segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Quem foi Barrabás? Quem foi Jesus?



É clássica a passagem dos evangelhos na qual Pilatos coloca o prisioneiro Barrabás junto ao lado de Jesus para que os judeus presentes ao julgamento escolhessem qual dos dois seriam libertos, de acordo com uma suposto costume pascoal. O que a maioria das pessoas, no entanto, não sabe é que o nome de Barrabás é Iesus [provavelmente Yeshua em hebraico ou Yeshu em aramaico]. Em português, seu nome seria JESUS.

A problemática, no entanto, fica mais complexa na medida em que:

BAR = FILHO e ABBA = PAI.

Ou seja, este indivíduo era chamado de Yeshua Bar Abbas, ou seja - JESUS FILHO DO PAI.

Ora, mas que crime teria cometido YESHUA BAR ABBAS?

Lucas (23,25) diz que que Yeshua Bar Abbas estava na cadeia por assassinato e sedição. Lucas também afirma que tal revolta havia ocorrido na própria Jerusalém. A informação de Lucas, no entanto, é sofisticada pelo relato de Marcos (15,7) que nos conta que Bar Abbas havia participado de uma revolta junto com outros rebeldes, tendo ocorrido um homicídio nesta revolta. Por fim, João (18,40) nos fiz que tal indivíduo era um bandido.

Ora, quando lemos tal informação de que Bar Abbas era um bandido, tendemos a ligar tal epíteto aos termos atuais. Nada mais longe da verdade. Bandido é um termo bem claro na terminologia usado por Flávio Josefo e se refere a grupos de salteadores eminentemente políticos que assaltavam ricos herodianos, romanos e judeus das casas sacerdotais para posteriormente distribuir suas riquezas entre os camponeses. Costumavam atuar muito na região da Galiléia.

Então agora temos uma melhor idéia sobre este indivíduo chamado JESUS FILHO DO PAI. Ele era um revolucionário que havia participado de uma revolta dentro de Jerusalém. Nesta revolta, uma pessoa havia sido morta.

Yeshua Bar Abbas era pois um preso político de Roma.


Seria absolutamente redundante falar das formas pelas quais o nosso Jesus [Yeshua Bar Yosef] se relacionava com Deus.

Está muito claro a todos nós a íntima relação entre ele [Filho] e Deus [Pai]. Lembre-mos da oração de Jesus no Monte das Oliveiras quando ele fala ao Pai como Abba.

Além disso, vejamos alguns detalhes:

1. Jesus entra em Jerusalém se portando como um messias-rei-davídico. Ele é aclamado povo como o messias esperado.

2. Quando acusado pelo Sinédrio, Jesus afirma ser o messias.

3. Junto ao Templo, Jesus causa tumulto ao expulsar os vendilhões.

4. Jesus atentou para com a estrutura física do Templo [feito por mãos humanas] afirmando destruí-lo e o reconstruir em três dias. Uma ofensa pesada a toda a estrutura sacerdotal saducéia.

5. Jesus se recolheu ao monte das Oliveiras junto com seus discípulos. Lá é verificado um combate entre estes e os soldados. Um dos discípulos de Jesus decepa a orelha de um soldado com a sua espada.



Yeshua Bar Yosef, o nosso JESUS FILHO DE JOSÉ é preso e julgado pelos Romanos como um criminoso político. Causou agitação popular, resistência armada e cometeu um crime gravíssimo dentro LEX JULIA [a legislação romana].

A reinvindicação de ser um rei em uma província romana era um crime de inssurreição e alta traição. O seu cime era o de CRIMEM LASAE MAIESTATIS. Tratava-se de um crime cuja resolução em caso de culpa era o de pena capital.

Ora, os evangelistas nos colocam em uma situação extremamente curiosa.

É mencionado um tal costume de se libertar um preso político no período da páscoa. Tal PRIVILEGIUM PASCHOALE, no entanto, não é mencionado em texto algum outro conhecido além dos evangelhos.

Além disso, temos um problema mais grave. O crime pelo qual Jesus é acusado é um crime de estado. Em caso da confirmação da culpa, Pilatos nunca poderia soltar tal prisioneiro, dado que pela LEX JULIA se tal ocorresse teria ele PILATOS que prestar contas pessoais ao próprio imperador.

Sobre a forma como Pilatos costumava agir, seria interessante atentarmos para o relato de Filo de Alexandria, contemporâneo de Jesus:

Os sete pecados capitais de Pilatos, segundo Filo em seu Legatio ad Gaium:

"sua venalidade, sua violência, sua ladroagem, suas agressões, seu comportamento abusivo, suas execuções frequentes de prisioneiros sem nenhum julgamento, e sua ferocidade selvagem infinita."

Como é possível perceber, a imagem de um Pilatos preocupado e indeciso para com seus prisioneiros está longe de ter sido a realidade.







Mas enfim.... voltemos à nossa problemática.


Supostamente, de acordo com os evangelhos, nos encontramos na frente de dois indivíduos, acusados de crimes políticos:


1. Jesus filho de José
2. Jesus filho do Pai.

Os dois eram líderes de movimentos populares, estavam em Jerusalém na mesma época, causaram agitação popular, participaram de confrontos com as autoridades nos quais houve derramamento de sangue.


E então, a população grita:

"Soltem Bar Abbas! Soltem Bar Abbas!"

SOLTEM JESUS FILHO DO PAI!

SOLTEM JESUS FILHO DO PAI!

SOLTEM JESUS FILHO DO PAI!




O que pensar disso tudo?



O problema que nós temos é grave.

1. Pilatos supostamente não encontrou crime algum em Jesus. Pela LEX JULIA, ele deveria ter sido solto [sem consulta alguma a judeu algum]. No entanto...

2. Jesus, de fato, foi condenado pela lei romana por CRIMEM LASAE MAIESTATIS. O seu crime é bem claro e foi impresso na placa acima da cruz [os crimes em Roma eram expostos em placas para que as pessoas soubessem do que se tratava]. No caso de Jesus - Iesu Nazarenus Rex Iodeorum - Jesus Nazareno Rei dos Judeus.

3. Yeshua Bar Abbas era um líder político envolvido em uma revolta na qual ocorreu um assassinato. Pilatos nunca poderia tê-lo soltado, dado que deveria prestar contas ao Imperador se tal ocorresse.

4. O PRIVILEGIUM PASCHOALE não é atestado em fonte alguma. Tal privilégio nunca existiu e é tão somente uma ficção criada pelo evangelista.

5. A situação completamente absurda chega a um ponto crítico no texto de João 19,16 quando o evangelista diz que Pilatos entregou Jesus para ser crucificado pelos judeus. Isso é um despropósito completo dado que a pena capital judaica era aplicada através do apedrejamento [e não através da cruz]. Ademais, o próprio texto nos revela que foram os romanos que executaram tal pena.

6. Só existem duas possibilidades para tais problemáticas: ou Barrabás é uma ficção literária adotada pelos evangelistas ou...

7. Yeshua Bar Yosef e Yeshua Bar Abbas são a mesma pessoa.




Se assim o for...TUDO MUDA.

A população em Jerusalém, na verdade, clamou a Pilatos para que soltassem o único prisioneiro que ali estava. A população clamou para que soltassem Jesus.
E nada seria mais natural do que isso, dado que Jesus era uma liderança carismática e querida pelas massas populares, tendo entrado em Jerusalém através da aclamação das mesmas como líder messiânico.


* O nome "Jesus Barabbas" é encontrado em grupo reduzido de manuscritos. Neste link encontramos as referências às variantes. A passagem específica se encontra em Mateus 27:16-17:

"27:16-17:
TEXT: "a notorious prisoner, called Jesus Barabbas. . . . release to plyou, Jesus Barabbas or Jesus who is called Christ?"
EVIDENCE: Theta f1 700* syr(s,pal)
TRANSLATIONS: RSVn NEB TEV
RANK: C"


** Orígenes, no século III d.C., já mencionava a presença deste nome em alguns manuscritos do tipo "Cesaréia". A crítica textual opta por essa versão em detrimento das outras. A expressão "Bar Abbas" necessita de um nome anterior. Desta forma, a provável versão original é a que coloca o nome completo "Jesus Barrabás". Confirir a análise textual aqui, bem como nesta outra análise.

*** Os manuscritos que apresentam a versão completa são respectivamente: f1 241* 299** (Q 700* omit TON) sin palmss arm geo2.

1 comentários:

Wagner disse...

OLÁ!
Gostei muito de seu estudo sobre o tema, pois me ajudou a acrescentar no meu trabalho de critica textual.
Porém há comentarista que atribuem o nome Barabás a um filho de um rabí, pois "Abba" também era um titulo dos mestres dos judeus.
Isto encontrei no dicionário Grego de W.C. Taylor - pág 42.
O que você acha?

Obrigado!
WAGNER C. PINA

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