domingo, 3 de junho de 2012

"num Barquinho, no Mar da Galileia" - Galileia: Matriz Formativa das Origens Cristãs

Galileia, que significa, literalmente, “O Círculo”.


 No campo dos estudos humanísticos sobre a figura histórica de Jesus, sempre sobrevêm interesses quanto a identificar suas motivações e classificar seus interesses e posições em aspectos sociológico-econômicos, políticos, culturais. Há algum tempo veio à tona de maneira indelével a importância de se caracterizar o ambiente da da geografia humana onde viveu e atuou. Vislumbra-se decorrer daí o programa pautado pelo ministério público de sua pessoa. Sem embargo, soma-se para acrescentar vulto e amplitude a este programa de estudos de importância monumental para a memória histórico-cultural da humanidade e seu patrimônio/legado de ideias e símbolos o estudo da Galileia de seu tempo.

O passado recente desse recorte de pesquisa apresentava o horizonte de uma “Galileia dos Gentios”. A noção comum era de uma região urbanizada e plenamente helenizada, com monumental programa de edificação promovido pelos Herodes, onde as cidades-chave construídas na região onde Jesus teria se formado apresentava substancial densidade e movimento populacional, com grande contingente de gentios e integração cultural ampla ao mundo greco-romano. O tom era acentuar o contraste cultural entre a Galileia de Jesus e a Jerusalém do Templo Judaico, como visto em Ernest Renan. E as figuras resultantes variaram entre os extremos das reconstruções históricas de Jesus como não-judeu (Walter Grundmann, “Jesus der Galiläer und das Judentum”) a Jesus como alinhado ao pensamento cínico (John Dominic Crossan, “The Historical Jesus: The Life of a Mediterranean Jewish Peasant")

Robustos acúmulos no campo arqueológico e antropológico deixaram para trás esta plataforma, propiciando revoluções paradigmáticas sobre este recorte. Nesta postagem, recolho quatro apresentações distintas do cenário galilaico, por parte de quatro dos mais proeminentes estudiosos que trabalham em cima da questão. Faço aqui breves apresentações sem o formato acadêmico, mas informal, que é extraído de um trabalho maior em que tenho elaborado revisões bibliográficas sobre a Galileia do período circundante a Jesus e tecido algumas ponderações após análises comparativas entre elas. Recolho as quatro aqui por considerar que são representativas de imagens com pontos em comum e importantes diferenças, que rendem implicações substanciais sobre os estudos das origens cristãs. Escolho a última por averiguar que tem sido a que apresenta o maior peso entre os pares no atual momento.



Richard Horsley e a Galileia em Ebulição

Richard Horsley, professor de Línguas Clássicas e Religião na Universidade de Massachusetts, é um dos mais destacados polemistas no campo de pesquisa de “Jesus Histórico”, com interação em debates mais amplos por construir pontes para com temáticas sociopolíticas contemporâneas. No Brasil temos traduzidos alguns de seus livros mais famosos, com destaque para “Bandidos, profetas e messias  - Movimentos populares no tempo de Jesus” e “Jesus e a Espiral da Violência - Resistência judaica popular na Palestina Romana”. Possui como uma das melhores contribuições peculiares o manuseio de teorias sociais de conflito e análise sociológica de movimentos de resistência.

Seus elementos básicos para a matriz galilaica de Jesus estão reunidos no livro também traduzido no Brasil, “Arqueologia, História e. Sociedade na Galiléia O contexto social de Jesus e dos Rabis”. Afirma ter a impressão de que os galileus não foram conquistados da mesma forma que os idumeus pelos assírios e alega que não vê sentido nas exigências “judaizantes” após a conquista asmonéia, em 104 a.C., se os galileus fossem judeus, mas que também caso fossem não-israelitas, ele acha que seriam maiores essas exigências. Houvera então, para ele, um ajuste mais fácil devido a partilharem tradições mosaicas, indicando serem descendentes dos israelitas do norte conquistados pela Assíria. Cultuavam o mesmo Deus e partilhavam celebrações em comum como o Êxodo, Páscoa, Aliança, costumes como circuncisão, reverenciavam ancestrais comuns como Abraão e Sara, mas davam destaque a tradições populares de resistência à monarquia em especial Elias, Eliseu e heróis populares como o jovem Davi. Contudo, não partilhavam da estrutura conhecida como “lei dos judeus”, concatenada para sustentar o sacerdócio e o Templo, em contraste com as “tradições de baixo”, hebraicas, voltadas para a orientação da vida das comunidades e subsistências familiares. (Pg 32-33).

Contesta que apoiar-se na ideia de que Séforis e Tiberíades ostentavam estruturas culturais da polis helenístico-romana, como tribunais, arquedutos, teatros, estádios, etc., pode ser reivindicado para alegar que eram grandes centros urbanos imperiais demograficamente densos e cosmopolitas.

Alega que não haveria um sistema produtivo agrícola suficiente para sustentar uma população torno de 25.000 habitantes e ao mesmo tempo haver uma produção de subsistência mínima que seja para os lavradores, e, é incompatível com o quadro geral da Galiléia como sociedade agrária tradicional que emerge das escavações (pg. 46-48).

A população cosmopolita das duas cidades se restringiria à elite administrativa, os “herodianos”, representando porcentagem pequena da população, e, em comparação com outras grandes cidades da região, como Citópolis – a maior cidade da Palestina – e Cesaréia – fundada poucas décadas antes de Tiberíades por Herodes – o grau de urbanização das duas era limitado. (57-60)

Contesta as asseverações, baseadas na obra de Flavio Josevo, de ter havido uma rede comercial extensa na região da Alta Galileia. Uma tal rede se circunscreveria ao produto da cerâmica, de âmbito local e com limitada linha de agentes econômicos. (pg. 67-70).

Assim, ao invés de predominar nas aldeias uma economia de mercado com flutuações de preços, majoritariamente haviam estruturas aldeãs de autossustentação e estruturas urbanas dependentes, com transações comerciais mútuas de baixo volume; os administradores regionais na Alta Galileia executavam uma política de requisição da porcentagem das colheitas dos camponeses empregadas para prover o sustento de artesãos, funcionários públicos, guarnições militares e outros que supriam suas necessidades nas cidades. Predomina a caracterização de um sistema econômico “redistributivo” nos termos de Karl Polanyi, assim, centralizado nos grupos institucionais ideológicos e palaciais, com os mercados ocupando pouca importância (vide a obra “The Livelihood of Man”, de 1981, Academic Press, em que Polanyi analisa o sistema econômico da Antiga Mesopotâmia, em que através de censos, se planejavam e administravam o recolhimento dos tributos sobre a produção do povo, estabelecendo os impostos após a contagem desta, assegurando o fluxo de bens e serviços para o governo).

Para Horsley, Séforis desempenhava o papel principal de cidade administrativa da Galileia para a tributação da população, cujo impacto era aumentado por esta cidade se tornar de maneira historicamente repentina o “ornamento” de Antipas, agravando a exploração dos camponeses e intensificando o ressentimento destes, causando desintegração social, ameaças aos modos de vida tradicionais e reação via banditismo, na Baixa e Alta Galileia. Os programas de construção de Antipas assim não se sustentavam como investimentos que promoviam excedentes econômicos e valor, mas da pesada tributação e consequente endividamento das famílias produtoras.



Jonathan Reed – Galileia da vida cotidiana


Jonathan Reed é Diretor do programa “Sepphoris Acropolis Excavations in Israel” e foi Diretor Associado e Instrutor do “Institute for Antiquity and Christianity at the Claremont Graduate School”.

Sua visão quanto ao tema de nossa postagem está sistematizada na obra: "Archaeology and the Galilean Jesus: A Re-Examination of the Evidence".

Jonatham Reed concentra seu trabalho através da análise de materiais da fauna, tipologia de materiais artesanais, etnografia e ferramentas da análise arqueológica das relações comerciais.

Promove uma discussão sobre os achados arqueológicos, apresentando que indicam um vácuo de ocupação da Galileia após a conquista assíria e que lá fora apenas esparsamente habitada até a expansão hasmoneia. Após esta, a Galileia fora dominada por uma população com traços judaicos, sem nenhuma evidência de descendentes de tribos do norte, e com grande contraste cultural para com uma imagem de uma região “semi-pagã”. Quaisquer identificações comunitárias com as tradições norte-israelitas eram eminentemente ideológicas e refletiam o contexto, sendo comumente embebidas do legado delas conservado na religião judaica.

Reed faz uma inestimável contribuição, avançando em uma minuciosa análise demográfica das cidades de Séforis e Tiberíades, estimando uma população de cerca de 8 a 12 mil habitantes para a primeira e 6 a 12 mil para a última, arguindo fatores variados que não possibilitam uma precisão mas podem influenciar a variação ampla. Já a Cafarnaum deste período fora um povoado de menos de 1500 camponeses judeus pobres, sem nenhuma rota comercial importante, nenhum entreposto de guarnições romanas nem centros habitacionais de gentios. Contudo, haviam contatos regulares com populações gentias no leste e norte, que às vezes criavam tensões étnicas.

Concorda com Horsley de que o padrão de crescimento destas cidades pressionavam a produção agrícola regional e gerava tensões. Mas discorda de que havia uma ostentação luxuriosa de riqueza agravando o quadro; para ele, Séforis e Tiberíades eram centros regionais de modesto porte, e sendo como discutido, de população predominantemente judaica, eram contidos na exibição da riqueza, que também era no geral moderada e dava assim a tônica do quadro.

Desta forma, minimiza-se o retrato sócio-revolucionário do movimento de Jesus; ele teria evitado a proximidade com Antipas apenas para não ser detido, não tendo evidentes motivos religiosos, econômicos, sociológicos e etnológicos para evitar a região; e também contribui para tornar inverosímel o quadro dele como um tipo de sábio-cínico, sendo que não havia nas duas cidades grandes instituições promotoras da educação helênica.



 Morten Hørning Jensen e o Desenvolvimentismo Supply-side

O pesquisador Jensen tem se destacado como um dos maiores analistas arqueológicos do mundo quanto a Galileia antiga. Seu livro “Herod Antipas in Galilee: The Literary and Archaeological Sources on the Reign of Herod Antipas and Its Socio-economic Impact on Galilee" é amplamente debatido, mas reconhecido como rigoroso e de polêmica inescapável. Recentemente publicara também um artigo tratando de profunda ponderação a respeito do que os elementos eminentemente arqueológicos têm trazido para descortinar a proposta.

Sua polêmica conspícua apresenta o quadro mais positivo do reinado de Antipas. Tem o mérito de colocar o exame do material primário das escavações arqueológicas à prima facie e acima dos pressupostos de modelos sociológicos, fazendo uma revisão da literatura contemporânea ao período circundante a Herodes Antipas sob a luz da revisão meticulosa dos dados da arqueologia. Reverbera que seu método é orientado pela primazia da orientação dada pelas fontes.

Ainda que reforce o consenso de que a Galiléia do período não compartilhava de helenizações de outros lugares do império romano, polemiza com a maioria dos autores recentes, alegando que a política de construção herodiana não implicou em empobrecimento agrário galilaico. Segundo Jensen, o debruçar sobre os dados apresenta uma imagem que não se encaixa nos modernos modelos convencionais de relação urbano rural (pg 34), nem os retratos mais harmoniosos, nem os mais conflituosos. E afirma que estes modelos tem sido impostos ex ante sobre a Galileia do período de Antipas, apesar de que o seu reinado tenha sido o fator decisivo para as transformações da realidade sócio-econômica da região no primeiro século e merce ser o fator explicativo de uma apresentação da Galileia.

Promove uma análise literária contextual das referências escritas a Antipas e submentendo-as aos dados arqueológicos, encaixa-os num panorama regional mais ampliado. Assim, pondera uma análise compartiva de localidades rurais om ligações históricas e culturais com a Galileia, como Yodefat, Jotapata, Caná, Cafarnaum, Gamla, atenta para sítios na Colinas de Golã; parte então para o estudo de cidades próximas na Palestina: Decápolis, Hipona (atual Annaba, na Algéria), Gadara, Scythopolis (antiga Beit Shean, referida no livro de Josué, devastada pelos assírios e reconstruída e renomeada no período de dominação greco-helênica) e a Cesareia Marítima.

moedas de HerodesA partir daí, ele argui que o quadro não corrobora a tese de que as políticas para a construção das cidades de Séforis e Tiberíades, especialmente cunhagem de moedas, a hipotética rede comercial ( hipótese apoiada por Reed e contestada por Horlsey) e em especial o nível de tributação, foram desencadeadores de uma crise socioeconômica que levara a atividades de movimentos de contestação na região, mesmo o de Jesus.

Ratifica que Tiberíades e Séforis eram comparativamente modestas e com menos construções monumentais. Contende que a análise comparativa não mostra sinais de declínios das comunidades rurais no período de Herodes Antipas, mas sim de florescência, fomentada por variadas atividades agrícolas e industriais, com emergências de edifícios públicos e residenciais de classes média-altas. Antipas adaptara infra-estruturas já conhecidas, não impondo extraordinárias inovações monárquicas, nem programas em escalas relativamente conspícuas (pg 185). Sua provocação chega ao auge com a afirmação de que "parece indiscutível que a zona rural foi capaz de sustentar sua subsistência e até mesmo expandi-la neste período" (247).

Desta forma, não houvera drenagem de recursos das aldeias nem desagregações socioeconômicas especiais. As transformações monetizadoras sobrevieram desde o período hasmoneu e tivera o auge no período médio-romano, quando ocorreram as mudanças mais significativas na sociedade galilaica segundo sua interpretação dos registros arqueológicos ( juntamente com o período após a revolta de Bar Kochba), não sendo observada no século I d.C. Desta forma, não pode ser creditada a uma facilitação para uma exploração tributativa de Antipas que acarretara dívidas acumulativas.



Sean Freyne: Galileia Caleidoscópica

Sean Freyne, diretor do programa de estudos sobre Oriente Médio no Trinity College, em Dublin, eleito presidente da Society for the Study of the New Testament, tem sido o estudioso com maior ressonância no campo a respeito da Galileia e Jesus. É importante frisar que isto de forma alguma é argumento imperativo mediante alguma polêmica. Peço licença para uma breve digressão a respeito. É frequente vermos debates no campo com pessoas apelando para a sentença “a maioria dos pesquisadores sustenta que(...)”. Bem, se faz de bobo quem usa isto como se fosse um argumento imperativo. É na verdade, tanto quanto o argumento de autoridade- muito usado em qualquer campo, seja de arte, religião ou ciência – um argumento de peso quantitativo. E significa que o desafio é muito maior para os que fazem contraponto. Têm de sustentar que não se apoiam sobretudo em teorias da conspiração. De fato, uma autoridade reconhecida de patamar elevado, ou o peso da maioria dos estudiosos aprofundados e mais ativos, confere um peso quantitativo elevado para um argumento. Mas se fosse para ser conclusivo, poderíamos apagar toda a matéria e saber do Direito, Criminalística, Lógica, etc. Até porque muitas vezes se observa um “efeito cascata”: pessoas vão na onda do apresentado pela maioria, por ficar com um caminho mais fácil e por considerar que dali se tira instrumentos mais úteis, e vão aumentando daí o número da maioria.

Mas o professor Freyne tem a seu favor não apenas o “peso da maioria”, como também o de conseguir pintar um quadro que balanceia divergências e confluências entre as propostas diversas, como vamos ver, além de ser coerente com elementos diversos que trazem dificuldades para os outros modelos.

Seu primeiro importante grande estudo, "Galilee from Alexander the Great to Hadrian, a Study of Second Temple Judaism", adviera após uma sugestão do grande pesquisador Martin Hengel. Buscara fazer um recorte especial sobre a região da Galileia numa escala histórica de alcance de 400 anos, de sob Alexandre o Grande a Adriano. Com “Galilee and Gospel; Selected Essays”, tratara um estudo de ecologia social sobre Jesus na Galileia. A partir de então vem estudando os variados impactos socioculturais da política helênica nas regiões galilaicas.

O pesquisador toma como ferramentas metodológicas estudos comparativos de hábitos em diferentes cidades e seu caráter fluido, debruçando-se sobre o impacto de descobertas de moedas, cerâmicas, utensílios de metais, sobretudo os importantes para comércio, inscrições, artesanatos diversos, símbolos culturais-religiosos, etc., dando destaque a sítios arqueológicos especiais.

Deste trabalho vem emergindo cada vez mais um cenário de uma Galileia eminentemente judaica. Apresenta escavações descortinando uma devastação profunda nos padrões de povoamento entre os séculos VII-V a.C., sugerindo em consonância com os arquivos assírios, uma deportação maciça. E uma nova emergência demográfica somente se registra a partir do século IV, com muitos sinais de estabelecimento de uma cultura judaica, consoante também com a expansão macabéia que adviera depois, na visão de “retorno” à “Terra Prometida”. Tais resultados contradizem as sugestões de Richard Horsley citadas, sobre uma permanência de populações das tribos do norte com costumes próprios à parte dos judaicos.

Na Galiléia refletiu-se interativamente o impacto cultural do helenismo em uma série de questões, sendo que com descobertas de piscinas rituais de lavagem ( mikvoth ) e outras evidências de observância de práticas de limpeza ritual e observância de regras de pureza alimentícia, fica muito difícil sustentar uma clivagem cultural forte entre Galileia e Judeia. Mesmo em Séforis, nos principais assuntos religiosos os galileus parecem ter permanecido em acordo com princípios judaicos, não capitulando à cultura religiosa greco-romana (Ver especialmente (2004) 'Galilee and Judea: the Social World of Jesus' em S. McKnight e G. Osborne, eds.,"The Face of New Testament Studies: A Survey of Recent Research", pgs. 21-35.

Também tanto Séforis quanto Tiberíades não possuíam em si nenhum destaque arquitetônico e paisagístico ante a outros grandes centros mesmo na Palestina, postulado semelhante ao de Reed, apesar de serem importantes constructos simbólicos para com o Império Romano. Freyne, -em “The Geography, Politics and Economics of Galilee and the Quest for the Historical Jesus”, pgs. 75-122 - "Studying the Historical Jesus - Evaluations of the State of Current Research", ed. Por Bruce Chilton e Craig Evans – expõe que as políticas de construções de Herodes Antipas não geraram dinamismo econômico nas aldeias, mas drenaram recursos e geraram uma casse parasitária, “os herodianos” que substituiram os hasmoneus. Argui que diversos indícios apontam para uma crescente proporção de diaristas e meeiros ante a proprietários, reforçando a tese da concentração fundiária. Decorre daí também a expansão da medincância na Galileia do século I.

O cenário também é iluminado pela apresentação de materiais demonstrando faixas de cultivo intensivo, principalmente de vinhas e oliveiras na região montanhosa da Alta Galileia, com fortes densidades populacionais! Também entre elas, nos vales há um amplo escopo de terras férteis, de baixa acidez e boa profundidade e glanulometria, havendo o cultivo intensivo de grãos e cereais, e densos povoamentos próximos a mananciais. Nestas regiões inclui-se Nazaré. Aí se constata a predominância de agricultura camponesa, com excedentes de produção, e com seus vilarejos, tendo surgido a partir da expansão hasmonéia no séc. II a.C. Num olhar mais panorâmico, na Galileia predominava a propriedade privada de lotes individuais de terra. A pesca também era importante, especialmente na região de Magdala e Betsaida, com achados de redes de pesca, diques e portos. O grego para Magdala, Tarichea, refere-se à atividade da salga do peixe.

Já no tempo de Jesus, no entorno abrangendo Nazaré, o padrão de vida começara a cair a partir de exigências extrativas sobretudo de água – componente que costuma passar batido em diversas discussões de conflitos regionais: ponto para Freyne! - para manter o estilo de vida da elite urbana em Séforis, além também das exigências tributárias herodianas e romanas. Cada vez mais o excedente, e mesmo a produção de subsistência, foi ficando comprometida, vulnerabilizando e expropriando a agricultura tradicional, havendo oportunismo então de classes ricas concentrando a terra em áreas mais férteis dos vales e da Alta Galileia. O sofisticado sistema de abastecimento de água, bem como para o lazer com locais de banho, em Séforis, competia com o necessário para o abastecimento de água da região em torno de Nazaré, gerando também convulsão dado o seus sistemas de valores. Séforis costumava “devolver” a água advinda do uso sanitário e de banho, para Nazaré.

Em Tiberíades, a política herodiana fora a de ceder lotes individuais de terra para alguns especialmente incentivados a colonizar e prestar serviços à elite no funcionalismo público e na aristocracia de seus partidários, sendo que muitos destes possuíam já grandes propriedades à margem do Jordão. (ver especialmente 'Jesus and the Urban Culture of Galilee', em Galilee and the Gospel, pg. 183 a 207).
Tal descrição bate de frente com certos postulados de Jensen, que de fato dificilmente contemplam explicações para as manifestações de banditismo e indigência.

Sendo assim, somando que Herodes possuía uma capilar rede de espionagem, agentes policiais e informantes espalhados por toda a região, sendo fácil capturar Jesus e/ou seus seguidores mais proemientes; sendo que este se movera pela região de Cesaréia de Felipe, mas não pelo seu centro urbano, bem como Jonatapa e Gamla, ao contrário do que sugerira Reed, Jesus não fora um fugitivo, mas alguém avesso à política de urbanização e com o estilo de vida e valores das elites econômicas. Também reforça as imagens dos evangelhos de conflitos com os fariseus da Galileia, pois nestas últimas duas regiões se mostra que este grupo possuía grande influência, reforçado com os indícios de forte observância de leis alimentares, Sabbath, purezas rituais. Reforça também a imagem de Marcos de ser uma região de frequente investida por parte de escribas do estado-Templo de Jerusalém.

5 comentários:

Flavio Aguiar disse...

Olá, em uma parte do texto você diz que estava escrevendo um trabalho maior em que iria elaborar revisões bibliográficas sobre a Galileia do período circundante a Jesus, isso foi em 2013. Gostaria de saber onde posso encontrar este trabalho, haja vista que estamos em 2017. Teria eu mesmo procurado na internet mas não consegui encontrar o nome do autor deste artigo nesta publicação. Sou um estudante de História e estou fazendo um levantamento bibliografico para um possível mestrado no ano que vem, 2018, e gostaria de poder ler este seu trabalho. Teria como? No aguardo!

Nehemias disse...

Oi Flávio,
o Rodrigo (informadordeinião) anda meio sumido, mandei sua questão pra ele. Abs.
Nehemias

Rodrigo disse...

Oi Flávio. Uma ótima lembrança. Infelizmente interrompi na época o trabalho antes da conclusão, quando já tinha uma boa revisão pronta, e não fechei para publicar..

Flavio Aguiar disse...

Puxa vida, que pena! Entretanto, não gostaria de me enviar o que você tem sobre a Galiléia, estou desenvolvendo um projeto de pesquisa para um mestrado exatamente sobre a Galiléia e gostaria de ouvir algumas opiniões de brasileiros sobre. Eu posso dar a referência se assim for. Teria alguma forma de ter acesso ao que vocês do Ad Cummulus entendem por Galiléia de maneira acadêmica e além do que encontramos aqui no blog?

Nehemias disse...

Flávio,
Vc me desculpa a demora em responder. O blog tá meio "abandonado", quase três meses que não posto, e os outros tão desaparecidos kkk.
Eu vou levar sua pergunta ao Rodrigo e ao Flávio.
Quanto a mim eu nunca estudei a Galiléia profundamente, por si só. Sempre situei no contexto do Jesus Histórico. A minha percepção segue em linha os autores que mais me influenciam como Meier, Theissen, Vermes, Flusser... que é de um area rural judaica, com uma religiosidade popular profunda, com ilhas helenisticas em Séforis e Tiberíades, tentando ser reconhecidas como Polis. Um trabalho muito bom, embora bem antigo, foi o do Geofrey Ernest de Ste Croix, que fez uma abordagem dos evangelhos no contexto da luta de classes da historiografia marxista. Ele trabalha muito a questão do evangelho retratando Jesus como restrito quase inteiramente a Chora, ao campo, ao interior da Galiléia, em oposição com a virtual ausência da "Polis", da cidade, no relato evangélico. Isso com Séforis a poucos quilômetros de Nazaré, e Tiberíades as margens do Mar da Galiléia. Mais interessante ainda porque os cristãos que receberam os evangelhos viviiam em cidades como Antioquia, Éfeso, Corinto e Roma. Um contexto majoritariamente urbano e helenístico. A partir disso, ele infere várias coisas a partir da tradição, uma vez que é um padrão improvável de ter sido inventado.
O livro do Ste Croix é "The Class Struggle in the Ancient Greek World:From the Archaic Age to Arab Conquest.. Até pouco tempo atrás a parte sobre Jesus estava disponível na visualização parcial no google books.

Abs,
Nehemias

  • Recent Posts

  • Text Widget

    Este blog tem como objetivo central a postagem de reflexões críticas e pesquisas sobre religiões em geral, enfocando, no entanto, o cristianismo e o judaísmo. A preocupação central das postagens é a de elaborar uma reflexão maior sobre temas bíblicos a partir do uso dos recursos proporcionados pela sociologia das idéias, da história e da arqueologia.
  • Blogger Templates