sábado, 1 de novembro de 2008

Pequenos Insights sobre o termo “Filho de Deus”


Coloquei aqui algumas passagens e citações ligadas aos procedimentos de coroação no antigo Israel e as suas ligações com o “Filho de Deus”. A partir destes indicadores iniciais, é possível suscitar uma melhor investigação sobre a atribuição desta expressão a Jesus por parte dos evangelistas sinóticos. A nosso ver, tal expressão possuía uma conotação basicamente ligada à realeza messiânica. Por outro lado, creio ser possível encontrar uma atribuição escatológica do termo utilizada como referência a seres angelicais a partir do século III a.C.


“Lang (2002) propõe que, no ritual de coroação judaica, considerava-se que o rei ascendia ritualmente ao céu, onde, depois do seu nascimento como filho de Deus, ele se reunia na companhia de outros “filhos de Deus”, colocados à direita de Deus, e recebia poder divino. Assim o rei é convidado pelo oráculo divino, cujo sacerdote talvez dissesse: “Senta-te à minha direita” (Salmos 110,1)”


SMITH, Mark. O memorial de Deus: história, memória e a experiência do divino no Antigo Israel. São Paulo: Paulus, 2006, p. 96. A referência é ao livro The Hebrew God: Portrait of an Ancient Deity de Bernhard Lang.

Salmo 110, 1:
“Oráculo de Iahweh ao meu senhor: ‘Senta-te à minha direita, até que eu ponha teus inimigos como escabelo de teus pés.’”



“Nas antigas cerimônias de coroação de Israel, o rei era ungido para mostrar o favor de Deus, enquanto um coral, entoando um dos salmos rituais, proclamava que, ao ser coroado, o rei se tornava representante de Deus, seu ‘filho’ humano. Portanto, ao iniciar seu evangelho dizendo que ‘este é o evangelho de Jesus, o messias, o filho de Deus, Marcos está anunciando que Deus escolheu Jesus para ser o futuro rei de Israel.”


PAGELS, Elaine. Além de toda crença: o evangelho desconhecido de Tomé. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004, p. 50-51.

Tal assertiva de Pagels é baseada no Salmo 2,7:
“Vou proclamar o decreto de Iahweh: Ele me disse: ‘Tu és meu filho, eu hoje te gerei.’”
e o livro de Raymond Brown – The Birth of Messiah.





Manuscrito Qumran 4Q246 [Apocalipse Aramaico]:

“[x]será grande sobre a terra. [Oh Rei, todos (povos) haverão de]fazer[paz], e todos haverão de servi-[lo. Ele será chamado o filho] do [G]rande [Deus], e por este nome será aclamado (como) o Filho de Deus, e o chamarão Filho do Altíssimo.”


Texto segundo SHANKS, Hershel. Um texto inédito dos manuscritos do Mar Morto paralelo à narrativa de infância, de Lucas. In: SHANKS, Hershel (org.) Para compreender os manuscritos do Mar Morto. Rio de Janeiro: Imago, 1993, p. 213.

Lucas 1,32-35 [Bíblia de Jerusalém]:

Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará na casa de Jacó para sempre, e o seu reinado não terá fim. [...] Por isso o Santo que nascer será chamado Filho de Deus.”

A análise de 4q246 tem despertado várias controvérsias no sentido da identificação do protagonista do texto. Flusser e Milik propõe uma interpretação negativa do personagem associando-o a um governante iníquo. Já outros intérpretes associam tendem a associar tal figura a uma liderança messiânica, tecendo correlatos com o texto de Daniel. O artigo de Edward Cook introduz um terceiro texto na análise comparativa – “As profecias Acadianas”, um espécie de manifesto político zoroastrista.

De qualquer forma, o exemplo retirado do manuscrito 4Q246 nos fornece um novo elemento da associação entre o termo “Filho de Deus” com uma realeza de caráter humano. Garcia Martinez, no entanto, de acordo com Cook, postula que tal protagonista poderia ser o arcanjo Miguel.


Melquisedec na estória

Vamos observar agora o núcleo do texto de 11QMelquisedec (11Q13) também encontrado em Qumran:

(...) 6 (...)E isto suce[derá] 7 na semana primeira do jubileu que segue os no[ve] jubileus. E o dia [das expiaçõ]es é o final do jubileu décimo 8 no qual se expiará por todos os filhos de [Deus] e pelos homens do lote de Melquisedec. [E nas alturas] ele se pronun[ciará a seu] favor segundo os seus lotes; pois 9 é o tempo do “ano de graça” para Melquisedec, para exal[tar no pro]cesso os santos de Deus pelo domínio do juízo, como está escrito 10 sobre ele nos cânticos de Davi que diz: “Elohim se ergue na assem[bléia de Deus], em meio aos deuses julga”. E sobre ele diz: “Sobre ela 11 retorna às alturas, Deus julgará os povos”. E o que di[z: “Até quando jul]gareis injustamente e guardareis consideração aos malvados? Selah.”

12 Sua interpretação concerne a Belial e aos espíritos de seu lote, que foram rebeldes [todos eles] apartando-se dos mandamentos de Deus [para cometer o mal]. 13 Porém Melquisedec executará a vingança dos juízos de Deus [nesse dia, e eles serão libertados das mãos] de Belial e das mãos de todos os es[píritos de seu lote]. 14 Em sua ajuda (virão) todos “os deuses de [justiça”; ele] é que[m prevalecerá nesse dia sobre] todos os filhos de Deus, e ele pre[sidirá a assembléia] 15 esta. Este é o dia d[a paz, do qual] falou...


Estaria, pois, tal texto estabelecendo uma ligação com o messias davídico? Aparentemente não. Outros textos da yahad de Qumran ligam Melquisedec com Miguel Arcanjo, como um anjo superior. Os Cantos do Sacrifício do Shabbat sugerem tal possibilidade. Tal Cântico inclusive foi também encontrado na fortaleza de Massada e é um dos pontos que vão contra a idéia de que os textos de Qumran tenham sido eminentemente compostos lá. Já no Pergaminho da Guerra (1QM 13:10; 16:6-8; 17:7), Melquisedec pode ser visto como Miguel. De qualquer forma, devemos atentar no texto em questão para o fato dos "filhos de Deus" se assentarem ao lado de Melquisec no momento do julgamento escatológico. Neste sentido, ligando Melquisedec a uma figura angélica, teríamos a presença de outros anos. Por outro lado, considerando-o como uma liderança sacerdotal atemporal, teríamos outros seres, talvez da mesma ordem, participando deste julgamento.

No entanto, devemos lembrar de duas coisas concernentes ao Novo Testamento:

Em Hebreus, Jesus pertence à Ordem de Melquisedec, mas não é o próprio. De qualquer forma, neste texto Jesus aparece como um ser poderoso, atemporal de perfil sacerdotal. Neste sentido, para o autor de Hebreus, o caráter de messias-rei não é tão ressaltado. A referência se dá muito mais no sentido do messias-sacerdote.

4 comentários:

informadordeopiniao disse...

Flávio,

o termo "Filho de Deus" poderia estar ligado ao termo "Filho do Homem", que aparece em Daniel, que figura Deus atuando no julgamento dos últimos dias?

Naquele tempo eram comuns debates e escritos relacionados a esta profecia de Daniel.

Abraços

Flávio Souza disse...

Você tocou em um ponto muito complexo, Agrodrigons. O próprio Jesus faz referência ao "Filho do Homem". Mas... apesar de normalmente associarmos tal termo diretamente a ele, é possível lermos tais referências a uma segunda pessoa (uma espécie de guerreiro e juiz escatológico outro).

Em uma outra vertente, tal termo pode designar tão somente "alguém que tenha sido filho de um ser humano - de um homem". Como tal expressão normalmente é bem específica, creio que se trata de uma figura especial.

Rodrigo disse...

Pelas passagens, Flávio, Jesus se referia a si, pelo que indica a reação de quem ouvia também.

E se associa, figurativamente, dada a evocação apocalíptica das passagens auto-referentes, à imagem de Daniel 7.13-14

informadordeopiniao disse...

Penso que nas passagens que Jesus menciona o termo em diálogos com os discípulos, sobretudo nas indagações referentes a quem eles pensam que ele é, ele deixa mais claro sua autoreferência como o Filho do Homem, o que é complementado quando ele diz que voltará para julgar os vivos e os mortos,e em outras cartas do N.T. os apóstolos falando o mesmo, e também ele dizendo em outras passagens que o julgamente caberá ao Filho do Homem...

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