Estudos sobre Religião - Biblioblog

domingo, 13 de junho de 2021

Débora e Baraque, Século XIII, Saltério
de São Luiz
, via wikicommons
 Continuando, após dois anos e meio, nossa série sobre a arqueologia bíblica. Agora, utilizaremos não só exemplos do livro de I e II Reis, mas também Juízes e I e II Samuel.

Como abordamos anteriormente, a utilização do Antigo Testamento como fonte histórica gera uma divisão entre arqueólogos, historiadores e biblistas no campos minimalista e maximalista. Entre aqueles que entendem que a narrativa dos livros históricos da Bíblia deve ser considerada como factual até que expressamente contradita pela evidência literária ou arqueológica contemporânea, e aqueles que defendem que o texto bíblico somente deve ser utilizado quando "provado" por evidências externas.

Na prática, porém, tais visões demarcam os extremos, estando a grande maioria dos pesquisadores entre esses polos. O período a ser considerado também é extremamente relevante, uma vez que há atestação muito maior para os reinados de Omri ou Ezequias do que, por exemplo, o tempo de Isaque e Jacó.


Professor Michael Coogan, de Harvard, ilustra como a evidência diferenciada entre os vários períodos descritos na história bíblica orienta a percepção dos estudiosos:

"The evidence, then, is fragmentary, but when all of it is considered - texts from the ancient Near East, the Bible, and archeological data - it does, generally, fit together. An analogy is a large jigsaw puzzle that is missing many of its pieces - but enough of them fit so that the reconstruion is probable, if not certain. This applies to chronology, and thus to persons or events, throughout the first millennium, that is, from the time of the dividion of the United Monarchy of Israel in the late tenth century to the time of the Maccabees in the second century BCE. With some diffidence we may push this back slightly, to David and Solomon, the second and third kings of Israel in the tenth century, but probably not before (tradução) As evidências, então, são fragmentárias, mas quando todas são consideradas - textos do antigo Oriente Próximo, a Bíblia e dados arqueológicos - geralmente se encaixam. Uma analogia é um grande quebra-cabeça do qual faltam muitas de suas peças - mas cabem em número suficiente para que a reconstrução seja provável, senão certa. Isso se aplica à cronologia e, portanto, a pessoas ou eventos, ao longo do primeiro milênio, isto é, desde a época da divisão da Monarquia Unida de Israel no final do século X até a época dos Macabeus no segundo século AEC. Com alguma hesitação, podemos recuar um pouco, para Davi e Salomão, o segundo e o terceiro reis de Israel no século dez, mas provavelmente não antes[1] 

Assim, a postura minimalista ou maximalista, para a grande maioria dos estudiosos, é uma abordagem metodológica que leva em conta as particularidades de cada período. De Gênesis até, digamos, I Samuel (ou Juízes) e do tempo de II Samuel em diante. O posicionamento dessa "fronteira" é objeto também de intensa discussão. Eric H. Cline, Professor da Universidade George Washington, é outro a demarcar a "fronteira" em termos de atestação externa de figuras e eventos bíblicos, considerando as descobertas arqueológicas relativas aos cananeus, sírios, hititas, egípcios e povos da Mesopotâmia, mas que indica também um território não tão bem demarcado, entre, digamos, o século XIII AC (data tradicional do Êxodo) e o início do século X AC (divisão dos reinos de Israel e Judá).

"such discoveries have shed relatively little light on the actual stories found in the Hebrew Bible - particularly those in Genesis ans Exodus. As a result, many of the earlier stories of the Hebrew Bible, especially those from Creation to the Exodus, have not been corroborated by archeologists and remain a matter of faith. On the other hand, events from a slightly later period, i.e., during the era of the Divided Kingdoms in the first millenium BCE after the empire of David and Solomon broke assunder, benefit from extrabiblical inscriptions, records, and other data that can be used to corroborate biblical details. (tradução) tais descobertas lançaram relativamente pouca luz sobre as histórias encontradas na Bíblia Hebraica - particularmente aquelas em Gênesis e Êxodo. Como resultado, muitas das histórias anteriores da Bíblia Hebraica, especialmente aquelas da Criação ao Êxodo, não foram corroboradas por arqueólogos e permanecem uma questão de fé. Por outro lado, os eventos de um período ligeiramente posterior, ou seja, durante a era dos Reinos Divididos no primeiro milênio antes da era cristã, depois que o império de Davi e Salomão rachou subitamente, se beneficiam de inscrições extra-bíblicas, registros e outros dados que podem ser usados para corroborar detalhes bíblicos.[2]

Vamos esse período de "fronteira", abordando algumas evidências arqueológicas desse período entre os século XIII e X AC, período antecedente ao Livro de Reis, descrito nos livros de Josué, Juízes e I e II Samuel.

 1) A Estela de Merneptah, 1208 AC

Estela de Merneptah, Museu do Cairo, via wikicommons 
Os israelitas viviam entre os cananeus, os hititas, os amorreus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus. Tomaram as filhas deles em casamento e deram suas filhas aos filhos deles, e prestaram culto aos deuses deles. (Juízes 3:5-6);

O Faraó Merneptah (1213-1203 AC) empreendeu uma campanha militar na Palestina no 5° ano do seu reinado (c. 1208 AC). Os egípcios tinham importantes interesses no território, recolhendo tributos dos reis cananeus e utilizando como "tampão" frente a expansão do Reino de Mittani, e posteriormente, do Império Hitita.

Para celebrar suas vitórias, Merneptah comissionou uma inscrição, descoberta em 1896, em Tebas, por Sir Flinders Petrie. Hoje a estela de Merneptah, se encontra no Museu Egípcio, no Cairo. 

Os principes se prostraram, dizendo, "Paz!"
Ninguém levanta a cabeça entre os nove arcos.
Agora, os Tehenu (Libia) foram arruinados,
Hatti foi pacificada;
Canaã foi despojada de toda a maldade:
Ascalon foi conquistada;
Gezer foi capturada;
Yenoam já não existe.
Israel foi destruído e sua descendência já não existe;
A Siria tornou-se uma viúva para o Egito.

A menção a Israel por Merneptah é a primeira em fontes egípcias e extrabíblicas. Professor Mario Liverani, da Universidade de Roma La Sapienza, comenta sua significância:

"(...) Uma estela de Merneptah celebra o triunfo do faráo numa campanha dele através da Palestina, citando entre os inimigos vencidos cidades como Ascalon e Gezer, países como Canãa e Kharu, acompanhando esses nomes com o determinativos de "região"; mas entre eles há um nome com o determinativo de "gente" (portanto, um gupo tribal, não sedentário) e é Israel. É a primeira menção em absoluto do nome, que, provavelmente deva ser posto na zona dos altiplanos centrais. Na verdade, a sequência das três localidades Ascalon-Gezer´-Yeno'am está como enquadrada entre os dois termos (mais amplos) Canaã e Israel; e se Canaã se situa por certo no início da sequência, na planície costeira do sul, Israel se situa por certo também nos altiplanos centrais. [3]

O fato de Israel ser citada é significante por ser uma menção que atesta a existência de um grupo tribal que vagava na Palestina, principalmente nas regiões montanhosas centrais, sem uma associação definida as cidade estado cananeias, e sem constituir ainda um estado organizado, o que é consistente com o contexto geral descrito no livro de Juízes. No entanto, a estela faz menção a um conflito que não é mencionado na Bíblia. Da mesma forma, o domínio dos egípcios sobre Canaã não é uma memória existente nos livros de Josué e Juízes, ainda que a presença dos israelitas, como um dos causadores de problemas para os egípcios não tenha passado desapercebida. 

Liverani descreve a natureza da dominação egípcia:

Por cerca de três séculos (1460 - 1170 AC) a Palestina foi submetida ao domínio direto dos Egípcios (...) o controle egípcio era em grande parte indireto e os "pequenos reis" locais conservaram sua autonomia (mas não a independência) como "servos" e tributários do Faraó. O quadro fornecido pelas cartas de El-Amarna (1370-1350 AC) mostra que somente três centros siro-palestinos eram sede de governadores egípcios: Gaza na costa meridional, Kumidi na Beq'a Libanesa e Sumura na costa setentrional, junto a atual fronteira siro-libanesa. Havia guarnições egípcias também em algumas outras localidades: Jafá (perto da hodierna Tel Aviv) Bet-She'an (na passagem entre a planície de Yizre'el e o vale do Jordão), Ulaza (na abertura para o mar da via proveniente do vale do Orontes). Calculando as pequenas guarniçoes permanentes e a tropa que (como veremos) efetuava o giro anual de cobrança, pode-se calcular que o Egito do período armaniano empregasse na gestão e no controle de seu "império" siro-palestino não mais que setecentas pessoas  [4]

 

Dessa forma, para um habitante comum de Canaã do século XIII AC, a presença militar egípcia passaria praticamente desapercebida, fora da base de Bete Seã. Não era, portanto, um cenário de ocupação, mas de suserania, onde os reis das cidade-estado cananeias prestavam fidelidade ao Faraó, pagavam tributo, e davam satisfações (como indicam as cartas de Amarna), mantendo porém um grau elevado de autonomia para tratar dos assuntos do dia a dia. Era um esquema que permitirá aos egípcios manterem seus interesses por quase 300 anos, recebendo tributo, e com manutenção de força militar e administrativa mínima.

Deve ser observado ainda, que o discurso triunfalista de Merneptah esconde o enfraquecimento do domínio egípcio, que estava utilizando seus recursos para enfrentar os vários inimigos descritos na Estela, simultaneamente, sejam cananeus, povos do mar (Filisteus), israelitas ou líbios. Assim, a despeito de seu discurso triunfante, a estela captura um momento em que a hegemonia egípcia era questionada, súbita e intensamente, em varias frentes.  

Professor Kenneth Kitchen, egiptologista da Universidade de Liverpool, contextualiza os vários inimigos mencionados na Estela de Merneptah, e seu papel na queda da hegemonia egípcia sobre Canaã:

Then new factors came in circa 1230 onward, clearly attested in first-hand Egyptian texts. Rebuffed by Egypt (ca 1177), the Sea People ended up in Canaan - the Pilisti or Philistines in the southwest, and Sikils and Shekelesh farther north (Dor, Jezreel). In Transjordan, new names appeared: Edom and Moab, plus the Ammonites (as yet unmentioned in contemporary texts). Arameans now become more prominent from the north. And, as Merneptah made clear in 1209, a group called Israel was present in Canaan, most likely in the hill country. All these peoples were to have a long and varied history for the next six or seven centuries (...) we have an outline, basic correspondence of the two sources, Egyptian and Biblical. (tradução) Então, novos fatores surgiram por volta de 1230 em diante, claramente atestados em textos egípcios contemporâneos. Repelidos pelo Egito (cerca de 1177), o Povo do Mar acabou em Canaã - os Filisti ou Filisteus no sudoeste, e Sikils e Shekelesh mais ao norte (Dor, Jezreel). Na Transjordânia, novos nomes apareceram: Edom e Moabe, mais os amonitas (ainda não mencionados em textos contemporâneos). Os arameus agora se tornam mais proeminentes no norte. E, como Merneptah deixou claro em 1209, um grupo chamado Israel estava presente em Canaã, provavelmente na região montanhosa. Todos esses povos estão para posicionados para uma longa e variada história pelos seis ou sete séculos seguintes (...) temos assim um esboço, correspondência básica das duas fontes, egípcia e bíblica.[4]

 Os egípcios devem também ter ficado alarmados, assim, com o aparecimento súbito desses vários atores no cenário canaanita. No que tange aos israelitas, surgem, em número considerável, vilas e povoados, nas montanhas da Palestina na segunda metade do século XIII AC, com vertiginoso crescimento ao longo da Idade de Ferro I (1200 a 1000 AC)

Professor Israel Finkelstein, da Universidade de Tel Aviv, elaborou um levantamento arqueológico nas terras altas centrais da Palestina (correspondente ao antigo Efraim, e depois Samária) entre 1250 e 1000 AC com os seguintes resultados:

"A queda das cidades-Estado do Bronze Tardio e o colapso do governo egípcio em Canaã resultou em dois processos distintos. Nas terras altas, uma onda de assentamentos que pode ter se iniciado tão cedo quanto no final do século XIII AC, e acelerado nos séculos XII e XI AC (Finkelstein, 1988). O número de sítios cresceu dramaticamente, de cerca de 30 sítios com uma área total construída de aproximadamente 50 hectares no Bronze Tardio II (século XIII AC) para algo como 250 sítios com uma área construída de aproximadamente 220 hectares dois séculos e meio depois, no Ferro Tardio I (o início do século XII AC). Isso significa que a população sedentarizada aumentou ao menos quatro vezes seu tamanho. (...) A maioria desses assentamentos continuou ininterrupta até o Ferro IIA-B - o tempo do Reino do Norte - e disso eles podem ser rotulados "israelitas" tão certo quanto o Ferro I. Em outras palavras, essa onda de assentamentos fez nascer o Israel Primitivo (Finkelstein, 1988, Faust, 2006) [5]

Kenneth Kitchen, complementa os dados da pesquisa de Finkelstein, já referenciada acima, com o levantamento de  Adam Zertal (1936-2015), na região imediatamente ao norte, correspondente as áreas montanhosas da tribo de Manassés:

Surface surveys have been undertaken in some depth in central Canaan, notably by the Filkenstein team in the terrain of ancient Ephraim/Samaria, and by Zertal and colleagues in the adjoining territory of ancient West Manasseh. (...)  Next door in West Manasseh, Zertal note some 39 sites for Late Bronze but over 200 for Iron I, again a huge increase. This great rash of farmsteads, hamlets, and small villages represents a wholly new development, as universally admited (tradução)  Os levantamentos da superfície foram realizados em alguma profundidade no centro de Canaã, notavelmente pela equipe Filkenstein no terreno da antiga Efraim / Samaria, e por Zertal e colegas no território adjacente da antiga Manassés Ocidental. (...). No vizinho Manassés Ocidental, Zertal observa cerca de 39 sítios no Bronze Tardio, e mais de 200 na Idade de Ferro I, novamente um grande aumento. Esta grande onda de fazendas, aldeias e pequenas aldeias representa um desenvolvimento totalmente novo, como é universalmente admitido [6]

Por fim Amihai Mazar, Professor da Universidade Hebraica, apresenta uma visão mais ampla, considerando toda Palestina, no que tange a localização desses novos assentamentos:

"Intensivos levantamentos arqueológicos de superfície revelaram um padrão de assentamento inteiramente  novo na Idade do Ferro I. Centenas de pequenos sítios novos estavam habitados nas áreas montanhosas da Alta e Baixa Galileia, nas colinas de Samaria e Efraim, em Benjamim, no Negueb setentrional e em partes da Transjordânia central e setentrional. Boa parte pode ser relacionada a tribos israelitas, muito embora a atribuição étnica em algumas dessas regiões seja questionável.[7] 

 A explosão de assentamentos com um novo padrão de ocupação, "israelita", ou "protoisraelita", a partir do final do século XIII AC, marca assim um crescimento populacional impressionante, indicando, como observa Kitchen, um número muito maior de habitantes que o existente no Bronze Tardio II (1400-1200 AC). Citando Filkenstein, a população de Canaã, como um todo, mais que duplicou entre 1150 AC e 1000 AC (início do reinado de Saul), passando de 21.000 para 51.000 pessoas, e quadruplicou ou quintuplicou no intervalo maior de 1250 e 1000 AC [8]. No entanto, considerando apenas as terras altas do centro do país, o aumento de população pode ter sido de 5 vezes nos primeiros 100 anos desse período [8]. 

Resta porém a questão, de onde veio tanta gente?

Mario Liverani descreve as várias teorias existentes:

"Influenciados - positiva ou negativamente - pela narrativa bíblica, os estudiosos modernos (arqueólogos não menos que biblistas) propuseram teorias unívocas, com forte polêmica reciproca, sobre a explicação da etnogenia de Israel (...) bastará lembrar aqui as principais teorias que se sucederam e se confrontaram. (1) A teoria da conquista "militar" compacta e destrutiva, de direta inspiração bíblica, é ainda afirmada em alguns ambientes tradicionalistas (especialmente norte-americanos e israelitas), mas é agora deixada a margem do debate. (2) Prevalece hoje a ideia de uma ocupação progressiva, nas duas variantes (mais complementares do que exclusivas entre sí) de sedentarização de grupos pastoris já presentes na área e da infiltração do adjacente pré-deserto (3) Enfim, a teoria (chamada "sociológica") da revolta camponesa, que privilegia totalmente o processo por linhas internas sem contribuições externas, depois dos consensos dos anos 1970-1980, é atualmente malvista, por motivos às vezes declaradamente políticos. Ainda hoje as várias propostas são normalmente contrapostas, quando deveriam ser todas utilizadas para compor um quadro multifatorial próprio de um fenômeno histórico complexo. [9].

 Como evidenciado acima, os últimos 50 anos marcaram uma perda de força da teoria da conquista, outrora dominante entre os estudiosos, bem como a dificuldade de estabelecimento de um novo consenso. De qualquer forma, deve ser questionado até que ponto a própria narrativa bíblica propõe uma conquista avassaladora, irresistível e inexorável dos israelitas, ou um misto de confronto e convivência entre os israelitas e os vários grupos que habitavam Canaã, ao longo de várias gerações, até o surgimento da monarquia. 

O livro de Juízes faz menção a várias batalhas, mas também afirma sem rodeios não só que "os israelitas viviam entre os caananitas", e "tomaram as filhas deles em casamento e deram suas filhas aos filhos deles", bem como "prestaram culto aos deuses deles". Esses elementos indicam a possibilidade de um grupo estrangeiro tenha se fixado na região montanhosa central de Canaã e se associado a população local, e após várias gerações, assumiu uma consciência étnica e nacional. Como observa Avraham Faust, da Universidade Bar Ilan, a posição dominante entre os estudiosos é que pelo menos uma parte dos habitantes desses novos assentamentos eram provenientes das regiões transjordânicas e do deserto e, provavelmente, de uma forma ou outra, do Egito, indicando pelo menos uma núcleo de memória nas narrativas do Exodo [10]. 

Assim, a concepção de que houve uma confluência entre um fluxo populacional de origem estrangeira e outro autóctone, com conquista e coexistência é uma possibilidade a ser explorada. A vertente de convivência e posterior associação do elemento "proto-israelita" e cananeu, pode ser exemplificada pela cidade estado de Siquém, cuja evolução é descrita por Liverani:

"Diferente é o caso de Siquém, que a tradição apresenta sob o signo da progressiva assimilação - como confirmado arqueologicamente pelo continuísmo que marca a passagem da florescente cidade do século XIV (estrato XIII), à mais modesta do século XIII (estrato XII) - ao assentamento "proto-israelita" do Ferro I (extrato XI). [11]

A  vertente de confronto é exemplificada por Hazor, na próxima parte do post

2) Destruição de Hazor

 

Carta de Amarna, do Rei Abdi-Tirzi, de Hazor
para o Faráó Amenotep (ou seu filho, Akenaten)
Sec. XIV AC, Museu Britânico, via wikicommons
Quando Jabim, rei de Hazor, soube disso, enviou mensagem a Jobabe, rei de Madom, aos reis de Sinrom e Acsafe, e aos reis do norte que viviam nas montanhas, na Arabá ao sul de Quinerete, na Sefelá e em Nafote-Dor, a oeste; aos cananeus a leste e a oeste; aos amorreus, aos hititas, aos ferezeus e aos jebuseus das montanhas; e aos heveus do sopé do Hermom, na região de Mispá. Saíram com todas as suas tropas, um exército imenso, tão numeroso como a areia da praia, além de um grande número de cavalos e carros. Todos esses reis se uniram e acamparam junto às águas de Merom, para lutar contra Israel. E o Senhor disse a Josué: "Não tenha medo deles, porque amanhã a esta hora entregarei todos mortos a Israel. A você cabe cortar os tendões dos cavalos deles e queimar os seus carros". Josué e todo o seu exército os surpreenderam junto às águas de Merom e os atacaram, e o Senhor os entregou nas mãos de Israel, que os derrotou e os perseguiu até Sidom, a grande, até Misrefote-Maim e até o vale de Mispá, a leste. (...) Na mesma ocasião Josué voltou, conquistou Hazor e matou o seu rei à espada. ( Hazor tinha sido a capital de todos esses reinos. ).Matou à espada todos os que nela estavam. Exterminou-os totalmente, sem poupar nada que respirasse, e incendiou Hazor. (Josué 11:1-11)

 


 Como descrevemos acima, a teoria da conquista não é mais o modelo dominante para explicar a emergência do antigo Israel em Canaã. Várias teorias alternativas foram propostas, mas nenhuma obteve o mesmo grau de dominância que esta teve, ou chegou próximo de estabelecer um consenso. Os motivos são apontados pelo Professor Eric Cline:

Many of the sites mentioned in the biblical account and specifically noted as being destroyed by the invading Israelites have now been excavated by biblical archeologists, with an interesting conundrum resulting. On the one hand, most of the sites described as being destroyed do not show any archeological evidence of destruction - and some, such as Jericho, were not even occupied at the time. On the other hand, there are sites in the region that were definitely destroyed at that time, but none of these sites is mentioned in the biblical account. One of the few places named in the Bible as being destroyed by the Israelites and at which a destruction has been found by archaelogists is the site of Hazor (traduçãoMuitos dos locais mencionados no relato bíblico e especificamente indicados como destruídos pelos invasores israelitas foram agora escavados por arqueólogos bíblicos, resultando em um enigma interessante. Por outro lado, a maioria dos locais descritos como destruídos não apresentam nenhuma evidência arqueológica de destruição - e alguns, como Jericó, nem estavam ocupados na época. Por outro lado, existem locais na região que foram definitivamente destruídos naquela época, mas nenhum desses locais é mencionado no relato bíblico. Um dos poucos lugares mencionados na Bíblia como tendo sido destruído pelos israelitas e no qual evidências de destruição foi encontrada por arqueólogos é Hazor. [12].

No livro de Josué, a conquista militar de Canaã se inicia com a travessia do Jordão, a completa destruição de Jericó e Ai, e o estabelecimento de uma aliança com a cidade-estado de Gibeão. Josué, então, inicia uma campanha contra a liga de cidades sulistas, lideradas pelo Rei de Jerusalém. Após a vitória no sul, Josué enfrenta uma coalização das cidades-estado do norte, lideradas por Jabim, Rei de Hazor. A coalização é derrotada, e Hazor completamente destruída. A "terra teve descanso da guerra" (Js 12:23) e houve a divisão entre as tribos. 

Juízes, começa com várias tribos conduzindo esforços isolados de ocupação. No capítulo 1, a tribo de Judá, por exemplo, consegue várias vitórias, mas a resultante de seus esforços foi que "(...)ocuparam a serra central, mas não conseguiram expulsar os habitantes dos vales, pois estes possuíam carros de guerra feitos de ferro.("(v. 19). As tribos centrais, Manassés e Efraim, também não teriam conseguido prevalecer contra importantes centros como Dor, Megido, e Gezer, "pois os cananeus estavam decididos a permanecer naquela terra."(v. 27), bem como a tribo de Benjamim não conseguiu tomar  Jerusalém dos Jebuseus. No norte, as tribos de Aser, Zebulom e Naftali, viviam "entre os cananeus que habitavam naquela terra.(v. 32)". A relação conflituosa, mas também cooperativa entre os israelitas e os demais habitantes de Canaã é indicada pelo fato de que  "os israelitas viviam entre os cananeus, os hititas, os amorreus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus. Tomaram as filhas deles em casamento e deram suas filhas aos filhos deles, e prestaram culto aos deuses deles"(Jz 3:5). O livro descreve a resistência organizada por vários juízes contra incursões de midianitas, amonitas, arameus, amalequitas, filisteus, bem como a grande vitória de Débora e Baraque contra uma nova coalização nortista liderada por Hazor.

 Hazor era uma das mais importantes e poderosas cidade-estado na palestina, pedra angular do sistema de suserania egípcio na região, e principal praça do norte de Canaã [13][14][15].

Israel Finkelstein comenta a destruição de Hazor, que parece ter precedido a queda de outras cidades cananeias em algumas décadas, e suas implicações:

Hazor, provavelmente a cidade-Estado mais importante do Norte, foi destruída num violento incêndio, provavelmente na segunda metade do século XIII a.C (Yadin, 1972; Kitchen, 2002; Ben-Tor, 2008). Outras cidades-Estado, incluindo aquelas situadas no vale de Jezrael, assim como um centro egípcio em Betsã, continuaram ininterruptamente por quase um século. O sistema de cidades-Estados canaanitas sob dominação egípcia nos vales do Norte chegou ao fim numa série de destruições no final do século XII a.C. [13].

Esses efeitos da destruição de Hazor, e os prováveis culpados, são discutidos por Amihai Mazar:

Hasor é descrita no livro de Josué como a maior das cidades cananéias "Hasor era outrora a capital de todos esses reinos" (Josué 11,10). Depois da batalha junto às águas do Meron, Hasor foi nivelada: "Todavia, todas as cidades que estavam erigidas sobre suas colinas de ruínas, Israel não as incendiou, salvo Hasor, que Josué incendiou" (Josué 11,13). Vimos que Hasor foi de fato a maior cidade cananéia durante toda a duração das idades do Bronze Médio e Recente. A última cidade cananéia lá (Estrato XIII), que era bastante pobre em comparação com as suas predecessoras, foi destruída em algum momento durante o século treze a.C, provavelmente cerca de meio século antes da aniquilação de Laquis. Os escavadores assumiram que o fim de Hasor cananéia deve ser atribuido aos israelitas. [14]

Uma descrição dessa Hazor do estrato XIII, que corresponderia ao período entre 1400 a 1200 AC foi apresentada por Kenneth Kitchen

In the second millenium Hazor consisted of an upper citadel (on a high mound) which dominated a large "lower city" on its north side - a vast site, certanly then "head of all [Canaan's] kingdoms". Both areas were destroyed  along with a massive conflagration in the thirteenth century, probably towards its end (citadel, stratum XIII; lower city, stratum Ia). Insofar as the results of Yadin's work are confirmed by the new excavations under Ben-Tor, then it will seem very probable (as it did to Yadin, long ago) that the massive destruction of greater Hazor was that wrought by Joshua. (tradução) No segundo milênio, Hazor consistia em uma cidadela superior (em um monte alto) que dominava uma grande "cidade baixa" em seu lado norte - um vasto local, certamente então "cabeça de todos os reinos [de Canaã]". Ambas as áreas foram destruídas juntamente com uma grande conflagração no século XIII, provavelmente no final (cidadela, estrato XIII; cidade baixa, estrato Ia). Na medida em que os resultados do trabalho de Yadin são confirmados pelas novas escavações sob Ben-Tor, então parece muito provável (como para Yadin, há muito tempo) que a destruição massiva da grande Hazor foi feita por Josué [15].

 A existência de uma memória histórica do confronto entre os (proto) israelitas e a entidade política de Hazor é reforçada pela menção em Josué e Juízes do Rei (Yabin), em confronto com Josué e seu filho de mesmo nome contra Débora e Baraque. (O Jabin de Josué é identificado como Rei de Hazor. O Jabin de Débora e Baraque, como Rei de Canaã). Nos arquivos da cidade de Mari, na Mesopotâmia, há referencias do século XVIII AC ao comércio entre Hazor e Mari. Há uma menção a um certo Rei Ibni, que é o exato correspondente ao hebraico Yabin (Jabin), nome do Rei de Hazor em Josué e depois em Juízes. Professor William Dever, da Universidade do Arizona, escreve:

It would appear that the authors of this passage in the Hebrew Bible, however late, had some knowledge of an Ibni (that is, a Yabin) dinasty in Hazor, stretching all the way back to the middle Bronze Age centuries earlier. To me, this suggest strongly that the writers of the book of Joshua did not entirely "invent" the story of the fall of Hazor. They had reliable historical sources, oral and/or written. They also knew correctly that Hazor had indeed been the "head of all these kingdoms" or city-states in the north, as the current excavations have made abundantly clear (tradução) Parece que os autores desta passagem na Bíblia Hebraica, embora tardia, tinham algum conhecimento de uma dinastia Ibni (isto é, um Yabin) em Hazor, remontando à Idade do Bronze, séculos antes. Para mim, isso sugere fortemente que os escritores do livro de Josué não "inventaram" inteiramente a história da queda de Hazor. Eles tinham fontes históricas confiáveis, orais e / ou escritas. Eles também sabiam corretamente que Hazor tinha de fato sido  "chefe de todos esses reinos" ou cidades-estado no norte, como as escavações atuais deixaram bem claro [16]

Liverani, por sua vez, também aponta os israelitas (ou proto israelitas) como os responsáveis pela destruição, mas associa ao período de Debora e Baraque (Juizes 4), alguma décadas depois. Aponta o cântico de Debora, considerado entre os estudiosos como uma das partes mais antigas da Bíblia (provavelmente anterior em vários séculos a redação final de Juízes), para indicar a coalização de seis tribos, nortistas e centrais, contra a coalização cananeia. 

"O conflito historicamente mais plausível é, porém, o segundo, a batalha em Taa'nak, perto de Megido, que vê as milícias tribais da Galiléia (Zabulon, Issacar e Neftali) e centrais (Makir/Manassés, Efraim, e Benjamim) guiadas por Baraq e cercadas por Débora descerem de suas montanhas para enfrentar os temidíssimos carros de guerra das cidades cananéias, sob a hegemonia de Yabin, Rei de Hasor, e guiadas pelo general Sisera. O "cantico de Débora", por todos considerado um dos textos mais antigos da Bíblica, constituiu o núcleo sobre o qual depois de construiu o texto narrativo que o engloba. [17]

 

Em suma, a evidência até aqui indica que por volta de 1200 AC, havia o conhecimento em fontes egípcias de um grupo étnico (não ainda organizado em cidades estado ou reinos) que habitava Canaã, provavelmente em sua região montanhosa. A evidência arqueológica indica "explosão" de assentamentos "israelitas" nesse período, e que esse grupo provavelmente esteve associado a destruição da grande cidade de Hazor, pedra angular do sistema das cidades estado do norte, e possivelmente toda  Canaã (tendo sido, provavelmente, um dos motivos pelo qual a dominação egípcia se enfraqueceu no longo prazo, e ter levado Merneptah em tentar restabelece-la), e que o quadro geral apresentado por Juízes, do antigo Israel coexistindo e interagindo com os vários povos que habitavam a Palestina, reflete provavelmente uma memória histórica.

A emergência (e decadência) de Siló.

Eli e Samuel no Tabernaculo, 1780
por John Singleton Copley, via wikicommons
 Toda a comunidade dos israelitas reuniu-se em Siló e ali armou a Tenda do Encontro. A terra foi dominada por eles; Josué 18:1

Samuel, contudo, ainda menino, ministrava perante o Senhor, vestindo uma túnica de linho. Todos os anos sua mãe fazia uma pequena túnica e a levava para ele, quando subia a Siló com o marido para oferecer o sacrifício anual. (...) Todo o Israel, de Dã até Berseba, reconhecia que Samuel estava confirmado como profeta do Senhor. O Senhor continuou aparecendo em Siló, onde havia se revelado a Samuel por meio de sua palavra. I Samuel 1 2:18,19 e 3:20,21.

Sabendo-o Deus, enfureceu-se e rejeitou totalmente a Israel;
abandonou o tabernáculo de Siló, a tenda onde habitava entre os homens. Salmos 78:59,60

"Portanto, vão agora a Siló, o meu lugar de adoração, onde primeiro fiz uma habitação em honra do meu nome, e vejam o que eu lhe fiz por causa da impiedade de Israel, meu povo. Jeremias 7:12

Como indicado nos textos bíblicos acima, os livros de Josué, Juízes e I Samuel apontam Siló como o mais importante centro religioso dos antigos israelitas, onde estava o Tabernáculo e a Arca da Aliança. Na falta de uma estrutura política central, o santuário servia como a "capital" informal das tribos. Ainda segundo o texto bíblico, os israelitas foram derrotados pelos filisteus na 1ª batalha de Ebenézer, a arca da aliança foi capturada pelo inimigo, o sacerdote Eli morreu com a notícia, e a "a glória se foi de Israel". Porque a arca foi tomada (1 Samuel 4:22). A narrativa progride com Samuel liderando a revanche israelita na 2ª batalha de Ebenézer, mas os filisteus já haviam devolvido a Arca, que estava em Quiriate Jearim. Vinte anos depois, Davi traz a arca para Jerusalém (II Samuel 6), e com a construção do Templo, ela foi acomodada no "Santo dos Santos". Jeroboão, ao promover a revolta das 10 tribos e fundar o reino de Israel do Norte, mesmo tendo sido ungido por Aias, o Silonita, decidiu construir santuários rivais ao Templo de Jerusalém nas cidades de Betel e Dã (colocando em cada uma um bezerro de ouro). Assim, embora a Bíblia não mencione explicitamente como e quando ocorreu a destruição do santuário de Siló, o fato é que após a morte do sacerdote Eli, Siló entra em decadência e praticamente desaparece do registro bíblico.

Arqueologicamente falando, a evidência relativa a Silo é bem interessante, indicando um sítio bastante utilizado entre os séculos XIII e XI AC, e praticamente abandonado posteriormente, como apontam Amihai Mazar:

"A evidência arqueológica de práticas religiosas israelitas durante o período de Juízes é escassa. Em Siló, a parte central do sítio, onde provavelmente ficava o santuário foi totalmente destruída pela erosão e pelas atividades bizantinas de construção. A evidência de que existia um lugar de culto neste sítio já na idade do Bronze Recente é de considerável importância. Ele provavelmente servia a tribos de pastores seminômades que viviam nas vizinhanças, pois não foi encontrado no cômoro nenhum assentamento real desse período. Siló, portanto, parece ter sido um local sagrado desde muito antes da Idade do Ferro, e talvez essa tradição tenha levado a sua escolha como centro religioso dos israelitas durante o período dos Juízes [18]

 

Israel Finkestein:

Os livros de Josué, Juízes e I Samuel descrevem Silo como um santuário central dos primeiros israelitas - a localidade da Arca da Aliança. Jeremias (7:12,14; 26, 6.9) refere-se ao antigo templo de Yahweh que tinha estado em Siló e que foi destruído pela iniquidade de Israel. E embora Silo não fosse um importante local no final do Ferro II, quando a maioria desses textos foi colocada por escrito, sua localização - entre Jerusalém e Siquém - era bem conhecida pelo Historiador Deuteronomista (Juízes 21:19). A arqueologia demonstrou que Silo foi abandonada após sua destruição no Ferro I. Resultados de radiocarbono alocam essa destruição na segunda metade do século XI a.C (Finkelstein e Piasetzky, 2006). Não há assentamentos significantes ali nos períodos do Ferro II e persa. Vestígios datados desses períodos são escassos e de nenhuma importância especial; eles não revelam sinais de um lugar de culto ou de destruição por fogo. É impossível, assim, ler a tradição do santuário de Silo contra o panorama do Ferro II ou posterior. [19].

E Kenneth Kitchen:

The Iron I phase at the site was violently destroyed about 1050 or so, in line with the veiled allusions in Jer. 7:12-14 and Ps 78:60-61. There is no reason to view Shiloh in Iron I as anything other than an early Israelite center, amidst an area of considerable early Israelite settlement. (traduçãoA fase Ferro I do sítio foi violentamente destruída por volta de 1050 ou mais, em acordo com as alusões veladas em Jer. 7: 12-14 e Sl 78: 60-61. Não há razão para ver Shiloh em Iron I como outra coisa senão um centro israelita primitivo, em meio a uma área de considerável colonização israelita inicial [20]

Se o santuário de Siló foi praticamente abandonado em meados do século XI AC, e o deuteronomista foi escrito no século VII AC, o fato de existir uma memória de que aquele local era um importante santuário séculos antes é relevante e indica pelo menos uma possibilidade de que outras memórias semelhantes tenham sido preservadas.

Nos anos de 1930, o estudioso alemão Martin Noth postulou que as tribos de Israel se organizavam numa anfictionia, ou seja, uma liga ou confederação cujas instituições funcionavam em torno de um santuário central, a semelhança das cidades estado gregas (em torno de Delfos), que se organizaram para manter o santuário de Apolo e que com o tempo incorporou também funções políticas.

A tese de Noth foi criticada por considerar um contexto distante milhares de quilômetros e atestada pelo menos meio milênio depois do tempo de juízes. No entanto, a existência de uma organização tribal, e alguma solidariedade entre seus membros tem paralelos em contextos mais próximos aos da antiga Canaã, como observa Kitchen:

However, as lomg sice proposed, there were analagous institutions much near home, in the Near East. Hallo gave a detailed account of a Neo-Sumerian "amphictyony" of twelve or more cities that contributed supplies of a twelve monthly basis to the upkeep of the holy Sumerian city of Nippur, under the rules of the third dinasty of Ur circa 2000. As with Greece, the central central temples were the focus of attention (...) Alongside these concrete cases the Hebrew tribal federation can stand, with its shrine. The better comparison is with tribal federations, as at Mari and early Arabia (...)" (traduçãoNo entanto, como há muito proposto, havia instituições análogas muito perto de casa, no Oriente Próximo. Hallo fez um relato detalhado de uma "anfictonia" neo-suméria de doze ou mais cidades que contribuíam com suprimentos de doze meses para a manutenção da sagrada cidade suméria de Nippur, sob as regras da terceira dinastia de Ur por volta de 2000. Como com a Grécia, os templos centrais centrais eram o foco das atenções (...) Ao lado desses casos concretos pode se manter a federação tribal hebraica, com seu santuário. A melhor comparação é com as federações tribais, como em Mari e no início da Arábia [21]

Assim,  além de um santuário comum, as tribos empreendem ações militares conjuntas, um dos principais exemplos contido no cântico de Débora, como observa Liverani:

"É um texto importante para nos fazer entrever uma agregação tribal que teoricamente compreende dez tribos, seis das quais participam do empreendimento; as outras quatro julgam não faze-la (e são, por isso, ridicularizadas): Asher e Dan, porque empenhadas em trabalhar nas esquadrilhas fenícias, Rubem e Gile'ad, porque empenhadas em seus pastos estivais na Transjordânia. Observe-se que a coalização é definida como Israel (e na verdade coincide com o Reino do Norte) ou "o povo de Yahweh", mas se usa o também o coletivo "aldeões" (perazot) contraposto as cidades de muros e portas e portas dos cananeus (...)" [22].

Liverani também pontua que as fronteiras dessas tribos, pelo menos das maiores, corresponde aos padrões de assentamento das vilas "protoisraelitas"  do século XIII/XII AC  

"Não por acaso a situação das tribos principais corresponde muito bem a distribuição das vilas "proto-israelitas" e fornece uma confirmação cruzada avaliada como positiva. Mas diversas outras tribos que depois passaram a fazer parte da lista "canônica" são ou nitidamente funcionais (mas que de estirpe), como Levi (mas também Issacar, ou também os qenitas), ou de origem e pertença duvidosas (como Dan) ou desaparecidas tão cedo (Simeão) que somos levados a duvidar se algum dia existiram [23].

Assim, Silo parece ter representado um papel fundamental no período anterior a  monarquia, por servir de centro de agregação das várias tribos de Israel, permitindo algumas ações conjuntas, além da cooperação religiosa. No entanto, o livro de Juízes indica frequentemente dificuldades de mobilização conjunta entre as várias tribos. Assim, Débora consegue mobilizar seis tribos, tendo convidado 10; Gideão apenas Manassés, Aser, Zebulom e Naftali (Jz 6:35); e Jefté fica restrito as tribos de além do Jordão, tanto Gideão como Jefté recebem reclamações de Efraim, que alega que não foi adequadamente convocada para guerra. 

Desta forma, temos um Israel, ou "proto israel", que surge de forma súbita no registro histórico e arqueológico, em pequenas vilas e assentamentos nas regiões montanhosas centrais da Palestina, no final do século XIII AC. Esse grupo tem elementos autóctones, convivendo com outras populações que habitavam a região, mas também se envolve em conflitos contra forças regionais, como a cidade de Hazor e seus aliados. Suas tribos tinham algum grau de coesão, organizando ações militares conjuntas, bem como mantendo um santuário em Siló.

Referencias Bibliográficas:

[1] Michael Coogan (2008) The Old Testament, a Very Short Introduction, fl.31

[2] Eric H Cline (2009) Biblical Archaelogy, A Very Short Introduction, fl. 72

[3]  Mario Liverani (2003), Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 52

[4] Mario Liverani (2003), Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fls 37 e 38

[5]  Israel Finkesltein (2013), O Reino Esquecido - Arqueologia e História de Israel do Norte, fl. 39 

[6] Kenneth Kitchen (2003) On the Reliability of the Old Testament, fl. 225

[7] Amihai Mazar (1990) Arqueologia das Terras da Bíblia, fl. 328

[8] Kenneth Kitchen (2003) On the Reliability of the Old Testament, fl. 226

[9] Mario Liverani (2003), Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 59-60

[10] Avraham Faust (2015), The Emergence of Iron Age Israel, an Origin and Habits, fl. 476

[11] Mario Liverani (2003), Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 120

[12] Eric H Cline (2009) Biblical Archaelogy, A Very Short Introduction, fls. 77-78

[13] Israel Finkesltein (2013), O Reino Esquecido - Arqueologia e História de Israel do Norte, fl. 38

[14] Amihai Mazar (1990) Arqueologia das Terras da Bíblia, fl. 326

[15] Kenneth Kitchen (2003) On the Reliability of the Old Testament, fl. 184

[16] William Dever (2006) Who were the early Israelites, and where did they come from?, fl. 68

[17] Mario Liverani (2003), Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 122

[18] Amihai Mazar (1990) Arqueologia das Terras da Bíblia, fl. 341

[19] Israel Finkesltein (2013), O Reino Esquecido - Arqueologia e História de Israel do Norte, fls. 70-71

[20] Kenneth Kitchen (2003) On the Reliability of the Old Testament, fl. 231

[21] Kenneth Kitchen (2003) On the Reliability of the Old Testament, fl. 222

[22] Mario Liverani (2003), Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 122

[23] Mario Liverani (2003), Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 93



domingo, 17 de novembro de 2019

Cristo Pantocrator, Igreja do Santo Sepulcro, Jerusalém,
via wikicommons
Anteriormente nossa série sobre o avanço do cristianismo na elite do Império Romano, falamos de casos de cristãos que foram auxiliares de imperadores e líderes provinciais, sobre outros, de comportamento um tanto heterodoxo, e daqueles cuja a identidade é incerta, mas que podem ter sido os primeiros casos atestados entre as elites romanas, já no primeiro século. Também mencionamos aqueles que, para preservarem sua identidade como cristãos, não hesitaram em confrontar o Império, a família e a sociedade, pagando com a própria vida. Ao longo da série, porém, foi possível perceber alguns padrões. O cristianismo é praticamente imperceptível socialmente em seu primeiro século de existência, primeiramente pelo pequeno número de seguidores, segundo por estar, em geral, nas margens da sociedade. 

Sendo assim, as primeiras menções que temos em Josefo, Tácito, Suetônio, Plínio invariavelmente envolvem tumultos, perturbações e confrontos em que os cristãos ora são apontados como a causa, ou mesmo quando eram as vítimas, a opinião geral era que não eram tão inocentes assim (nas palavras de Tácito: "(Tudo isso fez com que despertasse a misericórdia do povo, mesmo contra essas pessoas que mereciam castigo exemplar") [1]. Nas notícias dessa primeira época, os cristãos apareciam quase que exclusivamente na página policial. Não ajudava o fato de seguirem Jesus, um homem crucificado por Pôncio Pilatos na sempre rebelde Judeia, acusado de ser o autoproclamado "Rei dos Judeus". 

A medida que o tempo passa, o número de cristãos cresce, na cidade de Roma, nas províncias do  norte da África e no leste do Império, principalmente. Escravos libertos da casa imperial, convertidos ou simpatizantes do cristianismo, já representam uma influência palpável na corte, pelo menos desde o final do século II. Relatos aqui e ali, dão conta de mulheres de alta posição que se convertiam. Por está época, o filósofo pagão Celso, incomodado, escreve um ataque contra o cristianismo, em que afirma que:

Vemos, de fato, em nossas casas, trabalhadores em lã e curtidores, e pessoas de caráter rústico e pouco instruído, que não se atrevem a proferir palavra na presença de seus senhores, mais velhos e doutos; mas quando tem a oportunidade de estar com crianças em privado, ou com mulheres tão ignorantes quanto eles, propagam seus maravilhosos ensinos, de forma que não devem obedecer seus pais e mestres; e que os primeiros são tolos e estúpidos, e nem sabem nem podem realizar algo realmente bom, preocupados com ninharias vazias; que somente eles sabem como os homens devem viver e que, se os filhos os obedecerem, também serão felizes e também farão seu lar feliz. E enquanto falam assim, se notam os mestres destes jovens se aproximando, ou alguém das classes mais instruídas, ou mesmo o próprio pai, os mais tímidos entre eles ficam com medo, enquanto os mais ousados incitam as crianças a se rebelarem.[2]
 
No entanto, a partir da segunda metade do II século, o cristianismo passa a dispor de mestres preparados para discutir em termos retóricos e filosóficos.  Neste post, vamos discutir duas figuras, o (provavel) primeiro Rei cristão e seu conselheiro. O Rei Abgar VIII e o enciclopédico Sexto Júlio Africano.

Júlio Africano na Corte de Abgar VIII de Edessa


Rei Abgar V recebe de Tadeu o Mandílio.
Pintura encaústica, Monastério de Santa Catarina
sec. X, via wikicommons
Por volta do ano 200 DC, Tertuliano diria que o nome de Cristo se estendia a todos os lugares, era crido em todo lugar, honrado e adorado entre todos os povos,  Além de forte apelo popular, entre as elites o  "time" de Cristo, contava com defensores (apologistas) como Tertuliano e Minúcio Félix, "homens de criação" como os teólogos Hipólito e Irineu, e um poderoso ataque com Clemente e Origenes de Alexandria e Julio Africano, homens de vanguarda do pensamento intelectual da época. 

Sexto Júlio Africano, talvez seja a mais intrigante e complexa destas figuras. Ele se destacou tanto por seu conhecimento teológico e exegético - estabelecendo a data tradicional do nascimento de Jesus, harmonizando as genealogias de Mateus e Lucas, demonstrando que a história de Suzana não fazia parte do livro de Daniel - como atuar como conselheiro do Rei Abgar VIII de Edessa (nosso outro personagem), e montar uma biblioteca a pedido do Imperador Severo Alexandre. Serviu o exército, exerceu a medicina, além de ter escrito uma enciclopédia do conhecimento antigo, que versava sobre pontos como magia e antigas armas biológicas. 

As obras de Julio Africano não sobreviveram ao nosso tempo. Seus escritos são conhecidos a partir de citações de outros autores. Contudo, como observa a Professora Hagith Sivan, da Universidade do Kansas, 

"(...)  Of Africanus' not insignificant output, consisting of the Cesti (originally in 14 volumes), two letters (one addressed to Origen, the other to an Aristides) and the Chronographiae (originally in 5), we now have the most complete collection of 100 fragments from the last work and, equally useful, of 99 testimonia.(...)" (traduçãoDa produção não insignificante de Africano, composta pelos Cesti (originalmente em 14 volumes), duas cartas (uma dirigida a Orígenes, a outra a Aristides) e a Cronografia (originalmente em 5), agora temos a coleção mais completa de 100 fragmentos do último trabalho e, igualmente úteis, de 99 testemunhos. [3]

As citações por autores antigos posteriores, permitem inferir alguns fatos de sua vida. O professor Henry Chadwick (1920-2008), de Cambridge, apresenta uma biografia resumida de Júlio Africano:


A comparable contemporary of Clement was another learned Christian, Sextus Julius Africanus, whose surviving writings show him to have been a rare polymath. He was capable of writing on military matters (of which he had some firsy-hand knowledge), on history, magic, Christianity, and architecture. He had a striklingly varied carrier in the army, medicine, and law. His birthplace seems to have been Hadrian's replacement of Jerusalem, Aelia Capitolina (P.Oxy. III 412). He came to know relatives of Jesus from the Nazareth region, and knew at least some hebrew.(Tradução) Um contemporâneo comparável de Clemente foi outro cristão erudito, Sexto Julio Africano, cujos escritos sobreviventes mostram que ele era um polímato raro. Ele era capaz de escrever sobre assuntos militares (dos quais possuía algum conhecimento prático), história, magia, cristianismo e arquitetura. Ele teve uma carreira diversificada no exército, na medicina e no direito. Seu local de nascimento parece ter sido a cidade construída por Adriano quando destruiu Jerusalém, Aelia Capitolina (P.Oxy. III 412). Ele se encontrou com parentes de Jesus da região de Nazaré e conhecia pelo menos um pouco de hebreus. [4] 
Júlio Africano foi um homem "viajado", e possuía excelentes conexões sociais. Particularmente relevante para efeitos do nosso post, foi quando foi admitido em Edessa, na corte do Rei Abgar VIII de Osroene, estado vassalo de Roma, na alta Mesopotâmia, norte do atual Iraque. O Reino de Osroene, governado pelos antepassados de Abgar a mais de 300 anos, ficava na fronteira entre o Imperio Romano e o Império Parto (que englobava o Irã, parte do atual Iraque, Paquistão e Afeganistão). Edessa oscilou em suas lealdades várias vezes, entre a batalha de Carrae (53 AC) e o tempo de Trajano (98-117 DC), estiveram sobre influência dos partos. A partir de Trajano, e mais ainda a partir de 165 DC - quando o co-imperador Lucio Vero (161-169 DC) em sua campanha no leste, colocou a região sob o firme comando de Roma - o Reino de Edessa não teve outra opção senão a lealdade.

O Reino de Edessa, sob o comando de Abgar, seguia uma política extremamente tolerante com o cristianismo, sendo bastante possível, ainda que não completamente certo, como veremos a seguir, que o próprio Rei, ou seu filho Abgar IX, tenham se convertido [5]Segundo a Crônica de Edessa, do século VI, um concilio foi realizado na cidade em 197 DC, e uma Igreja cristã é listada entre os edíficios destruídos em uma enchente em 201 DC. A partir de Edessa, as regiões do extremo leste do Império Romano, a Pérsia e até a India, foram evangelizadas. Como observa o Professor Warmick Ball, da Escola Britânica de Arqueologia no Iraque, "(...) Abgar teve a sabedoria de reconhecer a estabilidade e ordem inerente do Cristianismo, um século antes de Constantino (...) Assim Abgar, o grande, pode reinvindicar ser o primeiro monarca cristão do mundo, e Edessa o primeiro estado cristão. Mais do que qualquer coisa, um enorme precedente foi estabelecido para a conversão da própria Roma (...)[6]. 

Cerca de um século depois da morte de Abgar VIII, Eusébio de Cesaréia (História Eclesiástica 1:13) registra a tradição de que o Rei  Abgar V (4 AC - 40 DC) trocou cartas com o próprio Jesus (!!!). Abgar estava doente e pediu que Jesus viesse até Edessa cura-lo. Jesus promete que após cumprir sua missão, ele enviaria alguém para cura-lo. Após a ressureição, o Apóstolo Tomé enviou Tadeu, que curou o Rei. Em um estágio posterior da lenda, o texto apócrifo a doutrina de Addai, escrito por volta do ano 400, afirma que o mensageiro do Rei, chamado Ananias, era também um pintor, e fez um retrato de Jesus (a imagem de Edessa, ou Mandílio), que foi guardado no Palácio Real de Edessa. As cartas são consideradas como apócrifas pelos estudiosos, mas são entendidas como uma tentativa do cristianismo edessano de reivindicar origem apostólica, uma vez que era um dos mais importantes centros da cristandade. 

Na corte de Abgar, também tinha assento o teólogo Bardasanes (154-222 DC), muito próximo ao Rei, a qual Júlio Africano admira como grande pensador e exímio arqueiro.  Bardasanes, provavelmente de origem persa, se converteu pela influência do Bispo Histapes de Edessa, e logo se destacou polemizando com os marcionitas, sendo ordenado diácono, formando uma escola de discipulos  e compondo hinos, com objetivo de atingir os jovens.[7]

Bardasanes também é o principal testemunho da conversão do Rei Abgar de Edessa, visto que ele menciona que:


 "(...) Na Síria e em Edessa havia um costume de castração em honra de Tar'atha (Atagartis), mas quando o Rei Abgar se converteu, ele ordenou que qualquer homem que se emascula-se em devoção de Tar'ata, deveria ter sua mão cortada (...)".[8]

Não resta claro, porém, se o Abgar em questão é o pai ou o filho. Júlio Africano, em um fragmento preservado em George Sincelo, diz que Abgar era um "santo homem", sem dar maiores detalhes. A despeito de sua contribuição para o avanço do cristianismo em Edessa, e, possivelmente, trazendo a fé para a família real, Bardasanes foi mais lembrado por ter sido, em algum momento, atraído por idéias gnósticas.  Contudo, se é evidente que os ensinos dos discípulos de Bardasanes foram considerados heréticos (influenciando grupos como os Elkasaitas e Maniqueistas) nos séculos seguintes,  o mesmo não pode ser dito com certeza em relação ao próprio Bardasanes. De fato, muito pouco do que Bardasanes escreveu foi conservado, e um de seus principais escritos, que mais nos aproxima de suas ideias, "O livro da Lei dos Países" foi compilado por um de seus díscipulos, Felipe. Pouco mais de 100 anos após a morte de Bardasanes, ele foi objeto de dura refutação pelo Bispo Efrem, o Sírio (306-373 DC) , mas podemos questionar até que ponto estava criticando os ensinos do próprio Bardasanes ou o rumo que seus díscipulos lhe deram [9]. Eusébio de Cesaréia (História Eclesiastica 4:30), por exemplo, relata que Bardasanes "(...) foi a princípio um seguidor de Valentino, mas depois, tendo rejeitado seus ensinamentos e refutado a maioria de suas ficções, imaginou ter chegado à opinião mais correta. No entanto, ele não lavou completamente a sujeira da antiga heresia (...).   

Sobre a estada de Júlio Africano em Edessa, Professor Martin Wallhaff, da Universidade de Munique escreve [10]:


The life story of Africanus was centainly both interesting and eventful, although we are only able to glean snippets of it from his own writings. We first find him in Edessa at the court of King Abgar VIII of Oshoene, for whom he apparently had much admiration (F96) and whose son he helped to educate. It was here that he came in contact with the fascinating intellectual Bardasanes (cest 1,20) in whom he may found a congenial thinker and source of inspiration. All this must have occured some time before 216. It was here also that he might have seen what was alleged to have been the tent of Jacob, venerated in Edessa and later destroyed (F29). On his travels he saw Mount Ararat in Armenia (F23) and also visited Apameia in Southern Phrygia, formerly Celacnae (F23). (...). (tradução) A história de vida de Africano é, ao mesmo tempo, interessante e cheia de acontecimentos, embora só possamos coletar trechos dela de seus próprios escritos. Nós o encontramos pela primeira vez em Edessa, na corte do rei Abgar VIII de Oshoene, por quem ele aparentemente tinha muita admiração (F96) e cujo filho ele ajudou a educar. Foi aqui que ele entrou em contato com o fascinante intelectual Bardasanes (cest 1,20), em quem pode encontrar um pensador agradável e fonte de inspiração. Tudo isso deve ter ocorrido algum tempo antes de 216. Foi aqui também que ele poderia ter visto o que supostamente era a tenda de Jacó, venerada em Edessa e mais tarde destruída (F29). Em suas viagens, ele viu o Monte Ararat na Armênia (F23) e também visitou Apameia no sul da Frígia, anteriormente Celacnae (F23). (...)[10]
 A dinastia de Abgar, contudo, estava com seus dias contados. Abgar, no ano dos cinco imperadores (193 DC), apoiou Pescênio Niger, que foi derrotado por Sétimo Severo, que assumiu o trono, e despojou Abgar da maior parte de seu território, que ficou reduzido, praticamente, a cidade de Edessa. Abgar, habilmente, conseguiria restabelecer seu Reino e favor com o Imperador Severo, e até adotou o sobrenome Severo para si e seu filho. Contudo, após sua morte, seu filho Abgar IX foi convocado a Roma por Caracala (211-217 DC), sucessor de Sétimo Severo,  que mandou prender e executar o Rei de Edessa. Os romanos ainda consentiram que dois integrantes da Casa de Abgar utilizassem o título real, até o ano 242 DC, mas sem exercer poder efetivo.

Júlio Africano, porém, teve melhor sorte. Logo cairia nas graças da corte imperial. Professor Wallraff continua:
It would appear that the re-foundation of Emmaus in Palestine as a polis with the name "Neapolis" was achieved thanks to an initiative at the court of Roman emperor in the early 220's presided over by Africanus himself (T2) This may or may not mean that Africanus was a resident of Nicopolis(or Palestine in general) at that time. Nevertheless, his links to the town were certanly profound and went well beyond that any normal sightseer, A little later, we find him in Rome at court of Alexander Severus, where he was  entrusted with the task of instituting the library of Pantheon. Whatever that might mean, it must have been quite prestigious post in the society of the capital. (tradução)  Parece que a reconstrução de Emaús na Palestina como uma polis com o nome "Neápolis" foi alcançada graças a uma iniciativa na corte do imperador romano no início dos anos 220, presidida pelo próprio Africanus (T2). Isso pode ou não significa que Africano era um residente de Nicópolis (ou Palestina em geral) na época. No entanto, seus vínculos com a cidade eram comprovadamente profundos e iam muito além do um visitante comum. Um pouco mais tarde, o encontramos em Roma na corte de Alexandre Severo, onde ele foi encarregado de instituir a biblioteca do Panteão. O que quer que isso possa significar, deve ter sido um posto de prestígio na sociedade da capital.[10]
Júlio Africano, teólogo, historiador e intelectual.

Além de conselheiro de Reis, e indicado pelo Imperador para montar uma biblioteca, Africano faria uma contribuição relevante na exegética bíblica. Por exemplo, ele abordou as diferenças entre o livro de Daniel no texto hebraico ou massorético e a Septuaginta. O capítulo 13 do livro de Daniel existe nas bíblicas católicas romanas e ortodoxas, mas não das bíblias protestantes e hebraicas, e conta a história de Susana.


Susana e os Anciãos. Pinturucchio, 1492,
Apartamento Borgia, Palácio Apostólico,
Vaticano, via wikicommons

Susana era uma mulher casada, rica, atraente, e muito temente a Deus. Certo dia, ela se banhava sozinha em seu jardim, não percebendo estar sendo observada por dois anciãos. Ao retornar para casa, os anciãos, que serviam como juízes, a assediam e chantageam, dizendo que a acusariam de ter sido infiel a seu marido, a menos que ela concordasse em deitar-se com eles. Susana recusa a chantagem e é falsamente acusada de adultério. Durante o julgamento Susana é condenada com base no testemunho dos  dois anciãos, clama ao Senhor por justiça, e é socorrida pelo jovem e sábio Daniel, que  desafia o testemunho dos anciãos, que afirmaram que Susana havia encontrado seu amante sob uma árvore, a testemunharem em separado. Um dos anciãos afirma que a árvore era um carvalho, e o outro uma aroeira. Apontando as contradições das falsas testemunhas, Daniel prova a inocência de Susana.



Africano crítica Origenes por aceitar a autenticidade da história, e os argumentos de um lado e outro, podem ser encontrados na "Carta a Africano", de Origenes.

Entre os argumentos apresentados por Africano estão a ausência da narrativa na texto hebraico, o fato do texto grego conter jogos de palavras que não faziam sentido em hebraico, além de inconsistências e implausibilidades no comportamento dos personagens na estória. Orígenes, ainda que reconhecendo a ausência do texto na versão hebraica de Daniel, sustenta que a narrativa era comumente lida e reconhecida nas igrejas. [11]

Outra contribuição de Julio Africano é sua harmonização das genealogias de Jesus encontradas nos evangelhos de Lucas e Mateus. Em uma carta a um certo Aristides, transcrita por Eusébio de Cesaréia, Africano rejeita aquelas interpretações que consideram que uma genealogia de Lucas era sacerdotal e da Mateus real. Ele apresenta sua própria tese, que se baseia em tradições que lhe teriam sido confiadas pelos Desposyni , os descendentes do clã de Jesus, que viviam nas cidades vizinhas de Nazaré e Cochaba. Africano utiliza o conceito do casamento por Levirato. Descrito em Deuteronômio 25:5-6, caso um homem morresse sem deixar filhos, cabia a seu irmão casar com a viúva, e tendo gerado descendência, essa passaria a ser considerada como de seu irmão falecido. Desta forma, Africano afirma que:


Matã, descendente de Salomão, gerou Jacó. E tendo morrido Matã, Melqui, que era descendente de Natã, gerou Eli pela mesma mulher. Eli e Jacó eram, portanto, irmãos uterinos. Eli tendo morrido sem filhos, Jacó levantou sua semente, gerando José, seu próprio filho, pela natureza, mas por lei o filho de Eli. Assim, José era filho de ambos.
No entanto, a mais  relevante contribuição de Africano a literatura, e cultura cristã foi a sua adaptação do gênero grego da "crônica universal", influenciando Eusébio de Cesaréia, Jerônimo, George Sincelo, entre outros.  


Professor Richard Burgess, da Universidade de Otawa, esclarece a significância do trabalho de Júlio Africano:


"The achievement of Julius Africanus can only be properly evaluated if it is considered within the appropriate context. His Xpovoypawiai is best if it is analysed and interpreted not as the earliest surviving work of Byzantine chronography or as an early Christian chronicle (or rather proto-chronicle, since it is not actually a chronicle), but as a work that stands at the end of a very long line of Hellenistic chronological apologetic that ranges from contemporary Christian writers to secular historians of the late fourth century BC. (tradução)   O feito de Julio Africano só pode ser avaliada adequadamente se for considerada dentro do contexto apropriado. Seu Xpovoypawiai é melhor analisado e interpretado não como o trabalho sobrevivente mais antigo da cronografia bizantina ou como uma crônica cristã primitiva (ou melhor, proto-crônica, já que na verdade não é uma crônica), mas como um trabalho que culmina uma longa linha de crônica apologética helenística que vai de escritores cristãos contemporâneos a historiadores seculares do final do século IV aC [12]

Professor Burgess continua seu raciocínio, apontando o fato de que "(...)o mundo antigo, de forma quase universal, percebia o desenvolvimento da cultura e civilização de forma completamente oposta a nós. Nós olhamos para o futuro e vemos o progresso, que fará o porvir melhor que o passado, acreditando que a civilização e cultura estão avançando e progredindo. O mundo antigo, por outro lado, olhava pro passado e acreditava que quanto mais antigo, melhor. O presente era percebido como uma era de decadência, e o modo de vida ancestral eram naturalmente melhores porque estavam mais próximos da era dourada, o começo de todas as coisas, e dos deuses. Para os antigos, nada podia ser novo e verdadeiro (...)"[12].

Sendo assim, para se provar verdadeiro  (e não uma superstição "nova" e '"perigosa", ou "nova e mortal", principalmente por ser nova), o cristianismo tinha que se associar ao que era antigo. Uma ênfase muito grande foi colocada sobre as escrituras do antigo testamento, por todos reconhecidas como muito antigas. Burgess cita Teófilo de Antioquia, que no final do século II DC, escreveu "(...) Agora pretendo... demontrar a cronologia para você mais detalhadamente, para que possa reconhecer que nossa doutrina não é nem moderna, nem mítica, mas mais antiga e verdadeira que a de todos os poetas e historiadores (...)" .

A cronografia de Africano foi escrita em 5 volumes. E cobre desde a criação do mundo, que ele fixa no ano 5500 AC, até o ano 221 DC. A obra completa se perdeu, mas cerca de 10% de seu conteúdo é conhecido através de citações de autores posteriores. 

Professor Walhaff esclarece que o trabalho de Africano tem finalidade apologética em certa medida, mas vai muito além disso:

The apologetic tradition in general, and Theophilus and Clement in particular, represent the most important Christian antecedents to the Chronographiae of Africanus. That being said, his work is much more than just a simple continuation of this tradition (...) and it is clear that a work of such dimensions could only have been written by someone with a genuine scholarly interest in historiography. In this sense the approach of Africanus might best be termed as scientific, the implication being that his interest in precise historical knowledge was mainly for the sake of knowledge (...) A tradição apologética em geral, e Teófilo e Clemente em particular, representam os antecedentes cristãos mais importantes para a cronografia de Africano. Dito isto, seu trabalho é muito mais do que apenas uma simples continuação dessa tradição (...) e é claro que um trabalho de tais dimensões só poderia ter sido escrito por alguém com um genuíno interesse acadêmico pela historiografia. Nesse sentido, a abordagem de Africano poderia ser melhor denominada como científica, a implicação é que seu interesse pelo conhecimento histórico preciso era principalmente em prol do conhecimento [13]
 Bem como o caráter eminente cristão de sua obra, mas que dialogava com os padrões seculares greco-romanos..
The Christian character of his work is clear, especially given the importance attributed to the date of the Incarnation in AM 5500 and the detailed discussion concerning the date of the Crucifixion and Resurrection of Christ (F93) Nevertheless, it would be a mistake to try and reduce the Chronographiae to a purely apologetic work. (tradução)  (...) O caráter cristão de sua obra é claro, especialmente dada a importância atribuída à data da Encarnação, em AM 5500 e a discussão detalhada sobre a data da crucificação e Ressurreição de Cristo (F93) no entanto, seria um erro para tentar reduzir a Cronografia a um trabalho puramente apologético.´[13]
E oferecia a literatura cristã um padrão mais elevado, capaz de interagir com os escritos seculares de seu tempo, e que influenciaria gerações
He was forcing Christian chronography to adopt the secular structures and methods that he found in Chronicles and Universal history, and therefore stands at the point at which apologetics became truly Christian history for the first time (tradução) Ele estava forçando a cronografia cristã a adotar as estruturas e métodos seculares que encontrou em Crônicas e na história universal, e, portanto, está no ponto em que a apologética se tornou verdadeiramente a história cristã pela primeira vez [14]
Júlio Africano se dedicou a outro projeto monumental. Cesti é uma verdadeira enciclopédia do conhecimento antigo, com 24 volumes!!!! A obra descorria sobre praticamente todos os campos de conhecimento da Antiguidade. Da mesma forma como em Cronografia, Cesti não chegou até nós, mas fragmentos são citados em autores posteriores. Africano discorre sobre pesos e medidas, corantes, inseticidas, antídotos para vítimas de picadas de cobra ou escorpiões, purificação de água, e o cerco de Bizâncio pelo Imperador Sétimo Severo [15]. O conhecimento técnico e pratico, se intercala com as experiências pessoais de Africano.

Walraff faz menção a George Sincelo (século IX), que afirma que Cesti foi dedicada ao Imperador Alexandre Severo (222-235 DC). Wallraff aponta a menção aos banhos de Alexandre, concluidos em 227 DC, e o fato de Africano mencionar que os "persas nunca foram derrotados pelos Romanos", o que ocorreria em 231 DC, na campanha de Alexandre Severo contra os Sassânidas [15]. Ou seja, a obra deve ser datada entre 228-231DC. 

Embora reverenciado pelos escritores cristão posteriores por sua erudição. Cesti foi criticada por parte de seu conteúdo. Por exemplo, um manual  militar bizantino do século X, o Sylloge Tacticorum, descreve as armas químicas e biológicas propostas por Africano como instrumento de Guerra Total, como "indignas do modo de vida cristão".[15].

A natureza secular de Cesti levou a alguns estudiosos a questionar se realmente Júlio Africano, de Cesti, era o mesmo autor de Cronografia, contado entre os pais da Igreja. Começando por Joseph Scaliger no século XVII:

Scaliger noted that the name of Africanus in the tenth century Suda lexicon was idiosyncratic, not the commonly used "Iulius Africanus", but rather "Africanus, the one called Sectus (sic). From this, Scaliger concluded that Eusebius and his sucessors had collectively confused the Christian "Iulius Africanus" eith the "Sextus (Iulius) Africanus of the Cesti.(Tradução) Scaliger observou que o nome de Africanus no léxico Suda do século X era idiossincrático, não o "Iulius Africanus" comumente usado, mas sim "Africanus, chamado Sectus (sic). A partir disso, Scaliger concluiu que Eusébio e seus sucessores tinham coletivamente confundido o cristão "Iulius Africanus" com "Sextus (Iulius) Africanus dos Cesti.[16]
 Ocorre que a prosposta não prosperou, Professor Wallraf explica o porque:


Dissociating the two figures was an elegant, but ultimately unpersuasive, way to resolve what some scholars have called the "Africanus Problem". The final blow to the theory of mistaken identity came from the Cesti itself. A fragment from the end of the 18th book of the Cesti discovered at Oxyrhynchus named the author of the work as "Iulius Africanus", not the Sextus Iulius Africanus"required by Scaliger's hypothesis. (tradução) A dissociação das duas figuras foi uma maneira elegante, mas, em última análise, não persuasiva, de resolver o que alguns estudiosos chamam de "Problema Africanus". O golpe final na teoria da identidade equivocada veio do próprio Cesti. Um fragmento do final do 18º livro dos Cesti descoberto em Oxyrhynchus nomeou o autor da obra como "Iulius Africanus", não o Sextus Iulius Africanus "exigido pela hipótese de Scaliger.[16]
O papiro Oxirrinco III 412, datado de 230-260 DC, é um fragmento de Cesti, quase contemporâneo da obra original, encontrado no Egito. E prova que o autor da monumental obra secular, era o mesmo que tentou harmonizar a genealogias de Jesus de Nazaré e que elaborou um história universal em que a morte e ressurreição de Jesus constituia o evento principal. Parece contraditório, mas cremos que é simplesmente humano.

Catafractário (cavalaria pesada) persa ataca um Leão,
Museu Britânico, via wikicommons 
Por exemplo, um aspecto perturbador de Cesti, já percebido pelo manual militar bizantino acima, são as estratégias militares de guerra total propostas por Julio Africano ao exército romano contra o Império Parta, contendo até versões da antiguidade de armas químicas e biológicas (mesmo que tais artíficios também tenham sido usados pelos Partos).

Ocorre que, como observa Christopher Jones, doutorando na Universidade de Columbia, em seu excelente blog Gates  of Nineveh Julio Africano vivia em um mundo em que os romanos combatiam o império parto a quase 300 anos no leste, com pouco sucesso duradouro [17]. Marco Licínio Crasso foi morto e seu grande exército completamente destruído na batalha de Carras, em 53 AC, e as vitórias romanas, quando ocorriam, eram rapidamente revertidas. A estratégia romana foi conter os partos nas proximidades do Eufrates. Africano entendia que o problema não era o moral dos soldados ou a capacidade dos comandantes, mas a forma de lutar. Pior, havia sinais de que os inimigos do leste se tornariam ainda mais poderosos, pois a emergência da dinastia Sassânida, suplantando os arsacidas, centralizaria o Império Persa e o tornaria mais efetivo militarmente. Assim, entendia Africano, para enfrentar os arqueiros a cavalo iranianos, em seu território, o exército deveria adaptar suas táticas, tecnologias e treinamento, tomando como modelo as tropas de Alexandre, o Grande, que conquistou o Império Persa, e aumentar seus efetivos de cavalaria.  Séculos antes, na Europa, as legiões romanas se mostraram superiores as falanges gregas, mas o estilo de luta das falanges era mais adaptado ao terreno do Irã e Iraque [17]Neste contexto, Africano teme os persas e reconhece a desvantagem romana refletindo a ansiedade das provincias do leste e reinos clientes (em Apocalipse 16:12, como resultado de uma das sete taças da ira de Deus, o Eufrates seca, "para que se preparasse o caminho do reis do Oriente"), entendendo que Roma deve usar todos os meios que dispõe, sem limites, para proteger seu território e cidadãos. 

Uma analogia pode ser feita com a doutrina militar de retaliação massiva da OTAN frente ao Pacto de Varsóvia, nos anos 1950 e 1960, que preconizava a utilização pronta de armas nucleares para contenção de qualquer tentativa de invasão ao países membros, mesmo que utilizando apenas forças militares convencionais, frente a desvantagem das tropas da aliança em comparação a antiga União Soviética e seus aliados na Europa Central e Ocidental. 

Além disso, a visão militar agressiva de Júlio Africano não pode ser considerada algo raro entre cristãos (por exemplo, podemos citar a própria idéia de Cruzada). Os governos de países de forte herança cristã, democracias tradicionais, utilizaram armas nucleares e napalm (EUA) e armas químicas (França e Reino Unido), e pior, muitas vezes contra civis, tendo ou não os inimigos utilizado tais recursos. Inúmeros exemplos de posicionamentos cristãos belicosos estão disponíveis. O que talvez seja chocante é um exemplo não pacifista na igreja cristã pré Constantiniana.

Cesti concentra os elementos cristãos não convencionais na vida Africano. Mas em nossa série, já encontramos uma concubina de um Imperador e um banqueiro falido que se tornou Papa, um oficial romano cuja identidade cristã é assumida de forma discreta e líder provincial orgulhoso de seu cristianismo, mas engajado em jogos considerados contrários a sua fé. Tais contradições tem feito parte da vida de centenas de milhões de fieis, em todos os lugares e tempos.

Referência Bibliográficas.

[1] Tácito, Anais 15:44 
[2] Origenes, Contra Celso, Livro 3, capítulo 55
[3] Hagith Sivan (2008): Martin Wallraff (ed.), Iulius Africanus: Chronographiae. The Extant Fragments. In collaboration with Umberto Roberto and Karl Pinggéra, William Adler. Die griechischen christlichen Schriftsteller der ersten Jahrhunderte, NF 15
Bryn Mawr Classical Review 2008.04.43 http://bmcr.brynmawr.edu/2008/2008-04-43.html
[4] Henry Chadwick (2001) The Church in the Ancient Society, fl. 130
[5] Jona Lendering (2003 e 2019) Edessa (Sanli Urfa) Livius, acessado em 16/11/2019
[6] Warmick Ball (2001),Rome in the East: The Transformation of an Empire, fl. 95
[7] P. O. Skjærvø (1988) Bardesanes Encyclopaedia Iranica, acessado em 16.11.2019 http://www.iranicaonline.org/articles/bardesanes-syr
[8] Bardaisan, Livro da Lei dos Países
[9] P. O. Skjærvø (1988) Bardesanes Encyclopaedia Iranica,  acessado em 16.11.2019 http://www.iranicaonline.org/articles/bardesanes-syr
[10] Martin Wallhaff (2007) Iulius Africanus Chronographiae: The Extant Fragments, fl. xiv
[11] Dulce Maria Gonzalez Doreste e Francisca del Mar Plaza Picon (2016), susana, objeto de deseo y modelo de castidad, acessado em 16.11.2019, 
[12] Richard Burgess (2011), Apologetic and Chronography, in Martin Walhaff (ed), Julius Africanus and die christiliche weltchronik, fl. 17:
[13] Martin Wallraff (2007) Iulius Africanus Chronographiae: The Extant Fragments, fl. xxii
[14] Richard Burgess (2011), Apologetic and Chronography, in Martin Walhaff, Julius Africanus and die christiliche weltchronik, fl. 38
[15] Martin Wallraff (2012) Introduction in Martin Wallraff, Carlo Scardino, Laura Mecella e Christophe Guignard (ed.) Iulius Africanus: Cesti The Extant Fragments, fl. XVII a XIX
[16] Martin Wallraff (2012) Introduction in Martin Wallraff, Carlo Scardino, Laura Mecella e Christophe Guignard (ed.) Iulius Africanus: Cesti The Extant Fragments, fls. XI e XII
[17] Christopher Jones (2014) The Life of Julius Africanus, Part II, The General, post de 30/01/2014 https://gatesofnineveh.wordpress.com/2014/01/30/the-life-of-sextus-julius-africanus-part-2-the-general/, acessado em 15/11/2019.

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