quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Paulo, Evangelho de Tomé e Evangelho Q: Pontes de Contato com a tradição de Jesus

 



A questão que orienta este ensaio surgiu com uma observação aparentemente simples, mas que nos parece suficientemente interessante para merecer uma investigação mais cuidadosa. Algumas formulações encontradas nas cartas paulinas apresentam paralelos surpreendentemente próximos com determinados logia preservados pelo Evangelho de Tomé. O caso mais conhecido é a relação entre 1 Coríntios 2,9 e Tomé 17. Paulo escreve: “O que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração do homem não percebeu, isso Deus preparou para aqueles que o amam”. Em Tomé 17, encontramos Jesus dizendo: “Dar-vos-ei o que olho não viu, o que ouvido não ouviu, o que a mão não tocou e o que nunca entrou no coração do homem”. A proximidade é evidente e não se trata, portanto, de uma associação criada artificialmente para aproximar Paulo de Tomé. O paralelo vem sendo discutido há décadas pela pesquisa, inclusive em estudos especificamente dedicados às possíveis relações entre as cartas paulinas e o Evangelho de Tomé (TUCKETT, 2003; ANNESE, 2018).

A questão, entretanto, começa justamente onde termina a constatação da semelhança. Quem depende de quem? Teria Paulo conhecido uma tradição semelhante àquela posteriormente preservada em Tomé? Teria o redator de Tomé conhecido alguma tradição paulina? Ou estaríamos diante de uma tradição anterior aos dois documentos, que circulou em diferentes comunidades cristãs e acabou recebendo formulações distintas? A pergunta se torna ainda mais interessante quando observamos que Tomé não é o único texto que apresenta aproximações com esse universo de ditos. Existe um segundo conjunto documental que precisa ser colocado sobre a mesa: aquilo que os pesquisadores convencionaram chamar de Q, a hipotética coleção de ditos utilizada por Mateus e Lucas. A comparação entre Q e Tomé é antiga e bastante conhecida. William Arnal, por exemplo, chama atenção para o número expressivo de correspondências entre os dois conjuntos, observando que aproximadamente quarenta ditos podem ser colocados em paralelo e que uma parcela significativa das parábolas atribuídas a Q possui correspondentes em Tomé (ARNAL, 1995). Não estamos, portanto, diante de uma única coincidência entre dois textos. Há um campo mais amplo de circulação de tradições que começa a aparecer quando colocamos Paulo, Q e Tomé lado a lado.

Antes de avançarmos, entretanto, precisamos apresentar o problema em sua forma documental. Em Tomé 17 lemos: “Dar-vos-ei o que olho não viu, o que ouvido não ouviu, o que a mão não tocou e o que nunca entrou no coração do homem”. Em 1 Coríntios 2,9, Paulo escreve: “O que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração do homem não percebeu, isso Deus preparou para aqueles que o amam”. A semelhança não é apenas temática. A sequência dos sentidos e a referência a uma realidade que ultrapassa aquilo que o homem pode perceber constituem uma aproximação suficientemente estreita para que seja legítimo perguntar pela história dessa formulação. Mas existe aqui uma dificuldade que não podemos ignorar. Paulo introduz sua frase em um contexto no qual afirma estar transmitindo uma sabedoria divina anteriormente oculta. Além disso, a investigação sobre a origem dessa fórmula mostrou que ela pode possuir uma história mais antiga do que os textos nos quais atualmente a encontramos. Claire Clivaz e Sara Schulthess, ao examinarem a tradição de 1 Coríntios 2,9, chamaram atenção justamente para a possibilidade de que a fórmula possua antecedentes escritos ou orais anteriores a Paulo, enquanto 1 Clemente 34,8 demonstra que esse tipo de linguagem continuou circulando na tradição cristã antiga (CLIVAZ; SCHULTHESS, 2018).

Isso muda um pouco a maneira como devemos olhar para o problema. Se Paulo e Tomé possuem uma formulação tão próxima, não precisamos necessariamente procurar uma linha reta entre os dois. Podemos, evidentemente, imaginar que Tomé tenha recebido a tradição de Paulo ou que alguma comunidade tenha transmitido a fórmula a partir de Paulo. Mas também podemos imaginar algo muito mais simples: Paulo e Tomé receberam uma tradição que já circulava antes deles. A semelhança deixaria, nesse caso, de ser uma evidência de dependência literária direta e passaria a ser uma pequena janela para a história da transmissão dos ditos de Jesus.

É justamente aqui que Q começa a nos interessar. Não porque possamos colocar Q entre Paulo e Tomé como se tivéssemos encontrado o elo perdido, mas porque Q representa, em nossa investigação, uma terceira testemunha de um fenômeno que parece ter sido bastante amplo no cristianismo primitivo: a circulação de tradições de Jesus em forma de ditos, aforismos, parábolas e ensinamentos sapienciais. É necessário lembrar, naturalmente, que Q não é um documento encontrado. Trata-se de uma reconstrução feita sobretudo a partir do material comum a Mateus e Lucas que não parece derivar de Marcos. Ainda assim, a quantidade de correspondências entre o material reconstruído de Q e Tomé é suficientemente expressiva para que o problema não possa ser simplesmente descartado.

Tomemos alguns exemplos. Tomé 54 diz: “Bem-aventurados os pobres, porque vosso é o Reino dos céus”, aproximando-se de Q 6,20. Tomé 69 preserva a tradição dos famintos: “Bem-aventurados os que têm fome, porque o ventre daquele que deseja será saciado”, em paralelo com Q 6,21. Tomé 34 apresenta a imagem do cego guiando outro cego, correspondente a Q 6,39. Tomé 26 conserva a conhecida imagem do cisco e da trave, em paralelo com Q 6,41-42. Tomé 20 apresenta a parábola do grão de mostarda, enquanto Tomé 96 preserva a comparação do fermento, ambas encontrando paralelos no material reconstruído de Q. A ovelha perdida aparece em Tomé 107 e em Q 15,3-7. Poderíamos acrescentar outros exemplos. Não significa que todos esses paralelos tenham necessariamente a mesma história. Significa apenas que Tomé e Q compartilham uma quantidade suficientemente grande de material para tornar plausível a existência de tradições comuns ou, pelo menos, de ambientes tradicionais muito próximos.

Mas aqui aparece uma dificuldade que considero decisiva. Se Tomé tivesse simplesmente utilizado Q, seria necessário explicar por que desmontou de maneira tão sistemática a organização que reconstruímos para essa fonte. Q, tal como aparece na reconstrução tradicional, possui agrupamentos relativamente reconhecíveis; Tomé, ao contrário, apresenta 114 logia dispostos em uma sequência bastante diferente. Poderíamos, evidentemente, imaginar que o redator de Tomé tenha desmontado deliberadamente uma coleção anterior. Mas também é possível que ambos os documentos tenham utilizado tradições que já circulavam de maneira independente. Helmut Koester chegou a considerar a possibilidade de uma relação entre Tomé e uma forma anterior de Q, mas a dificuldade de demonstrar dependência literária direta permanece considerável. O problema, portanto, não é simplesmente descobrir “quem copiou quem”, mas reconstruir, na medida do possível, como essas tradições circularam antes de serem organizadas nos documentos que chegaram até nós.

É nesse ponto que Paulo precisa voltar para o centro da investigação. As cartas paulinas são anteriores à forma final de Tomé e, naturalmente, anteriores aos evangelhos de Mateus e Lucas. As cartas autênticas de Paulo pertencem, em geral, às décadas de 50 e 60 do século I. O Evangelho de Tomé, em sua forma final, costuma ser situado posteriormente, ainda que numerosos pesquisadores reconheçam que parte significativa de seu material possa remontar a tradições bastante antigas. Isso significa que a pergunta “Paulo conheceu Tomé?” precisa ser formulada com alguma cautela. Se estamos falando do texto de Tomé que possuímos hoje, a resposta provavelmente será negativa ou, no mínimo, impossível de demonstrar. Mas se estamos perguntando se Paulo conhecia algumas das tradições posteriormente preservadas em Tomé, a questão muda completamente de natureza.

E aqui encontramos outro elemento particularmente interessante. Em 1 Coríntios 1–4, Paulo enfrenta um grupo da comunidade que parece possuir uma concepção muito peculiar de sabedoria, conhecimento e status espiritual. A ironia paulina chega ao seu ponto máximo quando escreve:

“Já estais saciados! Já vos tornastes ricos! Sem nós, vos tornastes reis! E prouvera que vos tivésseis tornado reis, para que também nós pudéssemos reinar convosco! Pois me parece que Deus nos expôs, a nós, apóstolos, em último lugar, como condenados à morte, porque nos tornamos espetáculo para o mundo, para os anjos e para os homens.” (1Cor 4,8-9).

É difícil não perceber aqui uma tensão entre duas concepções diferentes da condição cristã. Os coríntios parecem imaginar que já alcançaram uma condição de plenitude; Paulo responde ironicamente que eles já estão “saciados”, “ricos” e “reinando”. Quando colocamos esse texto ao lado de Tomé 2, a aproximação se torna curiosa:

“Aquele que busca não pare de buscar até que encontre; e quando encontrar, ficará perturbado; depois maravilhar-se-á e reinará sobre o Todo.”

Não precisamos transformar essa semelhança em identidade teológica. Paulo não é Tomé, e Tomé não é Paulo. Mas encontramos, em ambos, um vocabulário no qual busca, conhecimento, descoberta, sabedoria e reinado aparecem associados. É justamente esse tipo de aproximação que levou Stevan Davies a considerar a possibilidade de que determinados adversários de Paulo em Corinto estivessem operando com tradições de ditos de Jesus semelhantes às que posteriormente encontramos em Tomé, hipótese que foi posteriormente discutida por Stephen Patterson. O interesse dessa proposição não está em afirmar que os coríntios possuíam um “Evangelho de Tomé”, mas em perguntar se determinados ambientes cristãos anteriores à redação dos evangelhos já trabalhavam com coleções de palavras atribuídas a Jesus (DAVIES; PATTERSON).

A hipótese é ainda mais interessante quando observamos 1 Coríntios 2. Paulo fala de uma “sabedoria de Deus, misteriosa e oculta”, destinada àqueles que possuem o Espírito. E então encontramos novamente a fórmula:

“Mas anunciamos uma sabedoria de Deus, misteriosa, escondida, que Deus, antes dos séculos, de antemão destinou para a nossa glória. Nenhum dos príncipes deste mundo a conheceu; pois, se a tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória. Mas, conforme está escrito: ‘O que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração do homem não percebeu, isso Deus preparou para aqueles que o amam’.” (1Cor 2,7-9).

Tomé 17, novamente, apresenta:

“Dar-vos-ei o que olho não viu, o que ouvido não ouviu, o que a mão não tocou e o que nunca entrou no coração do homem.”

A proximidade é suficientemente grande para justificar a investigação, mas não suficientemente grande para autorizar uma conclusão apressada. Christopher Tuckett examinou justamente essa relação e mostrou como é difícil estabelecer se Paulo, os coríntios ou a tradição preservada por Tomé representam aqui uma cadeia direta de transmissão. O problema aumenta porque a própria fórmula parece ter uma história anterior e porque tradições semelhantes continuam aparecendo em outros textos cristãos antigos (TUCKETT, 2003).

A meu ver, este é um daqueles casos em que a história da tradição é mais produtiva do que a simples história das fontes. Se dissermos que Tomé depende de Paulo, precisaremos demonstrar essa dependência. Se dissermos que Paulo depende de Tomé, teremos um problema cronológico ainda maior. Mas se admitirmos que ambos podem ter recebido uma tradição anterior, o problema passa a se encaixar em um cenário histórico muito mais plausível. As primeiras comunidades cristãs não precisavam possuir os evangelhos que conhecemos para conhecer palavras de Jesus. Os ditos podiam circular oralmente, em pequenas coleções, em instruções catequéticas, em tradições comunitárias e, eventualmente, em registros escritos que não chegaram até nós.

Isso nos leva novamente a Q. Talvez a maior utilidade de Q para nossa investigação não esteja em imaginá-lo como um livro intermediário entre Paulo e Tomé. Essa seria uma afirmação muito mais forte do que a documentação permite. O interesse de Q está em mostrar que o cristianismo primitivo conheceu uma circulação de tradições de Jesus que não dependia necessariamente de uma narrativa contínua sobre sua vida, paixão e ressurreição. Q, na reconstrução tradicional, é predominantemente uma coleção de ditos, ensinamentos e parábolas. Tomé é também, em grande medida, uma coleção de ditos. Paulo, embora escreva cartas e não um evangelho de palavras de Jesus, demonstra conhecer tradições atribuídas ao próprio Jesus e as utiliza em determinadas situações concretas de suas comunidades.

Nesse sentido, talvez estejamos diante de algo mais antigo do que qualquer um desses documentos. Não necessariamente de um “Evangelho de Ditos” único, perfeitamente organizado e utilizado por todos, mas de um repertório tradicional de palavras de Jesus, transmitido em diferentes comunidades e posteriormente reorganizado segundo necessidades teológicas e literárias distintas. É possível que algumas dessas tradições tenham chegado a Paulo; outras, à tradição que reconstruímos como Q; outras, ainda, ao material utilizado pelo redator de Tomé. É também possível que alguns desses conjuntos tenham se influenciado mutuamente. O que não podemos fazer, a meu ver, é transformar imediatamente qualquer paralelo em dependência.

O próprio Tomé recomenda cautela. Andrea Annese chamou atenção para o caráter estratificado do evangelho e para a dificuldade de tratar seus 114 logia como se fossem provenientes de uma única fonte ou de uma única etapa histórica. Algumas tradições podem ser bastante antigas; outras podem representar desenvolvimentos posteriores; algumas podem possuir paralelos nos evangelhos sinópticos; outras não. Por isso, perguntar simplesmente se “Tomé depende de Paulo” é uma pergunta excessivamente grosseira para um documento tão complexo. A pergunta mais interessante seria outra: quais tradições preservadas em Tomé podem ter circulado antes de sua redação e podem encontrar correspondentes em Paulo, Q ou outras tradições cristãs primitivas?

Essa mudança de pergunta é importante porque nos permite olhar para os paralelos de maneira diferente. Tomé 17 e 1 Coríntios 2,9 não precisam representar dois textos que se copiaram. Podem representar duas testemunhas de uma tradição anterior. Tomé 2 e 1 Coríntios 4,8 não precisam revelar uma dependência literária direta. Podem revelar a existência de um vocabulário sapiencial que circulava em determinados ambientes cristãos. Da mesma maneira, os numerosos paralelos entre Tomé e Q não obrigam a escolher imediatamente entre “Tomé copiou Q” e “Q copiou Tomé”. Pode haver uma tradição anterior, transmitida em diferentes comunidades, que posteriormente foi organizada de maneiras distintas.

Não devemos, contudo, exagerar essa hipótese. Não temos condições de reconstruir uma coleção perdida de ditos e chamá-la de “proto-Tomé”, “proto-Q” ou qualquer outro nome que transforme uma hipótese em documento. O máximo que podemos fazer é observar os paralelos, estabelecer sua qualidade, avaliar sua distribuição e perguntar se determinadas tradições parecem possuir uma história anterior às formas literárias que conhecemos. O rigor, nesse caso, não está em oferecer uma resposta definitiva, mas em saber exatamente até onde a documentação nos permite caminhar.

É justamente por isso que considero mais interessante perguntar se Paulo, Q e Tomé preservam diferentes trajetórias de uma tradição de Jesus do que tentar estabelecer uma linha sucessória entre os três. Não seria:

Paulo → Q → Tomé.

Nem:

Tomé → Paulo.

Seria algo mais próximo de:

tradições de Jesus → diferentes trajetórias de transmissão → Paulo / Q / Tomé.

Essa reconstrução, evidentemente, continua sendo uma hipótese. Mas ela parece historicamente mais adequada ao tipo de documentação que possuímos. Paulo escreve antes de nossos evangelhos; Q é uma reconstrução e não um manuscrito preservado; Tomé, em sua forma final, é posterior, mas reúne materiais cuja antiguidade pode ser bastante desigual. Em lugar de imaginar uma sucessão linear entre documentos, talvez devamos imaginar uma circulação muito mais irregular de tradições, na qual palavras atribuídas a Jesus foram sendo transmitidas, adaptadas, agrupadas e reinterpretadas conforme atravessavam comunidades diferentes.

A questão ganha ainda maior interesse quando lembramos que Paulo nem sempre está interessado em transmitir os ensinamentos de Jesus. Sua preocupação principal é outra: resolver problemas concretos das comunidades que fundou ou às quais escreve. Mesmo assim, em alguns momentos ele recorre explicitamente a uma tradição atribuída ao Senhor. Em 1 Coríntios 7,10, por exemplo, escreve: “Aos casados ordeno, não eu, mas o Senhor...”. Em 1 Coríntios 9,14 afirma: “Assim também ordenou o Senhor aos que anunciam o Evangelho que vivam do Evangelho”. E em 1 Coríntios 11,23 declara: “Com efeito, eu mesmo recebi do Senhor o que vos transmiti”. Paulo, portanto, não desconhece uma tradição de palavras e ações atribuídas a Jesus. A pergunta histórica não é se essa tradição existia. Ela claramente existia. A questão é qual era sua extensão, como circulava e quanto dela sobreviveu nos documentos que possuímos.

É possível, então, que a importância de Tomé esteja justamente em nos permitir enxergar uma parte desse universo tradicional que os evangelhos canônicos não preservaram da mesma maneira. Isso não transforma Tomé em um “quinto evangelho” automaticamente tão antigo quanto Paulo, nem permite atribuir ao seu conjunto inteiro a mesma antiguidade. Mas impede que o tratemos simplesmente como uma elaboração tardia e isolada. A existência de numerosos paralelos com Q e de alguns paralelos particularmente interessantes com Paulo sugere que pelo menos parte de seu material deve ser estudada dentro da história mais ampla da transmissão dos ditos de Jesus.

Ao final, portanto, eu seria bastante cauteloso em afirmar que Paulo conheceu Tomé ou que Tomé dependeu das cartas paulinas. Não temos evidência suficiente para nenhuma dessas duas conclusões. O que temos é algo menos espetacular, mas talvez historicamente mais importante: Paulo, Q e Tomé parecem participar, em diferentes graus e por diferentes caminhos, de um mundo no qual tradições de Jesus circulavam independentemente das formas finais dos evangelhos. Algumas dessas tradições foram incorporadas às narrativas de Mateus e Lucas; outras sobreviveram em Tomé; algumas chegaram às cartas paulinas; outras provavelmente desapareceram.

É possível, portanto, que a verdadeira questão não seja descobrir qual documento veio primeiro, mas perceber que todos eles são apenas testemunhos tardios de uma circulação tradicional muito mais antiga. Nesse sentido, Q não precisa ser o elo perdido entre Paulo e Tomé. Ele pode ser simplesmente mais uma testemunha — ainda que hipotética — de um fenômeno que os três documentos, cada um à sua maneira, deixam entrever: antes que os evangelhos se cristalizassem nas formas que conhecemos, palavras atribuídas a Jesus já circulavam, eram agrupadas, reinterpretadas e utilizadas por diferentes comunidades cristãs.

E talvez seja justamente aí que o pequeno paralelo entre 1 Coríntios 2,9 e Tomé 17 se torne historicamente interessante. Não porque ele prove que Paulo conheceu Tomé, nem porque Tomé seja um desenvolvimento da teologia paulina, mas porque duas tradições tão diferentes preservaram uma formulação suficientemente próxima para nos lembrar de uma coisa muito simples: o cristianismo do século I era maior do que os documentos que sobreviveram. O que hoje chamamos de Paulo, Q, Mateus, Lucas e Tomé são apenas algumas das formas pelas quais uma tradição muito mais ampla chegou até nós. E é precisamente nas pequenas coincidências entre esses documentos que, às vezes, conseguimos perceber alguma coisa da história perdida que existia antes deles.


Referências bibliográficas

ANNESE, Andrea. The Sources of the Gospel of Thomas: Methodological Issues and the Case of the Pauline Epistles (With a Focus on Th 17 // 1 Cor 2:9). Annali di Storia dell'Esegesi, v. 35, n. 2, p. 323-350, 2018.

ANNESE, Andrea. The Gospel of Thomas and Paul: Status Quaestionis, Historical Trajectories, Methodological Notes. In: DESTRO, Adriana; PESCE, Mauro; BERNO, Francesco (org.). From Jesus to Christian Origins: Second Annual Meeting of Bertinoro (1-4 October, 2015). Turnhout: Brepols, 2019. p. 405-427.

ARNAL, William E. The Rhetoric of Marginality: Apocalypticism, Gnosticism, and Sayings Gospels. Harvard Theological Review, v. 88, n. 4, p. 471-494, 1995. DOI: 10.1017/S0017816000031722.

BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.

DAVIES, Stevan L. The Gospel of Thomas and Christian Wisdom. New York: Seabury Press, 1983. A obra é particularmente pertinente porque possui inclusive um capítulo específico sobre Thomas and First Corinthians, além de discutir a estrutura e a tradição sapiencial de Tomé.

KLOPPENBORG, John S. Excavating Q: The History and Setting of the Sayings Gospel. Minneapolis: Fortress Press, 2000.

KOESTER, Helmut. Ancient Christian Gospels: Their History and Development. London; Philadelphia: SCM Press; Trinity Press International, 1990.

PATTERSON, Stephen J. The Gospel of Thomas and Jesus. Sonoma: Polebridge Press, 1993.

PATTERSON, Stephen J. Twice More—Thomas and the Synoptics: A Reply to Simon Gathercole, The Composition of the Gospel of Thomas, and Mark Goodacre, Thomas and the Gospels. Journal for the Study of the New Testament, v. 36, n. 3, p. 251-261, 2014. DOI: 10.1177/0142064X14521947.

TUCKETT, Christopher M. Paul and the Jesus Tradition: The Evidence of 1 Corinthians 2:9 and Gospel of Thomas 17. In: BURKE, Trevor J.; ELLIOTT, J. Keith (ed.). Paul and the Corinthians: Studies on a Community in Conflict: Essays in Honour of Margaret Thrall. Leiden: Brill, 2003. p. 55-73. 




Tema / tradiçãoPauloQ reconstruídoMateusLucasToméRelação principal
Olhos não viram, ouvidos não ouviram1Cor 2,9Possível relação com Q 10,23-24Mt 13,16-17Lc 10,23-24Tomé 17Possível tradição anterior comum
Busca, descoberta e reinado1Cor 1–4; 4,8Tomé 2Afinidade sapiencial
PobresQ 6,20Mt 5,3Lc 6,20Tomé 54Paralelo tradicional
FamintosQ 6,21Mt 5,6Lc 6,21Tomé 69Paralelo tradicional
Perseguição1Cor 4,9-13Q 6,22-23Mt 5,11-12Lc 6,22-23Tomé 68Tradição compartilhada
Regra de reciprocidadeCf. Rm 12,17; 13,8-10Q 6,31Mt 7,12Lc 6,31Tomé 6Paralelo sapiencial
Cego guiando cegoQ 6,39Mt 15,14Lc 6,39Tomé 34Paralelo muito próximo
Cisco e traveQ 6,41-42Mt 7,3-5Lc 6,41-42Tomé 26Paralelo muito próximo
Amar os inimigosRm 12,14.20Q 6,27-28.32-35Mt 5,44-48Lc 6,27-36Tomé 25Afinidade ética
Casa sobre a rochaQ 6,47-49Mt 7,24-27Lc 6,47-49Tradição de ensinamento
Grão de mostardaQ 13,18-19Mt 13,31-32Lc 13,18-19Tomé 20Parábola compartilhada
FermentoQ 13,20-21Mt 13,33Lc 13,20-21Tomé 96Parábola compartilhada
Grande banqueteQ 14,16-24Mt 22,1-14Lc 14,16-24Tomé 64Tradição compartilhada com reelaboração
Ovelha perdidaQ 15,3-7Mt 18,12-14Lc 15,3-7Tomé 107Parábola compartilhada
Sinal de JonasQ 11,29-32Mt 12,38-42Lc 11,29-32Tradição escatológica
LâmpadaQ 11,33Mt 5,15Lc 11,33Tomé 33Dito compartilhado
Árvore e seus frutosQ 6,43-45Mt 7,16-20; 12,33-35Lc 6,43-45Tomé 45Sabedoria proverbial
Mestre e discípuloQ 6,40Mt 10,24-25Lc 6,40Tomé 13Dito sapiencial
Sustento dos pregadores1Cor 9,14Possível tradição de JesusMt 10,10Lc 10,7Paulo atribui o ensinamento ao “Senhor”
Divórcio1Cor 7,10-11Possível tradição de JesusMt 5,32; 19,3-9Lc 16,18Tomé 79?Importante para a história da tradição
Última Ceia1Cor 11,23-26Mt 26,26-29Lc 22,14-20Tradição de Jesus preservada por Paulo



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