Estudos sobre Religião - Biblioblog

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

 




Há certas passagens do Novo Testamento que parecem ter sido escritas especialmente para nos colocar em uma situação desconfortável. Não porque sejam difíceis de entender, mas justamente porque, à primeira vista, parecem fáceis demais. Colocamos dois textos lado a lado, lemos aquilo que está escrito e surge imediatamente aquela pergunta incômoda: ora, alguém aqui está dizendo uma coisa diferente da outra.

Na Carta aos Colossenses encontramos uma afirmação bastante curiosa:

“Fostes sepultados com ele no batismo, também com ele fostes ressuscitados, pela fé no poder de Deus, que o ressuscitou dos mortos” (Cl 2,12).

Até aqui, tudo bem. O cristão morreu com Cristo e ressuscitou com Cristo. A formulação parece bastante clara. O problema é que, quando abrimos a Segunda Carta a Timóteo, encontramos uma advertência que parece apontar precisamente para o lado contrário:

“Evita o palavreado vão e ímpio, já que os que o praticam progredirão na impiedade; a palavra deles é como uma gangrena que corrói, entre os quais se acham Himeneu e Fileto. Eles se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição já se realizou, estão pervertendo a fé de vários” (2Tm 2,16-18).

Encontramos aí uma contradição? Porque alguém aparentemente está dizendo que a ressurreição já aconteceu, enquanto o autor de 2Timóteo está dizendo que isso é uma heresia suficientemente grave para ser comparada a uma gangrena. E não é justamente isso que encontramos em Colossenses? Não afirma o autor que os cristãos foram sepultados com Cristo no batismo e que, juntamente com ele, já foram ressuscitados? Se lêssemos os dois textos como se fossem manifestações diretas da mesma voz autoral, o mínimo que poderíamos dizer é que temos um problema.

Na verdade, teríamos um problema bastante curioso. Teríamos Paulo escrevendo aos Colossenses que os cristãos já ressuscitaram com Cristo e, em algum outro momento, escrevendo a Timóteo para condenar como uma perversão da fé justamente a afirmação de que a ressurreição já aconteceu. Poderíamos até imaginar Timóteo, um pouco confuso, perguntando ao apóstolo: “Mas, Paulo, não foi você que disse isso aos Colossenses?”. E Paulo, talvez já cansado das dificuldades da teologia cristã, responderia: “Sim, Timóteo. Mas isso é diferente”. “Diferente como?” “Bem... é complicado.”

E, de fato, é complicado. A dificuldade aumenta quando voltamos às cartas paulinas cuja autenticidade é amplamente reconhecida. Em Romanos 6, Paulo também fala do cristão como alguém que morreu e foi sepultado com Cristo. O batismo representa precisamente essa participação na morte de Jesus: “Fomos, pois, sepultados com ele pelo batismo na morte” (Rm 6,4). Mas, quando Paulo passa a falar da ressurreição, a construção temporal se modifica: “Se nos tornamos uma coisa só com ele por uma morte semelhante à sua, seremos uma coisa só com ele por uma ressurreição semelhante à sua” (Rm 6,5). E acrescenta: “Se morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele” (Rm 6,8).

Aqui aparece uma distinção que será fundamental para o nosso problema. Em Romanos, a morte com Cristo é apresentada como realidade presente, enquanto a ressurreição do cristão aparece projetada para o futuro. Em 1Coríntios 15, essa estrutura se torna ainda mais evidente: Cristo ressuscitou como “primícias dos que morreram” e, depois, virá a ressurreição daqueles que pertencem a Cristo. Existe, portanto, uma sequência temporal relativamente clara: Cristo ressuscitou; os cristãos ainda ressuscitarão.

No entanto, aparece Colossenses. O mesmo universo de linguagem está presente: morte, sepultamento, batismo, Cristo e ressurreição. Só que alguma coisa mudou no caminho. O cristão não apenas morrerá com Cristo; já morreu. Não apenas ressuscitará com Cristo; já ressuscitou. E não se trata de uma afirmação isolada. Em 2,12, o autor afirma que os cristãos foram ressuscitados com ele; em 3,1, retoma a mesma perspectiva: “Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto”. A ressurreição deixa, assim, de ser apenas o acontecimento esperado no fim da história e passa a funcionar como fundamento da própria existência cristã no presente.

É aqui que a questão deixa de ser uma simples curiosidade textual. O que em Romanos aparece como uma realidade ainda futura é apresentado em Colossenses como uma realidade já acontecida. E isso não é uma diferença meramente terminológica. A própria ética de Colossenses depende dessa alteração: o cristão deve procurar “as coisas do alto” precisamente porque já participa, em Cristo, de uma nova condição de existência. A escatologia não desapareceu, mas seu centro de gravidade foi deslocado.

Talvez, portanto, a pergunta inicial esteja errada. Talvez não devêssemos perguntar simplesmente: “Por que Paulo se contradisse?” A pergunta historicamente mais interessante seria outra: “Será que estamos realmente ouvindo Paulo?”


Paulo depois de Paulo





A pergunta torna-se ainda mais interessante quando introduzimos a questão da autoria e da cronologia. Se todas essas cartas fossem necessariamente produtos do mesmo momento histórico e da mesma mão, a contradição exigiria uma explicação interna. Mas essa premissa não corresponde à posição histórico-crítica predominante. Romanos e 1Coríntios pertencem ao conjunto das cartas cuja autenticidade paulina é amplamente reconhecida; Colossenses encontra-se entre as cartas cuja autoria paulina é discutida e que, na reconstrução crítica mais comum, é situada depois da morte de Paulo; e as Cartas Pastorais, entre elas 2Timóteo, são geralmente compreendidas como textos posteriores associados à tradição e à autoridade do apóstolo.

A questão deixa, portanto, de ser simplesmente “o que Paulo disse?” e passa a incluir uma pergunta historicamente mais complexa: o que diferentes autores cristãos fizeram com aquilo que entendiam ser a tradição de Paulo?


Datação e evolução da ideia de ressurreição

TextoData aproximadaAutoridade atribuídaFormulação
1Coríntios53–55 d.C.PauloAinda acontecerá
Romanos56–58 d.C.PauloAinda acontecerá
Colossenses70–90 d.C.Tradição paulinaJá aconteceu em Cristo
Efésios80–100 d.C.Tradição paulinaJá aconteceu em Cristo
2Timóteo90–110 d.C.Tradição paulina posteriorNão aconteceu definitivamente


Quando colocamos esses textos nessa sequência, a cronologia não elimina a tensão. Ela a torna historicamente inteligível. E isso modifica substancialmente o problema. Já não precisamos imaginar um único indivíduo dizendo coisas incompatíveis em momentos diferentes; podemos observar como uma tradição foi recebida, reinterpretada e, eventualmente, utilizada para combater outras interpretações.

Nas cartas autenticamente paulinas, escritas em meados dos anos 50, a expectativa futura da ressurreição permanece fortemente presente. Em 1Coríntios, Cristo é apresentado como as “primícias” daqueles que morreram, e sua ressurreição inaugura aquilo que ainda deverá acontecer aos que lhe pertencem. Em Romanos, a participação do cristão na morte de Cristo é descrita como realidade presente, enquanto a participação na ressurreição aparece vinculada àquilo que ainda deverá acontecer. O futuro, portanto, permanece futuro, mesmo quando a vida nova já começa a ser experimentada no presente.

Colossenses retoma esse mesmo vocabulário, mas o reorganiza. O batismo continua sendo participação na morte e na ressurreição de Cristo; a diferença é que a ressurreição não está mais apenas no horizonte do que o cristão espera. Ela já aconteceu em uma dimensão decisiva da experiência cristã. O autor pode dizer que os fiéis foram ressuscitados com Cristo e, ao mesmo tempo, afirmar que ainda serão manifestados com ele em glória. Não se trata, portanto, de simplesmente eliminar o futuro, mas de aproximá-lo do presente.

Moreschini e Norelli identificam precisamente essa transformação:

“Particularmente significativa é a modificação da compreensão do batismo. O autor se inspira em Rm 6,1-11, mas, enquanto em Rm os crentes foram sepultados com Cristo e ressuscitarão (futuro) com ele (6,4-5,8), segundo Cl eles já ressuscitaram (2,12-13; 3,1), e é a esta ressurreição advinda que funda a ética, permitindo ‘procurar o que está no alto’ (3,1)” (MORESCHINI; NORELLI, 2005, p. 58).

A observação é importante porque impede que tratemos a diferença como uma simples alteração de vocabulário. A escatologia mudou de posição dentro da construção teológica. Em Romanos, a ressurreição futura pertence à esperança; em Colossenses, a realidade futura já começou a determinar a identidade presente do cristão. O batismo passa a funcionar como expressão de uma participação efetiva na morte e na ressurreição de Cristo, e é precisamente essa condição que fundamenta a nova maneira de viver.

Dale B. Martin formula a diferença de maneira ainda mais direta. Ao comparar Romanos e Colossenses, observa que Colossenses “pulls the resurrection, that for Paul is still in the future, and he puts it in the present” — isto é, desloca para o presente a ressurreição que, para Paulo, ainda estava no futuro. Martin identifica nesse movimento aquilo que a pesquisa denomina “realized eschatology”, ou escatologia realizada.

A formulação de Martin torna explícito aquilo que a comparação dos textos já havia sugerido: não estamos diante de uma simples variação estilística entre duas cartas, mas de uma alteração na localização temporal da salvação. O que antes era aguardado passa, em Colossenses, a ser experimentado antecipadamente. E é justamente essa antecipação que torna possível a linguagem de Colossenses 3,1: “Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, procurai as coisas do alto”.

Mas aqui surge uma ressalva importante. Se parássemos em Martin, poderíamos ser tentados a imaginar uma ruptura muito mais radical do que os textos efetivamente permitem. Thomas D. McGlothlin, ao estudar o desenvolvimento e os conflitos do paulinismo pré-niceno, chama atenção justamente para essa continuidade. Ao comparar Romanos com Colossenses, ele observa que “in Colossians the Christian is in some sense resurrected in the present”, isto é, em Colossenses o cristão está, em algum sentido, já ressuscitado no presente. Mas McGlothlin acrescenta que essa mudança de linguagem “does not necessarily represent a significant structural shift in the schema”.

A observação de McGlothlin é importante porque impede que transformemos a diferença entre Romanos e Colossenses numa oposição simplista entre duas teologias completamente incompatíveis. O fato de Colossenses utilizar o verbo da ressurreição no presente não significa necessariamente que tenha abandonado toda a estrutura escatológica encontrada em Paulo. O próprio texto preserva uma expectativa futura: “Quando Cristo, que é a vossa vida, se manifestar, então também vós sereis manifestados com ele em glória” (Cl 3,4). Há, portanto, continuidade e transformação ao mesmo tempo. O cristão já participa da ressurreição, mas ainda espera sua manifestação plena.

É justamente essa tensão que torna o problema mais interessante. A diferença entre Paulo e os paulinos não precisa ser imaginada como uma ruptura entre duas doutrinas mutuamente excludentes. Pode ser compreendida como uma alteração na maneira de distribuir temporalmente uma mesma estrutura soteriológica: aquilo que em Romanos permanece predominantemente projetado para o futuro começa, em Colossenses, a ser experimentado como realidade presente, sem que o futuro seja inteiramente abolido.

Helmut Koester percebe essa transformação e a formula de maneira ainda mais contundente:

“A redenção já está realizada para os crentes, e Colossenses pode dizer, como um teólogo gnóstico, que eles já foram ressuscitados em Cristo (3,1) e já entraram no Reino (1,13). Este é o modo como as coisas acontecem porque Cristo aboliu a lei, ‘apagou em detrimento das ordens legais, o título de dívida que existia contra nós’ (2,14). [...] Conquanto o autor desta carta esteja aqui renovando a tese de Paulo de que Cristo é o fim da lei, ele aceita, ao mesmo tempo, a posição dos adversários de 1 Coríntios, espiritualizando o conceito de escatologia já realizada” (KOESTER, 2005, p. 284).

A formulação de Koester é particularmente provocativa, mas precisa ser lida com alguma cautela. Colossenses não elimina simplesmente a dimensão futura. O próprio texto afirma: “Quando Cristo, que é a vossa vida, se manifestar, então também vós sereis manifestados com ele em glória” (Cl 3,4). O futuro continua existindo. O que mudou é a relação entre presente e futuro. O futuro começou a invadir o presente. A salvação ainda aguarda sua manifestação plena, mas seus efeitos já são experimentados como realidade atual.

É precisamente essa distinção que impede uma identificação automática entre Colossenses e aquilo que 2Timóteo atribui a Himeneu e Fileto. O autor de 2Timóteo não parece condenar simplesmente a ideia de que o cristão possa participar desde já da vida ressuscitada de Cristo. O alvo de sua crítica é a afirmação de que “a ressurreição já se realizou”. A diferença parece pequena, mas é teologicamente decisiva.

Uma coisa é afirmar que o cristão já participa da ressurreição de Cristo; outra é afirmar que o acontecimento escatológico da ressurreição já foi definitivamente consumado.

Essa distinção pode ser formulada de maneira ainda mais simples: uma coisa é dizer “já ressuscitamos com Cristo”; outra é dizer “a ressurreição já aconteceu”. Na primeira formulação, a ressurreição de Cristo inaugura uma realidade da qual o cristão participa antecipadamente, sem que isso elimine a esperança de sua consumação futura. Na segunda, o acontecimento que deveria pertencer ao horizonte escatológico é transferido inteiramente para o passado. O “já” passa a devorar o “ainda não”.

É possível, portanto, que o problema de Himeneu e Fileto estivesse precisamente nesse ponto. Não sabemos exatamente o que eles ensinavam, e seria imprudente reconstruir uma doutrina inteira a partir de duas linhas. Também não possuímos elementos suficientes para afirmar que conhecessem Colossenses ou que estivessem simplesmente reproduzindo sua teologia. Mas 2Timóteo revela que existia uma disputa concreta em torno da maneira como a ressurreição deveria ser compreendida. Havia um limite a partir do qual a afirmação da salvação presente poderia ser considerada uma negação da esperança futura.

É aqui que a cronologia volta a ser decisiva. Se 1Coríntios e Romanos preservam uma expectativa fortemente orientada para o futuro, enquanto Colossenses acentua a participação presente na ressurreição e 2Timóteo combate uma forma radical de escatologia realizada, podemos estar diante não de uma simples contradição, mas de uma tradição tentando controlar suas próprias possibilidades de interpretação.

O problema não seria mais simplesmente descobrir qual frase contém a “verdadeira” doutrina, mas observar como diferentes comunidades cristãs definiram os limites daquilo que entendiam ser uma interpretação legítima da esperança cristã.

Colossenses é particularmente interessante porque não precisa ser lido como uma ruptura consciente com Paulo. Seu autor parece fazer algo muito mais comum no desenvolvimento das tradições religiosas: recebe uma linguagem anterior e a leva para outro lugar. A linguagem de Romanos é preservada — morte com Cristo, sepultamento, batismo, ressurreição —, mas sua organização teológica é modificada. A experiência cristã é interpretada de maneira mais fortemente realizada, sem que o futuro seja simplesmente abolido. É uma releitura, não necessariamente uma rejeição.

Algo semelhante ocorre, em sentido inverso, com 2Timóteo. Seu autor também reivindica a autoridade de Paulo e apresenta-se como guardião de uma tradição recebida. Mas, para ele, existe uma fronteira que não pode ser ultrapassada. A ressurreição futura não pode ser dissolvida em uma experiência espiritual já concluída. A autoridade de Paulo é mobilizada, portanto, não para produzir uniformidade, mas para estabelecer aquilo que o autor considera ser o limite legítimo da interpretação paulina.

Temos aqui uma situação bastante reveladora. Autores diferentes podem reivindicar fidelidade ao mesmo apóstolo e, ainda assim, discordar profundamente sobre o que significa ser fiel a ele. Isso acontece porque uma tradição não é simplesmente um conjunto de frases transmitidas mecanicamente de uma geração para outra. Ela é recebida, interpretada, adaptada, defendida e, quando necessário, utilizada contra outras interpretações que também reivindicam sua legitimidade.

Por isso, talvez seja mais adequado falar em tradições paulinas do que simplesmente em uma única “doutrina paulina”. A expressão não significa que tudo seja arbitrário ou que não exista continuidade entre os textos. Pelo contrário: existe uma extraordinária continuidade de linguagem, temas e categorias. O que muda é a maneira como esses elementos são articulados. O vocabulário permanece reconhecível, mas a arquitetura teológica se desloca.

Essa é uma característica fundamental das tradições religiosas. Elas conservam a linguagem de sua origem justamente porque essa linguagem lhes confere identidade e autoridade; mas, ao mesmo tempo, precisam reinterpretá-la quando surgem novos problemas. Paulo forneceu às comunidades cristãs um vocabulário extraordinariamente poderoso — Cristo, cruz, morte, ressurreição, batismo, nova vida, lei, carne, espírito, justificação. Depois de sua morte, entretanto, esse vocabulário continuou disponível para autores que precisavam responder a situações que Paulo provavelmente não havia enfrentado da mesma maneira.

É por isso que a diferença entre Romanos, Colossenses e 2Timóteo é tão interessante. Não estamos simplesmente diante de três textos que usam palavras diferentes para dizer a mesma coisa. Estamos diante de diferentes maneiras de organizar temporalmente a salvação. Em Paulo, a morte com Cristo pode ser uma realidade presente enquanto a ressurreição permanece futura. Em Colossenses, a ressurreição já começa a ser uma realidade presente em Cristo, embora sua manifestação plena permaneça futura. Em 2Timóteo, por sua vez, encontramos uma reação contra aqueles que teriam levado essa realização presente longe demais, transformando o acontecimento futuro em algo já definitivamente concluído.

Não precisamos, portanto, escolher entre duas soluções igualmente simplificadoras: ou Paulo se contradisse, ou todos os textos dizem rigorosamente a mesma coisa. Existe uma terceira possibilidade, historicamente mais fecunda: Paulo foi interpretado por comunidades e autores posteriores que receberam sua tradição, reorganizaram seus elementos e disputaram entre si os limites dessa herança.

Colossenses pode ser compreendida como uma interpretação de Paulo; 2Timóteo pode representar outra etapa da tentativa de definir aquilo que deveria ser considerado uma interpretação legítima da tradição paulina.

E é justamente aí que a aparente contradição se torna historicamente reveladora. A pergunta “Paulo se contradisse?” pressupõe que a autoridade de Paulo tenha produzido automaticamente uma tradição homogênea. Os textos sugerem algo mais complexo. A autoridade do apóstolo permaneceu suficientemente forte para que autores posteriores continuassem escrevendo em seu horizonte, mas essa mesma autoridade tornou-se objeto de disputa. Ser fiel a Paulo significava também decidir o que, exatamente, deveria contar como fidelidade a Paulo.

Isso explica por que a questão da ressurreição é tão importante. Não se trata apenas de decidir se ela pertence ao presente ou ao futuro. Trata-se de definir como o cristão deve compreender sua própria condição entre aquilo que Cristo já realizou e aquilo que ainda espera. Colossenses aproxima os dois polos e permite dizer que o cristão já ressuscitou com Cristo, sem abandonar completamente a expectativa futura. 2Timóteo, por sua vez, reage contra uma interpretação que, aos seus olhos, teria ultrapassado esse equilíbrio. O problema teológico está, portanto, na fronteira entre o já e o ainda não.

Não sabemos se essa reação de 2Timóteo foi dirigida diretamente contra uma teologia como a de Colossenses. Não há evidência suficiente para afirmá-lo. Seria igualmente imprudente transformar Himeneu e Fileto em representantes de uma escola teológica perfeitamente reconstruível. O que podemos afirmar é algo mais modesto e, historicamente, mais seguro: os documentos testemunham diferentes maneiras de compreender a relação entre a salvação presente e a consumação futura, e essas diferenças foram suficientemente importantes para que determinados autores sentissem a necessidade de estabelecer fronteiras entre aquilo que consideravam ortodoxia e aquilo que consideravam desvio.

É justamente por isso que a noção de tradição paulina se mostra mais produtiva do que a tentativa de reconstruir uma única “doutrina de Paulo” por trás de todos esses textos. A tradição preserva uma memória, mas não preserva necessariamente uma única interpretação dessa memória. Ela pode conservar o vocabulário e modificar sua função; conservar a autoridade e alterar sua aplicação; preservar a referência ao fundador e, ao mesmo tempo, produzir disputas sobre aquilo que o fundador realmente teria querido dizer. A continuidade da tradição não significa ausência de transformação.

Se lermos Romanos, 1Coríntios, Colossenses e 2Timóteo como manifestações contemporâneas de um único pensamento individual, seremos inevitavelmente empurrados para a harmonização. Teremos de explicar que Paulo está usando “ressurreição” em sentidos diferentes, que está enfatizando aspectos distintos ou que uma passagem deve ser lida à luz da outra. Algumas dessas tentativas podem produzir interpretações teologicamente coerentes. Mas elas não eliminam o dado histórico de que os documentos pertencem a contextos diferentes e testemunham diferentes maneiras de articular a experiência cristã entre presente e futuro.

A hipótese das tradições paulinas permite conservar simultaneamente esses dois elementos: continuidade e transformação. De um lado, Colossenses continua profundamente dependente da linguagem e das categorias associadas a Paulo; de outro, reorganiza essas categorias de maneira suficientemente significativa para produzir uma escatologia mais realizada. 2Timóteo, por sua vez, continua reivindicando a autoridade paulina, mas estabelece limites contra uma interpretação que considera destrutiva. O resultado não é uma tradição sem identidade, mas uma tradição em disputa consigo mesma.

E talvez seja justamente essa a verdadeira ironia do problema que encontramos no início. A pergunta “Paulo se contradisse?” parece pressupor que o nome Paulo garanta automaticamente a unidade da tradição posterior. Mas a história do cristianismo primitivo sugere algo mais interessante: a autoridade de Paulo sobreviveu precisamente porque continuou sendo interpretada. Seus herdeiros não receberam um manual pronto de respostas para todas as questões posteriores; receberam textos, argumentos, categorias e uma memória apostólica que precisaram ser continuamente atualizados. E, quando diferentes grupos fizeram isso de maneiras diferentes, surgiu inevitavelmente a disputa sobre quem estava sendo fiel ao apóstolo.

A aparente contradição entre Colossenses e 2Timóteo, portanto, não precisa ser apagada por uma harmonização. Ela pode ser tomada como um vestígio do próprio desenvolvimento da tradição. Em Romanos e 1Coríntios, encontramos uma expectativa fortemente orientada para a ressurreição futura; em Colossenses, essa realidade é antecipada e incorporada à experiência presente do cristão; em 2Timóteo, encontramos uma reação contra a afirmação de que a ressurreição já teria sido definitivamente consumada.

O futuro não desapareceu em Colossenses, mas foi trazido para mais perto do presente; e justamente essa aproximação tornou necessária, em algum momento, uma definição dos limites que não poderiam ser ultrapassados.

Assim, o problema inicial permanece, mas sua natureza mudou. Já não precisamos perguntar simplesmente qual dos dois autores “tem razão”, nem transformar a tensão em uma contradição insolúvel. Podemos perguntar como uma tradição cristã que se reconhecia herdeira de Paulo passou a organizar de maneiras diferentes a relação entre morte, ressurreição, salvação presente e esperança futura.

Essa pergunta nos permite perceber que a história do cristianismo primitivo não foi apenas a transmissão de uma mensagem recebida de uma vez por todas, mas também o processo pelo qual comunidades diferentes interpretaram, defenderam e disputaram o significado de uma herança comum.

No fim, talvez não estejamos diante de um Paulo que primeiro afirmou que os cristãos já haviam ressuscitado e depois condenou aqueles que ensinavam exatamente isso. Estamos diante de algo historicamente mais complexo: uma tradição paulina que, ao longo de algumas décadas, reelaborou a relação entre a ressurreição já experimentada em Cristo e a ressurreição ainda esperada no fim dos tempos.

Colossenses desloca fortemente o centro de gravidade para o presente; 2Timóteo parece reagir contra uma forma de escatologia que, aos olhos de seu autor, havia levado esse deslocamento longe demais. A tensão permanece — e é justamente porque permanece que conseguimos enxergar o processo histórico de interpretação da tradição. Talvez, então, Paulo não tenha se contradito. Talvez tenham mudado os paulinos.



REFERÊNCIAS

KOESTER, Helmut. Introdução ao Novo Testamento: história e literatura do cristianismo primitivo. v. 2. São Paulo: Paulus, 2005.

MARTIN, Dale B. Introduction to the New Testament: History and Literature of Early Christianity. Lecture 17: Paul’s Disciples. New Haven: Yale University, Open Yale Courses, [s.d.]. Disponível em: Open Yale Courses. Acesso em: 28 ago. 2026.

McGLOTHLIN, Thomas D. Resurrection as Salvation: Development and Conflict in Pre-Nicene Paulinism. Cambridge: Cambridge University Press, 2018. DOI: 10.1017/9781108585361.

MORESCHINI, Claudio; NORELLI, Enrico. História da literatura cristã antiga grega e latina: de Paulo à era de Constantino. v. 1. São Paulo: Loyola, 2005.

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