Sacrifício, Templo e imaginário messiânico na formação da cristologia primitiva
O texto de Atos dos Apóstolos, especialmente em seus capítulos finais, apresenta uma situação que permanece teologicamente desconcertante quando confrontada com determinadas formulações posteriores da cristologia cristã. Em Atos 21, Paulo retorna a Jerusalém e encontra Tiago e os anciãos da comunidade. O diagnóstico feito por eles é inequívoco: havia na cidade “milhares de judeus que creram” e que eram “zelosos da Lei” (At 21,20). O problema, portanto, não consistia simplesmente em saber se os seguidores judeus de Jesus continuavam vinculados à tradição mosaica; Lucas parece pressupor precisamente isso. A preocupação dos dirigentes de Jerusalém era que esses milhares de judeus haviam recebido informações segundo as quais Paulo ensinava aos judeus residentes entre os gentios a abandonar Moisés, não circuncidar os filhos e deixar de observar os costumes ancestrais. A resposta de Tiago é igualmente significativa: Paulo deveria demonstrar publicamente que também ele “anda ordenadamente, guardando a Lei” (At 21,24). Para tanto, deveria associar-se a homens submetidos a um rito de purificação relacionado a um voto e participar das práticas cultuais do Templo. O episódio é particularmente importante porque não ocorre em uma comunidade periférica, mas na própria comunidade de Jerusalém, sob a liderança de Tiago. A investigação histórica precisa, contudo, estabelecer uma distinção metodológica: Atos é uma fonte literária posterior aos acontecimentos que narra e não pode ser simplesmente tomado como uma transcrição documental das práticas da Igreja de Jerusalém. Ainda assim, o episódio constitui uma evidência textual relevante de que a memória cristã preservada por Lucas não considerava incompatíveis, em princípio, a adesão a Jesus como Messias e a permanência de práticas judaicas relacionadas à Lei e ao Templo. A pesquisa contemporânea sobre o cristianismo judaico tem justamente chamado atenção para essa questão, embora permaneça controversa a extensão em que os primeiros seguidores judeus de Jesus efetivamente continuaram realizando sacrifícios animais.
A questão que nos interessa nasce exatamente dessa tensão. Se a morte de Jesus já tivesse sido compreendida, desde as primeiras décadas do movimento, como o sacrifício vicário definitivo que substituía ou tornava teologicamente desnecessário o sistema sacrificial do Templo, por que a comunidade judaica de Jerusalém permaneceria vinculada ao culto do Templo? A pergunta não significa afirmar que Atos prove que todos os cristãos judeus ofereciam regularmente animais em sacrifício; isso ultrapassaria aquilo que a fonte permite estabelecer. O que o texto permite afirmar com maior segurança é que a permanência no universo cultual judaico não era percebida por Lucas como uma contradição automática com a fé em Jesus. O próprio Paulo é apresentado entrando no Templo, submetendo-se à purificação e participando de um procedimento cujo encerramento envolvia sacrifícios (At 21,23-26). A pesquisa recente tornou essa questão ainda mais interessante: há estudiosos que admitem a possibilidade de que os primeiros cristãos judeus tenham distinguido entre diferentes tipos de oferendas, considerando perfeitamente possível a morte de Jesus como evento de caráter expiatório sem concluir que todas as demais formas de sacrifício deveriam imediatamente desaparecer. Outros, ao contrário, consideram problemática a tentativa de harmonizar retroativamente a prática cultual de Jerusalém com a soteriologia sacrificial desenvolvida posteriormente. O ponto decisivo é que não devemos impor aos cristãos judeus do período anterior a 70 d.C. uma síntese teológica que pode ser resultado de desenvolvimentos posteriores. A própria literatura cristã antiga revela que a relação entre Jesus, o Templo e os sacrifícios foi objeto de disputas e reelaborações.
É justamente aqui que a questão do “Cordeiro de Deus” se torna particularmente instigante. A associação de Jesus com o cordeiro tornou-se posteriormente uma das imagens mais poderosas da cristologia cristã. João Batista proclama: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). No Apocalipse, o Cordeiro é simultaneamente aquele que foi morto e aquele que recebe autoridade cósmica, possui sete chifres e sete olhos, abre o livro selado e participa do governo escatológico de Deus (Ap 5). A tradição cristã posterior aproximou naturalmente essas imagens do sistema sacrificial judaico, da Páscoa, de Isaías 53 e da linguagem da expiação. Contudo, a investigação contemporânea mostra que a expressão de João 1,29 não possui uma interpretação única e consensual. Há pesquisadores que a relacionam ao cordeiro pascal; outros enfatizam Isaías 53; outros ainda consideram possibilidades relacionadas ao ritual do Yom Kippur, à Aqedah ou a uma combinação de tradições. Marijke H. de Lang, por exemplo, questiona precisamente a tendência de pressupor que amnos tou Theou tenha necessariamente uma referência sacrificial: para ela, Isaías 53 pode constituir o pano de fundo principal, sem que isso obrigue a interpretar a imagem exclusivamente como “animal sacrificado”.
É nesse ponto que a hipótese originalmente desenvolvida neste ensaio merece ser preservada, mas reformulada com maior cautela. Talvez o problema não seja perguntar simplesmente se os primeiros cristãos compreendiam Jesus como um “cordeiro sacrificial”, mas investigar de que maneira diferentes tradições judaicas já haviam utilizado a linguagem do cordeiro para representar figuras de Israel, liderança, sofrimento, resistência e expectativa escatológica. Se encontrarmos no judaísmo anterior ao cristianismo imagens nas quais o cordeiro ou o carneiro participa da simbologia messiânica e da luta final contra as forças hostis a Israel, então a expressão “Cordeiro de Deus” não precisa ser entendida desde o início exclusivamente através da categoria sacrificial. Isso não elimina a possibilidade de uma dimensão expiatória; significa apenas que a imagem poderia possuir uma polivalência semântica que o cristianismo posteriormente reorganizou. A questão deixa então de ser “o cristianismo inventou o cordeiro sacrificial?” e passa a ser outra, mais historicamente interessante: como uma imagem judaica de caráter político, escatológico e messiânico foi progressivamente integrada a uma cristologia da morte redentora?
1. O problema dos sacrifícios e a comunidade de Jerusalém
O ponto de partida continua sendo Atos 21. Tiago informa a Paulo que existem em Jerusalém milhares de judeus que creem em Jesus e que são “zelosos da Lei” (At 21,20). A expressão é extraordinariamente significativa. Não se trata simplesmente de judeus culturalmente ligados à tradição de seus antepassados, mas de indivíduos descritos precisamente através de seu zelo pela nomos. A resposta de Tiago não é pedir-lhes que abandonem essa prática. Ao contrário, todo o episódio é construído em torno da necessidade de demonstrar publicamente que Paulo não está ensinando aos judeus da Diáspora uma apostasia em relação a Moisés. A estratégia consiste em entrar no Templo, participar de um rito de purificação e associar-se aos homens que haviam feito o voto. O texto conclui: “Então Paulo, levando consigo aqueles homens, no dia seguinte, tendo-se purificado com eles, entrou no Templo, anunciando o cumprimento dos dias da purificação, até que fosse oferecido o sacrifício em favor de cada um deles” (At 21,26).
É importante corrigir aqui uma formulação excessivamente categórica do texto original. Não podemos simplesmente afirmar que “os quatro eram nazireus” no sentido técnico de que o episódio corresponda integralmente ao procedimento previsto em Números 6. O texto de Atos descreve homens que estavam sob voto e cuja purificação deveria ser concluída no Templo, mas a reconstrução precisa da natureza do voto permanece discutida. Tampouco podemos afirmar que Paulo pessoalmente ofereceu os animais. O texto diz que ele participou do procedimento e que o sacrifício seria oferecido. Essa diferença é pequena do ponto de vista narrativo, mas enorme do ponto de vista metodológico. O historiador deve distinguir aquilo que o texto afirma daquilo que inferimos a partir do contexto ritual. A pesquisa recente sobre a passagem chama atenção justamente para essas ambiguidades: Atos retrata os cristãos de Jerusalém como frequentadores do Templo, mas não oferece uma descrição sistemática de sua prática sacrificial; ao mesmo tempo, a participação de Paulo no episódio cria uma associação explícita entre cristianismo, purificação e culto templário.
Mas essa cautela não elimina a pergunta central. Ao contrário, torna-a mais precisa. Por que a tradição de Jerusalém não parece ter experimentado a necessidade de abandonar imediatamente o universo cultual judaico? A resposta mais simples é também a mais historicamente plausível: porque, para um judeu do século I, a morte de um indivíduo considerado Messias não implicava automaticamente a abolição da Torá, do Templo ou dos sacrifícios. Essa associação pode parecer inevitável a partir de uma teologia cristã posterior, sobretudo quando lemos Hebreus, mas não era necessariamente inevitável para os primeiros seguidores judeus de Jesus. A morte de Jesus podia ser interpretada como um acontecimento escatológico, messiânico, martirológico, vicário ou expiatório sem que todas as categorias do culto judaico fossem imediatamente reorganizadas em torno dela.
Essa possibilidade é especialmente importante porque impede uma leitura retrospectiva segundo a qual os primeiros discípulos necessariamente deveriam ter pensado: “Jesus morreu pelos pecados; portanto, nenhum sacrifício animal pode mais ser realizado”. Essa equação pertence a uma determinada construção teológica. Ela não deve ser transformada automaticamente em pressuposto histórico. A própria literatura cristã posterior mostra que existiram diferentes maneiras de interpretar a relação entre Jesus e o sistema sacrificial. Alguns grupos cristãos judaicos posteriores chegaram a desenvolver tradições fortemente críticas ao sacrifício animal, enquanto outros preservaram uma relação positiva com categorias cultuais. Estudos sobre tradições judaico-cristãs preservadas em textos como as Recognitiones pseudo-clementinas mostram justamente que a atitude diante do sacrifício foi objeto de disputa interna e passou por processos de releitura.
2. A questão que permanece: quem primeiro interpretou Jesus como sacrifício?
É aqui que podemos retomar uma das proposições mais provocativas do texto original. Se a comunidade de Jerusalém permaneceu profundamente vinculada à Lei e ao Templo, será que a interpretação sacrificial da morte de Jesus se desenvolveu com a mesma intensidade justamente no interior dessa comunidade? Ou será possível que diferentes comunidades tenham desenvolvido diferentes modelos cristológicos?
Não devemos transformar essa pergunta em uma oposição simplista entre “Jerusalém” e “Síria”, como se tivéssemos duas igrejas perfeitamente delimitadas e portadoras de teologias mutuamente incompatíveis. A documentação não permite tamanho grau de precisão. Paulo, por exemplo, certamente conhecia tradições muito antigas sobre a morte de Cristo “por nossos pecados” (1Cor 15,3), e a linguagem sacrificial já aparece em textos paulinos. Ao mesmo tempo, não é possível simplesmente transferir a teologia paulina para todos os seguidores judeus de Jesus em Jerusalém. O cristianismo primitivo foi plural desde muito cedo.
O que podemos dizer, portanto, é mais interessante: o cristianismo primitivo parece ter trabalhado com múltiplas metáforas e modelos interpretativos para compreender a morte de Jesus. Jesus podia ser o Messias davídico; o Filho do Homem; o Servo sofredor; o justo perseguido; aquele que entrega sua vida; o mediador escatológico; e, posteriormente, o Cordeiro. Essas imagens não precisam ter surgido simultaneamente nem possuir exatamente o mesmo significado em todas as comunidades.
A hipótese original de que a imagem sacrificial do Cordeiro poderia ter adquirido desenvolvimento particularmente importante em ambientes helenizados e sírios continua sendo uma hipótese possível, mas precisa ser apresentada como tal. Não dispomos de evidência suficiente para afirmar que “a ideia nasceu na Síria”. O que podemos afirmar é que o Evangelho de João apresenta uma elaboração extremamente sofisticada da linguagem sacrificial e escatológica em torno de Jesus, e que a cristologia joanina não pode ser simplesmente identificada com a cristologia da comunidade de Jerusalém. A questão torna-se ainda mais interessante quando observamos que João situa a morte de Jesus no contexto temporal da preparação da Páscoa e constrói uma série de elementos narrativos que aproximam sua morte do imaginário pascal (Jo 19,14.31-36).
3. O Cordeiro antes do Cordeiro: a literatura judaica
É nesse ponto que precisamos retornar ao judaísmo anterior e contemporâneo ao surgimento do cristianismo. A literatura apocalíptica judaica oferece um repertório simbólico extraordinariamente rico no qual animais representam Israel, seus inimigos, seus governantes e os agentes da intervenção divina. A chamada “Animal Apocalypse”, preservada em 1 Enoque 85–90, é talvez um dos exemplos mais importantes. A história de Israel é narrada através de uma zoologia simbólica na qual diferentes animais representam coletividades humanas e personagens históricos.
O ponto importante para nosso argumento é que cordeiros e carneiros não funcionam ali simplesmente como vítimas sacrificiais. Eles podem representar Israel, grupos de Israel e lideranças que enfrentam os inimigos. Na passagem de 1 Enoque 90, os animais ovinos participam de uma narrativa de opressão, resistência, liderança e intervenção divina. Um grande chifre surge entre eles; há uma luta contra aves predadoras; chega auxílio celestial; o Senhor das ovelhas intervém e, finalmente, uma grande espada é entregue às ovelhas para que avancem contra seus adversários.
Aqui precisamos corrigir uma afirmação importante do texto antigo. Durante muito tempo, a interpretação tradicional identificou o grande chifre de 1 Enoque 90 com Judas Macabeu. Essa leitura continua sendo importante na história da interpretação de 1 Enoque e foi defendida por estudiosos como R. H. Charles. Entretanto, pesquisas mais recentes questionaram essa identificação e também a própria interpretação da Animal Apocalypse como uma simples celebração da revolta macabeia. Sylvie Honigman, por exemplo, argumenta que o “carneiro com chifre” não deve ser automaticamente identificado com Judas Macabeu e propõe uma leitura diferente da relação entre a Animal Apocalypse, a memória macabeia e as categorias de pureza e impureza.
Essa revisão é importante para nosso argumento porque o que precisamos não é de uma identificação histórica precisa do personagem, mas da estrutura simbólica. O cordeiro/carneiro pode participar da representação de uma liderança que enfrenta poderes hostis. A imagem não é, portanto, semanticamente reduzível ao animal levado ao altar.
1 Enoque 90:4–19
Para que a passagem permaneça integralmente no centro de nossa investigação, reproduzimos abaixo a sequência completa:
4. E vi até que aquelas ovelhas foram devoradas pelos cães, pelas águias e pelos milhafres, e não deixaram nelas nem carne, nem pele, nem tendão, até que somente seus ossos permaneceram; e seus ossos também caíram sobre a terra, e as ovelhas diminuíram.
5. E vi até que vinte e três pastores estavam pastoreando, e completaram, cada um em seu período, cinquenta e oito tempos.
6. Mas eis que cordeiros nasceram daquelas ovelhas brancas, e começaram a abrir os olhos, a ver e a clamar às ovelhas.
7. Sim, clamaram a elas, mas elas não deram ouvidos ao que lhes diziam e eram extremamente surdas, e seus olhos estavam extremamente cegos.
8. E vi na visão como os corvos voaram sobre aqueles cordeiros, tomaram um daqueles cordeiros, despedaçaram as ovelhas e as devoraram.
9. E vi até que cresceram chifres naqueles cordeiros, e os corvos derrubaram seus chifres; e vi até que brotou um grande chifre em uma daquelas ovelhas, e seus olhos foram abertos.
10. E ele olhou para elas, e seus olhos foram abertos; e ele clamou às ovelhas, e os carneiros o viram, e todos correram para ele.
11. E, apesar de tudo isso, aquelas águias, abutres, corvos e milhafres continuaram a despedaçar as ovelhas, voando sobre elas e devorando-as; e as ovelhas permaneciam silenciosas, mas os carneiros lamentavam e clamavam.
12. E aqueles corvos lutaram e combateram com ele, procurando derrubar o seu chifre, mas não prevaleceram contra ele.
13. E vi até que os pastores, as águias, os abutres e os milhafres vieram, e eles clamaram aos corvos que quebrassem o chifre daquele carneiro; e lutaram e combateram com ele, e ele lutou com eles e clamou para que viesse seu auxílio.
14. E vi até que chegou aquele homem que escreveu os nomes dos pastores e os apresentou diante do Senhor das ovelhas; e ele o ajudou e lhe mostrou tudo: seu auxílio desceu para aquele carneiro.
15. E vi até que o Senhor das ovelhas veio contra eles em ira, e todos os que o viram fugiram, e todos caíram diante de sua face.
16. E todas as águias, os abutres, os corvos e os milhafres se reuniram, e com eles vieram todas as ovelhas do campo; e todos se reuniram e ajudaram uns aos outros para quebrar o chifre daquele carneiro.
17. E vi aquele homem que escreveu o livro segundo a palavra do Senhor, até que abriu o livro da destruição que aqueles últimos doze pastores haviam produzido, e mostrou que haviam destruído muito mais do que seus predecessores, diante do Senhor das ovelhas.
18. E vi até que o Senhor das ovelhas veio até eles, tomou em sua mão o bastão de sua ira, golpeou a terra, e a terra se abriu; e todos os animais e as aves do céu caíram longe daquelas ovelhas e foram tragados pela terra, e ela se fechou sobre eles.
19. E vi até que uma grande espada foi dada às ovelhas, e as ovelhas avançaram contra todos os animais do campo para matá-los; e todos os animais e as aves do céu fugiram diante delas.
A força dessa passagem para nosso argumento está justamente naquilo que ela não diz. Não encontramos aqui um cordeiro que morre para retirar os pecados da humanidade. Encontramos cordeiros que veem, clamam, reúnem-se, enfrentam inimigos e participam de uma restauração escatológica. Encontramos um carneiro dotado de chifre — isto é, de um símbolo tradicional de força e autoridade — que luta contra seus adversários e recebe auxílio divino. E encontramos, ao final, a entrega de uma espada às próprias ovelhas. O imaginário dominante é, portanto, o de conflito, julgamento e restauração, e não o de uma vítima conduzida ao altar.
Essa constatação não prova que João 1,29 derive de 1 Enoque. Essa seria uma conclusão metodologicamente excessiva. Tampouco prova que João Batista tivesse em mente a Animal Apocalypse. O que ela demonstra é algo mais modesto e, talvez por isso mesmo, mais importante: a linguagem ovina possuía dentro do judaísmo uma semântica muito mais ampla do que a do sacrifício.
4. O cordeiro messiânico e o problema de João 1,29
Chegamos então à frase que constitui o núcleo de toda a investigação:
“Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1,29).
A leitura cristã tradicional encontrou aqui uma referência praticamente automática ao sacrifício. Entretanto, o termo grego empregado por João é amnos, e sua interpretação permanece discutida. Isaías 53 é particularmente relevante porque utiliza justamente amnos na Septuaginta para caracterizar o Servo conduzido ao sofrimento. Isso levou alguns pesquisadores a sustentar que o “Cordeiro de Deus” joanino deve ser entendido prioritariamente como uma imagem do Servo sofredor, e não necessariamente como uma referência direta a um animal sacrificial.
Isso modifica significativamente a questão. Se João 1,29 não for simplesmente “Jesus é o cordeiro sacrificado no Templo”, então precisamos perguntar o que João está fazendo com a linguagem do cordeiro. O evangelho inteiro pode ser lido como uma grande reelaboração de símbolos judaicos. Água, pão, luz, templo, pastor, vinha, serpente, maná, festa e cordeiro são continuamente deslocados para dentro de uma cristologia concentrada na pessoa de Jesus. O símbolo não desaparece; ele é reconfigurado.
É possível, portanto, que o “Cordeiro de Deus” de João seja uma espécie de condensação de diferentes tradições: o Servo de Isaías, o cordeiro pascal, o imaginário da Páscoa, a linguagem de inocência e sofrimento e, talvez, outras tradições messiânicas judaicas nas quais animais ovinos representam Israel ou seus líderes. A própria literatura acadêmica contemporânea tende a tratar essa questão como um problema de intertextualidade múltipla, e não como uma simples identificação entre uma passagem e outra.
E aqui emerge uma possibilidade que considero particularmente fecunda para a investigação: talvez a imagem sacrificial não seja o ponto de partida, mas o resultado de uma convergência de tradições.
O processo poderia ter sido algo semelhante a isto: uma tradição judaica já possuía o cordeiro como símbolo de Israel, liderança e expectativa escatológica; outra tradição associava o cordeiro à Páscoa; Isaías fornecia a imagem do justo/Servo que sofre; as tradições cristãs primitivas interpretavam a morte de Jesus à luz das Escrituras; João reorganizou esses elementos em uma narrativa altamente simbólica; e, posteriormente, a tradição cristã sistematizou essas imagens dentro de uma teologia da expiação.
Não podemos demonstrar cada etapa dessa sequência como fato histórico. Mas ela oferece um modelo explicativo capaz de preservar a diversidade das evidências sem reduzi-las a uma única origem.
5. O paradoxo de Apocalipse: o Cordeiro morto que possui sete chifres
A hipótese ganha ainda mais força quando chegamos ao Apocalipse de João. Aqui encontramos uma combinação absolutamente extraordinária:
“E vi, no meio do trono e dos quatro Seres vivos e no meio dos Anciãos, um Cordeiro de pé, como que imolado. Tinha sete chifres e sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus enviados por toda a terra” (Ap 5,6).
A imagem é paradoxal. O Cordeiro está “como que imolado”, portanto apresenta uma dimensão sacrificial inequívoca. Mas, ao mesmo tempo, possui sete chifres. O animal sacrificado é também um animal de poder. O morto é aquele que recebe autoridade. O Cordeiro é vítima e soberano simultaneamente.
Essa combinação é fundamental para nossa investigação. O cristianismo apocalíptico não simplesmente substituiu o Messias guerreiro pelo Messias sacrificial. Ele parece ter fundido as duas imagens. O Cordeiro do Apocalipse é aquele que foi morto, mas é também aquele que vence. Ele é vítima e conquistador; sofrimento e poder; morte e ressurreição; sacrifício e soberania.
A imagem dos chifres é especialmente importante porque impede que pensemos o Cordeiro exclusivamente dentro da semântica da fragilidade. No imaginário bíblico e apocalíptico, o chifre representa força, autoridade e poder régio. O Cordeiro de Apocalipse 5 é, portanto, uma criatura paradoxal: um animal sacrificial dotado de atributos de soberania.
Aqui podemos perceber uma possível ponte conceitual com a literatura apocalíptica judaica. Não estamos afirmando dependência literária direta entre 1 Enoque e Apocalipse. Estamos identificando uma gramática simbólica compartilhada: animais, chifres, conflito cósmico, julgamento e intervenção divina constituem parte de um repertório apocalíptico no qual a representação do poder messiânico pode assumir formas animais. A diferença é que o Apocalipse cristão realiza uma transformação radical: o animal que representa o poder messiânico é simultaneamente o animal que foi sacrificado.
Assim, talvez a inovação cristã não tenha sido simplesmente chamar Jesus de “Cordeiro”, mas fundir em uma única figura o cordeiro sacrificial e o agente messiânico da vitória escatológica.
6. E se “Cordeiro de Deus” não significasse originalmente “vítima expiatória”?
Voltemos então à proposição que orientava o texto original. É possível imaginar uma situação na qual os primeiros seguidores de Jesus o reconhecessem como “Cordeiro de Deus” sem atribuir imediatamente à expressão todo o conteúdo teológico que posteriormente receberia?
A resposta deve ser: sim, é possível; mas não podemos demonstrá-lo como fato.
O ponto metodológico é fundamental. A ausência de uma evidência direta não autoriza a construção de uma certeza histórica. Podemos, entretanto, formular uma hipótese comparativa. No ambiente judaico do século I, “cordeiro” não possuía necessariamente um único significado. Poderia evocar o sacrifício, a Páscoa, o Servo sofredor, Israel, pureza, inocência ou imagens apocalípticas de liderança e restauração. A expressão “Cordeiro de Deus” precisava, portanto, ser interpretada dentro de um campo semântico muito mais amplo do que aquele que a tradição cristã posterior frequentemente pressupôs.
Há ainda um elemento que merece atenção. Se os primeiros discípulos de Jerusalém continuavam ligados ao Templo, e se a associação de Jesus com um sacrifício vicário absoluto fosse já uma doutrina universalmente estabelecida entre todos os seus seguidores, seria razoável esperar algum tipo de tensão explícita entre essa doutrina e a prática cultual. Entretanto, Atos não constrói essa tensão de maneira direta. Ao contrário, apresenta Tiago, os anciãos e os milhares de judeus cristãos como participantes de um universo ainda fortemente moldado pela Lei.
Isso não significa que a comunidade de Jerusalém negasse qualquer eficácia salvífica à morte de Jesus. Significa apenas que não podemos presumir que a categoria “sacrifício de Cristo” tenha funcionado, para todos os grupos cristãos primitivos, como uma categoria de substituição cultual imediata.
Essa é provavelmente uma das questões mais importantes que emergem do nosso estudo. A morte de Jesus poderia ter sido interpretada como sacrifício sem significar necessariamente a abolição de todos os sacrifícios. Na religião judaica antiga, afinal, sacrifícios possuíam funções diferentes. Havia ofertas de expiação, ofertas de comunhão, holocaustos, ofertas votivas e outros procedimentos cultuais. Reduzir todo o sistema sacrificial à categoria moderna de “pagamento pelo pecado” é historicamente inadequado.
Essa possibilidade encontra apoio em pesquisas recentes que reconhecem a dificuldade de determinar exatamente a relação entre a prática cultual dos primeiros cristãos judeus e as posteriores teologias cristãs do sacrifício. Alguns estudiosos admitem que os seguidores judeus de Jesus poderiam ter continuado participando de determinados sacrifícios enquanto atribuíam à morte de Jesus uma função soteriológica própria.
7. O problema de uma cristologia construída retrospectivamente
Talvez o maior problema da investigação tradicional seja outro: a tendência de ler os primeiros cristãos a partir da cristologia já consolidada no século II ou mesmo posteriormente.
Quando um cristão do século IV lê “Cordeiro de Deus”, ele encontra imediatamente uma teologia sacrificial desenvolvida. Mas quando tentamos reconstruir o ambiente judaico do século I, encontramos um universo no qual a mesma palavra podia evocar múltiplas tradições. O historiador precisa resistir à tentação de preencher automaticamente essa palavra com todo o significado que ela recebeu posteriormente.
Essa cautela é particularmente necessária quando comparamos Jerusalém, Paulo e João. Não há razão para imaginar que todos os grupos cristãos tenham desenvolvido simultaneamente a mesma interpretação da morte de Jesus. O cristianismo nascente não era uma unidade teológica homogênea à espera de sua posterior fragmentação. Era, ao contrário, um campo de interpretações concorrentes.
A tradição paulina já apresenta uma linguagem sacrificial poderosa. Paulo fala de Cristo “entregue por nossos pecados” e utiliza categorias derivadas da linguagem cultual. Entretanto, sua relação com a Lei é complexa e não pode ser simplesmente transferida para Tiago e a comunidade de Jerusalém. A Epístola aos Hebreus, por sua vez, desenvolve uma teologia extremamente sofisticada na qual o sacrifício de Cristo é apresentado como definitivo e superior ao sistema levítico. Mas Hebreus não deve ser transformada automaticamente em janela transparente para a teologia de todos os seguidores de Jesus antes de 70.
O mesmo vale para João. O Quarto Evangelho apresenta uma cristologia profundamente elaborada. Jesus é o Logos preexistente, o Filho, aquele que vem do alto, aquele que revela o Pai e aquele cuja morte está integrada à estrutura narrativa do evangelho. A imagem do Cordeiro pertence a essa elaboração. Não devemos, portanto, utilizar João 1,29 para reconstruir automaticamente aquilo que todos os discípulos de Jesus acreditavam décadas antes.
Isso nos conduz a uma formulação mais ponderada da tese original:
É possível que a compreensão de Jesus como “Cordeiro de Deus” tenha atravessado diferentes estágios de interpretação dentro do cristianismo primitivo, passando de um campo simbólico judaico no qual o cordeiro podia representar Israel, o justo sofredor ou uma liderança escatológica, para uma configuração cristológica na qual sofrimento, morte, expiação e vitória messiânica foram progressivamente fundidos em uma única imagem.
Essa formulação não enfraquece o argumento. Ao contrário: ela o torna historicamente mais plausível.
8. Conclusão: do cordeiro sacrificial ao Cordeiro vencedor
Retornemos finalmente à pergunta que deu origem a este ensaio: como compreender a afirmação de João Batista — “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”?
A resposta mais simples seria: João está chamando Jesus de cordeiro sacrificial e afirmando que sua morte expiará os pecados do mundo. Essa interpretação possui enorme tradição e encontra importantes elementos de apoio no próprio corpus cristão. Não há razão para descartá-la.
Mas ela não precisa ser a única possibilidade.
A literatura judaica anterior e contemporânea ao cristianismo demonstra que a simbologia do cordeiro possuía outras dimensões. Em 1 Enoque 90, cordeiros e carneiros fazem parte de uma narrativa de sofrimento coletivo, liderança, conflito e restauração. A figura do grande chifre não aparece como vítima passiva, mas como agente de resistência. O Senhor das ovelhas intervém, julga os inimigos e entrega uma espada às ovelhas. Não estamos diante de uma liturgia sacrificial, mas de uma apocalíptica da vitória.
O dado torna-se ainda mais significativo quando chegamos ao Apocalipse. Ali o Cordeiro é explicitamente “como imolado”, mas possui sete chifres. Ele é simultaneamente vítima e soberano. Sua morte não representa derrota; constitui precisamente a condição de sua exaltação. A imagem cristã parece, portanto, realizar uma síntese extraordinária entre dois campos simbólicos: o cordeiro sacrificial e o agente messiânico da vitória escatológica.
Talvez seja justamente nessa fusão que esteja uma das originalidades mais profundas da cristologia cristã.
O cristianismo não precisou inventar a linguagem do cordeiro. Ela já estava disponível no judaísmo. Não precisou inventar a ideia de uma liderança escatológica representada por um animal dotado de chifres. A apocalíptica judaica já conhecia esse imaginário. Não precisou inventar a ideia de um justo perseguido cuja morte possui significado diante de Deus. Isaías e outras tradições judaicas ofereciam repertório suficiente.
O que parece particularmente cristão é a fusão dessas tradições na figura histórica de Jesus.
O Messias é aquele que sofre.
O sofredor é aquele que morre.
O morto é o Cordeiro.
O Cordeiro é o vencedor.
E o vencedor possui chifres.
Nesse sentido, a imagem do Cordeiro não deve ser reduzida à fragilidade. O Cordeiro cristão é uma figura paradoxal de poder. Sua força não consiste em evitar a morte, mas em atravessá-la e transformá-la em vitória. O Apocalipse levará essa lógica ao extremo: aquele que foi morto é precisamente aquele que recebe o livro, rompe seus selos e inaugura a execução do julgamento divino.
E talvez aqui possamos retornar à questão inicial sobre a comunidade de Jerusalém. Se os primeiros seguidores judeus de Jesus continuaram frequentando o Templo e, segundo a narrativa de Atos, permaneciam “zelosos da Lei”, não precisamos necessariamente concluir que eles desconheciam ou rejeitavam qualquer significado salvífico da morte de Jesus. Podemos simplesmente reconhecer que a relação entre a morte de Jesus e o sistema sacrificial ainda não havia sido uniformemente sistematizada. A comunidade de Jerusalém podia continuar vivendo dentro do universo da Torá, enquanto outras comunidades desenvolviam interpretações diferentes sobre a morte, o sofrimento e a função messiânica de Jesus.
É possível, portanto, que a história da ideia de Jesus como “Cordeiro de Deus” não seja a história da descoberta repentina de que Jesus era um animal sacrificial. Talvez seja a história de uma releitura progressiva do imaginário judaico.
O cordeiro de Israel.
O cordeiro do sofrimento.
O cordeiro da Páscoa.
O cordeiro do Apocalipse.
O Cordeiro que morre.
O Cordeiro que vence.
E, finalmente, o Cordeiro de Deus que “tira o pecado do mundo”.
Essa sequência não pode ser demonstrada como uma cadeia histórica linear. Ela deve permanecer como hipótese interpretativa. Mas é precisamente como hipótese que ela se torna intelectualmente fecunda: em vez de pressupor que todas as imagens já estavam reunidas desde o início em uma única teologia cristã, ela permite enxergar o cristianismo primitivo como um processo de composição, disputa e reinterpretação de símbolos provenientes de diferentes estratos do judaísmo.
E talvez seja justamente por isso que a imagem tenha sobrevivido com tamanha força. O Cordeiro cristão é, desde sua origem, uma figura impossível de reduzir a uma única categoria. Ele é vítima e rei, sofrimento e poder, morte e vida, Israel e Messias, sacrifício e vitória.
O Cordeiro é aquele que morre — mas é precisamente porque morreu que, no imaginário apocalíptico cristão, ele se torna aquele que vence.
REFERÊNCIAS
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Fontes primárias
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1 ENOCH. In: CHARLES, Robert Henry (ed.). The Apocrypha and Pseudepigrapha of the Old Testament. Oxford: Clarendon Press, 1913.
JOSEPHUS, Flavius. The Jewish War. Cambridge: Harvard University Press, 1927.
JOSEPHUS, Flavius. Jewish Antiquities. Cambridge: Harvard University Press, 1930.