Não posso deixar de comentar a notícia publicada pelo New York Times sobre uma descoberta arqueológica extraordinária na região da atual Turquia, onde fica a cidade de Zincirli — local da antiga cidade de Sam’al. Trata-se de uma estela funerária do século VIII a.C., pertencente a um indivíduo chamado Kuttamuwa, funcionário ligado ao rei Panamuwa. A descoberta foi realizada pela equipe do Oriental Institute da Universidade de Chicago e tornou-se particularmente importante porque a estela foi encontrada em seu contexto arqueológico original. Kuttamuwa mandou preparar o monumento ainda em vida e determinou que ele fosse colocado em sua “câmara eterna”. Ali deveria ser realizado um banquete, com sacrifícios destinados a diversas divindades e, de maneira especialmente interessante, um carneiro para sua nbš, que estaria na própria estela. A inscrição completa pode ser consultada no excelente arquivo do Zincirli Archaeological Project, que reúne fotografias, transcrição e tradução do documento.
Para aqueles que não sabem, a crença corrente entre os povos semíticos sobre o post-mortem era bastante mais complexa do que muitas vezes imaginamos. No caso dos antigos israelitas e judaítas, por exemplo, encontramos a concepção do Sheol como domínio dos mortos. Mas é preciso cuidado para não transformar essa tradição em uma espécie de doutrina comum a todos os povos semíticos. O antigo Oriente Próximo era culturalmente muito diversificado, e diferentes sociedades desenvolveram diferentes maneiras de compreender a morte, o corpo, os ancestrais e aquilo que permanecia do indivíduo depois da morte. A estela de Sam’al é particularmente interessante justamente porque nos apresenta uma dessas concepções de maneira excepcionalmente explícita.
O texto diz:
“Eu, Kuttamuwa, servo de Panamuwa, sou aquele que fez preparar esta estela para mim mesmo enquanto ainda estava vivo. Eu a coloquei em minha câmara eterna e estabeleci um banquete nesta câmara: um touro para Hadad, um carneiro para Shamash e um carneiro para minha nbš que estará nesta estela.”
A tradução e a documentação arqueológica podem ser consultadas diretamente no projeto oficial de Zincirli. A expressão fundamental é nbš. Ela pertence ao universo linguístico semítico e é cognata do hebraico nefesh. É justamente aqui que começa a parte mais interessante da história. A nbš de Kuttamuwa não é apresentada simplesmente como algo que desaparece junto com o corpo. A inscrição estabelece que ela estará associada à estela e que receberá uma oferenda. O monumento, portanto, não é simplesmente uma lápide destinada a informar aos vivos que Kuttamuwa morreu. Ele constitui o lugar no qual alguma dimensão da pessoa morta continua presente.
A representação pictórica da estela é também impressionante. Kuttamuwa aparece como um indivíduo barbado, sentado diante de uma mesa, com alimentos e bebida. A imagem pode ser vista em alta resolução no material disponibilizado pelo Oriental Institute. Mais importante ainda, a estela não foi encontrada isoladamente. Ela estava associada a uma pequena estrutura funerária, onde foram identificados restos de animais e outros vestígios relacionados às práticas realizadas naquele espaço. Temos, portanto, uma combinação extraordinária: o morto é representado na pedra; seu nome está gravado na pedra; sua nbš é associada à pedra; e os vivos devem retornar àquele lugar para realizar oferendas.
Uma outra variante da notícia pode ser encontrada no arquivo da EurekAlert! sobre a descoberta. Quando a descoberta veio a público, uma das interpretações mais impressionantes era justamente a possibilidade de que estivéssemos diante de uma concepção segundo a qual a alma se separava do corpo e passava a residir na estela. A leitura parecia extraordinária. Encontrávamos, no século VIII a.C., numa cultura do norte da Síria, uma ideia que parecia muito próxima daquilo que posteriormente chamaríamos de separação entre corpo e alma.
É aqui, porém, que precisamos atualizar um pouco aquilo que escrevi originalmente. A interpretação continua possível, mas hoje devemos ser mais cautelosos. Alguns pesquisadores questionaram se nbš precisa necessariamente significar uma “alma” incorpórea no sentido filosófico que posteriormente encontramos em autores gregos. Existe a possibilidade de que o termo esteja relacionado à própria presença, imagem ou representação do morto no monumento. A discussão é importante porque não precisamos transformar Kuttamuwa num “platônico antes de Platão” para reconhecer a extraordinária novidade do documento. O que a estela demonstra com segurança é que alguma dimensão fundamental da identidade de Kuttamuwa continuaria associada ao monumento depois de sua morte e seria objeto de práticas rituais.
Tal descoberta é realmente desconcertante para as concepções excessivamente simplificadas sobre o post-mortem entre os antigos povos do Oriente Próximo. A concepção judaica antiga, por exemplo, não pode ser reduzida simplesmente à ideia de uma “alma imortal” no sentido posterior. O Sheol aparece na Bíblia Hebraica como o domínio dos mortos, embora as concepções sobre ele variem bastante conforme o período e o texto. Posteriormente, sobretudo no período do Segundo Templo, surgirão novas formulações sobre ressurreição, julgamento, vida futura e destino individual. O interessante na estela de Sam’al é justamente encontrarmos, séculos antes dessas formulações judaicas tardias, uma concepção segundo a qual alguma dimensão do indivíduo morto permanece presente e recebe alimento ritual.
A ideia de uma vida boa no post-mortem, regada a boa comida e vinho, é realmente um achado inusitado. Mas aqui também precisamos fazer uma pequena correção em relação ao texto original. Não sabemos se Kuttamuwa imaginava uma espécie de “paraíso” depois da morte. O que sabemos é que sua estela estabelece um banquete funerário e determina oferendas à sua nbš. A comida e a bebida fazem parte do ritual de manutenção da relação entre os vivos e o morto. O morto continua, de algum modo, inserido na ordem social. Seus descendentes deverão retornar, realizar as oferendas e manter sua memória. A morte não dissolve completamente a relação entre o indivíduo e sua comunidade.
O autor da estela faz referência a várias divindades. Entre elas encontramos Hadad, importante divindade da tempestade do antigo Oriente Próximo, e Shamash, o grande deus solar mesopotâmico. Isso também é importante porque nos lembra que Sam’al estava localizada numa região de intensa circulação cultural. A cidade não pertencia a um universo cultural isolado. Sua religião combinava elementos aramaicos e anatólios e esteve posteriormente submetida à influência do Império Assírio. Estamos diante, portanto, de uma cultura de fronteira.
Muito do que se fala, por exemplo, sobre as concepções cristãs sobre o post-mortem refere-se à hipótese de uma incorporação de conceitos platônicos, quer nas primeiras gerações de cristãos, através da junção entre filosofia grega e Escrituras, quer no próprio desenvolvimento do pensamento judaico durante o período helenístico. A expansão do mundo grego depois de Alexandre, o Grande, criou efetivamente um enorme espaço de intercâmbio cultural entre Egito, Síria, Palestina, Ásia Menor e Grécia. O contato entre judaísmo e helenismo foi decisivo para a história intelectual posterior. Mas isso não significa que toda ideia de sobrevivência pessoal depois da morte tenha sido simplesmente importada da filosofia grega.
A estela samaliana introduz justamente uma importante correção nessa narrativa. Encontramos ali, vários séculos antes do cristianismo e aproximadamente três séculos antes de Platão, uma cultura do norte da Síria na qual a nbš de um morto permanece associada a uma representação funerária e recebe oferendas. Isso não significa que Platão tenha conhecido Kuttamuwa, obviamente. Também não significa que a concepção samaliana seja idêntica à concepção platônica. Significa apenas que a ideia de alguma forma de continuidade da pessoa depois da morte não pode ser automaticamente explicada como produto da filosofia grega.
A comparação com Platão, aliás, é particularmente instrutiva. No pensamento platônico, a alma é objeto de uma elaboração filosófica extremamente sofisticada: ela possui uma natureza própria, pode ser separada do corpo e está relacionada ao problema do conhecimento, da ética e do destino último do indivíduo. Nada disso encontramos na estela de Kuttamuwa. Não temos uma teoria metafísica da alma. Temos algo muito mais concreto: um homem que manda construir uma imagem de si mesmo, determina que ela seja colocada em sua câmara funerária e estabelece que os vivos deverão alimentar aquilo que chama de sua nbš. Se quisermos utilizar a palavra “alma”, devemos fazê-lo com essa diferença em mente.
É possível, portanto, que a questão mais interessante não seja perguntar simplesmente se Kuttamuwa acreditava numa alma separada do corpo. Talvez devamos perguntar como ele imaginava que sua pessoa continuaria existindo depois da morte. Sua resposta parece envolver simultaneamente corpo, imagem, monumento, memória e ritual. O morto está representado na pedra; seu nome está inscrito na pedra; sua nbš estará associada à pedra; e seus descendentes continuarão a realizar sacrifícios diante dela. A estela transforma-se, assim, em uma espécie de lugar material da continuidade do morto.
Há aqui uma questão que me parece especialmente interessante para a história das religiões. Durante muito tempo, a discussão sobre “alma” foi apresentada como se tivéssemos de escolher entre duas possibilidades: de um lado, povos antigos que acreditariam simplesmente na sobrevivência física do indivíduo; de outro, os gregos, que teriam descoberto a alma como entidade espiritual separada do corpo. A arqueologia não parece confirmar uma divisão tão simples. O antigo Oriente Próximo apresenta inúmeras formas de relação entre mortos e vivos, monumentos funerários, culto aos ancestrais, oferendas, imagens e concepções sobre aquilo que permanece depois da morte. A estela de Kuttamuwa é particularmente preciosa porque conseguimos observar texto e ritual funcionando juntos.
Isso também nos obriga a relativizar a ideia de que a helenização teria simplesmente introduzido no Oriente a noção de alma. A helenização foi, sem dúvida, um fenômeno histórico de enorme importância, mas o contato cultural não significa necessariamente substituição imediata de uma concepção por outra. As culturas antigas não eram recipientes vazios nos quais os gregos despejaram suas ideias. Existiam tradições locais anteriores, que posteriormente dialogaram, combinaram-se e entraram em conflito com conceitos gregos. A história das ideias sobre a morte no judaísmo e no cristianismo é precisamente uma dessas histórias de interação.
É importante ainda lembrar que Sam’al não era uma cultura “semítica pura”. A própria pesquisa arqueológica de Zincirli revela uma sociedade situada numa zona de contato entre diferentes tradições. Isso torna qualquer genealogia simples ainda mais problemática. Não podemos dizer que Kuttamuwa representa “o pensamento semítico” da mesma maneira que não poderíamos dizer que Platão representa “o pensamento grego” em sua totalidade. O valor da estela está justamente em revelar uma concepção específica, em determinado lugar e momento histórico.
A descoberta, portanto, não permite afirmar que “os semitas acreditavam na separação da alma”. Isso seria generalizar indevidamente. Mas permite afirmar algo muito mais interessante: no século VIII a.C., numa sociedade do norte da Síria, encontramos uma concepção segundo a qual algo identificado com a pessoa morta continua associado ao seu monumento funerário e é destinatário de oferendas. E isso ocorre muito antes da formulação filosófica platônica da alma.
A imagem de Kuttamuwa sentado diante da mesa talvez seja, afinal, a melhor síntese de todo o problema. Ele está morto, mas aparece representado comendo e bebendo. Seu corpo já não está ali, mas sua imagem está. Sua voz desapareceu, mas suas palavras permanecem gravadas. Sua vida terminou, mas seu nome continua inscrito. E sua nbš, seja entendida como alma, presença, identidade ou representação, continua vinculada à pedra. O monumento transforma a ausência em presença.
E há uma ironia histórica particularmente interessante. Kuttamuwa morreu há quase três mil anos, mas alguém deixou instruções bastante precisas para que ele continuasse recebendo alimento. Mandou preparar sua estela enquanto ainda estava vivo, colocou-a em sua câmara funerária e determinou os sacrifícios que deveriam ser realizados. Quase três milênios depois, continuamos diante daquela mesma imagem, tentando compreender o que ele imaginava que permaneceria dele depois da morte.
Talvez a estela de Kuttamuwa não nos permita afirmar exatamente o que é uma “alma”. Mas permite algo talvez mais interessante: observar um homem antigo tentando garantir que alguma coisa dele permanecesse depois que seu corpo desaparecesse. E conseguiu.
Para continuar a investigação
O melhor ponto de partida hoje é o próprio Zincirli Archaeological Project, da Universidade de Chicago, porque reúne fotografias, contexto arqueológico, transcrição e tradução da inscrição. Para uma visão arqueológica mais ampla da descoberta, vale também consultar o material do Oriental Institute sobre Zincirli. E, para visualizar o monumento em contexto histórico mais amplo, a página do Metropolitan Museum of Art sobre o antigo Oriente Próximo oferece uma excelente porta de entrada visual.
Esse formato me parece mais próximo do que fizemos no texto “A Arte e as Sinagogas”: o ensaio continua sendo leitura contínua, mas o leitor pode, a qualquer momento, clicar em Kuttamuwa, Sam’al, Zincirli, nbš, Sheol, Hadad, Shamash, Assíria, Platão, helenização, etc., e aprofundar a investigação.

