não deve ser confundida com Roma, nem transformada em alegoria automática do Império. Roma não é Satanás. Satanás pertence ao registro cosmológico; Roma, ao registro histórico. Mas os Evangelhos permitem observar como a soberania adversária pode operar através de corpos, desejos, relações e estruturas históricas. O que caracteriza essa soberania não é apenas a capacidade de exercer violência, mas sua capacidade de corromper progressivamente aquilo que sustenta a vida social. A corrupção começa pela sedução do poder. Satanás oferece a possibilidade de transformar necessidade em poder, poder em reconhecimento e reconhecimento em domínio. A tentação do deserto revela esse mecanismo em sua forma concentrada: pão para a fome, espetáculo para o reconhecimento e os reinos do mundo para o domínio político (Mt 4:1–11; Lc 4:1–13). Mas aquilo que aparece inicialmente como solução contém sua própria deterioração. Quando o poder se transforma em finalidade, a riqueza pode converter-se em acumulação; a acumulação, em relações assimétricas de propriedade; essas assimetrias, em desigualdade; a desigualdade, em violência; a violência, em mecanismos de legitimação; e a legitimação, em hipocrisia. A ordem corrompida passa então a apresentar sua própria corrupção como normalidade. O mundo das aparências nasce precisamente nesse ponto: a desigualdade parece natural, a riqueza parece mérito, a apropriação parece propriedade legítima, a violência parece necessária, a hierarquia parece ordem e a liderança parece serviço mesmo quando já não serve. A soberania adversária alcança sua forma mais eficiente quando deixa de depender apenas da coerção e passa a produzir sujeitos capazes de reproduzir, desejar e justificar as relações que os submetem.

É nesse sentido que a corrupção dos corpos individuais e a corrupção dos corpos sociais podem ser lidas como duas manifestações de uma mesma lógica. Nos Evangelhos, a corrupção corporal aparece tanto nas narrativas de enfermidade quanto, em registros específicos, nas narrativas de possessão; os textos, contudo, não reduzem toda doença à ação demoníaca. O que importa para esta análise é que, em ambos os registros, o corpo comprometido pode representar perda de agência, ruptura de relações e exclusão. O possuído perde autonomia; o enfermo sofre; o menino dominado pelo espírito é lançado ao chão; o geraseno é submetido por uma força que fragmenta sua identidade; a mulher encurvada permanece presa sob aquilo que Jesus identifica como ação de Satanás (Mc 1:21–28; 5:1–20; 9:14–29; Lc 13:10–17). Não é necessário reduzir essas narrativas a alegorias sociais para perceber sua dimensão sociológica. O corpo atingido é também um corpo cuja capacidade de participar normalmente da vida coletiva é comprometida. A possessão, a enfermidade e o isolamento produzem perda de agência, ruptura de relações e exclusão. Quando Jesus expulsa os demônios, cura, reintegra e devolve pessoas à comunidade, sua ação não aparece apenas como intervenção sobre uma doença ou sobre uma entidade sobrenatural: ela restaura a capacidade de habitar novamente o mundo social. Paralelamente, a corrupção aparece no corpo coletivo: na ganância, na concentração da riqueza, nas relações assimétricas de propriedade, na desigualdade, na exploração, na violência e na hipocrisia das lideranças. O corpo social também pode adoecer. Pode perder sua capacidade de produzir reciprocidade, confiança, justiça e pertencimento; pode conservar suas instituições enquanto suas relações internas se deterioram. A hipocrisia é particularmente reveladora porque representa o momento em que a aparência de saúde permanece enquanto o corpo já está corrompido. A liderança conserva títulos, autoridade e prestígio, mas abandona o serviço; a instituição conserva sua aparência de legitimidade, mas passa a proteger sua própria posição; a riqueza conserva sua aparência de bênção, enquanto produz exclusão. O Reino adversário, portanto, não apenas domina corpos: ele corrompe as relações pelas quais os corpos podem viver juntos.

O Reino de Deus aparece exatamente no ponto em que essa corrupção é confrontada. Sua primeira característica não é simplesmente possuir maior força, mas restaurar aquilo que a soberania adversária corrompeu. Se o adversário captura, o Reino liberta; se fragmenta, o Reino reintegra; se exclui, o Reino incorpora; se concentra, o Reino partilha; se transforma autoridade em domínio, o Reino a redefine como serviço; se produz aparência, o Reino desvela; se naturaliza a desigualdade, o Reino a julga. É por isso que as curas, os exorcismos, as refeições, os perdões, as restituições, as inversões de status e as críticas às lideranças não devem ser tratados como elementos isolados de uma coleção de ensinamentos morais. Em conjunto, eles compõem uma gramática de restauração social. A mesa torna-se uma tecnologia de pertencimento; a cura devolve o indivíduo à comunidade; a restituição altera relações econômicas; o serviço redefine a autoridade; o perdão interrompe a reprodução da dívida e da retaliação; o acolhimento desloca fronteiras; o julgamento mede a legitimidade da ordem por sua relação com os vulneráveis. A chegada do Reino, anunciada como intervenção de Deus, torna-se socialmente inteligível porque produz efeitos sobre aquilo que a soberania adversária havia capturado ou corrompido. Quando Jesus afirma que, se expulsa demônios pelo dedo de Deus, então “chegou” o Reino de Deus (Lc 11:20), a linguagem cosmológica encontra sua manifestação concreta no corpo. O conflito cosmológico torna-se observável na libertação de alguém. O conflito entre soberanias não permanece no plano abstrato: ele se manifesta na pergunta sobre quem controla o corpo, quem determina seu destino, quem pode pertencer, quem pode sentar-se à mesa e quem possui autoridade para definir o que é uma vida legítima.

É nesse ponto que o deserto deve ser compreendido como o grande momento de condensação de toda a disputa. A tentação não é apenas uma prova moral destinada a demonstrar que Jesus é virtuoso. Ela apresenta, narrativamente, duas possibilidades de soberania. Satanás oferece pão, espetáculo e os reinos do mundo. Em primeiro lugar, oferece poder para resolver a necessidade; em seguida, poder para produzir reconhecimento; finalmente, poder para conquistar domínio. A sequência pode ser formulada sociologicamente como NECESSIDADE → PODER → ESPETÁCULO → RECONHECIMENTO → DOMÍNIO. Jesus recusa cada etapa. Não transforma sua autoridade em instrumento de autossatisfação; não transforma Deus em instrumento de espetáculo; não aceita conquistar os reinos do mundo mediante submissão ao soberano adversário. Sua resposta estabelece outra gramática: FIDELIDADE → NÃO-INSTRUMENTALIZAÇÃO → SERVIÇO → SOBERANIA DE DEUS. A importância dessa cena está justamente em demonstrar que a diferença entre os dois Reinos não é apenas uma diferença entre dois poderes, mas entre duas maneiras de utilizar o poder. Satanás oferece a possibilidade de vencer o mundo utilizando a lógica do mundo. Jesus recusa. A questão decisiva não é simplesmente possuir poder, mas como o poder é obtido, para que finalidade é exercido e que tipo de relações ele produz. O pão não é o problema; o problema é fazer da autoridade um instrumento de autossatisfação. O espetáculo não é simplesmente uma demonstração; o problema é depender dele para fabricar legitimidade. Os reinos do mundo não são apenas territórios; o problema é aceitar uma soberania fundada na submissão ao poder adversário. O deserto funciona, assim, como uma espécie de matriz negativa do Reino: antes mesmo de sua realização histórica, estabelece aquilo que o Reino não poderá reproduzir para alcançar sua vitória.

Essa leitura permite compreender de maneira mais precisa a relação entre guerra, memória e Reino. A guerra não é apenas militar; ela possui dimensões sociais, simbólicas e cosmológicas. A memória não é simples conservação do passado; ela interpreta os corpos feridos, as derrotas, as execuções e as catástrofes e disputa o significado que será atribuído a elas. O Reino não é simplesmente a recompensa posterior dessa história; ele constitui uma resposta àquilo que a ordem existente produz. Se o mundo da soberania adversária aparece marcado pela corrupção dos corpos, pela desigualdade, pelas relações assimétricas, pela ganância, pela violência e pela hipocrisia, o Reino de Deus aparece como uma prática de restauração dos corpos e reconfiguração das relações. Essa é também a razão pela qual a cruz ocupa lugar decisivo. Historicamente, Jesus foi executado sob autoridade romana; narrativamente, sua morte é enquadrada pela acusação de realeza. A execução demonstra a capacidade material da soberania imperial de produzir uma morte. Mas a ressurreição permite à comunidade reinterpretar aquilo que parecia ser o triunfo definitivo do poder. O vencedor histórico não recebe automaticamente autoridade para definir o significado último do acontecimento. A cruz pode ser, simultaneamente, instrumento de execução imperial e lugar de uma memória que redefine a derrota. A vitória deixa de significar simplesmente a sobrevivência do mais forte ou a posse do território do adversário. Ela passa a significar a capacidade de atravessar a violência sem reproduzir sua lógica e de transformar a própria definição do que conta como vitória.

A VIRADA, portanto, encontra no deserto sua primeira formulação e na narrativa do Reino sua realização progressiva. Não se trata simplesmente de ocupar o centro que antes pertencia ao adversário. Não se trata de substituir uma elite por outra, uma dominação por outra ou um soberano por outro. Trata-se de alterar as relações que fazem de uma posição uma posição de poder, de uma riqueza uma riqueza legítima, de uma fronteira uma fronteira necessária, de uma liderança uma liderança legítima e de uma derrota uma derrota definitiva. O Reino de Deus não vence o Reino de Satanás tornando-se uma versão mais eficiente dele. Sua pretensão é mais radical: vencer sem reproduzir a gramática que produziu a corrupção. Por isso, o conflito entre os dois Reinos não é simplesmente a disputa pelo poder; é a disputa pela definição do que o poder deve ser. De um lado, uma soberania que seduz pelo poder e, progressivamente, corrompe corpos, relações e comunidades; de outro, uma soberania que manifesta sua chegada pela libertação, restauração, incorporação, serviço e redefinição dos critérios de valor. O que está em jogo é a própria capacidade de uma sociedade dizer o que é verdadeiro, o que é desejável, quem merece honra, quem pertence, quem pode governar e o que deve ser considerado uma vitória.

É nesse sentido que o embate entre Jesus e Satanás no deserto pode ser compreendido como a personificação narrativa do confronto entre o Reino de Deus e o Reino de Satanás na Terra. Satanás oferece a Jesus o mundo tal como a lógica da soberania adversária o organiza: a necessidade como oportunidade de poder, o poder como espetáculo, o espetáculo como reconhecimento e o reconhecimento como caminho para o domínio. Jesus recusa essa cadeia. Ele não aceita conquistar o mundo reproduzindo aquilo que o corrompe. A partir dessa recusa, torna-se possível compreender a coerência profunda de sua atuação: onde a soberania adversária captura, o Reino liberta; onde ela corrompe, o Reino restaura; onde ela divide, o Reino incorpora; onde ela concentra, o Reino partilha; onde ela naturaliza a hierarquia, o Reino a julga; onde ela transforma poder em domínio, o Reino transforma poder em serviço. A disputa decisiva, portanto, não é apenas sobre quem governará o mundo. É sobre qual lógica governará aqueles que governam, qual princípio organizará aqueles que obedecem e qual definição de vitória será capaz de sobreviver à própria vitória.

A tradição evangélica não apresenta o Reino como simples tentativa de ganhar a partida. Ela apresenta o Reino como transformação das próprias regras pelas quais a vitória pode ser reconhecida. E talvez seja precisamente aí que esteja a radicalidade da proclamação: não basta derrotar o adversário; é necessário impedir que sua lógica sobreviva dentro daquele que o derrota. É a VIRADA. O Reino de Deus não é simplesmente outro poder ocupando o mundo. É outra forma de organizar o mundo. E é justamente por isso que, diante da oferta de todos os reinos da Terra, Jesus não aceita tornar-se senhor do mundo nos termos de Satanás. A tradição evangélica o apresenta anunciando outro Reino.




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TEXTOS DE QUMRAN. Regra da Comunidade (1QS); Regra da Guerra (1QM). In: GARCÍA MARTÍNEZ, Florentino; TIGCHELAAR, Eibert J. C. (eds.). The Dead Sea Scrolls Study Edition. Leiden: Brill; Grand Rapids: Eerdmans, 1997–1998.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

 


SEGUNDA  PARTE DA TRÍADE

GUERRA, MEMÓRIA E REINO


RESUMO

Este artigo propõe compreender a relação entre a Guerra Judaico-Romana, a destruição de Jerusalém e do Templo e determinadas formas de memória presentes nos Evangelhos a partir da categoria heurística de “texto dentro do texto”. Parte-se da distinção entre a formação anterior das tradições sobre Jesus e as novas condições históricas de sua recepção após 70 d.C. A hipótese central é que a guerra não constitui a origem necessária da gramática restauradora presente nas narrativas evangélicas, mas pode ter alterado o horizonte no qual tradições anteriores sobre cura, alimentação, libertação, reunião, morte e ressurreição passaram a ser interpretadas. Para desenvolver essa hipótese, o artigo coloca em diálogo a narrativa de Flávio Josefo sobre a destruição de Jerusalém e do Templo com a representação evangélica do corpo, do espaço sagrado, da cidade e da expectativa escatológica. A comparação não pressupõe dependência literária entre Josefo e os Evangelhos nem equivalências alegóricas entre acontecimentos históricos e episódios narrativos. Propõe-se, antes, reconhecer uma possível homologia estrutural entre destruição e restauração, entendida como recurso de elaboração memorial da catástrofe. O argumento sustenta que a experiência da guerra pode ter produzido novas condições de recepção para tradições anteriores, permitindo que a narrativa sobre Jesus funcionasse como espaço simbólico de reconfiguração da derrota. Roma permanece, assim, como poder histórico materialmente devastador, mas deixa de constituir, na narrativa, a instância última de determinação do significado da história.

Palavras-chave: Guerra Judaico-Romana; Evangelhos; trauma cultural; memória; Jerusalém; Templo; Império Romano; Jesus; escatologia; Flávio Josefo.


1 O MUNDO QUE FOI DESTRUÍDO

Há acontecimentos históricos que não terminam quando terminam os combates. A guerra pode cessar enquanto seus efeitos permanecem inscritos nos corpos, nas instituições, nos lugares, nas relações sociais e, sobretudo, nas formas pelas quais uma comunidade consegue — ou não consegue — narrar aquilo que lhe aconteceu. A Guerra Judaico-Romana de 66–70 d.C., prolongada em focos posteriores de resistência até a queda de Massada, produziu uma ruptura dessa natureza. Jerusalém foi cercada, a fome alcançou dimensões extremas, milhares de pessoas morreram, famílias foram desintegradas, corpos permaneceram sem sepultamento adequado, o Templo foi incendiado e a cidade sofreu uma destruição cuja dimensão ultrapassava a perda de um espaço urbano. O que estava em jogo não era apenas a sobrevivência física de uma população, mas a continuidade de um mundo no qual território, cidade, culto, memória, sacerdócio, sacrifício e presença divina se encontravam profundamente articulados. É nesse ponto que Flávio Josefo se torna indispensável. Não porque sua narrativa seja uma fotografia neutra dos acontecimentos, mas precisamente porque ela constitui uma das mais extensas formas antigas de transformar a catástrofe em memória escrita. Josefo escreve depois de atravessar a guerra e de mudar de posição política; escreve sob proteção flaviana e organiza os acontecimentos dentro de uma interpretação histórica e teológica própria. Seu relato, portanto, não é a catástrofe em estado puro, mas uma representação antiga da catástrofe. É justamente como representação, contudo, que ele pode ser colocado diante dos Evangelhos.

“A fome começou a devorar as famílias inteiras. As casas superiores estavam cheias de mulheres e crianças que morriam; as ruas estavam cheias dos cadáveres dos velhos. Os meninos e os jovens, inchados pela fome, vagueavam pelas praças como sombras, caindo mortos onde a fraqueza os alcançava. Quanto aos mortos, não havia força suficiente para enterrá-los. Alguns, que ainda conservavam alguma energia, eram obrigados a deixar os mortos sem sepultura; outros caíam mortos enquanto enterravam aqueles que haviam morrido antes deles. A calamidade era tão grande que aqueles que ainda viviam já não conseguiam prestar aos mortos os deveres que lhes eram devidos.”

(JOSEFO, Guerra dos Judeus, V.12.3–4, tradução de trabalho a partir de WHISTON).

A passagem é particularmente importante porque a fome não aparece simplesmente como ausência de alimento. Ela funciona como força de desorganização da própria vida social. As casas transformam-se em lugares de morte, as ruas tornam-se espaços de acumulação de cadáveres, os vínculos familiares são atingidos e até o sepultamento — prática pela qual uma comunidade estabelece uma relação ordenada com seus mortos — torna-se impossível. A catástrofe alcança, assim, uma dimensão que ultrapassa a morte individual: ela compromete instituições, ritos e gestos mediante os quais uma sociedade preserva alguma continuidade diante da morte. O corpo humano é um dos primeiros lugares nos quais a guerra se torna visível, mas é também através dele que a destruição alcança a família, a comunidade e os ritos mediante os quais a memória coletiva preserva alguma continuidade diante da morte. Esse aspecto é decisivo para a leitura dos Evangelhos porque uma de suas características mais persistentes é precisamente a apresentação de Jesus como aquele cuja atividade produz restauração. Jesus cura corpos, alimenta famintos, reintegra excluídos, liberta indivíduos submetidos a forças hostis e, em algumas narrativas, devolve mortos à vida. Não é necessário transformar cada cura em alegoria da Guerra Judaico-Romana, nem supor que cada episódio tenha sido concebido como comentário sobre Roma. O argumento que procuramos desenvolver é mais cuidadoso: os Evangelhos preservam uma gramática narrativa na qual a ação de Jesus aparece reiteradamente associada à recomposição daquilo que foi desintegrado. Essa gramática antecede a destruição de 70 d.C.; por isso mesmo, pode posteriormente adquirir nova densidade quando essas tradições passam a ser transmitidas por comunidades que conhecem, recordam ou interpretam a experiência da guerra.

A categoria de trauma precisa ser empregada aqui com alguma precisão. Não estamos afirmando que os Evangelhos sejam simplesmente “textos traumáticos” no sentido psicológico moderno, nem que seus autores tenham sofrido pessoalmente os mesmos acontecimentos que narram. O conceito interessa em outro nível: uma catástrofe pode produzir uma ruptura tão profunda na continuidade de uma coletividade que as categorias anteriormente disponíveis deixam de ser suficientes para organizar sua experiência. Guijarro Oporto (2019) utiliza justamente esse campo conceitual para pensar Marcos em relação à Guerra Judaico-Romana: a guerra pode funcionar como horizonte de experiência coletiva, enquanto a narrativa reorganiza essa experiência em torno de memória, identidade e possibilidade de um novo começo. Becker (2023), entretanto, introduz uma correção importante: Marcos não deve ser transformado em crônica da guerra. Sua relação com a violência contemporânea é mais complexa, porque a narrativa seleciona, interpreta e reconfigura experiências de violência dentro de uma história sobre Jesus.




2 DUAS CATÁSTROFES: O MESSIAS E A CIDADE

A relação entre Jesus e a destruição de Jerusalém precisa começar por uma distinção cronológica elementar. A execução de Jesus ocorre antes da Guerra Judaico-Romana; a destruição de Jerusalém e do Templo ocorre décadas depois. Não podemos, portanto, explicar a tradição sobre Jesus como simples produto posterior de 70 d.C. A tradição sobre sua atuação, seus ensinamentos, seus conflitos, sua morte e sua expectativa escatológica já circulava anteriormente. O que a catástrofe pode ter produzido não é a criação de Jesus, mas uma nova situação na qual essas tradições passaram a desempenhar funções diferentes no processo de sua transmissão e recepção. A relação historicamente mais plausível não é, portanto, 70 → Jesus, mas tradições anteriores sobre Jesus + experiência histórica da guerra → novas formas de memória e interpretação. É necessário reconhecer, contudo, que essa formulação enfrenta um problema de datação que não pode ser inteiramente resolvido. A composição de Marcos é situada por parte considerável da pesquisa em torno dos anos finais da década de 60 — possivelmente antes ou durante a própria guerra, não necessariamente depois de sua conclusão em 70. Se essa datação estiver correta, ao menos parte do material do chamado pequeno apocalipse (Mc 13) não constituiria reconfiguração posterior de um trauma já consumado, mas expectativa formulada durante a própria crise, ou mesmo antes dela. Esse problema, entretanto, não invalida a hipótese proposta neste artigo, pois seu argumento central não depende da data exata de composição de Marcos, mas da história de sua transmissão e recepção: mesmo um texto composto antes ou durante a guerra continuaria sendo lido, copiado e interpretado por comunidades posteriores para as quais a destruição já pertencia à memória histórica consumada. A reconfiguração de sentido que este artigo descreve, portanto, opera no nível da recepção continuada da tradição, não exclusivamente no momento de sua primeira composição. A primeira catástrofe coloca em questão a sobrevivência do Messias; a segunda coloca em questão a sobrevivência do mundo religioso e coletivo ao qual esse Messias pertencia. Os Evangelhos podem ser lidos como narrativas nas quais essas duas experiências de derrota podem ser colocadas em relação dentro de uma mesma gramática de restauração.

O núcleo histórico da crucificação é particularmente sólido. Jesus foi executado por crucificação sob a autoridade de Pôncio Pilatos, em contexto de poder romano. Bryan (2005) a trata como um dos elementos historicamente mais seguros da trajetória de Jesus. Essa segurança, contudo, deve ser separada da reconstrução minuciosa dos procedimentos judiciais narrados pelos Evangelhos: sabemos da execução sob autoridade romana, mas permanecem discutíveis os detalhes do processo e a distribuição precisa de responsabilidades entre autoridades locais e romanas. A crucificação funcionava, portanto, também como uma demonstração corporal de poder e soberania. O poder romano não se limitava à execução; a crucificação possuía também uma dimensão pública de exposição e punição. A questão narrativa produzida pela tradição de Jesus é, por isso, extraordinariamente difícil: como pode aquele que anuncia o Reino de Deus, exerce autoridade sobre doenças e espíritos, reúne Israel e fala de uma soberania futura terminar pendurado numa cruz romana?

“Agora a cidade estava cheia de cadáveres, e o exército não podia deixar de passar sobre eles enquanto avançava contra os que ainda resistiam. O número dos mortos era tão grande que o ar estava corrompido pelo mau cheiro dos corpos, e a visão deles era tão terrível que os próprios soldados eram obrigados a pisar sobre os mortos enquanto prosseguiam em seu avanço.”

(JOSEFO, Guerra dos Judeus, VI.1.1, tradução de trabalho a partir de WHISTON).

Aqui aparece a simetria que estrutura o argumento: Jesus tem o corpo destruído; Jerusalém tem seu espaço destruído. O Messias é derrotado; a cidade é derrotada. O corpo de Jesus sofre a violência imperial; o corpo coletivo de Jerusalém sofre a violência da guerra. Não se trata de estabelecer uma equivalência literal entre acontecimentos diferentes, mas de reconhecer que os Evangelhos posteriores podem ser lidos dentro de um universo histórico em que derrota, morte e destruição exigiam interpretação. Den Hollander (2015) é particularmente útil neste ponto porque permite pensar Jesus e Josefo não como fontes que necessariamente dependem uma da outra, mas como figuras que elaboram respostas distintas a uma catástrofe que atravessa o mesmo universo histórico. Josefo procura explicar a derrota, reorganizando-a dentro de uma história da revolta, da liderança, da corrupção interna e do juízo divino. A tradição evangélica, por sua vez, organiza a derrota de Jesus dentro de uma narrativa de morte e vindicação. Não precisamos postular dependência literária entre os dois para perceber que ambos participam de um mundo em que a destruição romana se tornou problema de interpretação.

É justamente essa possibilidade que Guijarro Oporto (2019) explora em relação a Marcos. Sua proposta de ler o Evangelho como “relato progressivo” permite pensar a guerra não como conteúdo único do texto, mas como horizonte traumático diante do qual uma narrativa sobre Jesus poderia oferecer uma proposta de novo começo. Becker (2023), entretanto, desloca a discussão para uma formulação mais cautelosa: Marcos memoriza violência e guerra, mas não reproduz seus acontecimentos como uma história militar. O Evangelho transforma a violência em narrativa sobre Jesus, seus discípulos, a perseguição, a morte e a esperança. Essa distinção nos parece fundamental.


3 JESUS ANTES DA RUÍNA: A RESTAURAÇÃO JÁ COMEÇOU

A hipótese só se sustenta se pudermos demonstrar que Jesus já aparece nas tradições anteriores à destruição de Jerusalém como agente de restauração. E isso ocorre de maneira particularmente consistente. Lucas oferece uma formulação programática dessa atividade quando apresenta Jesus, na sinagoga de Nazaré, lendo uma passagem de Isaías e relacionando-a à própria missão:

“O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados do coração, a apregoar liberdade aos cativos, e restauração da vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar o ano aceitável do Senhor.” [...] “Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos.”

(Lc 4,18–21).

A passagem é importante porque não apresenta a restauração como interpretação posterior da guerra. Ela aparece como formulação programática da missão de Jesus no relato lucano. Marcos inicia sua narrativa pública com o anúncio do Reino de Deus (Mc 1,14-15) e imediatamente associa esse anúncio à expulsão de espíritos impuros, às curas e à restauração de pessoas. Mateus resume a atividade de Jesus como ensino, proclamação do Reino e cura de doenças (Mt 4,23-25), enquanto Lucas apresenta em Nazaré uma formulação programática baseada em libertação, recuperação e restauração (Lc 4,16-21). A atividade de Jesus, portanto, não nasce da necessidade de explicar 70 d.C.; a gramática restauradora já está presente na tradição. O que muda depois da catástrofe é o horizonte no qual essa gramática pode ser percebida.

As curas formam um conjunto especialmente expressivo. Jesus cura febres, lepra, paralisia, hemorragia, cegueira e surdez; toca pessoas marginalizadas; devolve indivíduos às suas famílias e comunidades; e enfrenta, em algumas narrativas, a própria morte. Em Marcos 1,40-45, a cura do leproso implica também reinserção social; em Marcos 2,1-12, cura e perdão aparecem articulados; em Marcos 5,21-43, a mulher com hemorragia e a filha de Jairo compõem duas histórias sucessivas de restauração; em Lucas 7,11-17, a devolução da vida ao filho da viúva recompõe uma estrutura familiar ameaçada.

Marcos 5,21-43 concentra em uma única unidade narrativa várias dimensões dessa restauração. Jesus encontra uma mulher que sofre há doze anos de uma hemorragia e, em seguida, recebe de Jairo o pedido de que sua filha seja salva. A mulher toca suas vestes e é curada; depois, diante da notícia da morte da menina, Jesus entra na casa, toma-a pela mão e ordena que se levante:

“Filha, a tua fé te salvou; vai em paz, e sê curada deste teu mal.” [...]

“Não temas, crê somente.” [...]

“Talita cumi; que, traduzido, é: Menina, a ti te digo: Levanta-te.” [...]

“E logo a menina se levantou, e andava.”

(Mc 5,34.36.41-42).

A unidade narrativa é particularmente expressiva porque articula corpo, sofrimento prolongado, exclusão social, família, morte e vida. Jesus cura a mulher cujo corpo havia se tornado lugar de sofrimento e restitui a filha de Jairo à vida familiar. O elemento comum não é simplesmente a suspensão de uma doença, mas a recuperação de uma condição humana que havia sido interrompida.

A alimentação das multidões acrescenta uma dimensão comunitária a essa restauração. Em Marcos 6, os discípulos retornam da missão e Jesus procura levá-los a um lugar deserto, mas encontra uma multidão que o precedeu. Ao final do dia, os discípulos observam que o lugar é deserto e que a multidão não tem alimento. Jesus, porém, responde de maneira que transforma a escassez em organização:

“Dai-lhes vós de comer.” [...]

“Quantos pães tendes? Ide ver.” [...]

“E ordenou-lhes que fizessem assentar a todos, em grupos, sobre a erva verde.” [...]

“E todos comeram e ficaram fartos.”

(Mc 6,37-39.42).

A sequência é importante porque a necessidade alimentar não produz aqui desagregação, mas organização. A multidão é reunida, distribuída em grupos, alimentada e conduzida à satisfação. Não precisamos dizer que essa narrativa representa a fome de 70 d.C. para reconhecer sua potência posterior. Se Josefo descreve a fome como força de desorganização da família e da cidade, Marcos apresenta a alimentação como prática de recomposição da comunidade. A relação é estrutural, não alegórica: diante da escassez, uma narrativa registra a dissolução dos vínculos; a outra organiza a necessidade em torno da reunião, da distribuição e da partilha.

O mesmo princípio aparece nos exorcismos. Em Marcos 3,22-27, Mateus 12,22-30 e Lucas 11,14-23, Jesus interpreta a expulsão dos demônios em termos de conflito entre poderes: se um reino está dividido contra si mesmo, não pode subsistir; se alguém entra na casa do homem forte e o amarra, pode então saquear seus bens. Mateus 12,28 torna a associação ainda mais explícita ao afirmar que a expulsão dos demônios manifesta a chegada do Reino de Deus. O exorcismo, portanto, não é apenas uma intervenção terapêutica; ele constitui uma pequena manifestação de uma transformação maior da ordem. Marcos 5,1-20 acrescenta uma imagem particularmente forte. O homem geraseno aparece dominado por uma força cuja multiplicidade é expressa pelo nome “Legião”. A ressonância militar do termo é evidente, mas ela não permite identificar automaticamente os espíritos com a Legio X Fretensis. Tratamos dessa análise em outro texto específico. Nesse momento, uma identificação histórica tão precisa ultrapassaria aquilo que o texto permite demonstrar. A leitura mais segura está na sequência narrativa: domínio, fragmentação, confronto, expulsão e reintegração. A palavra “Legião” pode abrir uma leitura imperial porque insere o episódio em um campo semântico militar; contudo, essa possibilidade deve permanecer como camada interpretativa, não como identificação histórica demonstrada.

A escolha dos Doze completa esse quadro. Marcos 3,13-19, Mateus 10,1-4 e Lucas 6,12-16 apresentam um grupo cuja composição numérica remete plausivelmente às doze tribos de Israel. Mateus 19,28 e Lucas 22,28-30 explicitam essa relação ao associar os Doze ao julgamento das tribos e ao Reino. Assim, antes de qualquer destruição posterior, a tradição já contém uma imagem de reunião de Israel. O conjunto pode ser compreendido como uma gramática na qual cura, alimento, libertação e reunião funcionam como manifestações concretas da chegada do Reino. É por isso que a formulação central deste capítulo deve ser mantida: Jesus não apenas anuncia a restauração. Ele a realiza narrativamente. Sua atuação constitui, dentro da narrativa, uma antecipação presente de uma restauração cuja consumação ainda pertence ao futuro.

Essa dimensão restauradora, entretanto, já aparece tensionada pela relação de Jesus com Jerusalém. A mesma tradição que o apresenta reunindo pessoas e anunciando o Reino conserva também uma palavra dirigida à cidade que concentra a identidade religiosa de Israel. Em Lucas, Jesus lamenta a incapacidade de Jerusalém de reconhecer o momento de sua visita e associa essa rejeição à violência contra aqueles que haviam sido enviados a ela:

“Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste! Eis que a vossa casa vos ficará deserta. E em verdade vos digo que não me vereis até que venha o tempo em que digais: Bendito o que vem em nome do Senhor.”

(Lc 13,34-35).

A passagem é particularmente importante porque coloca dentro da própria tradição restauradora uma tensão que será decisiva para a leitura posterior de Jerusalém. Jesus aparece como aquele que deseja ajuntar os filhos da cidade, utilizando uma imagem de proteção, reunião e abrigo; simultaneamente, a recusa dessa reunião é seguida pela declaração de que a “casa” ficará deserta. A restauração e a desolação não são, portanto, categorias introduzidas artificialmente pela experiência posterior da guerra. Elas já pertencem ao campo narrativo no qual Jesus é apresentado. Isso não significa que Lucas 13,34-35 seja uma previsão codificada da destruição de 70 d.C. A passagem deve ser compreendida primeiro dentro de sua própria tradição profética e escatológica. O que interessa para o argumento é que, quando essa tradição passa a ser recebida depois da destruição de Jerusalém, a proximidade entre reunião, rejeição, desolação e esperança futura pode adquirir uma densidade histórica que não dependia de sua origem.

Essa gramática restauradora, entretanto, não aparece fora de um horizonte de conflito. Quando os discípulos admiram as construções do Templo, Jesus anuncia sua destruição:

“Não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derribada.” [...]

“Olhai que ninguém vos engane; porque muitos virão em meu nome [...] e ouvireis de guerras e de rumores de guerras [...] porquanto se levantará nação contra nação, e reino contra reino; e haverá terremotos em diversos lugares, e haverá fomes e tribulações.”

(Mc 13,2.5-8).

A importância dessa passagem não está em atribuir cada elemento a um acontecimento específico de 70 d.C., mas em observar que Templo, guerra, fome, perseguição e violência passam a ocupar uma mesma arquitetura narrativa. A restauração apresentada anteriormente não aparece, portanto, como uma realidade abstrata ou completamente descolada da história. Ela é colocada diante de um mundo marcado pela ameaça de ruptura. É justamente essa tensão que permitirá, nos capítulos seguintes, observar o que acontece quando a violência deixa de ameaçar apenas os corpos e alcança o próprio corpo do restaurador, o espaço do Templo e a cidade de Jerusalém.


4 O CORPO: DESTRUIÇÃO, RESTAURAÇÃO E MEMÓRIA

“Enquanto a Casa Santa estava em chamas, tudo o que se encontrava ao alcance foi saqueado, e cerca de dez mil dos que foram apanhados foram mortos. Não houve compaixão por nenhuma idade nem respeito pela dignidade de ninguém; crianças, velhos, leigos e sacerdotes foram mortos da mesma maneira. Assim, a guerra alcançou todos os tipos de pessoas e levou todos à destruição, tanto os que suplicavam por suas vidas quanto aqueles que resistiam lutando. A chama espalhou-se por uma grande extensão e produziu um eco juntamente com os gemidos dos que eram mortos; e, como a colina era elevada e as construções do Templo eram grandes, parecia que toda a cidade estava em chamas. Não se poderia imaginar coisa maior ou mais terrível do que aquele ruído: de um lado, o clamor das legiões romanas que avançavam juntas; de outro, os gritos daqueles que, cercados pelo fogo e pela espada, estavam sendo destruídos. [...] Parecia que a própria colina sobre a qual estava o Templo fervia de fogo em toda a sua extensão; o sangue era maior em quantidade que o fogo, e os mortos eram mais numerosos que os que os matavam; em lugar algum se podia ver o chão, tantos eram os corpos que jaziam sobre ele; e os soldados caminhavam sobre montes de cadáveres enquanto perseguiam os que fugiam.”

(JOSEFO, Guerra dos Judeus, VI.5.1, tradução de trabalho a partir de WHISTON).

A força dessa passagem não está apenas na quantidade de mortos. Josefo constrói uma paisagem na qual a materialidade do corpo domina o espaço. O sangue supera o fogo; os mortos superam os vivos; o chão desaparece sob os cadáveres. A guerra transforma o corpo em paisagem. O Templo, por sua vez, deixa de funcionar como centro cultual e torna-se cenário de morte. Essa passagem ajuda a explicar por que o corpo pode constituir uma categoria tão importante para a comparação com os Evangelhos. O trauma histórico de uma guerra não se manifesta apenas na destruição de edifícios ou na alteração de fronteiras. Ele aparece no corpo concreto, no corpo ferido, no corpo morto, no corpo privado dos ritos que lhe conferiam lugar social. A descrição de Josefo produz uma espécie de inversão do espaço: o Templo, lugar de presença e culto, passa a ser coberto pelos corpos dos mortos.

Nos Evangelhos, a situação narrativa é frequentemente inversa. O corpo aparece como o lugar no qual a autoridade de Jesus se manifesta. A cura do leproso não apenas elimina uma condição física; ela restitui alguém ao mundo social. A cura do paralítico não apenas altera sua capacidade corporal; ela associa perdão e reintegração. A mulher que sofria de hemorragia recupera não somente a saúde, mas uma condição de participação social. O cego que volta a enxergar recupera a possibilidade de circular e agir em um mundo que lhe havia sido parcialmente fechado. Não é necessário afirmar que esses relatos tenham sido compostos como respostas conscientes à guerra. O argumento é mais histórico e mais modesto: quando uma comunidade marcada pela violência lê uma tradição na qual o corpo doente é sistematicamente restaurado, essa tradição possui capacidade de produzir uma resposta simbólica à experiência da destruição corporal.

Essa inversão atinge seu ponto máximo na paixão. Jesus não permanece exterior à violência que procura vencer. O corpo do restaurador é submetido à prisão, humilhação e execução. Marcos conduz a narrativa até o Gólgota, onde aquele que havia curado corpos é transformado em corpo submetido à violência imperial:

“E levaram-no ao lugar do Gólgota, que se traduz por lugar da Caveira.” [...]

“E crucificaram-no.” [...]

“E, à hora nona, Jesus exclamou com grande voz: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” [...]

“E Jesus, dando um grande brado, expirou.”

“E o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo.” [...]

“E José de Arimateia [...] pediu o corpo de Jesus.” [...]

“E o colocou num sepulcro.”

(Mc 15,22-39.42-46).

Aquele que cura corpos passa a ter seu próprio corpo destruído. Aquele que anuncia o Reino termina executado sob a acusação que o identifica como “Rei dos judeus”. A violência que, nas narrativas anteriores, era enfrentada por Jesus agora atinge o próprio agente da restauração. É justamente aqui que a leitura histórica da crucificação e a leitura narrativa da ressurreição precisam permanecer articuladas. O poder romano não é uma metáfora: Jesus foi efetivamente executado por crucificação sob autoridade romana. Mas a narrativa não deixa que a execução constitua o significado final de sua trajetória. O corpo que sofre a violência torna-se, posteriormente, o corpo cuja ressurreição será proclamada como vindicação.

Lucas introduz, porém, uma inflexão particularmente significativa nessa sequência. Enquanto Jesus é conduzido para a execução, mulheres de Jerusalém começam a acompanhá-lo em pranto. A resposta de Jesus desloca novamente o olhar do próprio corpo para o destino da cidade e de seus habitantes:

“E seguia-o grande multidão de povo e de mulheres, as quais também lamentavam e choravam por ele. Porém Jesus, voltando-se para elas, disse: Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai antes por vós mesmas, e por vossos filhos. Porque eis que hão de vir dias em que dirão: Bem-aventuradas as estéreis, e os ventres que nunca geraram, e os peitos que nunca amamentaram. Então começarão a dizer aos montes: Caí sobre nós, e aos outeiros: Cobri-nos. Porque, se ao madeiro verde fazem isto, que se fará ao seco?”

(Lc 23,27-31).

A passagem estabelece uma relação narrativa particularmente importante entre a morte de Jesus e o destino de Jerusalém. Jesus está diante da própria execução, mas sua palavra desloca o centro do sofrimento: “não choreis por mim; chorai antes por vós mesmas, e por vossos filhos”. A morte do Messias não aparece isolada da catástrofe que atingirá a cidade. O corpo submetido à execução romana encontra-se, na narrativa lucana, associado ao sofrimento futuro de Jerusalém. Não é necessário afirmar que a passagem seja uma crônica antecipada da Guerra Judaico-Romana. Tampouco se deve transformar cada detalhe em correspondência histórica com o cerco de 70 d.C. O que ela permite observar é uma articulação narrativa entre paixão, filhos, cidade, violência e destruição que adquire especial densidade quando o Evangelho é recebido por comunidades para as quais a queda de Jerusalém já pertence à memória histórica.

Essa relação torna-se ainda mais significativa quando colocada ao lado do lamento anterior sobre Jerusalém. Em Lucas 13, Jesus desejava reunir os filhos da cidade; em Lucas 19, chorará ao contemplá-la; em Lucas 21, anunciará que Jerusalém será cercada; e, agora, em Lucas 23, a caminho da própria morte, volta-se novamente para as “filhas de Jerusalém” e para seus filhos. A sequência não transforma Jesus em cronista da guerra. Ela produz, porém, uma continuidade narrativa na qual a rejeição, o sofrimento de Jesus e o destino da cidade permanecem ligados.

Mas a narrativa não termina no cadáver. No primeiro dia da semana, as mulheres retornam ao sepulcro e encontram a pedra removida. O corpo que havia sido depositado no túmulo é apresentado pela narrativa como ausente. O anúncio que recebem reorganiza a cena da morte:

“Não vos assusteis; buscais a Jesus Nazareno, que foi crucificado; já ressuscitou, não está aqui.” [...]

“Mas ide, dizei a seus discípulos, e a Pedro, que ele vai adiante de vós para a Galileia; ali o vereis.”

(Mc 16,6-7).

A importância narrativa dessa passagem está precisamente na continuidade entre morte e recomeço. A ressurreição não apaga a crucificação: o anúncio identifica Jesus como aquele “que foi crucificado”. O acontecimento da violência permanece incorporado à identidade daquele que é proclamado vivo. Mas a morte deixa de constituir o ponto final da narrativa. O sepulcro torna-se lugar de passagem entre derrota e novo começo. É nesse sentido que a ressurreição constitui a forma máxima da gramática restauradora que atravessa os Evangelhos: o corpo destruído não é negado; sua condição é reconfigurada.

Bryan (2011), ao tratar da ressurreição em seu contexto histórico e narrativo, chama atenção para a necessidade de distinguir o acontecimento da emergência da fé pascal e das interpretações posteriores sobre o significado da ressurreição. A narrativa evangélica, porém, não está interessada apenas em registrar que os discípulos continuaram acreditando em Jesus. Ela constrói a ressurreição como vindicação.

A inversão é, portanto, radical: o instrumento que deveria produzir a derrota definitiva do Messias torna-se, narrativamente, o ponto a partir do qual começa sua vindicação. Podemos, portanto, reconhecer uma gramática de reversibilidade que atravessa o corpus evangélico: doença e cura, exclusão e reintegração, fome e alimentação, dominação e libertação, morte e vida. Essa reversibilidade não significa que a história seja imediatamente revertida. Roma continua tendo crucificado Jesus; Jerusalém continua destruída; o Templo continua em ruínas. O Evangelho não apaga o acontecimento. Ele modifica sua posição dentro da narrativa. A ressurreição constitui, assim, o modelo máximo dessa operação: a derrota permanece verdadeira como acontecimento histórico, mas deixa de ser suficiente como interpretação da história. O corpo destruído não é negado; ele é transformado em lugar de vindicação.



5 O TEMPLO DESTRUÍDO: QUANDO O LUGAR PRECISA SER RECONFIGURADO

A questão do corpo conduz diretamente à questão do espaço. O Templo não era simplesmente um edifício. Concentrava funções de culto, sacrifício, sacerdócio, peregrinação, presença divina e memória coletiva. Sua destruição produziu, portanto, uma crise que não pode ser reduzida à arquitetura. Quando o edifício desaparece, desaparece também uma infraestrutura material por meio da qual uma comunidade organizava sua relação com Deus, com Jerusalém e com sua própria identidade.

“O fogo foi levado por toda parte, e os trabalhos do Templo eram de tal grandeza que parecia que toda a cidade estava em chamas. O clamor das legiões romanas misturava-se aos gritos daqueles que estavam cercados pelo fogo e pela espada. [...] Muitos dos que haviam sido enfraquecidos pela fome, com as bocas quase incapazes de falar, quando viram o fogo da Casa Santa reuniram suas últimas forças e romperam novamente em gemidos e gritos. [...] Parecia que a colina sobre a qual o Templo estava situado estava tomada pelo fogo; o sangue era maior em quantidade do que as chamas, e os mortos eram mais numerosos do que aqueles que os matavam. O chão não podia ser visto, coberto como estava pelos corpos; e os soldados passavam sobre montes de cadáveres enquanto perseguiam os que fugiam.”

(JOSEFO, Guerra dos Judeus, VI.5.1, tradução de trabalho a partir de WHISTON).

A descrição de Josefo coloca diante de nós o problema material que subjaz à questão teológica. Não desaparece apenas um prédio. Desaparece uma estrutura espacial que concentrava funções. O incêndio do Templo significa simultaneamente destruição arquitetônica, ruptura cultual, perda de objetos, desorganização das funções sacerdotais, interrupção de práticas e transformação da paisagem de Jerusalém. A destruição física produz, desse modo, uma crise que não é apenas material, mas também funcional. Marcos 11,15-19, Mateus 21,12-17 e Lucas 19,45-48 preservam a tradição da intervenção de Jesus no Templo. Marcos 13,1-2, Mateus 24,1-2 e Lucas 21,5-6 apresentam a previsão de sua destruição. Marcos 14,58 e Mateus 26,61 retomam a acusação relacionada ao Templo durante a paixão, enquanto Marcos 15,29 a reinscreve na cena da crucificação. Existe, portanto, uma sequência narrativa suficientemente densa para impedir que o Templo seja tratado como elemento secundário.

O próprio Marcos preserva, portanto, uma tensão entre a atuação de Jesus dentro do espaço templário e a previsão de sua destruição: Jesus ensina e confronta no Templo, mas também anuncia que sua materialidade será atingida.

Mas essa centralidade não resolve automaticamente a questão de seu significado. O fato de Jesus ser apresentado em conflito com o Templo não prova que pretendesse sua abolição. Tampouco a destruição posterior permite concluir retrospectivamente que todos os seus gestos eram anúncios codificados de 70. É justamente aqui que van Henten (2015) exerce uma função crítica fundamental. Sua análise de Jesus e Josefo alerta contra o uso retrospectivo de Josefo como se a destruição do Templo demonstrasse que a instituição estava destinada a desaparecer e que Jesus teria sido seu substituto necessário. O problema torna-se ainda mais sensível quando observamos que o Templo continua aparecendo positivamente na tradição lucana. Lucas inicia sua narrativa no ambiente templário, apresenta personagens ligados ao Templo e termina seu Evangelho com os discípulos associados ao espaço sagrado. Em Atos, a comunidade continua frequentando o Templo. A destruição de 70 não transforma automaticamente o Templo em símbolo de uma instituição definitivamente rejeitada pelo cristianismo.

A narrativa evangélica pode ser lida como uma progressiva concentração, na pessoa e no corpo de Jesus, de algumas funções simbólicas anteriormente associadas ao espaço, ao culto e à presença do Templo. Isso não significa que Jesus simplesmente “substitua” o Templo, nem que o judaísmo seja apresentado como sistema encerrado. Significa que, diante da crise do espaço material, a narrativa dispõe de uma figura capaz de concentrar simbolicamente funções de presença, mediação, restauração e reunião. Jesus ensina no Templo. Jesus confronta autoridades no Templo. Jesus fala da destruição do Templo. Jesus é acusado em relação ao Templo. Jesus morre enquanto o véu do santuário se rasga. A comunidade posterior continua a lidar com o problema do espaço sagrado. O resultado não é uma declaração simples de que “o Templo acabou”; é uma narrativa que reorganiza a relação entre presença divina, corpo, comunidade e espaço.

A resposta narrativa pode ser lida como deslocando algumas funções simbólicas para a pessoa de Jesus. Ele passa a funcionar, dentro da narrativa, como figura concentradora de presença, mediação e restauração. Depois, a comunidade que se reúne em torno dele torna-se outro espaço de continuidade. O movimento, portanto, não é simplesmente “Templo versus Jesus”, mas uma reconfiguração progressiva das relações entre espaço sagrado, presença divina, pessoa de Jesus e comunidade. Essa leitura também explica por que a relação entre Jesus e o Templo deve ser analisada em dois tempos. No primeiro, histórico e tradicional, Jesus atua dentro do universo judaico do Segundo Templo e sua relação com o espaço sagrado pertence às controvérsias de sua própria época. No segundo, memorial e narrativo, essas tradições são lidas por comunidades que sabem que o Templo foi destruído. O mesmo episódio pode, assim, carregar funções diferentes em contextos históricos distintos.

É precisamente aqui que a noção de “texto dentro do texto” começa a adquirir conteúdo. A camada mais antiga da tradição pode conter uma disputa sobre o significado do Templo. Uma leitura posterior pode reconhecer nessa disputa uma nova relevância depois da destruição. Não precisamos afirmar que o autor original tenha previsto 70. Basta reconhecer que o acontecimento histórico modifica o horizonte no qual a tradição passa a ser compreendida.


6 JERUSALÉM E O PEQUENO APOCALIPSE: QUANDO A RUÍNA SE TORNA HORIZONTE

Jerusalém reúne de maneira singular as dimensões religiosa, política, espacial e afetiva do problema. Ela é cidade santa, centro cultual, símbolo de identidade coletiva, lugar da paixão e, posteriormente, objeto de destruição. Por isso, o tratamento evangélico da cidade é fundamental. Se a destruição de Jerusalém fosse simplesmente celebrada como vitória sobre uma cidade condenada, esperaríamos uma narrativa de triunfo. Encontramos algo mais complexo. Jesus entra em Jerusalém, confronta o Templo, anuncia sua destruição e, em Lucas, chora sobre a cidade.

“Assim que o exército já não tinha mais ninguém para matar ou saquear, pois não restava ninguém sobre quem pudesse descarregar sua fúria — e eles não teriam poupado ninguém se ainda houvesse trabalho dessa natureza a realizar — César ordenou que demolisse toda a cidade e o Templo, deixando de pé apenas as torres que se distinguiam das demais, a saber, Fasael, Hípico e Mariamne, e a parte da muralha que cercava a cidade pelo lado ocidental. Essa muralha foi poupada para servir de acampamento aos que permanecessem como guarnição, e as torres foram deixadas para mostrar às gerações futuras que tipo de cidade era aquela e quão bem fortificada havia sido, e que a bravura romana a havia subjugado. Quanto ao restante da muralha, foi tão completamente nivelado por aqueles que a escavaram até os fundamentos que nada restou capaz de fazer com que aqueles que viessem ao lugar acreditassem que ele alguma vez havia sido habitado.”

(JOSEFO, Guerra dos Judeus, VII.1.1, tradução de trabalho a partir de WHISTON).

É precisamente diante dessa imagem que Lucas 19,41-44 adquire importância. Jesus chora sobre Jerusalém. A cidade cuja destruição será narrada como consequência de sua incapacidade de reconhecer o momento presente continua sendo objeto de lamentação.

Lucas não descreve a destruição como espectador distante. Ele a coloca na boca de Jesus antes que ela aconteça e, sobretudo, apresenta Jesus chorando diante da cidade:

“E, quando ia chegando, vendo a cidade, chorou sobre ela, dizendo: Ah! se tu conhecesses também, ao menos neste teu dia, o que à tua paz pertence! [...] Porque dias virão sobre ti em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras, e te sitiarão, e te estreitarão de todos os lados; e te derribarão [...] e não deixarão em ti pedra sobre pedra.”

(Lc 19,41-44).

A proximidade temática entre as duas narrativas é evidente em alguns elementos, mas a função narrativa permanece diferente. Josefo descreve a cidade depois de sua derrota; Lucas apresenta Jesus olhando para a cidade e chorando diante da destruição anunciada. Em um caso, a cidade aparece como ruína consumada; no outro, como objeto de lamento e advertência. Essa diferença é precisamente o que torna a comparação produtiva. Não temos aqui dependência literária nem correspondência ponto a ponto, mas duas formas distintas de narrar a destruição de Jerusalém: uma como memória histórica da catástrofe consumada; outra como memória narrativa de uma cidade cuja ruína é antecipada, lamentada e interpretada.

Essa combinação de crítica e lamento é decisiva porque impede que a destruição seja interpretada simplesmente como triunfo cristão. Jerusalém pode ser julgada, destruída e, simultaneamente, lamentada. A pesquisa de Wendel (2026) é especialmente importante nesse ponto. Seu estudo sobre o lamento de Jesus sobre Jerusalém procura interpretar a representação lucana do Templo à luz do cerco de Jerusalém e da destruição do Templo, mostrando como essa experiência histórica pode funcionar como horizonte para a construção narrativa e para os efeitos retóricos possíveis sobre os leitores.

Oliver (2021) acrescenta outra dimensão importante ao mostrar como a escatologia judaica de Lucas-Atos continua ligada à restauração de Israel e à centralidade de Jerusalém. Isso impede uma leitura segundo a qual a destruição da cidade significaria simplesmente a transferência definitiva de sua importância para uma comunidade cristã desjudaizada. A expectativa continua orientada para Jerusalém e para a restauração.

O chamado pequeno apocalipse — Marcos 13, Mateus 24–25 e Lucas 21 — deve ser lido dentro desse horizonte. A narrativa parte da observação do Templo e de sua destruição e amplia progressivamente o campo semântico para guerras, rumores de guerras, fome, terremotos, perseguição, tribunais, governadores, reis, conflitos familiares, fuga, tribulação, sinais cósmicos e manifestação do Filho do Homem. Lucas torna particularmente explícita a imagem de Jerusalém cercada por exércitos (Lc 21,20-24).

A formulação lucana é particularmente concreta:

“Mas, quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabei então que é chegada a sua desolação.” [...]

“Porque haverá grande necessidade na terra, e ira contra este povo.” [...]

“E cairão ao fio da espada, e para todas as nações serão levados cativos; e Jerusalém será pisada pelos gentios, até que os tempos dos gentios se completem.”

(Lc 21,20-24).

Aqui a linguagem da destruição deixa de ser apenas uma imagem geral de crise e adquire contornos particularmente compatíveis com a experiência histórica de uma cidade sitiada: exércitos, desolação, morte pela espada, cativeiro e domínio estrangeiro. Isso torna essa passagem particularmente relevante para a comparação com Josefo. Ainda assim, a correspondência deve ser mantida em seu nível adequado. Lucas não está oferecendo uma crônica da Guerra Judaico-Romana; ele está incorporando a destruição de Jerusalém a uma narrativa teológica mais ampla. A cidade é destruída, mas a frase final — “até que os tempos dos gentios se completem” — impede que a dominação seja apresentada como realidade eterna.

A interpretação de cada elemento permanece, contudo, discutível, e essa distinção precisa ser preservada. Hatina (1996) defende uma relação possível entre a linguagem cósmica de Marcos 13,24-27 e a destruição do Templo, enquanto Neville (2024) questiona associações automáticas entre a destruição de Jerusalém e a vinda do Filho do Homem em Lucas. Essa divergência merece ser assinalada com todo o peso que lhe é devido, e não apenas como nota de cautela metodológica: o próprio caso em que este artigo mais se apoia para sustentar a hipótese de reconfiguração pós-70 — a leitura de Lucas 21,20-24 como horizonte da destruição de Jerusalém — permanece objeto de disputa direta entre especialistas que trabalham com o mesmo material. Se a posição de Neville estiver correta, a associação entre a queda de Jerusalém e a manifestação do Filho do Homem em Lucas é mais fraca do que a leitura de Hatina sugere, e a comparação com Josefo perderia parte de sua força nesse ponto específico. A hipótese central deste artigo, contudo, não depende exclusivamente dessa associação: mesmo que a conexão textual entre Templo e parusia seja mais tênue do que Hatina propõe, a tese de reconfiguração memorial permanece sustentável a partir dos demais elementos examinados — o corpo, a cura, a alimentação e o próprio lamento sobre Jerusalém em Lucas 13,34-35 e 19,41-44, que não dependem da leitura escatológica de Marcos 13/Lucas 21. O ponto metodológico é importante: podemos reconhecer que a destruição de Jerusalém constitui um horizonte histórico explícito em Lc 21,20-24 sem concluir que todas as imagens imediatamente posteriores tenham exatamente o mesmo referente. A destruição pode funcionar como horizonte histórico; a linguagem cósmica pode ultrapassar esse acontecimento; e a expectativa do Filho do Homem pode projetar a narrativa para além de 70. Essa diferença entre referência histórica e projeção escatológica é precisamente o que impede que nossa hipótese se transforme em uma identificação mecânica entre Evangelho e Guerra Judaico-Romana.

O apocalipse não precisa negar a realidade histórica da derrota para relativizar seu caráter definitivo; narrativamente, ele impede que a derrota constitua a realidade última da história. A imagem do Filho do Homem, associada à tradição de Daniel 7, participa dessa inversão de soberania. Não precisamos transformar Roma na “besta” nem identificar cada imagem apocalíptica com um acontecimento específico. O argumento mais sólido é que o poder histórico dos vencedores não coincide necessariamente, segundo a narrativa, com a soberania definitiva. O império pode vencer historicamente e ainda assim ser narrativamente relativizado diante da soberania de Deus.

Tabela 1 – Temporalidade da derrota e da restauração

TempoAcontecimentoProblema
PassadoJesus é crucificadoO Messias foi derrotado
PresenteJerusalém e o Templo são destruídosO mundo religioso foi atingido
FuturoReino / manifestação do Filho do HomemA derrota não é definitiva

Fonte: elaboração própria.

A destruição de Jerusalém, portanto, não constitui o ponto final da narrativa. Ao contrário, ela se torna parte de uma sequência temporal mais ampla na qual passado, presente e futuro são articulados. A morte de Jesus pertence ao passado, mas continua produzindo a questão da identidade do Messias; a destruição do Templo pertence ao presente histórico das comunidades que a recordam, mas não encerra a relação entre Deus, Israel, Jerusalém e sua expectativa escatológica; e o futuro permanece aberto pela expectativa do Reino e da manifestação do Filho do Homem. O acontecimento histórico não desaparece, mas é inserido em uma temporalidade narrativa na qual a derrota pode ser reinterpretada sem deixar de ter sido derrota.





7 O TEXTO DENTRO DO TEXTO: DA DESTRUIÇÃO À RESTAURAÇÃO

“O texto dentro do texto” não designa uma mensagem secreta escondida atrás das palavras dos Evangelhos. Não pressupõe criptografia, censura romana ou uma estratégia deliberada de evasão das autoridades. Trata-se, em sentido heurístico, de uma segunda camada de referencialidade: uma narrativa pode adquirir novos sentidos quando é lida por comunidades situadas numa experiência histórica diferente daquela em que certas tradições foram originalmente formuladas. O primeiro nível é a própria narrativa: Jesus cura, alimenta, liberta, reúne, confronta o Templo, entra em Jerusalém, lamenta a cidade, é executado e ressuscita. O segundo é a experiência histórica de comunidades que vivem sob domínio romano e atravessam guerra, fome, violência, destruição e dispersão. O terceiro é a reconfiguração simbólica: tradições anteriores sobre Jesus podem oferecer recursos para tornar inteligível uma realidade na qual centros materiais de identidade foram destruídos. Essa terceira dimensão não exige intenção autoral consciente; uma tradição pode adquirir nova função no processo de recepção.

Essa formulação permite manter o Império no horizonte histórico sem transformá-lo numa chave interpretativa totalizante. Leander (2010) mostra como Marcos pode negociar discursivamente com a realidade imperial sem reduzir sua narrativa a uma oposição binária entre Jesus e César. A contribuição de Kim (2008) funciona, aqui, como contraponto metodológico: a presença de paralelos entre Cristo e César não autoriza concluir automaticamente pela existência de um programa político anti-imperial ou de uma mensagem codificada. O discurso pode ser politicamente significativo sem ser clandestino. Josefo ocupa posição metodologicamente específica nessa arquitetura. Retomar sua narrativa no final do percurso desloca sua função na análise. No início, Josefo permitia observar a materialidade da destruição; agora, sua narrativa permite perceber que a própria ruína já é construída como memória para gerações futuras. Os Evangelhos não competem com Josefo como crônicas militares: deslocam o problema da destruição para corpo, presença, comunidade, Reino, ressurreição e futuro.

A relação relevante, portanto, não é dependência literária entre Josefo e os Evangelhos, nem a transformação da Guerra Judaico-Romana em alegoria. É a possibilidade de diferentes formas de memória responderem ao mesmo mundo histórico. Den Hollander (2015) fornece a base para essa comparação: catástrofe e interpretação permanecem articuladas, mas não se confundem. As correspondências identificadas ao longo do artigo não propõem equivalências alegóricas. A multiplicação dos pães não “representa” a fome de 70; a cura não “representa” os corpos destruídos pela guerra; a ressurreição não “representa” a reconstrução de Jerusalém. O que existe é uma homologia estrutural entre ruptura e recomposição: a fome desintegra vínculos; a alimentação reúne; a violência destrói corpos; a cura os restaura; a morte encerra uma trajetória; a ressurreição a reabre; a destruição do Templo interrompe funções que podem ser redistribuídas narrativamente.

É nesse sentido que a sequência DESTRUIÇÃO → TRAUMA → MEMÓRIA → RECONFIGURAÇÃO → RESTAURAÇÃO deve ser entendida. “Trauma” não designa aqui um diagnóstico psicológico dos autores, mas a ruptura histórica que ameaça a continuidade de uma coletividade e exige novas formas de atribuição de significado. Guijarro Oporto (2019) e Becker (2023) permitem pensar guerra, memória e reorganização narrativa sem transformar os Evangelhos em crônicas do conflito. A hipótese permanece deliberadamente assimétrica: 70 d.C. não precisa ser considerado a origem da gramática restauradora presente nas tradições sobre Jesus. Essa gramática já está presente antes da destruição. O acontecimento pode, porém, conferir a essas tradições novos sentidos no processo de sua transmissão e recepção. Por isso, a direção da causalidade não deve ser formulada como “Roma destruiu → os Evangelistas inventaram Jesus”, mas como experiência histórica da guerra → novas condições de recepção → releitura, seleção, amplificação e reconfiguração de tradições anteriores.

A restauração, contudo, permanece incompleta. Essa incompletude aparece de maneira particularmente clara quando a expectativa de Jesus e dos discípulos continua associada à restauração de Israel. Em Lucas, Jesus promete aos Doze participação no Reino e os associa às “doze tribos de Israel” (Lc 22,28-30). Em Atos, depois da ressurreição, os discípulos ainda perguntam: “Senhor, restaurarás tu neste tempo o reino a Israel?” (At 1,6). A pergunta é importante porque demonstra que a ressurreição não encerra a expectativa restauradora dentro da narrativa lucana. Ao contrário, a mantém aberta. Oliver (2021) é particularmente relevante nesse ponto ao mostrar como a escatologia de Lucas-Atos continua articulada à restauração de Israel e à centralidade de Jerusalém. A narrativa, portanto, não substitui simplesmente a antiga esperança por uma realidade já concluída; ela desloca sua realização para uma temporalidade ainda aberta.

As duas catástrofes podem ser colocadas em relação, sem serem confundidas. A primeira é a morte do Messias; a segunda, a destruição de Jerusalém e do Templo. A primeira pergunta é como o Messias derrotado continua sendo Messias; a segunda, como uma comunidade continua sendo comunidade quando seu centro material foi destruído. A resposta narrativa passa por uma mesma gramática: morte → vindicação; destruição → restauração; dispersão → reunião; derrota → futuro. Jesus já aparece como agente de restauração; depois da guerra, essa tradição pode oferecer uma gramática de sobrevivência. O Templo não é simplesmente substituído: algumas funções anteriormente concentradas no espaço cultual podem ser reconfiguradas em torno da pessoa de Jesus, da comunidade e da expectativa escatológica. Jerusalém não é simplesmente abandonada: sua destruição pode ser lamentada e, em Lucas-Atos, sua restauração permanece no horizonte. A escatologia, por sua vez, impede que essa reconfiguração seja confundida com restauração já concluída.

É por isso que a afirmação de que “Roma foi transformada pelo texto” deve ser entendida estritamente no plano da representação narrativa: o poder romano não é historicamente transformado pelo Evangelho, mas sua posição como instância de poder pode ser narrativamente relativizada. O poder imperial permanece historicamente real e materialmente devastador, mas deixa de constituir, na narrativa, a categoria última da história. O Evangelho não apaga a derrota; desloca seu significado. Roma pode determinar quem morre, mas não determina, na narrativa, o significado definitivo da morte. Pode destruir o Templo e Jerusalém, mas não determina o destino definitivo da presença de Deus nem o fim da história.


CONCLUSÃO

A Guerra Judaico-Romana destruiu corpos, famílias, instituições, espaços sagrados, objetos, práticas e formas materiais de memória. Josefo permite observar essa dimensão concreta da catástrofe e, ao mesmo tempo, sua transformação em narrativa. Os Evangelhos pertencem ao mesmo mundo histórico, mas não são crônicas da guerra. Sua força, para esta hipótese, está em preservar e reorganizar uma tradição na qual Jesus já aparece como agente de restauração. A pesquisa mobilizada aqui delimita o argumento em vez de produzir um consenso artificial entre posições que permanecem distintas. Guijarro Oporto (2019) e Becker (2023) permitem relacionar guerra, trauma, memória e narrativa; den Hollander (2015) permite pensar a catástrofe como problema de interpretação; Bryan (2005) ancora historicamente a crucificação; van Henten (2015), Wendel (2026) e Oliver (2021) impedem que a destruição do Templo e de Jerusalém seja convertida numa simples narrativa de substituição ou triunfo; Hatina (1996) e Neville (2024) mantêm aberto o debate sobre o pequeno apocalipse; Leander (2010) e Kim (2008) impedem, por vias diferentes, tanto a irrelevância do Império quanto a hipótese de um código anti-imperial universal.

O resultado é uma hipótese de reconfiguração memorial. 70 d.C. não é a origem necessária das narrativas; pode, contudo, constituir um acontecimento histórico capaz de alterar o horizonte no qual essas tradições passam a ser compreendidas. O corpo de Jesus, o Templo, Jerusalém e o Reino tornam-se pontos de concentração de uma narrativa na qual a derrota permanece verdadeira, mas deixa de ser suficiente para definir o significado último da história. “O texto dentro do texto” é, portanto, a nova perspectiva de leitura produzida pelo encontro entre narrativa, memória e história. O acontecimento fornece a ruptura; a memória conserva e reorganiza a experiência; a narrativa oferece formas para sua elaboração; a escatologia permite imaginar sua superação. Não se trata de cifra contra Roma, de mensagem clandestina ou de alegoria ponto a ponto, mas da capacidade de tradições anteriores adquirirem novos sentidos quando lidas por comunidades que conheceram a derrota.

A formulação final pode permanecer: Roma destruiu fisicamente. O Evangelho reconstruiu simbolicamente. Reconstruir, porém, não significa reerguer edifícios ou apagar a catástrofe; significa reconfigurar funções. Onde havia dispersão, a narrativa produz comunidade; onde havia corpo morto, proclama ressurreição; onde havia derrota, produz vindicação; onde havia soberania imperial, anuncia o Reino de Deus. A restauração já começou, mas ainda não terminou. O Evangelho não nega a realidade material da derrota; nega que essa realidade esgote o significado da história. Josefo preserva uma memória narrativa da destruição. Os Evangelhos preservam, ao lado da memória da destruição, a possibilidade da restauração. Não porque um texto seja continuação literária do outro, mas porque ambos pertencem a um mundo no qual a destruição exigia ser interpretada.

Roma pode vencer a guerra. Não determina, na narrativa, quem vencerá no fim.


REFERÊNCIAS


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BRYAN, Christopher. Render to Caesar: Jesus, the early church, and the Roman superpower. Oxford: Oxford University Press, 2005.

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DEN HOLLANDER, William. Jesus, Josephus, and the fall of Jerusalem: on doing history with Scripture. HTS Teologiese Studies/Theological Studies, v. 71, n. 1, 2015.

GUJARRO OPORTO, Santiago. El Evangelio de Marcos como “relato progresivo”: el trauma de la guerra y la propuesta de un nuevo comienzo. Revista Bíblica, v. 81, n. 3-4, p. 315-343, 2019.

HATINA, Thomas R. The focus of Mark 13:24-27: the parousia, or the destruction of the Temple?. Bulletin for Biblical Research, v. 6, n. 1, p. 43-66, 1996.

JOSEPHUS, Flavius. The wars of the Jews; or, the history of the destruction of Jerusalem. Tradução de William Whiston. Project Gutenberg, 2001. E-book n. 2850.

KIM, Seyoon. Christ and Caesar: the Gospel and the Roman Empire in the writings of Paul and Luke. Grand Rapids: Eerdmans, 2008.

LEANDER, Hans. With Homi Bhabha at the Jerusalem city gates: a postcolonial reading of the “triumphant” entry (Mark 11.1-11). Journal for the Study of the New Testament, v. 32, n. 3, 2010.

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OLIVER, Isaac W. Luke’s Jewish eschatology: the national restoration of Israel in Luke-Acts. New York: Oxford University Press, 2021.

VAN HENTEN, Jan Willem. Josephus, fifth evangelist, and Jesus on the Temple. HTS Teologiese Studies/Theological Studies, v. 71, n. 1, 2015.

WENDEL, Jason S. Weeping over Jerusalem: Luke’s response to the destruction of the Temple. Harvard Theological Review, v. 118, n. 4, p. 691-712, 2025.

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