Introdução
Poucos episódios do Novo Testamento apresentam uma combinação tão peculiar entre afirmação extraordinária e silêncio narrativo quanto Mateus 27:52–53. No contexto da morte de Jesus, o evangelista descreve uma sequência de sinais cósmicos: o véu do templo se rasga, a terra treme, as rochas se fendem e os sepulcros se abrem. Em seguida, introduz um acontecimento que não possui paralelo direto nos demais evangelhos: "e muitos corpos de santos, que dormiam, ressuscitaram; e, saindo dos sepulcros depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos" (Mt 27:52–53).
A peculiaridade do texto não reside apenas no caráter extraordinário do acontecimento, mas sobretudo na ausência de qualquer informação acerca de seu desfecho. Mateus não identifica os santos, não relata suas palavras, não descreve sua condição corporal e não informa o que aconteceu depois de sua aparição pública. Não sabemos, a partir do Evangelho, se retornaram à vida mortal e posteriormente morreram, se permaneceram vivos, se foram glorificados ou se ascenderam ao céu juntamente com Cristo. O texto termina sua narrativa sobre eles justamente no momento em que afirma que "apareceram a muitos".
Essa lacuna produziu uma questão que atravessaria séculos de interpretação cristã: os santos ressuscitados em Mateus 27 morreram novamente? A pergunta parece simples, mas pressupõe um problema teológico muito mais profundo. Afinal, o que significa "ressuscitar" nesse episódio? Trata-se do mesmo tipo de ressurreição experimentado por Lázaro, que retorna à existência mortal e posteriormente está novamente sujeito à morte? Ou o acontecimento deve ser entendido como participação antecipada na ressurreição escatológica, na qual o corpo é definitivamente libertado da corrupção e da morte?
A questão ganha particular importância quando confrontada com a afirmação paulina de que Cristo é "as primícias dos que dormem" (1Cor 15:20) e com a designação de Cristo como "primogênito dentre os mortos" (Cl 1:18; Ap 1:5). Se os santos de Mateus receberam, antes ou simultaneamente à ressurreição de Cristo, uma ressurreição definitiva e incorruptível, torna-se necessário explicar em que sentido Cristo permanece primeiro. Se, ao contrário, eles apenas retornaram à vida mortal, o episódio se aproxima das narrativas de Lázaro e de outras ressurreições temporárias, mas surge outra questão: qual seria o sentido teológico de devolver esses mortos à vida apenas para que morressem novamente?
É justamente nessa tensão que se desenvolve a história da recepção do texto.
O objetivo deste artigo é reconstruir, de maneira historicamente delimitada, como a tradição cristã respondeu à questão do destino posterior dos santos de Mateus 27:52–53, com atenção especial à hipótese de uma segunda morte corporal. Não se pretende resolver dogmaticamente aquilo que o evangelista não resolveu narrativamente, mas distinguir rigorosamente três níveis que frequentemente são confundidos: aquilo que o texto de Mateus efetivamente afirma; aquilo que os autores cristãos antigos inferiram a partir dele; e aquilo que a teologia medieval sistematizou posteriormente.
A hipótese central deste estudo é que a questão da segunda morte não constitui uma informação transmitida pelo Evangelho, mas emerge gradualmente como problema hermenêutico. Na literatura cristã mais antiga, o interesse concentra-se principalmente no significado cristológico da ressurreição dos santos. Somente posteriormente o problema se desloca para a condição ontológica desses corpos. Em Remígio de Auxerre, encontramos uma formulação particularmente clara da controvérsia: alguns sustentavam que os ressuscitados haviam morrido novamente, como Lázaro; Remígio rejeita essa interpretação e afirma que eles ascenderam com Cristo. Tomás de Aquino retoma o problema, mas o integra a uma questão mais ampla sobre a prioridade e a natureza da ressurreição de Cristo.
O percurso proposto será, portanto, simultaneamente exegético e histórico. Partiremos do texto de Mateus, examinaremos sua recepção nos principais autores patrísticos selecionados e, finalmente, analisaremos a passagem decisiva à exegese medieval, com especial atenção a Remígio de Auxerre e Tomás de Aquino.
Mateus 27:52–53: o acontecimento e o silêncio
O ponto de partida metodológico precisa ser o próprio texto. Mateus 27:52–53 não diz simplesmente que "mortos apareceram". O texto é mais específico. A versão Almeida Revista e Atualizada registra:
"abriram-se os sepulcros, e muitos corpos de santos, que dormiam, ressuscitaram; e, saindo dos sepulcros depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos."
A construção narrativa apresenta quatro elementos sucessivos: abertura dos sepulcros, ressurreição dos santos, saída dos sepulcros e aparição na cidade. O vocabulário corporal é significativo: Mateus fala de "corpos" (sōmata) de santos. O acontecimento não é descrito primariamente como uma experiência interior ou como uma simples sobrevivência da alma. A narrativa está vinculada ao espaço físico dos sepulcros e aos corpos que neles se encontravam.
Ao mesmo tempo, o texto contém uma particularidade cronológica que terá enorme importância para a tradição posterior. Embora a abertura dos sepulcros seja narrada imediatamente depois da morte de Jesus, Mateus afirma que os ressuscitados saíram "depois da ressurreição de Jesus". O texto, portanto, vincula temporalmente a manifestação dos santos ao acontecimento pascal.
Esse detalhe impede que se interprete o episódio simplesmente como uma série de ressurreições independentes ocorridas antes da Páscoa. A própria narrativa estabelece uma relação entre os santos e a ressurreição de Cristo.
Entretanto, a relação entre os acontecimentos não resolve o problema de sua natureza. A palavra "ressuscitar" pode designar, no universo bíblico e cristão, fenômenos distintos. A ressurreição de Lázaro, por exemplo, implica retorno à existência corporal ordinária. Não há no quarto Evangelho qualquer indicação de que Lázaro tenha recebido naquele momento o corpo incorruptível da consumação escatológica. O mesmo problema aparece em outros relatos de retorno à vida.
Assim, é necessário distinguir conceitualmente:
revivificação: retorno extraordinário à vida mortal;
ressurreição escatológica: transformação definitiva do corpo, acompanhada da superação da corrupção e da morte.
A distinção é decisiva. Se os santos de Mateus foram revivificados, sua morte posterior é perfeitamente concebível. Se foram ressuscitados em sentido escatológico, uma segunda morte corporal seria incompatível com a própria natureza dessa ressurreição.
O problema é que Mateus não fornece informação suficiente para decidir entre as duas categorias.
Essa indeterminação é reforçada pelo anonimato dos personagens. O evangelista não diz quem eram os "santos". Não nomeia patriarcas, profetas, reis ou personagens contemporâneos de Jesus. A narrativa tampouco descreve seu destino posterior. Sua função narrativa termina com a frase "apareceram a muitos".
Esse silêncio possui importância metodológica. Qualquer afirmação sobre a morte posterior dos santos ou sobre sua ascensão ao céu precisa ser tratada como interpretação da tradição, e não como informação explícita do Evangelho.
Essa distinção será fundamental para compreender o desenvolvimento posterior.
A primeira recepção cristã: a ressurreição dos santos como manifestação da vitória de Cristo
A tradição cristã mais antiga parece ter formulado o problema de Mateus sobretudo em chave cristológica. O interesse não se concentra inicialmente em reconstruir a biografia posterior dos ressuscitados, mas em compreender o que sua ressurreição significa no contexto da morte e vitória de Cristo. Um dos testemunhos mais antigos encontra-se em Inácio de Antioquia, na Carta aos Tralianos. Ao defender a realidade corporal da paixão e ressurreição de Cristo, Inácio afirma que Jesus "verdadeiramente" nasceu, comeu, bebeu, sofreu e morreu, e relaciona sua descida aos mortos à ressurreição dos santos. O episódio de Mateus é compreendido como manifestação da vitória de Cristo sobre o domínio da morte.
O aspecto fundamental dessa leitura é que os santos aparecem subordinados ao acontecimento cristológico. Sua ressurreição não constitui um fenômeno independente. Eles participam, de algum modo, da vitória inaugurada por Cristo. A formulação de Inácio é importante porque demonstra que uma das mais antigas interpretações cristãs de Mateus 27 vinculava diretamente os ressuscitados à descida de Cristo ao mundo dos mortos e à sua vitória sobre a morte. Contudo, Inácio não resolve a questão do destino posterior desses indivíduos. Ele não afirma que morreram novamente nem que receberam a incorruptibilidade definitiva. O silêncio permanece. Essa característica é relevante porque impede que projetemos sobre a patrística mais antiga uma questão que ainda não ocupa seu centro. O problema inicial é cristológico, não biográfico.
Orígenes: o episódio no horizonte escatológico
Em Orígenes, a interpretação de Mateus ganha uma dimensão mais ampla. Sua exegese tende a relacionar os acontecimentos da paixão com realidades espirituais e escatológicas, e Mateus 27:52–53 pode ser compreendido nesse horizonte. O episódio dos santos ressuscitados é aproximado por Orígenes de outras manifestações extraordinárias relacionadas à revelação da glória de Cristo. O acontecimento deixa de ser simplesmente uma anomalia narrativa e passa a participar de uma estrutura maior na qual a morte de Cristo inaugura uma transformação da ordem da morte.
A contribuição de Orígenes é importante justamente porque torna mais plausível uma leitura escatológica do episódio. Entretanto, ainda aqui devemos evitar uma conclusão excessiva: a interpretação escatológica do acontecimento não equivale automaticamente à afirmação de que aqueles corpos já haviam recebido a condição definitiva da ressurreição. O que Orígenes fornece é sobretudo uma chave hermenêutica: os santos ressuscitados devem ser compreendidos à luz da ação salvífica de Cristo.
Jerônimo, Agostinho e a emergência da distinção entre ressurreição e incorruptibilidade
A tradição latina aprofunda o problema porque a afirmação de que Cristo é "primogênito dos mortos" exige explicar a relação entre sua ressurreição e todos os outros relatos de mortos que retornam à vida. Jerônimo, em sua exegese de Mateus, enfatiza a função testemunhal dos ressuscitados. O episódio pode ser entendido como uma manifestação do poder da morte de Cristo sobre o domínio dos mortos. Nesse horizonte, a aparição dos santos confirma a vitória daquele que acaba de morrer.
A questão de seu destino posterior permanece, contudo, secundária. É em Agostinho que encontramos um desenvolvimento conceitual particularmente importante. Sua teologia da ressurreição estabelece uma distinção entre o simples retorno à vida e a condição definitiva dos corpos ressuscitados. A ressurreição escatológica implica incorruptibilidade, imortalidade e transformação.
Em A Cidade de Deus, Agostinho afirma que o corpo ressuscitado será transformado da condição do "corpo animal" para a condição do "corpo espiritual", revestido de incorruptibilidade e imortalidade. Essa concepção constitui uma ferramenta conceitual decisiva para o problema de Mateus: não basta perguntar se alguém voltou à vida; é necessário perguntar em qual condição corporal voltou à vida. A diferença entre Lázaro e a ressurreição escatológica torna-se, assim, fundamental. Lázaro retornou. Mas retornar não significa necessariamente ter recebido a condição definitiva.
A teologia agostiniana fornece os instrumentos para essa distinção.
É nesse ponto que aparece uma questão que precisa ser tratada com precisão terminológica. Agostinho utiliza a expressão "segunda morte", especialmente em sua interpretação do Apocalipse. Porém, a secunda mors agostiniana não significa uma segunda morte biológica sofrida por alguém que anteriormente ressuscitou.
Ela é uma categoria escatológica relacionada à condenação.
Essa distinção é fundamental para a história do problema. A pergunta:
"Os santos de Mateus morreram novamente?"
não é equivalente à pergunta:
"O que é a segunda morte em Agostinho?"
Na primeira, trata-se de uma possível segunda morte corporal. Na segunda, de uma categoria escatológica referente ao destino dos condenados.
Confundir as duas categorias produziria um anacronismo conceitual.
5. Remígio de Auxerre e a formulação explícita da controvérsia
A questão muda de natureza na exegese medieval de Remígio de Auxerre (Remigius Autissiodorensis). A identificação precisa do autor é indispensável: trata-se de Remígio de Auxerre, e não de Remígio de Reims.
A documentação manuscrita do comentário é preservada e catalogada pelo projeto Glossae Scripturae Sacrae do Institut de recherche et d'histoire des textes. A fonte identifica explicitamente o comentário como obra de Remigius Autissiodorensis, indicando, entre outros testemunhos, o códice 548 da Biblioteca da Catalunha e o Vat. lat. 648 da Biblioteca Apostólica Vaticana.
É aqui que encontramos a formulação mais importante para o presente estudo.
Remígio escreve:
"Quid de illis factum sit qui resurgente Domino surrexerunt?"
Ou seja:
"O que aconteceu com aqueles que ressuscitaram quando o Senhor ressuscitou?"
A pergunta é decisiva porque explicita aquilo que Mateus deixou em aberto.
Remígio apresenta inicialmente a finalidade dos santos:
"Credendum quippe est quoniam ideo surrexerunt ut testes essent dominicae resurrectionis."
Isto é:
"Deve-se crer que eles ressuscitaram para serem testemunhas da ressurreição do Senhor."
Em seguida, registra uma posição contrária:
"Quidam autem dixerunt quod iterum mortui sunt et in cinerem conversi, sicut et Lazarus et ceteri quos Dominus resuscitavit."
A tradução é:
"Alguns, porém, disseram que morreram novamente e foram reduzidos a cinzas, como Lázaro e os outros que o Senhor ressuscitou."
Temos aqui a evidência mais clara de toda a cadeia histórica reconstruída neste artigo.
A hipótese de uma segunda morte corporal está explicitamente documentada.
Além disso, a comparação com Lázaro confirma que o problema foi compreendido precisamente nos termos que identificamos anteriormente: ressurreição temporária versus ressurreição definitiva.
Lázaro funciona como paradigma de alguém que retorna à vida e posteriormente continua submetido à mortalidade. Alguns intérpretes haviam aplicado esse modelo aos santos de Mateus.
Remígio, entretanto, rejeita a hipótese:
"Sed istorum dictis nullo modo est fides accommodanda..."
"Mas de modo algum se deve dar crédito a essas palavras..."
Seu argumento é particularmente interessante:
"...maius illis esset tormentum qui surrexerunt, si iterum mortui essent, quam si non resurgerent."
Isto é:
"...seria maior tormento para aqueles que ressuscitaram se tivessem morrido novamente do que se não tivessem ressuscitado."
O raciocínio de Remígio não é simplesmente filológico. Trata-se de um argumento de conveniência teológica. Se a ressurreição dos santos fosse apenas uma restituição temporária à vida, seguida de nova morte, o acontecimento poderia parecer não um benefício, mas um sofrimento adicional.
A conclusão é inequívoca:
"Incunctanter ergo credere debemus quia qui resurgente Domino a mortuis surrexerunt, ascendente eo ad caelos et ipsi pariter ascenderunt."
Ou seja:
"Devemos, portanto, crer sem hesitação que aqueles que ressuscitaram dos mortos quando o Senhor ressuscitou, quando ele ascendeu aos céus, também eles ascenderam juntamente com ele."
A interpretação de Remígio pode ser resumida em quatro proposições:
- os santos ressuscitaram;
- sua ressurreição tinha finalidade testemunhal;
- a hipótese de uma segunda morte deve ser rejeitada;
- eles ascenderam com Cristo.
A importância histórica da passagem é extraordinária. Ela demonstra que a tradição medieval conhecia explicitamente a hipótese de uma segunda morte dos santos e a rejeitava em favor de uma ressurreição definitiva.
Mas Remígio não deve ser transformado em testemunha de uma informação contida em Mateus. Sua afirmação é uma interpretação do silêncio do Evangelho.
Tomás de Aquino: a sistematização escolástica do problema
A questão chega a Tomás de Aquino em uma forma ainda mais desenvolvida. Na Catena aurea, Tomás transmite a tradição exegética relativa a Mateus 27. Entretanto, na Summa theologiae, III, questão 53, artigo 3, ele insere o problema em uma discussão sistemática: Cristo foi o primeiro dos ressuscitados?
A pergunta é inevitável porque Mateus afirma que muitos santos ressuscitaram, enquanto a tradição cristã chama Cristo de "primogênito dentre os mortos".
Tomás reconhece explicitamente a controvérsia:
"De illis solet esse quaestio, utrum resurrexerint iterum morituri, vel non morituri."
Em tradução:
"Costuma haver uma questão a respeito deles: se ressuscitaram para morrer novamente ou para não morrer novamente."
Essa frase constitui o ponto culminante da história conceitual examinada neste artigo. A questão implícita em Mateus e explicitada por Remígio torna-se agora uma questão teológica formal.
Tomás reconhece o precedente de Lázaro:
"Constat aliquos resurrexisse, ut post morerentur, ut Lazarus."
Ou seja:
"É certo que alguns ressuscitaram para morrer posteriormente, como Lázaro."
Mas, acerca dos santos de Mateus, Tomás apresenta a possibilidade contrária:
"Sed de istis potest dici quod surrexerunt non iterum morituri, quia surrexerunt ad manifestationem resurrectionis Christi."
"Mas acerca destes pode-se dizer que ressuscitaram não para morrer novamente, porque ressuscitaram para a manifestação da ressurreição de Cristo."
A argumentação é reforçada pela condição singular de Cristo:
"Certum autem est quod Christus resurgens ex mortuis, iam non moritur."
"É certo que Cristo, ressuscitando dos mortos, já não morre."
Tomás acrescenta então um argumento muito próximo ao de Remígio: se os santos tivessem ressuscitado apenas para morrer novamente, a ressurreição não teria sido um benefício, mas um prejuízo. Por isso, conclui que ressuscitaram como aqueles que entrariam no céu com Cristo.
Entretanto, aqui aparece uma nuance fundamental que não pode ser eliminada da análise.
Na Summa theologiae, Tomás apresenta duas opiniões. Uma sustenta que os santos ressuscitaram para não morrer novamente; outra, associada a argumentos de Agostinho, sustenta que eles poderiam ter ressuscitado para morrer novamente. Tomás considera os argumentos de Agostinho particularmente fortes no contexto da questão acerca da primazia de Cristo.
Essa passagem é crucial porque impede uma leitura simplificada segundo a qual Tomás teria simplesmente reproduzido Remígio.
A questão de Tomás é mais complexa.
Agostinho diante de Tomás: o problema da primazia de Cristo
O ponto central da discussão tomista é a afirmação de que Cristo é o primeiro dos ressuscitados.
Se os santos de Mateus tivessem recebido a mesma ressurreição gloriosa de Cristo, seria necessário explicar como Cristo permanece "primogênito dos mortos".
Tomás transmite a posição segundo a qual alguns santos teriam ressuscitado para não morrer novamente. Mas também recupera argumentos de Agostinho que criam dificuldades para essa interpretação.
Agostinho havia observado que, se os justos antigos tivessem recebido naquele momento a ressurreição definitiva prometida para o fim dos tempos, surgiriam dificuldades em relação à primazia de Cristo. Como Cristo poderia ser o primeiro se muitos já tivessem recebido antes dele a mesma condição gloriosa?
Tomás retoma essa dificuldade.
O problema torna-se particularmente agudo no caso de Davi. Se Davi estivesse entre os santos ressuscitados em condição incorruptível, seria necessário explicar as afirmações apostólicas acerca de seu corpo e de seu sepulcro. Além disso, Hebreus 11:40 afirma que os antigos justos não deveriam ser aperfeiçoados sem os demais.
Tomás, portanto, reconhece que a tese da ressurreição definitiva dos santos produz problemas teológicos reais. Por isso registra que os argumentos de Agostinho parecem "muito mais eficazes".
Esse dado altera significativamente a genealogia da questão.
Não temos uma linha simples:
Agostinho → Remígio → Tomás.
Temos uma história de debate:
Mateus → interpretações patrísticas diversas → Agostinho problematiza a ressurreição definitiva → Remígio rejeita a segunda morte → Tomás recupera ambas as possibilidades e as integra à teologia da primazia de Cristo.
Essa complexidade é precisamente aquilo que torna a tradição intelectualmente interessante.
A distinção decisiva: revivificação e ressurreição gloriosa
O desenvolvimento da tradição permite finalmente formular com precisão o problema que estava implícito desde o início.
Nem toda "ressurreição" possui necessariamente o mesmo estatuto teológico.
Lázaro é ressuscitado e posteriormente permanece sujeito à morte.
Cristo ressuscita e "já não morre".
A questão dos santos de Mateus está exatamente entre esses dois modelos.
Podemos representar as duas possibilidades:
Modelo A — revivificação mortal
morte → retorno à vida → existência mortal → segunda morte
Nesse modelo, os santos de Mateus seriam comparáveis a Lázaro.
Modelo B — ressurreição gloriosa
morte → ressurreição → incorruptibilidade → participação na glória de Cristo
Nesse modelo, uma segunda morte corporal seria impossível.
A importância da tradição patrística e medieval está precisamente em mostrar que ambas as possibilidades foram concebidas.
Mateus, isoladamente, não resolve a questão.
Remígio escolhe o modelo B.
Agostinho fornece argumentos que favorecem o modelo A.
Tomás reconhece a controvérsia e procura resolvê-la a partir da relação entre ressurreição e primazia de Cristo.
A "segunda morte": precisão terminológica
A investigação permite ainda esclarecer uma confusão conceitual recorrente.
A expressão "segunda morte" aparece na tradição cristã em contextos diferentes.
Em Apocalipse 20, "segunda morte" designa a condição escatológica associada ao juízo final. Agostinho desenvolve essa categoria em sua interpretação de Apocalipse e a incorpora à sua teologia da consumação.
Isso é diferente da pergunta medieval:
os santos que ressuscitaram em Mateus morreram uma segunda vez?
Aqui "segunda morte" significa literalmente segunda morte corporal.
Portanto:
secunda mors agostiniana ≠ segunda morte corporal dos santos de Mateus.
A primeira é escatológica.
A segunda é biográfica e corporal.
Essa distinção é fundamental porque evita projetar sobre Agostinho uma pergunta que não é necessariamente aquela que ele pretende responder.
O problema histórico da ascensão dos santos
A posição de Remígio e a possibilidade discutida por Tomás de que os santos tenham ascendido com Cristo levantam uma dificuldade adicional: Mateus não afirma explicitamente que eles ascenderam.
O texto diz apenas que eles saíram dos sepulcros depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos.
A ascensão é, portanto, uma inferência teológica.
Essa distinção precisa ser mantida rigorosamente. A afirmação:
"Os santos ascenderam com Cristo"
é uma afirmação da tradição interpretativa.
A afirmação:
"Mateus diz que os santos ascenderam com Cristo"
é incorreta.
Essa diferença não diminui a importância da interpretação medieval. Pelo contrário, demonstra como a tradição funciona: ela procura responder às perguntas que o texto deixa abertas utilizando categorias teológicas desenvolvidas no interior da própria tradição cristã.
Remígio lê a ressurreição dos santos como testemunho da vitória de Cristo e considera inadequado que uma graça tão extraordinária terminasse em nova corrupção corporal. Sua solução é a ascensão.
Tomás transforma essa solução em uma questão sistemática acerca da ordem da ressurreição.
A função cristológica dos ressuscitados
A reconstrução realizada permite perceber que a função dos santos de Mateus não é primordialmente biográfica. Eles não são personagens cuja trajetória posterior interessa ao evangelista. Sua função é cristológica.
Eles aparecem no momento em que a morte parece representar a derrota de Jesus.
Mas justamente nesse momento:
- os sepulcros se abrem;
- os mortos ressuscitam;
- os santos aparecem;
- o centurião reconhece Jesus como Filho de Deus.
O acontecimento é construído como uma inversão da lógica da morte.
A morte de Cristo produz sinais de vida.
Essa estrutura ajuda a compreender por que os Padres não sentiram inicialmente necessidade de perguntar o que aconteceu com cada ressuscitado. O acontecimento já cumpre sua função no interior da narrativa: testemunhar a vitória de Cristo sobre a morte.
A pergunta sobre a segunda morte emerge quando a tradição começa a tratar o episódio também como problema de antropologia escatológica.
Considerações finais
A investigação de Mateus 27:52–53 revela uma situação hermenêutica particularmente significativa: o texto afirma a ressurreição de "muitos corpos de santos", mas não informa seu destino posterior. A pergunta acerca de uma eventual segunda morte não pode, portanto, ser respondida mediante uma simples citação do Evangelho. Ela pertence à história da interpretação.
A análise da tradição cristã demonstra que os primeiros intérpretes concentraram-se predominantemente no significado cristológico do acontecimento. Inácio de Antioquia relaciona os ressuscitados à vitória de Cristo sobre o domínio dos mortos. Orígenes amplia a interpretação para um horizonte escatológico. Jerônimo enfatiza sua função como testemunhas da vitória de Cristo. Esses autores não estabelecem uma doutrina uniforme acerca de sua condição posterior.
Agostinho fornece uma contribuição diferente e decisiva. Sua reflexão sobre a ressurreição corporal estabelece a diferença entre retorno à vida e transformação gloriosa do corpo. A ressurreição definitiva caracteriza-se pela incorruptibilidade e pela imortalidade. Contudo, sua posição específica acerca dos santos de Mateus não pode ser simplificada. Como Tomás posteriormente observa, argumentos agostinianos parecem favorecer a possibilidade de que eles tenham ressuscitado para morrer novamente, especialmente diante do problema da primazia de Cristo.
O ponto de inflexão encontra-se em Remígio de Auxerre. Sua exegese registra explicitamente a pergunta: "O que aconteceu com aqueles que ressuscitaram quando o Senhor ressuscitou?" Mais importante, preserva uma posição segundo a qual "alguns" sustentavam que eles morreram novamente e foram reduzidos a cinzas, "como Lázaro". Remígio rejeita essa interpretação e afirma que os santos ressuscitaram para serem testemunhas da ressurreição de Cristo e, posteriormente, ascenderam com ele.
Temos aqui a primeira evidência documental inequívoca, dentro da cadeia estudada, da hipótese da segunda morte corporal dos santos de Mateus.
Tomás de Aquino leva a questão à maturidade escolástica. Em seu comentário sobre Mateus, formula diretamente a alternativa:
"utrum resurrexerint iterum morituri, vel non morituri"
— "se ressuscitaram para morrer novamente ou para não morrer novamente".
A partir de Lázaro, Tomás reconhece a existência de ressurreições destinadas ao retorno à mortalidade. Mas admite que os santos de Mateus podem constituir uma categoria diferente: ressuscitados para manifestar a ressurreição de Cristo e destinados a entrar com ele na glória.
Na Summa theologiae, contudo, Tomás não elimina a controvérsia. Ele recupera os argumentos de Agostinho, especialmente aqueles relacionados à afirmação de Cristo como "primogênito dos mortos". A questão passa a ser determinada pela relação entre ressurreição, incorruptibilidade e primazia cristológica.
A conclusão histórica mais rigorosa é, portanto, que não existe uma tradição cristã antiga absolutamente uniforme sobre o destino dos santos de Mateus 27:52–53. Existem, ao menos, duas grandes possibilidades interpretativas: a de uma revivificação temporária, seguida de nova morte, e a de uma ressurreição definitiva, seguida de participação na ascensão e glória de Cristo.
O dado mais importante, porém, é que a própria pergunta se transforma ao longo da história.
Em Mateus, temos:
ressuscitaram.
Na primeira patrística, a pergunta torna-se:
o que essa ressurreição significa para Cristo?
Em Agostinho:
qual é a natureza da ressurreição e da incorruptibilidade?
Em Remígio:
o que aconteceu com eles depois? Morreram novamente ou não?
Em Tomás:
como devemos compreender essa ressurreição diante da primazia de Cristo e da distinção entre ressurreição mortal e gloriosa?
A história da interpretação, portanto, não acrescenta simplesmente uma resposta a uma pergunta bíblica. Ela produz progressivamente novas formas de formular a própria pergunta.
Esse resultado permite uma conclusão metodológica fundamental: a hipótese de que os santos de Mateus morreram novamente é historicamente legítima como interpretação tradicional, mas não pode ser apresentada como dado explícito do Novo Testamento. Da mesma forma, a afirmação de que ascenderam com Cristo possui importante testemunho na exegese medieval, especialmente em Remígio de Auxerre e na tradição transmitida por Tomás, mas também não constitui uma afirmação textual de Mateus.
Entre essas duas posições permanece o silêncio do evangelista.
E é justamente esse silêncio que tornou possível uma das mais interessantes histórias de interpretação da ressurreição no cristianismo: uma história na qual o problema de alguns corpos anônimos ressuscitados em Jerusalém se converte, progressivamente, em uma investigação sobre a natureza da morte, a condição do corpo, a incorruptibilidade, a primazia de Cristo e o significado escatológico da própria ressurreição.
Referências bibliográficas
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AGOSTINHO DE HIPONA. Cartas. In: Patrologia Latina. Paris: Jacques-Paul Migne, 1845–1855.
AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. III Parte, questão 53. São Paulo: Loyola, várias edições.
AQUINO, Tomás de. Catena Aurea: comentário aos quatro Evangelhos. São Paulo: Ecclesiae, edições disponíveis.
INÁCIO DE ANTIOQUIA. Carta aos Tralianos. In: PADRES APOSTÓLICOS. São Paulo: Paulus.
JERÔNIMO. Comentário ao Evangelho de Mateus. In: Patrologia Latina, vol. 26. Paris: J.-P. Migne.
ORÍGENES. Comentário sobre Mateus. In: Patrologia Graeca, vol. 13–14. Paris: J.-P. Migne.
REMÍGIO DE AUXERRE. In Matthaeum. Manuscritos e tradição exegética catalogados em Glossae Scripturae Sacrae electronicae (Gloss-e), Institut de Recherche et d'Histoire des Textes (CNRS). A fonte identifica o autor como Remigius Autissiodorensis e registra os testemunhos manuscritos de Barcelona, Biblioteca de Catalunya, cod. 548, f. 291ra, e Vaticano, BAV, Vat. lat. 648, f. 260rab.
Fontes digitais utilizadas para conferência textual
Glossae Scripturae Sacrae electronicae (Gloss-e), Institut de recherche et d'histoire des textes — CNRS, especialmente a tradição de Remigius Autissiodorensis, In Matthaeum, Mt 27:52.
Corpus Thomisticum / Aquinas, comentário de Tomás de Aquino a Mateus 27:52–53.
Aquinas 101, Summa Theologiae, III, q. 53, a. 3.
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