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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

 



Introdução

Este é o segundo artigo no qual procuramos enfrentar as controvérsias envolvendo os textos de Mateus 24:36 e Lucas 22,43-44. O primeiro artigo de estudo pode ser encontrado aqui. Existem passagens do Novo Testamento que, embora breves, carregam consigo problemas capazes de atravessar séculos de interpretação cristã. Entre elas encontram-se Mateus 24,36 e Lucas 22,43-44. Na primeira, Jesus afirma que ninguém conhece o dia e a hora da manifestação do Filho do Homem, “nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão somente o Pai”. Na segunda, na tradição textual que conserva os versículos, Jesus, diante da proximidade de sua morte, recebe o fortalecimento de um anjo e entra em uma agonia tão intensa que seu suor é descrito como semelhante a gotas de sangue. São duas cenas distintas, mas ambas colocam diante do leitor uma questão semelhante: o que significa afirmar que aquele que é o Filho de Deus participou verdadeiramente da condição humana? Em Mateus, a dificuldade aparece no campo do conhecimento; em Lucas, no campo do sofrimento. O Filho não sabe aquilo que o Pai sabe; o Filho sofre diante da morte. E justamente por apresentarem aspectos da experiência humana de Jesus que poderiam parecer difíceis de conciliar com uma concepção elevada de sua divindade, essas passagens acabariam por ocupar lugar significativo no desenvolvimento das controvérsias cristológicas.

Não pretendemos, entretanto, partir dessas passagens diretamente para uma explicação das variantes textuais. Esse procedimento correria o risco de inverter a ordem da investigação. Antes de perguntar se determinado copista alterou um texto por razões cristológicas, é necessário compreender o campo histórico no qual questões dessa natureza se tornaram objeto de disputa. A realidade da carne de Cristo, seu nascimento, seu sofrimento, sua morte e sua relação com o Pai não foram questões formuladas apenas posteriormente pelos concílios. Elas já estavam presentes, sob formas diversas, nas comunidades cristãs dos primeiros séculos. Diferentes tradições procuravam responder a uma mesma questão fundamental: quem era, afinal, aquele Jesus que havia sido anunciado como Cristo e Filho de Deus? É nesse campo de disputas que devemos situar a tradição textual. Somente depois de compreender esse cenário poderemos retornar a Mateus 24,36 e Lucas 22,43-44 e perguntar se as controvérsias cristológicas ajudam, de fato, a explicar as diferenças encontradas nos manuscritos.

É preciso, desde logo, estabelecer uma distinção que será fundamental ao longo deste estudo. Uma passagem pode possuir grande importância para determinada controvérsia sem ter sido produzida por essa controvérsia. Pode ser utilizada posteriormente como argumento sem que tenha sido originalmente escrita com essa finalidade. Pode ainda ter sofrido alguma alteração por razões teológicas, mas esta possibilidade precisa ser demonstrada a partir da própria história da transmissão. Não basta, portanto, observar que uma determinada leitura favorece uma concepção de Cristo para concluir que foi criada para favorecê-la. A dificuldade teológica de um texto pode explicar sua alteração, mas não determina automaticamente o sentido dessa alteração. Uma passagem difícil pode ser suprimida; pode ser ampliada; pode ser harmonizada com outro evangelho; pode ser preservada justamente porque determinada comunidade a considerava importante. É entre essas possibilidades que a investigação precisa se mover.


I — PATRÍSTICA E O CAMPO DAS DIFERENTES CRISTOLOGIAS

1. A humanidade de Cristo como questão de disputa

A discussão acerca da humanidade de Jesus não nasceu quando a Igreja passou a formular, em linguagem filosófica, as categorias de natureza, pessoa e substância. Muito antes de Niceia e Calcedônia, as comunidades cristãs já se encontravam diante de uma dificuldade que não era meramente terminológica. Se Jesus era verdadeiramente o Filho de Deus, como compreender o fato de ter nascido, possuir um corpo, sentir fome, experimentar sofrimento e morrer? E, se todas essas coisas pertenciam efetivamente à sua existência histórica, de que maneira deveriam ser relacionadas à sua condição divina? A questão não era simplesmente saber se Jesus era humano ou divino. Tratava-se de compreender como essas duas afirmações poderiam permanecer juntas. A partir daí, nascimento, carne, sofrimento, morte e ressurreição deixaram de ser apenas acontecimentos da narrativa evangélica e passaram a participar de uma disputa mais ampla acerca da identidade de Cristo.

É justamente por isso que os testemunhos dos primeiros autores cristãos precisam ser lidos dentro de seu próprio contexto. Quando Inácio de Antioquia insiste na realidade da carne de Cristo, na realidade de seu nascimento, de seu sofrimento e de sua morte, não está simplesmente repetindo informações biográficas sobre Jesus. Está respondendo a um ambiente no qual essas afirmações possuíam consequências doutrinais. Aquele que sofreu na cruz precisava ser verdadeiramente aquele que havia assumido a condição humana. Se a carne fosse apenas aparência, também a paixão perderia sua realidade; e, se a paixão não fosse real, a própria compreensão cristã da salvação seria profundamente modificada.

Inácio é particularmente expressivo nesse ponto. Na Carta aos Esmirnenses, afirma que Cristo foi “verdadeiramente da descendência de Davi segundo a carne”, “verdadeiramente nascido de uma virgem” e “verdadeiramente crucificado por nós na carne” (INÁCIO DE ANTIOQUIA, Aos Esmirnenses, 1,1). Pouco depois, formula de maneira ainda mais explícita o contraste com aqueles que negavam a realidade da paixão: “Ele verdadeiramente sofreu, assim como também verdadeiramente ressuscitou” (INÁCIO DE ANTIOQUIA, Aos Esmirnenses, 2,1). A repetição do advérbio “verdadeiramente” não é casual. Ela funciona como mecanismo de afirmação da realidade histórica da existência corporal de Jesus.

A formulação de Inácio é particularmente importante para nossa investigação porque coloca nascimento, carne, sofrimento e ressurreição dentro de uma mesma cadeia argumentativa. Não se trata de afirmar simplesmente que Jesus possuía um corpo; trata-se de sustentar que os acontecimentos fundamentais da narrativa cristã ocorreram realmente nesse corpo. A encarnação e a paixão tornam-se, assim, inseparáveis. Aquele que sofre é o mesmo que nasceu; aquele que morreu é o mesmo que ressuscitou. A realidade do sofrimento torna-se parte da própria identidade de Cristo.

Em Irineu de Lião encontramos o desenvolvimento de uma perspectiva semelhante, embora inserida em uma construção teológica muito mais abrangente. A encarnação participa de sua compreensão da recapitulatio: o Filho assume a existência humana para restaurar a humanidade. A humanidade de Cristo não é, portanto, um elemento secundário. Ela está diretamente relacionada à própria lógica da salvação. Aquilo que não tivesse sido verdadeiramente assumido pelo Filho não poderia ser verdadeiramente restaurado. Em Contra as Heresias, Irineu vincula a encarnação à restauração daquilo que o Filho assume, afirmando que Cristo “recapitulou em si mesmo” aquilo que havia sido formado (IRENEU DE LIÃO, Contra as Heresias, III, 22,2). A humanidade de Cristo torna-se, nesse sentido, condição da própria economia salvífica.

Tertuliano, por sua vez, utiliza a realidade corporal de Cristo em sua controvérsia contra Marcião. O problema da carne deixa de ser apenas uma questão antropológica e passa a envolver a própria relação entre o Deus criador, a história de Israel e o Cristo anunciado pelos evangelhos. Em Contra Marcião, Tertuliano formula a questão de modo incisivo: se Cristo realmente foi crucificado, então realmente morreu; e, se realmente morreu, realmente ressuscitou (TERTULIANO, Contra Marcião, V, 5). A realidade da paixão torna-se, portanto, parte da própria estrutura do argumento cristológico.

Não é por acaso que a literatura cristã antiga insiste tantas vezes na realidade do sofrimento. A paixão não constituía simplesmente o episódio final da vida de Jesus. Ela era uma espécie de prova daquilo que cada tradição entendia por encarnação. O Cristo que sofre na cruz é também o Cristo que nasceu, que viveu entre os homens e que assumiu uma existência corporal. A maneira pela qual uma comunidade compreendia o sofrimento de Jesus revelava, em boa medida, aquilo que pensava sobre sua identidade.


2. Os possíveis adversários daquilo que posteriormente seria chamado de ortodoxia

É nesse contexto que devemos tratar das tendências posteriormente agrupadas sob a designação de docetismo. O termo é útil, mas precisa ser empregado com alguma cautela. Não estamos diante de uma única escola perfeitamente organizada, dotada de uma doutrina uniforme e facilmente identificável. A literatura cristã antiga apresenta diferentes concepções acerca da carne, do sofrimento e da humanidade de Cristo. Algumas parecem diminuir a realidade da experiência corporal de Jesus; outras enfatizam de maneira tão elevada sua condição divina que determinadas características humanas se tornam difíceis de integrar à sua identidade. É preferível, portanto, falar em tendências cristológicas concorrentes do que imaginar, para os primeiros séculos, uma oposição simples entre uma ortodoxia plenamente constituída e uma heresia igualmente organizada.

Esta precaução é importante porque existe uma tendência recorrente de projetar sobre o cristianismo dos primeiros séculos as categorias que somente posteriormente seriam estabilizadas. Quando olhamos retrospectivamente para Niceia, Constantinopla ou Calcedônia, podemos ser levados a imaginar que as fronteiras doutrinais sempre estiveram claramente estabelecidas. A história, entretanto, foi muito mais complexa. O que encontramos é um processo no qual diferentes comunidades, autores e tradições procuravam estabelecer os limites daquilo que consideravam uma compreensão adequada de Jesus. A chamada ortodoxia não apareceu pronta. Ela foi sendo construída também através do confronto com outras interpretações.

Nesse campo, a questão da humanidade de Cristo possuía importância particular. Uma cristologia que diminuísse a realidade da carne teria de explicar o significado do nascimento e da morte. Uma cristologia que enfatizasse de modo absoluto a divindade de Jesus teria de enfrentar os textos em que ele aparece submetido às limitações próprias da existência humana. E uma cristologia que insistisse na humanidade precisaria, por outro lado, explicar como essa humanidade poderia ser confessada sem diminuir a condição singular que lhe era atribuída.

É precisamente aí que determinadas passagens dos evangelhos poderiam adquirir uma importância especial. Um texto no qual Jesus sente fome, cansaço ou sofrimento poderia ser utilizado para defender a realidade de sua humanidade. Um texto no qual Jesus manifesta alguma limitação poderia ser mobilizado em uma discussão acerca de sua relação com Deus. Mas o mesmo texto poderia também provocar desconforto em comunidades que desejassem preservar uma concepção mais elevada de sua divindade. A passagem, portanto, não possui uma única função necessária. Seu significado depende também do campo no qual é lida.

Isso nos permite compreender por que Mateus 24,36 e Lucas 22,43-44 são tão interessantes. Nenhuma das duas passagens deve ser simplesmente classificada como “ortodoxa”, “docética”, “anti-docética” ou “anti-ariana”. Seria um anacronismo atribuir a textos do século I as categorias sistemáticas que seriam desenvolvidas posteriormente. O que podemos afirmar é algo mais modesto e, ao mesmo tempo, historicamente mais significativo: ambas contêm elementos que poderiam ser mobilizados nas disputas posteriores acerca da identidade de Jesus.


3. O Filho diante de sua própria humanidade

Em Mateus 24,36, o problema está concentrado em uma pequena expressão: οὐδὲ ὁ υἱός — “nem o Filho”. A frase estabelece uma diferença de conhecimento entre o Pai e o Filho. O Pai conhece o momento; o Filho não. Para uma leitura cristológica que desejasse enfatizar a humanidade de Jesus, a passagem poderia ser compreendida como testemunho de sua condição humana. Para uma leitura que considerasse incompatível com a divindade do Filho qualquer limitação cognitiva, a afirmação poderia parecer problemática.

Em Lucas 22,43-44, o problema assume outra forma. Jesus não apenas enfrenta a morte; ele experimenta uma angústia profunda diante dela. Recebe o fortalecimento de um anjo e seu sofrimento é descrito em termos corporais. Aqui, a humanidade de Jesus não aparece na forma de uma limitação intelectual, mas através do corpo e da emoção. O texto apresenta um Cristo que sofre.

Temos, portanto, duas imagens diferentes. Em Mateus, o Filho que não sabe. Em Lucas, o Filho que sofre. E ambas poderiam adquirir significado dentro do mesmo grande problema: como integrar a experiência humana de Jesus à sua condição de Filho de Deus?

Essa pergunta ajuda a explicar por que os textos sobre a humanidade de Cristo tiveram papel tão importante nas controvérsias dos primeiros séculos. Não se tratava de uma curiosidade biográfica. A questão estava relacionada à própria possibilidade da encarnação. Se Cristo não tivesse realmente assumido a condição humana, então sua experiência de sofrimento seria apenas aparente. Se tivesse assumido uma humanidade verdadeira, então seria necessário explicar de que maneira essa humanidade coexistia com sua condição divina.

É nesse ponto que a tradição patrística fornece o pano de fundo necessário para compreender o problema textual. Ela mostra que carne, sofrimento, morte e conhecimento não eram questões indiferentes. Eram elementos que poderiam ser utilizados na construção de diferentes imagens de Cristo.


Tabela 1 — As duas passagens e o problema cristológico

PassagemElemento humano enfatizadoDificuldade cristológicaPossível utilização na controvérsia
Mateus 24,36Limitação do conhecimentoComo o Filho pode não saber aquilo que o Pai sabe?Humanidade de Cristo; relação entre conhecimento humano e condição divina
Lucas 22,43-44Agonia, sofrimento e vulnerabilidade corporalComo o Filho pode experimentar angústia tão intensa?Realidade da carne; realidade do sofrimento e da paixão
Mateus 24,36 + Lucas 22,43-44Conhecimento limitado e sofrimento realComo integrar humanidade e condição divina?Campo privilegiado para disputas cristológicas posteriores




II — AS VARIANTES TEXTUAIS

4. Mateus 24,36 e a questão do “nem o Filho”

Voltemos agora à passagem de Mateus. O texto apresenta, em diversos testemunhos, a expressão “nem o Filho”. Em outros, essa expressão está ausente. A diferença parece pequena, mas possui consequências importantes. A presença da expressão atribui explicitamente ao Filho uma limitação de conhecimento; sua ausência elimina justamente essa dificuldade.

Bart D. Ehrman chamou atenção para a possibilidade de que uma alteração dessa natureza estivesse relacionada às controvérsias cristológicas. Se a expressão fosse original, sua ausência poderia ser explicada pelo desejo de evitar uma afirmação que parecesse diminuir a divindade de Cristo. O raciocínio é historicamente plausível. Copistas não eram pessoas isoladas de suas comunidades. Li­am os textos dentro de ambientes nos quais determinadas questões doutrinais possuíam grande importância. Não seria impossível, portanto, que uma afirmação considerada teologicamente problemática tivesse sido modificada durante a transmissão.

Mas é justamente neste ponto que a questão precisa ser examinada com maior cuidado. A dificuldade cristológica explica por que alguém poderia ter retirado a expressão. Ela não demonstra que alguém efetivamente a tenha retirado. Para chegar a essa conclusão, precisamos considerar os demais testemunhos e perguntar se existe outra explicação capaz de dar conta da variante.

Daniel B. Wallace apresenta uma possibilidade importante nesse sentido. A forma curta poderia ser original em Mateus, enquanto a expressão “nem o Filho” teria sido posteriormente introduzida por assimilação ao texto de Marcos 13,32, onde ela aparece. A possibilidade de assimilação é particularmente relevante porque coloca diante de nós um mecanismo transmissional bastante conhecido: o copista, familiarizado com uma formulação paralela, reproduz em um evangelho aquilo que encontra em outro. Isso não significa, contudo, que as duas hipóteses possuam necessariamente o mesmo peso na avaliação da evidência textual; significa apenas que ambas precisam ser consideradas antes que se atribua à variante uma motivação exclusivamente cristológica.

A força dessa hipótese está justamente em sua simplicidade. Em vez de pressupor que o copista tenha identificado um problema teológico e deliberadamente removido uma expressão, ela parte de um fenômeno textual ordinário: a harmonização dos relatos paralelos. Isso não torna automaticamente correta a hipótese de Wallace, mas mostra que a explicação cristológica não pode ser tratada como única alternativa.

Bruce M. Metzger, ao avaliar a passagem, chama atenção justamente para o conjunto dos testemunhos e para os critérios próprios da crítica textual. A dificuldade teológica da leitura longa constitui um elemento que precisa ser considerado, mas não pode decidir sozinha a questão, pois a avaliação da variante depende da combinação entre a evidência externa e os argumentos internos que sustentam a leitura adotada.

Assim, Mateus 24,36 nos apresenta uma situação particularmente instrutiva. A controvérsia cristológica fornece um contexto histórico que torna inteligível a alteração. Mas o mesmo contexto pode ser utilizado para explicar movimentos textuais opostos. O problema não está, portanto, em saber se uma explicação teológica é possível. Ela é. A questão é saber se ela é a melhor explicação.


Tabela 2 — Mateus 24,36: duas hipóteses para a variante

HipóteseLeitura considerada anteriorMovimento textualExplicação proposta
Ehrman“nem o Filho”SupressãoEliminação de uma afirmação cristologicamente problemática
WallaceForma curtaAcréscimoAssimilação de Mateus à formulação de Marcos 13,32
MetzgerAvaliação textualA decisão deve considerar conjuntamente evidência externa e interna


A existência dessas duas hipóteses é metodologicamente decisiva. A dificuldade teológica da leitura longa não demonstra, por si só, que ela tenha sido eliminada. A presença de uma leitura paralela em Marcos também não demonstra, por si só, que ela tenha sido introduzida em Mateus por harmonização. A variante exige uma reconstrução histórica.


5. Lucas 22,43-44 e o Cristo em agonia

O caso de Lucas 22,43-44 é ainda mais complexo. Os dois versículos aparecem em determinados testemunhos e estão ausentes em outros. Sua presença apresenta uma descrição extraordinariamente concreta da agonia de Jesus. Um anjo o fortalece e seu suor é descrito como semelhante a gotas de sangue. Sua ausência, por outro lado, elimina uma das representações mais intensas do sofrimento de Jesus em todo o Novo Testamento.

A primeira possibilidade seria imaginar que os versículos tenham sido acrescentados justamente para reforçar a humanidade de Cristo. Esta é, em linhas gerais, a interpretação defendida por Ehrman. Diante de tendências que diminuíam a realidade da carne ou do sofrimento, uma tradição interessada em mostrar que Jesus realmente sofreu poderia ter desenvolvido ou incorporado uma passagem dessa natureza. O próprio Ehrman interpreta a passagem como uma alteração de caráter anti-docético, destinada a reforçar a realidade do sofrimento de Jesus.

A interpretação possui força porque se ajusta ao ambiente histórico que acabamos de descrever. Um Cristo verdadeiramente humano precisava sofrer verdadeiramente. Uma narrativa que mostrasse sua angústia poderia funcionar como resposta a concepções nas quais a paixão fosse apenas aparência.

Mas, novamente, é preciso considerar o movimento contrário. Lincoln H. Blumell chamou atenção para a possibilidade de que os versículos fossem antigos e que sua ausência em determinados testemunhos resultasse de uma posterior supressão. A questão é particularmente importante porque o testemunho manuscrito não é simplesmente uniforme em favor de uma das alternativas. Blumell observa a presença da passagem em um conjunto de testemunhos que inclui 0171, o que torna particularmente relevante sua antiguidade, ao mesmo tempo em que reconhece que outros testemunhos antigos a omitem.

Nesse caso, a mesma intensidade que para Ehrman poderia explicar a inclusão poderia explicar a exclusão. Uma descrição tão forte da angústia de Jesus poderia ser considerada problemática por uma comunidade que desejasse apresentar uma imagem menos vulnerável do Filho. A própria existência da variante demonstra, portanto, que a questão não pode ser resolvida apenas pela conveniência teológica de uma leitura.

O caso de Lucas é particularmente importante porque evidencia uma dificuldade metodológica ainda maior. Se a passagem foi acrescentada, precisamos explicar sua presença em testemunhos antigos e sua circulação relativamente ampla. Se era original, precisamos explicar sua ausência em outros testemunhos igualmente antigos e importantes. A explicação precisa dar conta do conjunto, e não apenas de uma parte da evidência.


Tabela 3 — Lucas 22,43-44: inclusão ou supressão?

HipóteseLeitura considerada anteriorMovimento textualExplicação
EhrmanForma curtaAcréscimo dos vv. 43-44Reforço anti-docético da realidade da humanidade e do sofrimento de Jesus
Hipótese de supressãoForma longaRetirada dos vv. 43-44Redução de uma representação excessivamente vulnerável de Jesus
BlumellQuestão em abertoA evidência manuscrita exige cautela e não resolve sozinha a direção da variante


Blumell é especialmente importante porque sua análise impede que a leitura da passagem seja reduzida a um simples exemplo de “corrupção ortodoxa”. O título de seu estudo — Luke 22:43–44: An Anti-Docetic Interpolation or an Apologetic Omission? — já formula o problema de maneira exemplar: trata-se de uma interpolação anti-docética ou de uma omissão apologética? A própria formulação demonstra que o argumento teológico pode operar em direções opostas.


6. Ehrman, Metzger, Wallace e Blumell: quatro perspectivas sobre o mesmo problema

A comparação entre os pesquisadores revela que a controvérsia é mais profunda do que uma simples oposição entre aqueles que acreditam na influência da teologia sobre os copistas e aqueles que a rejeitam. Ehrman formula uma hipótese de grande alcance: determinadas alterações do texto do Novo Testamento podem ser compreendidas à luz das controvérsias cristológicas dos primeiros séculos. Essa hipótese chama nossa atenção para um aspecto que não pode ser ignorado: os textos eram transmitidos por comunidades concretas e essas comunidades estavam envolvidas em disputas concretas. Isso, contudo, não elimina a necessidade de considerar mecanismos transmissionalmente ordinários, como harmonização, expansão e omissão, nem permite atribuir automaticamente motivação teológica a toda variante que possua relevância cristológica. A teologia podia, portanto, participar da história textual. Sua tese geral em The Orthodox Corruption of Scripture consiste justamente em mostrar que determinadas alterações do texto do Novo Testamento podem ser compreendidas à luz das controvérsias cristológicas dos primeiros séculos.

Metzger, por sua vez, representa uma preocupação diferente. Ainda que uma variante possua evidente significado doutrinal, a reconstrução do texto precisa partir dos testemunhos e dos critérios da crítica textual. A dificuldade teológica pode ser um argumento importante, mas não pode substituir a avaliação da tradição manuscrita.

Wallace introduz outra dimensão no problema de Mateus 24,36. Antes de imaginar uma alteração deliberada para resolver uma dificuldade cristológica, devemos considerar os fenômenos ordinários da transmissão, entre eles a assimilação de uma passagem a outra. O fato de Marcos conservar de modo sólido a expressão “nem o Filho” torna particularmente relevante a possibilidade de que a leitura mateana mais longa tenha surgido por harmonização.

Blumell, em Lucas 22,43-44, reforça justamente a necessidade de examinar a direção da alteração. Não basta observar que os versículos possuem forte significado cristológico. É preciso saber se foram acrescentados ou retirados. A mesma dificuldade teológica pode sustentar explicações opostas.

Temos, assim, quatro perspectivas que não devem ser artificialmente transformadas em uma disputa entre “teólogos” e “textualistas”. O verdadeiro problema está na relação entre três elementos: o texto que recebemos, o contexto histórico no qual foi transmitido e as razões que poderiam explicar as diferenças entre os testemunhos.


Tabela 4 — Pesquisadores e hipóteses principais

PesquisadorPassagem / problemaÊnfase principalDireção privilegiada
Bruce M. MetzgerMt 24,36; Lc 22,43-44Avaliação dos testemunhos e critérios da crítica textualReconstrução crítica
Bart D. EhrmanMt 24,36; Lc 22,43-44Influência das controvérsias cristológicasSupressão em Mt; acréscimo em Lc
Daniel B. WallaceMt 24,36Assimilação aos paralelosAcréscimo em Mt
Lincoln H. BlumellLc 22,43-44Análise da tradição manuscrita e da direção da varianteQuestionamento da explicação exclusivamente anti-docética


O ponto mais interessante dessa disputa é que ela impede uma conclusão precipitada. Se admitirmos que os copistas podiam ser influenciados por suas convicções teológicas, ainda precisamos demonstrar que determinada variante nasceu dessa influência. Se, por outro lado, reconhecermos que erros, harmonizações e expansões eram comuns na transmissão, isso também não significa que as controvérsias teológicas fossem irrelevantes. A história concreta provavelmente envolve uma combinação de fatores, cuja importância precisa ser estabelecida em cada caso.


III — TEXTO, COMUNIDADE E TRANSMISSÃO

7. O texto como parte da história das comunidades

É preciso abandonar, portanto, a imagem do texto antigo como algo que circulava fora da história. Os evangelhos eram lidos, copiados, ensinados e discutidos por comunidades. Cada comunidade possuía sua própria experiência histórica e seus próprios problemas. O texto participava dessa vida comunitária.

Isso não significa, entretanto, que cada copista pudesse alterar livremente o que recebia. A tradição textual possui continuidades, e essas continuidades constituem justamente a base de nosso trabalho. O que encontramos é uma tensão permanente entre preservação e transformação. O texto é conservado, mas é também transmitido através de pessoas. E pessoas podem cometer erros, harmonizar passagens, acrescentar explicações, omitir expressões ou, em determinadas circunstâncias, intervir conscientemente na forma do texto.

Quando essa transmissão ocorre em meio a controvérsias, a situação torna-se ainda mais interessante. Uma passagem que apresenta Jesus como ignorante, angustiado ou corporalmente vulnerável pode adquirir uma importância particular. Pode ser citada para defender uma posição; pode ser discutida por outra comunidade; pode ser interpretada de maneira diferente por autores diferentes. O texto passa a fazer parte do campo da controvérsia.

Mas é justamente aqui que precisamos evitar uma conclusão fácil. Participar do campo da controvérsia não significa necessariamente ter sido produzido pela controvérsia. Uma passagem pode ser antiga e posteriormente utilizada como arma argumentativa. Pode também ter sido modificada durante a transmissão. As duas coisas são historicamente possíveis e não devem ser confundidas.

Essa distinção nos permite compreender melhor a relação entre cristologia e crítica textual. A cristologia nos ajuda a compreender por que determinado texto poderia ser sensível. A crítica textual nos ajuda a estabelecer o que aconteceu com o texto. Entre uma coisa e outra existe a investigação histórica, que procura saber se existe uma relação efetiva entre a disputa e a variante.


Tabela 5 — Três níveis da investigação

NívelPergunta fundamentalTipo de evidência
CristológicoPor que determinada leitura poderia ser teologicamente sensível?Patrística, controvérsias doutrinais, cristologias concorrentes
TextualQual leitura possui maior probabilidade de ser anterior?Manuscritos, versões, citações patrísticas, evidência interna
HistóricoA controvérsia explica efetivamente a origem da variante?Convergência entre contexto, direção da variante e mecanismos de transmissão


Essa distinção evita tanto o reducionismo teológico quanto o reducionismo textual. A crítica textual não precisa negar a história das controvérsias; a história das controvérsias, por sua vez, não pode substituir a crítica textual.


8. A questão da direção da alteração

Este talvez seja o ponto mais importante de toda a discussão. Quando encontramos uma variante que possui significado teológico, somos naturalmente tentados a perguntar qual das leituras favorece melhor determinada doutrina. Mas essa pergunta, sozinha, é insuficiente. Precisamos perguntar qual leitura é anterior e qual é posterior.

No caso de Mateus 24,36, a dificuldade pode ser formulada de duas maneiras. Se “nem o Filho” é original, a ausência poderia representar uma tentativa de eliminar uma afirmação difícil. Se a forma curta é original, a expressão poderia ter sido acrescentada posteriormente, talvez sob influência de Marcos. A mesma preocupação cristológica aparece nos dois cenários, mas produz movimentos diferentes.

No caso de Lucas 22,43-44, ocorre algo semelhante. Se os versículos são secundários, sua presença poderia ser explicada pelo interesse em reforçar a realidade do sofrimento de Jesus. Se são originais, sua ausência poderia ser explicada pelo desejo de reduzir justamente essa representação de sua vulnerabilidade.

Isso mostra que não existe uma relação automática entre teologia e direção da variante. O argumento “essa leitura é mais humana, portanto foi acrescentada para humanizar Jesus” é insuficiente. Também seria insuficiente afirmar “essa leitura é mais difícil para uma concepção elevada de Cristo, portanto foi retirada por motivos doutrinais”. Ambas as afirmações precisam ser demonstradas.

A questão histórica é mais exigente: qual cenário explica melhor o conjunto dos testemunhos? Somente depois de responder a essa pergunta podemos atribuir maior peso a uma explicação teológica.


Tabela 6 — A direção da variante como problema metodológico

PerguntaMateus 24,36Lucas 22,43-44
O que torna a passagem difícil?O Filho não conhece o momento conhecido pelo PaiJesus sofre e precisa ser fortalecido por um anjo
Alteração possível 1Supressão de “nem o Filho”Acréscimo dos vv. 43-44
Alteração possível 2Acréscimo por harmonização com MarcosSupressão dos vv. 43-44
Problema centralQual leitura é anterior?Qual leitura é anterior?
Consequência metodológicaTeologia não determina sozinha a direçãoTeologia não determina sozinha a direção


9. Possibilidade, plausibilidade e demonstração histórica

Chegamos, assim, a uma distinção que consideramos indispensável. Há uma diferença entre aquilo que é possível, aquilo que é plausível e aquilo que pode ser considerado demonstrado.

É possível que uma controvérsia cristológica tenha influenciado determinada variante. Sabemos que existiam controvérsias e sabemos que os textos eram transmitidos por comunidades inseridas nessas controvérsias.

É plausível sustentar essa influência quando encontramos uma relação particularmente estreita entre o conteúdo da variante e uma questão doutrinal em discussão, sobretudo quando outras explicações transmissionalmente simples não dão conta satisfatoriamente do fenômeno.

Mas demonstrar historicamente essa influência é outra coisa. Para tanto, precisamos estabelecer uma sequência argumentativa mais exigente: o texto precisa possuir determinadas características; a alteração precisa ser historicamente possível; os testemunhos precisam permitir a reconstrução de sua direção; e a explicação teológica precisa ser mais convincente do que as alternativas disponíveis.

Essa distinção é importante porque evita dois exageros opostos. O primeiro consiste em negar qualquer influência teológica sobre os copistas, como se a transmissão tivesse ocorrido em um ambiente completamente neutro. O segundo consiste em atribuir toda variante teologicamente significativa a uma intervenção doutrinal consciente. Nenhum dos dois extremos faz justiça à complexidade da tradição textual.

A história da transmissão foi feita por pessoas inseridas em comunidades. Essas pessoas podiam errar, harmonizar, explicar, omitir ou modificar. Algumas dessas ações podiam possuir razões teológicas; outras provavelmente não. O trabalho do pesquisador é justamente procurar distinguir umas das outras.


Tabela 7 — Possível, plausível e demonstrado

CategoriaSignificadoAplicação ao problema
PossívelNão contradiz o contexto histórico conhecidoCopistas poderiam alterar textos por razões cristológicas
PlausívelPossui boa capacidade explicativa diante das evidênciasUma variante pode ser relacionada a uma controvérsia específica
DemonstradoA evidência permite estabelecer a explicação com elevado grau de segurançaExige convergência entre testemunhos, direção da variante e contexto histórico


IV — AS DUAS PASSAGENS NO CAMPO DA CRISTOLOGIA ANTIGA

10. Duas passagens e um mesmo problema

Quando colocamos Mateus 24,36 e Lucas 22,43-44 lado a lado, percebemos algo que vai além das duas variantes consideradas isoladamente. Ambas apresentam características da humanidade de Jesus que poderiam gerar dificuldades em determinados contextos cristológicos.

Mateus apresenta o Filho que não conhece aquilo que o Pai conhece. Lucas apresenta o Filho que sofre diante da morte. Um texto toca o conhecimento; o outro, o corpo. Um coloca diante do leitor uma limitação cognitiva; o outro, uma vulnerabilidade física e emocional. Mas ambos participam de uma mesma questão histórica: como falar do Jesus humano quando se confessa simultaneamente sua condição singular como Filho de Deus?

A patrística demonstra que essa pergunta estava longe de ser irrelevante. Inácio insiste na carne e na paixão; Irineu integra a humanidade de Cristo à própria economia da salvação; Tertuliano utiliza sua realidade corporal na disputa contra Marcião. Outros autores e tradições seguiram caminhos diferentes. A cristologia antiga não foi construída em um ambiente de consenso absoluto. Ela nasceu também do confronto.

Nesse sentido, a existência das variantes não deve surpreender. O que surpreenderia seria imaginar que textos capazes de tocar diretamente em questões tão importantes permanecessem completamente indiferentes às disputas nas quais eram lidos. O que não podemos fazer é transformar essa constatação em uma explicação automática para cada diferença textual.


Tabela 8 — Da cristologia à transmissão textual

ElementoMateus 24,36Lucas 22,43-44
Problema narrativoJesus não conhece o dia e a horaJesus experimenta profunda agonia
Aspecto humanoConhecimento limitadoSofrimento corporal e emocional
Possível dificuldade doutrinalRelação entre ignorância e divindadeRelação entre sofrimento e divindade
Testemunho patrístico relevanteDiscussões cristológicas sobre conhecimento e filiaçãoTradições antigas sobre a paixão e a realidade da carne
Problema textualPresença/ausência de “nem o Filho”Presença/ausência dos vv. 43-44
Explicação teológica possívelSupressão ou acréscimoAcréscimo ou supressão
Conclusão metodológicaNão basta o argumento teológicoNão basta o argumento teológico


Conclusão

A investigação começou com duas imagens simples e, ao mesmo tempo, profundamente significativas: o Filho que não sabe e o Filho que sofre. Em Mateus, Jesus aparece como aquele que não conhece o momento que o Pai conhece. Em Lucas, na tradição que conserva os versículos 43-44, aparece como aquele que enfrenta a morte em profunda agonia. Em ambos os casos, a narrativa apresenta aspectos da experiência humana de Jesus que poderiam assumir importância particular no desenvolvimento das cristologias antigas.

A literatura patrística mostra que essa importância não era imaginária. A realidade da carne, do nascimento, do sofrimento e da morte de Cristo estava no centro de disputas que ajudariam a formar as fronteiras posteriores da ortodoxia. Inácio, Irineu e Tertuliano não escrevem a partir de um campo doutrinal já inteiramente estabilizado. Eles participam da construção desse campo. Respondem a adversários, delimitam posições e procuram estabelecer qual compreensão de Cristo deve ser aceita por suas comunidades.

Inácio de Antioquia é especialmente revelador porque insiste na realidade da existência corporal de Cristo justamente nos pontos em que essa realidade poderia ser negada. Ele afirma que Cristo foi “verdadeiramente” nascido, “verdadeiramente” crucificado e que “verdadeiramente sofreu” (INÁCIO DE ANTIOQUIA, Aos Esmirnenses, 1–2). A insistência não é meramente devocional. Ela constitui uma estratégia de delimitação cristológica: o Cristo cuja paixão salva é aquele que efetivamente sofreu. A carne não é um detalhe periférico; ela integra a própria afirmação cristã acerca da identidade de Jesus.

Irineu desenvolve uma lógica semelhante em chave soteriológica. A encarnação é compreendida como parte da recapitulatio, isto é, da ação pela qual o Filho assume e restaura a humanidade. O corpo de Cristo participa, portanto, da economia da salvação. Tertuliano, na controvérsia contra Marcião, emprega a realidade da crucificação, morte e ressurreição como argumento contra uma concepção que separasse radicalmente o Cristo do Deus criador. Esses testemunhos mostram que a realidade humana de Jesus estava longe de ser uma questão secundária.

É justamente nesse cenário que as variantes textuais adquirem interesse. Ehrman chama nossa atenção para a possibilidade de que as controvérsias cristológicas tenham deixado marcas na transmissão do Novo Testamento. Sua tese é importante porque nos obriga a abandonar a imagem de copistas completamente indiferentes ao significado dos textos que copiavam. Metzger, entretanto, lembra que a crítica textual precisa permanecer vinculada aos testemunhos. Wallace mostra que, em Mateus 24,36, uma explicação transmissional como a assimilação a Marcos não pode ser simplesmente descartada. Blumell, em Lucas 22,43-44, mostra que a própria direção da alteração precisa ser discutida.

A disputa entre esses pesquisadores revela, portanto, algo mais importante do que a escolha de uma interpretação particular. Ela demonstra que a relação entre cristologia e transmissão textual é possível, historicamente inteligível e, em determinados casos, bastante plausível. Mas também demonstra que essa relação não pode ser presumida. O significado teológico de uma leitura não determina automaticamente sua origem. Uma passagem pode ser preservada porque serve a determinada teologia; pode ser acrescentada porque responde a uma necessidade doutrinal; pode ser retirada porque provoca dificuldade; ou pode simplesmente ter sofrido uma alteração comum da transmissão manuscrita.

O caso de Mateus 24,36 é exemplar. A expressão “nem o Filho” pode ser vista como uma afirmação difícil que teria sido eliminada por razões cristológicas. Mas também pode representar uma leitura posterior que entrou no texto por assimilação ao evangelho de Marcos. A existência dessa possibilidade é reforçada pelo fato de a formulação correspondente estar solidamente atestada em Marcos 13,32. O problema, portanto, não é decidir qual explicação parece mais interessante do ponto de vista teológico, mas determinar qual delas explica melhor a tradição textual.

O caso de Lucas 22,43-44 é igualmente revelador. A intensidade do sofrimento de Jesus poderia ter motivado uma expansão destinada a reforçar sua humanidade; mas essa mesma intensidade poderia ter provocado sua posterior supressão. A evidência manuscrita é complexa: a passagem está ausente em testemunhos antigos importantes, mas também aparece em testemunhos antigos, entre os quais 0171, o que impede que sua história seja reduzida a uma simples e tardia interpolação.

É justamente por isso que precisamos distinguir o campo da controvérsia da história da variante. O primeiro nos permite compreender por que determinada passagem poderia ser importante. A segunda exige que investiguemos os testemunhos, a distribuição das leituras, as características internas do texto e os mecanismos pelos quais uma forma poderia ter dado origem à outra. Uma coisa não substitui a outra.

Não devemos, portanto, imaginar que a crítica textual e a história das cristologias caminhem por estradas completamente separadas. Elas se encontram no momento em que percebemos que os textos eram transmitidos por comunidades concretas, em meio a disputas concretas, e que aquilo que essas comunidades pensavam acerca de Jesus poderia influenciar a maneira como determinados textos eram lidos e, em certas circunstâncias, transmitidos. Mas esse encontro precisa ser demonstrado caso a caso.

A grande contribuição dessa perspectiva talvez esteja justamente em impedir respostas fáceis. Não basta perguntar qual leitura é mais conveniente para uma determinada cristologia. Também não basta perguntar qual leitura parece mais estranha e, por isso, supor que seja automaticamente original. A história é mais complexa. O texto passa pelas mãos de comunidades, atravessa controvérsias, é copiado, interpretado, harmonizado e preservado. E cada uma dessas etapas pode deixar suas próprias marcas.

O Filho que não sabe e o Filho que sofre permanecem, assim, como duas testemunhas particularmente expressivas de uma questão que atravessou os primeiros séculos do cristianismo: como confessar simultaneamente a humanidade real e a condição divina de Jesus? As respostas dadas a essa pergunta foram diversas, e foi precisamente através do confronto entre elas que aquilo que posteriormente seria chamado de ortodoxia ganhou forma.

A transmissão dos textos participou dessa história, mas não deve ser confundida com ela. O texto pode entrar na controvérsia; a controvérsia pode influenciar o texto. Contudo, entre uma possibilidade e uma conclusão histórica existe todo um caminho de investigação.

Uma coisa é reconhecer que determinado texto participa do campo das disputas cristológicas. Outra, muito diferente, é afirmar que a disputa cristológica produziu aquele texto.

É justamente nessa diferença que se encontra o espaço próprio da crítica histórica.


APÊNDICE — QUADROS SINTÉTICOS


Apêndice A — Matriz comparativa das duas variantes

CritérioMateus 24,36Lucas 22,43-44
Texto em questão“nem o Filho”Anjo e agonia de Jesus
Problema cristológicoConhecimento limitadoSofrimento intenso
Leitura longaInclui “nem o Filho”Inclui vv. 43-44
Leitura curtaOmite “nem o Filho”Omite vv. 43-44
Hipótese anti-cristológicaSupressão da expressãoSupressão da passagem
Hipótese pró-humanidadeAcréscimo da passagem
Hipótese de harmonizaçãoAcréscimo a partir de Marcos
Principal questãoDireção da alteraçãoDireção da alteração


Apêndice B — Patrística e humanidade de Cristo

AutorObraElemento cristológicoRelação com o problema
Inácio de AntioquiaAos EsmirnensesNascimento, carne, paixão e ressurreição reaisReforça a realidade corporal de Cristo contra tendências docéticas
Irineu de LiãoContra as HeresiasEncarnação e recapitulatioA humanidade assumida pelo Filho integra a economia da salvação
TertulianoContra MarciãoNascimento, crucificação, morte e ressurreiçãoA realidade da carne sustenta a continuidade entre criação, encarnação e salvação


Apêndice C — Critério de avaliação das hipóteses

EtapaPergunta
1. Evidência externaQuais manuscritos, versões e citações antigas sustentam cada leitura?
2. Evidência internaQual leitura explica melhor o estilo e o contexto imediato?
3. Direção da varianteÉ mais plausível explicar a passagem longa a partir da curta ou a curta a partir da longa?
4. Contexto cristológicoHavia controvérsias capazes de tornar a passagem teologicamente sensível?
5. Mecanismo transmissionalExiste um mecanismo concreto que explique a alteração?
6. ConvergênciaA explicação teológica é superior às explicações transmissionalmente ordinárias?
7. Grau de certezaA conclusão é possível, plausível ou historicamente demonstrável?


REFERÊNCIAS

BLUMELL, Lincoln H. Luke 22:43–44: An anti-docetic interpolation or an apologetic omission? TC: A Journal of Biblical Textual Criticism, v. 19, 2014. DOI: 10.15699/tc.19.2014.01.

EHRMAN, Bart D. The Orthodox Corruption of Scripture: The Effect of Early Christological Controversies on the Text of the New Testament. New York: Oxford University Press, 1993.

EHRMAN, Bart D.; PLUNKETT, Mark. The angel and the agony: the textual problem of Luke 22:43-44. New Testament Studies, v. 31, n. 2, 1985.

IGNATIUS OF ANTIOCH. The letters of St. Ignatius of Antioch. In: HOLMES, Michael W. (ed.). The Apostolic Fathers: Greek Texts and English Translations. 3. ed. Grand Rapids: Baker Academic, 2007.

IRENAEUS OF LYONS. Against Heresies. In: ROBERTS, Alexander; DONALDSON, James; COXE, Arthur Cleveland (eds.). Ante-Nicene Fathers. Peabody: Hendrickson, 1994.

METZGER, Bruce M. A Textual Commentary on the Greek New Testament. 2. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1994.

TERTULLIAN. Against Marcion. In: ROBERTS, Alexander; DONALDSON, James; COXE, Arthur Cleveland (eds.). Ante-Nicene Fathers. Peabody: Hendrickson, 1994.

WALLACE, Daniel B. Greek Grammar Beyond the Basics: An Exegetical Syntax of the New Testament. Grand Rapids: Zondervan, 1996.


 




O PROBLEMA DA CONCILIAÇÃO ENTRE DIVINDADE E HUMANIDADE DE CRISTO NOS DOIS PRIMEIROS SÉCULOS

RESUMO

A cristologia cristã dos primeiros séculos precisou enfrentar uma questão que já se encontra nos próprios textos evangélicos: Jesus é apresentado simultaneamente em uma condição extraordinária, associada à filiação divina, e submetido a limitações inequivocamente humanas. Em Mateus 24,36, o Filho não conhece o dia e a hora conhecidos pelo Pai; em Lucas 22,41-44, Jesus experimenta profunda angústia diante da morte e, na tradição que conserva os versículos 43-44, chega a suar como grandes gotas de sangue. Temos, portanto, duas questões distintas, mas intimamente relacionadas: o problema epistemológico do conhecimento limitado do Filho e o problema antropológico da realidade de seu sofrimento. O presente artigo procura investigar essas duas passagens a partir da literatura cristã dos dois primeiros séculos, privilegiando Inácio de Antioquia, Justino Mártir e Irineu de Lião. O objetivo não é transportar para esse período as formulações dogmáticas posteriores, mas procurar compreender de que maneira a tradição cristã antiga começou a enfrentar a tensão produzida entre a elevada identidade atribuída a Jesus e a realidade de sua condição humana. A nosso ver, o problema fundamental não consistia simplesmente em decidir entre a divindade e a humanidade de Cristo, mas em encontrar uma forma de conciliar afirmações que, tomadas isoladamente, produziam dificuldades para a cristologia nascente. A questão da transmissão manuscrita das duas passagens será examinada em artigo posterior.

Palavras-chave: cristologia; Jesus Cristo; Mateus 24,36; Lucas 22,41-44; patrística; encarnação; docetismo.


1 INTRODUÇÃO

Há problemas que a tradição cristã não inventou posteriormente, mas que já estavam contidos nos próprios textos que serviriam de fundamento para sua elaboração cristológica. Uma dessas questões aparece quando colocamos lado a lado duas afirmações aparentemente simples acerca de Jesus: ele não sabe e ele sofre. Em Mateus 24,36, diante da questão escatológica, Jesus afirma que ninguém conhece o dia e a hora, “nem os anjos dos céus, nem o Filho, mas só o Pai”. Em Lucas 22,41-44, no momento que antecede sua prisão, Jesus se afasta dos discípulos, dobra os joelhos, ora ao Pai e pede que, se possível, seja afastado dele aquele cálice. A narrativa o apresenta angustiado diante do futuro que se aproxima; e, na tradição que conserva os versículos 43-44, um anjo aparece para fortalecê-lo e seu suor se torna semelhante a grandes gotas de sangue que caem por terra. Temos, portanto, dois movimentos que parecem colocar a mesma questão sob ângulos diferentes: o Filho que não sabe e o Filho que sofre. Se Jesus é divino, como pode não conhecer aquilo que o Pai conhece? Se Jesus é divino, como pode experimentar uma angústia tão profundamente humana diante da morte? E, se retiramos dele essas limitações para preservar sua divindade, o que resta da humanidade que os mesmos textos parecem afirmar?

Ora, não estamos aqui diante de uma contradição lógica formal já demonstrada. Seria precipitado afirmar que as proposições “Jesus é Deus” e “Jesus não sabe” constituem, por si mesmas, uma contradição, porque isso dependeria das definições utilizadas para “Deus”, “onisciência”, “humanidade” e, sobretudo, da maneira como as propriedades são atribuídas à pessoa de Jesus. Temos, antes, uma dificuldade de natureza cristológica. A questão aparece quando uma tradição que afirma uma condição divina elevada para Jesus precisa, simultaneamente, explicar afirmações e comportamentos que pertencem claramente à experiência humana. Sendo assim, a questão não é simplesmente saber se Jesus era Deus ou homem. A questão mais difícil é outra: como conciliar a divindade e a humanidade de alguém que não sabe tudo, sofre, angustia-se, ora e morre? É justamente essa questão que nos interessa investigar.

A questão torna-se particularmente importante quando observamos que os cristãos dos primeiros séculos não estavam elaborando sua cristologia em um ambiente intelectualmente homogêneo. A identidade de Jesus era objeto de disputa. Diferentes grupos e tradições podiam utilizar os mesmos textos em direções diferentes, conforme as premissas cristológicas que adotavam. Uma afirmação como “nem o Filho” poderia ser lida como evidência de uma inferioridade do Filho em relação ao Pai. A narrativa do Getsêmani, por sua vez, poderia ser utilizada para questionar uma concepção excessivamente elevada da divindade de Jesus. Mas o movimento contrário também era possível. Se Jesus sofre verdadeiramente, se possui carne verdadeira, se experimenta a angústia e a morte, essas mesmas características podem ser utilizadas pelos cristãos para combater aqueles que reduziam sua humanidade a uma aparência. O problema, portanto, não possui apenas uma direção. A mesma humanidade que podia ser utilizada contra a divindade podia também ser utilizada para defender a realidade da encarnação.

Neste sentido, a literatura cristã dos dois primeiros séculos torna-se particularmente importante. Inácio de Antioquia, Justino Mártir e Irineu de Lião pertencem a momentos e contextos diferentes, e não devemos transformá-los em representantes de uma única escola cristológica. Encontramos, entretanto, uma preocupação que atravessa suas argumentações: Jesus não pode ser reduzido a uma aparência de homem. Sua carne, seu sofrimento, sua morte e sua ressurreição precisam ser reais. E essa insistência é particularmente significativa porque demonstra que a afirmação da divindade de Cristo não eliminou a questão da humanidade; ao contrário, quanto mais elevada se torna a identidade atribuída ao Filho, mais urgente se torna explicar o que significa afirmar que ele foi realmente humano.

O recorte deste artigo é deliberadamente restrito. Não entraremos na controvérsia ariana, nem nas formulações conciliares dos séculos IV e V. Também não pretendemos reconstruir toda a história da cristologia antiga. Nosso objetivo é mais específico: investigar o problema produzido por Mateus 24,36 e Lucas 22,41-44 e procurar compreender de que maneira autores cristãos dos dois primeiros séculos responderam à tensão entre a condição divina e a condição humana de Jesus. A questão dos manuscritos, das variantes textuais e da possibilidade de intervenções na transmissão desses textos será tratada separadamente. Aqui nos interessa, antes de tudo, a questão cristológica que os textos colocavam e a maneira como a patrística mais antiga começou a enfrentá-la.



2 O PROBLEMA CRISTOLÓGICO: O FILHO QUE NÃO SABE E O FILHO QUE SOFRE

2.1 Mateus 24,36 e o problema epistemológico

Mateus 24,36 contém uma afirmação de extraordinária força cristológica: acerca daquele dia e daquela hora, ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, mas somente o Pai. A passagem não diz simplesmente que Jesus não deseja revelar a informação. O verbo utilizado é o verbo do conhecimento. A questão, portanto, está colocada no próprio texto: há algo que o Pai conhece e que o Filho, naquele momento, não conhece.

Ora, se estivéssemos diante apenas de um mestre humano, não haveria qualquer dificuldade. A ignorância acerca de acontecimentos futuros pertence à condição humana e não exige qualquer explicação especial. Mas a questão muda completamente quando esse mesmo Jesus passa a ser confessado como Filho de Deus em sentido elevado. Surge imediatamente a pergunta: como pode aquele que participa da condição divina desconhecer alguma coisa conhecida pelo Pai? A dificuldade não é criada pela crítica moderna. Ela nasce do encontro entre duas afirmações presentes na tradição cristã: de um lado, a elevada identidade do Filho; de outro, a limitação de seu conhecimento.

Poderíamos dizer que Jesus simplesmente não revelou aquilo que sabia. Mas essa hipótese não resolve o problema textual. “Não saber” não é equivalente a “não revelar”. Poderíamos também afirmar que o Filho não sabe enquanto homem, mas sabe enquanto divino. Essa solução já nos coloca diante de uma distinção muito mais elaborada e que será fundamental para o desenvolvimento posterior da cristologia. Mas precisamos observar a ordem histórica do problema: primeiro existe a tensão; depois surge a necessidade de explicá-la. Não devemos colocar retroativamente nos evangelhos uma solução que só será formulada com maior precisão em períodos posteriores.

O problema epistemológico, portanto, não consiste simplesmente em demonstrar que Jesus era ignorante. Consiste em procurar compreender o que essa ignorância significa dentro de uma tradição que simultaneamente lhe atribui uma relação singular com Deus. A afirmação de Mateus é particularmente desconcertante justamente porque estabelece uma comparação: o Pai sabe; os anjos não sabem; o Filho também não sabe. O texto estabelece, assim, uma diferença de conhecimento entre Pai e Filho que não pode ser simplesmente apagada pela interpretação.

E aqui aparece uma questão que será importante no segundo artigo. A expressão “nem o Filho” possui uma história textual complexa. Alguns testemunhos manuscritos antigos a conservam; outros a omitem. A crítica textual discute se a ausência é resultado de uma alteração posterior ou se a inclusão pode ter ocorrido por assimilação ao paralelo de Marcos 13,32. Não podemos, portanto, partir da hipótese de que os copistas retiraram a expressão para eliminar uma dificuldade cristológica. Essa possibilidade precisa ser demonstrada, e não simplesmente pressuposta (METZGER, 1994). Mas, mesmo deixando provisoriamente de lado a história dos manuscritos, o problema permanece. O texto em que a expressão está presente produz uma dificuldade real para qualquer cristologia que queira atribuir ao Filho uma onisciência absoluta. E é precisamente essa dificuldade que torna Mateus 24,36 tão importante para a história da reflexão cristã.


2.2 Lucas 22,41-44 e o problema antropológico

Se Mateus 24,36 coloca o problema do conhecimento, Lucas 22,41-44 coloca diante de nós o problema do sofrimento. Jesus aproxima-se da morte e não reage como alguém indiferente diante dela. Afasta-se dos discípulos, ajoelha-se e ora: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice! Contudo, não a minha vontade, mas a tua seja feita!” (Lc 22,42). A cena já é suficientemente forte sem os versículos 43-44. Jesus sabe que a morte se aproxima e manifesta diante do Pai o desejo de que o cálice seja afastado. Existe aqui uma experiência humana evidente: medo, angústia, sofrimento, vontade de escapar da morte. Mas os versículos 43-44 tornam a narrativa ainda mais intensa. Um anjo aparece para fortalecê-lo e Jesus, estando em agonia, ora com maior insistência; seu suor torna-se semelhante a grandes gotas de sangue que caem por terra.

Ora, pode um ser que concebemos como plenamente divino experimentar dessa maneira a angústia diante do próprio futuro? Pode aquele que não está sujeito às limitações humanas experimentar a necessidade de ser fortalecido por um anjo? Pode alguém que possui conhecimento absoluto acerca do futuro pedir ao Pai que afaste dele o acontecimento que se aproxima? Essas perguntas não demonstram, por si mesmas, uma impossibilidade lógica. Mas demonstram uma dificuldade cristológica de primeira ordem. E aqui está o ponto central: não podemos resolver o problema simplesmente eliminando a humanidade de Jesus. Se a angústia é retirada, se o sofrimento é transformado em aparência, se a morte é apenas uma encenação, então a própria encarnação perde parte fundamental de seu sentido. Um Cristo que parece sofrer, mas não sofre; que parece morrer, mas não morre; que parece possuir carne, mas não possui verdadeiramente carne, não é o mesmo Cristo que encontramos na tradição cristã que se consolidará nos primeiros séculos.

É justamente por isso que Lucas 22 possui uma importância que ultrapassa a narrativa da paixão. A passagem podia ser utilizada contra uma cristologia elevada, mas também podia ser utilizada em defesa da humanidade de Jesus. O sofrimento que aparentemente ameaça sua divindade pode, em outro contexto, tornar-se prova de sua humanidade. A questão textual dos versículos 43-44 torna a questão ainda mais interessante. A tradição manuscrita apresenta testemunhos divergentes, e pesquisadores como Bart D. Ehrman e Mark A. Plunkett dedicaram estudo específico à questão textual da passagem. Isso significa que não podemos simplesmente tomar os versículos como testemunho textual incontestado. Mas também não podemos ignorar o fato de que a tradição correspondente à agonia e ao suor de sangue já era conhecida por autores cristãos do século II. O problema cristológico e o problema textual precisam ser analisados conjuntamente, mas não confundidos (EHRMAN; PLUNKETT, 1983). A particularidade do Getsêmani está justamente na conjugação entre consciência da morte, angústia diante do sofrimento, oração e submissão à vontade do Pai.A crucificação apresenta o sofrimento já consumado; o Getsêmani apresenta o sofrimento em sua dimensão antecipatória, quando Jesus ainda se encontra diante da morte que se aproxima e expressa diante do Pai sua vontade de que o cálice seja afastado. É essa combinação entre consciência do destino, angústia e submissão que torna a cena particularmente relevante para uma cristologia preocupada não apenas em afirmar que Cristo sofreu, mas em compreender como aquele que é confessado como Filho enfrenta humanamente o sofrimento que sabe estar por vir.




3 A PRIMEIRA RESPOSTA CRISTÃ: A REALIDADE DA CARNE

3.1 Inácio de Antioquia: Cristo sofreu verdadeiramente

É justamente neste contexto que Inácio de Antioquia se torna uma testemunha fundamental. Em suas cartas, encontramos uma insistência quase obsessiva na realidade da carne de Cristo, de seu nascimento, de seu sofrimento, de sua morte e de sua ressurreição. Em Aos Esmirnenses, Inácio afirma que Jesus Cristo foi verdadeiramente nascido, verdadeiramente crucificado e que verdadeiramente sofreu (INÁCIO DE ANTIOQUIA, Aos Esmirnenses, 1–2). Não se trata de uma escolha casual de linguagem. Inácio repete o “verdadeiramente” porque seu adversário, em sua construção polêmica, representa precisamente aqueles que não reconhecem a realidade do sofrimento. Para Inácio, Cristo não poderia ter sofrido apenas aparentemente. A realidade da carne é fundamental. Se Cristo não sofreu verdadeiramente, então a própria paixão perde sua realidade; e, se a paixão perde sua realidade, a própria estrutura da salvação cristã é comprometida.

Temos aqui uma inversão muito interessante da questão. Se alguém dissesse que o sofrimento é incompatível com a divindade, poderia utilizar o Getsêmani como argumento contra uma concepção elevada de Cristo. Inácio responde praticamente no sentido contrário: é justamente porque Cristo é o Salvador que seu sofrimento precisa ter sido real. A divindade não elimina a carne; a encarnação exige que a carne seja verdadeira. Em Aos Esmirnenses, Inácio também insiste na realidade corporal do Cristo ressuscitado. Os discípulos puderam tocá-lo e verificar que ele não era um ser incorpóreo. A argumentação está diretamente ligada à realidade da carne que sofreu e ressuscitou. Não temos ainda a terminologia técnica que será desenvolvida séculos depois, mas temos algo talvez mais importante para o nosso propósito: a necessidade de preservar simultaneamente a identidade elevada de Cristo e a realidade concreta de sua humanidade.

Esse dado é fundamental para nossa análise. O cristianismo do início do século II não estava simplesmente tentando provar que Jesus era divino. Estava também tentando provar que aquele que era confessado como divino havia realmente entrado na condição humana. E isso significa sofrer, morrer e possuir carne verdadeira. Não devemos, entretanto, transformar todos os adversários de Inácio em uma categoria homogênea chamada simplesmente “docetistas”. A historiografia contemporânea tem mostrado que o chamado docetismo é um fenômeno mais complexo do que uma doutrina perfeitamente delimitada. Neste artigo, portanto, empregamos “docetismo” em sentido descritivo, e não como designação de uma escola cristológica unificada: trata-se de tendências que, em diferentes graus, relativizavam a realidade da carne, da corporeidade ou do sofrimento de Cristo. O que podemos afirmar com segurança é mais simples e mais importante: a realidade do sofrimento e da carne de Cristo era objeto de disputa no início do século II, e Inácio construiu sua resposta insistindo precisamente nessa realidade (KUREK-CHOMYCZ, 2018).


3.2 Justino Mártir: o Getsêmani como testemunho do sofrimento

Em Justino Mártir encontramos um testemunho particularmente importante porque a tradição do Getsêmani aparece explicitamente em sua argumentação. Em Diálogo com Trifão, 103, Justino menciona a oração de Jesus e o suor semelhante a gotas de sangue. O episódio não é apresentado como um detalhe irrelevante da paixão. Justino o utiliza para demonstrar que o Filho realmente experimentou os sofrimentos que lhe sobrevieram (JUSTINO MÁRTIR, Diálogo com Trifão, 103). Ora, aqui temos algo extremamente significativo. Uma tradição que poderia parecer embaraçosa para uma cristologia elevada é transformada em argumento apologético em favor da realidade da humanidade de Cristo. O sofrimento não precisa ser escondido. Ao contrário: ele pode ser utilizado como evidência de que Jesus realmente assumiu a condição humana.

Essa utilização é particularmente importante para nossa hipótese porque mostra que a tradição do Getsêmani já possuía, no século II, uma função dentro da argumentação cristológica. Não estamos afirmando que Justino necessariamente conhecesse os versículos de Lucas exatamente na forma textual que chegou até nós. Essa seria uma conclusão mais forte do que os dados permitem. Podemos afirmar, entretanto, que Justino conhece e utiliza uma tradição correspondente ao conteúdo de Lucas 22,43-44, especialmente a oração de Jesus e a descrição do suor como gotas de sangue. A distinção é metodologicamente importante. A existência de um testemunho patrístico não prova automaticamente a forma exata do texto evangélico que estava diante do autor. Mas demonstra que a tradição do sofrimento de Jesus circulava muito cedo e que podia ser mobilizada em defesa de sua humanidade.

E aqui encontramos novamente a inversão do argumento. Se alguém dissesse: “Jesus sofreu; portanto, não pode ser divino”, Justino poderia responder: “Jesus sofreu; portanto, sua humanidade é real.” A mesma informação pode funcionar como argumento contrário ou favorável dependendo da premissa cristológica adotada. Essa é uma característica fundamental das disputas cristológicas antigas. Os textos não carregavam uma única conclusão teológica obrigatória. Eles eram mobilizados por grupos diferentes em disputas diferentes. A questão não era apenas o que o texto dizia, mas o que poderia ser legitimamente inferido dele.


3.3 Irineu de Lião: a humanidade como condição da encarnação

No final do século II, Irineu de Lião desenvolve a questão em uma construção teológica muito mais abrangente. Para Irineu, a encarnação não é um episódio secundário dentro da economia da salvação. O Filho assume verdadeiramente a humanidade e, ao fazê-lo, torna possível a restauração da própria humanidade. A realidade da carne é, portanto, indispensável. Se o Filho não assumiu verdadeiramente a carne, a salvação não alcança aquilo que precisava ser salvo. Não se trata simplesmente de saber se Jesus parecia humano. Trata-se de saber se a humanidade foi realmente assumida pelo Filho.

É neste contexto que Adversus haereses 3.22.2 ganha importância para nosso problema. Irineu enumera diferentes experiências humanas de Jesus e inclui entre elas a fome, o cansaço, o choro, a tristeza e o suor como gotas de sangue. A tradição do Getsêmani aparece, assim, dentro de uma série de sinais destinados a demonstrar a realidade da carne de Cristo (IRINEU DE LIÃO, Adversus haereses, 3.22.2).

Temos aqui uma formulação que merece atenção. A humanidade não é, para Irineu, uma aparência que precisa ser diminuída para preservar a dignidade do Filho. É justamente aquilo que o Filho assume para realizar a obra da salvação. O sofrimento, portanto, não é um acidente embaraçoso da narrativa. Ele faz parte da realidade da encarnação. Mais uma vez, precisamos evitar a tentação de projetar sobre Irineu as categorias dogmáticas posteriores. Ele não está escrevendo um tratado sobre “duas naturezas” no sentido que essa expressão adquirirá posteriormente. Mas está enfrentando um problema que posteriormente exigirá formulações cada vez mais precisas: como afirmar uma identidade divina para Cristo sem transformar sua humanidade em aparência? A posição de Irineu é inequívoca quanto a um ponto: a humanidade precisa ser real.



4 A DUPLA DIREÇÃO DA CONTROVÉRSIA: DIVINDADE E HUMANIDADE

Temos, portanto, dois movimentos que precisam ser mantidos juntos. O primeiro é o movimento que parte da humanidade de Jesus e questiona sua divindade. Se Jesus não sabe, sofre, chora, angustia-se e morre, como pode ser Deus? O segundo é o movimento inverso: se Jesus é Deus, como pode não saber, sofrer, angustiar-se e morrer? O primeiro movimento ameaça reduzir a divindade; o segundo ameaça dissolver a humanidade. É justamente aqui que aparece aquilo que chamamos de problema da conciliação. A dificuldade não consiste em escolher uma das duas afirmações. Consiste em preservar ambas. A tradição cristã afirma uma identidade extraordinária para Jesus e, ao mesmo tempo, insiste que ele nasceu, possuiu carne, sofreu, morreu e ressuscitou. Quanto mais radicalmente uma dessas dimensões é afirmada isoladamente, maior parece ser o problema produzido pela outra.

E aqui a patrística dos dois primeiros séculos oferece um dado decisivo. Inácio não resolve o problema negando a carne. Justino não resolve o problema negando o sofrimento. Irineu não resolve o problema transformando a humanidade em aparência. Pelo contrário: eles insistem na realidade daquilo que poderia parecer incompatível com uma concepção elevada da divindade. Isso é particularmente importante porque nos permite compreender melhor a função das controvérsias antigas. O cristianismo não estava apenas defendendo uma tese positiva sobre Jesus. Estava também reagindo a interpretações alternativas daquilo que significava ser Cristo. Em determinadas circunstâncias, era necessário defender a divindade; em outras, defender a humanidade. E, frequentemente, era necessário fazer as duas coisas simultaneamente.

A questão de Mateus 24,36 se encaixa nesse quadro, embora com uma dificuldade diferente. A passagem apresenta um problema diretamente relacionado ao conhecimento. Já o Getsêmani coloca a questão da experiência humana. Uma passagem pergunta, em termos implícitos, o que o Filho sabe; a outra pergunta o que o Filho pode sofrer. Em ambos os casos, a resposta cristológica precisa explicar como aquele que é confessado em termos divinos pode experimentar aquilo que pertence à condição humana.

O problema não é meramente semântico. Se “divindade” significar necessariamente onisciência absoluta e ausência de qualquer sofrimento, então Mateus 24,36 e Lucas 22,41-44 criam uma incompatibilidade aparente de grande alcance. Mas se a tradição cristológica admite que a encarnação implica uma condição humana real, a questão passa a ser outra: como propriedades próprias da humanidade podem ser atribuídas ao mesmo Cristo que é confessado como divino? É neste deslocamento que começa a surgir o verdadeiro problema da conciliação.



5 DO PROBLEMA CRISTOLÓGICO AO PROBLEMA TEXTUAL

É justamente neste ponto que nossa investigação precisa mudar de direção. Até aqui, perguntamos: qual é o problema cristológico produzido pelos textos e como os cristãos dos dois primeiros séculos responderam a ele? A partir daqui, precisamos perguntar outra coisa: a própria transmissão dos textos apresenta sinais de que essas dificuldades cristológicas influenciaram sua forma textual? A pergunta é legítima porque as duas passagens possuem histórias manuscritas complexas. Em Mateus 24,36, a expressão “nem o Filho” é omitida em alguns testemunhos. Em Lucas 22,43-44, os dois versículos que intensificam a descrição da agonia estão ausentes em importantes testemunhos antigos e presentes em outros. Temos, portanto, dois casos em que elementos diretamente relevantes para o nosso problema cristológico apresentam variação textual (METZGER, 1994; EHRMAN; PLUNKETT, 1983).

Mas aqui precisamos ser particularmente cuidadosos. Não podemos argumentar da seguinte maneira: “a passagem cria um problema cristológico; existe uma variante; portanto, a variante foi produzida para resolver o problema”. Essa conclusão seria um non sequitur. A existência de uma dificuldade teológica e a existência de uma variante textual são fatos distintos. É necessário demonstrar a relação causal entre ambos.

Da mesma maneira, não podemos assumir que toda alteração textual tenha sido produzida por razões teológicas. Harmonização, acidente de cópia, assimilação, dificuldades linguísticas, omissões involuntárias e outros mecanismos podem explicar variantes. A motivação teológica é uma hipótese entre outras. Por outro lado, seria igualmente precipitado rejeitar de antemão qualquer possibilidade de influência teológica na transmissão textual. Os manuscritos são produzidos por comunidades concretas, por copistas concretos, em ambientes nos quais os textos possuem significado religioso e são utilizados em disputas. A história da transmissão textual não acontece em um laboratório neutro.

Temos, portanto, duas perguntas diferentes que não devem ser confundidas. A primeira é histórica e cristológica: os textos produziram dificuldades para a reflexão cristã antiga? A evidência examinada até aqui permite responder afirmativamente. A segunda é textual: essas dificuldades contribuíram efetivamente para a produção, supressão ou preservação de determinadas variantes? Essa segunda pergunta exige outro conjunto de evidências. É justamente essa distinção que impede que nossa investigação se transforme em uma simples defesa de uma hipótese previamente escolhida. Não estamos dizendo que os copistas alteraram os textos porque os textos eram teologicamente incômodos. Estamos perguntando se existe evidência suficiente para sustentar essa hipótese diante de outras explicações possíveis.



6 CONCLUSÃO: O PROBLEMA ANTES DA SOLUÇÃO

Chegamos, portanto, a uma conclusão que é simultaneamente simples e profunda. Mateus 24,36 e Lucas 22,41-44 colocam diante da cristologia nascente dois problemas diferentes, mas relacionados. Em Mateus, o problema é epistemológico: o Filho não conhece aquilo que somente o Pai conhece. Em Lucas, o problema é antropológico: o Filho sofre, angustia-se diante da morte, ora ao Pai e, na tradição que conserva os versículos 43-44, experimenta uma agonia corporal extraordinária. O Filho não sabe; o Filho sofre. E é justamente essa dupla condição que torna o problema cristológico tão difícil.

Se tomarmos isoladamente a humanidade de Jesus, nada disso constitui uma dificuldade extraordinária. Um homem pode não conhecer o futuro e pode sentir medo diante da morte. A dificuldade nasce quando esse homem é confessado como Filho de Deus. Mas a solução inversa também produz problemas. Se, para preservar sua divindade, retiramos de Jesus a ignorância, a angústia, o sofrimento e a realidade da carne, acabamos produzindo um Cristo cuja humanidade se torna apenas aparente. O problema, portanto, não pode ser resolvido pela eliminação de uma das duas dimensões.

É justamente aqui que Inácio de Antioquia, Justino Mártir e Irineu de Lião se tornam fundamentais. Os três, cada qual em seu contexto, insistem na realidade da carne e do sofrimento de Cristo. Inácio combate uma compreensão na qual o sofrimento poderia ser reduzido à aparência. Justino utiliza a tradição do Getsêmani para demonstrar que o Filho realmente experimentou o sofrimento. Irineu integra a realidade da carne, do sofrimento e da morte de Jesus à própria lógica da encarnação e da salvação. Não encontramos ainda a formulação dogmática posterior, mas encontramos claramente o problema que exigirá essa formulação.

Isso nos permite também compreender de maneira mais precisa a relação entre cristologia e controvérsia. A humanidade de Jesus poderia ser utilizada como argumento contra sua divindade. Mas a mesma humanidade poderia ser utilizada pelos cristãos como argumento contra aqueles que negavam a realidade da encarnação. O sofrimento podia ser um problema para a divindade e, simultaneamente, uma prova da humanidade. A limitação podia ser um argumento contra uma cristologia elevada e, simultaneamente, uma característica que a tradição precisava preservar para que a encarnação fosse verdadeira.

Não devemos, portanto, imaginar que a história da cristologia antiga tenha sido simplesmente uma progressão linear em direção a uma definição posterior. Ela foi, antes, uma história de tensões, respostas, disputas e tentativas de conciliação. O problema estava presente antes de sua solução terminológica. E talvez seja justamente por isso que os textos evangélicos tenham desempenhado papel tão importante: eles preservavam, lado a lado, afirmações que exigiam explicação.

Há, entretanto, uma pergunta que permanece aberta. Se Mateus 24,36 e Lucas 22,43-44 podiam produzir dificuldades cristológicas tão significativas, seria possível que essas dificuldades também tivessem influenciado a transmissão dos textos? A ausência de “nem o Filho” em determinados testemunhos de Mateus seria resultado de uma intervenção motivada pelo constrangimento cristológico? A ausência dos versículos 43-44 em determinados manuscritos de Lucas poderia estar relacionada justamente ao fato de que eles acentuam a humanidade, o sofrimento e a vulnerabilidade de Jesus? Ou devemos procurar explicações textuais independentes dessas disputas? Aqui precisamos interromper o argumento antes de transformar hipótese em conclusão. O problema cristológico está demonstrado; a intervenção textual ainda precisa ser demonstrada. E é exatamente essa passagem que será objeto do segundo artigo: deixar o terreno da lógica cristológica e entrar no terreno da crítica textual. Ali, os manuscritos, as variantes, os copistas e os testemunhos patrísticos deverão ser colocados diante das hipóteses concorrentes. Não para provar antecipadamente que houve manipulação, mas para verificar se os dados permitem sustentar essa possibilidade.

No primeiro movimento de nossa investigação, portanto, podemos afirmar algo com segurança: a tensão entre a divindade e a humanidade de Cristo não é uma construção tardia aplicada artificialmente aos evangelhos. Ela emerge dos próprios textos e já produzia, nos primeiros séculos, um problema que os cristãos precisavam explicar. O Filho que não sabe e o Filho que sofre são, neste sentido, duas faces de uma mesma questão: como pode aquele que é confessado como divino experimentar verdadeiramente os limites da condição humana? É neste problema — e na necessidade de conciliá-lo — que encontramos uma das raízes mais profundas da cristologia cristã.

O segundo artigo que trata dessa mesma temática poderá ser lido aqui.


REFERÊNCIAS

EHRMAN, Bart D.; PLUNKETT, Mark A. The angel and the agony: the textual problem of Luke 22:43-44. Catholic Biblical Quarterly, v. 45, n. 3, p. 401-416, 1983.

INÁCIO DE ANTIOQUIA. Aos Esmirnenses. In: ROBERTS, Alexander; DONALDSON, James (ed.). Ante-Nicene Fathers. Buffalo: Christian Literature Publishing, 1885.

IRINEU DE LIÃO. Against Heresies. In: ROBERTS, Alexander; DONALDSON, James (ed.). Ante-Nicene Fathers. Buffalo: Christian Literature Publishing, 1885.

JUSTINO MÁRTIR. Dialogue with Trypho. Tradução de Thomas B. Falls; revisão de Thomas P. Halton; edição de Michael Slusser. Washington, D.C.: The Catholic University of America Press, 2003.

KUREK-CHOMYCZ, Dominika. “The flesh of our Saviour Jesus Christ, which suffered for our sins”: the early Christian “dying for” formula, suffering, and the Eucharist in IgnSm 7:1. In: VERHEYDEN, Joseph; BIERINGER, René; SCHRÖTER, Jens; JÄGER, Ingo (ed.). Docetism in the Early Church: The Quest for an Elusive Phenomenon. Tübingen: Mohr Siebeck, 2018. p. 197–215.

METZGER, Bruce M. A textual commentary on the Greek New Testament. 2. ed. Stuttgart: United Bible Societies, 1994.

RIBEIRO, Lucas H. G.; PAROSCHI, Wilson. Agony at Gethsemane: a critical-textual study of Luke 22:43–44. Kerygma, Engenheiro Coelho, v. 9, n. 1, p. 53–66, 2013.


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