segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Sobre o Nascimento de Jesus - Parte I


O natal está chegando! Seria então interessante se pudéssemos tratar um pouco sobre os relatos relacionados ao nascimento de Jesus. Inicialmente devemos falar um pouco sobre o dia 25 em específico. Este dia tem uma chance de 1 em 365 de ter sido o dia no qual Yeshua Bar yosef nasceu. Mas por quê? Porque ninguém faz absolutamente idéia alguma sobre em que dia, realmente, tal evento se deu. O dia 25 foi fixado a partir de tradições religiosas outras dentro do Império Romano. O dia era usado para celebrar o nascimento do Sol Invictus! Neste dia eram celebrados o nascimento de várias divindades associadas ao sol. Jesus acabou entrando neste rol de várias divindades que eram cultuadas neste dia, provavelmente a partir da idéia de "renascimento". Existem algumas controvérsias se de fato Jesus foi associado às divindades solares. É possível se argumentar que a tradição de Jesus é paralela à das divindades solares. De qualquer forma, o importante, no momento é dizer que: dada a total ignorância completa sobre qual foi realmente a data histórica, qualquer dia seria possível. Sendo assim, 25 de dezembro é meramente uma data simbólica e é assim que a devemos compreender.

Vamos agora observar especificamente os relatos sobre o nascimento de Jesus vistos em Mateus e Lucas. A análise destes relatos, de cara, irá nos mostrar alguns pontos complexos e contraditórios. O primeiro problema já complicado aparece nas genealogias de Jesus. Segundo Mateus, José é filho de Jacó (Mt 1,16). Já para Lucas, José é filho de Eli (Lc 3,24). E a discordância na lista não termina aí. Experimente colocar em paralelo e verá (De Davi a José as duas listas só tem 2 nomes em comum). Ademais, qual é o real interesse em se falar sobre a árvore genealógica masculina de Jesus se José, de fato, não é o pai dele?

Os problemas, no entanto, só começaram. No relato de Mateus, José e Maria se encontram em Belém, tendo que fugir para o Egito por conta da perseguição de Herodes. Após a morte de Herodes eles retornam à Palestina. Desta feita, com medo de Arquelau acabam indo para Nazaré, de acordo com um dito profético não encontrado em nenhuma parte das escrituras: ele será chamado Nazareu.

Vamos cruzar historicamente os dois relatos então. O primeiro recenseamento sob Quirino ocorreu no ano de 6 ou 7 d.c. Herodes, no entanto, morreu em 4 a.c. Neste sentido, ou Jesus nasceu na época do censo em Quirino e então Mateus está equivocado em 10 anos ou senão é Lucas quem está com um erro em 10 anos.

Sobre o recenseamento geral na época de Augusto, de acordo com Crossan em O Jesus Histórico, este nunca ocorreu. E mesmo, supondo a hipótese de tal evento, “as pessoas eram recenseadas, de acordo com o costume romano, em seu local de domicílio ou trabalho, e nunca no lugar em que nasceram. Isso é uma questão de senso comum. O objetivo do senso era a taxação; registrar as pessoas no seu local de origem, ao invés de no lugar em que trabalhavam, seria o pesadelo de qualquer burocrata.”(CROSSAN, John Dominic. O Jesus histórico, p. 410)

Com relação à credibilidade sobre o relato sobre Belém, vou deixar a opinião de alguns historiadores e pesquisadores bíblicos:

“Nazaré, na Galiléia — eis um dado historicamente bastante certo. A cidade e a região não eram muito estimadas; não se recomendariam como lugar de origem de Jesus se não fosse com base na realidade histórica.”


(ZUURMOND, Rochus. Procurais o Jesus histórico?, p.107)

“Seria difícil tirar outra conclusão senão esta: que a credibilidade dessas narrativas é nula. [...] Os evangelistas, cada um de seu modo, cuidam de harmonizar esses prelúdios a sua concepção teológica. São narrativas com teor querigmático, não relatos históricos”(ZUURMOND, p. 108)


“A terceira digressão diz respeito a A Concepção Virginal de Jesus e Da Linhagem de Davi, dois complexos bem atestados que, no entanto, não nos dão nenhuma informação biográfica sobre o Jesus histórico”(CROSSAN, p.409)


“Alguns dados externos da vida de Jesus são visíveis como blocos irregulares da tradição. Ele deve ter vindo da cidade galiléia de Nazaré, no norte da Palestina, onde nasceu e cresceu (seu nascimento em Belém é uma ficção teológica posterior que procurou ligar Jesus à cidade de Davi)


”(KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo Testamento: história e literatura do cristianismo primitivo. p.86)

“Jesus viveu na Galiléia, uma província governada, no decorrer de sua vida, não pelos romanos, mas por um filho de Herodes, o Grande. Sua cidade natal foi Nazaré, um lugar insignificante que não mereceu referências de Josefo, do Mishnah, nem do Talmude, e cuja primeira menção fora do Novo Testamento é uma inscrição de Cesaréia datada do século III ou IV. É incerto se ele nasceu em Nazaré ou alhures. De todo modo, a lenda de Belém é altamente suspeita.


(VERMES, Geza. Jesus e o mundo do Judaísmo, p.13)

Neste sentido, concordando com os autores supracitados, devido ao fato de Jesus ter vivido na Galiléia, devido ao fato de seus discípulos serem chamados de nazarenos, devido às insolúveis contradições dos relatos sobre o nascimento nos dois evangelistas, bem como da necessidade de se associar Jesus à descendência de Davi, para lhe conferir autoridade nas prerrogativas de o afirmarem como o Messias (elaboradas pelos primeiros cristãos) e buscando investigar histórica e logicamente acerca da real verdade dos fatos, quero afirmar sim que Jesus não nasceu em Belém.

4 comentários:

Esconderijo disse...

Achei muito interessante a questão sobre o dia 25 de dezembro, em relação a ser um dia aleatório e que se tornou significativo para os Cristãos. Gostei do blog e da forma como escreve os textos. Vlw.

http://escondidin.blogspot.com/

Abraço>

Flávio Souza disse...

Seja sempre bem vindo! Saia um pouco do esconderijo e venha nos visitar!

Rodrigo disse...

Há porém algumas questões a serem consideradas que deporiam a favor de Belém de Efrata, Flávio. Considerando até que José e Maria tivessem chegado lá antes, e não na noite do nascimento como se costuma dizer. É coerente com Lucas: "E aconteceu que, estando eles ali, se cumpriram os dias em que ela havia de dar à luz", que sugere que esperaram dias.
Houveram censos de Herodes em agosto de 7 a.C. em Belém, 3 anos antes de sua morte, num período compreendido dentre 3 anos (8 a 6) que houveram recensseamentos gerais. Há mais de uma hipótese: de ter havido dois Quirinos; de ter havido um Quirino que governara em duas ocasiões; ou a tradução da passagem poderia ser que o censo ocorrera antes do reinado de Quirino na Síria.
Msm as perseguições da época atestam a favor de Belém. Em 135, o imperador Adriano mandara construir, sobre a gruta de Efrata, um templo dedicado ao deus Adone, abafar o culto cristão, ou seja, desde cedo se associava a Belém. Dos testemunhos mais antigos e próximos Justino Mártir, do século II, meio século dpois dos evangelhos (escritos entre 50 e poucos e 80) diz que Jesus nasceu em uma cova de Belém (Diálogo 78).
Orígenes pouco mais tarde, também(Contra Celso I, 51). Outros evangelhos apócrifos atestam o mesmo (Pseudo-Mateus, 13; Protoevangelho de São Tiago, 17ss.; Evangelho, 2-4). Aqui está a passagem do "evangelho de Tiago": http://www.cidaeli.com.br/ajud...
não q seja algo como "prova", mas reforça mais contra a tese dos evangelistas terem inventado.

Rodrigo disse...

Atualmente, podemos ver uma grande desconfiança em relação aos apontamentos dos evangelistas sobre o nascimento em Belém. E de forma insuspeita, é partilhado por estudiosos de divertas vertentes e posições, sérios, sóbrios, centrados. Eu penso que essa é uma polêmica difícil. De certa forma, o raciocínio que levaria ao nascimento ter acontecido em Nazaré seria levado mais pela via negativa do que positiva. Ademais, há pouco tempo muitos não teriam aceitado essa tese (talvez até muitos dos estudiosos mais velhos hoje que defendem-na) porque acreditavam que Nazaré não existia.

Quanto ao período em relação a Quirino, existem algumas hipóteses.

O arqueólogo John McRay, autor de “Archeology and the New Testament”, apresenta um exemplo de recenceamentos semelhantes:

“Gaio Víbio Máximo, prefeito do Egito (declara): Tendo chegado o momento de realizar a censo de casa em casa, é necessário que se requeira a todos os que, por algum motivo, residam fora de suas províncias, que retornem às suas casas, para que cumpram o que requer integralmente a ordem do censo, e possam também atender diligentemente ao cultivo da parte que lhes cabe”. Ele aponta também que há um papiro, de 48 d.C, dá a entender que o censo era algo que envolvia a família toda.

Considerando isso, refletimos sobre os possíveis períodos. De acordo com algumas moedas encontradas cunhadas com o nome dele, podemos imaginar que fora procônsul da Síria e Cicília de 11 a.C. até a morte de Herodes.

Podemos imaginar que houvera dois Quirinos – mais remoto, mas não impossível, levado em conta que o censo ocorria a cada 14 anos, segundo esse arqueólogo.

Um outro arqueólogo, William Ramsey (responsável pela descobertas das moedas) postula a hipótese de que houvera dois períodos distintos do governo de Quirino.

Outra: Quirino realizara uma missão militar entre 12 e 6 a.C., sendo que não sabemos ao certo em qual desses anos no intervalo ocorrera um recenseamento (que não fora o inventário de Arquelau em no ano 6), sendo que Herodes morrera em 4 a.C.. Até a chegada do recenseamento à Judéia, que poderia ter levado um bom tempo, teria dado tempo de José e Maria terem chegado à Belém para o nascimento.

Há ainda outra hipótese, a de que a tradução em Lucas seria "Este censo aconteceu antes de Quirino se tornar governador da Síria", como propõe Thomas Howe. Tertuliano de Cartago considerava que o censo foi feito no tempo em que Sentio Saturnino era legado da Síria (9-6 aC), unindo à Síria os territórios de Arquelau; época de revolta dos fariseus e da insurreição de Judas, o Galileu.

Outra: de que a passagem “Outra: de que a passagem de Lucas
[não consegui por em grego aqui, como faz?]

queira dizer que o censo ocorrera antes de Quirino ser o governador da Síria, ou que ele só havia sido colocado, nesse período, como responsável pelo recenseamento, por Augustos, sem ser o governador; John McRay aponta que o termo "hégemoneuontos' , que Lucas emprega, era usado também para o exercício de procurador, e 'legatus era mais comum para governador'. De fato, o patrístico Tertuliano considerava que o censo foi feito quando o legado na Síria era Sentio Saturnino, em 9-6a.C., época que ocorrera a revolta farisaica e a insurreição de Judas, o Galileu.

No mais, caso o relato seja mesmo lendário, temos que admitir que seria uma lenda bem precoce, pois temos indícios de que desde os primórdios do cristianismo primitivo esta cidade. Registra-se que em 135, o imperador Adriano mandou construir, sobre a gruta de Efrata, um templo dedicado ao deus Adone, para contrapor à devoção cristã ao no lugar e abafá-la.

Justino de Roma, nascido na Palestina, já o menciona o nascimento numa gruta em Belém, décadas após os evangelhos serem escritos, no Diálogo contra Trifão. e menciona, uns cinqüenta anos mais tarde, que Jesus nasceu em uma cova de Belém. Podemos vê-lo também nesta época em alguns textos apócrifos, o Proto-evangelho de São Tiago, 17: +/- 150 d.C.

De fato, Belém poderia ser uma projeção apologética dos discípulos, contudo, seria insuficiente como tal, pois eles apresentam que muitos o consideravam de Nazaré, debochando (detalhe que não passaria despercebido nesse caso, merecendo um comentário dos evangelistas como “contudo não sabiam que era de Belém”).

È interessante notarmos uma observação de J.P.Méier:

"Quaisquer concordâncias entre os dois [Mateus e Lucas] nessas narrativas se tornam historicamente significativas, em especial quando o critério da múltipla confirmação é invocado. Essas concordâncias em duas narrativas independentes e profundamente contrastantes representariam, no mínimo, um recurso a uma tradição mais antiga, e não a criação dos evangelistas (...) Por exemplo, apesar de todas as suas divergências, tanto Mateus como Lucas situam o nascimento de Jesus durante o reinado de Herodes, o Grande (37-4 a.C.; cf. Mateus 2,1 e Lucas 1,5)"

Nesse caso, poderíamos imaginar que na verdade Maria teria chegado uns bons dias antes de dar à luz. Nesse caso, teríamos que pensar numa hipótese alternativa à da gruta. A palavra empregada [i] kataluma[/i], concordando com Marcos 14.14-15, poderia indicar um quarto.

Alguns mencionam que o fato do extermínio das crianças por parte de Herodes não teria passado despercebido de historiadores como Flávio Josefo. Contudo, devemos considerar o porte do evento, alguma coisa relacionada a “Casus Belli”, e a trajetória geral de Herodes. Neste último fator, diante dos precedentes de chacinas de Herodes ante sua família e várias pessoas próximas a si, e outras tantas atrocidades, não seria algo excepcional. Dada a magnitude de Belém, sendo que Raymond Brown, no livro “O Nascimento do Messias”, estima que a vila tinha cerca de mil habitantes na época, e o fato não se relacionar a alguma insurreição coletiva ou guiada por líderes carismáticos, afastamos o “casus belli”; e, considerando que Brown e outros estimam que o infanticídio deveria ter atingido cerca de 20 crianças, que se enquadravam na ordem dada, fora um evento então que poderia sim não ter chamado a atenção de Josefo e outros.


Sendo assim, considero que o mais prudente seria deixar a questão em aberto.

Brown, Raymond E. "O Nascimento do Messias: comentário das narrativas da infância nos Evangelhos de Mateus e Lucas". São Paulo: Paulinas, 2005

GONZÁLEZ, J. Echegaray. “Arqueología y evangelios”, Verbo Divino, Estella 1994

*MEIER, J. P., Um Judeu Marginal. Repensando o Jesus Histórico. Volume Um: As Raízes do Problema e da Pessoa, Rio de Janeiro, Imago, 1993.

*citação: p. 213-214.

McRAY,John “Archeology and the New Testament”, Grand Rapids, Baker, 1991.

SILVA, Rodrigo P. A Arqueologia e Jesus. Engenheiro Coelho, SP: Imprensa Universitária, 2001

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