Judas 1:4-9 — A disputa pelo corpo de Moisés
“Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo. Mas quero lembrar-vos, como a quem já uma vez soube isto, que, havendo o Senhor salvo um povo, tirando-o da terra do Egito, destruiu depois os que não creram; e aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia; assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregue à fornicação como aqueles, e ido após outra carne, foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno. E, contudo, também estes, semelhantemente adormecidos, contaminam a sua carne, e rejeitam a dominação, e vituperam as dignidades. Mas o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo, e disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar juízo de maldição contra ele; mas disse: O Senhor te repreenda. Estes, porém, dizem mal do que não sabem; e, naquilo que naturalmente conhecem, como animais irracionais se corrompem.”
Judas 1:4-9
Essa passagem da epístola de Judas nos mostra uma disputa entre o arcanjo Miguel e Satanás pelo corpo de Moisés. Trata-se de uma das passagens mais intrigantes de todo o Novo Testamento, justamente porque o autor parece pressupor que seus leitores conheciam uma tradição que nós, hoje, não possuímos integralmente. Judas não explica de onde vem a história, não informa por que Satanás disputava o corpo de Moisés e tampouco esclarece por que Miguel precisava intervir. Simplesmente menciona o episódio como se fosse suficientemente conhecido por seus leitores. Antes que possamos prosseguir em nossa análise, precisamos, portanto, retornar ao Antigo Testamento e averiguar como foi a morte de Moisés. De acordo com Deuteronômio 34:5-6, assim temos:
“Assim morreu ali Moisés, servo do SENHOR, na terra de Moabe, conforme a palavra do SENHOR. E o sepultou num vale, na terra de Moabe, em frente de Bete-Peor; e ninguém soube até hoje o lugar da sua sepultura.”
Um fato importante deve então ser destacado: a disputa não se fez pelo corpo de Moisés ainda vivo. De acordo com a junção das duas passagens, podemos inferir que a tradição conhecida pelo autor de Judas dizia respeito ao corpo de Moisés depois de sua morte. O Deuteronômio acrescenta justamente o elemento que torna a narrativa possível: o lugar da sepultura permaneceu desconhecido. A partir daí, torna-se perfeitamente imaginável, dentro da lógica da literatura judaica do Segundo Templo, que uma tradição posterior tenha preenchido essa lacuna com uma narrativa na qual forças celestes disputavam aquilo que havia acontecido com o corpo do grande legislador.
A questão, no entanto, torna-se ainda mais complexa quando perguntamos: qual seria o interesse de Satanás no corpo enterrado de Moisés? Por que o adversário de Deus teria interesse em um cadáver? E, sobretudo, por que Miguel apareceria nesse contexto para disputar com ele? Se estamos diante apenas de uma disputa física por um corpo, a narrativa parece estranhamente desproporcional. Se, porém, o “corpo de Moisés” possui uma dimensão simbólica, a história começa a adquirir outra densidade. Para que possamos avaliar bem essa história, devemos estabelecer alguns pontos e iniciar a reflexão sobre algumas novas questões:
1 – O que é atribuído a Satanás no Novo Testamento e ao arcanjo Miguel no Novo Testamento?
2 – O que a figura de Moisés poderia significar simbolicamente?
3 – Em qual contexto aparece essa disputa de Satanás e Miguel no texto de Judas? Do que é que se está falando neste texto?
Quer nos parecer que não houve necessariamente uma disputa “real” entre essas figuras no sentido de uma narrativa histórica que possamos reconstruir. E talvez essa disputa também não tenha sido simplesmente por algum suposto corpo enterrado de Moisés. É possível que estejamos diante de uma disputa pelo simbólico envolvido em “Moisés”. E, nesse sentido, uma hipótese particularmente sugestiva se apresenta: esta seria uma disputa por Israel.
Moisés não representa simplesmente um indivíduo morto. Ele é o libertador de Israel, o mediador da aliança, o legislador, aquele que recebeu a Torah e aquele que intercedeu repetidamente pelo povo diante de Deus. Sua figura concentra, portanto, uma enorme quantidade de significados dentro do judaísmo. Se o corpo de Moisés se torna objeto de uma disputa celeste, talvez aquilo que esteja em jogo seja justamente a autoridade representada por esse corpo. Quem possui autoridade sobre aquilo que Moisés representa? Quem possui autoridade sobre Israel? E, em última instância, quem possui autoridade sobre a história?
Sinteticamente, é possível afirmar que o que está ali em jogo é a disputa sobre quem ficará com o domínio sobre Israel e, em última instância, sobre quem ficará com o domínio sobre o mundo.
No entanto, de forma a realmente entendermos esta proposição, é necessário que estudemos a fonte primária utilizada pelo autor da epístola de Judas em tal passagem. Ela parece estar relacionada a uma tradição preservada na chamada Assumptio Mosis, ou Ascensão de Moisés. A relação entre Judas 9 e esse texto é antiga na pesquisa, embora não seja possível reconstruir com segurança todos os detalhes da fonte utilizada por Judas. O problema é que a obra chegou até nós de forma incompleta. O manuscrito latino descoberto no século XIX preserva apenas parte do texto, e justamente a seção que poderia explicar diretamente a disputa mencionada por Judas não sobreviveu. Temos, portanto, diante de nós uma situação curiosa: possuímos uma passagem do Novo Testamento que pressupõe uma tradição conhecida, possuímos uma obra judaica relacionada a Moisés que parece pertencer ao mesmo universo literário, mas não possuímos o trecho que permitiria fechar definitivamente o argumento.
Apesar disso, podemos fazer algumas ilações a partir do material disponível. Vamos a ele.
ASSUMPTIO MOSIS 11 — Josué falando com Moisés próximo à sua morte
“[Mas agora] que lugar o receberá? Ou qual será o sinal que marcará o (seu) sepulcro? Ou quem ousará mover o seu corpo de lá como se fosse um mero homem? Porque todos os homens quando morrem têm de acordo com a idade os seus sepulcros na terra; mas seu sepulcro é da subida ao pôr-do-sol, e do sul aos confins do norte: todo o mundo é seu sepulcro. Meu senhor, estás partindo, e quem alimentará este povo?”
[...]
“E os reis dos Amoreus também quando eles ouvem que nós estamos atacando, acreditarão que não estará mais entre eles o espírito santo que era digno do Senhor, múltiplo e incompreensível, o senhor da palavra, que era fiel em todas as coisas, o profeta principal de Deus ao longo da terra, o mestre mais perfeito do mundo, [que não está mais entre eles], dirão: ‘Marchemos contra eles. Se o inimigo apenas uma vez agiu impiamente contra o seu Deus, eles não têm nenhum defensor para oferecer suas orações, como Moisés o grande mensageiro que todos os dias de dia e de noite teve os seus joelhos fixados na terra, orando e procurando a ajuda dEle para que regesse todo o mundo com compaixão e justiça, fazendo-O lembrar do pacto dos pais e propiciando o Deus com juramento’. Porque eles dirão: ‘Ele não está com eles: vamos então e os destruamos e os lancemos para fora da face da terra’. O que restará então deste povo, meu senhor, Moisés?”
ASSUMPTIO MOSIS 12 — Moisés respondendo a Josué
“Por que eu vos digo, Josué: não é por causa da piedade deste povo que tu lançarás fora as nações. As luzes do céu, os fundamentos da terra foram feitos e foram aprovados por Deus e estão debaixo do anel de sinete da sua mão direita. Então, esses que fazem e cumprem as ordens de Deus aumentarão e prosperarão: mas esses que pecam e fixam e negligenciam as ordens estarão sem as bênçãos mencionadas, e eles serão castigados com muitos tormentos pelas nações. Mas lançar fora completamente e os destruir não é permitido. Porque Deus irá adiante pois previu todas as coisas para sempre [...]”
O que poderíamos, pois, extrair destas passagens?
1 – Pela sua grandeza, o sepulcro de Moisés atinge simbolicamente toda a Terra. O sepulcro de Moisés é todo o mundo.
Essa formulação é extraordinária. O texto não nos fornece simplesmente uma localização geográfica para o túmulo de Moisés; ele faz exatamente o contrário. O sepulcro torna-se universal. “Todo o mundo é seu sepulcro.” Moisés ultrapassa, portanto, a condição de indivíduo histórico e transforma-se em uma figura cuja presença simbólica alcança toda a terra.
2 – Josué tem Moisés como o símbolo defensor de Israel, mediador entre Deus e os homens.
O que mais chama a atenção na fala de Josué é justamente seu temor de que a morte de Moisés deixe Israel sem proteção. Moisés não é apresentado somente como legislador. Ele é aquele que intercede, aquele que “todos os dias de dia e de noite” procura a ajuda de Deus para que o povo seja governado “com compaixão e justiça”. Sua morte, portanto, representa uma ruptura potencial na relação entre Israel e Deus.
3 – Para Josué, a morte de Moisés é o fim de Israel.
A lógica de Josué é direta: se Moisés não estiver mais com eles, os inimigos compreenderão que Israel ficou desprotegido. “Ele não está com eles: vamos então e os destruamos.” A morte de Moisés assume, assim, uma dimensão política e cósmica. A permanência de Moisés é associada à permanência de Israel.
4 – Mas Moisés desqualifica Josué dizendo que Deus está no controle de tudo.
É aqui que a resposta de Moisés se torna fundamental. Josué pensa a história a partir da presença ou ausência de Moisés. Moisés, porém, desloca a questão para Deus. As luzes do céu, os fundamentos da terra e os acontecimentos históricos estão sob o “anel de sinete” da mão divina. A autoridade de Moisés não é absoluta porque a autoridade de Deus é absoluta.
5 – Trata-se, pois, de um texto profundamente marcado pelo determinismo apocalíptico.
Não necessariamente pelo determinismo no sentido filosófico posterior do termo, mas pela ideia de que a história possui uma direção estabelecida no conhecimento divino. Os acontecimentos não são simplesmente uma sucessão caótica de eventos. Deus conhece antecipadamente aquilo que acontecerá e estabelece limites para a ação das forças humanas e espirituais.
6 – Aqui está em jogo, afinal, a batalha dos justos contra os ímpios.
O que é dito a Josué é que Deus está no controle do mundo e não o mal. Ele permite que o mal aconteça. No entanto, não permite que neste momento o mal seja debelado por completo: “Mas lançar fora completamente e os destruir não é permitido.” Esta frase é particularmente importante porque estabelece uma distinção entre a existência histórica do mal e sua soberania. O mal existe, age e produz sofrimento, mas não possui autorização para determinar o desfecho da história.
7 – Deus tem um plano para o final dos tempos e as coisas caminharão de acordo com este plano.
“Então, esses que fazem e cumprem as ordens de Deus aumentarão e prosperarão.” A literatura apocalíptica frequentemente trabalha exatamente com essa tensão entre o presente e o futuro. O presente pode parecer dominado pelas forças adversárias, mas o futuro permanece submetido ao julgamento divino. O sofrimento atual não constitui a última palavra sobre o destino dos justos.
8 – A disputa do corpo de Moisés pode ser lida, então, como uma disputa sobre quem governa o mundo.
Aqui entramos deliberadamente no terreno da especulação ensaística. Não podemos demonstrar historicamente que o autor de Judas tinha exatamente essa intenção. Mas a hipótese se torna interessante quando colocamos lado a lado Judas, a tradição de Moisés e a literatura apocalíptica judaica. Moisés concentra em si a autoridade sobre Israel; Miguel aparece em Daniel como o grande príncipe associado aos filhos do povo; Satanás aparece como acusador e adversário. O corpo de Moisés poderia funcionar, portanto, como o ponto simbólico em que essas diferentes dimensões se encontram.
9 – Nós temos duas instâncias interligadas: a terrena e a celeste.
Os chefes das nações ímpias se ligam às forças adversárias. Josué se liga a Moisés; Miguel se liga à proteção de Israel. Está feito o campo de batalha. A luta se dará sobre o destino dos ímpios e dos justos sobre a terra. No entanto, nem a Josué é permitido destruir de vez os ímpios e nem a Miguel é permitido amaldiçoar Satanás, como é dito no texto de Judas:
“O Senhor te repreenda.”
Temos, portanto, uma mesma estrutura em dois níveis. Na Assumptio Mosis, Josué deseja compreender o destino de Israel a partir da ausência de Moisés. Moisés responde que o destino permanece nas mãos de Deus. Em Judas, Miguel encontra Satanás, mas não assume para si a autoridade do julgamento. Em ambos os casos, existe uma autoridade superior diante da qual mesmo as maiores figuras celestes ou humanas precisam recuar.
10 – Miguel diz: “O Senhor te repreenda” porque somente a Deus cabe este papel — qual seja: decidir o destino final dos ímpios e dos justos.
Da mesma forma, era proibido a Josué destruir definitivamente as nações ímpias, porque somente a Deus cabe este papel. A analogia não precisa ser perfeita para ser significativa. O ponto comum é a existência de uma fronteira de autoridade. Josué possui uma missão, mas não possui o juízo final. Miguel possui uma posição celeste extraordinária, mas não possui o juízo final. Os homens possuem suas próprias funções, mas não possuem o juízo final.
E é exatamente nesse ponto que o texto de Judas retorna à realidade concreta da comunidade cristã.
Perceba agora, sabendo dessa passagem, que o texto de Judas se refere a um embate entre grupos cristãos. De acordo com o autor desta epístola, alguns indivíduos “psíquicos” — isto é, pessoas caracterizadas pela ausência do Espírito — se infiltraram na Igreja. Eles estão injuriando aqueles que consideram autoridades, rejeitando aquilo que o autor apresenta como domínio legítimo e falando de coisas que não compreendem. O problema de Judas, portanto, não é apenas escatológico. É também profundamente comunitário. A batalha cósmica funciona como uma espécie de espelho para uma batalha que está ocorrendo dentro da própria comunidade.
Neste ponto nós temos duas proposições:
1 – Uma definitiva: nem o próprio Arcanjo Miguel, quando se defrontava com o próprio Satanás, pôde injuriá-lo. Logo, estes homens estão fazendo algo que nem a altíssima hierarquia angélica ousou fazer.
2 – Uma sugestão: os espirituais devem transferir a autoridade da repreensão a Deus: “Que o Senhor os repreenda.”
E esta segunda proposição talvez seja ainda mais importante do que a primeira. Judas não está simplesmente ensinando que seus adversários são maus. Ele está estabelecendo quem possui o direito de julgar. A questão é menos “quem está certo?” do que “quem possui autoridade para pronunciar o julgamento definitivo?”. E a resposta, tanto na tradição de Moisés quanto na tradição de Miguel, parece ser exatamente a mesma: Deus.
Depois disso, o autor do texto também caminha por uma trilha marcadamente apocalíptica através das profecias de Henoc. Judas cita 1 Enoque 1:9:
“E destes também profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que veio o Senhor entre milhares de seus santos, para fazer juízo contra todos e condenar dentre eles todos os ímpios, por todas as suas obras de impiedade que impiamente cometeram e por todas as duras palavras que ímpios pecadores disseram contra ele.”
A escolha de Enoque é significativa. O autor está novamente deslocando o julgamento para uma instância futura. Os adversários podem falar agora. Podem agir agora. Podem aparentemente prosperar agora. Mas existe um julgamento que ainda não aconteceu e que pertence exclusivamente a Deus. A situação presente, portanto, não pode ser utilizada como medida definitiva da realidade.
É justamente aqui que podemos perceber uma lógica semelhante àquela que encontramos na Assumptio Mosis. As coisas acontecem desta forma atualmente porque existe um plano divino que ultrapassa aquilo que os homens conseguem enxergar. Deus permite que determinados acontecimentos ocorram, mas isso não significa que tenha perdido o controle sobre eles. O presente pode ser marcado pela ação do mal sem que o mal seja o senhor da história.
E talvez seja aqui que esteja o ponto mais interessante de toda essa investigação.
O autor da Assumptio Mosis parece estar preocupado com a pergunta: se Moisés morrer, quem protegerá Israel?
Josué pensa que a ausência de Moisés poderá abrir espaço para a destruição.
Moisés responde que não.
Porque o mundo não depende de Moisés.
Depende de Deus.
Judas, por sua vez, parece estar preocupado com outra pergunta: se existem homens ímpios dentro da própria comunidade, quem poderá julgá-los?
E sua resposta também é a mesma.
Não cabe aos homens assumir o lugar do juiz.
Nem mesmo Miguel o fez.
“O Senhor te repreenda.”
O autor do texto da Ascensão de Moisés está, na verdade, dialogando com um universo mais amplo da literatura apocalíptica judaica. Em Daniel, os poderes terrestres aparecem vinculados a uma realidade celeste; em 1 Enoque, o juízo dos poderes rebeldes é reservado para o momento determinado por Deus; em Jubileus, a história humana permanece inserida em uma ordem previamente estabelecida; em Qumran, as forças da luz e das trevas travam um conflito cósmico, mas o desenlace permanece submetido à soberania divina. Em diferentes formas, esses textos compartilham uma mesma intuição: o mundo visível não pode ser compreendido sem sua dimensão invisível.
É nesse universo que a leitura de Judas se torna particularmente interessante.
O que parece ser uma disputa entre homens é também uma disputa entre poderes.
O que parece ser uma disputa sobre autoridade comunitária é também uma disputa sobre a ordem cósmica.
O que parece ser uma disputa sobre o corpo de Moisés pode ser lido como uma disputa sobre aquilo que Moisés representa.
E o que parece ser uma disputa entre Miguel e Satanás termina sendo uma afirmação sobre os limites da autoridade de ambos.
Talvez, portanto, a grande questão escondida por trás do corpo de Moisés seja justamente esta: quem governa a história?
Satanás pode acusar.
As nações podem atacar.
Os ímpios podem prosperar.
Os adversários podem penetrar na comunidade.
Os próprios justos podem sofrer.
Mas nenhum desses acontecimentos significa que o mundo tenha saído das mãos de Deus.
E é exatamente por isso que Miguel não diz: “Eu te amaldiçoo”.
Ele diz:
“O Senhor te repreenda.”
Não porque Miguel seja impotente diante de Satanás, mas porque o juízo final não pertence a Miguel.
Da mesma forma, Moisés não permite que Josué destrua definitivamente as nações, porque o juízo final não pertence a Josué.
E talvez esta seja a chave para compreender a estranha história da disputa pelo corpo de Moisés.
O autor de Judas não está simplesmente contando uma história sobrenatural sobre dois seres celestes disputando um cadáver. Ele está colocando diante de seus leitores uma estrutura de autoridade: existem aqueles que acusam, existem aqueles que resistem, existem aqueles que protegem, existem aqueles que governam — mas somente Deus possui a palavra definitiva sobre o destino da criação.
Nesse sentido, a disputa pelo corpo de Moisés pode ser compreendida como uma disputa pelo significado de Moisés, pelo significado de Israel e, em última instância, pelo significado da própria história.
E talvez seja justamente por isso que a tradição tenha colocado Satanás diante de Miguel.
Porque, quando o adversário acusa, Miguel não precisa assumir o lugar de Deus.
Ele simplesmente responde:
“O Senhor te repreenda.”
E, nessa pequena frase, talvez esteja condensada toda uma concepção apocalíptica do mundo: o mal é real, mas não é soberano; o sofrimento existe, mas não é definitivo; os poderes celestes atuam, mas não são absolutos; e a história pode parecer momentaneamente entregue às forças adversárias, mas o seu destino final continua pertencendo a Deus.
O mundo pode parecer estar nas mãos do maligno.
Mas, para a lógica da Assumptio Mosis, de Judas e da tradição apocalíptica que os cerca, o mundo está, desde o princípio, nas mãos de Deus.
Assumptio Moses - em inglês.




