Gálatas 1,22: “De acordo que, pessoalmente, eu era desconhecido às igrejas da Judeia que estão em Cristo.”
Atos 7,58: “Lançaram Estêvão fora da cidade e começaram a apedrejá-lo. As testemunhas depuseram os seus mantos aos pés de um moço chamado Saulo.”
Há uma tensão significativa entre as tradições que preservaram a memória dos primeiros anos do movimento de Jesus. De um lado, Paulo, escrevendo às comunidades que reconheciam sua autoridade apostólica, recorda sem qualquer ambiguidade que havia perseguido os seguidores de Jesus. Em suas cartas, porém, não aparece Estêvão, não aparece a cena de seu apedrejamento e não aparece a afirmação de que Paulo estivesse em Jerusalém quando o episódio ocorreu. De outro lado, Atos dos Apóstolos coloca Saulo precisamente no centro dessa cena: aqueles que apedrejam Estêvão depositam suas vestes aos pés do jovem Saulo, que, logo depois, surge como perseguidor da comunidade de Jerusalém (At 7,58–8,3). Mais tarde, no discurso atribuído ao próprio Paulo, a lembrança é retomada: ele afirma ter estado presente quando o sangue de Estêvão foi derramado (At 22,20). A tradição lucana, portanto, não apenas registra uma perseguição. Ela estabelece uma relação entre o primeiro mártir de sua narrativa e aquele que posteriormente será apresentado como um dos principais responsáveis pela expansão da mensagem de Jesus para além de Jerusalém. A pergunta sobre a presença de Paulo na morte de Estêvão é, por isso, apenas o ponto de partida. O problema mais amplo diz respeito à maneira como uma tradição sobre conflito, perseguição e testemunho foi incorporada à memória de Paulo e utilizada para explicar sua transformação de adversário da comunidade em um de seus principais anunciadores.
As cartas paulinas oferecem o primeiro elemento dessa discussão. Paulo afirma em Gálatas que perseguia “desmedidamente” a igreja de Deus e procurava destruí-la (Gl 1,13). Em Filipenses, recorda novamente seu zelo e sua perseguição da igreja (Fl 3,6), enquanto em 1 Coríntios reconhece que havia perseguido a comunidade de Deus (1Cor 15,9). O dado é particularmente importante porque não depende da narrativa de Atos. O próprio personagem conserva a lembrança de sua atuação contra os seguidores de Jesus. Ao mesmo tempo, o silêncio das cartas também precisa ser respeitado. Paulo não relaciona sua perseguição a Estêvão, não menciona os helenistas e não afirma ter participado do episódio que, na narrativa de Lucas, inaugura a grande perseguição em Jerusalém. Temos, portanto, duas tradições que se aproximam, mas não se confundem: a tradição paulina preserva a memória do perseguidor; a tradição lucana associa esse perseguidor à morte de Estêvão.
Essa diferença ganha importância quando observamos a maneira como Atos organiza o episódio. Estêvão aparece no interior de uma comunidade marcada por diferenças entre seus membros e, particularmente, pela presença dos helenistas. A controvérsia em torno desses grupos conduz à escolha dos Sete e, posteriormente, ao conflito que envolve Estêvão. Seu discurso diante de seus adversários não é apresentado como uma simples defesa pessoal. Ele interpreta a própria história de Israel, a relação do povo com Deus, a Lei e o Templo a partir de uma perspectiva que entra em choque com aqueles que o acusam. A violência que culmina em sua morte não surge, portanto, fora de qualquer contexto. Ela aparece dentro de uma disputa pela interpretação da própria tradição de Israel. É nesse momento que Saulo é introduzido. Os que executam Estêvão colocam suas vestes aos pés dele; logo depois, Saulo aparece como aquele que aprova sua morte e participa da perseguição à comunidade (At 7,58–8,3). A relação entre os dois personagens é construída, desde o princípio, dentro de um conflito sobre autoridade, identidade e interpretação.
Esse ponto é decisivo para compreender o lugar de Estêvão na narrativa. Sua morte não representa simplesmente a eliminação de um indivíduo considerado dissidente. Ela manifesta um conflito que atravessa a própria comunidade judaica do período e envolve diferentes interpretações sobre Jesus, sobre a Lei, sobre o Templo e sobre a continuidade da tradição de Israel. O episódio não precisa ser transformado em uma oposição simplista entre “judeus” e “cristãos”. Essa linguagem já pressuporia fronteiras religiosas que ainda estavam em processo de formação. O que encontramos é um universo judaico no qual diferentes grupos disputam a interpretação legítima da tradição e a definição daqueles que pertencem ao povo de Deus. A perseguição promovida por Saulo deve ser compreendida nesse ambiente de disputa.
A presença de Saulo junto à morte de Estêvão ganha, nesse contexto, uma dimensão que ultrapassa o episódio particular. Lucas coloca diante um do outro dois modos de relação com a mensagem de Jesus. Estêvão aparece como testemunha que permanece fiel àquilo que proclama mesmo diante da morte; Saulo aparece como aquele que considera essa proclamação suficientemente ameaçadora para justificar a perseguição de seus adeptos. O paradoxo será completado mais tarde, quando o próprio Saulo abandonar a posição do perseguidor e assumir a condição de testemunha. Aquele que aparece junto aos que eliminam Estêvão será posteriormente apresentado como alguém que sofrerá precisamente por causa da mensagem pela qual Estêvão morreu. A memória do mártir e a memória do perseguidor são, assim, colocadas dentro da mesma história.
É nesse ponto que a tradição lucana adquire sua força particular. A função que o episódio desempenha na trajetória de Paulo não permite decidir se todos os seus elementos correspondem exatamente ao acontecimento original. Mas também não autoriza a conclusão inversa de que, por possuir uma função teológica e literária, o episódio seja necessariamente uma invenção. Tradições antigas podem conservar acontecimentos e, ao mesmo tempo, receber novas interpretações quando passam de uma geração a outra. Podem preservar personagens históricos e reorganizar suas relações para responder às questões de comunidades posteriores. O problema não está em escolher entre “história” e “teologia”, como se fossem categorias mutuamente excludentes. Está em perceber como a memória de um conflito foi reinterpretada à medida que a própria comunidade procurava compreender sua origem e sua identidade.
Essa questão ocupa lugar importante no estudo de Todd C. Penner sobre Estêvão e os helenistas. Penner contesta justamente a tendência de tratar Atos 6,1–8,3 como simples depósito de informações históricas sobre os primeiros tempos da comunidade de Jerusalém. Sua análise chama atenção para a dimensão retórica e historiográfica do relato lucano, para a importância da caracterização das personagens, dos discursos e da própria organização da narrativa. O episódio de Estêvão, nessa perspectiva, precisa ser compreendido dentro da maneira como Lucas constrói uma interpretação das origens cristãs, e não apenas como uma sequência de fatos cuja historicidade possa ser extraída diretamente do texto.
Isso não significa retirar de Atos qualquer valor histórico. Significa reconhecer que Lucas transmite tradições dentro de uma determinada interpretação do passado. O relato sobre Estêvão pode conservar elementos antigos e, ao mesmo tempo, apresentar esses elementos de acordo com uma lógica narrativa e teológica. A questão histórica não desaparece; ela apenas deixa de ser confundida com a aceitação literal de cada detalhe da narrativa.
A introdução de Saulo precisamente nesse momento é particularmente significativa. Ele não aparece inicialmente como alguém exterior ao universo religioso no qual se desenvolve a controvérsia. Ele é apresentado como judeu zeloso, ligado à tradição de seus antepassados e convencido de que a perseguição dos seguidores de Jesus correspondia à defesa dessa tradição (Gl 1,13-14; Fl 3,4-6). O conflito que envolve Estêvão, portanto, não coloca simplesmente dois sistemas religiosos completamente separados em oposição. Coloca diferentes interpretações de Israel em confronto.
É também por isso que a transformação de Paulo não deve ser reduzida a uma mudança individual de crença. O que muda é sua interpretação de Jesus, das Escrituras e da própria tradição de Israel. O antigo perseguidor passa a compreender aquilo que combatia como parte do cumprimento das promessas de Deus a Israel. A trajetória de Paulo é, portanto, inseparável das disputas interpretativas que atravessavam o judaísmo do século I.
Paula Fredriksen insiste justamente na necessidade de situar Paulo nesse universo judaico e apocalíptico, evitando projetar sobre o século I as fronteiras religiosas que se consolidariam posteriormente. Para Paulo, Israel, o Messias e a expectativa escatológica pertencem a um mesmo horizonte histórico e religioso. Sua atividade entre os gentios não nasce da saída de um universo judaico já plenamente separado do cristianismo, mas de uma interpretação particular daquilo que Deus estaria realizando por meio de Jesus.
Essa perspectiva ajuda a compreender também a perseguição. Saulo não aparece como um inimigo externo à tradição judaica, mas como alguém que, precisamente por seu zelo pela tradição, considera necessário combater aqueles que reconhecem Jesus como Messias. O conflito é, portanto, também uma disputa pela legitimidade de determinada interpretação. Estêvão e seus adversários não discutem apenas opiniões religiosas abstratas; discutem quem pode interpretar legitimamente a história de Israel, a Lei, o Templo e a ação de Deus.
É nesse ponto que Estêvão volta a ocupar um lugar decisivo. Seu discurso em Atos 7 apresenta uma interpretação da história de Israel na qual Deus não pode ser reduzido ao Templo e na qual os próprios enviados de Deus são repetidamente rejeitados por seu povo. O argumento é construído a partir da tradição de Israel, e não contra ela. Estêvão reivindica para si uma determinada interpretação dessa tradição e, ao fazê-lo, entra em conflito com aqueles que sustentam outra interpretação. Sua morte é, portanto, também o resultado extremo de uma disputa sobre autoridade religiosa.
A relação entre Estêvão e Saulo aparece ainda mais claramente quando observamos a unidade formada por Atos 7,54–8,3. Petr Mareček chama atenção justamente para essa passagem e para a maneira como Estêvão e Saulo são colocados em relação dentro da narrativa. Em sua leitura, Estêvão funciona como modelo de discipulado e testemunho, enquanto Saulo pode ser compreendido como aquele que posteriormente dará continuidade à missão que o mártir representa. O vínculo entre os dois personagens, portanto, não é apenas cronológico. Estêvão antecipa aspectos da trajetória que posteriormente será atribuída a Paulo.
A inversão é significativa. Saulo começa como perseguidor de Estêvão e termina como testemunha de Jesus. Aquele que está associado à morte do mártir será posteriormente apresentado como alguém que sofre e morre por causa da mesma mensagem. O episódio, desse modo, funciona como uma passagem entre duas posições dentro da mesma história: perseguidor e perseguido, adversário e testemunha, aquele que silencia e aquele que anuncia.
Shelly Matthews chama atenção para outra dimensão desse processo ao analisar Estêvão como figura de martírio. Sua leitura coloca a morte de Estêvão em relação com a construção da identidade da comunidade e com a maneira como Atos apresenta o mártir como modelo de testemunho. Para Matthews, a perícope de Estêvão desempenha papel importante na maneira como a narrativa lucana apresenta a identidade cristã e sua relação com o judaísmo. A presença de Saulo nesse momento torna a relação ainda mais expressiva: o futuro apóstolo encontra-se diante daquele que representa precisamente o tipo de testemunho que ele próprio será chamado a encarnar.
Essa leitura não exige que a tradição sobre Saulo seja considerada uma invenção. A tradição pode ter preservado uma memória antiga sobre sua participação na perseguição e, posteriormente, Lucas pode ter integrado essa memória a uma construção narrativa mais ampla. Também é possível que a associação entre os dois personagens tenha sido estabelecida antes da composição de Atos. O que a fonte permite afirmar com segurança é que, para Lucas, Estêvão e Saulo pertencem à mesma história de conflito, perseguição e transformação.
O ambiente dos helenistas torna a existência de conflitos desse tipo historicamente compreensível. Atos apresenta uma comunidade de Jerusalém internamente diversificada, na qual diferenças linguísticas e culturais aparecem associadas a diferentes grupos. Estêvão ocupa posição importante nesse ambiente, e sua atuação provoca uma reação que ultrapassa a disputa interna. Martin Hengel atribuiu grande importância ao judaísmo helenístico e à presença dos helenistas para a compreensão das transformações ocorridas no movimento de Jesus e de sua posterior expansão. Seu estudo de Atos também insiste na necessidade de levar a sério a obra como fonte histórica, sem ignorar seus problemas de transmissão e composição.
O contexto, portanto, torna plausível a existência de conflitos entre grupos diferentes dentro da comunidade de Jerusalém. Mas contexto e acontecimento não são a mesma coisa. A plausibilidade do cenário não confirma automaticamente cada detalhe transmitido pela narrativa. Essa distinção é particularmente importante quando chegamos à presença de Saulo junto ao apedrejamento.
Há ainda uma tensão significativa em Gálatas. Depois de relatar sua ida a Jerusalém e seu encontro com Cefas, Paulo afirma que era pessoalmente desconhecido às igrejas da Judeia que estavam em Cristo (Gl 1,18-22). O objetivo de Paulo é defender a independência de sua missão e mostrar que não recebeu seu evangelho dos dirigentes de Jerusalém. Não seria adequado transformar essa afirmação numa autobiografia completa de seus anos anteriores. Ainda assim, ela cria uma tensão com a imagem de Saulo apresentada em Atos. Se ele já fosse amplamente conhecido nas comunidades da Judeia por sua participação numa perseguição pública e pela morte de Estêvão, seria necessário explicar como essa notoriedade poderia coexistir com a afirmação de que as igrejas da Judeia não o conheciam pessoalmente.
Essa tensão não destrói a tradição lucana. Mas impede que as duas fontes sejam simplesmente fundidas numa única biografia. Paulo afirma sua perseguição; Lucas lhe dá um cenário concreto. Paulo fala do perseguidor; Lucas o coloca junto ao mártir. Paulo não menciona Estêvão; Lucas transforma Estêvão em uma figura decisiva para a introdução de Saulo na narrativa. A tradição paulina e a tradição lucana convergem em torno da perseguição, mas não oferecem exatamente a mesma memória sobre ela.
Essa diferença também explica por que a repetição da presença de Saulo em Atos precisa ser compreendida dentro da própria tradição lucana. Saulo aparece junto às testemunhas em Atos 7,58; sua aprovação da morte de Estêvão é afirmada em Atos 8,1; e sua presença é novamente recordada em Atos 22,20. A insistência mostra a importância que essa associação possuía para Lucas. Mas três referências dentro da mesma obra não constituem três testemunhos independentes. A repetição fortalece a posição do episódio dentro da tradição lucana; não cria uma confirmação externa.
Esse ponto é importante porque a tradição sobre Estêvão não precisa ser aceita ou rejeitada em bloco. Ela pode preservar uma memória antiga e, simultaneamente, apresentar essa memória de acordo com uma determinada interpretação do passado. A função teológica do episódio não o transforma automaticamente em ficção; sua antiguidade também não transforma automaticamente todos os seus detalhes em fato histórico.
O mesmo princípio deve ser aplicado à tradição sobre a formação de Paulo. Atos o apresenta como judeu de Tarso, criado em Jerusalém e instruído aos pés de Gamaliel (At 22,3). Nas cartas, Paulo enfatiza sua pertença a Israel, sua condição de fariseu e seu zelo pela tradição de seus antepassados (Fl 3,4-6; Gl 1,13-14). A ausência de Gamaliel nas cartas não permite rejeitar automaticamente a informação lucana, mas também não permite tratá-la como informação confirmada pelo próprio Paulo. A diferença entre as tradições precisa ser preservada.
A questão de Estêvão é ainda mais delicada porque o personagem ocupa um lugar estratégico na narrativa de Lucas. Sua morte encerra sua trajetória, mas desencadeia uma nova fase da história. A perseguição dispersa os seguidores de Jesus; a mensagem começa a ultrapassar Jerusalém; e Saulo surge como um dos principais agentes da repressão. Pouco depois, o próprio perseguidor será transformado em missionário. A morte de Estêvão, portanto, funciona como ponto de passagem entre duas etapas da história do movimento.
É nesse sentido que a relação entre Estêvão e Paulo se torna maior que a pergunta sobre a presença física do segundo no momento da execução. Estêvão representa o testemunho levado até a morte; Saulo representa inicialmente a força que procura interrompê-lo. A tradição lucana une os dois para mostrar uma inversão: aquele que combate a mensagem torna-se seu anunciador; aquele que participa da perseguição passa a experimentar a perseguição; aquele que está ao lado dos que matam o mártir passa a ocupar o lugar do testemunho.
Não é necessário afirmar que Lucas tenha criado deliberadamente toda essa relação para reconhecer sua importância. O texto que chegou até nós já apresenta Estêvão e Saulo como personagens ligados por uma mesma sequência de acontecimentos. A questão histórica consiste em saber quanto dessa relação remonta ao acontecimento e quanto resulta da transmissão e organização posterior da tradição. Nesse ponto, a cautela é necessária, mas ela não deve impedir a interpretação.
As fontes, afinal, não colocam todas essas informações no mesmo plano. A perseguição de Paulo é afirmada pelo próprio Paulo e aparece em diferentes cartas. A perseguição em Jerusalém e a associação de Saulo à morte de Estêvão pertencem à tradição de Atos. Sua presença no momento do apedrejamento é uma afirmação explícita de Lucas, retomada posteriormente na narrativa. O que não possuímos é uma fonte independente que confirme essa presença.
A tradição é forte como tradição; é menos forte como prova independente do acontecimento.
Essa distinção permite evitar dois extremos. O primeiro seria transformar Atos em uma espécie de ata dos acontecimentos, aceitando cada detalhe de sua narrativa como registro direto do passado. O segundo seria descartar o episódio simplesmente porque ele desempenha uma função literária e teológica evidente. Nenhuma das duas posições é necessária. A tradição pode ser historicamente significativa justamente porque preserva, transmite e interpreta simultaneamente uma memória do passado.
Nesse sentido, o problema de Estêvão também ilumina a própria formação da memória cristã. As primeiras comunidades não transmitiram apenas ensinamentos. Transmitiram conflitos, mortes, perseguições, experiências de pertencimento e disputas pela interpretação da tradição. Estêvão é lembrado porque morreu como testemunha; Saulo é lembrado porque perseguiu aqueles que testemunhavam. Posteriormente, a memória dos dois será integrada numa mesma história de transformação.
Paulo, portanto, pode ter presenciado a morte de Estêvão. Atos afirma que estava presente; as cartas de Paulo confirmam que ele perseguiu os seguidores de Jesus, mas não confirmam sua presença no martírio. Não possuímos outra fonte independente que permita elevar a afirmação lucana ao nível de certeza histórica. A conclusão mais responsável é reconhecer a tradição, compreender o contexto em que ela se insere e preservar a diferença entre aquilo que é diretamente atestado e aquilo que permanece plausível.
Mas essa incerteza não diminui a importância do episódio. Ao contrário, ela permite perceber por que a tradição de Estêvão foi tão significativa para a memória de Paulo. Estêvão e Saulo são apresentados como duas posições sucessivas dentro de uma mesma história de conflito e transformação. Um morre testemunhando; o outro começa perseguindo e termina testemunhando. Aquele que estava entre os perseguidores será transformado em perseguido. O homem que combatia a mensagem passará a anunciá-la.
Talvez nunca possamos saber com segurança se Paulo estava fisicamente diante de Estêvão quando ele morreu. Podemos, entretanto, compreender por que a tradição lucana fez questão de colocá-lo ali. Ao fazê-lo, Lucas não apenas situa um personagem diante de uma execução. Ele coloca o futuro apóstolo diante do testemunho que, posteriormente, será chamado a reproduzir com a própria vida. A morte de Estêvão torna-se, assim, uma espécie de limiar narrativo: encerra a história de um testemunho e abre a história de outro.
Estêvão morreu como testemunha. Saulo começou como perseguidor. Na tradição que chegou até nós, os dois acabam unidos pela mesma história. É nessa inversão que o episódio ultrapassa a pergunta sobre onde Paulo estava quando Estêvão morreu. A questão passa a ser outra: como uma comunidade que nasceu em meio a disputas pela interpretação da tradição de Israel construiu a memória de sua própria transformação. E, nesse processo, o perseguidor e o perseguido acabam pertencendo à mesma memória.
Referências
BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus.
FREDRIKSEN, Paula. Paul: The Pagans' Apostle. New Haven: Yale University Press, 2017. A obra foi publicada pela Yale University Press e está indexada no catálogo acadêmico da Oxford University Press.
HENGEL, Martin. Acts and the History of Earliest Christianity. Philadelphia: Fortress Press, 1979. A obra trata, entre outros temas, de Atos como fonte histórica, da comunidade de Jerusalém e do método histórico-crítico.
MAREČEK, Petr. Stephen and Saul of Tarsus in Acts 7:54–8:3. Śląskie Studia Historyczno-Teologiczne, v. 51, n. 2, p. 329-344, 2018. DOI: 10.31261/SSHT.2018.51.2.07.
MATTHEWS, Shelly. Perfect Martyr: The Stoning of Stephen and the Construction of Christian Identity. New York: Oxford University Press, 2010. A obra examina Estêvão, o martírio e sua função na construção da identidade cristã em Atos.
PENNER, Todd C. In Praise of Christian Origins: Stephen and the Hellenists in Lukan Apologetic Historiography. London: T&T Clark International, 2004. A pesquisa de Penner aborda especificamente Estêvão, os helenistas e a dimensão retórica e historiográfica de Atos 6,1–8,3.
24 comentários:
Acho que ele não era conhecido pq não era "crente' rsrsrsrs
Acho que foi nesse sentido que ele kis falar
Olá Edilene!
Se Paulo estivesse em Jerusalém, devassando as casas à procura de cristãos, tenha certeza que ele seria muito bem conhecido por eles!
O contexto da afirmação de Gálatas nos dá um panorama mais amplo:
em 13, ele mesmo confessa:"com que arrebatamento eu persegui a Igreja de Deus e procurava destruí-la" - atesta a favor da captura de cristãos - não-cidadãos romanos pobres e de uma "seita exótica" que poderiam ser transportados por questões internas dos judeus além das formalidades legais - se hoje a burocracia tem seus furos, imagine antes. Também, "eu progredia no judaísmo, ultrapassando a maioria dos da minha idade e raça por meu zelo transbordante pelas tradições dos meus pais" - atesta a favor da probabilidade de educação rabínica, inclusive por Gamaliel.
A seguir, 3 anos depois (da conversão) subi à Jerusalém para conhecer Cefas e fiquei 15 dias com ele (...). Mas o meu rosto era desconhecido das igrejas de Cristo que ESTÃO NA JUDÉIA; elas tinham simplesmente ouvido dizer: "Aquele que outrora NOS perseguia anuncia agora a fé que então destruía". Ou seja, elas o desconheciam enquanto converso e pregador do Evangelho, sabendo apenas de ouvir que seu antigo perseguidor era evangelizador agora.
A menção de pensadores helênicos é também atestada em outros escritos de Paulo.
As próprias variações nos relatos de Lucas mostram que antes de se ater à apologética e hagiografia de preocupações estéticas primariamente, ele sim, tinha preocupação com a perspectiva da correspondência e fundacional das descrições (incluindo a acuradíssima ambientação geográfico-histórica atestada cada vez mais pela arqueologia - que Koester discute pouco); de outra forma estariam iguais e muito harmonizados - a realidade, em jornalismo e criminalística, e testemunhos nos juris, mostra que sim, estes relatos com comoções possuem nos seus depoimentos variações periféricas em torno de um núcleo estrutural, o normal de se esperar a não ser para quem se esforça em harmonizar.
Não há discrepâncias excludentes entre as apresentações do pensamento de Paulo e suas epístolas. O que pode ter diferença com alguma passagem, encontraria pontos de contato em outras, variando de cartas - o que acontece mesmo tirando de fora Atos. As cartas revelam que Paulo não era alguém de repetir uma coisa só, mas com um pensamento visionário amplo que tinha implicações coerentes para assuntos e questões diferentes com que estava lidando. E Atos registra mais seus discursos de evangelismo, inclusive progressão e mudança de acordo com as experiências vividas, do que catequese e polemizações a já convertidos ( e casa bem com seu relato de mudança no teor da pregação, para o "somente Cristo, e Cristo crucificado", se enxergarmos a fase anterior no discurso do Aerópago e seu pouco sucesso.
Logo, considero que há probabilidades muito consideráveis para se corresponder a um discurso real; mais ainda para o fato de tal ter ocorrido.
Koester é muito culto mas pouco cuidadoso com sua crítica extremamente excessiva, às vezes ele cai em um extremismo - e nã vejo coincidência na proporção em que ele "desautentica" fontes canônicas e "autentica" não-canônicas mais tardias; e não é apenas com Atos.
Um outro ponto: é possível, não confirmado, que João Marcos, e mais ainda o escritor joanino, possam ter conhecido Jesus. Não é fato que não conheceram.
Se o livro esta dizendo é pork é verdade!!!
Discordei deste koester, só traz confusao parA os cristãos, a história diz que Lucas foi discipulo de paulo e ele diz que Lucas nao o conheceu. Bem como fala que João Evangelista não conheceu Jesus .
Perfeito! Perfeito! Muito bom mesmo! Glorias ao Deus Altíssimo que sempre usa um vaso dEle de honra pra confundir os que se acham sabios. São muitos infiltrados querendo deturpar a palavra do Senhor pra destruir a salvação de tantos outros. A paz!
Crente é assim, a escritura se interpreta por conveniência...
Quando paulo da testemunho e diz que nao foi pra judeia, é fato ,mas o detalhe é o testemunho da conversao ,quando consentiu na morte de Estevam e ele assoala a igreja depois da morte de Estevam ele nao era ainda convetido lembra da carte que ele pede aos religiosos par prender a igreja e trazer para jerusalem. testemunho em galatas ja e na conversao e nao a perseguissao.
Ele nao vai a Jerusalem ja convertido quando nao convertido ele ainda estava em jerusalem
Também acredito que ele tenha ido a Jerusalém não convertido, "então após nascer o novo homem, ele fala de não ainda ter ido lá"
Paulo afirma que nunca esteve na Judeia não em Jerusalém
Por que a morte de Estêvão foi em Jerusalém k
Em galatas 2 v 1 paulo fala sim que subiu outra vez depois de 14 anos ,isto quer dizer que ele assume ter ido sim a 14 anos atraz ,no capítulo 1 e versiculo 22 paulo fala que nao era conhecido e nao que nunca tinha ido em jerusalem
Atos 7:54-8:8 Nova Versão Internacional (NVI-PT)
O Apedrejamento de Estêvão
54 Ouvindo isso, ficaram furiosos e rangeram os dentes contra ele. 55 Mas Estêvão, cheio do Espírito Santo, levantou os olhos para o céu e viu a glória de Deus, e Jesus em pé, à direita de Deus, 56 e disse: “Vejo os céus abertos e o Filho do homem em pé, à direita de Deus”.
57 Mas eles taparam os ouvidos e, dando fortes gritos, lançaram-se todos juntos contra ele, 58 arrastaram-no para fora da cidade e começaram a apedrejá-lo. As testemunhas deixaram seus mantos aos pés de um jovem chamado Saulo.
59 Enquanto apedrejavam Estêvão, este orava: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito”. 60 Então caiu de joelhos e bradou: “Senhor, não os consideres culpados deste pecado”. E, tendo dito isso, adormeceu.
8 E Saulo estava ali, consentindo na morte de Estêvão.
A Perseguição e a Dispersão da Igreja
Naquela ocasião desencadeou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém. Todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judéia e de Samaria. 2 Alguns homens piedosos sepultaram Estêvão e fizeram por ele grande lamentação. 3 Saulo, por sua vez, devastava a igreja. Indo de casa em casa, arrastava homens e mulheres e os lançava na prisão.
Filipe em Samaria
4 Os que haviam sido dispersos pregavam a palavra por onde quer que fossem. 5 Indo Filipe para uma cidade de Samaria, ali lhes anunciava o Cristo. 6 Quando a multidão ouviu Filipe e viu os sinais miraculosos que ele realizava, deu unânime atenção ao que ele dizia. 7 Os espíritos imundos[a] saíam de muitos, dando gritos, e muitos paralíticos e mancos foram curados. 8 Assim, houve grande alegria naquela cidade.
Em galatas 2 v 1 paulo fala sim que subiu outra vez depois de 14 anos ,isto quer dizer que ele assume ter ido sim a 14 anos atraz ,no capítulo 1 e versiculo 22 paulo fala que nao era conhecido e nao que nunca tinha ido em jerusalem
Esse texto ficou muito confuso não dá pra entender nada
Na minha opinião Edilene está correta; corroborando, um único versículo não inviabiliza outros versículos. Está equivocado a interpretação acima mencionado.
Se olhar-mos no versículo 23 de galatas ,ele vai dizer somente tinha ouvido dizer.aquele que antes nos persiguia, agora anuncia a fé que autrora procurava destruir.
Vs:1 cp2. Depois passado 14 anos subi outra vez a Jerusalém.... Quer dizer q ele já esteve lá como assassino mais agora ele foi como servo de Cristo
Lucas nao conheceu Paulo ? E lógico q conheceu foi ate companheiro de viagem dele ! E se converte em Troades quando eunuco caiu do telhado.
Na verdade queremos compreender algo na Bíblia por força das nossas vontades nunca poderemos entender por mais que estudamos profundamente a palavra de Deus por mais que queremos entender jamais entenderemos porque na verdade a Bíblia ela é uma profecia e o senhor fala através dela da maneira que ele quiser muitos entende de uma maneira e entende de outra mas na verdade só o espírito santo que pode definir no coração de cada um a sua vontade
Que possamos buscar de Deus o dom do espírito santo . Porque só ele pode traduzir em nossas corações o verdadeira profecia que está em nossas mãos que a bíblia amém
Em galatas ele não está dizendo que nunca tinha ido a Jerusalén, essa ida dele aí, é depois da conversão, antes ele estudou em Jerusalen, com o maior mestre da lei, Gamaliel, ele estava sim na morte de estevao, Ele fazia parte do Sinédrio, que era uma suprema corte dos Judeus!
Coloque virgulas, para entendermos melhor, o que você quer dizer meu querido.
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