Estudos sobre Religião - Biblioblog

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

O problema das tradições judaicas associadas à Jesus e sua fidelidade à Toráh tem permeado discussões acaloradas desde o início de seu próprio movimento no século I d.C. Seria Jesus um "judeu desviante" ou seria ele um fiel seguidor da Torah? O conflito mais radical entre as comunidades cristãs no período posterior à destruição do Templo e o movimento proto-rabínico centrado nas sinagogas tendeu ao longo dos textos do Novo Testamento a tornar a compreensão dos efetivos debates de Jesus com os fariseus e seu relacionamento com eles uma atividade das mais complexas. Neste artigo, nos concentraremos no famoso incidente das espigas de trigo, momento no qual o grupo de Jesus é acusado de quebrar a guarda do Shabbat. Em um primeiro momento, tentaremos analisar as estratégias retóricas de tal controvérsia a partir de duas sugestões de pares opositivos: "Jesus/fariseus" e "evangelistas/farisaismo". Em seguida, tendo exposto tais estratégias, procuraremos situar melhor o sitz in leben do debate de tal forma a buscar uma compreensão mais acurada do suposto ocorrido em termos históricos, buscando melhor diferenciar os atores envolvidos na controvérsia e situar a mesma nas diferentes tradições judaicas.  Neste sentido, desenvolveremos, agora munidos de uma melhor caracterização do cenário, uma análise mais sofisticada sobre a defesa apresentada por Jesus nesta discussão. Por fim, baseados na argumentação desenvolvida nestas duas etapas iniciais, diferenciaremos em nossa conclusão os dois retratos-síntese sobre a figura de Jesus que em nossa análise emergiram desta controvérsia. Tendo sido delineado este roteiro, vamos agora, pois, apresentar as diferentes versões do incidente, de acordo com os 3 evangelistas sinópticos:



Análise Discursiva e apontamentos iniciais

"Aconteceu que, ao passar num sábado pelas plantações, seus discípulos começaram a abrir caminhos arrancando as espigas. Os fariseus disseram-lhe: 'Vê! Como fazem eles o que não é permitido fazer no sábado?' Ele respondeu: 'Nunca lestes o que fez Davi e seus companheiros quando necessitavam e tiveram fome, e como entrou na casa de Deus, no tempo do Sumo Sacerdote Abiatar, e comeu dos pães da proprosição, que só os sacerdotes podem comer, e os deu também aos companheiros?' Então lhes dizia: 'O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado; de modo que o Filho do Homem é senhor até do sábado'" [Marcos 2,23-28


 "Certo sábado, ao passarem pelas plantações, seus discípulos arrancavam espigas e as comiam, debulhando-as com as mãos. Alguns fariseus disseram: "Por que fazeis o que não é permitido em dia de sábado? Jesus respondeu-lhes: "Não lestes o que fez Davi, ele e seus companheiros, quando tiveram fome? Entrou na casa de Deus, tomou os pães da proposição, comeu deles e deu também aos companheiros - esses pães que só aos sacerdotes é permitido comer' - E dizia-lhes: 'O Filho do Homem é senhor do Sábado!" [Lucas 6:1-6


 "Por este tempo, Jesus passou, num sábado, pelas plantações. Os seus discípulos, que estavam com fome, puseram-se a arrancar espigas e a comê-las. Os fariseus, vendo isso, disseram: 'Olha lá! Os teus discípulos a fazerem o que não é lícito fazer num sábado!' Mas ele respondeu-lhes: 'Não lestes o que fez Davi e seus companheiros quando tiveram fome? Como entrou na Casa de Deus e como eles comeram os pães da proposição, que não era lícito comer, nem a ele, nem aos que estavam com ele, mas exclusivamente aos sacerdotes? Ou não lestes na Lei que com os seus deveres sabáticos os sacerdotes no Templo violam o sábado e ficam sem culpa? Digo-vos que aqui está algo maior do que o Templo. Se soubésseis o que significa: Misericórdia é que eu quero e não sacrifício, não condenaríeis os que não têm culpa. Pois o Filho do Homem é senhor do sábado."[Mateus 12:1-8



O judaísmo de referência talmúdica, bem como o cristianismo de matriz católico-ortodoxa, é o resultado da tradição oral e da tradição escrita. O que isso quer dizer? Que nem de longe todas as coisas que se referem às práticas, conceitos e liturgias destas religiões se encontram no corpo central de seus textos sagrados (a bíblia cristã e o tanack judaico). Existe uma tradição oral que circunda estes textos, bem como também uma tradição escrita que lhe dá suporte. No caso do judaísmo, a maior parte dessa tradição oral foi compilada entre os séculos II e V d.C., através da Mishnah (lei oral) e da Gemara (comentários e adições à lei oral). Posto isso, no caso do judaismo, devemos entender que estes textos se referem basicamente aos comentários e interpretações acerca das instruções básicas da Torah. É o resultado de um processo secular de discussões orais e registros antigos escritos sobre as formas pelas quais a Torah deveria ser interpretada e seguida. Em um dado momento cujo registro histórico é impossível remontar precisamente, mas certamente em um período anterior ao século I a.C., alguns grupos judaicos se deram conta de que "nem tudo" se encontrava no texto bíblico e que outras especificações normativas se faziam necessárias, dada a ambiguidade ou insuficiência formal do corpus jurídico contido nas prescrições da Torah (as chamadas 613 mitzvot ) no que toca ao exame das variadas casuísticas legais. Neste sentido, os 39 melakhot proibidos no shabbat são o resultado deste processo da tradição oral e das discussões haláquicas (sobre a interpretação da lei). Algumas dessas proibições se encontram diretamente no texto bíblico e as demais são resultantes do secular debate e interpretação dos sábios judeus [notadamente dos perushim (fariseus) "separados"]  acerca das ordenanças de Iahweh. Os melakhot são normalmente traduzidos para o português como “trabalhos”, mas a melhor tradução seria a de “esforços criativos”. Neste sentido, a essência de tais proibições se encontra na idéia da cessação destes esforços criadores. Mas enfim, as 39 melakhot podem ser, todas elas, encontradas no texto bíblico? Não. Como já foi dito, eles são o resultado da tradição escrita da Torah e do Tanakh, bem como da tradição oral dos perushim. De qualquer forma, algumas das melakhots estão diretamente mencionadas no texto bíblico. Dentre elas, podemos citar para o nosso caso específico a mais central de todas: Êxodo 34,21: “Seis dias trabalharás; mas no sétimo descansarás, quer na aradura, quer na colheita”

Poder-se-ia argumentar, como fizeram os fariseus no incidente das espigas, que os discípulos de Jesus quebraram o repouso sabático ao colherem as espigas. Quais seriam os pontos que deveríamos destacar inicialmente neste episódio?

a) Deuteronômio 23,26 dá sustentação à prática dos discípulos no sentido de não qualificá-la como um roubo. Era permitido colher espigas com a mão no terreno de um vizinho. Não se poderia era usar um instrumento como uma foice para a realização da colheita. Neste sentido, nada fizeram de errado com relação à Lei;

 b) Jesus não se envolve diretamente no incidente da colheita. Ele não participa dela. Atua no episódio como um contendor haláquico contra-argumentando as acusações dos fariseus. De qualquer forma, a atividade supostamente ilegal de seus discípulos lhe é imputada;

c) O relato de Mateus nos mostra que os discípulos se encontravam em uma situação de fome. Não temos informação suficiente sobre o contexto geral que os levou a tal fome. Mas é plausível supormos que se encontravam em situação de penúria, dado o recurso de recorrer a tal procedimento. Ou seja, nos é custoso atentar para a idéia de que os mesmos fizeram tal ato como uma "situação de normalidade cotidiana". Ora, Jesus conhecia muito bem as escrituras, sabia do problema, e não os teria orientado a agir de tal forma, se não houvesse uma necessidade premente gerada pela fome;

d) Jesus utiliza duas estratégias argumentativas no episódio, segundo Marcos: "precedente legal ligado à Davi e os pães de proposição" e "essência da Lei quanto ao sábado como tendo sido feito 'para o homem'. Já o relato de Lucas "recorta" a expressão genérica sobre a função do sábado ligada ao homem, deixando somente pela expressão ligada ao senhorio do Filho do Homem sobre o sábado.

e) Em acréscimo ao exposto por Marcos quanto à jurisprudência no "caso Davi", em Mateus, Jesus apela também para o precedente jurídico ligado às atividades dos Sacerdotes no Shabbat. Apela novamente para a oposição essência/legalismo na questão dual entre "misericórdia/sacrifício". Por fim, estabelecendo uma ligação funcional entre a atividade dos apóstolos e a dos sacerdotes do Templo, Jesus toma para si a função messiânica ao se portar como a escatológica figura do "Filho do Homem"[1] (tendo, pois, a partir de tais analogias, a prerrogativa de ser o "Senhor do Sábado", desconectada da expressão generalista de que o "sábado foi feito para o homem", tal como em Lucas).

A exposição de Marcos, muito mais primitiva (e, provavelmente, mais fiel ao acontecido), pode ser encarada como uma argumentação centrada na precedência da saúde (vida) em função do mitzvot negativa da proibição do trabalho no shabbat. Ou seja, Jesus justifica o ato de seus discípulos pelo conceito de que o Shabbat deve servir ao homem e não o inverso. Ele cita o evento ocorrido com Davi para exemplificar que o ocorrido teve um precedente jurídico anterior. Ele reconhece a proibição, reconhece o ilícito da mitzvot, mas confronta-a com a mitzvot positiva. Saciar a fome dos discípulos seria um ato de dar sentido ao repouso prometido por Iahweh no Shabbat. O princípio vital antecederia a restrição imposta pela melakhot. De fato, o esperado era que os discípulos seguissem as ordenaças de Êxodo 16:29, quando assim é dito: "Vede, porquanto o Senhor vos deu o sábado, portanto ele no sexto dia vos dá pão para dois dias; cada um fique no seu lugar, ninguém saia do seu lugar no sétimo dia." No entanto, tal mitzvot é vaga no que toca à situações de penúria e fome extrema. Sabemos que o movimento de Jesus era, por sua própria natureza, pobre, desprovido de recursos, e tipicamente itinerante. Ou seja, se em tese, os discípulos deveriam ter provido sua alimentação para o Shabbat no dia anterior, na prática, não sabemos a quais situações de escassez eles se encontraram na citada passagem. A argumentação de Jesus busca então sustentar a idéia de que o "saciar da fome" não quebra o Shabbat. 

O relato lucano nos informa mais claramente qual foi o tipo de ação realizada pelos discípulos. Se em Marcos, os discípulos, "abriam caminhos, arrancando espigas", Lucas nos conta que os discípulos: a) arrancavam as espigas; b) as comiam; e c) as debulhavam com as mãos. O argumento do texto lucano é baseado também sobre Davi e os pães da proposição. Porém, ele apresenta em sua narrativa a estratégia argumentativa da autoridade escatológico-messiânica ligada às tradições sobre o Filho do Homem, desconectada da expressão: "O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado". O texto de Lucas é o mais sintético dos três em sua parte final. Mas quer nos parecer que tal síntese não se deu pelo primitivismo dos registros, mas por uma estratégia de corte e ênfase na autoridade messiânica de Jesus. Ao fazer tal suposta redução, o discurso de Jesus acaba se voltando muito mais para o público cristão que lê o seu evangelho e se consola com o fato de que Jesus tinha a autoritas necessária se colocar acima das restrições do Shabbat, como liderança messiânica. Ora, se tal argumento faz completo sentido para um público cristão, ele é basicamente nulo para o público fariseu com o qual Jesus debatia. Seria algo como um argumentum magister dixit, centrado apenas em uma autoridade à qual os fariseus não reconheciam. Neste sentido, acreditamos que tal assertiva, isolada, não se referia a um verdadeiro dito de Jesus no suposto debate com os fariseus. Nesta controvérsia, em termos argumentativos, o complemento sobre o "Filho do Homem", deveria vir precedido pela afirmação geral sobre "o sábado ter sido feito para o homem".

Por fim, a estratégia de Mateus já é bem mais complexa. Ela é uma versão mais elaborada do discurso lucano. Inicialmente, ele nos informa claramente sobre a razão que moveu a ação dos discípulos. Eles estavam com fome. Aquilo que está supostamente implícito no texto de Marcos e Lucas, ganha aqui a sua explicitação. Mateus coloca no campo do debate um argumento mais refinado que se refere à própria afirmação da Ecclesia de Jesus como um estágio superior do exercício sacerdotal. O plano da exposição se situa agora na estratégia de desdém à capacidade cognitiva dos fariseus, incapazes de verem ali à sua frente o exercício sacerdotal dos discípulos de Jesus [em analogia com os sacerdotes do Templo] e incapazes de perceber a misericórdia divina agindo sobre os apóstolos em um nível que ultrapassaria o 'nível ritualístico' do 'estágio "sacrificial"/legalista das práticas associadas ao formalismo da interpretação da letra na Torah. Novamente, temos aqui uma brilhante exposição argumentativa a qual, no seu conjunto, não só "livra" os apóstolos da culpa, quanto demonstra que tanto Jesus quanto seu grupo se encontram em um nível superior [escatológico-sacerdotal] e que não podem ser tratados no mesmo nível de pessoas ordinárias. Da mesma forma como vimos no caso, de Lucas, encaramos tal estratégia como uma manobra do evangelista que se sobrepõe e amplia sobremaneira a estratégia concreta do Rabi Jesus em confronto com seus oponentes fariseus.



Contexto judaico e interpretação da Lei

Para nos ajudar a destrinchar este cenário complexo no sentido de melhor situá-lo no contexto histórico do judaísmo do Segundo Templo, optamos deliberadamente pela consulta à pesquisadores e historiadores de origem judaica. Não que haja algum problema com acadêmicos não-judeus para o tratamento do tema em tela. Mas neste caso específico de um problemática tão sutilmente ligada aos desenvolvimentos da halachá, acreditamos que o "olhar judaico" nos será mais apurado para a investigação.

De acordo o ponto de vista de David Flusser, este seria o único caso de quebra da Lei relacionado a Jesus e registrado nos evangelhos sinóticos. Neste sentido, abriremos aqui um pequeno parêntese. A tradição dos sinópticos tende a nos mostrar um Jesus tipicamente comprometido com a observância da Lei, apesar de sua peculiar interpretação do sentido de sua essência. Nos sinópticos, o evento mais explicitamente controverso seria exatamente este sobre o qual tratamos neste artigo. Na tradição da literatura joanina exposta no evangelho de João, no entanto, teríamos alguns outros problemas tais como a referência à cura do enfermo na piscina de Betesda no capítulo 5 de João. Neste incidente, Jesus não poderia ter ordenado ao enfermo que carregasse o seu leito após a cura como o fez em João 5:8. "Disse-lhe Jesus: 'Levanta-te, toma teu leito e anda!" Imediatamente o homem ficou curado. Tomou o leito e se pôs a andar." Jesus poderia ter curado o homem no sábado. Mas não poderia ter ordenado a este para que carregasse seu leito, tal como pela lei exposta em Jeremias 17, 21-22. Ele não poderia carregar peso neste dia. Ademais, neste mesmo capítulo o evangelista assim menciona: "Então os judeus, com mais empenho, procuravam matá-lo, pois, além de violar o sábado, ele dizia ser Deus seu próprio pai, fazendo-se assim igual a Deus." [Jo 5:18] Não nos cabe aqui neste nosso texto entrarmos no mérito destas outras controvérsias ligadas ao evangelho de João. No entanto, para que fique clara a nossa posição, acreditamos que este tardio evangelho se encontra já em um clima de profunda e mútua desconfiança entre a comunidade joanina e os fariseus da Sinagoga, fazendo com que diversos traços desta oposição apareçam já em uma oposição doutrinária de Jesus frente à Lei. De qualquer forma, retomando Flusser (e encerrando este pequeno parêntese), assim temos a sua análise sobre o incidente com os discípulos:

"Por consenso geral, no sábado era permitido apanhar espigas que haviam caído e debulhá-las com os dedos. Segundo Rabi Yehudá, também da Galiléia, era até permitido debulhá-las com as próprias mãos. Alguns fariseus criticaram os discípulos de Jesus por comportar-se de acordo com sua tradição galiléia. O tradutor grego do original não estava evidentemente familiarizado com os costumes do povo. Com o fito de tornar a cena ainda mais vívida, acrescentou a declaração sobre a colheita das espigas de trigo, introduzindo, desta maneira, o único ato de transgressão da Lei registrado na tradição sinótica." [FLUSSER, David. Jesus. São Paulo: perspectiva, 2002, p.37.] 

Ao ver do autor, o relato de Lucas seria o mais fidedigno. A prática de apanhar as espigas caídas no chão não era um problema. Tal ato era sancionado. A problemática se encontraria no ato da colheita. Como expusemos anteriormente, acreditamos estar em Marcos o registro mais primitivo deste relato. Neste sentido, modestamente, divergimos de Flusser. No entanto, ele nos é importante para introduzir em nossa estória um primeiro elemento rabínico para compreendermos melhor o zeitgeist judaico no qual nos encontramos. Flusser afirma que de fato verificou-se uma quebra de mitzvot naquele momento. Os discípulos não poderiam "colher" as espigas. Por outro lado, Jesus efetivamente não confrontou os fariseus no sentido de afirmar algo como um "sim, a Lei permitia genericamente tal ato." A estratégia argumentativa de Jesus, tal como relatada Marcos, é a de mostrar que os princípios vitais do ser humano se sobrepõem e anulam a culpabilidade da restrição negativa da mitzvot. Em seu livro Jesus e Israel, Jules Isaac nos cita também o rabi Yehudá. Assim ele comenta:

 "Está dito na Guemará (Sabbat, 128 ab): 'É permitido arrancar com a mão e comer em dia de sábado, mas não é permitido arrancar com um instrumento.' Estas são palavras de Rabi Judah [Le Sabbat, textes de la Mischnah, trad. fr., p. 72] [...] Jesus toma nitidamente posição, não contra a Lei, nem mesmo contra as práticas rituais, mas contra a desmesurada importância que lhes atribuíam certos doutores fariseus, nem mesmo contra o farisaísmo, mas contra certas tendências do farisaísmo, sobretudo aquelas que levava a antepor a letra ao espírito." [ISAAC, Jules. Jesus e Israel. São Paulo: Perspectiva, 1986, p.62.]

Isaac vai de encontro ao proposto por Flusser. Para ele, não haveria conflito algum com relação à Lei, mas apenas um confronto com relação ao rigor interpretativo de algumas algumas tendências específicas do farisaísmo. Esta proposição final nos será muito importante para o argumento que desenvolveremos mais à frente. Geza Vermes nos mostra uma contextualização interessante para o nosso caso. Segundo ele, trata-se tipicamente de uma discussão sobre "filigranas" interpretativas. Judeus liberais, inclusive do século Id.C., dariam relevância quase nula ao caso. No entanto, tal como Flusser, Vermes encontra justificativa na Mishna para o comportamento dos fariseus.

 "O relato dos discípulos famintos de Jesus arrancando e comendo espigas no sábado fornece o material dessa história de controvérsia. Judeus liberais de todas as épocas considerariam essa questão trivial. A ação dos discípulos certamente não chegava a roubo (ver Dt 23,25). Não obstante os legistas rabínicos e sem dúvida pré-rabínicos consideravam a respiga uma subcategoria da colheita, a qual , juntamente com outras trinta e oito atividades, a Mishná proibia especificamente durante o sábado (mShab 7,2). [VERMES, Geza. O autêntico evangelho de Jesus. Rio de Janeiro: Record, 2006, p. 68] 

Por outro lado, se houve de fato a quebra do Shabbat, Vermes nos atenta para vertentes rabínicas que dariam plena sanção ao ato dos discípulos e à argumentação feita por Jesus. Assim:

 [...] O judeu não é um escravo do sábado, anunciam os rabis. Ao contrário: 'O sábado vos foi entregue, e não vós ao sábado" (Mekilta de R. Ismael sobre Êxodo 31, 14). Salvar vidas, particularmente, sempre foi prioridade absoluta, e um homem tem permissão para profanar um sábado para poder observar muito mais. (ibid., sobre Êxodo 31,16)" [VERMES, Geza. O autêntico evangelho de Jesus. Rio de Janeiro: Record, 2006, p. 69.] 

Em acréscimo, como também nos fala outro basilar historiador judeu, Joseph Klausner, a resposta de Jesus no incidente das espigas foi tipicamente uma resposta partilhada pela tradição farisaica.

"Em sua vida prática, Jesus também se conduziu como um fariseu: ao partir o pão, em sua cuidadosa observância da bendição do pão e do vinho, e inclusive na questão do Shabat, fez a cena da Páscoa e disse o 'Grande Hallel'. Ao permitir aos seus que discípulos que no dia do sábado recolhessem espigas, se defendeu aduzindo que Davi havia comido os pães da propriação e que durante o Shabat se consumavam sacrifícios no Templo; disse que "O dia do repouso foi feito por causa do homem e não o homem por causa do dia de repouso" Mateus 12:1-5; Marcos 2:23-27). Exatamente do mesmo modo, mediante este argumento a fortiori, partindo dos sacrifícios no Templo e do fato de que Davi havia comido dos pães da propriação (em Y'lam'denu, Ialkut II, § 130) os fariseus demonstravam que as necessidades da vida estão acima das restrições do Shabat, e diziam também que "O Shabat foi dado a vocês e não vocês ao Shabat" (R. Simeón ben Menasia - um dos tanaím mais antigos - em Mefilta sobre Exodo 31, 14, começo de 1, pág. 92." [trad. própria][KLAUSNER, Joseph. Jesus de Nazareth: su vida, su época, su enseñanzas. Barcelona: Paidos, 1989, p. 116.] 


Por fim, após inicialmente apresentar o incidente das espigas como uma violação do Shabbat, Flusser (2002, p.40), concordando com Vermes, assim comenta:

"Seu discurso acerca da pureza e da impureza é quase uma peça de sabedoria moral popular e as palavras de Jesus, na discussão sobre as espigas no Schabat, harmonizam-se plenamente com as concepções dos escribas moderados." [FLUSSER, David. Jesus. São Paulo: perspectiva, 2002, p.40.] 

A partir deste momento, nos encontramos mais aptos para bem situar a controvérsia. Jesus não era um fariseu. Ele não pertencia a uma escola rabínica. No entanto, ele era um mestre letrado e conhecedor das escrituras. Ele possuía formação rabínica. Teve contato com os doutores da Lei e, a nosso ver, foi tipicamente influenciado por uma das duas principais escolas farisaicas, a Beit Hillel [2]. Ele não se portou necessariamente sempre como um fariseu, tal como sustenta Klausner, mas em vários contextos o encontramos agindo como um em suas discussões haláquicas. O contexto da controvérsia com os fariseus é tipicamente isso: "uma controvérsia entre fariseus". Jesus, apesar de não sê-lo, atuava como tal, defendendo seus seguidores, tal como provavelmente Hillel o faria em confronto com os de Shammai. Esta segunda escola farisaica tradicionalmente assumia uma postura mais estrita e rigorosa quanto à interpretação da Torah, atendo-se mais à literalidade do texto. Já a tradição de Hillel é mais liberal, procurando analisar a Torah a partir da essência dos seus conteúdos. Para compreendermos melhor a oposição entre as duas escolas, poderíamos citar este trecho da Jewish Encyclopedia:

"A razão atribuída para as suas respectivas tendências é a psicológica. Os Hillelitas eram, como o fundador de sua escola (Ber. 60a;. Shab 31a;... Ab i 12 e segs), tranquilos homens, amantes da paz, acomodando-se às circunstâncias e tempos, e sendo determinados apenas em promover a lei e trazer o homem mais perto de seu Deus e ao seu próximo. Os Shammaitas, por outro lado, severos e inflexíveis como o autor da sua escola, emulando-o e até mesmo excedendo-o sua severidade. Para eles, parecia impossível ser suficientemente rigoroso em proibições religiosas. Os discípulos de Hillel, "o seguidor devoto e suave de Ezra" (Sanh 11a), evidenciavam em todas as suas relações públicas, a tranqüilidade, gentileza e espírito conciliador que tinha distinguido o seu grande mestre, e pelas mesmas qualidades características eles foram guiados durante as tempestades políticas que convulsionaram o país. Os Shammaitas, pelo contrário, eram intensamente patrióticos, e não cediam à dominação estrangeira. Eles defenderam a interdição de toda e qualquer relação sexual com todos que eram romanos ou de alguma forma contribuíram para o avanço do poder ou influência romana. Disposições tão heterogêneas e antagônicas normalmente não podem ser suportadas lado a lado sem provocar mal-entendidos graves e inimizades, e era devido apenas à paciência dos Hillelitas "que as partes não entraram em conflito, e que mesmo as relações de amizade continuou entre eles (Tosef., Yeb i 10;... Yeb 14b; Yer Yeb i 3b), por um tempo, pelo menos.... Mas as vicissitudes do período exerceram uma influência perniciosa também nessa direção." [Trad. própria]

Como é possível perceber, o tipo de discussão verificado entre Jesus e os "fariseus" foi, na verdade, uma discussão com "um grupo específico dos fariseus". Os conflitos entre Hillelitas e Shammaitas era intenso, por vezes, chegou ao uso da violência. O contexto da controvérsia sobre as espigas é tipicamente judaico e Jesus faz uma interpretação haláquica sobre o sentido do “trabalho” no Shabbat. A questão é: "que farisaismo é este que confrontou Jesus neste episódio?" Na interpretação de Jesus, a preservação da vida [através da alimentação] precede o Sábado. Por isso, “o homem deve vir antes do sábado”. Por que tal assertiva foi feita? Porque os fariseus [tipicamente da escola de Shammai] eram aferrados ao formalismo da letra e provavelmente observavam essa ação dos apóstolos como a “quebra do Shabbat”. Teria um fariseu da Beit Hillel ["Academia de Hillel"] confrontado Jesus com tais assertivas? Certamente não, pois tal escola afirmava, de forma análoga ao dito por Jesus: "É lícito violar um Shabat para que muitos outros possam ser observados; as leis foram dadas para que o homem vivesse por elas, não para que o homem morresse por elas." Neste sentido, temos:

 a) A frase acerca do "sábado ter sido feito para o homem e não o homem para o sábado" aparece em material rabínico (Mekilta 103b, Tosefta Yoma 85b);

 b) Em acréscimo, a citação de Oséias 6:6 era tipicamente usada pelas rabinos em sua argumentação para afirmar que ajudar pessoas era sempre mais importante do que a observância rígida das regras e costumes (Sukkah 59b, Deuteronômio Rabba em 16:18, etc.)

 c) Está também dito na Gemara pelo galileu rabi Yehudá (Sabbat, 128 ab): 'É permitido arrancar com a mão e comer em dia de sábado, mas não é permitido arrancar com um instrumento.' , como mostraram David Flusser e Jules Isaac.

 d) Por fim, como pontuou Klausner, o exato mesmo argumento de Jesus foi utilizado por um dos mais antigos mestres Tanaim, o Rabi Simeón ben Menasia [em Mefilta sobre Exodo 31, 14] sobre a questão de Davi e os pães da propriação, denotando a superioridade da preservação da vida sobre a mitzvot negativa. 

Ou seja, em termos sintéticos, exatamente toda a argumentação de Jesus encontra respaldo na tradição da escola de Hillel, na Mishnah, na Gemara e na tradição rabínica correlata. A interpretação haláquica de Jesus se refere à essência da Lei e à preservação da vida, elementos que se sobrepõem às restrições negativas das mitzvot do Shabbat. Enquanto os fariseus de Shammai se atinham ao formalismo da letra, o fariseu Hillel e o rabi Jesus focavam sua atenção na essência viva da Torah. Sendo assim, Jesus se comportou tipicamente como rabi, conhecedor da Lei, da tradição e das escolas de pensamento judaicas.



Sobre os fundamentos jurídicos

A mishna e a gemara servem como arcabouço de jurisprudência para o judaismo rabínico, descendente do movimento político farisaico do primeiro século. Ali encontramos basicamente a exposição e o enfrentamento das escolas rabínicas sobre a Torah escrita e sobre as tradições da Torah oral. Frequentemente encontramos posições diversas e tecnicamente mutuamente excludentes dos mestres judaicos. O contraditório não é ali algo a ser visto como necessariamente problemático. São discussões hermenêuticas sobre casos em litígio e sobre os quais a Torah não tipifica de forma clara. No incidente dos discípulos, a Lei era clara e a Mishna também. Em termos gerais, os discípulos não poderiam praticar tal ato. No entanto, a argumentação feita por Jesus buscou na jurisprudência bíblica a sanção para tal e também na interpretação haláquica de que a preservação da vida humana é de fato a essência do descanso sabático. Jesus buscou o fundamento da Lei, a essência de sua raison d'être . Deuteronômio 5:15 menciona a escravidão no Egito como a razão por trás do descanso sabático ordenado por Iahweh. O descanso seria, pois, um memorial deste período e uma afirmação da libertação alcançada de tal relação de senhorio imposta pela escravidão. Ao afirmar que "O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado", a interpretação haláquica de Jesus reconduz o Shabbat à sua função. No rigor interpretativo da letra, a acusação farisaica faria com que os discípulos se escravizassem ao sábado pela fome, relembrando a o penoso tempo no Egito. A defesa de Jesus vai ao fundamento da Lei e retoma seu significado primeiro que é o da libertação do penoso trabalho e o repouso. A guarda do Shabbat é uma ordenança de Iahweh em memória à liberdade. Ela deve funcionar como tal. Ora, qual é o repouso que tem o esfomeado? A escravidão de sua fome? Deve, pois, a renúncia às necessidades vitais se fazer em função de uma lei cuja essência é a própria preservação das faculdades vitais e a celebração da liberdade? Indo, pois, ao fundamento da Lei, Jesus a recoloca em seu devido lugar.

Levítico 18:5 assim diz: "Eu sou Iahweh vosso Deus. Guardarei os meus estatutos e as minhas normas: quem os cumprir encontrará neles a vida." Jesus aplica o conceito contido nesta passagem de que os judeus deveriam encontrar o princípio da vida no cumprimento da Torah. O cumprimento do estatuto deve conduzir à vida e não à negação dos princípios de sua sustentabilidade. Aplicou na defesa dos discípulos, assim, o princípio jurídico do Pikuach Nephesh, (literalmente "perigo à alma"), ou seja, o princípio de que a preservação da vida se sobrepõe a qualquer estatuto formal da Torah.  O cumprimento da essência dos mandamentos deve conduzir à vida. Sendo assim, a exigência de rigor no cumprimento da letra acabaria por se constituir na própria negação do espírito da Torah. Ao se utilizar do precedente jurídico sobre Davi, Jesus apelou para o princípio do Pikuah Nephesh, demonstrando que os discípulos de fato não incorriam em violação da Lei. Neste sentido, por mais paradoxal que possa parecer a alguns, Jesus se comportou tipicamente como um perushim (fariseu). Seguindo a herança da tradição de Hillel, ele buscou os princípios e os fundamentos que dão sentido às mitzvot. Como procuramos mostrar, todos os elementos de sua defesa podem ser encontrados na tradição rabínica. Dessa forma, o caso das espigas de trigo não pode ser encarado como o exemplo de um Jesus desviante das tradições judaicas de seu tempo, como um outsider. Inversamente, a controvérsia tipicamente nos mostra um Jesus plenamente inserido em uma tradição de debates haláquicos que viriam a se constituir posteriormente na formalização escrita da  Mishna e da Guemara.

Em defesa da alegação farisaica, poder-se-ia argumentar que o princípio do Pikuach Nephesh não poderia ser utilizado para defender os discípulos, dado que os mesmos não passavam por um "perigo de vida". Inicialmente, deve-se ressaltar que tal princípio, em termos históricos, não se referiu necessariamente à pessoas que se encontravam à beira da morte. Além disso, da mesma forma, Davi e seus homens não estavam à beira da morte. Por fim, qualquer especulação referente ao estado de saúde dos discípulos é "mera especulação". O que sabemos pelo texto de Mateus é que passavam por fome. Sugerimos inicialmente que tal situação poderia ser uma situação limítrofe, dado o perfil de pobreza itinerante do grupo dos seguidores de Jesus. Esta é uma caracterização bem plausível, no entanto, se observarmos os relatos gerais do evangelho. Em vários momentos, encontramos problemas de escassez alimentícia. Mateus 15:32 é um destes exemplos:  "Jesus, chamando os discípulos, disse: "Tenho compaixão da multidão, porque já faz três dias que está comigo e não tem o que comer. Não quero despedi-la em jejum, por receio de que possa desfalecer pelo caminho". Por outro lado, os discípulos colheram as espigas e isso implica que tiveram a força necessária para fazê-lo. Mas Davi também teve tal força ao solicitar os pães da proposição, quando teve fome. A alegação de que os discípulos poderiam ficar mais um dia sem comer, ultrapassando o Shabbat, é apenas uma especulação que não possui substrato formal na perícope específica, no texto geral dos evangelhos, e no precedente da jurisprudência davídica. Dos evangelhos, em geral, o que podemos notar é uma recorrente situação de peregrinação, limitação alimentícia e uma notória preocupação de Jesus em alimentar aqueles que com ele estavam.

No que toca à comunidade dos essênios, uma passagem do Documento de Damasco nos mostra uma restrita posição deste grupo no que toca à alimentação no Shabbat:


"Ninguém deve comer no dia do Shabbat nada que não tenha sido preparado com antecedência. Ele não deve comer nada que porventura tenha caído no campo, nem ele deve beber qualquer coisa que não tenha sido preparada no acampamento. Se, entretanto, ele estiver viajando, ele pode vir abaixo para se banhar e pode beber onde quer que esteja." [Documento de Damasco, Sobre o Shabbat - (x, 1~xi, 18)]


O Livro dos Jubileus, um documento muito usado pela comunidade de Qumran também assim menciona:


"Saiba e diga aos filhos de Israel a Lei desse dia: De que eles devem guardar o Sábado e que eles não devem perverter seus corações, e que não é permitido [legal] executar nenhum trabalho inconveniente, trabalhar pelo seu próprio prazer, e que não devem preparar nada para ser comido nem bebido, nem pegar água [do poço], e adentrar ou levar qualquer mercadoria pelos seu portões as quais eles não tenham preparado para si no sexto dia em suas habitações." [Livro dos Jubileus, 2:29]

Aparentemente para os essênios, somente o alimento previamente preparado poderia ser ingerido no dia do Shabbat. Nada que fosse encontrado caído pelo campo poderia ser ingerido. Não sabemos, no entanto, se haveria alguma possibilidade diversa em caso de fome extrema. No entanto, há de se ressaltar que os essênios eram os mais rigorosos na observância deste dia.

Se os discípulos de Jesus fossem membros da yahad de Qumran, provavelmente eles teriam sérios problemas. O caso referente à controvérsia de Jesus e os fariseus, no entanto, não poderia ser analisado a partir da halachá essênia, dado que este era um partido alienígena à controvérsia em tela [Seguidores de Jesus versus Fariseus]. No entanto, tal perspectiva nos ajuda à sofisticar a análise dentro de um quadro que busca nos projetar uma imagem das tradições judaicas do período no qual Jesus viveu. Buscando ampliar este quadro, procuraremos agora tecer algumas considerações críticas sobre o problema das "tradições judaicas".


Tradição judaica. É possível?

Um aspecto importante que devemos ressaltar, no entanto, ao falarmos sobre "tradição judaica" é o fato de ser esta uma questão que não possui resposta satisfatória no que toca ao período do judaísmo do Segundo Templo (se é que tal resposta satisfatória exista para algum outro período histórico da história do judaismo). Josefo nas suas Antiguidades Judaicas nos fala sobre a existência de quatro partidos entre os hebreus. Seriam eles os saduceus, os fariseus, os essênios e a até então recente "quarta filosofia" criada por Judas de Gamala. Poderíamos acrescentar ainda neste quadro a figura dos escribas e também dos herodianos. Em volta destas formas mais consolidadas, encontramos variado espectro de religiosidade popular através de grupos dispersos e lideranças carismáticas tais como o grupo de João Batista e os seguidos do chamado Egípcio, ou os de Jesus, o nazareno. De certa forma, podemos dizer que todas as primeiras 3 correntes políticas, nas configurações que se apresentavam no século I d.C., se originaram no período da Revolta dos Macabeus, dois séculos antes. Em termos estritos, poderíamos afirmar que a tradição das castas sacerdotais judaicas teve continuidade com os saduceus (continuidade esta radicalmente contestada pelo partido essênio). No entanto, segundo o relato de Josefo, o partido saduceu era elitista, sem maior apelo entre a população. Já o grupo fariseu havia tido maior sucesso em impor sua interpretação da Torah às populações do meio urbano na Judéia. Os essênios, tidos como os mais virtuosos e rigorosos no cumprimento da Lei  [JOSEFO, Antiguidades Judaicas, Livro XVIII, cap.1, § 5; Flusser, 2002, p.38], viviam em um nível de maior isolacionismo, quer em sua postura ascético-monástica no Mar Morto, quer em seu semi-ascetismo urbano. No entanto, como vimos no início deste texto, os fariseus (perushim) eram os "separados". Buscavam se separar dos am ha-arez, ou seja, daqueles que não primavam pelo rigor na observância dos preceitos da Torah (quer escrita, quer oral). Este quadro tripartite que havia se constituído no século II a.C. acabou por se defrontar com uma situação adversa em 63 a.C. quando o reino foi conquistado pelo império romano. Neste contexto de domínio imperial, devemos observar o comportamento de tais grupos a partir desta perspectiva de colonização. Sociologicamente, a análise de tais grupos deve ser feita a partir de suas reações em função do regime de opressão que lhes coage.

"E em situação cultural em que um grupo minoritário está sob forte pressão da parte da sociedade dominante, a aculturação ocorre em diversos graus; as normas que são relaxadas e as normas que são intensificadas variam dentro do grupo minoritário. Essa espécie de variação ocorreu dentro da minoria judaica, com mútua alienação entre fariseus, saduceus, essênios e discípulos de Jesus. O resultado trágico foi que a tentativa de preservar a identidade judaica intensificando normas selecionadas levou à perda de identidade com o grupo inteiro, visto que as várias seitas intensificaram normas diferentes. Por exemplo, a ênfase extremada dos fariseus na pureza na vida diária, com a separação concomitante social e religiosa tanto dos romanos como do am ha-arez judeu, relacionava-se com esta perda potencial de auto-identidade." [STAMBAUGH, John E. O Novo Testamento em seu ambiente social. São Paulo: Paulus, 1996, p.95]

A situação de domínio e colonização impõe aos dominados a necessidade do desenvolvimento de estratégias político-culturais de sobrevivência e auto-afirmação. Os partidos, já anteriormente separados, acabaram por intensificar suas posições frente aos demais grupos em um processo progressivo de mútua alienação. Sob o imperialismo romano, a disputa exegética sobre a Toráh. não era apenas uma mera disputa normativa, mas uma disputa sobre estratégias de resistência cultural frente às instituições pagãs e ao monopólio do uso da violência por Roma estabelecido, ao que poderíamos parodiar como sendo o "roman way of life". A diferenciação grupal era, pois, amplificada em função das necessidades de auto-afirmação frente ao elemento impositivo externo. Nesta perspectiva, as estratégias poderiam ser tanto de relaxamento e acomodação social quanto de afirmação e enfrentamento. Poderíamos mencionar como tópico analítico, neste sentido, a principal fonte de controvérsias entre saduceus e fariseus, segundo Flávio Josefo:

"O que eu gostaria de explicar agora é isto: que os fariseus entregaram às pessoas um grande número de observâncias pela tradição de seus pais, que não estão escritas nas leis de Moisés. E por essa razão é que os saduceus as rejeitam, e dizem que nós devemos estimar apenas aquelas observâncias que são obrigatórias e que estão na palavra escrita, não devendo observar as que são derivadas da tradição de nossos antepassados. E no que concerne a estas coisas é que as grandes disputas e diferenças surgiram entre eles. Enquanto os saduceus são capazes de convencer tão somente os ricos, não tendo a população obsequiosa a eles, os fariseus têm a multidão ao seu lado." [JOSEFO, Flávio. Antiguidades Judaicas, Livro VIII, cap. 10, § 5, trad.própria]

Os saduceus rejeitavam a "Torah oral" dos fariseus e consequentemente todos os melakhots mencionados no início de nossa exposição que não eram encontrados na própria escritura da Toráh. Neste sentido, o grupo saduceu rejeitava a tradição oral como fonte canônica, se atendo apenas aos textos centrais da herança mosaica. Como menciona John Meyer,

"Nós sabemos, por exemplo, como os fariseus claramente distinguiam entre a Torá escrita de Moisés e suas próprias 'tradições dos anciãos' (ou 'tradições dos pais'). Eles sustentavam que estas tradições eram normativas apesar do fato — de tais tradições não estarem contidas na Torá mosaica escrita. Por exemplo, os fariseus inventaram uma ficção legal chamada de 'êrûb (uma 'fusão' de delimitações) para alargar o espaço no qual judeus observantes poderiam se mover no sábado. Os fariseus defendiam sua prática contra as objeções dos saduceus, mas os fariseus não tentavam alegar que o 'êrûb existia, ou era sancionado por, nos cinco livros de Moisés"[MEYER, John P. O Jesus histórico e a lei histórica: alguns problemas dentro do problema. IN: CHEVITARESE, André Leonardo et all [org.] Jesus de Nazaré: uma outra história. São Paulo: Annablume; Fapesp, 2006, p. 236]

A famosa "cerca à Toráh" (Torah shebe-'al peh), estratégia farisaica, era recusada pelo grupo dominante sacerdotal no século Id.C. Seu apelo único à normatividade da palavra escrita, no entanto, encontrava pouco apoio nas camadas populares da Judéia. Poderíamos defender a hipótese de que os fariseus ao disseminarem seu conhecimento através dos encontros semanais nas sinagogas pulverizadas pelo território judaico, bem como nas comunidades da diáspora acabaram por ter maior sucesso na divulgação de sua agenda político-religiosa do que os Saduceus, hierarquicamente centralizados na estrutura do Templo em Jerusalém. Nesta configuração de alienação mútua entre fariseus e saduceus estaria tipicamente demarcada uma situação limítrofe de conflito sobre o locus da herança da tradição judaica em sua relação com a Lei Mosaica. Os primeiros afirmando a existência de uma tradição oral normativa associada à Toráh e os saduceus negando completamente tal normatividade, afirmando como nomos apenas o núcleo-duro da herança escrita mosaica. A mútua oposição poderia ser encontrada também na crítica essênia ao método farisaico. Os essênios negavam também a existência de qualquer Torah oral derivada historicamente do Sinai. Como coloca Lawrence Schiffman:


"A questão fundamental que se coloca a todos os sistemas da lei judaica pós-bíblica é como justificar a existência de uma presença tão significativa de leis claramente não-bíblicas. Os sectários de Qumran consideravam a lei bíblica como a lei 'revelada' (nigleh) e as prescrições adicionais, como 'escondidas' (nistar). Esta última classe de leis fora revelada à seita através da exegese bíblica inspirada em suas sessões de estudo regulares. O clamor dos sectários era de que a tradição não podia ser um guia autorizado para lei judaica. Tampouco aceitavam a noção de qualquer revelação extra-bíblica "no Sinai em adição à Torá escrita". [SCHIFFMAN, Lawrence H. The pharisees and their legal traditions according to the dead sea srolls. In Dead Sea Discoveries 8, 3. Bril, 2001, p.267, trad. própria]


Como visto, verificamos aqui uma questão metodológica. Enquanto os fariseus apelavam para uma suposta tradição dos antigos, os essênios derivavam seus demais preceitos paralelos à Toráh a partir de uma particular exegese "revelada". A metodologia farisaica, criticada pelos essênios era a de que eles derivavam suas leis através da dedução lógica, um método inaceitável para a yahad de Qumran (Schiffman, 2001, p,266). Os saduceus, responsáveis pelos serviços do Templo, lutavam por manter a estrutura de poder religioso coesa, evitando pretensões messiânicas oriundas da interpretação exegética dos textos proféticos e da tradição oral. Era uma estratégia de convivência política que se acomodava à estrutura de poder herodiana-romana voltada, no entanto, para a afirmação intensa da tradição escriturística já instituída. Ou seja, a afirmação única da normatividade da Toráh por parte dos saduceus era a afirmação do quadro político instituído, a afirmação "daquilo que não deve mudar". Já os fariseus encontravam na Torah oral não só um elemento de diferenciação social, mas também um elemento de resistência cultural-patriótica frente às instituições romanas. A estratégia essênia era a do isolacionismo e da oposição rígida entre luz (comunidade) versus trevas (romanos kittin e falsos ensinamentos dos saduceus (Manassés) e dos fariseus (Efraim). Neste quadro de mútuas controvérsias, a Toráh oral dos fariseus era rejeitada tanto pelos saduceus, quanto pelo partido essênio.

"Nos textos da seita mais bem conhecidos, os fariseus são chamados por vários códigos, entre os quais 'Efraim', e são descritos como os 'construtores do muro', significando que eles construíam defesas em torno da Torá, ao decretar regulamentos adicionais destinados a assegurar sua observância. Tais defesas eram tão inaceitáveis para a seita de Qumran quanto as próprias halahot (leis) dos fariseus. A seita, fazendo um jogo de palavras, escarnecia dos fariseus chamando-os de doreshe halacot, cuja melhor tradução é 'aqueles que comentam falsas leis'. O mesmo texto considera o talmud (literalmente 'estudo') de 'Efraim' como falsidade, sem dúvida uma referência ao método fariseu de extrair novas leis ampliadas a partir de expressões das Escrituras." [SCHIFFMAN, Lawrence H. As origens saducéias da seita dos manuscritos do Mar Morto. IN: SHANKS, Hershel (org.) Para compreender os manuscritos do Mar Morto: uma coletânea de ensaios da Biblical Archaeology Review. Rio de Janeiro: Imago, 1993, p. 46.]

Outrossim, tal como vimos neste texto, não é possível tratarmos os fariseus a partir de um bloco monolítico de análise. Em certa medida, poderíamos pontuar os seguidores de Hillel e os seguidores de Shammai como facções muito distintas, apesar de fazerem parte de um mesmo partido. No entanto, quando se fala nesta estrita obsessão pelo rigor da letra na Torah, certamente devemos relacionar tal postura aos shammaitas. Tal postura não se enquadra no modelo hermenêutico hillelita. Historicamente, o primeiro grupo se portou politicamente em termos agressivos e nacionalistas enquanto que o segundo apresentava uma postura bem mais conciliadora. A intensificação das observâncias sobre pureza por parte do grupo de Shammai, pode ser entendida,  (Vide: Stambaugh), como uma reação às ameaças externas à auto-identidade de seu grupo. Por outro lado, a caracterização do perfil psicológico das facções farisaicas deve ser também vista como um desdobramento do perfil pessoal de suas lideranças fundantes. No que toca à questão dos enfrentamentos entre Jesus e os fariseus, Mateus 15-1:11 nos mostra também uma crítica ao "muro da Toráh" e à tradição dos anciãos. "E assim invalidastes a Palavra de Deus por causa da vossa tradição" [Mt 15:6]

Dado o pluralismo político religioso do judaísmo do Segundo Templo, torna-se temeroso falarmos em "tradições judaicas". Cada grupo, em sua forma particular, atuava no se sentido de se apresentar como o legítimo representante da tradição ou como legítimo herdeiro desta tradição. Quando mencionamos o comportamento de Jesus no quadro da controvérsia sobre as espigas, procuramos mostrar que tal comportamento pode ser analisado a partir dos elementos encontrados no farisaísmo de Hillel e de seus desdobramentos no rabinato talmúdico posterior. Neste sentido estrito, pontuamos que a controvérsia das espigas, tal como vista em Marcos, poderia ser encarada como uma "controvérsia entre fariseus", podendo o incidente ser compreendido a partir desta tradição de controvérsias entre as correntes hillelita e shammaita.

Jesus não era fariseu, mas um Rabi independente galileu com seus próprios seguidores e notório apelo popular. Como tal, se defrontou com o grupo farisaico em diversas ocasiões. Sua auto-consciência messiânica se somava a uma forma particular hermenêutica muito mais voltada para a busca pela essência primeira dos fundamentos legislativos da Toráh. Ele conhecia e se utilizava dos ensinamentos da Beit Hillel a eles associando a sua liderança messiânica em determinados casos. Sua comensalidade aberta, suas curas no Shabbat e sua não-discriminação à determinados párias da sociedade judaica tal como mendigos, doentes, possuídos, prostitutas e publicanos entrava em choque explícito com a típica postura isolacionista essênia e dos fariseus "separados" de Shammai. Sua postura comensal inclusiva, sua prática piedosa de cura sabática e sua exegese das escrituras voltada ao sentido profundo da Lei se configuravam em sua estratégia de apresentação do "Reino de Deus" como já presente entre os judeus. Tal estratégia inclusiva, pode também, ser vista como forma política de afirmação grupal frente à dominação romana e ao formalismo ritual saduceu junto ao Templo e ao formalismo exegético dos de Shammai (e suas regras de pureza). No que toca ao incidente das espigas, o recurso à jurisprudência davídica anuncia também uma certa excepcionalidade casuística ligada ao novo reino messiânico que se está a instaurar em Israel por parte da comunidade dos discípulos de Jesus. Já o relato de Mateus, a nosso ver, reflexo maior das controvérsias farisaico/cristãs após o Segundo Templo, pode ser compreendido também neste quadro de busca pela afirmação por parte do grupo nazareno das prerrogativas de continuidade da herança sacerdotal (além da herança da realeza), agora apresentada a partir da atividade apostólica.



Messianismo e estratégias retóricas

Em nossa exposição, procuramos inicialmente diferenciar dois elementos: as estratégias retóricas de Jesus e as estratégias retóricas dos evangelistas. Como foi visto, Marcos nos parece ser mais fiel no registro dos ditos de Jesus. De fato, encontramos, como visto anteriormente, todos os elementos discursivos utilizados por Jesus em outros textos da própria tradição farisaica e rabínica. Sobre os relatos de Lucas e Mateus, foi possível argumentar que nos encontramos já em um estágio narrativo no qual o confronto não se dá mais em termos da oposição Jesus/Fariseus, mas da oposição entre o movimento dos nazarenos/farisaismo. Sabemos que a terminologia sobre o "Filho do Homem" foi tipicamente empregada por Jesus em seus ditos, notadamente em seus discursos junto a seus seguidores. No entanto, não nos parece plausível o emprego de tal terminologia em um embate haláquico como argumento de autoridade, desconectado de uma razão mais ampla que a justifique. Como vimos, a afirmação de que o "sábado foi feito para o homem", texto que antecede postulação sobre o "Filho do Homem" em Marcos, possui correlatos na tradição rabínica e provavelmente deva ter sido pronunciada originalmente por Jesus. Lucas justifica o ocorrido pela autoridade de Jesus sobre o a Shabbat e pela jurisprudência davídica. Mateus vai mais além nas estratégias argumentativas, no sentido da desqualificação dos oponentes de Jesus. O objetivo de fundo, no entanto, como procuramos demonstrar, era a desqualificação do próprio grupo dos fariseus, enquanto inequívocos intérpretes da Toráh. No texto de Mateus, Jesus não apenas anula a culpabilidade dos discípulos, como demonstra a sacralidade de suas ações. Ele debocha da capacidade dos fariseus de observarem precedentes jurídicos que sustentariam as ações dos apóstolos e de perceberem a misericórdia divina agindo no saciar da fome dos mesmos. No que toca à analogia com a narrativa de Davi e os pães da proposição, destacaríamos também um ponto importante. Se no relato marcano, a citação funciona como elemento de jurisprudência, em Lucas e Mateus, a citação não apenas serve como elemento de referência de precedente jurídico, mas funciona também como analogia messiânica. Vejamos:


a) ao pontuar o conceito do "Filho do Homem" como senhor do sábado correlacionado a uma ação davídica, Jesus liga suas ações e de seus discípulos ao nível da postulação messiânica ligada à realeza;

b) em acréscimo, ao mencionar a atividade sacerdotal, Mateus funde em Jesus os dois conceitos: "messias-rei" e "messias-sacerdote";

c) como síntese, no conjunto completo proposto no esquema argumentativo mateano, Jesus seria o messias-davídico-sacerdotal e as ações dos apóstolos se justificariam também por esta dicotomia: precedente real/sacerdotal.

Desta forma, Mateus ultrapassa a mera apresentação de Jesus como um arguto mestre da Lei, bem capaz de defender a ação de seus discípulos, mas inverte as ações no campo de batalha retórica, desqualificando os oponentes e situando a controvérsia em um plano no qual o mestre da Lei é também posto como o amálgama entre as figuras do Messias-rei e do Messias-Sacerdote. Ao fazer isso, o debate com os fariseus não é apenas vencido pela plausibilidade argumentativa mas também pela assimetria de forças político-religiosas que se colocavam na questão (tal como ele apresentava). Este reordenamento de forças deve ser compreendido como uma tática mateana de afirmação da comunidade dos nazarenos frente ao proto-rabinato das sinagogas no pós-guerra em 70 d.C.



Sobre os critérios de Autenticidade

Um elemento que ainda não mencionamos em nossa questão de forma mais explícita se refere aos chamados critérios de autenticidade ligados à perícope em questão. A nosso ver, como procuramos demonstrar anteriormente, a narrativa marcana possui maior ligação com o Jesus Histórico. Notadamente, a versão de Mateus já nos traria acréscimos ligados a uma problemática das comunidades cristãs em enfrentamento com as sinagogas. De qualquer forma, o núcleo-duro da controvérsia sobre as espigas nos parece ter um substrato verídico. Neste caso, dois critérios podem ser elencados para a análise: "o critério da dessemelhança" e o "critério do constrangimento". O primeiro se ligaria tipicamente a um elemento que romperia com uma certa tradição de continuidade. E o segundo estaria ligado a algum elemento que causaria embaraço e constrangimento ideológico aos evangelistas ao publicarem tal perícope. A questão que se coloca é: "teriam os evangelistas algum propósito na publicação de algum dito ou fato da vida de Jesus que lhes causasse problema devido à contestação e aos ataques que lhe seriam feitos?" Vamos pegar, por exemplo, o seguinte pronunciamento de Jesus em Mateus 5,17-19:

"Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas. Não vim revogá-los, mas dar-lhes pleno cumprimento, porque em verdade vos digo que, até que passem o céu e a terra, não será omitido nem um só i, uma só vírgula da Lei, sem que tudo seja realizado. Aquele, portanto, que violar um só desses menores mandamentos e ensinar os homens a fazerem o mesmo, será chamado o menor no Reino dos Céus. Aquele, porém, que os praticar e os ensinar, esse será chamado grande no Reino dos Céus."[Mateus 5,17-19]

A apreensão do conteúdo apresentado nesta passagem nos mostra um Jesus absoluta e rigorosamente comprometido com o cumprimento da Torá. Mais do que isso, esta passagem mostra uma profunda repreensão a todo aquele que descumprir um dos mandamentos da Torá. Pelo "critério do constrangimento", poderíamos encontrar a proposição de que a perícope das espigas é verdadeira tipicamente porque ela geraria um profundo constrangimento à comunidade dos cristãos (caso fosse encarada como violação da Lei), mas mesmo assim foi posta no evangelho. Ora, não é possível conceber, no entanto, tal absurdo grau de contradição sendo exposto de forma tão explícita. Como é possível vindicar qualquer suposto de liderança messiânica para alguém que é sequer incapaz de manter seu compromisso com o elemento central da Toráh, ou seja, a Lei? Lembremos que um evangelho é um texto voltado para a publicização da mensagem cristã. Lembremos que uma das típicas críticas ao farisaísmo feitas por Jesus se concentrava em denunciar a suposta hipocrisia dos mesmos, ou seja, sua capacidade de não agir de acordo com aquilo que pregavam. Ora, como um evangelista sequer poderia elaborar um texto mostrando que Jesus agia da mesma forma que seus inimigos fariseus? Pior ainda, agindo contra suas próprias palavras e contra o coração da Toráh? Falar uma coisa e fazer outra já era um problema grave. Fazer isso no que toca à Lei seria o suprassumo da incoerência. Divulgar tais coisas em material de propaganda político-religiosa (evangelhos) seria enfim dar atestado de insanidade. Em bom termo, a perícope foi publicada, exatamente porque ela fazia parte de um programa ideológico a ser defendido, qual seja — a defesa de uma halachá voltada para os princípios fundantes da Lei contra o formalismo da interpretação formal (Shammai). A perícope foi tipicamente publicada porque os evangelistas defendiam que a Lei havia sido plenamente cumprida. A perícope foi tipicamente publicada porque os evangelistas queriam exatamente mostrar qual era a correta forma de interpretação haláquica, a forma que buscava os fundamentos primeiros da legislação. Havia um programa político-ideológico na publicação deste material. Se inicialmente, poderíamos imaginar que houve uma certa descontinuidade com as "tradições judaicas", descobrimos ao longo da exposição que tal ruptura não existiu de fato, dada a similitude da argumentação de Jesus com a tradição da Beit Hillel e do rabinato posterior. Neste caso, nos termos e critérios para análise da crítica textual, o elemento que nos conduz à autenticidade do dito, paradoxalmente não é a "dessemelhança", mas a "aparente dessemelhança que se descobriu como continuidade."Se poderíamos imaginar a idéia de constrangimento na publicação deste material, inversamente pontuamos que o mesmo intencionalmente foi publicado como estratégia de enfrentamento (não contra a Lei), mas contra a halachá formalista da Lei. Ao invés de constrangimento, a publicização de tal passagem faz parte de um programa de auto-afirmação político-ideológica das comunidades cristãs primitivas no que toca à formação da jurisprudência da Toráh.


Conclusão

Por fim, após termos dissertado sobre todos estes elementos, gostaríamos de encerrar nossa exposição, delineando os dois retratos sobre Jesus que encontramos em toda aparentemente simples controvérsia. No quadro múltiplo ligado ao incidente sobre as espigas, podemos, pois, encontrar duas caracterizações sobre Jesus. A primeira, que poderíamos retratar como a fusão dos conteúdos apresentados pelo texto de Marcos e Lucas, nos mostraria Jesus tipicamente como um rabi galileu do século I d.C., inserido em um quadro de disputas sobre a interpretação da Lei. Já o amplo quadro apresentado em Mateus nos mostra um Jesus plenamente se afirmando como liderança messiânica de um grupo que se colocava de forma superior ao partido dos fariseus. Como procuramos demonstrar, a nosso ver, o primeiro caso nos parece ter maior ligação com os eventos concretos ligados à vida do Jesus histórico. A apresentação de Mateus já nos é muito mais um espelho do enfrentamento do movimento dos nazarenos frente à rejeição do farisaismo das sinagogas às pretensões messiânicas da comunidade mateana e demais seguidores de Jesus, reflexo das tensões vivenciadas por estes grupos após a destruição do Templo em 70 d.C.



Notas

[1] - Os supostos postulados em nossa análise tomam como base a tese da expressão "Filho do Homem" como um título escatológico correntemente conhecido e assim compreendido pelos leitores judeus do livro de Daniel, Henoc e IV Esdras no século I d.C. No campo acadêmico, esta concepção sofreu um abalo a partir da década de 60 quando diversos estudos passaram a trabalhar com o uso primitivo da expressão em aramaico "bar nash(a)" em detrimento da anterior focalização no grego "ho huios to anthrôpou". Geza Vermes foi um dos primeiros a contestar o paradigma anterior. A seu ver, tal expressão seria tão somente uma forma genérica e ambígua de substituir o sujeito "eu" por um "este homem" (falando de si mesmo) de tal forma a não enfatizar uma certa prepotência do discurso em primeira pessoa. Não somos filólogos e nem especialistas em aramaico. Neste sentido, devemos estar atentos ao "estado da arte" no qual se encontra a atual pesquisa sobre determinados termos para bem desenvolvermos nossas abordagens. Neste texto, o conceito "Filho do Homem" foi utilizado a partir de sua conotação escatológica como parte dos argumentos aqui desenvolvidos. Caso optássemos pela abordagem de Vermes, teríamos que reformular alguns pontos de nossa argumentação. A ausência do chamado "Livro das Parábolas" referente à literatura de Enoch nos manuscritos encontrados em Qumran foi também de extrema relevância para o repensar da questão escaológica sobre o "Filho do Homem". Sabidamente foi neste texto que encontramos esta apropriação do termo. Ou seja, a ausência de tal material no Enoch qumraniano de certa forma forneceria indícios de que este uso escatológico não era corrente até 70 d.C. Em certa medida, o uso por Jesus da expressão "Filho do Homem" em um debate haláquico no seu sentido escatológico seria estranha a um debate no qual se pressupõe uma certa igualdade entre atores competentes. A discussão (rabi Jesus X rabinos fariseus) seria assimetricamente alterada para (Messias escatológico Jesus X rabinos fariseus). Se o título escatológico fosse trocado por uma simples expressão cujo conteúdo significaria tão-somente "este homem" a simetria dos "lugares de fala" no discurso ficaria bem mais plausível. Por outro lado, se é possível argumentar que o Jesus histórico tenha usado "bar nash(a)" como recurso estilístico de certo recato em sua fala original, é também possível afirmar que os evangelistas já tencionassem usar tal terminologia em um sentido escatológico. Vermes (2006, p.275-6) em uma análise geral de todos os usos desta expressão no Novo Testamento, pontua especificamente a utilização no incidente das espigas como "uma referência ao falante (=Jesus), sem relação com o tema da fala. No entanto, o próprio Vermes reconhece que tal passagem específica foi interpretada por muitos especialistas a partir do viés escatológico. Para maiores informações, [Cf. VERMES, Geza. O estado atual do debate sobre o "Filho do Homem"  In: Jesus e o mundo do judaísmo. São Paulo: Edições Loyola, 1996, p.109-21], além do capítulo 7 de Vermes (2006). Sobre o conteúdo escatológico associado à expressão "Filho do Homem", recomendo o artigo de nosso colega Rodrigo Souza, intitulado: Juizo Final.

[2] - Neste texto argumentamos sobre a pertinência de uma maior proximidade entre as linhas doutrinárias da Beit Hillel e os ensinamentos de Jesus. De fato, verificamos esta maior convergência quando examinamos os ditos das duas escolas farisaicas. No entanto, nem sempre ela é automática e é também possível encontrar posições de Jesus que se alinham aos shammaítas. Uma similitude típica pode ser encontrada na questão do divórcio. Vermes (1996, p.92, referenciando mGittin 9,10) nos mostra a escola de Hillel alegando que até mesmo uma refeição estragada poderia ser razão suficiente para uma separação. Já para Shammai, o divórcio só poderia se realizar se o marido descobrisse que sua mulher não era casta. Em Mateus 19:3-9 encontramos uma posição bem semelhante por parte de Jesus aos ensinos shammaítas, afirmando que somente em caso de prostituição o divórcio seria permitido. A questão é interessante também porque novamente neste caso suspeitamos que os fariseus inquisidores desta perícope são os de Shammai. Eles assim questionam: "É lícito repudiar a própria mulher por qualquer motivo?". A questão poderia ser reformulada da seguinte forma "O divórcio é lícito por qualquer motivo, tal como dizem os de Hillel"? A correspondente versão marcana em Mc 10:1-12 nos mostra uma posição de Jesus ainda mais radical - em nenhum caso deve haver o divórcio: "Portanto o que Deus uniu o homem não separe". Neste relato, a rigidez haláquica de Jesus superaria tanto Hillel quanto Shammai. Neste sentido, uma simplista análise de que a doutrina de Jesus era tipicamente mais flexível e "liberal" do que a dos fariseus não deve ser levada a sério. Meyer (2006, p.251) coloca os termos da discussão não mais na hipótese de um alinhamento shammaítico por parte de Jesus, mas de um alinhamento de Jesus à comunidade de Qumran frente aos fariseus, dado que a yahad qunramniana proibia também o divórcio.Sustenta Meyer, no entanto, que tal posição não seria de consenso a partir de uma análise mais detalhada a partir dos manuscritos encontrados. Surge, com espanto, o famoso 4Q12a ii.4-7 no qual altera-se o texto de Malaquias 2:16 para um texto no qual se abre a possibilidade do divórcio. Não conheço um estudo completo no qual esta separação doutrinária de alinhamentos com as escolas farisaicas foi exaustivamente explorado. Caso não ainda exista, acredito que teríamos um excelente programa de pesquisa.

Um outro elemento que gostaria de destacar é o famoso capítulo 23 de Mateus no qual encontramos um feroz ataque aos fariseus por parte de Jesus. Em especial, nos interessa o versículo 15 no qual temos: "Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que o percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito, mas, quando conseguis conquistá-lo, nós o tornais duas vezes mais digno da geena do que vós!" Sabemos que os shammaitas eram extremamente nacionalistas e aversos ao contato com os gentios, tendo proibido o comércio e as relações sexuais entre os judeus e estes. Em tal situação de hostilidade, torna-se difícil pensar em um grupo que por definição se separava dos demais através das mais sutis observâncias ritualísticas atuando ao longo do mediterrâneo com caçadores de prosélitos. Tal missão só poderia ser entendida nas mãos de um grupo muito mais aberto, cordial e expansivo tal como os hillelitas. Quando Jesus ataca o proselitismo farisaico, acreditamos que este ataque se fazia em função da ação dos fariseus de Hillel. Sendo assim, não é possível advogar um pleno alinhamento do rabi nazareno aos ensinamentos e práticas desta escola. O quadro geral é bem complexo e boa pesquisa ainda deve ser feita para que possamos melhor compreender os posicionamentos mútuos.


Nota: Ao leitor que possa achar estranha esta ligação de Jesus com os fariseus, recomendamos o excelente artigo de nosso colega Nehemias Jr., intitulado: " Jesus e os Fariseus. Inimigos Mortais?! Você precisa rever os seus conceitos".



Referências Bibliográficas:


BÍBLIA DE JERUSALÉM [citações]
FLUSSER, David. Jesus. São Paulo: perspectiva, 2002.
JEWISH ENCYCLOPEDIA. Bet Hillel and Bet Shammai.
JOSEFO, Flávio. Antiguidades Judaicas.
ISAAC, Jules. Jesus e Israel. São Paulo: Perspectiva, 1986.
KLAUSNER, Joseph. Jesus de Nazareth: su vida, su época, su enseñanzas. Barcelona: Paidos, 1989.
MEYER, John P. O Jesus histórico e a lei histórica: alguns problemas dentro do problema. IN: CHEVITARESE, André Leonardo et all [org.] Jesus de Nazaré: uma outra história. São Paulo: Annablume; Fapesp, 2006, p. 229-62.
SCHIFFMAN, Lawrence H. The pharisees and their legal traditions according to the dead sea srolls. In Dead Sea Discoveries 8, 3. Bril, 2001.
SCHIFFMAN, Lawrence H. As origens saducéias da seita dos manuscritos do Mar Morto. IN: SHANKS, Hershel (org.) Para compreender os manuscritos do Mar Morto: uma coletânea de ensaios da Biblical Archaeology Review. Rio de Janeiro: Imago, 1993, p. 37-66.
STAMBAUGH, John E. O Novo Testamento em seu ambiente social. São Paulo: Paulus, 1996.
VERMES, Geza.  Jesus e o mundo do judaísmo. São Paulo: Edições Loyola, 1996.
VERMES, Geza. O autêntico evangelho de Jesus. Rio de Janeiro: Record, 2006.

sábado, 31 de agosto de 2013

Taq-e Bostan: Alto Relevo da investidura de Ardeshir II (379-383 DC),
Mitra (esquerda), Shapur II e Ahura Mazda (direita), sobre o corpo caido
 do Imperador Juliano. Via Wikipedia Commons, foto de Phillipe Chavin 
O deus persa Mitra e a religião de mistério  Mitraismo são citados frequentemente, e na internet principalmente, como inspiração para a vida de Cristo. Contudo, na grande maioria das vezes não são citadas as fontes dessas afirmações, e quando são, consistem em textos exóticos, teorias da conspiração ou muito antigas (século XVIII ou XIX). Mas, existe algum fundamento nessas afirmações?  Continuando nossa série: vamos tentar responder a pergunta: 
O deus mitra no Zoroatrismo e as origens do Mitraismo Romano




Um dos argumentos usados para dizer que os cristãos usaram Mitra como modelo da vida de Jesus, e de que ele é uma divindade antiga, adorada na antiga religião persa e no hinduismo muitos séculos antes do cristianismo.

Contudo, o que sabemos sobre o deus Mitra no Zoroatrismo, e no culto mitraista do Império Romano? Existiam diferenças entre um outro? Eram significativas? E quando são apontados paralelos, eles existem mesmo? E se existem se referem ao Mitraismo Romano ou ao Mitra zoroatrista/hindu? Ou ambos?

Para essa pergunta, temos duas formas de responder. Uma curta, e a outra longa. Em poucas palavras, podemos citar o Professor Manfred Clauss "Não podemos descrever o Mitras Romano em termos emprestados do Mitra Persa". As razões dadas por Clauss e vários outros estudiosos fazem parte da resposta longa, abaixo, para qual convido os leitores do adcummulus.

Professora Alison Griffith, da Universidade de Canterbury (Nova Zelândia), relata como os primeiros estudos das origens dos Místerios de Mitras insistiam na continuidade a partir da divindade Mitra do panteão zoroatrista. 
The precise relationship between the Roman cult of Mithras as it developed during the empire and the Mitra and Mithra of the Hindu and Zoroastrian pantheons, respectively, is unclear.The theory that Roman Mithraism had its roots in Zoroastrianism was first put forward by Franz Cumont, (...)publication Textes et monuments figurés relatifs aux mystères de Mithra in 1896 and 1899. Cumont compiled a catalogue of every known mithraic temple, monument, inscription, and literary passage relating to Mithras and claimed on the basis of his study of this body of evidence that Roman Mithras was, ultimately, Zoroastrian Mithra. (Tradução): A relação precisa entre o Culto romano a Mitras desenvolvido durante e o Império e  Mitra dos panteões Hindu e Zoroatrista, respectivamente, é incerta. A Teoria de que o Mitraismo Romano teve suas origens no zoroatrismo foi primeiramente apresentada por Franz Cumont (...) a publicação Textes et monuments figurés relatifs aux mysteres de Mithra em 1896 e 1899. Cumont compilou um catálogo de cada mitrario, monumento, inscrição e passagem literárias relativas a Mithras e argumentou com base em seu estudo que o Mitras Romano era, ao fim e ao cabo, o Mitra do zoroatrismo.[1]
No Zoroastrismo, Mitra é um dos Yazatas, ou seja, um dos seres divinos criados por Ahura Mazda, para auxilia-lo na luta contra os poderes das trevas, e, portanto, dignos de veneração e louvor. Como já descrito pelo Professor Richard Gordon, da Universidade de Erhfurt  a devoção a Mitra foi introduzido no mundo ocidental e mediterrâneo, na região da Anatólia (atual Turquia), durante a expansão do Império Persa Aquêmida, no século VI AC [2]. Com a derrota dos persas, e a efetiva destruição e conquista de seu Império por Alexandre Magno, a lembrança do deus persa se esvaiu, não tendo restado evidências de culto instituicionalizado ou de  grandes templos erigidos em sua honra durante o período helenístico, embora sua lembrança tenha sido mantida em âmbito privado, entre a diáspora iraniana [2]. Gordon observa, e veremos o porque adiante, que "(...) é improvável que algum dia haja evidência suficiente para preencher a lacuna entre o Mitra iraniano, conhecido basicamente através do Hino Avesta (Yast) in sua honra, composto entre 450-400 AC, e o culto romano a Mitras/Mitres Muitos tentaram - este é um dos pontos nevralgicos do estudo do Mitraismo - mas não nenhuma evidência genuina e incontestávelmente relevante"[2]

Uma das tentativas, e que foi a proposta dominante até cerca de 40 anos atrás, foi a tese do Professor Franz Cumont (1868-1947), que teve o mérito de prover uma explicação coerente para o desenvolvimento dos Mistérios de Mitra, que ele chamava "Mazdeismo Romano" baseado na evidência arqueológica disponível no início do século XX. Conforme sumário do Professor Roger Beck, da Universidade de Toronto em Mississauga (Canadá), em artigo na Encyclopaedia Iranica[3], Cumont propunha que
For Cumont, Mithraism in the West was Romanized Mazdaism, thus still at its core a Persian religion, though one which had undergone extensive metamorphoses in its passage first through Chaldaea, where it acquired its astrological overlay and the syncretic assimilation to Mithra of the Babylonian Sun god Šamaš; and secondly through Anatolia and the culture of the Magusaeans, the Hellenized Magi of the Iranian diaspora (on whom see Bidez and Cumont 1938, Beck 1991), where it acquired a Stoic cosmology of sorts, especially in its eschatology (on which see Cumont 1931, Beck 1995). (Tradução)   Para Cumont, o Mitraísmo no ocidente era mazdeismo romanizado, e assim em essêncialmente uma religião persa, ainda que tivesse passado por extensiva modificação, primeiramente, em suas passagem pela Caldéia, onde teria adquirido seu elemento astrológico e assimilado sincréticamente o deus solar babilônio Shamash, e em seguida na Anatólia e da cultura do Maguseanos, os Magos helenizados da diáspora iraniana ( arespeito dos quais consultar Bidez e Cumont 1938, Beck, 1991), onde adquiriu um tipo de cosmologia estóica, especialmente em sua escatologia (ver Cumont, 1931, Beck 1995).[3]              
 Mas como pesquisador minucioso e cuidadoso que era, Cumont reconhecia as vulnerabilidades de sua teoria, como relata a Professora Alisson Griffith

Cumont himself recognized possible flaws in his theory. The most obvious is that there is little evidence for a Zoroastrian cult of Mithra (Cumont 1956), and certainly none that suggests that Zoroastrian worship of Mithra used the liturgy or the well-devoloped iconography found in the Roman cult of Mithras. Moreover, few monuments from the Roman cult have been recovered from the very provinces which are thought to have inspired worship of Mithras (namely the provinces of Asia Minor). (...)Cumont's large scholarly corpus and his opinions dominated mithraic studies for decades. A series of conferences on Mithraism beginning in 1970 and an enormous quantity of scholarship by numerous individuals in the last quarter century has demonstrated that many of Cumont's theories were incorrect (see especially Hinnells 1975 and Beck 1984).
(Tradução) O próprio Cumont reconheceu possíveis inconsistências de sua teoria. A mais óbvia é que existe muito pouca evidência para um culto a Mitra no zoroatrismo (Cumont, 1956), e certamente nenhuma indicação de que adoração de Mitra no zoroatrismo utilizasse a bem desenvolvida iconografia encontrada no culto romano a Mitras. Além disso, poucos monumentos do Culto romano foram recuperados nas provincías que se acreditava terem inspirado a adoração a Mitras (principalmente as províncias da Asia Menor).  (...) O vasto trabalho acadêmico de Cumont e suas opiniões dominaram os estudos mitraisticos por décadas. Um série de conferências sobre o Mitraismo iniciadas na decada de 1970, e uma enorme quantidade de estudos acadêmicos de muitos pesquisadores no último quarto do século, demonstraram que muitos das teorias de Cumont estavam erradas.[4]
Assim, como observa Griffits, entre os problemas reconhecidos por Cumont estava o fato de que Mitra não tinha um culto desenvolvido em torno de si no Zoroatrismo, e o elemento icionográfico, fortíssimo dos mistérios romanos de Mitras, não tinha paralelo na religião persa. Pesava ainda, o fato de que a evidência arqueológica mais ampla e antiga dos mistérios de Mitra concentrava-se nas fronteiras do Reno e Danúbio, bem como na cidade de Roma, e não na Asia Menor, e províncias do leste, vizinhas a fronteira com o Império Parto.

A tese de Cumont sobre o desenvolvimento dos Mistérios de Mitras foi exposta, principalmente, em seu livro Les Mystères de Mithra (1900), a qual os leitores do adcummulus podem encontrar em sua versão inglesa, The Mysteries of Mithras. O livro descreve também os principais paralelos com o cristianismo [5], segundo Cumont: batismo, eucaristia, guarda do domingo, valorização da ética e pureza moral, a existência do céu, inferno, juizo final e ressureição dos mortos no último dia. Ou seja, não há na construção Cumontiana, praticamente, paralelos com a Vida de Cristo, mas sim com o ritual e elementos doutrinários da Igreja. Ainda,  Cumont, não arriscou um julgamento em termos de "quem copiou quem" e considerava plausível que "muitas correspondências entre a doutrina mitráica e a fé católica são explicáveis por sua origem oriental comum"[5]. (Alías, podemos comentar aqui, que uma vez que as religiões são também fenômenos sociais, interagindo com os anseios e tensões vividos por seus adeptos, apresentem semelhanças quando se desenvolvem em contextos históricos semelhantes. Não só  nas suas origens orientais, judaismo e zoroatrismo, como também no seu desenvolvimento no mundo mediterrâneo).

Na FAQ, do Electronic Journal of Mithraic Studies (EJMS), Professor Richard Gordon, que é membro do Board Editorial daquele jornal, comenta   as origens do mistérios de Mitras, como incialmente proposta por Franz Cumont,
(...) Cumont's book is thus more than a century old. In the meantime, there have been many very important archaeological finds, some of which you will perhaps have learned about from Vermaseren's book of 1960. It would be a good idea to look at Manfred Clauss' book, which is well-illustrated and provides a much more up-to-date idea of modern work. But even from reading Cumont, it must be clear to you that the main problem with the cult of Mithras is that we know hardly anything about it. There are virtually no ancient sources to tell us what the archaeology - of which there is almost too much, scattered about over the entire Roman world -- might mean. As for Cumont, the difficulty is twofold: not merely did he write his “Conclusions” before 70% of the now known archaeology was discovered, but his solution to the problem posed by the lack of written evidence.(...) (Tradução) (...) O livro de Cumont tem mais de um século. Nesse meio tempo, muitas descobertas arqueológicas significativas foram feitas, algumas das quais você pode verificar no livro de Vermaseren de 1960. Seria uma boa idéia conferir o trabalho de Manfred Clauss, que é muito bem ilustrado e apresenta uma perspectiva atualizada dos estudos atuais. Mas mesmo lendo Cumont,deve ficar claro para você que o maior problema com o Culto a Mitras é que nós não sabemos quase nada sobre ele. Praticamente não há fonte antiga para nos contar o que a arqueologia - que nós temos muito, espalhada por todo o mundo romano - pode significar. E para Cumont a dificuldade é dupla, pois não apenas ele escreveu suas conclusões antes que 70 % do material arqueológico atual tivesse sido descoberto, mas a solução que ele propôs carecia de evidência textual. (...). [6]

O Professor David Ulansey, da Universidade da California em Berkeley e do California Institute of Integral Studies,  apresenta alguns dos pontos que levaram ao gradual abandono da síntese Cumontiana, notadamente na associação entre o zoroatrismo e os Mistérios de Mitras, a partir de 1970.
"However, from the beginning there were obvious problems with Cumont's interpretation. The Western mistery cult of Mithraism as it appeared in the Roman Empire derived its very identity from a number of characteristcs which were completely absent from the Iranian worship of Mithra: a series of initiations into ever higher levels of the cult accompanied by strict secrecy about the cult's doctines; the distinctive cavelike temples in which the cult's devotees met; and, most important, the iconography of the cult, in particular tauroctony. None of these essential characteristics of Western Mithraism were to be found in the Iranian Worship of Mithra. Cumont therefore attempted to explain these characteristics as transformations which the "Iranian" religion underwent during its supposed passage from Persia to the Roman Empire. Thus, to take what is perharps the most important example, there is no evidence that the Iranian god Mithra ever had anything to do with killing a bull. (Tradução) No entanto, desde o início havia obvios problemas com a interpretação de Cumont. A religião de mistério Mitraista, que existiu no período romano no ocidente, deriva sua própria identidade de uma série de carcterísticas completamente ausentes da adoração iraniana a Mitra: uma série de iniciações a níveis mais altos do culto acompanhadas de estrito segredo sobre suas doutrinas; os peculiares templos em forma de caverna onde os devotos se reuniam; e, mais importante, a iconografia do culto, em particular a tauroctonia. Nenhuma dessas características essenciais do Mitraismo ocidental foram encontradas na adoração iraniana a Mitra. Cumont havia tentado explicar estas características como transformações que a religião iraniana sofreu em sua suposta passagem da Pérsia para o Império Romano. Assim, tomando o que talvez seja o mais importante exemplo. Não há evidência alguma de que o deus iraniano Mitra tivesse tido em algum momento matado um Touro. [7]
Mosaico no Mitrário de Felicissimo, Ostia, Itália, Seculo II DC,
imagem via Wikipedia.
Não obstante, Ulansey observa Cumont até encontrou um mito persa em que o Touro Celeste era morto [7]. No  entanto, tal feito era realizado por Arimã (ou Angra Mainyu), o chefe dos poderes malignos na religião zoroatrista. Ademais, o mito nos é conhecido a partir de uma versão do século IX, já no período islâmico, contida em textos que recontam o mito zoroatrista de fundação do mundo [7]. Os estudiosos acreditam que esse mito incorpora tradições muito antigas, mas sua identificação e datação é incerta [7]. Ulansey observa:

"Cumont did manage to locate an Iranian myth in which a bull is killed. However, in the myth which Cumont chose the bull is killed not by the expected Mithra but rather by Ahriman, the power of cosmic evil, Thus Cumont was forced to hypothesize the existence of a variant on this myth - a variant for which there was no Iranian evidence - in which the bull slayer had become Mithra rather than Ahriman. The myth which Cumont used is found in the Bundahishn ("Original Cretion"), a Zoroastrian text of the ninth century C.E. incorporating earlier traditions, im which the story is told of the creation of an archjetypal man and a bull by Ahura Mazda, the supreme god of goodness. According to the story, the forces of evil, led by Ahriman, attacked these creatures nad killed them. From their bodies there then sprang forth the different forms of life which inhabit the earth. (...) Despite the problems with this Iranian hypothesis, Cumont's vison of the nature of Mithraism remained virtually unchallenged for a full seventy years. But the flaws in Cumont theory could not go unnoticed forever, and things reached a head in 1971 at the First International Congress of Mithraic Studies, held at Manchester University" (Tradução) Na verdade, Cumont conseguiu localizar um mito iraniano em que um touro é morto. No entanto, no mito que Cumont selecionou o touro não é morto por Mitra, como seria esperado, mas por Arimã, o poder cósmico do mal. Assim Cumont foi forçado a postular a existência de uma variante deste mito - uma variante para a qual não havia evidência iraniana - em que o matador do touro seria Mitra, em vez de Arimã. O mito utilizado por Cumont é encontrado no Bundahishn ("Criação Original"), um texto zoroastriano do século IX DC incorporando tradições anteriores, em que é contada a história da criação de um homem arquétipo e um touro por Ahura Mazda, o deus supremo de bondade. Segundo a história, as forças do mal, lideradas por Arimã, atacaram estas criaturas e as mataram. De seus corpos então brotaram as diferentes formas de vida que habitam a Terra. (...) Apesar dos problemas com esta hipótese iraniana, a visão Cumontiana da natureza do mitraísmo permaneceu praticamente sem contestação por cerca de 70 anos. Mas as falhas na teoria Cumont não poderiam passar despercebidas para sempre, chegando ao limite em 1971 no Primeiro Congresso Internacional de Estudos Mitraisticos, realizado na Universidade de Manchester [7]

A partir do colapso  da sintese Cumontiana nos estudos mitraísticos, foram propostas várias teorias para explicar o desenvolvimento dos mistérios, algumas tentando manter parte do legado de Cumont, outras rompendo abertamente com sua tese. O Professor Roger Beck faz uma avaliação das questões em discussão e do estado das concepções acadêmicas:
That Roman Mithras was a Persian god in more than just the perception and self-definition of his Roman initiates is indisputable. To say that he was “the same” god, or that he “came from” Iran is equally true, though it begs as many questions as it appears to answer. Did he emigrate together with his cult? Was institutionalized Mithra-worship transmitted from East to West? Likewise the Mithra myth(s) and the concepts of the god, his powers, and his functions? Was he “the same” god in that strong sense? Or was he re-invented in the West, perhaps by those with some knowledge of the East, as a new god for new mysteries in a new type of cult association appropriate to the different social and cultural environment of the Roman Empire? Was he “the same” merely in the weaker sense that he was re-outfitted with Iranian trappings sufficient to authenticate him as “Persian” in his new context? . (TraduçãoQue Mitras Romano era um deus persa em um sentido mais abrangente do que  a percepção e auto-definição de sua iniciados é indiscutível. Dizer que ele era "o mesmo" deus, ou que ele "veio do" Irã é igualmente verdadeiro, embora isso levante tantas perguntas do que parece responder. Será que ele emigrou, juntamente com o seu culto? Um culto mitraista institucionalizado teria sido transmitido do oriente para o ocidente? E, semelhantementem o mito de Mitra, seus conceitos, poderes e funções? Ele era "o mesmo" deus em um sentido forte? Ou ele foi re-inventado no Ocidente, talvez por indíviduos com algum conhecimento do Oriente, como um novo deus para novos mistérios em um tipo novo de associação/culto apropriado para o ambiente social e cultural diferenciado do Império Romano? Ou será ele era "o mesmo" apenas no sentido mais fraco que ele foi remodelado com atributos iranianos suficientes para autentica-lo como "persa" em seu novo contexto? [8]
A forma como os estudiosos tem avaliado as evidências e respondido a cada uma  dessas perguntas, define seu posicionamento frente ao surgimento dos Mistérios de Mitras, admitindo um amplo espectro de possibilidades entre os extremos de total reinvenção e total continuidade.  
Beck continua:
 Two statements at least may be made with some confidence about the century-long scholarly controversy over these questions: first, that at the beginning of the third millennium there is still no consensus; secondly, that in the last three decades the balance of opinion has shifted, rightly or wrongly, in favor of re-invention over continuity. (Tradução) Pelo menos duas afirmações podem ser feitas com alguma confiança sobre a secular controvérsia acadêmica sobre as questões seguintes: em primeiro lugar, que, no início do terceiro milênio, ainda não há consenso, em segundo lugar, que, nas últimas três décadas, o balanço de opinião tem se deslocado, correta ou incorretamente, em favor da re-invenção em detrimento a continuidade.[8]
Arqueiro a Cavalo Parto, no Palazzo Madama (Turim), foto de
Jean Chadrin, via Wikipedia.
Desta forma, começando  do Primeiro Congresso Internacional de Estudos Mitraísticos de 1971, em Manchester (Inglaterra) houve uma profunda mudança da visão acadêmica da origem dos Mistérios de Mitras. Embora não haja um consenso ainda, a tendência crescente é o entendimento de que o desenvolvimento do culto ocorreu no ocidente romano (e não no vizinho Império Parto, atual Irã)  e que há poucas semelhanças com o seu correspondente persa. Assim,  Roger Beck distingue duas posturas básicas entre os estudiosos vinculados a tendência dominante. Uma parte destes estudiosos acredita que a partir de uma figura divina da religião zoroatrista foi criada uma religião totalmente nova, sem qualquer correspondência com o culto original. Outros também crêem que o culto se originou no ocidente mas vêem algumas semelhanças com a forma persa. 
 Of the latter position there is a strong and a weak form. The strong form, having noted the undeniable similarities, then describes the cult, its origins, and its early development entirely in terms of the socio-religious culture(s) of the Roman empire. A typical proponent of this strong form is M. Clauss (2000: pp. 3-8, 21-2), who locates the cult’s origins and point of departure firmly in late first-century CE Rome (...) Discontinuity’s weaker form of argument postulates re-invention among and for the denizens of the Roman empire (or certain sections thereof), but re-invention by a person or persons of some familiarity with Iranian religion in a form current on its western margins in the first century CE. Merkelbach (1984: pp. 75-7), expanding on a suggestion of M.P. Nilsson, proposes such a founder from eastern Anatolia, working in court circles in Rome. So does Beck 1998, with special focus on the dynasty of Commagene (see above). Jakobs 1999 proposes a similar scenario. (TraduçãoNessa segunda corrente,  há uma forma forte e outra fraca. A forma forte, tendo notado as semelhanças inegáveis​​, em seguida, descreve o culto, as suas origens e seu desenvolvimento precoce inteiramente em termos da cultura(s) sócio-religiosa do império romano. Um proponente típico desta forma forte é M. Clauss (2000, pp 3-8, 21-2), que situa as origens do culto e ponto de partida firmemente na Roma final do primério século da era cristã   (...) descontinuidade é forma mais fraca do argumento, e postula re-invenção entre e para os habitantes do Império Romano (ou em certas regiões dele), ressalvando que essa re-invenção teria sido por uma pessoa ou pessoas de alguma familiaridade com a religião iraniana corrente em suas fronteiras ocidentais, no primeiro século DC . Merkelbach (1984, pp 75-7), ampliando uma tese de MP Nilsson, situa os fundadores no leste da Anatólia, trabalhando em círculos imperiais romanos. O mesmo acontece com Beck 1998, com especial enfoque na dinastia de Comagene (veja acima). Jakobs 1999 propõe um cenário semelhante [8]
Professor Richard Gordon pondera também sobre o colapso da síntese Cumontiana, e das tendências atuais dos estudiosos do campo, e de forma ainda mais contundente que Beck, constata a completa mudança de posição dos estudiosos, hoje em sua maioria convencidos que o culto mitraísta era iraniano apenas em um sentido muito fraco, talvez apenas pseudo-iraniano.
(...) the final judgement and the resurrection of the dead are tenets ofZoroastrianism - it is perfectly possible that they derive from Judaism, but no one knows for sure: it is usually considered that the Jews got these ideas from the Iranians after the captivity in Babylonia At any rate, sine he believed the entire cult to be a thinly-disguised from of Zorastrianism, Cumont thought they must also have been present in the Roman cult Since the 1970s, Cumont’s entire construction has come under heavy fire. One can say that there is no one now working on Mithraism who believes in it. This change of heart was largely due to articles published in the proceedings of the first Mithraic conference in Manchester in 1971: Mithraic Studies, ed. J.R. Hinnells (Manchester, 1975). (...) We may say that at the most scholars now believe that the cult of Mithras was Iranian only in a weak sense; indeed, many people think it wasn't Iranian at all, but simply pseudo-Iranian, and that the cult was created in Italy. I think that goes too far;
(Tradução) (...) O julgamento final e ressurreição dos mortos são crenças do zoroatrismo - é perfeitamente possível que elas sejam derivadas do judaísmo, mas ninguém sabe ao certo, geralmente se considera  que os judeus absorveram essa idéias dos iranianos após o cativeiro babilônico. Em todo o caso, já que ele acreditava que o culto era uma forma de zoroatrismo disfarçada, Cumont pensava que tais crenças forçosamente estavam presentes no culto romano. Desde os anos de 1970, porém, toda o edificio teórico de Cumont tem sofrido pesados ataques. Pode-se dizer que ninguém hoje que trabalhe com o Mitraismo acredita mais nele. Esta mudança de disposição foi em grande parte devido aos artigos publicados nos anais da Primeira Conferência de Mitraismo em Manchester em 1971: Mithraic Studies, ed. J.R. Hinnells (Manchester, 1975). Nos podemos dizer que, atualmente, a maioria dos estudiosos acredita que o Culto a Mitras era apenas levemente iraniano; de fato, muita gente pensa que não era Iraniano de forma alguma, mas pseudo-iraniano, e que o culto foi criado na Itália. Eu até acho que isso é um pouco extremo;[9

"A Queda de Faeton", Peter Paul Rubens, 1604, National
Gallery of Art, Washington (DC), via Wikipedia Commons.
Gordon forneçe um exemplo de como a evidência textual e arqueológica do culto romano de Mitras em relação ao julgamento final e ressureição foi interpretada por Cumont em conjunto com os escritos sagrados do zoroatrismo, em conjunto  apontando para uma famosa passagem polêmica em que Tertuliano de Cartago, abre fogo contra os seguidores de Mitras, levando a uma conclusão de continuidade,  e como tal avaliação foi revista posteriormente.
Cumont himself was aware that the Roman Mithraic evidence for the resurrection of the body and the judgement at the end of the world was very thin, so he was delighted when the excavation of the mithraeum at Dieburg in 1926 produced a very unusual Mithraic relief (CIMRM 1247) with a scene of Phaethon receiving his father's Sun-chariot. In view of the well-known result of this voyage, Cumont argued in an article published in 1931 that the scene was intended as an illustration of the Frasegird, the final conflagration of the world in Zoroastrianism. But the story of Phaethon was understood in many less adventurous ways in the Roman period, which he did not attempt to explore. The only other evidence for the idea of resurrection occurs in a sentence of the Church Father Tertullian, De praescriptione haereticorum 40 (written AD 203), where he says '(Diabolus) celebrat et panis oblationem et imaginem resurrectionis inducit et sub gladio redimit coronam': (The Devil) celebrates the ritual offering of bread, performs a semblance of resurrection, redeems a crown under threat of death. Although the last phrase may indeed relate to the cult of Mithras, there is no reason to think the others do: the passage as a whole simply lists a variety of ways in which Tertullian seeks (absurdly) to explain the numerous similarities between pagan and Christian rituals by saying the Devil has deliberately imitated Christian rituals. At any rate,this passage is the SOLE evidence Cumont could find for Mithraic belief in resurrection - why of the body, is anyone's guess. We can see clearly that he needed to reinforce his belief that Roman Mithraism was really a form of Zoroastrianism, and thus ended up by arguing in a complete circle. (TraduçãoO próprio Cumont estava ciente de que  a evidência no Mitraismo Romano na crença da ressurreição do corpo e do julgamento no fim do dias, era tênue, então ele ficou encantado quando a escavação do mitrário de Dieburg em 1926 produziu um relevo muito incomum (CIMRM 1247) com uma cena de Faeton recebendo a carruagem solar de seu pai. Tendo em vista o resultado bem conhecido desta viagem, Cumont argumentou em um artigo publicado em 1931 que a cena foi concebida como uma ilustração da Frasegird, a conflagração final do mundo no Zoroastrismo. Mas a história de Faeton foi entendido de maneiras muito menos aventureiras no período romano, que ele não tentou explorar. A única outra evidência para a idéia de ressurreição ocorre em uma frase do Padre da Igreja, Tertuliano, De Praescriptione haereticorum 40 (escrito AD 203), em que ele diz "(Diabolus) cele et panis et oblationem Imaginem Resurrectionis inducit et sub gladio redimit coronam ': (o Diabo) celebra a oferta do pão, realizando um simulacro da ressurreição, resgatando uma coroa sob ameaça de morte. Embora a última frase pode de fato se relacionar com o culto de Mitra, não há nenhuma razão para pensar que as outros o fazem: a passagem como um todo simplesmente lista uma variedade de maneiras em que Tertuliano procura (absurdamente) explicar as numerosas semelhanças entre rituais pagãos e cristãos  dizendo que o diabo tinha deliberadamente imitado rituais cristãos. De qualquer forma, esta passagem é a única evidência Cumont pode encontrar para uma crença mitraíca na ressurreição - por que do corpo, é uma incógnita. Podemos ver claramente que ele precisava para reforçar sua convicção de que o mitraísmo romano era realmente uma forma de zoroastrismo, e, assim, acabou em uma argumentação completamente círcular. [9]
 A questão da vida após a morte entre os adeptos dos Mistérios de Mitras foi discutida de forma mais detalhada aqui no adcummulus no post anterior dessa série (ver nota de rodapé 14, e seção "Iconográfia, Inscrições e Expectativas dos seguidores de Mitra"). Como observa o Professor Richard Gordon acima, a evidência de que os adeptos dos Mistérios de Mitras esperassem do deus persa auxílio quando deixassem esse mundo  é escassa. A quase totalidade das inscrições votivas é por agradecimento por bençãos concedidas nessa vida. Contudo, uma vez que essas crenças existiam no zoroatrismo,   dentre algumas (poucas) passagens nos pais da igreja, havia uma menção de Tertuliano (Da Prescrição dos Hereges, 40),  bem  como o relevo, num contexto do culto de Mitras, de Faeton e carruagem do sol [10] descoberto em Dieburgo (Alemanha) em 1926, houve a tentativa de Cumont e outros estudiosos de postular a existência de uma crença dessa natureza entre os seguidores  do deus persa no período romano. O problema é que se os anos se passaram após a descoberta de 1926, e não foram descobertas novas evidências arqueológicas e textuais que corroborassem a proposta Cumontiana. Somado ao fato da desconstrução da tese básica de continuidade entre o Zoroatrismo e os Misterios de Mitras no periodo romano, formou-se uma situação de circularidade. So faz sentido assumir que os mitraistas romanos acreditam em ressureição porque se assume a continuidade com o Zoroatrismo, mas a continuidade com o Zoroatrismo é justamente o ponto que esta sendo questionado.        
É claro que os testemunhos de autores antigos devem também ser considerados, e poderiam esclarecer esses fatos. Mas confiar em autores como Tertuliano pode não ser a melhor escolha. Como observa o Professor Gordon, a passagem é ambigua quanto a sua vinculação a crença na ressureição final. Tertuliano, a partir da ceia entre Mitras e o Sol, encenada pelos adeptos do culto passa a interpretar o ritual como tendo implicações semelhantes a Eucaristia, bem como do milagre da água, em que Mitras acerta uma rocha com uma pedra, e dela sai água, em relação ao batismo. Esses dois rituais, como mostrado aqui no adcummulus no post anterior (ver seção "paralelos, existe algum"), são os dois principais paralelos entre  o Mitraismo e o Cristianismo.  No entanto, os Mistérios de Mitras, como o próprio nome indica, implica que só os iniciados, e apenas de forma gradual, tinham conhecimento das doutrinas, ensinos e significado dos ritos, sendo improvável que não adeptos como Tertuliano tivessem um conhecimento correto dos mistérios.
Outro motivo pelo qual os pais da igreja devem ser lidos com cautela quanto a eventuais similaridades, é sua postura agressiva quanto  a suposta "Imitação Diabólica". Uma vez que    pregavam que Jesus Cristo era o cumprimento das Escrituras Judaicas, e a Igreja o Novo Israel, eventuais semelhanças com outros cultos e religiões de mistério eram explicadas como uma cópia diabólica das profecias judaicas, para afastar as pessoas do conhecimento de Cristo!!! Embora isso possa nos parecer absurdo, para os polemistas e apologistas cristãos a vantagem era dupla i) O cristianismo era uma religião ilegal e perseguida, uma superstição nova e depravada, enquanto que os cultos pagãos eram frequentemente sancionados pelas autoridades, se havia semelhanças isso mostrava que o cristianismo não era tão perigoso assim ii)  O Judaísmo, embora visto com restrição pelos romanos, era reconhecido como uma religião antiga e venerável. O Historiador e Politico Romano Cornélio Tácito, ao descrever a origem dos judeus (adotando um tom agressivo e deselegante), liga as origens dos judeus aos tempos do "Reinado de Isis", ou quando Saturno foi destítuido por Júpiter (Zeus), e afirma que a religião dos judeus se sustenta por sua antiguidade (Histórias V: 2-5). Estrabo também descreve as origens antigas da religião judaíca (Geografia, Livro XVI.ii.34-46), então, para os antigos, argumentar que o cristianismo era, simplesmente, o cumprimento das profecias do judaísmo, era um bom argumento para mostrar que a nova fé não era uma superstição nova, mas estava ligada a uma religião antiga e veneranda.  Então, por esses motivos, há uma tendência dos pais da igreja de exagerar os paralelos. Obviamente, isso não deve nos fazer descartar totalmente a existência de paralelos e mesmo eventuais influências, mas considerar eventuais argumentos com cuidado.
Já houve, inclusive, defesas acadêmicas de influências do judaismo sobre o Mitraismo. Como já propôs o Professor J.H.Wolf G. Liebeschuetz, da Universidade de Nottingham:
 "It was, of course, a commonplace of Christian apologetics that whenever pagan authors expounded doctrines that bore a resemblance to Christian teaching, the pagans (e.g. Plato) had learned them from the ancient "prophecies" of Moses  (Justin Ap. 59). But in the case of Mithraism Justin cites evidence (Dial Tryph 70). According to him words closely resembling Isaiah XXXIII 13-19 were used in Mithraic ritual. Justin cites the whole passage , presumably because all of it is close to what was said in a Mithraic service. But the precise moral teaching of the passage is not what one expect to find in Graeco Roman ritual. It suggest that the author of Mithraic ritual was aware of biblical religion, and that the resemblance between Christianity and Mithraism are not coincidental. Jewish-Christian elements have probably contributed to Mithraism.  (Tradução)  Naturalmente, era um lugar-comum da apologética cristã que sempre que  autores pagãos expunham doutrinas que tinham semelhança com os ensinamentos cristãos, os pagãos (por exemplo, Platão) tinham aprendido dos antigos "profecias" de Moisés (Justino Ap. 59). Mas, no caso do mitraísmo Justina cita evidências (Dialogo com Trifo 70). Segundo ele palavras muito semelhantes a Isaías XXXIII 13-19 eram usados ​​em ritual mitraico. Justino cita a passagem inteira, provavelmente porque parecia com o que era dito nos rituais mitraicos. Mas o ensinamento moral precisa da passagem não é o que se esperaria encontrar em ritual greco romano. Isso sugere que o autor do ritual mitraico conhecia a religião bíblica, e que a semelhança entre o cristianismo eo mitraísmo não seria coincidência. Elementos judaico-cristãos, provavelmente, contribuíram para o mitraísmo[11]
Retornando a questão da descontinuidade entre mitraismo romano e zoroatrismo, como poderíamos entende-la? Como o culto de uma divindade persa poderia se diferenciar tanto no Império Romano , até o ponto de estudiosos, como visto acima, chegarem a afirmar que o culto era pseudo-iraniano e se originou na Itália. O Professor Jona Lendering, da Livius Onderwijs, faz uma analogia com o desenvolmento do cristianismo, e suas várias correntes, em relação ao judaísmo. O cristianismo proto-católico, proto-ortodoxo, manteve o Antigo Testamento, seus ensinos e heróis, bem como a crença de Jesus de Nazaré representou o cumprimento das expectativas messiânicas, além de doutrinas como imortalidade, julgamento final, ressureição dos mortos, dentre outras. No entanto, outros grupos cristãos tinham idéias bastante distintas, propondo o rompimento quase completo com a herança judaica, e tais idéias, como o Marcionismo, foram extremamente populares, e poderiam ter sido vitoriosas. Como observa Lendering:   

It often happens that elements from one civilization cross over to another, and it would certainly have been possible for an Iranian god to join the Roman pantheon. But how much that was Iranian was he allowed to take with him? Compare it to Christianity, which is essentially a type of Judaism accepted by Greeks and Romans. Some converts believed that only a couple of ideas were really useful; men like Marcion of Sinope thought that the Old Testament books could be done away with, and that the Jewish context was best forgotten. Other Christian authors, like Irenaeus, stressed the need to keep in touch with the original foundations. The Roman cult of Mithras seems to have originated with a Marcion-like prophet, who took a couple of lose elements and abandoned the rest of Iranian Mithraism. (Tradução) Acontece frequentemente que os elementos de uma civilização são assimilados por outra, e certamente teria sido possível para um deus iraniano se juntar ao panteão romano. Mas quanto de seu caráter iraniano lhe seria autorizado conservar? Comparemos com o cristianismo, que é essencialmente um tipo de judaísmo aceita por gregos e romanos. Alguns convertidos acreditavam que apenas algumas poucas ideias eram realmente úteis; homens como Marcião de Sinope pensavam que os livros do Antigo Testamento poderiam ser descartados, e que o contexto judaico deveria ser esquecido. Outros autores cristãos, como Irineu, ressaltaram a necessidade de se manter a ligação com as bases originais. O culto de Mitra romano parece ter tido como fundador um profeta que agiu de forma semelhante a Marcião conservando alguns poucos elementos, e abandonando o resto do mitraísmo iraniano. [12]
Mas antes de descartar a possibilidade de continuidade entre o Mitraismo Romano e a devoção de Mitra no religião persa zoroatrista Richard Gordon o supostos paralelos com crenças como ressureição dos mortos e julgamento final, professadas pelos cristãos, a luz dos trabalhos acadêmicos mais recentes.
(...) but, thanks primarily to the work of Shaul Shaked, Dualism in Transformation: Varieties of Religion in Sasanian Iran (London, 1994), we do now know that there was no such thing as Zoroastrianism in a sense reasonably familiar to us until the Sasanid reforms of the religion in the third century AD; even for the Sasanid form of the religion it is difficult to find reliable evidence, because of the extent of the censorship and pruning imposed by the priests who created the Pahlavi sacred books of Zoaroastriansim in the ninth century AD after the Muslim conquest of Iran.But I do think there are some features of the Roman cult of Mithras his association with light, might and fertility, for example, and the moral stringency, which have old-Iranian origins- at any rate, they are all found in the Avestan Hymn to Mithra, composed in the second half of the fifth century BC But this is not the same as saying that the Roman cult of Mithras was Iranian in a strong sense, let alone that it contained numerous Zoroastrian features. And unless one starts from that hypothesis, there is no good reason to suppose that the Roman cult believed either in the resurrection of the dead, or in a final judgement at the end of the world. (Tradução) mas, graças principalmente ao trabalho de Shaul Shaked, Dualism in Transformation: Varieties of Religion in Sasanian Iran (Londres, 1994)Nós sabemos agora que não existia um zoroatrismo razoavelmente familiar a nós até as reformas Sassanidas da religião no século III DC e mesmo para a forma Sassanida da religião é difícil encontral evidências confiáveis, devido a extensão da censura e mutilação impostas aos sacerdotes que criaram os livros sagrados Pahlavi do zoroatrismo no século IX DC após a conquista muçulmana do Irã. Eu até acredito que há algumas semelhanças com o culto romano a Mitras: sua associação com a luz, força e fertilidade, por exemplo, seu rigor moral, todas associadas a origens iranianas antigas - e que ademais, são encontradas no Hino Avesta dedicado a Mitra, da segunda metade do século V AC.  Mas isso não é o mesmo que dizer que o culto romano a Mitras era fortemente iraniano ou tivesse muitas características zoroatristas. E a menos que se começe com essa premissa não há nenhuma boa razão para supor que o culto romano crêsse tanto em ressureição dos mortos quanto em juizo final nos fins dos tempos.[13]

 Como observa o Professor Gordon, além da incerteza quanto a se o culto romano a Mitras envolvia a crença na ressuereição dos mortos e Juízo Final, é incerto até mesmo de que forma essas doutrinas existiam no Zoroatrismo durante o período arsacida ou parto (247 AC a 224 DC) da história do Irã, uma vez que os Avesta, livros sagrados daquela religião foram compilados durante as reformas da religião iniciadas em meados do século III - coincidente com a deposição do Rei arsacida Artabano V por Ardashir, fundador do  Império Sassânida (224-651 DC) - embora contenha tradições orais muito mais antigas, parte do periodo Aquêmenida (550-330 AC), e algumas, provavelmente, que remontam ao próprio Zoroastro

A acusação de “plágio” cristão não se sustenta. O mitraismo surgiu no Império Romano, no I século DC, mais ou menos na mesma época que o cristianismo, e a maioria dos especialistas vê pouco ou quase nada do zoroatrismo em suas crenças. Além disso, o Zoroatrismo sofreu profundas transformações ao longo de sua história, e reconstituir suas crenças a partir do Avesta e dos textos Pahlavi, que embora contenham tradições orais muito antigas, foram compilado séculos depois de Cristo. Adicionalmente, não há evidência sólida de ressurreição dos mortos, julgamento final, ou fim do mundo no mitraismo e, mais ainda, que o cristianismo copiou essas idéias.

Todos os mitrários encontrados no Império Romano são datados após o séc. I DC, não temos nenhum escrito mitraista, e as fontes externas começam em Plutarco, em cerca de 80 DC, No Oriente não romano existia um Mitra, mas, até onde se sabe, ele não tinha seu próprio culto, e hoje boa parte dos estudiosos, senão a maioria, acredita que o mitraismo romano tem muito pouco do Irã, se não apenas um "cheirinho" de Irã e da antiga tradição zoroatrista? Donde vem tanta confiança em relação ao conhecimento do que era o Mitraismo, no séc I, para dizer o que o cristianismo plagiou?

Concluimos essa parte citando Manfred Clauss, Professor Emérito da Universidade Goethe de Frankfurt (Alemanha),  que de forma categórica comenta:

It Should be emphasised that the purpose of this summary account is not to suggest that such ideas were taken over directly into the Roman mystery-cult. On the contrary, no direct continuity, either of a general king or in specific details, can be demonstrated between the Perso-Hellesnistic worship of Mitra and Roman mysteries of Mithras. The oft-repeated attempts to trace a seamless history of  Mithras from the second millenium BC to the fourth century AD simply tell us something quite general about the relative stability, or, as it may be, flexibility. We cannot account for Roman Mithras in terms borrowed from Persian Mitra. (Tradução) Deve ser enfatizado que o propósito desse relato sumário não é sugerir que essas idéias foram utilizadas diretamente no Mitraismo Romano. Pelo contrário, nenhuma continuidade, seja geral ou especifica pode ser demosntrada entre a adoração persa-helenistica de Mitra com os Misterios Romanos de Mitras. As frequentes tentativas de traçar uma história contínua de Mitras do II milênio AC ao IV século DC apenas nos revelam em termos bem gerais a relativa estabilidade, ou melhor dizendo, flexibilidade, das idéias religiosas. Não podemos descrever o Mitras Romano em termos emprestados do Mitra Persa". [14]

E conclui
There is another reason too for thinking that it makes little sense to treat the mysteries of Mithras as but one stage in a longer evolution. The mysteries cannot be shown to have developed from Persian religious ideas nor does it make sense to interpret them as a fore-runner of Christianity. Both views neglect the sheer creativity that gave rise to the mystery-cult, Mithraism was an independt creation with its own unique value within a given historical, specifically roman, context.  (Tradução) Há uma outra razão para concluir que faz pouco sentido tratar os Mistérios de Mitras como mais um estágio de uma longa evolução. Não se conseguiu demonstrar que os Misterios de Mitras se desenvolveram a partir de idéias religiosas persas, como também não faz sentido interpreta-lo como predecessor do cristianismo. Em ambos os casos se ignora a criatividade que deu origem a religião de mistério. Mitraismo foi uma criação independente cujo valor reside numa dada situação histórica, e especifica romana.[14]

CONTINUA

Referências Bibliográficas
[1] Alison Griffith (1996) Mithraism, Exploring Ancient World Cultures: Essays on Ancient Rome,  http://eawc.evansville.edu/essays/mithraism.htm  acessado em 20.08.2013
[2]    Richard Gordon (2007) Institutionalized Religions Options: Mithraism In Jorg Rüpke (2007) Companion to Roman Religion, fls. 394-395, Wiley Blackwell. Citado no primeiro post desta série http://adcummulus.blogspot.com.br/2012/07/mitra-mitras-mitraismo-jesus-e-o.html
[3]  Roger Beck (2002) Mithraism, Encyclopaedia Iranica, edição online, artigo de 20.07.2002, disponivel em http://www.iranicaonline.org/articles/mithraism , acessado em 22.08.2013
[4] Alison Griffith (1996) Mithraism, Exploring Ancient World Cultures: Essays on Ancient Rome, http://eawc.evansville.edu/essays/mithraism.htm acessado em 20.08.2013
[5] Franz Cumont (1903)  The Mysteries of Mithra, fl. 191-194;  (Cap. Mithraism and the Religions of Empire, http://www.sacred-texts.com/cla/mom/mom09.htm), acessado em 27.08.2013 
[6] Richard Gordon (2005?) Frequently Asked Questions (FAQ) - Electronic Jounal of Mithraic Studies (EJMS),  http://www.hums.canterbury.ac.nz/clas/ejms/faq.htm, seção Resurrection of the Dead. Final Judgement,
[7] David Ulansey (1991), The Origins of the Mithraic Mysteries: Cosmology and Salvation in the, fl. 8-9, Oxford University Press
[8] Roger Beck (2002) Mithraism, Encyclopaedia Iranica, edição online, artigo de 20.07.2002, disponivel em http://www.iranicaonline.org/articles/mithraism , acessado em 22.08.2013
[9] Richard Gordon (2005?) Frequently Asked Questions (FAQ) - Electronic Jounal of Mithraic Studies, http://www.hums.canterbury.ac.nz/clas/ejms/faq.htm , seção Resurrection of the Dead. Final Judgement.
[10] Faeton, filho de Apolo, pediu ao seu pai insistentemente para conduzir a carruagem do Sol. Ao conseguir seu desejo, não tinha a força e habilidade necessária para controlar os cavalos, e acabou  tumultuando e incendiando os céus. Para evitar que o Universo fosse destruído, Zeus o derrubou com um raio, e caindo na Terra, Faeton morreu. 

[11] Richard Gordon (2005?) Frequently Asked Questions (FAQ) - Electronic Jounal of Mithraic Studies, http://www.hums.canterbury.ac.nz/clas/ejms/faq.htm , seção Resurrection of the Dead. Final Judgement.
[12] JHWG Liebeschuetz (1994) The expansion of Mithraism among the religious cults of the second century republicado em JHWG Liebeschuetz (2006) Decline and Change in Late Antiquity: Religion, Barbarians and their Historiography, fl. 453 (fl. 197).
[13] Jona Lendering (2009)   http://rambambashi.wordpress.com/2009/11/26/mithra-and-mithras/, Mithra and Mithras acessado em 27.08.2013
[14] Manfred Clauss (2001) The Roman Cult of Mithras: The God and his Mysteries,

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