terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Revertendo o Genesis - A Psicnálise


Esta série nasceu de uma tentativa de “repensar” o Gênesis a partir de pontos de vista diversos, realizando algumas releituras que não pretendem substituir a interpretação religiosa tradicional, mas experimentar outras possibilidades de compreensão da narrativa. Nesta primeira incursão, a proposta é utilizar fundamentalmente a psicanálise como instrumento de leitura. Não se trata, portanto, de perguntar se o relato de Adão e Eva aconteceu literalmente, nem de reconstruir aquilo que seus autores históricos teriam pretendido afirmar. Tomarei a narrativa em seu caráter mítico, isto é, como uma construção simbólica capaz de organizar experiências fundamentais da existência humana. O mito de fundação não precisa ser historicamente verdadeiro para ser psicologicamente verdadeiro. Ele pode condensar, em imagens, conflitos que pertencem à experiência humana: nascimento, separação, desejo, culpa, vergonha, perda, desamparo e busca de retorno. Nesse sentido, talvez seja possível “reverter” o Gênesis: em vez de começar pela ideia de que o homem perfeito caiu em decorrência do pecado, podemos perguntar se aquilo que chamamos de “queda” não poderia representar, simbolicamente, o nascimento de uma consciência que jamais poderá voltar à condição anterior à sua própria constituição.

A narrativa de Adão e Eva é, evidentemente, um mito de fundação. Ela procura responder a algumas das perguntas mais elementares e mais difíceis que podem ser formuladas por uma comunidade humana: de onde viemos? Por que trabalhamos? Por que sentimos dor? Por que existe a morte? Por que existe a vergonha? Por que desejamos aquilo que não podemos possuir? E, sobretudo, por que o mundo humano parece marcado por uma ruptura que não conseguimos reparar? A tradição judaico-cristã posteriormente desenvolveu a partir dessa narrativa uma complexa doutrina do pecado original, mas a imagem que sustenta essa construção teológica é anterior à formulação doutrinária: existe um jardim, existe uma proibição, existe uma árvore, existe um fruto, existe uma transgressão e, depois dela, existe uma transformação radical na experiência que o ser humano possui de si mesmo. O ponto que me interessa está justamente nessa transformação. O texto diz que Adão e sua mulher estavam nus e não sentiam vergonha; depois de comerem o fruto, “abriram-se os olhos dos dois” e perceberam a própria nudez. Essa pequena alteração narrativa talvez contenha uma das mais poderosas imagens acerca do nascimento da consciência: eles não apenas passam a saber alguma coisa sobre o mundo; passam a olhar para si mesmos de outra maneira.

É nesse ponto que a psicanálise pode oferecer uma chave particularmente fecunda. Não porque Freud, Lacan ou qualquer outro autor psicanalítico tenha autoridade para determinar o “verdadeiro significado” do Gênesis, mas porque a teoria psicanalítica construiu uma linguagem especialmente poderosa para pensar a relação entre desejo, falta, proibição, culpa, corpo, consciência e retorno. Freud mostrou que o sujeito humano não é senhor absoluto de sua própria vida psíquica; há desejos, conflitos e determinações que escapam à consciência. Mais importante para nossa leitura, porém, é a maneira como a psicanálise pensa a passagem de uma satisfação imediata para uma realidade organizada por limites, perdas e interdições. Em O mal-estar na civilização, Freud descreve a civilização como uma estrutura que exige renúncias pulsionais e produz, simultaneamente, formas de proteção e de sofrimento. O sujeito humano precisa abrir mão de uma satisfação imediata para poder habitar o mundo compartilhado. A cultura protege, mas também interdita; oferece segurança, mas exige renúncia. Essa ambivalência pode nos ajudar a compreender o Éden não como uma simples representação de um lugar geográfico, mas como uma imagem de uma condição imaginária na qual a falta ainda não se tornou o princípio organizador da existência.

É importante fazer aqui uma distinção. Não estou afirmando que o Éden seja o útero materno em sentido literal ou que Freud tenha interpretado a narrativa dessa maneira. Uma leitura desse tipo seria excessivamente simplificadora. O que podemos fazer é aproximar a imagem edênica de uma problemática central da psicanálise: a fantasia de uma condição anterior à falta, à separação e ao desamparo. O ser humano nasce em uma condição de dependência radical. Sua sobrevivência depende de outro ser humano. A satisfação de suas necessidades não está imediatamente sob seu controle. O desenvolvimento psíquico implica, progressivamente, reconhecer a existência de um mundo que não coincide com o próprio desejo. Existe o outro. Existe a ausência. Existe aquilo que não pode ser imediatamente obtido. Existe, portanto, a falta. O Éden pode ser lido simbolicamente como a fantasia de um estado no qual essa falta ainda não se apresenta de maneira consciente. Não seria o útero propriamente dito, mas a representação de uma condição de completude imaginada, de proteção e de ausência de privação. O paraíso, nessa perspectiva, não é simplesmente um lugar que o homem perdeu; é a imagem psíquica de algo que ele deseja recuperar precisamente porque já não possui.

A força dessa interpretação aparece quando observamos o que acontece imediatamente depois da transgressão. O primeiro efeito do fruto não é a fome, nem a dor, nem a morte. É a consciência. “Abriram-se os olhos dos dois.” Essa frase é extraordinariamente importante. Os olhos já existiam; aquilo que muda é o modo como eles percebem. O mundo não necessariamente se transformou. O sujeito que olha para o mundo é que se transformou. Antes, Adão e Eva estavam nus e não se envergonhavam. Depois, percebem a nudez e procuram escondê-la. A nudez, portanto, não é o acontecimento novo. O acontecimento novo é a consciência da nudez. O corpo estava ali desde o princípio; aquilo que surge posteriormente é a capacidade de transformar o próprio corpo em objeto de percepção, julgamento e vergonha. O sujeito passa a observar a si mesmo como se estivesse simultaneamente dentro e fora de si. Essa duplicação é fundamental para a constituição da consciência: já não existe apenas o corpo vivido; existe o corpo observado. Já não existe apenas a ação; existe a ação julgada. Já não existe simplesmente o desejo; existe o desejo submetido à pergunta acerca de sua legitimidade.

É precisamente aqui que a nudez pode ser compreendida como uma das imagens fundamentais da narrativa. Adão e Eva não descobrem simplesmente que possuem corpos. Eles descobrem que podem ser vistos. A vergonha pressupõe um olhar. E, nesse ponto, a aproximação com Lacan se torna particularmente produtiva. A constituição do sujeito não ocorre em isolamento; ela envolve sua entrada em uma ordem simbólica na qual ele passa a existir também a partir do olhar e da palavra do Outro. Não basta possuir um corpo: é necessário ocupar uma posição diante daqueles que nos reconhecem, nos nomeiam, nos julgam e nos desejam. A vergonha nasce quando o sujeito se percebe exposto diante desse Outro. Assim, a passagem “estavam nus e não se envergonhavam” → “perceberam que estavam nus” pode ser lida como uma passagem da existência imediata para uma existência mediada pela consciência e pelo olhar. O homem descobre que pode ser objeto para outro sujeito. E, a partir daí, torna-se impossível viver exatamente como antes.

O que acontece depois é ainda mais significativo: eles se escondem. Não basta perceber a nudez. É necessário ocultá-la. A consciência produz simultaneamente a possibilidade da ocultação. O sujeito que se percebe diante do olhar do outro começa a construir uma distância entre aquilo que é e aquilo que permite que o outro veja. A imagem das folhas de figueira pode ser lida, nessa chave, como a primeira metáfora da fabricação de uma superfície social. O indivíduo passa a administrar aquilo que revela e aquilo que oculta. Surge uma diferença entre o ser e a aparência, entre aquilo que existe e aquilo que pode ser mostrado. O homem deixa de simplesmente estar no mundo e começa a negociar sua presença no mundo. A partir desse momento, existir implica também apresentar-se.

É nesse sentido que a culpa pode ser entendida como algo muito mais complexo do que simplesmente o medo de uma punição externa. O sujeito passa a experimentar uma relação interiorizada com a lei. A proibição já não está apenas diante dele como uma ordem divina; ela passa a operar dentro dele como uma referência diante da qual seus próprios atos podem ser avaliados. Freud dedicou grande parte de sua obra à constituição das instâncias psíquicas responsáveis pela regulação da vida pulsional e moral. O conceito de superego, particularmente, permite compreender como a autoridade externa pode ser progressivamente internalizada, transformando-se em uma instância diante da qual o sujeito experimenta culpa e cobrança. Novamente, não se trata de afirmar que Adão “possui um superego” no sentido clínico da expressão. Trata-se de utilizar a teoria como lente interpretativa. O mito pode ser lido como uma dramatização simbólica de uma passagem fundamental: a lei deixa de ser apenas aquilo que Deus ordena e passa a fazer parte da própria estrutura mediante a qual o sujeito se julga.

E aqui chegamos ao problema que considero mais interessante em toda a narrativa. Adão e Eva tinham consciência do pecado antes de provarem o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal? A pergunta parece quase infantil, mas possui uma dificuldade lógica extraordinária. Se eles não possuíam conhecimento do bem e do mal, como poderiam compreender plenamente que estavam praticando uma transgressão moral? Poderiam, evidentemente, receber uma ordem. Poderiam ouvir uma proibição. Poderiam até obedecer ou desobedecer. Mas a consciência moral daquilo que estavam fazendo é outra questão. Se a árvore é realmente a “árvore do conhecimento do bem e do mal”, então parece haver uma contradição deliberadamente inscrita na própria estrutura da narrativa: como o sujeito pode ser plenamente culpado antes de adquirir aquilo que a própria narrativa diz que ele ainda não possui?

Temos, portanto, duas possibilidades igualmente problemáticas. Se não tinham consciência, então, de fato, não pecaram no sentido moral pleno, pois não faziam real ideia da natureza daquilo que estavam fazendo. Poderíamos dizer que houve desobediência, mas seria necessário perguntar se toda desobediência é necessariamente pecado quando aquele que desobedece ainda não possui consciência moral suficiente para compreender a natureza da transgressão. Se tinham consciência, então o conhecimento do bem e do mal já estava dentro deles, pelo menos em alguma forma, e não foi simplesmente adquirido após comerem o fruto. A árvore não poderia, nesse caso, produzir aquilo que estava absolutamente ausente. Ela teria produzido outra coisa.

E talvez essa terceira possibilidade seja a mais interessante: a árvore não produz simplesmente o conhecimento do bem e do mal; ela produz a consciência reflexiva da própria condição moral. Antes do fruto existe uma regra. Depois do fruto existe um sujeito que sabe que está submetido a uma regra. Antes existe a proibição. Depois existe a culpa. Antes existe a ação. Depois existe a memória da ação. Antes existe o corpo. Depois existe a vergonha do corpo. Antes existe o desejo. Depois existe a necessidade de justificar o desejo. O que se transforma, portanto, não é simplesmente a quantidade de conhecimento disponível ao homem. É a própria estrutura de sua relação consigo mesmo.

A psicanálise permite tornar essa distinção ainda mais radical. O problema não é simplesmente que o homem tenha descoberto que algumas coisas são boas e outras são más. O problema é que ele descobriu que é um sujeito que pode desejar o proibido. A proibição, paradoxalmente, torna o desejo visível. Freud demonstrou em diferentes momentos de sua obra que a relação entre desejo e interdição não é exterior e simples. A lei não apenas limita o desejo; ela também participa de sua constituição. Aquilo que é proibido pode adquirir uma intensidade que não possuía anteriormente. O fruto torna-se objeto de desejo precisamente dentro de um sistema no qual ele foi interditado. O sujeito descobre, então, algo assustador sobre si mesmo: não basta existir uma ordem para que seu desejo se submeta automaticamente a ela.

É possível, então, que o verdadeiro nascimento representado pela narrativa seja o nascimento de um sujeito dividido. O homem passa a existir simultaneamente como aquele que deseja e aquele que julga o próprio desejo. É nesse espaço que a culpa se torna possível. O sujeito não é mais simplesmente aquilo que faz. Ele pode voltar-se sobre aquilo que fez e perguntar: “por que fiz?”. Pode imaginar aquilo que deveria ter feito. Pode desejar ter agido de outra maneira. Pode sentir vergonha do passado e medo do futuro. Pode construir uma narrativa sobre si mesmo. Em outras palavras, torna-se histórico. A consciência transforma o acontecimento em memória e a memória em identidade.

Talvez seja justamente por isso que a expulsão do Éden seja tão importante. O castigo não consiste apenas em perder um jardim. O sujeito perde uma forma de existência. Depois que a consciência se constitui, não existe mais retorno à inconsciência original. A psicanálise conhece muito bem essa impossibilidade. Podemos regredir, fantasiar, repetir, sonhar, criar sintomas e construir inúmeras formas de retorno imaginário; mas não podemos simplesmente voltar a ser aquilo que éramos antes de determinadas experiências fundamentais terem acontecido. O passado pode ser repetido simbolicamente, mas não pode ser restaurado em sua condição original. O desejo de retorno existe justamente porque o retorno é impossível.

É por isso que talvez a busca pelo Éden seja uma das mais persistentes fantasias da humanidade. O homem deseja voltar àquilo que perdeu: à infância, à proteção, à unidade, à inocência, à segurança, à ausência de responsabilidade. Há algo profundamente humano nesse desejo. O problema é que a própria consciência da perda torna impossível a recuperação da condição perdida. Não podemos retornar ingenuamente ao estado anterior porque sabemos que ele existiu apenas enquanto não sabíamos que o havíamos perdido. A consciência transforma a própria nostalgia. Depois que conhecemos a ausência, o objeto perdido passa a existir também como representação psíquica. Não desejamos apenas aquilo que existiu; desejamos a imagem que construímos daquilo que existiu.

Nesse sentido, o retorno ao Éden pode ser compreendido como uma fantasia de retorno à condição anterior à falta. A psicanálise, entretanto, nos obriga a desconfiar desse desejo. A maturidade psíquica não consiste necessariamente em eliminar a falta, mas em aprender a viver com ela. O sujeito não precisa reencontrar um estado de completude absoluta; precisa construir uma relação possível com aquilo que jamais será completamente preenchido. Talvez essa seja uma das diferenças fundamentais entre uma leitura regressiva e uma leitura transformadora da experiência religiosa. A primeira procura restaurar o passado; a segunda procura produzir uma nova forma de existência a partir daquilo que foi perdido.

E é aqui que precisamos reverter o Gênesis.

Talvez o erro fundamental esteja em imaginar que a direção da existência seja necessariamente regressiva. Talvez o objetivo não seja voltar ao jardim. Talvez seja aprender a viver depois dele. O Éden pode ser a infância simbólica da humanidade, mas não pode ser seu destino. O homem que retorna ao Éden precisaria abrir mão justamente daquilo que o tornou humano: a consciência. Precisaria deixar novamente de saber. Precisaria abandonar a responsabilidade, a liberdade, o conflito e o desejo. Precisaria tornar-se novamente aquilo que era antes da ruptura. Mas isso não é possível. O parto dessa consciência já foi feito.

O caminho rumo a Deus, portanto, não precisa ser um caminho de retorno. Pode ser uma ida. Não uma tentativa de recuperar aquilo que foi perdido, mas uma tentativa de compreender aquilo que nasceu da perda. Talvez o Reino de Deus não esteja atrás de nós, no jardim abandonado, mas diante de nós — ou, mais radicalmente, no meio de nós. A transcendência não precisaria significar a restauração de uma condição pré-consciente. Poderia significar a transformação da própria consciência.

A grande ironia do Gênesis seria então esta: o acontecimento que a tradição chamou de “queda” pode ser também interpretado como o momento em que o homem começou efetivamente a tornar-se aquilo que é. A expulsão produz o mundo humano. O trabalho, a dor, a sexualidade, a morte, a responsabilidade, a vergonha, o desejo e a consciência aparecem no mesmo horizonte. O homem perde a inocência, mas ganha a possibilidade de escolher. Perde a proteção absoluta, mas encontra a liberdade. Perde a completude imaginária, mas descobre o desejo. Perde o Éden, mas entra na história.

Talvez o pecado original não seja apenas o nascimento da culpa.

Talvez seja o nascimento da consciência de existir.

E talvez a salvação não consista em apagar essa consciência para retornar ao princípio, mas em levá-la tão longe que aquilo que originalmente experimentamos como perda possa finalmente transformar-se em possibilidade.

O Éden ficou para trás.

O caminho, agora, é para a frente.

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