Introdução
O percurso metodológico desenvolvido anteriormente procurou responder a um problema central dos estudos sobre o Jesus Histórico: como situar Jesus em seu contexto judaico sem transformar esse contexto em uma moldura que absorva sua singularidade? O contextualismo linguístico da Escola de Cambridge ajudou a deslocar a atenção para aquilo que um agente histórico fazia ao falar e agir; a Nova Biografia Histórica chamou atenção para o fato de que os evangelhos são bioi antigos e, portanto, fontes literárias submetidas a convenções próprias; e a teoria da memória social permitiu considerar as mediações pelas quais tradições, ações e ditos chegaram até o presente.
Essa abordagem, contudo, deixa aberta uma questão mais profunda: qual é o estatuto da realidade histórica que procuramos reconstruir? Como relacionar o Jesus que efetivamente existiu, os acontecimentos que efetivamente ocorreram, os testemunhos que sobreviveram e as interpretações produzidas pelos historiadores?
É nesse ponto que o Realismo Crítico pode ser incorporado como uma quarta dimensão do método. Desenvolvido principalmente por Roy Bhaskar a partir dos anos 1970, o Realismo Crítico busca superar tanto o realismo ingênuo, que pressupõe acesso direto e neutro à realidade, quanto o relativismo ou construtivismo que reduz a realidade às formas discursivas pelas quais ela é conhecida. A realidade existe independentemente de nosso conhecimento, mas nosso acesso a ela é necessariamente mediado por teorias, linguagens, fontes e perspectivas.
Se o Realismo Crítico fornece uma ontologia estratificada da realidade histórica, a Análise Crítica do Discurso (ACD) fornece instrumentos para analisar como as mediações linguísticas não são apenas veículos neutros, mas práticas sociais carregadas de poder, ideologia e efeitos constitutivos. Em outras palavras: os evangelhos, as tradições, as memórias e até a historiografia sobre Jesus não apenas “representam” o passado; eles também organizam identidades, relações sociais, autoridade, exclusões e inclusões. A ACD permite investigar essa dimensão sem dissolver a realidade histórica no discurso.
Para os estudos do Jesus Histórico, essa distinção tem consequências imediatas. Jesus, em si mesmo, pertence à dimensão da realidade histórica que não depende das interpretações posteriores; os evangelhos, as tradições orais, as memórias sociais e as reconstruções historiográficas pertencem à dimensão mediada do conhecimento. O desafio não consiste, portanto, em escolher entre “realidade” e “interpretação”, mas em investigar criticamente a relação entre ambas.
O campo de estudos no presente se organiza em torno de algumas frentes principais. A abordagem da memória social (Keith, Le Donne, Rodríguez, Kirk) muda a pergunta de "autêntico ou não" para o que a tradição refrata. E há posições construtivistas ou céticas, que vão do "novo No Quest" de Crook à abordagem do movimento como formação social. Jonathan Bernier (2016), articulando uma uma teoria cognitiva (experiência, compreensão, julgamento), propõe a passagem de "este dito é autêntico?" para "que hipótese explica melhor a tradição tal como a temos?".
Nesse sentido, o Realismo Crítico, desenvolvido por Roy Bhaskar a partir do Realismo Transcendental (discussão que principiou sobre o campo das ciências naturais), pode funcionar como uma base metateórica para o método anteriormente desenvolvido. Ele não substitui o contextualismo linguístico, a análise do gênero biográfico ou a teoria da memória social. Ao contrário, fornece um quadro no qual essas abordagens podem ser integradas e no qual a reconstrução histórica pode ser avaliada segundo critérios explícitos de plausibilidade e poder explicativo.
Ainda dentro do acúmulo de contribuições do Realismo Crítico, a teoria da emergência social de R. Keith Sawyer desloca a questão agente-estrutura de uma oposição entre dois polos para uma análise processual de como indivíduos interagem, como dessas interações emergem propriedades coletivas e como essas propriedades, uma vez estabilizadas, passam a organizar e condicionar interações futuras. Em Social Emergence: Societies as Complex Systems (2005), Sawyer apresenta a sociedade como um sistema dinâmico complexo no qual fenômenos coletivos emergem de processos de comunicação e interação entre indivíduos. Se trata de investigar como, ao longo do tempo, ações e interações produzem propriedades emergentes que adquirem relativa estabilidade e passam a exercer efeitos causais sobre as ações subsequentes.
Aplicado ao estudo de Jesus Histórico, implica que ele não deve ser compreendido simplesmente como produto de uma estrutura religiosa já dada, nem como indivíduo cuja ação possa ser explicada exclusivamente por suas intenções. Sua atuação ocorreu em um campo de relações, linguagens, expectativas e instituições; suas interações produziram efeitos coletivos; alguns desses efeitos puderam adquirir estabilidade em comunidades; e essas formas estabilizadas, posteriormente, contribuíram para a transmissão e transformação de sua memória.
1. O Realismo Crítico e a estrutura da realidade histórica
A primeira contribuição do Realismo Crítico é epistemológica. O conhecimento histórico não é acesso direto à realidade, mas também não é simplesmente produção arbitrária de narrativas. Essa compreensão ressalta a diferença entre dimensão intransitiva e dimensão transitiva do conhecimento.
A realidade existe independentemente do conhecimento que possuímos dela. Ao mesmo tempo, qualquer descrição dessa realidade é produzida a partir de determinada posição teórica, linguística e histórica. O objeto histórico não desaparece porque o acesso a ele é mediado. A Análise Crítica de Discurso incide precisamente sobre essa mediação. Ela mostra que a linguagem não é um meio transparente: ao nomear, categorizar, citar, argumentar e narrar, os textos constroem versões do mundo social. Na análise dos evangelhos, por exemplo, a escolha entre “purificação do Templo”, “expulsão dos vendedores”, “ação profética” ou “perturbação” não é neutra; cada expressão ativa enquadramentos distintos e mobiliza pressupostos teológicos e políticos.
Essa distinção é particularmente importante para o debate sobre a “judaicidade” de Jesus. A afirmação de que Jesus era judeu pertence à reconstrução de uma realidade histórica; as diferentes formas pelas quais sua judaicidade foi interpretada pertencem à dimensão transitiva do conhecimento. Assim, o reconhecimento de que Jesus era judeu não obriga o historiador a considerar toda interpretação de sua atuação como igualmente compatível com essa identidade.
O Realismo Crítico também permite distinguir três níveis da realidade: o empírico, o efetivo e o real.
O nível empírico corresponde ao que efetivamente podemos observar nos dados disponíveis: textos, narrativas, variantes, tradições preservadas.
O nível efetivo corresponde aos eventos que ocorreram, independentemente de terem sido observados ou registrados.
O nível real, por sua vez, corresponde às estruturas, mecanismos e potenciais causais que tornam determinados acontecimentos possíveis e explicam sua ocorrência.
Aplicada aos estudos de Jesus, essa distinção impede que o historiador confunda o texto do evangelho com o acontecimento histórico ou, inversamente, que trate a distância entre os dois como prova de que o acontecimento é inacessível.
A questão passa a ser explicativa: quais acontecimentos e quais mecanismos podem explicar a existência dos dados de que dispomos?
Essa concepção também se ajusta particularmente bem às ciências sociais, nas quais os objetos de investigação são estruturas reais, relações de poder, normas e formas de agência que não funcionam como objetos isolados e fechados das ciências naturais. O mundo social é aberto e depende da interação entre estrutura e agência. A ACD contribui para analisar como as relações de poder se materializam em formas de fala, gêneros e representações. Essa dimensão é relevante para uma investigação sobre Jesus justamente porque o significado de suas ações depende das estruturas religiosas, sociais e políticas nas quais foram realizadas.
2. Do problema epistemológico ao problema historiográfico
A aplicação do Realismo Crítico modifica a pergunta tradicional dos estudos sobre o Jesus Histórico.
Em vez de perguntar apenas se determinada passagem é “autêntica”, pode-se perguntar que combinação de acontecimentos, tradições, estruturas e mecanismos explica melhor a existência da tradição tal como a encontramos.
A ACD acrescenta uma pergunta complementar: que estratégias discursivas produziram essa tradição tal como a encontramos? Como os textos legitimam Jesus, deslegitimam adversários, constroem autoridades, naturalizam certas relações e silenciam outras? Quais discursos anteriores, de cunho proféticos, apocalípticos, legais, sapienciais, cultuais, são recontextualizados... e com que efeitos?
Essa perspectiva permite superar um dilema frequente. De um lado, existe o risco de tratar os evangelhos como registros transparentes dos acontecimentos. De outro, existe o risco de considerar as narrativas tão mediadas que nenhum acontecimento histórico subjacente possa ser reconstruído.
O Realismo Crítico situa o problema em outro nível. Os evangelhos são dados empíricos; os acontecimentos pertencem ao nível efetivo; as estruturas e mecanismos que explicam os acontecimentos e a transmissão das tradições pertencem ao nível real. E os textos são mediações ativas, mas não são a realidade nua e crua.
Isso significa que a crítica de fontes, a Nova Biografia Histórica e a teoria da memória social tornam-se instrumentos complementares. A primeira ajuda a examinar a forma como os materiais foram transmitidos; a segunda mostra como convenções literárias moldam a representação do protagonista; a terceira analisa os processos de transmissão, seleção, adaptação e reinterpretação da memória; a ACD investiga como esses processos são também processos de poder, ideologia e construção de identidade. O Realismo Crítico, por sua vez, pergunta como essas mediações se relacionam com uma realidade histórica independente delas.
3. O Argumento para a Melhor Explicação
A consequência metodológica mais importante dessa posição é a necessidade de comparar hipóteses históricas concorrentes.
O Realismo Crítico, aplicado à historiografia, recorre ao Argumento para a Melhor Explicação (ABE). Não se trata de produzir certezas absolutas, mas de comparar hipóteses segundo critérios explícitos.
O primeiro critério é o escopo explicativo: qual hipótese explica uma quantidade maior de dados?
O segundo é o poder explicativo: qual hipótese explica esses dados com menor ambiguidade e menor necessidade de forçar as evidências?
O terceiro é a plausibilidade: a hipótese é coerente com o conhecimento histórico de fundo sobre o período?
O quarto é a exigência de menor número de pressupostos ad hoc: quantas suposições não evidenciadas precisam ser acrescentadas para que a hipótese funcione?
O quinto é a iluminação: a hipótese ajuda a compreender outros problemas ou episódios relacionados?
A ACD refina esses critérios. O escopo explicativo deve incluir os dados discursivos: diferenças de enquadramento, escolhas lexicais, intertextos, estratégias de legitimação. O poder explicativo deve dar conta do por que uma tradição assumiu determinada forma retórica e não outra. A plausibilidade deve ser também interdiscursiva: a hipótese é compatível com os discursos religiosos, políticos e sociais disponíveis no século I? A menor dependência de hipóteses ad hoc exige não postular intenções discursivas arbitrárias. A iluminação pode incluir a capacidade de explicar efeitos de poder, identidades coletivas e polêmicas posteriores.
Essa estrutura modifica a natureza da argumentação. Em vez de afirmar simplesmente que um episódio é histórico ou que é impossível conhecê-lo, o historiador pode formular hipóteses concorrentes e demonstrar por que uma delas explica melhor o conjunto das evidências.
4. A incorporação do Realismo Crítico ao método integrado
O Realismo Crítico e a Análise Crítica do Discurso podem ser incorporados diretamente à ficha de análise anteriormente proposta.
4.1. Fundamentação epistemológica
A análise deve começar explicitando sua posição epistemológica.
Em primeiro lugar, deve-se distinguir entre o nível empírico, o efetivo e o real.
No nível empírico estão os evangelhos, as tradições e as memórias que chegaram até nós.
No nível efetivo estão os eventos históricos: ações, ditos e conflitos que ocorreram no século I.
No nível real encontram-se as estruturas sociais, religiosas e políticas, as intenções dos agentes e os mecanismos causais responsáveis pela produção dos acontecimentos e pela transmissão de suas memórias, além das ordens do discurso que condicionam o que pode ser dito, preservado e interpretado.
Em segundo lugar, deve-se distinguir o intransitivo do transitivo. Jesus pertence ao domínio da realidade histórica que existiu independentemente de nossas interpretações. As narrativas construídas sobre Jesus, por sua vez, são conhecimentos transitivos, mediados por textos, teologias, tradições, práticas discursivas e perspectivas historiográficas.
Em terceiro lugar, a hipótese histórica deverá ser submetida aos cinco critérios do ABE, entendido como comparação explícita entre hipóteses concorrentes: escopo explicativo, poder explicativo, plausibilidade, menor dependência de hipóteses ad hoc e iluminação.
A ACD participa de todos eles na medida em que torna os dados discursivos parte integrante da evidência e da explicação. Pois em história não há experimentos nem regularidades semifechadas, e o evento passado não é observável nem em princípio. O Realismo Crítico articula realismo ontológico, relativismo epistemológico e racionalidade julgadora: a pluralidade de descrições não impede que algumas sejam mais bem fundamentadas que outras. O ABE é a forma que essa terceira tese assume na prática historiográfica. Formula-se a conclusão de modo comparativo e graduado, distinguem-se ainda dados primários de dados derivados (estratégias discursivas), pois estes dependem de hipóteses interpretativas e não devem inflar o escopo explicativo de quem os interpreta.
A teoria da memória fornece esquemas de mecanismo (refração, comemoração, estabilização), mas, aplicada sozinha, não discrimina suficientemente entre memória fiel e invenção. O ABE fornece o passo discriminador: comparar quais hipóteses explicam melhor padrões recorrentes (como D. C. Allison), e não unidades isoladas.
4.2. Gênero literário como mediação transitiva
Na análise do gênero literário, os evangelhos devem ser tratados como mediações transitivas do acesso à realidade.
O fato de serem bioi significa que seus autores selecionaram acontecimentos, organizaram episódios e utilizaram convenções narrativas próprias do gênero. Isso não elimina a possibilidade de correspondência com acontecimentos históricos, mas exige distinguir aquilo que pertence à forma literária daquilo que pode corresponder a acontecimentos subjacentes.
A ACD acrescenta que o gênero não é apenas forma, é prática social. O bios antigo organiza hierarquias, virtudes, exemplos e autoridades. Ao narrar Jesus como protagonista, os evangelhos constroem uma identidade discursiva para ele e para seus seguidores, ao mesmo tempo que posicionam adversários e instituições.
O Realismo Crítico acrescenta, assim, uma pergunta específica à análise do gênero: quais elementos da narrativa são explicáveis pelas convenções do bios e quais podem apontar para acontecimentos historicamente plausíveis? A ACD acrescenta outra: quais efeitos de poder e identidade são produzidos por essas convenções?
4.3. Mediações textuais e memória social
Na análise das mediações textuais, tradições orais, memórias sociais e reinterpretações teológicas devem ser entendidas como diferentes camadas transitivas que mediam o acesso ao passado.
O ponto decisivo é não tratar essas camadas como simples obstáculos ao conhecimento. Elas também constituem objetos históricos que precisam ser explicados. Por que determinado episódio foi preservado? Por que assumiu uma determinada forma? Quais elementos podem ter sido enfatizados ou reinterpretados? Quais estruturas sociais, intenções e acontecimentos contribuíram para sua transmissão?
A ACD formula essas perguntas em termos discursivos: Em que gêneros a memória foi inscrita? Como a memória se tornou argumento de legitimação comunitária? Assim, a memória social deixa de ser apenas um mecanismo que “distorce” o passado e passa a participar da explicação de como o passado foi conservado e transformado.
4.4. Metacrítica epistemológica
O Realismo Crítico acrescenta ainda um novo item à ficha: a metacrítica dos pressupostos ocultos.
O pesquisador deve perguntar quais pressupostos teológicos, éticos ou políticos estão moldando sua interpretação.
No caso da judaicidade de Jesus, por exemplo, pode-se perguntar se o compromisso legítimo de combater o antijudaísmo e o supersessionismo passou a desempenhar, em algum momento, a função de dogma metodológico interditador.
A distinção entre dimensão intransitiva e transitiva permite separar dois objetos frequentemente confundidos. A pertença de Jesus ao judaísmo do Segundo Templo é uma proposição sobre a realidade efetiva, sustentada por evidência independente de sua história de recepção: língua, práticas, seguidores, o Templo e a execução romana. O "Jesus judeu" como discurso historiográfico é outra coisa: uma construção transitiva cuja gênese, função e conteúdo variam.
Também é preciso identificar contradições e ausências. Existe alguma contradição entre afirmar que Jesus era judeu e, simultaneamente, apagar suas críticas internas? O que foi deixado ausente da interpretação: tensões, conflitos, provocações proféticas, posições minoritárias? A ACD acrescenta: que estratégias de nominalização, passivização ou mitigação tornam certos agentes e conflitos invisíveis?
Finalmente, deve-se perguntar pela dimensão emancipatória da interpretação: ela contribui para superar narrativas opressivas ou termina por reproduzi-las sob outra forma?
4.5. Análise Crítica do Discurso como dimensão analítica
A ACD, em autores como Norman Fairclough, Ruth Wodak e Teun van Dijk, parte da tese de que o discurso é uma forma de prática social. Ele é constituído por estruturas sociais e também as constitui. Nos textos, operam escolhas lexicais, transitividade, modalidade, argumentação, intertextualidade e interdiscursividade. Nas práticas discursivas, operam gêneros, ordens do discurso e hegemonias. Nas práticas sociais, operam poder, ideologia e instituições.
Aplicada ao Jesus Histórico, a ACD permite:
analisar os evangelhos como discursos que constroem identidades, relações e sistemas de crença;
investigar como Jesus é posicionado como agente, profeta, mestre, réu ou senhor;
examinar como adversários são nomeados, predicados e avaliados;
identificar intertextos bíblicos e sua recontextualização;
mostrar como memórias são discursivamente estabilizadas;
e criticar os discursos da própria historiografia.
A ACD não substitui a crítica de fontes, a análise de gênero ou a teoria da memória. Ela as atravessa, perguntando sempre: quem fala, de onde fala, com que autoridade, em que gênero, com que interesses e com que efeitos?
5. O problema agente-estrutura
Fenômenos coletivos não parecem ser explicáveis simplesmente pelas propriedades dos indivíduos que os compõem. Ao mesmo tempo, não é possível explicar uma sociedade sem considerar indivíduos, ações e interações.
Sawyer propõe enfrentar esse dilema por meio do conceito de emergência social. Uma propriedade emergente não é simplesmente a soma das propriedades de seus componentes. Ela resulta de processos de interação entre os componentes e pode adquirir características próprias.
Seu ponto de partida é, portanto, simultaneamente individual e relacional. Indivíduos possuem intenções, capacidades e disposições, mas essas propriedades são mobilizadas em interações concretas. Das interações podem emergir configurações que não foram planejadas integralmente por nenhum indivíduo. Algumas desaparecem rapidamente; outras se estabilizam; outras, finalmente, adquirem forma institucional e estrutural.
O trabalho anterior de Sawyer sobre Durkheim já apontava nessa direção. Em “Durkheim's Dilemma: Toward a Sociology of Emergence” (2002), ele reinterpreta a teoria durkheimiana a partir do conceito de emergência e procura resolver o problema de como sociedades podem existir sem serem simplesmente reduzidas aos indivíduos que as compõem.
A concepção organiza esse processo em cinco níveis:
Nível |
Denominação |
Caracterização |
A |
Indivíduo |
Intenções, percepções, atitudes, processos cognitivos e capacidades dos agentes |
B |
Interação |
Comunicação, negociação, conversação e ação recíproca entre agentes |
C |
Emergentes efêmeros |
Padrões, papéis, expectativas e configurações coletivas que surgem das interações, mas ainda não se estabilizaram |
D |
Emergentes estáveis |
Normas, práticas, rotinas, papéis estabilizados, formas de organização e padrões compartilhados |
E |
Estrutura social |
Instituições, regras, sistemas e arranjos sociais relativamente estabilizados |
O ponto fundamental não está apenas na existência dos cinco níveis, mas no movimento entre eles. Processos de baixo para cima permitem que ações individuais e interações produzam propriedades coletivas; processos de cima para baixo fazem com que estruturas já estabilizadas condicionem novas ações e interações. A relação agente-estrutura, portanto, torna-se histórica e processual, e não uma simples relação entre duas entidades estáticas. Aplicações posteriores do modelo de Sawyer descrevem explicitamente esses movimentos ascendentes e descendentes entre os níveis.
As propriedades dos níveis de Sawyer pertencem ao domínio real, suas manifestações ocorrem no efetivo, e os níveis A e E não são, portanto, "camadas" paralelas ao empírico e ao real: constituem um eixo distinto, que atravessa os três domínios. No caso de Jesus, as estruturas preexistentes (Templo, aristocracia sacerdotal, domínio romano, ordens do discurso) são ponto de partida, não produto da interação analisada. As contribuições de Sawyer ajudariam a explicar a novidade (o que emerge da interação). O resultado da elaboração (comunidades pós-pascais, pós-70) torna-se, por sua vez, condicionamento para os autores dos evangelhos.
Bhaskar oferece uma ontologia da realidade social na qual estruturas e mecanismos possuem poderes causais relativamente independentes das percepções imediatas dos agentes. Sawyer oferece uma explicação processual de como propriedades sociais emergem das interações entre agentes e posteriormente se estabilizam.
Essa complementaridade permite especificar melhor o conceito de “mecanismo causal” do Realismo Crítico.
Não basta afirmar que existe uma estrutura social que condiciona uma ação. É preciso investigar o processo pelo qual essa estrutura se constituiu, quais interações contribuíram para sua estabilização, que propriedades emergiram delas e como, posteriormente, essa estrutura passou a condicionar as ações dos próprios agentes.
A relação pode ser apresentada como um circuito:
agentes → interações → práticas discursivas → propriedades emergentes → estabilização em ordens do discurso → estrutura social → novas condições para a agência → novas interações.
O circuito não é fechado nem mecanicamente determinista. Uma estrutura pode condicionar sem determinar a ação; agentes podem reproduzir práticas existentes, mas também podem introduzir variações, conflitos e recombinações capazes de produzir novas formas emergentes.
Essa perspectiva é especialmente importante para o Jesus Histórico porque evita duas reduções simétricas: Jesus como simples expressão de seu contexto e Jesus como indivíduo isolado que produz mudanças por sua vontade. A ACD acrescenta que Jesus atuou em um campo discursivo: ele mobilizou linguagens proféticas, apocalípticas, legais e cultuais; disputou sentidos de Templo, pureza, Reino e autoridade; e suas palavras e ações só produziram efeitos porque encontraram condições discursivas de recepção, conflito e transmissão. Ao invés vez de perguntar apenas: “Qual era a estrutura religiosa na qual Jesus estava inserido?”, podemos perguntar:
Como as estruturas religiosas do judaísmo do Segundo Templo foram continuamente reproduzidas por interações concretas entre agentes, e como intervenções particulares de agentes como Jesus poderiam produzir configurações emergentes capazes de modificar, tensionar ou reconfigurar essas relações?
Considerar a possibilidade histórica de uma singularidade em Jesus não implica que seja considerado “fora” do judaísmo. Sua singularidade pode consistir precisamente na maneira específica pela qual mobilizou linguagens, expectativas e relações já disponíveis e as combinou em interações particulares, algumas das quais produziram efeitos coletivos inesperados.
Isso vale especialmente para os conflitos com autoridades religiosas, para a relação com seus seguidores, para sua atuação no Templo e para a transmissão posterior de seus ensinamentos.
6. Aplicação do Realismo Crítico à purificação do Templo
A purificação do Templo é o caso em que a integração metodológica se torna mais concreta.
O ponto de partida é a distinção entre realidade intransitiva e acesso transitivo. A hipótese realista é que uma ação de Jesus no Templo teria ocorrido no século I independentemente das interpretações posteriores. Nosso acesso a essa ação, contudo, depende das narrativas de Marcos, Mateus, Lucas e João.
6.1. Nível empírico
No nível empírico estão os dados observáveis:
Marcos 11:15–19;
Mateus 21:12–13;
Lucas 19:45–46;
João 2:13–22;
as diferenças entre as tradições;
as convenções literárias dos bioi;
as citações de Isaías 56:7 e Jeremias 7:11;
a seleção do episódio como cena emblemática.
Esse nível corresponde àquilo que efetivamente temos diante de nós. No nível empírico, não temos apenas “textos”, mas discursos que organizam o episódio de modos distintos, considerando que os níveis B e C do século I são pouco documentáveis.
O fato de os evangelhos apresentarem diferenças não autoriza, por si só, concluir que o episódio seja uma criação literária. Tampouco autoriza tratar todas as versões como relatos transparentes. O problema é investigar qual hipótese histórica pode explicar adequadamente essas diferentes formas de transmissão e também as diferentes estratégias discursivas.
6.2. Nível efetivo
No nível efetivo estão os eventos históricos plausíveis.
A hipótese considerada pelo método é a de que Jesus tenha realizado uma ação no pátio do Templo, próxima à Páscoa, envolvendo a derrubada de mesas e a expulsão ou perturbação dos vendedores.
Essa hipótese também considera o contexto imediato: as tensões com as autoridades do Templo, o momento politicamente sensível da Páscoa e as consequências narrativas do episódio, especialmente sua associação com a conspiração para prendê-lo.
A pergunta não é se todos os detalhes dos evangelhos podem ser reconstruídos com certeza, mas se existe um acontecimento histórico capaz de explicar o núcleo comum das tradições. As diferentes versões não são apenas variações de detalhes, mas são recontextualizações que atribuem sentidos distintos à ação.
6.3. Nível real: mecanismos e estruturas causais
No nível real, a análise procura identificar os mecanismos que poderiam explicar a ação.
Entre eles estão as intenções de Jesus, especialmente sua possível crítica profética ao sistema do Templo, o anúncio de julgamento e a reivindicação de uma nova compreensão do culto.
Também estão as estruturas sociais e religiosas nas quais a ação se inscreve: o sistema sacrificial, o comércio associado ao Templo, as relações entre diferentes grupos religiosos, a exclusão de gentios e as relações entre as autoridades do Templo e o poder romano.
Finalmente, devem ser considerados os mecanismos de memória: a tradição oral, as reinterpretações posteriores a 70 d.C. e a utilização comunitária do episódio para interpretar a destruição do Templo e a identidade da comunidade cristã. Aqui, a memória é também prática discursiva: narrar, citar, celebrar e argumentar.
A análise deixa, portanto, de tratar o episódio apenas como um problema textual. A pergunta passa a ser sobre os mecanismos que articulam texto, acontecimento, estrutura social, discurso e memória.
6.4 Nível A: indivíduo e agência
O ponto inicial é Jesus como agente.
Nesse nível, entram suas possíveis intenções, percepções, expectativas e disposições. A hipótese anteriormente formulada é que Jesus tenha agido como profeta judeu, interpretando sua intervenção no Templo como uma ação simbólica relacionada ao julgamento e à transformação escatológica do santuário.
O Realismo Crítico impede que essas intenções sejam tratadas como diretamente observáveis. Elas pertencem ao nível real e devem ser reconstruídas como hipóteses explicativas a partir dos dados disponíveis.
6.5 Nível B: interação
A ação de Jesus não ocorre isoladamente. Ela acontece dentro de um campo de interações: Jesus e vendedores, Jesus e autoridades do Templo, Jesus e seus discípulos, Jesus e a multidão.
A ação simbólica somente adquire significado porque ocorre em uma rede social concreta. A derrubada das mesas, a expulsão dos vendedores e a citação das Escrituras não são apenas “atos individuais”; são intervenções em relações sociais.
O nível da interação é, portanto, particularmente importante para conectar agência e estrutura. A estrutura do Templo não “faz” algo por si mesma. Ela existe através de posições, normas, autoridades e relações que se realizam em interações concretas. A ACD analisa essas interações como trocas discursivas: quem responde? Quem é silenciado? Quem tem autoridade para interpretar? Como o conflito é encenado? O nível da interação é, portanto, particularmente importante para conectar agência e estrutura.
6.6 Nível C: emergentes efêmeros
Das interações podem emergir configurações temporárias. No caso do Templo, a ação de Jesus pode ter produzido momentaneamente uma situação de interrupção da rotina, concentração da atenção, conflito e reconfiguração das relações entre os participantes.
A multidão, os vendedores, os discípulos e as autoridades respondem à ação; novas expectativas e interpretações podem surgir da própria interação.
Esse nível é importante porque impede que a análise salte diretamente do indivíduo para a estrutura. Entre a intenção de Jesus e a estrutura do sistema do Templo existe uma camada intermediária de relações e efeitos emergentes.
É justamente nessa escala que podem surgir consequências que não foram integralmente planejadas pelo agente.
6.7 Nível D: emergentes estáveis
Alguns padrões produzidos pelas interações podem se estabilizar em práticas, papéis, expectativas e normas.
No caso do movimento de Jesus, isso permite pensar a formação progressiva de práticas compartilhadas entre seus seguidores, formas de interpretação de seus atos, memórias recorrentes, padrões comunitários e novas maneiras de compreender determinadas relações religiosas.
Nesse ponto, a teoria da memória social se articula diretamente com Sawyer. O que inicialmente é uma interação ou uma experiência pode tornar-se padrão de recordação; o que é inicialmente uma interpretação localizada pode adquirir estabilidade comunitária.
A passagem do efêmero ao estável é, assim, uma das chaves para compreender como acontecimentos particulares podem adquirir consequências sociais duradouras. O que inicialmente é uma interação ou uma experiência pode tornar-se padrão de recordação; o que é inicialmente uma interpretação localizada pode adquirir estabilidade comunitária.
6.8 Nível E: estrutura social
O nível mais alto corresponde às estruturas relativamente estabilizadas: instituições, normas, regras e arranjos sociais.
No horizonte do primeiro século, isso inclui estruturas do Templo, relações entre autoridades religiosas, práticas cultuais e configurações políticas mais amplas.
Mas a estrutura também aparece no outro extremo temporal: as comunidades cristãs posteriores desenvolveram formas organizacionais, interpretações e práticas que contribuíram para a consolidação de uma identidade social própria. A ACD pode analisar como essa identidade foi construída também por oposição discursiva a “os judeus”, “os fariseus”, “o Templo” etc.
O ganho analítico está em não pressupor que essa estrutura posterior tenha existido desde o começo. Ela precisa ser explicada como resultado de processos históricos de interação e estabilização. O episódio é também um campo de luta discursiva. A memória do Templo é moldada por estratégias de legitimação e deslegitimação que terão efeitos na identidade cristã posterior.
7. Avaliação da hipótese pelo Argumento para a Melhor Explicação
Consideremos a hipótese segundo a qual Jesus realizou uma ação profético-simbólica no Templo, próxima à Páscoa.
Hipótese |
Explica bem |
Exige (auxiliares) |
Dado mais difícil |
H1 Ação simbólica de larga escala (leitura quase literal de Mc 11) |
Ruptura visível; nexo com a prisão |
Ausência de reação imediata da guarnição romana e dos guardas |
Escala e falta de intervenção |
H2 Ação simbólica de pequena escala (versão do ensaio; cf. Sanders, Fredriksen) |
Dito e gesto; falta de reação; amplificação posterior |
Mecanismo de amplificação; como a informação chegou às autoridades |
Peso causal na prisão, se foi pouco notada |
H3 Núcleo verbal (dito), com ação como dramatização narrativa |
Atestação múltipla do dito |
Por que a tradição criaria uma cena, e de modos distintos em Marcos e João |
Elementos joaninos próprios (Jo 2:14–17) |
H4 Criação marcana / pós-70 |
Afinidade com o tema dos gentios (Is 56:7) e o pós-70 |
Explicar João e a antiguidade do dito |
João, se independente |
H5 Purificação reformista ou crítica político-econômica (cf. Evans, Horsley, tradição da "purificação") |
"Covil de ladrões" (Jr 7) |
Intenção de restaurar a prática |
Dito de destruição (Mc 13:2); Klawans contra a leitura supersessionista |
H0 Subdeterminação |
— |
— |
— |
Se João é independente, H4 perde muito; se depende, o "núcleo comum" deixa de ser atestação dupla e H2 e H3 ganham. Se H1 e H2 são versões da mesma tese, e a diferença de escala pesa nas conclusões.
Escopo explicativo
A hipótese explica múltiplas tradições, particularmente a presença de um núcleo comum em Marcos e João, além de sua relação com o conflito com as autoridades e com a condenação de Jesus. Com a ACD, explica também as diferentes estratégias discursivas como recontextualizações de um mesmo núcleo.
Poder explicativo
A hipótese explica os dados sem exigir que todo o episódio seja considerado uma invenção teológica posterior. Ao mesmo tempo, não obriga a aceitar literalmente todos os detalhes de cada versão narrativa.
A conclusão poderia ser algo: "H2 explica melhor que H1, H4 e H5, com margem menor frente a H3, e a conclusão depende da questão da independência de João".
Plausibilidade
A hipótese é compatível com a tradição profética judaica de crítica ao Templo, com as expectativas de julgamento e transformação do santuário e com as tensões religiosas e políticas do século I.
Ela também é coerente com a posição anteriormente reconstruída de Jesus como crítico interno do judaísmo, em vez de alguém que estivesse simplesmente rejeitando o judaísmo como tal. É também interdiscursivamente plausível: circulavam discursos de crítica cultual, expectativas apocalípticas e disputas de autoridade.
Menor dependência de hipóteses ad hoc
A hipótese exige menos suposições suplementares do que uma interpretação segundo a qual o acontecimento inteiro teria sido produzido apenas depois de 70 d.C.
Também exige menos explicações especiais do que uma leitura que transforme o episódio exclusivamente em alegoria teológica.
Isso não significa que a tradição esteja livre de reelaborações. É preciso não subestimar a criatividade discursiva das comunidades. Significa apenas que a existência de camadas teológicas posteriores não precisa eliminar a possibilidade de um núcleo histórico anterior. O modelo de Sawyer foi desenvolvido para interações observáveis, e os níveis B e C (interação e emergentes efêmeros no pátio do Templo) são precisamente os que não temos como documentar no século I.
Iluminação
A hipótese também ajuda a iluminar outros episódios da narrativa: a entrada de Jesus em Jerusalém, o discurso escatológico sobre a destruição do Templo e as acusações feitas durante o processo.
Sua capacidade de conectar diferentes elementos da tradição constitui parte importante de seu poder explicativo. Existe ainda o a concepção bayesiana, que defende que o raciocínio histórico é probabilístico e que os critérios de autenticidade só se justificam como componentes condicionais dentro de um fluxo bayesiano. O Realismo Crítico adotará essa disciplina de forma qualitativa: para cada dado relevante, indicar sob qual hipótese ele é mais esperado e por quê.
No caso do Templo, por exemplo, a hipótese de que Jesus realizou uma ação profético-simbólica possui maior alcance quando consegue explicar simultaneamente: a ação individual de Jesus; as interações provocadas pela ação; o conflito com autoridades; a posterior interpretação do acontecimento; sua incorporação à memória comunitária; sua conexão com o discurso sobre a destruição do Templo; e os efeitos posteriores na constituição da identidade das comunidades que transmitiram essas tradições.
Uma hipótese que explique apenas o nível textual possui menor escopo do que uma hipótese capaz de explicar a cadeia completa de mecanismos. Uma hipótese é mais forte quando consegue atravessar os níveis de emergência sem reduzir um nível ao outro.
8. Metacrítica aplicada à própria interpretação
A introdução do Realismo Crítico e da ACD também exige que o pesquisador aplique a crítica a si próprio.
Diante do episódio do Templo, é possível perguntar: estou evitando reconhecer sua dimensão provocadora por receio de produzir uma interpretação considerada “antijudaica”? Estou suavizando a ação de Jesus para preservar uma determinada agenda?
Mas a pergunta pode igualmente ser invertida: estou interpretando a ação como condenação do judaísmo porque estou projetando categorias posteriores sobre um conflito interno do judaísmo do Segundo Templo?
A ACD acrescenta: que categorias estou usando? “Purificação” já pressupõe uma leitura? “Crítica profética” é mais neutra? “Ataque ao Templo” é antijudaico? Como meu próprio discurso distribui legitimidade?
Essas perguntas revelam uma dupla possibilidade de distorção.
De um lado, existe o antijudaísmo clássico, que converteria a crítica de Jesus ao Templo em condenação do judaísmo. De outro, existe a possibilidade de uma contextualização excessivamente restritiva, na qual a necessidade de demonstrar a judaicidade de Jesus leva à redução ou ao apagamento da provocação de suas ações.
A metacrítica realista procura escapar aos dois mecanismos.
A questão não é negar a realidade do antissemitismo nem diminuir a importância histórica da Shoah. O problema metodológico está em distinguir entre a memória como fundamento ético e seu eventual uso instrumental político como critério que determina previamente o resultado da pesquisa. A ACD ajuda a analisar como esse debate é discursivamente construído.
O pesquisador deve perguntar não apenas “quais pressupostos ideológicos estou trazendo?”, mas também “em qual nível estou procurando a explicação?” e “quais efeitos de poder meu próprio discurso produz?”. Podemos, portanto, representar o episódio de forma dinâmica:
Estruturas
prévias do Templo
↓
Condições e
oportunidades para a ação de Jesus
↓
Jesus
como agente situado
↓
Interações no
pátio do Templo
↓
Conflito e emergentes
efêmeros
↓
Reinterpretação e memória
do acontecimento
↓
Práticas e
interpretações estabilizadas
↓
Formação
de novas configurações comunitárias
↓
Novas
estruturas institucionais e identitárias
O processo não deve ser entendido como uma sequência linear rígida. Uma vez constituídas, as estruturas posteriores também passam a retroagir sobre a interpretação das ações anteriores.
9. A ontologia estratificada aplicada integralmente ao episódio
A aplicação pode ser sintetizada da seguinte maneira:
Nível |
O que corresponde |
Aplicação à purificação do Templo |
Empírico |
Textos, narrativas, dados observáveis |
Mc 11:15–19; Mt 21:12–13; Lc 19:45–46; Jo 2:13–22; variantes textuais; convenções do bios |
Efetivo |
Eventos históricos |
Ação de Jesus no pátio do Templo, próxima à Páscoa; derrubada de mesas e/ou expulsão de vendedores; conflito com autoridades |
Real |
Estruturas, mecanismos e potenciais causais |
Intenção profética de Jesus; sistema sacrificial; comércio do Templo; exclusão de gentios; relações políticas; mecanismos de memória; ordens do discurso |
Essa estrutura permite observar algo que uma análise exclusivamente textual poderia perder. O nível empírico não esgota a realidade histórica. O texto é a evidência disponível, mas o acontecimento histórico e os mecanismos que o tornaram possível constituem dimensões adicionais da investigação.
10. Releitura da “judaicidade restringente” a partir do Realismo Crítico e da ACD
A mesma estrutura pode ser utilizada para revisar criticamente o debate sobre a “judaicidade restringente”.
No nível empírico, encontramos numerosas narrativas e interpretações que afirmam a inserção judaica de Jesus.
No nível efetivo, encontra-se a realidade histórica de sua pertença ao judaísmo do Segundo Templo.
No nível real, entretanto, podem existir mecanismos sociais, teológicos e intelectuais que contribuem para determinadas formas de representação dessa realidade. Entre eles podem estar o esforço de combater o antijudaísmo, a necessidade ética de responder à memória da Shoah e as disputas teológicas em torno do supersessionismo.
O Realismo Crítico não permite simplesmente concluir que essas motivações tornam falsas as interpretações posteriores. Sua contribuição é outra: elas devem ser investigadas como parte das condições causais da produção do conhecimento. Que tensões internas são sufocadas?
O Jesus "ariano" da teologia alemã do período nazista (Heschel) representou a negação sistemática dessa pertença. A recuperação da judaicidade após a Shoah (Vermes, Sanders, Terceira Busca) foi historicamente correta e eticamente motivada, mas não escapou a usos ideológicos. Levine mostrou que o contexto judaico pode funcionar como foil, um fundo negativo (legalismo, pureza, patriarcado) contra o qual Jesus se destaca. Crossley argumentou que a agenda política e cultural do pesquisador molda a imagem construída. Boyarin e Mason observam que "judaísmo", como categoria de religião, é ele próprio uma noção moderna de matriz cristã, e que Ioudaios pode designar etnia, cidade e culto de forma inseparável, de modo que "Jesus era judeu" requer definição de que "judeu" se trata.
A questão decisiva passa a ser se uma determinada construção interpretativa consegue reconhecer simultaneamente a realidade da judaicidade de Jesus e os elementos que podem distingui-lo de outros agentes, grupos e correntes judaicas. No Realismo Crítico, o estatuto dessa crítica é preciso. A crítica explicativa (Bhaskar, 1986) só invalida uma crença quando demonstra sua falsidade e a explica por condicionamentos sociais. Quando a crença é bem sustentada, a análise da gênese ideológica esclarece função, não validade. A pergunta metodológica é, então, se a proposição "Jesus era judeu" é usada como premissa de exclusão ("era judeu, logo não poderia ter feito X"), o que produz uma determinação estrutural do agente. Essa inferência não decorre da judaicidade. A crítica ao regime do Templo é atestada no interior do próprio judaísmo do período (Salmos de Salomão, Qumran, 1 Enoque), de modo que "judeu" e "crítico do Templo" nunca foram incompatíveis.
Uma leitura excessivamente contextualista poderia começar pelo nível E — “o judaísmo do Segundo Templo” — e deduzir quase diretamente o que Jesus poderia ou não ter feito. O resultado seria uma espécie de determinação estrutural do agente. Por outro lado, uma leitura individualista poderia inverter o problema e atribuir a Jesus a capacidade de produzir transformações sociais diretamente a partir de suas intenções. Também isso seria insuficiente. Suas ações só produzem efeitos porque encontram determinadas condições estruturais, relações sociais, receptividades, conflitos e processos de transmissão.
Assim, a metacrítica não procura destruir o consenso sobre a judaicidade de Jesus. Procura impedir que esse consenso seja convertido em uma explicação totalizante que torne invisíveis as tensões internas.
11. Síntese: do método contextual ao Realismo Crítico com ACD
A incorporação do Realismo Crítico permite completar o método desenvolvido no primeiro ensaio.
O contextualismo linguístico introduz a necessidade de compreender o agente a partir das linguagens e disputas de seu próprio tempo.
A Nova Biografia Histórica mostra que esse agente chega até nós por meio de uma forma literária determinada, sujeita às convenções dos bioi antigos.
A teoria da memória social mostra que as tradições foram transmitidas, reinterpretadas e transformadas pelas comunidades que as preservaram.
O Realismo Crítico acrescenta que todas essas mediações devem ser compreendidas como formas de acesso a uma realidade histórica que não se reduz às próprias mediações.
A Análise Crítica do Discurso acrescenta que essas mediações são práticas de poder: elas constroem identidades, legitimam autoridades, silenciam vozes e naturalizam relações.
A relação entre os quatro elementos pode ser resumida assim:
Dimensão |
Pergunta central |
Função |
Contextualismo linguístico |
O que Jesus estava fazendo dentro das linguagens de seu tempo? |
Reconstruir contexto e agência |
Nova Biografia Histórica |
Como o episódio foi moldado pelo gênero bios? |
Analisar a forma literária da fonte |
Memória social |
Como o episódio foi transmitido e reinterpretado? |
Explicar as mediações da tradição |
Realismo Crítico |
Que realidade, eventos e mecanismos podem explicar essas mediações? |
Integrar ontologia, epistemologia e explicação histórica |
Análise Crítica do Discurso |
Como o discurso constrói poder, identidade e legitimidade? |
Analisar ideologia, hegemonia e efeitos sociais da linguagem |
Essa integração confere maior consistência ao método. O historiador não é colocado diante da escolha entre um “Jesus real” acessível diretamente e um “Jesus construído” inteiramente pela linguagem. Existe uma realidade histórica, existem acontecimentos, existem fontes que os representam de maneiras mediadas, existem discursos que organizam essa representação e existem mecanismos sociais e culturais que condicionam essa representação.
Um acontecimento histórico não passa diretamente do nível efetivo para uma estrutura social. Entre os dois existem processos de seleção, comunicação, repetição, interpretação e estabilização. Isso não significa que toda memória se transforme em estrutura. A emergência é contingente. Muitas configurações desaparecem; outras sobrevivem; algumas adquirem estabilidade justamente porque encontram condições favoráveis de reprodução.
Considerações finais
O Realismo Crítico pode ser compreendido, portanto, como a camada metateórica que completa o método histórico desenvolvido anteriormente. A Análise Crítica do Discurso pode ser compreendida como a camada analítica que explicita como as mediações são também relações de poder e práticas de significação.
Seu primeiro ganho é epistemológico: permite afirmar a realidade histórica de Jesus sem pressupor acesso direto e neutro a ele.
Seu segundo ganho é ontológico: permite distinguir entre dados empíricos, acontecimentos atuais e estruturas ou mecanismos reais.
Seu terceiro ganho é metodológico: oferece critérios explícitos para avaliar hipóteses concorrentes por meio do Argumento para a Melhor Explicação, incorporando os dados discursivos.
Seu quarto ganho é metacrítico: obriga o pesquisador a examinar os pressupostos teológicos, éticos e políticos que podem orientar sua interpretação.
Seu quinto ganho é emancipatório: permite combater simultaneamente as leituras antijudaicas que transformam Jesus em opositor externo do judaísmo e as leituras excessivamente restritivas que tornam sua judaicidade uma barreira contra a investigação de sua singularidade e de suas críticas internas, buscando identificar como esses discursos operam.
E soma-se, para ampliar o poder compreensivo, uma teoria de emergência social: propriedades coletivas surgem das interações entre agentes; algumas desaparecem, outras se estabilizam; e as formas estabilizadas passam a estruturar e condicionar novas interações. A ACD mostra que, nesse processo, o discurso é simultaneamente produto e produtor de estruturas.
Essa combinação é particularmente fecunda para os estudos sobre o Jesus Histórico porque permite superar duas formas de reducionismo. A primeira reduz Jesus ao contexto. Nesse caso, o judaísmo do Segundo Templo aparece como estrutura que determina antecipadamente tudo o que Jesus poderia ser ou fazer. A segunda reduz o contexto a pano de fundo. Nesse caso, Jesus aparece como indivíduo excepcional cujas intenções explicariam diretamente as transformações produzidas posteriormente.
A perspectiva da emergência social oferece uma terceira possibilidade. Jesus é um agente situado em estruturas históricas e discursivas; suas ações ocorrem em interações concretas; dessas interações podem surgir efeitos que não foram inteiramente planejados; determinados efeitos podem adquirir estabilidade mediante processos de memória, prática, discurso e organização; e as formas estabilizadas podem constituir novas estruturas que condicionam agentes posteriores.
A purificação do Templo mostra concretamente a utilidade desse procedimento. No nível empírico, temos as narrativas dos evangelhos e suas diferenças. No nível efetivo, temos a hipótese de um acontecimento histórico em Jerusalém. No nível real, temos as estruturas sociais, religiosas e políticas e os mecanismos causais que podem explicar tanto o acontecimento quanto sua transmissão posterior. A estrutura religiosa e política do Templo condicionava a ação de Jesus; Jesus, contudo, intervém concretamente nessa estrutura por meio de uma ação pública; a ação produz interações e conflitos; esses conflitos passam a integrar processos de memória e interpretação e discurso; e as interpretações posteriores contribuem para a formação de práticas e identidades coletivas.
A hipótese de que Jesus realizou uma ação profético-simbólica no Templo possui, nessa estrutura, um escopo explicativo amplo, poder explicativo significativo, plausibilidade contextual interdiscursiva, menor dependência de hipóteses ad hoc e capacidade de iluminar outros episódios da tradição.
O resultado é uma concepção do estudo histórico na qual a realidade não é confundida com a fonte, a fonte não é confundida com a memória, a memória não é confundida com o acontecimento, o discurso não é confundido com a realidade e o contexto não é confundido com uma determinação absoluta da ação.
O método integrado resultante pode ser resumido em uma fórmula: reconstruir o contexto, identificar a ação, analisar a forma literária, rastrear as mediações da memória, analisar as práticas discursivas e as relações de poder, investigar os mecanismos causais, explicitar os pressupostos e comparar hipóteses concorrentes pela sua capacidade explicativa. A questão mais rigorosa é reconstruir o processo pelo qual estrutura, agência, interação, emergência, discurso e memória se relacionaram historicamente.
É justamente essa articulação que oferece uma via promissora para uma história crítica de Jesus: reconhecer sua inserção judaica sem reduzir sua agência; reconhecer sua agência sem isolá-la das estruturas; reconhecer as estruturas sem tratá-las como determinações mecânicas; e reconhecer as consequências coletivas sem atribuí-las diretamente à intenção original de um único agente; e reconhecer o discurso sem dissolver a realidade histórica nele. A análise crítica deve evitar tanto o a falácia epistemológica (que consiste no erro de reduzir a ontologia à epistemologia) quanto o construcionismo radical (reduzir tudo a discurso). Porém, é facultada a combinar a denúncia de usos ideológicos do discurso (ex.: harmonizações confessionais, programas ideológicos) com a busca de mecanismos causais históricos (ex.: tensões judaico-romanas, conflitos intra-judaicos, dinâmicas de memória comunitária).
O Realismo Crítico, complementado pela Análise Crítica do Discurso, fornece, assim, não uma resposta definitiva à questão do Jesus Histórico, mas uma arquitetura epistemológica para que essa questão possa ser formulada de maneira mais rigorosa. As narrativas evangélicas e pós-pascais são lidas como discursos que constroem identidades, legitimam autoridades e mobilizam ações, sem que isso implique negar a referência a possíveis eventos e estruturas reais.
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