Então, humildemente vamos começar pelo trabalho de Florentino Garcia Martnez, intitulado Messianic Hopes in the Qumran Writings. Um outro trabalho interessante desta coletânea é o texto de Dana Pike intitulado: Is the Plan of Salvation Attested in the Dead Sea Scrolls?
domingo, 26 de outubro de 2008
Então, humildemente vamos começar pelo trabalho de Florentino Garcia Martnez, intitulado Messianic Hopes in the Qumran Writings. Um outro trabalho interessante desta coletânea é o texto de Dana Pike intitulado: Is the Plan of Salvation Attested in the Dead Sea Scrolls?
sábado, 25 de outubro de 2008
quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Ps. O prometido texto vai me dar um pouquinho mais de trabalho. Mas talvez ainda saia hoje. Enquanto isso vou deixar aqui uma citação muito interessante para os amantes do vinho! Trata-se de uma passagem tirada de um texto escatológico judaico do século I d.C., chamado Apocalipse Baruc [2Baruc]. A passagem trata da recompensa para aqueles que herdarão o Reino de Deus:
"A terra também dará o seu fruto, uma miríade por um: em cada vinha haverá mil sarmentos e cada sarmento produzirá mil cachos; cada cacho produzirá mil grãos de uva, e cada grão produzirá um barril de vinho."
terça-feira, 21 de outubro de 2008

Este artigo publicado publicado pelo Jerusalém Post trata das preparações para a construção do terceiro Templo em Jerusalém. O projeto faz parte do Temple Institute fundado em 1987 com o explícito objetivo de recriar o Templo. Uma das coisas que eu achei interessante no texto é a passagem na qual fala que dos 613 mandamentos [mitzvot] da Torá, cerca de 202 necessitam do Templo para serem plenamente cumpridos. Poderíamos dizer que o judaísmo atual estaria manco de uma perna, caso necessitasse de três para se sustentar.
Eu tenho para mim que a construção do terceiro Templo será um fato inevitável. A comoção mundial, no entanto, que isso irá causar.... WOW! Não quero estar vivo para ver!Para quem não sabe, no lugar onde o segundo templo estava instalado, se encontra hoje a mesquita muçulmana de Al-Aqsa!
O texto cita o Rabbi Shlomo Carlebach, o qual afirmou que:
"Se nós somos o povo que se espera devemos ser, os muçulmanos irão vir até nós e dizer "Por favor, construa-nos o Templo"!
Aham...sei...
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Sendo assim, vamos com a descoberta também deste dia que é Rufus - Cappadocia.

Gálatas 1,22: “De acordo que, pessoalmente, eu era desconhecido às igrejas da Judeia que estão em Cristo.”
Atos 7,58: “Lançaram Estêvão fora da cidade e começaram a apedrejá-lo. As testemunhas depuseram os seus mantos aos pés de um moço chamado Saulo.”
Temos aqui uma pequena, mas extraordinariamente significativa, tensão entre duas fontes fundamentais para a reconstrução das origens do cristianismo. De um lado, encontramos Paulo afirmando, na Epístola aos Gálatas, que era pessoalmente desconhecido às igrejas da Judeia; de outro, encontramos o autor de Atos dos Apóstolos colocando Saulo precisamente em Jerusalém, no momento da execução de Estêvão, fazendo-o participar da perseguição contra os seguidores de Jesus. Mais ainda: Atos não apenas coloca Paulo nas proximidades do episódio, mas transforma sua presença na morte de Estêvão em parte da narrativa de sua própria trajetória como perseguidor. Em Atos 8,3, imediatamente depois da morte do primeiro mártir, lemos que “Saulo, porém, devastava a Igreja: entrando pelas casas, arrancava delas homens e mulheres e metia-os na prisão”; posteriormente, em Atos 22,20, o próprio Paulo, em discurso atribuído a ele por Lucas, declara: “E quando se derramava o sangue de Estêvão, tua testemunha, eu também estava presente, aprovava e guardava as vestes dos que o matavam”. A questão que se coloca, portanto, é aparentemente simples: Paulo realmente estava presente na morte de Estêvão? E, caso estivesse, como conciliar essa informação com a declaração de Gálatas? A resposta exige que abandonemos, desde o início, a ideia de que os textos de Atos e das cartas paulinas possam ser simplesmente colocados lado a lado como se fossem testemunhos equivalentes de um mesmo acontecimento. As cartas paulinas, sobretudo as consideradas autênticas, possuem uma posição historiográfica singular porque procedem diretamente do próprio Paulo e são, cronologicamente, anteriores a Atos. Isso não significa que tudo aquilo que Paulo diz sobre sua própria vida deva ser tomado automaticamente como uma descrição objetiva e completa de seu passado; significa, porém, que quando procuramos reconstruir sua trajetória histórica, sua própria memória autobiográfica constitui uma fonte de primeira ordem, que precisa ser confrontada criticamente com a narrativa lucana.
É justamente aqui que começa a aparecer um problema metodológico fundamental. Lucas não escreveu uma biografia moderna de Paulo, e tampouco devemos ler os Atos dos Apóstolos como se fossem uma reportagem contemporânea dos acontecimentos narrados. Isso, entretanto, não significa que Atos seja simplesmente uma obra “sem valor histórico”. A historiografia antiga possuía convenções próprias, diferentes das nossas, e uma narrativa poderia combinar tradição, memória, interpretação teológica, composição literária e recursos retóricos sem necessariamente distinguir essas categorias da maneira como um historiador moderno faria. Essa questão já aparece na historiografia clássica do Novo Testamento utilizada em nosso texto original. Kümmel chama atenção para as divergências entre a imagem de Paulo oferecida por Atos e aquela que encontramos nas próprias epístolas, chegando a afirmar que, em pontos importantes da trajetória paulina, o autor de Atos demonstra um conhecimento problemático dos acontecimentos. Koester, por sua vez, é ainda mais contundente ao observar que “é muito difícil encontrar no Livro dos Atos informações históricas úteis” e que, como o autor não escreve história no sentido moderno, mas uma narrativa de natureza épica, “não submeteu nenhum material tradicional ao escrutínio crítico do historiador” (KOESTER, 2005, v. 2, p. 339-340). É preciso, entretanto, compreender corretamente essa afirmação. Koester não está simplesmente dizendo que Lucas inventou tudo; está chamando atenção para o fato de que o material foi submetido a uma elaboração literária e teológica que torna perigoso utilizá-lo como uma cronologia biográfica direta. A observação de Moreschini e Norelli complementa essa perspectiva ao lembrar que os discursos colocados por Lucas na boca dos personagens devem ser compreendidos dentro das convenções literárias antigas: “as convenções historiográficas antigas permitiam por na boca dos personagens históricos discursos que eles não tinham realmente pronunciado, mas que serviam para iluminar o significado da situação” (MORESCHINI; NORELLI, 1995, p. 98). Essa observação é decisiva. O problema não é apenas perguntar se Paulo “disse” literalmente aquilo que Lucas registra em Atos 22 ou 26. É necessário perguntar o que Lucas pretende comunicar ao colocar Paulo naquele lugar, naquele momento e naquela posição narrativa.
A diferença entre as duas tradições torna-se ainda mais interessante quando observamos o testemunho do próprio Paulo. Em Gálatas 1,18-24, Paulo apresenta uma narrativa relativamente precisa de seus primeiros contatos com Jerusalém depois de sua conversão: “Depois, passados três anos, subi a Jerusalém para conhecer Cefas, e fiquei com ele quinze dias. E não vi a nenhum outro dos apóstolos, senão a Tiago, irmão do Senhor. E não era conhecido de vista das igrejas da Judeia que estavam em Cristo. Somente tinham ouvido dizer: Aquele que antes nos perseguia agora anuncia a fé que então devastava”. O que chama a atenção não é simplesmente a ausência de uma referência explícita à morte de Estêvão. É a própria construção da memória. Paulo apresenta-se como alguém cuja atividade persecutória era conhecida por ouvir dizer, enquanto afirma que ele próprio era pessoalmente desconhecido às igrejas da Judeia. Se a narrativa de Atos estiver correta em sua forma mais literal, temos uma dificuldade considerável: Paulo teria estado no centro da comunidade de Jerusalém, teria participado da perseguição contra seus membros, teria assistido à execução de Estêvão e teria posteriormente “devastado” a Igreja. Como, então, poderia dizer que era pessoalmente desconhecido às igrejas da Judeia? É possível, evidentemente, construir diversas soluções. Poderíamos imaginar que Paulo fosse conhecido por determinados círculos de Jerusalém, mas desconhecido de outras comunidades judaico-cristãs espalhadas pela Judeia; poderíamos interpretar “desconhecido” como uma afirmação retórica destinada a enfatizar a independência de seu apostolado; poderíamos ainda admitir que Lucas e Paulo utilizem tradições diferentes sobre os primeiros anos do movimento. Mas uma coisa é importante: a tensão existe e não deve ser eliminada simplesmente por harmonização.
O problema se torna particularmente agudo quando examinamos a própria estrutura da narrativa lucana. Em Atos 7, Estêvão realiza um longo discurso diante do Sinédrio, depois do qual é conduzido para fora da cidade e apedrejado. O detalhe aparentemente secundário de que as testemunhas depositam suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo possui enorme importância narrativa. Lucas poderia simplesmente ter apresentado a morte de Estêvão e posteriormente introduzido Saulo como perseguidor. Em vez disso, ele faz de Saulo uma testemunha visual do episódio. E imediatamente depois acrescenta: “Saulo, porém, aprovava a sua morte” (At 8,1). A morte de Estêvão, portanto, funciona como uma espécie de portal narrativo entre dois momentos: de um lado, a perseguição contra a Igreja; de outro, a futura transformação daquele perseguidor em apóstolo. O autor está construindo uma relação literária entre Estêvão, morte, perseguição e Paulo. É precisamente essa construção que exige cautela quando tentamos transformá-la diretamente em informação biográfica. O episódio pode conservar uma memória histórica antiga; pode igualmente combinar essa memória com uma elaboração narrativa posterior; pode ainda representar uma tradição construída para explicar a intensidade da perseguição paulina e, ao mesmo tempo, preparar literariamente a extraordinária reversão de seu destino. Não é necessário escolher prematuramente uma dessas alternativas. O que podemos afirmar é que Lucas possui uma razão narrativa muito poderosa para colocar Saulo diante da morte de Estêvão.
A própria pesquisa moderna sobre Lucas-Atos tornou essa questão mais complexa. A antiga hipótese segundo a qual Atos seria simplesmente um relato factual produzido por um companheiro de Paulo perdeu sua força em boa parte da pesquisa contemporânea, embora continue sendo defendida em diferentes formas. A chamada hipótese tradicional do “Lucas companheiro de Paulo” baseia-se, entre outros elementos, nas passagens em primeira pessoa do plural — as chamadas we-sections — e na tradição antiga que identifica o autor com Lucas. O problema é que nenhuma dessas evidências é suficientemente conclusiva para estabelecer que o autor de Atos tenha acompanhado Paulo durante longos períodos ou que tenha escrito a partir de conhecimento pessoal direto de toda a trajetória paulina. Além disso, as divergências entre Atos e as cartas autênticas tornam difícil sustentar uma dependência biográfica direta. A questão, portanto, não é simplesmente determinar se Lucas “conheceu Paulo”, mas avaliar que tipo de acesso às tradições paulinas o autor possuía e como essas tradições foram transformadas pela composição de Lucas-Atos. A crítica contemporânea tende a ser mais cuidadosa justamente porque abandonou a alternativa simplista entre “Atos é historicamente exato” e “Atos é pura ficção”. Trabalhos de autores como Richard I. Pervo, Loveday Alexander, Beverly Roberts Gaventa, Craig S. Keener e outros demonstram que Lucas-Atos precisa ser situado dentro das formas narrativas, retóricas e historiográficas da Antiguidade. Há, portanto, material tradicional no texto, mas esse material é inseparável da interpretação teológica e literária que o autor lhe confere.
Nesse sentido, a observação de Moreschini e Norelli sobre os discursos de Atos torna-se particularmente útil. Se as convenções historiográficas antigas permitiam que um autor reconstruísse discursos que serviam para expressar o significado de determinado acontecimento, então não podemos simplesmente perguntar: “Paulo disse exatamente isso?”. Precisamos perguntar também: “Por que Lucas precisa que Paulo diga isso?”. Essa mudança de pergunta altera profundamente nossa leitura. O discurso de Atos 22, por exemplo, não deve ser utilizado isoladamente como uma gravação das palavras históricas de Paulo. Ele é parte da estratégia narrativa de Lucas para apresentar Paulo diante de diferentes públicos e em diferentes situações. O mesmo acontece com os discursos atribuídos a Pedro, Estêvão, Paulo e outros personagens. O discurso de Estêvão, particularmente, possui características teológicas e literárias que revelam a mão do narrador. Isso não significa que não contenha tradições anteriores. Significa que o material tradicional foi organizado para produzir uma determinada leitura da história. Lucas não está simplesmente perguntando “o que aconteceu?”. Ele está narrando como a história da salvação avançou de Jerusalém até os confins da terra, e Paulo precisa ocupar uma função específica nessa arquitetura.
É nesse ponto que a presença de Paulo na morte de Estêvão ganha uma dimensão ainda mais interessante. Estêvão representa, na narrativa lucana, uma forma de cristianismo profundamente vinculada às raízes judaicas, mas simultaneamente aberta a uma interpretação crítica do Templo e das instituições religiosas. Seu discurso em Atos 7 conduz à acusação de que os antepassados de Israel resistiram repetidamente aos enviados de Deus. A morte de Estêvão constitui, portanto, não apenas a morte de um indivíduo, mas um momento decisivo da expansão do movimento cristão. Depois dela, surge uma perseguição que dispersa os seguidores de Jesus para além de Jerusalém. E justamente nessa perseguição aparece Saulo. Lucas constrói, assim, uma cadeia causal: Estêvão é morto → ocorre perseguição → os discípulos se dispersam → a mensagem se expande → Saulo, o perseguidor, posteriormente se converte → o próprio perseguidor torna-se o principal instrumento da expansão da mensagem entre os gentios. A presença de Paulo na morte de Estêvão possui, portanto, uma função teológica extraordinariamente eficiente: o homem que estava ao lado dos executores de Estêvão será posteriormente transformado no homem que levará a mensagem cristã ao mundo gentílico. A violência contra Estêvão torna-se, narrativamente, um dos caminhos através dos quais a mensagem cristã alcança o mundo.
É precisamente por isso que considero importante conservar a intuição central do texto original: talvez a questão não seja simplesmente saber se Paulo esteve ou não esteve fisicamente presente na morte de Estêvão, mas compreender por que a tradição lucana precisava colocá-lo ali. Há, contudo, uma diferença metodológica importante entre dizer isso e afirmar categoricamente que Paulo não esteve presente. A evidência não permite tal certeza. A afirmação de Koester de que “a presença de Paulo na morte de Estêvão (At 7,58) é excluída por Gl 1,22” é uma interpretação historiográfica forte, mas a passagem de Gálatas não precisa necessariamente ser entendida como uma negação absoluta de qualquer presença anterior de Paulo em Jerusalém. O termo grego agnooumenos e a expressão referente ao conhecimento das igrejas podem ser interpretados dentro de uma argumentação retórica destinada a mostrar que Paulo não recebeu seu evangelho nem sua comissão apostólica das comunidades de Jerusalém. A afirmação de desconhecimento pode significar que Paulo não possuía uma relação pessoal reconhecida com aquelas comunidades, sem necessariamente excluir toda e qualquer presença anterior na região. Portanto, a contradição é real enquanto tensão historiográfica, mas não precisa ser transformada em uma antinomia lógica absoluta.
Há ainda outro elemento que merece atenção. Paulo, nas suas próprias cartas, reconhece explicitamente sua atividade persecutória anterior. Em Gálatas 1,13, afirma: “Ouvistes certamente da minha conduta de outrora no judaísmo, de como perseguia sobremaneira a Igreja de Deus e a devastava”. Em Filipenses 3,6, descreve-se como alguém que, quanto ao zelo, era “perseguidor da Igreja”. Em 1 Coríntios 15,9, declara: “Pois eu sou o menor dos apóstolos, indigno de ser chamado apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus”. Portanto, a memória de Paulo como perseguidor não depende de Atos. Esse dado é historicamente importante. O que está em questão não é se Paulo perseguiu ou não seguidores de Jesus — isso possui forte sustentação nas cartas autênticas —, mas onde, quando e de que maneira essa perseguição ocorreu. Atos fornece uma narrativa muito mais detalhada: Jerusalém, prisão de cristãos, casas invadidas, participação na morte de Estêvão, autorização sacerdotal, perseguição até cidades estrangeiras. As cartas, ao contrário, preservam uma memória muito mais condensada. Essa diferença deve ser respeitada.
Também devemos reconsiderar a antiga ideia de que Paulo necessariamente teria recebido sua formação rabínica em Jerusalém junto a Gamaliel. Atos 22,3 coloca Paulo afirmando: “Eu sou judeu, nascido em Tarso da Cilícia, mas criado nesta cidade [Jerusalém], instruído aos pés de Gamaliel, segundo a exatidão da lei de nossos pais”. A passagem é importante para a construção lucana da identidade de Paulo: ele é simultaneamente judeu, fariseu, cidadão de Tarso e personagem capaz de transitar entre diferentes mundos. Contudo, não possuímos confirmação independente dessa formação junto a Gamaliel. O próprio Paulo, quando descreve sua formação em Filipenses 3,4-6, apresenta-se como “hebreu de hebreus”, fariseu e zeloso, mas não menciona Gamaliel. Isso não prova que Atos esteja errado; simplesmente significa que a informação precisa ser tratada como parte da tradição lucana, e não como um dado biográfico independente confirmado pelas cartas.
A partir daqui podemos retornar à questão inicial: Paulo presenciou a morte de Estêvão? Minha resposta, agora, precisa ser mais cautelosa do que aquela apresentada no texto original. Não podemos demonstrá-lo historicamente com segurança. Atos afirma que sim; Gálatas cria uma dificuldade significativa para essa reconstrução; as cartas autênticas confirmam a perseguição de Paulo, mas não confirmam sua participação na execução de Estêvão. A pesquisa de Koester, Moreschini e Norelli já havia percebido essa dificuldade, e a historiografia contemporânea acrescenta uma questão fundamental: precisamos distinguir entre o acontecimento histórico, a tradição sobre o acontecimento e a elaboração literária da tradição. O fato de Lucas colocar Saulo junto aos executores de Estêvão pode preservar uma memória antiga; pode também resultar da maneira pela qual o autor construiu a transformação do perseguidor em apóstolo. As duas possibilidades não são necessariamente incompatíveis. Uma tradição histórica pode ter sido reinterpretada literariamente. E é justamente nessa zona intermediária que provavelmente devemos situar nossa investigação.
Há, porém, algo ainda mais interessante. O silêncio de Paulo não é necessariamente menos significativo do que a afirmação de Lucas. Paulo jamais menciona Estêvão pelo nome nas cartas que possuímos. Se tivesse participado diretamente de sua execução, esperaríamos algum vestígio? Talvez. Mas não necessariamente. As cartas paulinas não são autobiografias sistemáticas. Paulo escreve para resolver conflitos, defender seu apostolado, interpretar o evangelho, responder a problemas comunitários e estabelecer argumentos teológicos. Não existe razão para supor que tivesse obrigação de narrar a morte de Estêvão. Seu silêncio, portanto, não constitui prova de que não estivesse presente. Mas ele impede que tratemos a narrativa de Atos como se fosse corroborada pela memória autobiográfica de Paulo.
O mais interessante talvez seja perceber que Lucas precisa de Estêvão para explicar Paulo. Estêvão é o primeiro grande testemunho cristão cuja morte desencadeia a dispersão; Paulo é o grande perseguidor que se converterá em missionário. Colocá-los no mesmo episódio produz uma poderosa estrutura narrativa de inversão. O perseguidor vê morrer aquele cuja mensagem ele posteriormente passará a proclamar. O homem que “guardava as vestes” dos executores tornar-se-á o homem que carregará consigo a mensagem de Cristo diante de reis, governadores, judeus e gentios. Existe, portanto, uma simetria literária extraordinária entre o início e o fim da narrativa: Paulo começa como testemunha da violência contra a Igreja e termina como testemunha de Cristo diante do mundo. A morte de Estêvão torna-se, assim, o negativo fotográfico da missão de Paulo.
E talvez seja justamente aqui que o texto de Atos revele sua verdadeira força. Não precisamos tratá-lo como uma crônica jornalística para reconhecer sua importância histórica. Ele preserva uma determinada memória das origens cristãs e, sobretudo, revela como uma comunidade cristã do final do século I compreendia seu próprio passado. A narrativa de Lucas diz que a história não avançou de maneira linear: perseguição produziu dispersão; dispersão produziu missão; o perseguidor tornou-se missionário; aquele que aprovava a morte dos cristãos tornou-se aquele que morreria por sua mensagem. A presença de Paulo ao lado dos executores de Estêvão é, portanto, mais do que um detalhe biográfico. É uma peça fundamental da teologia narrativa de Lucas.
Conclusão
Podemos, então, retornar às três proposições que estavam no centro do texto original, mas agora com maior precisão historiográfica.
1 – Os relatos sobre Paulo em Atos devem ser avaliados criticamente e cotejados com as cartas autênticas. As cartas paulinas possuem primazia como fontes diretas para a reconstrução de sua trajetória, embora também sejam documentos retóricos e circunstanciais, e não biografias.
2 – Atos não deve ser lido como uma historiografia moderna. Entretanto, também seria inadequado classificá-lo simplesmente como “ficção” ou negar-lhe qualquer valor histórico. Lucas trabalha com tradições, memórias e formas narrativas antigas, reorganizando-as segundo uma arquitetura teológica e literária própria. A análise dos discursos por Moreschini e Norelli é fundamental para compreender esse procedimento.
3 – A presença de Paulo na morte de Estêvão permanece historicamente incerta. Atos afirma explicitamente sua presença; Gálatas 1,22 cria uma tensão relevante; as cartas autênticas confirmam a atividade persecutória de Paulo, mas não confirmam sua presença no episódio. Portanto, não podemos transformar a narrativa lucana em certeza histórica, mas tampouco podemos provar que ela seja invenção.
E talvez essa seja a conclusão mais interessante de todas. A pergunta “Paulo presenciou a morte de Estêvão?” pode não possuir uma resposta histórica definitiva. Mas a pergunta “por que Lucas fez questão de colocar Paulo diante da morte de Estêvão?” possui uma resposta muito mais acessível. Lucas está construindo uma teologia da transformação. O perseguidor está presente diante da morte do mártir porque a narrativa precisa mostrar que aquele que testemunha a violência contra Cristo e seus seguidores será posteriormente convertido em testemunha de Cristo. Estêvão morre enquanto Paulo guarda as vestes daqueles que o matam; décadas depois, na arquitetura narrativa de Lucas, Paulo caminhará para sua própria condição de testemunha perseguida. O episódio funciona, assim, como uma espécie de semente narrativa de toda a trajetória posterior do apóstolo.
Por isso, talvez seja excessivo afirmar simplesmente, como fizemos no texto original, que “Paulo não presenciou a morte de Estêvão”. A formulação mais rigorosa é outra: não temos evidência independente suficiente para estabelecer que Paulo estivesse presente, e a afirmação de Atos precisa ser confrontada com a autobiografia paulina de Gálatas. O problema permanece aberto. Mas justamente por permanecer aberto ele se torna historiograficamente mais interessante: entre a memória autobiográfica de Paulo e a memória narrativa de Lucas encontramos não apenas uma possível contradição, mas o processo pelo qual diferentes comunidades cristãs construíram, conservaram e reinterpretaram a memória de suas próprias origens.
Referências
ALEXANDER, Loveday. Acts in its ancient literary context. London: T&T Clark, 2005.
BARRETT, C. K. A critical and exegetical commentary on the Acts of the Apostles. Edinburgh: T&T Clark, 1994-1998. 2 v.
GAVENTA, Beverly Roberts. The Acts of the Apostles. Nashville: Abingdon Press, 2003.
KEENER, Craig S. Acts: an exegetical commentary. Grand Rapids: Baker Academic, 2012-2015. 4 v.
KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 2005. v. 2.
KÜMMEL, Werner Georg. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Paulus, 1982.
MORESCHINI, Claudio; NORELLI, Enrico. História da literatura cristã antiga grega e latina. São Paulo: Loyola, 1995.
PERVO, Richard I. Dating Acts: between the evangelists and the apologists. Santa Rosa: Polebridge Press, 2006.
PORTER, Stanley E. Paul and his social relations. Leiden: Brill, 2013.
MATTHEWS, Shelly. The politics of women in the New Testament: an inquiry into the historicity of the stories of women in Luke-Acts. London: T&T Clark, 2001.
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