quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Os Critérios do Constrangimento e da Diferença e seus análogos fora da Pesquisa Histórica do Novo Testamento: Parte 4

Nos posts anteriores, analisamos as bases historiográficas dos critérios da diferença com a igreja primitiva (CDC) e do constrangimento (ou embaraçamento) utilizados na pesquisa do Jesus Histórico, e a aplicação de princípio analogo pelos historiadores na análise das narrativas da República Romana no século V AC, de duas importantes figuras contemporâneas ao grande saque de Roma pelos gauleses e 390 AC, Marcus Manlius Capitulinos e Marcus Furius Camillus, e do filósofo neo-pitagórico Apolonio de Tiana, que alguns na antiguidade consideram um rival de Jesus. Hoje, vamos concluir a série com uma miscelânia de exemplo a) A análise da autenticidade de um discurso de Constantino b) A analise de narrativas históricas da Bíblia Hebraica c) Tradições tribais de povos do centro-sul da Africa.

Exemplo 4: Avaliando a autencidade de um discurso de Constantino no Concílio de Nicéia.
Um dos maiores desafios para os historiadores da antiguidade é entender a ascensão do cristianismo. Como uma pequena seita do judaismo, conseguiu não só converter a tantos, como eventualmente se tornar a religião dominante do Império.

Uma analogia poderia ser traçada imaginando um grupo de extraterrestres de um planeta distante, em visita de exploração a Terra por volta do ano 30 DC. Disfarçados de cidadãos do Império Romano, eles visitariam grandes cidades como Roma, Atenas, as ruínas de Tróia, Éfeso, Antioquia e Alexandria. De Alexandria, talvez tivessem decidido "esticar" até Babilônia, e depois, quem sabe Persia, India e até a China. Mas, ainda, no caminho para Babilônia, passaram pela Judéia e por Jerusalém, que, diziam, eram lar de um povo, os judeus, com idéias religiosas muito particulares, crendo em um único Deus que não era representado por figuras humanas. Chegando a Jerusalém, encontraram a cidade pronta para um grande festival, a Páscoa e, resolveram aproveitar a hospitalidade local. Não sem antes ficarem chocados com a execução de três homens por crucificação, um deles acusado de se proclamar o "Rei dos Judeus". Ainda um tanto perturbados com aquelas execuções bárbaras, mas aproveitando a festa mesmo assim, os viajantes ficaram mais surpresos ainda quando boatos começaram a circular que, um dos crucificados, chamado Jesus, um galileu (como os locais chamavam os habitantes do norte daquele país) conhecido como pregador e realizador de milagres, e que havia sido acusado de ser o "Messias" e de buscar ser o Rei do Judeus, e que fora enterrado em uma tumba que amanhecera domingo vazia, havia ressuscitado dos mortos. Como o tempo era curto, nossos exploradores tiveram que seguir viagem, e eventualmente a seu planeta, levando um tanto de curiosidade com o que aconteceu depois.

Voltando das dezenas de anos luz que separa seu planeta a Terra, os tataranetos dos nossos imaginários viajantes, resolvem reviver a aventura de seus ancestrais. Chegando a Terra em 330 DC, descobririam rápido que muita coisa havia mudado. Os deuses mencionados no diário de bordo de seus tataravós agora eram eclipsados por um certo Jesus Cristo. O Imperador, chamado Constantino, era um seguidor de Jesus, um cristão, como chamavam. Chegando a Jerusalém, encontraram um grande Templo recém construido, próximo ao lugar onde seus tataravós escreveram, quase como uma nota de rodapé, que os três homens haviam sido crucificados. A surpresa seria ainda maior quando descobrissem que o Jesus, que havia sofrido morte humilhante 300 anos antes, era o mesmo que o Imperador adorava como Deus, e que aquela grande Igreja (como chamavam o edíficio) teria sido construída no mesmo lugar em que ele havia sido sepultado (o Santo Sepulcro).

Ou seja, na verdade a ascensão do cristianismo envolve três questões, como a pequena seita do Judaísmo, perseguida, converteu alguns milhões de seguidores em pouco mais de dois séculos; porque Constantino, diante de um grupo que congregava menos de 10 % da população do Império, decidiu se tornar cristão; e as razões da obra de Constantino terem sido tão avassaladoras e terem perdurado tanto tempo (ao contrário, por exemplo, de inovações como as produzidas pelo faraó Akenaten, no Egito, milhares de anos antes).

Professor Paul Veyne, do Collège de France, em seu recente livro, "Quando Nosso Mundo se Tornou Cristão" procura abordar essa questão, considerando a conversão de Constantino, o momento dramático de toda essa mudança. Veyne, tenta entender as motivações e pensamentos do Imperador, e para isso utiliza um discurso que ele teria proferido no Concílio de Nicéia, 325, em que Constantino expressa o seu entendimento de sua missão e papel na História.

"Desde o momento em que aqueles dois seres, criados na origem, não observaram o decreto (grego: prostagma), santo e divino, tão escrupulosamente como seria conveniente, nasceu a (má) erva (da ignorância de Deus) que acabo de citar, ela se manteve, multiplicou-se desde que o casal a quem me refiro foi expulso sob uma ordem de Deus. Essa (má) matéria foi tão longe, com a perversidade humana, que, do levante as regiões do poente, as fundações (da humanidade) foram condenadas; a dominação do poder inimigo apoderou-se dos homens e os sufocou. Mas o Decreto (divino) comporta também, santa e imortal, a inesgotável comiseração do Deus Todo Poderoso. Na verdade, quando, ao longo de todos os anos, de todos os dias transcorridos, massas incontáveis de povos tinham sido reduzidas a escravidão, Deus os libertou desse fardo através de mim, seu servidor, e os conduzirá ao brilho completo da luz eterna. Eis porque, meus querídissimos amigos, acredito (grego: pepoitha), com a mais pura confiança (pistis) em Deus, ter sido de agora em diante particularmente distinguido (episemoteis, no comparativo), por uma decisão especial (oikeiotera, igualmente no comparativo) da providência e pelos benefícios brilhantes de nosso Deus [1] "

Alguns historiadores tem questionado a autenticidade do discurso. Veyne o defende, com base em argumentos de dissimilaridade ou diferença, istoé, de que o conteúdo do discurso não atende os interesses dos vários grupos cristãos existentes, dos pagãos, ou inimigos do Imperador, e de constrangimento, no sentido de que o conteúdo do discurso é estranho e o grego de díficil compreensão, o que implica, para o Prof. Veyne que além de ser improvável termos um suposto falsificador de "muita imaginação para forjar um texto tão estranho", este certamente teria escrito em um grego melhor".

"Gelázio de Cízico, História Eclesiastica, II, 7, 38 (Migne, PG, vol. LXXXVi, col 1239). Os argumentos de C.T.H.R. Eberhardt conta a autenticidade (Constantinum documents in Gelasius of Cyzicus, em Jarbuch fur Antike und Christentum, 23,1980, p. 48) não me convenceram. Um falsário precisaria de muita imaginação para forjar um texto tão estranho. Não se percebe a quem aproveitaria tal falsificação; nem aos pagãos, nem aos panegiristas, nem aos inimigos de Constantino (que achariam motivos de queixas menos sutis e menos pessoais), nem aos ortodoxos, nem aos arianos. Nenhuma palavra forma epigrama contra quem quer que seja. Ora, um falsário raramente resiste à tentação de fazer um epigrama que ironize sua vítima. E as estatísticas de vocabulário desconhecem que esse texto não passa de uma tradução e testemunham o vocabulário do tradutor e não o do Imperador (segunda o testemunho de Eusébio, Constantino, por falta de cultura ou como bom imperador romano, só utilizava o latim nas ocasiões oficiais e o fazia traduzir para o grego). Esse latim dos Césares, o dos preâmbulos das leis era muito empolado (um édito de Nerva citado por Plínio, o Jovem, já era pouco compreensível) e o tradutor, embaraçado, transformou esse latim empolado em um grego ruim, que vale como testemunho de autenticidade, um falsificador teria escrito num grego melhor. [1].

Exemplo 5: Narrativas dos livros históricos do Antigo Testamento

As narrativas do Velho Testamento, ou Biblia Hebraica, ocupam um papel extremamente relevante na cultura ocidental, e na visão religiosa judaica-cristã. Uma parte significativa é formada pela narrativa do povo judeu, seu surgimento, desenvolvimento, conquista, reino unido, os reinos de Israel e Judá, a cativeiro assírio e babilônico, a volta para a terra prometida e suas consequências, e, no caso da Septuaginta e da Bíblia Católica, o período dos Macabeus.

Especificamente, a chamada obra deuteronomista, correspondente aos livros de Josué, Juízes, I e II Samuel e I e II Reis, mencionam acontecimentos, batalhas, reis, (tanto de Israel/Judá qunato dos povos vizinhos), e descrevem tensões sociais e problemas econômicos. A narrativa apresenta forte caráter reflexivo, relacionando os fracassos e sucessos, bem como o fluxo dos acontecimentos a como o povo de Israel e Judá, e seus Reis, se relacionavam com Deus.


Diante dessa riqueza de dados, a questão do uso da Bíblia como fonte histórica, é uma questão muito discutida. Um aspecto importante do debate é a datação dos textos, uma vez que os livros não mencionam seus autores e quando foram escritos, a interpretação da evidência arqueológica também suscita controvérsias. Em relação a certos relatos temos evidência extra-bíblica indiscutível que corrobora o texto bíblico, por exemplo, Sheshonk I, que é identificado com o faraó Sisaque, em um relevo e inscrições no Templo de Karnak, faz um relato paralelo a I Reis 14:25, com uma lista de cidades saqueadas e subjugadas por ele. Também a Estela de Mesha, relata como os moabitas se libertaram do jugo israelita, e confirma, em linhas gerais, a situação geral e os personagens mencionados em II Reis 3. Outro caso em que "A Bíblia tinha razão", é o cerco de Jerusalém pelo Rei Senaqueribe. Através do "Prisma de Taylor", um artefato arqueológico que narra as campanhas do Rei da Assiria, e que relata, em sua coluna 3, como ele conquistou as cidades fortes de Judá, cercando o Rei Ezequias - que havia se revoltado, possivelmente contando com o suporte do Egito - "como um pássaro em uma gaiola", e como o rei judeu foi forçado a pagar um vultoso tributo. No entanto, Senaqueribe não menciona ter capturado Jerusalém. Em linhas gerais, o fluxo dos acontecimentos é similar ao de I Reis 18-19 e Isaias 36-37, com excessão de que o texto bíblico afirma que os assírios não conquistaram Jerusalém devido a seu exército ter sido destruído "pelo anjo do Senhor", em seu acampamento (uma peste ou epidemia, provavelmente). è interessante observar que o historiador grego, Herodoto (cerca de 450 AC), relata que os egípcios diziam que o acampamento do exército de Senaqueribe foi atacado por uma multidão de ratos, que roeram as cordas dos escudos e os cestos de flechas dos arqueiros, forçando-o a retirar-se (Historias 2.141). Existem, porém, situações em que não foram encontradas evidências externas de eventos bíblicos, ou esta é contraditória, como a peregrinação no deserto e a conquista de Jericó e Ai.

Assim, vamos ouvir com frequência os termos maximalista e minimalista, que descrevem uma postura geral dos estudiosos quanto a confiabilidade histórica dos textos bíblicos. Gary Rensburg, Professor de História Judaica da Rutgers University (Universidade do Estado de Nova Jersey) observa que a postura maximalista pressupõe que, "uma vez que uma parte significativa do relato bíblico encontra confirmação arqueológica e em outras fontes externas do oriente média antigo, por exemplo, a já mencionada Estela Mesha, então, mesmo quando não se têm evidência corroborativa externa, podemos assumir que o texto bíblico relata fatos históricos, a menos que se possa provar o oposto" [2]. Por outro lado, o enfoque minimalista vai na direção oposta, "uma vez que muitas coisas relatadas na bíblia estão em contradição com a arqueologia e outras fontes de oriente médio antigo, tais como, a falta de evidência para as conquistas de Jericó e Ai, devemos assumir que o relato bíblico é fictício a menos que se prove o contrário". [2]


[Deve ser observado, que, a opção "maximalista" ou "minimalista" não necessariamente reflete a visão religiosa ou teológica do pesquisador. Existem ateus e agnósticos identificados com os"maximalistas", como o arqueólogo William Dever; assim como existem judeus praticantes e cristãos minimalistas]

Na verdade, tais definições demarcam os extremos. A esmagadora maioria dos arqueólogos, historiadores e biblistas se posiciona entre um e outro polo, combinando diferentes proporções das duas posturas, formando um espectro. Ainda, é comum uma abordagem basicamente minimalista para alguns períodos (como os patriarcas, êxodo e conquista) e maximalista para outros (monarquia unida e reinos de Israel e Judá), sendo o foco da discussão deslocado para definir a "fronteira" em que se vai adotar cada uma das posturas. Assim, uma visão típica do "centro" do espectro considera que a obra deuteronomista foi concluída no reinado do Rei Josias, no final do século VII AC, mas que incorpora material de crônicas reais e sacerdotais e tradições populares, que sofreram um profundo processo de reinterpretação teológica. Assim, o deuteronomista nos daria corretamente o "fluxo geral" e um esboço dos acontecimentos históricos [3].

Mas, se caminharmos do "centro" com direção ao lado minimalista do espectro, vamos ter os minimalistas moderados e os mais radicais (o Professor José Airton da Silva, faz uma excelente análise sobre o minimalismo e os minimalistas, e seus posicionamentos em seu site). Uma vez que são estudiosos com um grau maior de ceticismo quando ao valor histórico do texto bíblico, os critérios que utilizam identificar e extrair um eventual núcleo histórico das narrativas é de especial importância. De modo geral, os minimalistas mais radicais tendem a considerar que ainda que existam elementos históricos, sua identificação é quase impossível, em virtude, entre outras razões, do tempo transcorrido entre o evento e a narrativa (os estudiosos dessa corrente tendem a data o deutoronomista no período persa ou mesmo helenistico, cerca de 400 a 200 AC). Já os minimalistas mais moderados acreditam que é possível localizar esse núcleo histórico, e, como veremos, utilizam critérios muito semelhantes ao da diferença e do constrangimento da pesquisa neotestamentaria.

O Professor Lester L Grabbe, da Universidade de Hull, é uma autoridade em judaísmo antigo, e foi organizador do Seminario Europeu de Metodologia Histórica, que, em suas primeiras edições, reuniu os principais expoentes do movimento minimalista. Os trabalhos apresentados na 1ª edição do Congresso, ocorrido em Dublin (Irlanda), em 1996, formaram o livro "Can a History of Israel be Written", publicado em 2005. Nesse livro, Professor Grabbe defende a utilização de alguns critérios para identificar elementos históricos na obra deuteronomista, dentre os quais:

"Hints in the text which go contrary to its overall bias suggest some authentic information has survived the editorial process" [4]
(tradução) "Indicações no texto, que vão contra a sua tendência global sugere que alguma informação autêntica sobreviveu ao processo editorial"

Ou seja, o critério é definido de uma forma semelhante ao do constrangimento. Partes da narrativa que se opõem a tendência geral do relato, indica a existência de fatos históricos.

Mario Liverani, Professor de História do Oriente Próximo Antigo, da Universidade La Sapienza, em Roma, é outros dos estudiosos minimalistas moderados que tem proposto separar o núcleo histórico das narrativas vetero testamentárias. Ele acredita que os textos bíblicos foram compilados no período do exílio babilônico e persa. Liverani afirma que textos reais, sacerdotais, inscrições e tradições populares, provenientes principalmente do período entre a morte de Salomão e a queda de Jerusalém (587 AC), semelhantes em natureza aos registros de outros pequenos reinos da região, foi reinterpretada radicalmente de forma a dar sustentação ao programa ideológico e religioso de uma elite sacerdotal, que apresentava Israel como um povo divinamente escolhido. Assim teríamos uma história factual de pequenos reinos comuns, ordinários, "inflada" por perspectivas teológicas grandiosas.

Desta forma, Liverani utiliza um análogo do critério da diferença da igreja primitiva, agora como diferença ao viés da fonte narrativa, para analisar o período da I Idade do Ferro (Juízes e I e II Samuel). Os elementos que não atendem aos propósitos do grupo portador da tradição, não devem ter sido inventados e são provavelmente históricos.

"Nesse estado de coisas, houve por parte dos estudiosos posições opostas. Alguns utilizaram o quadro bíblico como documento histórico, sem se por (ou pondo-se de uma maneira totalmente formal) o problema de sua credibilidade, delineando um "período de Juízes" e uma "Liga das Doze Tribos" como realidades históricas indubitáveis. Outros estudiosos, diante do grande volume de problemas da tradição textual e de reelaboração tardia dos dados preferiram renunciar totalmente o uso de tais dados e tratar a Primeira Idade do Ferro como substancialmente pré histórica.

"Todavia, as deformações e as verdadeiras invenções contidas nos textos de longa tradição historiográfica tem motivações que condizem com certos elementos da tradição e não com outros (de caráter menos signifativos em relação aos problemas dos reelaboradores). Também a tipologia das deformações e das invenções é em parte indicativa: pode-se inventar uma história com personagens e motivos literários fabulosos (e disso se tem exemplos seguros), ao passo que é difícil inventar um cenário social que não tenha existido. Pode-se retrodatar (atribuindo-os a personagens notáveis da história passada ou do mito) leis que comportam escolhas "políticas" controversas, ou direitos de propriedade (e também deles temos exemplos seguros), mas ninguém teria motivo para inventar normas de direito conseutudinário sobre assuntos neutros ou politicamente irrelevantes.[5]"

Em minha opinião, a perspectiva minimalista e demasiada cética, e com o devido respeito a estudiosos do porte de Liverani e Grabbe, e apesar de sua moderação, ainda insatisfatória. No entanto sua erudição é notavel, e seu uso desses critérios históricos é extremamente interessante quando comparada ao Novo Testamento, demonstrando que mesmo partindo de uma perspectiva de desconfiança com a fonte e seus própositos, é possível estabelecer um dialogo de forma a extrair informações históricas e um "esboço" dos acontecimentos.

Exemplo 6: Tradições Orais dos povos do Centro-Sul da Africa

A análise das tradições orais é hoje um dos campos mais vibrantes da pesquisa histórica. Em muitas sociedades há transmição de elementos culturais unicamente na forma oral, de geração em geração, até que atingam a forma escrita. Como exemplos temos as sagas escandinavas, poemas épicos como Beowulf, os poemas homéricos como a Ilíada.

Uma das aplicações mais interessantes da análise das tradições orais, é na tentativa para a história de povos colonizados, antes da chegada dos europeus, de forma complementar a arqueologia. Por exemplo, o caso dos povos indígenas das américas, ou das populações subsaarianas.

Um dos principais expoentes nesse campo, é o Professor Jan Vansina, hoje no Departamento de Historia Africana da Universidade de Wisconsim Madison. Vansina desenvolveu métodos para utilizar as tradições orais correntes nos povos do Centro-Sul da Africa (Congo, Ruanda e Burundi), para escrever uma história desses povos anterior ao estabelecimento do domínio colonial belga (final do sec. XIX).

Assim, uma vez que esses povos não possuiam registros escritos, Vansina utilizou como matéria-prima seus contos e tradições, e lhe permitiram o desenvolvimento de um esboço da história do reino das tribos Kuba, que existiu do início do sec. XVII até o ano 1900, de seus fundadores, os reis Shyaam Ambul a Ngoong e Mboon aLeeng, e de como a o sub-grupo Bushongo atingiu a proeminência entre os Kuba.

Baseado em sua experiência, Vansina escreveu um manual de método histórico chamada "Oral Tradition as History". Entre os critérios históricos utilizados por Vansina está o do constrangimento, definido de forma quase idêntica ao da pesquisa neo-testamentária.

"On the other hand, sometimes it is possible to provide proof that a given tradition is unlikely to have been falsified. A Case in point is where a tradition contains features which are not in the accord with the purpose for which it is used. Such a bushongo tale about a battle which they lost and at which one of their kings was killed; or another which tell us the death of a King called Mboong aLeeng, who was ambushed by the enemy, and killed by a poisoned arrow. In neither of these tales are the facts likely to have been falsified. They are part of the tribal tradition, but are only transmitted in secret, precisely because they go against the purpose of the tradition, which is the enhancement of national prestige"[6].

(tradução) "Por outro lado, às vezes é possível demonstrar que pouco provável que uma dada tradição tenha sido simplesmente inventada. Um caso ilustrativo é o quando a tradição contém elementos que não estão em consonância com os fins para os quais ela é usada. Tal como um conto dos bushongo sobre uma batalha que eles perderam, e na qual um dos seus reis foi morto, ou outro que nos narra a morte de um rei chamado Mboong aLeeng, que foi emboscado pelo inimigo, e morto por uma flecha envenenada. Nesses relatos é improvável que fatos teham sido falsificados. Eles são parte da tradição tribal, mas só são transmitidos em segredo, justamente porque vão contra o propósito da tradição, que é reforçar o prestígio nacional " [6].

Vansina continua e pondera a possibilidade do evento supostamente constrangedor ou embaraçoso cumprir uma função na narrativa.

A Kuba tradition tells how the mother of King Shyaam was a slave, which means (since the Kuba are matrilineal) that there is a break in the dynastic line of sucession. it is, however, possible to argue that tales of this kind do not, after all, run so very much counter to the purposes for which they are used. The lost battle was a supernatural punishment, and the death of Mboong aLeeng fits in well with the account given of his life, just as does King Shyaam's ancestry with the account given of his. Mboong aLeeng is the prototype of the warrior, an Shyaam that of magician [6].

(tradução) Uma tradição Kuba conta que a mãe do rei Shyaam era uma escrava, o que implica que (uma vez que os Kuba são matrilineares), há uma ruptura na linha de sucessão dinástica. No entanto, seria possível argumentar que os contos desse tipo não vão assim tão contrariamente aos fins para os quais eles são usados. A batalha perdida foi um castigo sobrenatural, ea morte de aLeeng Mboong se encaixa bem com o relato de sua vida, assim como faz ascendência Rei Shyaam com o relato da sua. Mboong aLeeng é o protótipo do guerreiro, e Shyaam o do mágico [6].

No entanto, mesmo levando esses elementos em consideração, Vansina conclui que o constrangimento associado a esses relatos e o fato de que se opõem fortemente a próposito das narrativas, de glorificar o passado tribal e nacional, e forte indício de sua confiabilidade.

Nevertheless, the events recorded are intrinsically incompatible with the interests the tradition in question are supposed to defend. Similar examples abound. In Rwanda, for instance, the loss of the royal drum - symbol of the country unity - is remembered, and the death of several kings. In Burundi, it is admitted that a battle was lost and a king killed, etc. Here, too, the events described are diametrically counter to the purposes the tales are meant to fulfill, and a centain amount of embarrassment is noticiable whenever events of the kind are recalled. One may take it that traditions such as these can be relied upon" [6].

(tradução) No entanto, os eventos narrados são intrinsecamente incompatíveis com os interesses que a tradição em questão busca defender. Exemplos similares abundam. Em Ruanda, por exemplo, a perda do tambor real - o símbolo da unidade nacional - é lembrada, e a morte de vários reis. Em Burundi, se admite que uma batalha foi perdida e o rei morto, etc. Aqui, também, os eventos descritos opoem-se diametricamente com o propósito que a narrativa busca demonstrar, e um certo constrangimento é perceptivel sempre que eventos desse tipo são mencionados. Podemos, assim, considerar essas tradições como dignas de confiança.

Referências Bibliográficas
[1] Paul Veyne (2007), Quando nosso mundo se tornou cristão, fl. 88, e nota 9, fl. 89
[2] Gary Rensburg (1999) Down with History, Up with Reading: The Current State of Biblical Studies, http://jewish30yrs.mcgill.ca/rendsburg/index.html, acessado em 08.11.2010
[3] James D'Avila (2005) "Evidence for the first ("Solomonic") Temple", post de 12.08.2005, http://paleojudaica.blogspot.com/2005_08_07_archive.html, acessado em 09.11.2010
[4] Lester Grabbe (1997) Are Historians of Ancient Palestine Fellow Creatures ot Different Animals? In, Lester Grabbe (2005) Can a History of Israel be Written?, fl. 30
[5] Mario Liverani (2003) Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 89
[6] Jan Vansina, "Oral Tradition: A Study in Historical Methodology", page 83- 84

1 comentários:

informadordeopiniao disse...

Mais uma vez um explêndido apanhado, Nehemias!

Pra reforçar também deu deixo a indicação de um estudo com grande interface ao que Vansinas levanta, e que trabalha bem as questões, o de Maurice Halbwachs, "On Collective Memory".

http://www.press.uchicago.edu/presssite/metadata.epl?mode=synopsis&bookkey=56006

Grande abraço!

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