Mateus 26,30 — “Depois de terem cantado o hino, saíram para o monte das Oliveiras.”
Encontramos nos Atos de João uma referência particularmente significativa àquilo que pode ser colocado em paralelo com o breve episódio mencionado por Mateus: o hino cantado por Jesus e seus discípulos antes de sua prisão. É importante, desde logo, estabelecer uma distinção. Não podemos afirmar que o texto dos Atos de João preserve historicamente aquilo que aconteceu na última noite de Jesus, tampouco que seu autor esteja simplesmente reproduzindo uma tradição perdida dos evangelhos. Os Atos de João constituem uma obra cuja composição, transmissão e diferentes camadas textuais permanecem objeto de discussão, e a passagem conhecida como “Hino de Jesus”, sobretudo nos capítulos 94–96, apresenta uma elaboração teológica própria. A edição crítica de Éric Junod e Jean-Daniel Kaestli, Acta Iohannis, permanece fundamental para a análise da composição, da transmissão e da estrutura textual da obra, especialmente porque a relação entre os capítulos 94–96 e a revelação da paixão que prossegue até o capítulo 102 impede que o hino seja tratado simplesmente como uma peça isolada. O interesse histórico da passagem encontra-se, portanto, em outro lugar: ela permite observar como determinada tradição cristã antiga imaginou, ritualizou e incorporou corporalmente a paixão de Cristo. A NASSCAL, em sua e-Clavis Christian Apocrypha dedicada aos Atos de João, reúne bibliografia especializada e informações sobre a tradição textual da obra.
O que Mateus registra de maneira extremamente econômica como um canto transforma-se, nessa tradição, em uma experiência comunitária que reúne voz, corpo, movimento, repetição, resposta litúrgica e revelação. Jesus reúne os discípulos, coloca-se no centro de um círculo, ordena-lhes que deem as mãos e inicia um canto ao qual os demais respondem repetidamente “Amém”. Nos Atos de João 94, a cena é apresentada assim:
“Antes que fosse entregue aos ímpios, que receberam sua lei de uma serpente ímpia, reuniu-nos todos e disse: ‘Antes que eu seja entregue a eles, cantemos um hino ao Pai e saiamos para aquilo que está diante de nós’. Então ordenou que fizéssemos como que um círculo, segurando uns nas mãos dos outros, enquanto ele próprio permanecia no meio. E disse: ‘Respondei-me: Amém’. Começou então a cantar um hino, dizendo:
‘Glória a ti, Pai!’
E nós, dando voltas em círculo, respondemos: ‘Amém’.
‘Glória a ti, Palavra! Glória a ti, Graça!’ ‘Amém’.
‘Glória a ti, Espírito! Glória a ti, Santo! Glória à tua glória!’ ‘Amém’.
‘Nós te louvamos, ó Pai. Nós te damos graças, ó Luz, na qual não habita a escuridão.’ ‘Amém’.”
A tradução acima é nossa, realizada a partir da tradução inglesa de M. R. James, disponível integralmente na edição digital de The Acts of John. O texto de James identifica o episódio como Acts of John 94 e registra tanto a formação do círculo quanto a posição de Jesus “in the middle”. A cena é extraordinária porque transforma aquilo que no Evangelho de Mateus é uma informação extremamente econômica — “depois de terem cantado o hino” — em uma experiência comunitária que reúne voz, corpo, movimento, repetição, resposta litúrgica e revelação. Não estamos diante de uma simples ilustração narrativa da paixão. O círculo formado pelos discípulos, o movimento em torno de Jesus e a estrutura responsorial do canto fazem da passagem uma ação ritualizada.
É precisamente por isso que a bibliografia especializada passou a estudar o episódio não apenas como literatura apócrifa ou como curiosidade da chamada literatura gnóstica, mas também como possível testemunho de formas de prática religiosa existentes em determinados ambientes cristãos antigos. Barbara E. Bowe, Arthur J. Dewey e Karin Schlapbach estão entre os estudiosos que trataram diretamente da dança nos Atos de João, discutindo sua função como prática corporal, experiência religiosa e forma de interpretação. A própria tradição crítica reunida por Junod e Kaestli chama atenção para a relação entre o material do hino, a revelação da paixão e os capítulos subsequentes, enquanto estudos posteriores observam que o círculo, a posição central de Jesus e a participação corporal dos discípulos constituem elementos estruturantes da cena. A NASSCAL reúne a bibliografia especializada sobre os Atos de João.
A questão que se coloca, portanto, é muito mais interessante do que aquela que inicialmente poderia parecer: estaria o autor simplesmente inventando uma dança de Jesus ou estaria transformando em narrativa uma prática ritual que seus próprios leitores poderiam reconhecer? Não temos elementos suficientes para responder definitivamente à pergunta. A existência de uma cena tão elaborada não prova, por si só, que uma cerimônia idêntica tenha sido historicamente realizada. Mas a possibilidade de que a passagem conserve elementos reconhecíveis de prática religiosa torna a questão historicamente relevante. Paul Trebilco, ao estudar os Atos de João em relação às comunidades cristãs de Éfeso, considera plausível que uma prática litúrgica comunitária esteja por trás da passagem, embora isso não equivalha a demonstrar historicamente a realização exata da cena narrada. É necessário, portanto, distinguir três níveis diferentes: a descrição literária de uma ação ritualizada, a possibilidade de que determinados elementos reflitam práticas de uma comunidade e a comprovação histórica de que aquela cerimônia específica tenha efetivamente ocorrido. O primeiro nível é evidente; o segundo é plausível e discutível; o terceiro não pode ser demonstrado a partir do texto.
A hipótese torna-se ainda mais interessante quando observamos a estrutura do hino. Jesus não fala simplesmente diante de uma assembleia passiva. Ele pronuncia uma fórmula e a comunidade responde. O “Amém” não é um detalhe secundário; ele constitui o mecanismo através do qual a comunidade entra na própria ação do Cristo. O texto prossegue:
“Agora, enquanto damos graças, eu digo:
‘Eu seria salvo, e salvaria.’ Amém.
‘Eu seria libertado, e libertaria.’ Amém.
‘Eu seria ferido, e feriria.’ Amém.
‘Eu nasceria, e geraria.’ Amém.
‘Eu comeria, e seria comido.’ Amém.
‘Eu ouviria, e seria ouvido.’ Amém.
‘Eu seria entendido, sendo inteiramente aquele que entende.’ Amém.
‘Eu me lavaria, e lavaria.’ Amém.
A Graça dança.
‘Eu tocaria a flauta; dançai todos!’ Amém.
‘Eu lamentaria; lamentai todos!’ Amém.
‘Uma Oitava canta conosco.’ Amém.
‘O Décimo Segundo número dança acima.’ Amém.
‘E o Todo que pode dançar.’ Amém.
‘Aquele que não dança não sabe o que está acontecendo.’ Amém.
‘Eu fugiria e permaneceria.’ Amém.
‘Eu adornaria e seria adornado.’ Amém.
‘Eu seria unido e uniria.’ Amém.
‘Não tenho casa e tenho casas.’ Amém.
‘Não tenho lugar e tenho lugares.’ Amém.
‘Não tenho templo e tenho templos.’ Amém.
‘Sou uma lâmpada para aquele que me contempla.’ Amém.
‘Sou um espelho para aquele que me percebe.’ Amém.
‘Sou uma porta para aquele que bate.’ Amém.
‘Sou um caminho para aquele que viaja.’ Amém.”
Aqui aparece uma característica que merece atenção especial. A linguagem do hino é construída sobre paradoxos. O Cristo é aquele que salva e é salvo; liberta e é libertado; é ferido e fere; nasce e gera; come e é comido; ouve e é ouvido; não possui templo e, simultaneamente, possui templos. Não se trata simplesmente de poesia religiosa. O paradoxo é o próprio mecanismo pelo qual a identidade de Jesus é apresentada. A tradução desse trecho exige algum cuidado. A edição de James traz, por exemplo, “I would be pierced, and I would pierce” e “I would be understood, being wholly understanding”. Por isso, preferimos aqui “seria ferido, e feriria” e “seria entendido, sendo inteiramente aquele que entende”, evitando transformar understanding diretamente em “compreensão” ou “compreendido” e, assim, introduzir uma interpretação epistemológica que o inglês não exige. Também merece atenção a referência à “Oitava” e ao “Décimo Segundo número”. O texto grego emprega termos que podem ser entendidos em relação à Ogdóade e à Duodécade, vocabulário cosmológico que possui especial importância na literatura valentiniana. A presença desses termos não autoriza, por si só, classificar o Hino simplesmente como “valentiniano”, mas constitui um dado relevante para a discussão de sua proveniência teológica. A própria tradição crítica observa a importância da Ogdóade nesse contexto e registra a dificuldade interpretativa da referência ao número doze.
O paradoxo cristológico torna-se ainda mais profundo quando o hino passa da linguagem da ação para a linguagem da identidade. Aquele que está prestes a sofrer não pode ser reduzido ao sofrimento que será observado pelos homens. O Cristo apresentado no hino é simultaneamente sujeito e objeto da ação, aquele que experimenta a realidade humana e aquele que a transforma. É nesse ponto que os Atos de João se afastam radicalmente da narrativa sinótica e entram em uma cristologia muito mais especulativa. A pesquisa moderna tem discutido se devemos classificá-la simplesmente como “gnóstica”, “docética” ou como uma forma heterodoxa de cristianismo joanino. A cautela é necessária: a categoria “gnosticismo” foi construída retrospectivamente e não deve ser aplicada automaticamente a todo texto que apresente uma cristologia dualista ou uma concepção peculiar da corporeidade. Mais prudente é reconhecer que os Atos de João apresentam uma cristologia na qual a relação entre o Jesus visível, o sofrimento corporal e a identidade divina é profundamente problematizada. Junod e Kaestli são particularmente importantes nesse ponto porque relacionam a dança e o hino à revelação da paixão que prossegue nos capítulos 97–102, e o capítulo 101 retoma explicitamente a dança para afirmar que o sofrimento revelado por Cristo deve ser compreendido como “mistério”. A questão, portanto, não é apenas saber se o Hino contém elementos que posteriormente reconheceríamos como gnósticos, mas perceber como o texto constrói uma oposição entre aquilo que parece acontecer com Jesus e aquilo que o próprio Cristo afirma ser a realidade de sua paixão. Taras Khomych coloca diretamente Atos de João 94–96 em diálogo com Inácio de Antioquia, Ephesians 19, tratando ambas as cenas de dança como expressões de determinadas posições cristológicas. O estudo pode ser conferido no arquivo institucional da Hope University.
E é justamente nesse ponto que a dança deixa de ser um elemento pitoresco para adquirir importância teológica. Jesus diz aos discípulos:
“Agora, se respondeis à minha dança, vede-vos em mim, que falo; e, quando tiverdes visto o que faço, guardai silêncio sobre meus mistérios. Tu que danças, percebe o que faço; pois tua é esta paixão da humanidade que estou prestes a sofrer. Pois de modo algum poderias compreender aquilo que sofres se eu não tivesse sido enviado a ti como a Palavra pelo Pai. Quando viste o que sofro, viste-me sofrendo; e, vendo isso, não permaneceste firme, mas foste inteiramente movido.
Movido a tornar-te sábio, tens em mim um apoio. Repousa em mim! Quem sou eu? Não o saberás quando eu partir. O que agora sou visto ser, isso não sou. Verás quando vieres. Se tivesses sabido como sofrer, terias tido o poder de não sofrer. Aprende a sofrer, e serás capaz de não sofrer. Aquilo que não conheces, eu te ensinarei.”
Aqui a tradução também merece atenção. O texto de James utiliza expressões como “respond to my dancing”, “see thyself in me”, “perceive what I do” e, na passagem sobre o sofrimento, “Learn thou to suffer, and thou shalt be able not to suffer”. Por isso, a formulação “Aprende a sofrer, e serás capaz de não sofrer” é preferível a uma tradução mais interpretativa como “Conhece o sofrimento, e terás o poder de não sofrer”. A primeira preserva a dimensão pedagógica explícita do verbo learn. Mais importante, porém, é observar o encadeamento entre sofrimento, conhecimento e identidade. O discípulo vê Cristo sofrendo, mas é justamente nesse momento que recebe a advertência de que aquilo que agora vê não esgota aquilo que Cristo é: “O que agora sou visto ser, isso não sou”. O sofrimento é, assim, simultaneamente real enquanto experiência humana e insuficiente enquanto definição da identidade do Cristo. A tensão não deve ser resolvida rapidamente por meio da simples oposição entre “corpo verdadeiro” e “corpo aparente”; o próprio texto constrói um paradoxo no qual Cristo sofre, revela o sofrimento e, ao mesmo tempo, afirma uma realidade que ultrapassa aquilo que os observadores conseguem apreender.
É justamente por isso que podemos afirmar, em sentido interpretativo, que dançar é compreender. A experiência corporal não é simplesmente consequência do conhecimento; ela é um dos caminhos pelos quais o conhecimento é produzido. O discípulo não recebe uma doutrina abstrata e posteriormente a transforma em comportamento corporal. Ele participa da dança e, através dessa participação, é introduzido no “mistério”. Karin Schlapbach, ao estudar a dança no mundo greco-romano e particularmente sua utilização nos Atos de João, chama atenção justamente para aspectos epistemológicos e experienciais da dança. Seu estudo dedica uma seção específica à dança nos Atos de João e discute a dança como experiência e forma de conhecimento. A obra pode ser consultada na Oxford Academic, inclusive no capítulo dedicado aos aspectos emocionais e epistêmicos da dança.
A partir daí, podemos compreender melhor por que Jesus ocupa o centro do círculo. Não é apenas uma disposição espacial. O Cristo é simultaneamente o centro da comunidade e aquilo em torno do qual a comunidade se movimenta. Os discípulos não estão simplesmente olhando para Jesus; eles estão participando dele. Quando Jesus diz “vede-vos em mim”, a linguagem do hino estabelece uma espécie de espelhamento entre Cristo e aqueles que dançam. O discípulo deve ver-se naquele que está no centro. O círculo, nesse sentido, funciona como uma representação corporal da própria cristologia do texto: o Cristo permanece no centro enquanto a comunidade se movimenta ao seu redor; entretanto, o próprio movimento dos discípulos constitui a maneira pela qual eles entram no mistério do Cristo. É possível compreender aqui por que a dança foi tão importante para os estudiosos do texto. Ela não constitui uma adição superficial à teologia; ela é a teologia convertida em gesto.
As tradições judaicas de culto celestial oferecem, nesse ponto, um horizonte comparativo particularmente fecundo. Não se pode afirmar, evidentemente, que os autores dos Atos de João tenham simplesmente copiado práticas de Qumran. Uma afirmação dessa natureza ultrapassaria completamente aquilo que as fontes permitem demonstrar. Mas existe um dado comparativo extremamente interessante. Entre os manuscritos do Mar Morto encontramos os chamados Cânticos do Sacrifício do Sábado (Songs of the Sabbath Sacrifice), uma coleção litúrgica composta por treze cânticos que descrevem a liturgia celeste, os sacerdotes angélicos, o templo celestial e a adoração realizada no mundo superior. A comunidade terrestre é imaginada em relação com uma ordem litúrgica transcendente. A edição crítica de Carol Newsom reúne os textos de 4Q400–407, o material de Masada e 11QShirShabb, além de dedicar seções específicas à angelologia, ao templo celestial e ao contexto de Qumran. A documentação dos manuscritos mostra que os Songs of the Sabbath Sacrifice foram preservados em exemplares provenientes de Qumran e de Masada, pertencentes ao horizonte do período hasmoneu e herodiano.
Os manuscritos encontrados em Qumran e também um exemplar proveniente de Masada documentam a existência de tradições de culto celestial, sacerdócio angélico e participação litúrgica na realidade superior já presentes em ambientes judaicos do período do Segundo Templo. O que encontramos nesse universo religioso é uma concepção na qual o culto terrestre pode ser imaginado em relação com uma realidade celestial, de modo que a comunidade humana participa, através do louvor e da liturgia, da adoração realizada pelos seres celestes. Essa aproximação precisa ser feita com extrema cautela. Qumran não é a fonte da dança dos Atos de João**.** Não possuímos qualquer cadeia documental que nos permita estabelecer essa transmissão. O que podemos afirmar é algo mais amplo: tanto os Cânticos do Sacrifício do Sábado quanto os Atos de João pertencem a universos religiosos nos quais a fronteira entre culto terrestre e realidade celeste podia ser imaginada como permeável. Os primeiros oferecem, entretanto, uma testemunha cronologicamente muito mais próxima do ambiente judaico do Segundo Templo; os segundos pertencem a um contexto cristão posterior e devem ser interpretados em sua própria configuração teológica.
Em Qumran, a comunidade litúrgica contempla e participa do culto dos anjos; nos Atos de João, a Oitava canta, o Décimo Segundo número dança acima e o Todo pode dançar. O vocabulário cosmológico é diferente, a teologia é diferente e a distância cronológica é real; mas existe uma questão estrutural semelhante: o culto não se limita ao espaço físico ocupado pela comunidade. A ação litúrgica terrestre é imaginada como inserida em uma ordem cósmica superior. Essa comparação é mais fecunda justamente quando abandonamos a hipótese de uma dependência direta e passamos a investigar um repertório religioso mais amplo, no qual música, culto, corpo, comunidade e mundo celestial podiam ser pensados conjuntamente. No caso dos Atos de João, contudo, a linguagem da Ogdóade e da Duodécade acrescenta uma dimensão cosmológica própria, que não deve ser simplesmente assimilada às representações celestes de Qumran.
A tradição da Merkabah, a visão do carro ou trono divino, também pode ser colocada em nosso horizonte comparativo, desde que não projetemos retrospectivamente sobre o século II sistemas místicos judaicos plenamente desenvolvidos em períodos posteriores. A literatura da Merkabah e dos Hekhalot pertence a processos históricos complexos, e não podemos simplesmente afirmar que a dança dos Atos de João seja uma prática de “mística judaica” transplantada para o cristianismo. Além disso, a comparação cronológica é desigual: os Cânticos do Sacrifício do Sábado constituem testemunho material do período do Segundo Templo, enquanto os corpora hekhalóticos preservados pertencem a processos de formação posteriores. O que podemos perceber, de maneira mais ampla, é a existência de um problema religioso semelhante: como o ser humano pode participar de uma realidade que ultrapassa o mundo ordinário? No judaísmo apocalíptico, em determinadas tradições litúrgicas judaicas e, posteriormente, na literatura mística, o acesso ao mundo celestial podia ser representado por visões, louvores, cânticos, ascensões e formas de participação na realidade angelical. Nos Atos de João, essa possibilidade é radicalmente cristianizada: o próprio Cristo torna-se o centro da ação e o corpo dos discípulos participa de sua revelação.
Outro elemento que merece ser reconsiderado é a relação entre o hino e a Eucaristia. O texto dos Atos de João não deve ser lido como se simplesmente reproduzisse a Última Ceia dos Evangelhos. A narrativa anterior aos capítulos 94–96 contém, de fato, elementos relacionados à partilha do pão e à linguagem eucarística, mas a sequência ritual assume uma forma bastante diferente daquela encontrada nos relatos sinóticos. Em Atos de João 85–86, por exemplo, João ora diante do túmulo de Fortunato e posteriormente “faz todos os irmãos participarem da Eucaristia do Senhor”. Em 93, Jesus aparece partilhando o pão com os discípulos; em 109–110, João oferece uma oração sobre o pão, parte-o e o distribui aos irmãos. Esses trechos mostram que a linguagem eucarística está efetivamente presente na obra, mas não permitem identificar o episódio de 94–96 simplesmente como uma celebração eucarística. A própria sequência textual torna essa distinção importante.
Isso abre uma possibilidade particularmente interessante: não estaríamos diante simplesmente de uma dança acrescentada à Eucaristia, mas diante de uma comunidade que concebe o encontro com Cristo através de uma combinação ritual própria, na qual o pão, o canto, a resposta coletiva, o movimento corporal e a revelação cristológica se encontram articulados? Não devemos transformar essa hipótese em certeza histórica. Os Atos de João são literatura narrativa e teológica, e não um manual litúrgico. Mas a hipótese merece ser considerada porque o texto não descreve a dança como um espetáculo ao qual os discípulos assistem. Eles participam. Formam o círculo, seguram as mãos, respondem “Amém”, dançam e são convidados a perceber aquilo que fazem. É precisamente essa participação corporal que torna possível falar em uma dimensão ritual.
Um ritual não precisa ser descrito por um autor como “liturgia” para desempenhar uma função litúrgica. O próprio caráter responsorial da cena, a repetição do “Amém”, a estrutura circular, a centralidade de Jesus e a dimensão comunitária da ação apontam nessa direção. Ao mesmo tempo, é necessário distinguir os níveis que não devem ser confundidos: a descrição literária de uma ação ritualizada; a possibilidade de que determinados elementos reflitam práticas de uma comunidade; e a comprovação histórica de que aquela cerimônia específica tenha efetivamente ocorrido. O primeiro nível é evidente; o segundo é plausível e discutível; o terceiro não pode ser demonstrado a partir do texto. Essa distinção torna-se ainda mais importante quando consideramos a discussão textual e teológica dos capítulos 94–102: a existência de uma tradição ritualizada não significa que possamos reconstruir diretamente uma cerimônia histórica a partir da narrativa que a transmite.
Aqui retornamos à observação inicial sobre Mateus. Não é necessário supor uma continuidade histórica simples entre a frase “depois de terem cantado o hino” e a dança descrita nos Atos de João. Mateus apresenta um canto associado à refeição pascal; os Atos de João apresentam um ritual cristológico que incorpora canto, dança e revelação. A diferença entre ambos é precisamente aquilo que nos interessa. O que os cristãos posteriores fizeram com a memória de Jesus? Como uma breve notícia sobre um canto podia ser integrada, em outra tradição cristã, a uma experiência religiosa completamente desenvolvida?
A resposta talvez esteja na própria transformação da experiência de Jesus em experiência comunitária. O Jesus dos Atos de João não apenas ensina; ele dança. Não apenas fala sobre o sofrimento; ele incorpora o paradoxo do sofrimento. Não apenas promete salvação; ele convida os discípulos a participarem corporalmente daquilo que está prestes a acontecer. O hino afirma: “Eu seria salvo, e salvaria”; “eu seria ferido, e feriria”; “eu nasceria, e geraria”. O paradoxo cristológico é, portanto, acompanhado pelo paradoxo corporal da dança: o discípulo movimenta-se ao redor de Cristo e, simultaneamente, é chamado a ver-se em Cristo. A comunidade aprende através do movimento aquilo que o texto considera impossível de apreender simplesmente por meio da observação da paixão. A dança não é, portanto, apenas uma prática corporal acrescentada a uma doutrina já formulada; ela participa da própria construção daquilo que o texto entende como conhecimento de Cristo.
É justamente por isso que considero particularmente sugestiva a afirmação do próprio texto: “Aquele que não dança não sabe o que está acontecendo.” Aqui estamos diante de uma formulação efetivamente presente no texto de Atos de João 95: “He that danceth not, knoweth not what is being done.” Não se trata, portanto, de uma paráfrase moderna nossa. Talvez essa seja uma das frases mais importantes de toda a passagem. O autor está dizendo que existe uma diferença entre ver e participar. Quem apenas observa não compreende. Quem entra na dança participa do mistério. A afirmação é profundamente coerente com uma religião na qual conhecimento e transformação não estão separados. E a frase ganha ainda maior densidade quando colocada ao lado da afirmação posterior de que o discípulo deve “ver-se” em Cristo e aprender a sofrer para tornar-se capaz de não sofrer. O conhecimento não é apenas aquisição intelectual; é uma transformação do sujeito por meio da participação.
O conhecimento de Cristo não é simplesmente informação teológica; é uma experiência que deve modificar o próprio sujeito. E aqui chegamos ao ponto que mais interessa nesta investigação. É perfeitamente possível que a nossa estranheza moderna diante da cena — Jesus dançando com os discípulos na véspera de sua execução — seja resultado de uma concepção demasiadamente intelectualizada da religião cristã antiga. Nós estamos acostumados a imaginar os primeiros cristãos sentados, ouvindo sermões, lendo Escrituras e discutindo doutrinas. Os Atos de João apresentam outra possibilidade: uma comunidade que canta, responde, segura as mãos, movimenta o corpo e transforma a própria ação ritual em veículo de conhecimento religioso. Não precisamos afirmar que todas as comunidades cristãs primitivas praticassem esse tipo de ritual. Não precisamos sequer afirmar que essa dança específica tenha sido historicamente realizada em Éfeso ou em qualquer outro lugar.
Basta reconhecer que o autor considerou concebível — e talvez reconhecível para seus leitores — uma experiência cristã na qual o corpo pudesse participar diretamente da revelação. Isso permite compreender melhor também a relação entre os Atos de João e aquilo que posteriormente seria classificado como “gnosticismo”. A questão não é simplesmente determinar se o autor era ou não “gnóstico”. A questão mais fecunda é perceber que determinados cristãos antigos estavam experimentando formas de conhecimento religioso nas quais revelação, corpo, ritual e cosmologia se encontravam profundamente articulados. O hino não é apenas uma profissão de fé; é uma ação ritual por meio da qual o conhecimento é experimentado. Ao mesmo tempo, a presença de elementos cosmológicos como a Ogdóade e a Duodécade mostra que essa experiência corporal está inserida em uma elaboração teológica específica, cuja relação com tradições posteriormente classificadas como valentinianas precisa ser investigada sem que a classificação seja transformada prematuramente em conclusão.
O discípulo não aprende apenas ouvindo uma explicação; ele aprende dançando. E a dança não é uma simples expressão de alegria: ela é a dramatização da passagem entre o mundo visível e a realidade invisível. A comparação com práticas místicas de outras tradições religiosas pode ser preservada, mas precisa ser entendida como comparação fenomenológica e não como hipótese de transmissão histórica. É legítimo perceber que, em diferentes tradições religiosas, o movimento circular, a repetição sonora, a música e a participação coletiva podem constituir meios de transformação da experiência ordinária. O fato de encontrarmos configurações semelhantes em culturas diferentes não prova uma origem comum; demonstra, no máximo, que o corpo humano pode tornar-se um instrumento religioso tão importante quanto a palavra escrita. No caso específico dos Atos de João, porém, não devemos perder de vista que a dança está integrada a uma cristologia particular: o corpo que dança é também o corpo cuja paixão é apresentada como mistério, e o movimento dos discípulos é também uma forma de aprender aquilo que o texto considera impossível de compreender apenas pela aparência.
Talvez seja justamente essa a maior riqueza escondida nessa pequena passagem dos Atos de João. O texto permite olhar para o cristianismo antigo não apenas como um universo de ideias, doutrinas e escritos, mas como uma religião praticada por corpos. Os cristãos cantavam. Repetiam fórmulas. Respondiam “Amém”. Partilhavam alimentos. Reuniam-se em círculos. Movimentavam-se. Choravam. Celebravam. E, em determinados ambientes, talvez dançassem. O cristianismo antigo não era apenas uma religião que falava sobre o corpo; era também uma religião que utilizava o corpo para produzir experiência religiosa. O Hino da Dança radicaliza essa dimensão porque transforma o próprio movimento em instrumento hermenêutico: o discípulo não apenas participa de uma cerimônia; ao participar, é chamado a compreender o mistério que está sendo representado.
Assim, quando Mateus nos diz simplesmente que, terminada a ceia, Jesus e seus discípulos “cantaram o hino” e saíram para o monte das Oliveiras, devemos resistir à tentação de preencher automaticamente esse silêncio com a narrativa dos Atos de João. Não sabemos se Jesus dançou. Não sabemos se os discípulos formaram um círculo. Não sabemos se aquela noite terminou com uma experiência semelhante à descrita pelo apócrifo. Mas sabemos que, algumas gerações depois, determinada tradição cristã antiga imaginou a paixão dessa maneira. E isso, por si só, é historicamente extraordinário.
Eles não imaginaram Jesus simplesmente caminhando para a morte. Imaginaram-no dançando diante dela.
E talvez seja precisamente aí que esteja o segredo dessa passagem. Antes da cruz, existe a dança. Antes da morte, existe o círculo. Antes do silêncio do sepulcro, existe a resposta coletiva: “Amém”. O Cristo que será crucificado encontra-se no centro, enquanto os discípulos giram ao seu redor. E o próprio texto parece dizer que somente aquele que entra no movimento consegue compreender aquilo que está acontecendo.
A dança, portanto, não é apenas uma preparação para a paixão.
Ela é uma interpretação da paixão.
REFERÊNCIAS
ATOS DE JOÃO. Texto inglês da edição de M. R. James, incluindo os capítulos 85–115 e, especificamente, os §§ 94–96. A passagem do Hino pode ser conferida diretamente na edição digital de The Acts of John.
BOWE, Barbara E. “Dancing into the Divine: The Hymn of the Dance in the Acts of John.” Journal of Early Christian Studies, v. 7, n. 1, p. 83–104, 1999. A referência bibliográfica é registrada pela NASSCAL — Acts of John.
DEWEY, Arthur J. “The Hymn in the Acts of John: Dance as Hermeneutic.” Semeia, n. 38, p. 67–80, 1986. A referência bibliográfica também é registrada pela NASSCAL.
ELLIOTT, J. K. The Apocryphal New Testament: A Collection of Apocryphal Christian Literature in an English Translation. Oxford: Clarendon Press, 1993.
JUNOD, Éric; KAESTLI, Jean-Daniel. Acta Iohannis. Turnhout: Brepols, 1983. 2 v. (Corpus Christianorum, Series Apocryphorum, 1–2). A obra constitui a edição crítica de referência dos Atos de João, com texto, aparato, comentários e índices.
KHOMYCH, Taras. “Conflicting Choreographies? Dance as Doctrinal Expression in Ignatius’ Ephesians 19 and Acts of John 94–96.” In: Docetism in the Early Church: The Quest for an Elusive Phenomenon. Tübingen: Mohr Siebeck, 2018. p. 217–229. O capítulo pode ser conferido no arquivo institucional da Hope University.
NEWSOM, Carol A. Songs of the Sabbath Sacrifice: A Critical Edition. Atlanta: Scholars Press, 1985. A edição crítica e sua documentação podem ser consultadas na Brill.
SCHLAPBACH, Karin. The Anatomy of Dance Discourse: Literary and Philosophical Approaches to Dance in the Later Graeco-Roman World. Oxford: Oxford University Press, 2018. A obra e o capítulo dedicado à dança nos Atos de João estão disponíveis na Oxford Academic.
SCHNEIDER, Paul G. The Mystery of the Acts of John: An Interpretation of the Hymn and the Dance in Light of the Acts' Theology. San Francisco: Mellen Research University Press, 1991. Registro bibliográfico disponível no WorldCat.
TREBILCO, Paul. “The Acts of John and Christian Communities in Ephesus in the Mid-Second Century AD.” In: BREYTENBACH, C.; OGEREAU, J. M. (eds.). Authority and Identity in Emerging Christianities: Communities in Asia Minor and Greece. Leiden: Brill, 2018. p. 33–61. DOI: 10.1163/9789004367197_003. A referência é confirmada pela University of Otago.
Nota editorial sobre a tradução
As citações dos Atos de João apresentadas no corpo deste artigo constituem tradução própria a partir da versão inglesa de M. R. James, utilizada como base de conferência textual. Essa opção é particularmente importante nos §§ 95–96, nos quais determinadas formulações inglesas permitem mais de uma solução portuguesa. Foram evitadas traduções excessivamente interpretativas quando poderiam antecipar conclusões do próprio argumento. Nos casos em que a terminologia grega possui implicações teológicas específicas — como as referências à Ogdóade e à Duodécade — procuramos preservar a tradução adotada no corpo do artigo e explicitar seu peso contextual em vez de incorporá-lo silenciosamente à tradução. A edição crítica de Junod e Kaestli permanece referência fundamental para o estabelecimento e a interpretação do texto. O texto inglês integral pode ser conferido pelo leitor diretamente na fonte digital indicada acima.
2 comentários:
deve ter sido bem bonito ver jesus e os apostolos canatando o hino
Não sabemos, realmente, qual foi este hino, Filipe. Podemos fazer algumas especulações. É possível que tenha sido os tais salmos de Hallel. Mas o quem o saberá? Certamente não foi o hino do apócrifo dos Atos de João, tal como exposto.
De qualquer forma, certamente algumas comunidades cristãs posteriores entoavam este cântico em suas reuniões. Isso é bem garantido!
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