Introdução
Este é o segundo artigo no qual procuramos enfrentar as controvérsias envolvendo os textos de Mateus 24:36 e Lucas 22,43-44. O primeiro artigo de estudo pode ser encontrado aqui. Existem passagens do Novo Testamento que, embora breves, carregam consigo problemas capazes de atravessar séculos de interpretação cristã. Entre elas encontram-se Mateus 24,36 e Lucas 22,43-44. Na primeira, Jesus afirma que ninguém conhece o dia e a hora da manifestação do Filho do Homem, “nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão somente o Pai”. Na segunda, na tradição textual que conserva os versículos, Jesus, diante da proximidade de sua morte, recebe o fortalecimento de um anjo e entra em uma agonia tão intensa que seu suor é descrito como semelhante a gotas de sangue. São duas cenas distintas, mas ambas colocam diante do leitor uma questão semelhante: o que significa afirmar que aquele que é o Filho de Deus participou verdadeiramente da condição humana? Em Mateus, a dificuldade aparece no campo do conhecimento; em Lucas, no campo do sofrimento. O Filho não sabe aquilo que o Pai sabe; o Filho sofre diante da morte. E justamente por apresentarem aspectos da experiência humana de Jesus que poderiam parecer difíceis de conciliar com uma concepção elevada de sua divindade, essas passagens acabariam por ocupar lugar significativo no desenvolvimento das controvérsias cristológicas.
Não pretendemos, entretanto, partir dessas passagens diretamente para uma explicação das variantes textuais. Esse procedimento correria o risco de inverter a ordem da investigação. Antes de perguntar se determinado copista alterou um texto por razões cristológicas, é necessário compreender o campo histórico no qual questões dessa natureza se tornaram objeto de disputa. A realidade da carne de Cristo, seu nascimento, seu sofrimento, sua morte e sua relação com o Pai não foram questões formuladas apenas posteriormente pelos concílios. Elas já estavam presentes, sob formas diversas, nas comunidades cristãs dos primeiros séculos. Diferentes tradições procuravam responder a uma mesma questão fundamental: quem era, afinal, aquele Jesus que havia sido anunciado como Cristo e Filho de Deus? É nesse campo de disputas que devemos situar a tradição textual. Somente depois de compreender esse cenário poderemos retornar a Mateus 24,36 e Lucas 22,43-44 e perguntar se as controvérsias cristológicas ajudam, de fato, a explicar as diferenças encontradas nos manuscritos.
É preciso, desde logo, estabelecer uma distinção que será fundamental ao longo deste estudo. Uma passagem pode possuir grande importância para determinada controvérsia sem ter sido produzida por essa controvérsia. Pode ser utilizada posteriormente como argumento sem que tenha sido originalmente escrita com essa finalidade. Pode ainda ter sofrido alguma alteração por razões teológicas, mas esta possibilidade precisa ser demonstrada a partir da própria história da transmissão. Não basta, portanto, observar que uma determinada leitura favorece uma concepção de Cristo para concluir que foi criada para favorecê-la. A dificuldade teológica de um texto pode explicar sua alteração, mas não determina automaticamente o sentido dessa alteração. Uma passagem difícil pode ser suprimida; pode ser ampliada; pode ser harmonizada com outro evangelho; pode ser preservada justamente porque determinada comunidade a considerava importante. É entre essas possibilidades que a investigação precisa se mover.
I — PATRÍSTICA E O CAMPO DAS DIFERENTES CRISTOLOGIAS
1. A humanidade de Cristo como questão de disputa
A discussão acerca da humanidade de Jesus não nasceu quando a Igreja passou a formular, em linguagem filosófica, as categorias de natureza, pessoa e substância. Muito antes de Niceia e Calcedônia, as comunidades cristãs já se encontravam diante de uma dificuldade que não era meramente terminológica. Se Jesus era verdadeiramente o Filho de Deus, como compreender o fato de ter nascido, possuir um corpo, sentir fome, experimentar sofrimento e morrer? E, se todas essas coisas pertenciam efetivamente à sua existência histórica, de que maneira deveriam ser relacionadas à sua condição divina? A questão não era simplesmente saber se Jesus era humano ou divino. Tratava-se de compreender como essas duas afirmações poderiam permanecer juntas. A partir daí, nascimento, carne, sofrimento, morte e ressurreição deixaram de ser apenas acontecimentos da narrativa evangélica e passaram a participar de uma disputa mais ampla acerca da identidade de Cristo.
É justamente por isso que os testemunhos dos primeiros autores cristãos precisam ser lidos dentro de seu próprio contexto. Quando Inácio de Antioquia insiste na realidade da carne de Cristo, na realidade de seu nascimento, de seu sofrimento e de sua morte, não está simplesmente repetindo informações biográficas sobre Jesus. Está respondendo a um ambiente no qual essas afirmações possuíam consequências doutrinais. Aquele que sofreu na cruz precisava ser verdadeiramente aquele que havia assumido a condição humana. Se a carne fosse apenas aparência, também a paixão perderia sua realidade; e, se a paixão não fosse real, a própria compreensão cristã da salvação seria profundamente modificada.
Inácio é particularmente expressivo nesse ponto. Na Carta aos Esmirnenses, afirma que Cristo foi “verdadeiramente da descendência de Davi segundo a carne”, “verdadeiramente nascido de uma virgem” e “verdadeiramente crucificado por nós na carne” (INÁCIO DE ANTIOQUIA, Aos Esmirnenses, 1,1). Pouco depois, formula de maneira ainda mais explícita o contraste com aqueles que negavam a realidade da paixão: “Ele verdadeiramente sofreu, assim como também verdadeiramente ressuscitou” (INÁCIO DE ANTIOQUIA, Aos Esmirnenses, 2,1). A repetição do advérbio “verdadeiramente” não é casual. Ela funciona como mecanismo de afirmação da realidade histórica da existência corporal de Jesus.
A formulação de Inácio é particularmente importante para nossa investigação porque coloca nascimento, carne, sofrimento e ressurreição dentro de uma mesma cadeia argumentativa. Não se trata de afirmar simplesmente que Jesus possuía um corpo; trata-se de sustentar que os acontecimentos fundamentais da narrativa cristã ocorreram realmente nesse corpo. A encarnação e a paixão tornam-se, assim, inseparáveis. Aquele que sofre é o mesmo que nasceu; aquele que morreu é o mesmo que ressuscitou. A realidade do sofrimento torna-se parte da própria identidade de Cristo.
Em Irineu de Lião encontramos o desenvolvimento de uma perspectiva semelhante, embora inserida em uma construção teológica muito mais abrangente. A encarnação participa de sua compreensão da recapitulatio: o Filho assume a existência humana para restaurar a humanidade. A humanidade de Cristo não é, portanto, um elemento secundário. Ela está diretamente relacionada à própria lógica da salvação. Aquilo que não tivesse sido verdadeiramente assumido pelo Filho não poderia ser verdadeiramente restaurado. Em Contra as Heresias, Irineu vincula a encarnação à restauração daquilo que o Filho assume, afirmando que Cristo “recapitulou em si mesmo” aquilo que havia sido formado (IRENEU DE LIÃO, Contra as Heresias, III, 22,2). A humanidade de Cristo torna-se, nesse sentido, condição da própria economia salvífica.
Tertuliano, por sua vez, utiliza a realidade corporal de Cristo em sua controvérsia contra Marcião. O problema da carne deixa de ser apenas uma questão antropológica e passa a envolver a própria relação entre o Deus criador, a história de Israel e o Cristo anunciado pelos evangelhos. Em Contra Marcião, Tertuliano formula a questão de modo incisivo: se Cristo realmente foi crucificado, então realmente morreu; e, se realmente morreu, realmente ressuscitou (TERTULIANO, Contra Marcião, V, 5). A realidade da paixão torna-se, portanto, parte da própria estrutura do argumento cristológico.
Não é por acaso que a literatura cristã antiga insiste tantas vezes na realidade do sofrimento. A paixão não constituía simplesmente o episódio final da vida de Jesus. Ela era uma espécie de prova daquilo que cada tradição entendia por encarnação. O Cristo que sofre na cruz é também o Cristo que nasceu, que viveu entre os homens e que assumiu uma existência corporal. A maneira pela qual uma comunidade compreendia o sofrimento de Jesus revelava, em boa medida, aquilo que pensava sobre sua identidade.
2. Os possíveis adversários daquilo que posteriormente seria chamado de ortodoxia
É nesse contexto que devemos tratar das tendências posteriormente agrupadas sob a designação de docetismo. O termo é útil, mas precisa ser empregado com alguma cautela. Não estamos diante de uma única escola perfeitamente organizada, dotada de uma doutrina uniforme e facilmente identificável. A literatura cristã antiga apresenta diferentes concepções acerca da carne, do sofrimento e da humanidade de Cristo. Algumas parecem diminuir a realidade da experiência corporal de Jesus; outras enfatizam de maneira tão elevada sua condição divina que determinadas características humanas se tornam difíceis de integrar à sua identidade. É preferível, portanto, falar em tendências cristológicas concorrentes do que imaginar, para os primeiros séculos, uma oposição simples entre uma ortodoxia plenamente constituída e uma heresia igualmente organizada.
Esta precaução é importante porque existe uma tendência recorrente de projetar sobre o cristianismo dos primeiros séculos as categorias que somente posteriormente seriam estabilizadas. Quando olhamos retrospectivamente para Niceia, Constantinopla ou Calcedônia, podemos ser levados a imaginar que as fronteiras doutrinais sempre estiveram claramente estabelecidas. A história, entretanto, foi muito mais complexa. O que encontramos é um processo no qual diferentes comunidades, autores e tradições procuravam estabelecer os limites daquilo que consideravam uma compreensão adequada de Jesus. A chamada ortodoxia não apareceu pronta. Ela foi sendo construída também através do confronto com outras interpretações.
Nesse campo, a questão da humanidade de Cristo possuía importância particular. Uma cristologia que diminuísse a realidade da carne teria de explicar o significado do nascimento e da morte. Uma cristologia que enfatizasse de modo absoluto a divindade de Jesus teria de enfrentar os textos em que ele aparece submetido às limitações próprias da existência humana. E uma cristologia que insistisse na humanidade precisaria, por outro lado, explicar como essa humanidade poderia ser confessada sem diminuir a condição singular que lhe era atribuída.
É precisamente aí que determinadas passagens dos evangelhos poderiam adquirir uma importância especial. Um texto no qual Jesus sente fome, cansaço ou sofrimento poderia ser utilizado para defender a realidade de sua humanidade. Um texto no qual Jesus manifesta alguma limitação poderia ser mobilizado em uma discussão acerca de sua relação com Deus. Mas o mesmo texto poderia também provocar desconforto em comunidades que desejassem preservar uma concepção mais elevada de sua divindade. A passagem, portanto, não possui uma única função necessária. Seu significado depende também do campo no qual é lida.
Isso nos permite compreender por que Mateus 24,36 e Lucas 22,43-44 são tão interessantes. Nenhuma das duas passagens deve ser simplesmente classificada como “ortodoxa”, “docética”, “anti-docética” ou “anti-ariana”. Seria um anacronismo atribuir a textos do século I as categorias sistemáticas que seriam desenvolvidas posteriormente. O que podemos afirmar é algo mais modesto e, ao mesmo tempo, historicamente mais significativo: ambas contêm elementos que poderiam ser mobilizados nas disputas posteriores acerca da identidade de Jesus.
3. O Filho diante de sua própria humanidade
Em Mateus 24,36, o problema está concentrado em uma pequena expressão: οὐδὲ ὁ υἱός — “nem o Filho”. A frase estabelece uma diferença de conhecimento entre o Pai e o Filho. O Pai conhece o momento; o Filho não. Para uma leitura cristológica que desejasse enfatizar a humanidade de Jesus, a passagem poderia ser compreendida como testemunho de sua condição humana. Para uma leitura que considerasse incompatível com a divindade do Filho qualquer limitação cognitiva, a afirmação poderia parecer problemática.
Em Lucas 22,43-44, o problema assume outra forma. Jesus não apenas enfrenta a morte; ele experimenta uma angústia profunda diante dela. Recebe o fortalecimento de um anjo e seu sofrimento é descrito em termos corporais. Aqui, a humanidade de Jesus não aparece na forma de uma limitação intelectual, mas através do corpo e da emoção. O texto apresenta um Cristo que sofre.
Temos, portanto, duas imagens diferentes. Em Mateus, o Filho que não sabe. Em Lucas, o Filho que sofre. E ambas poderiam adquirir significado dentro do mesmo grande problema: como integrar a experiência humana de Jesus à sua condição de Filho de Deus?
Essa pergunta ajuda a explicar por que os textos sobre a humanidade de Cristo tiveram papel tão importante nas controvérsias dos primeiros séculos. Não se tratava de uma curiosidade biográfica. A questão estava relacionada à própria possibilidade da encarnação. Se Cristo não tivesse realmente assumido a condição humana, então sua experiência de sofrimento seria apenas aparente. Se tivesse assumido uma humanidade verdadeira, então seria necessário explicar de que maneira essa humanidade coexistia com sua condição divina.
É nesse ponto que a tradição patrística fornece o pano de fundo necessário para compreender o problema textual. Ela mostra que carne, sofrimento, morte e conhecimento não eram questões indiferentes. Eram elementos que poderiam ser utilizados na construção de diferentes imagens de Cristo.
Tabela 1 — As duas passagens e o problema cristológico
| Passagem | Elemento humano enfatizado | Dificuldade cristológica | Possível utilização na controvérsia |
|---|---|---|---|
| Mateus 24,36 | Limitação do conhecimento | Como o Filho pode não saber aquilo que o Pai sabe? | Humanidade de Cristo; relação entre conhecimento humano e condição divina |
| Lucas 22,43-44 | Agonia, sofrimento e vulnerabilidade corporal | Como o Filho pode experimentar angústia tão intensa? | Realidade da carne; realidade do sofrimento e da paixão |
| Mateus 24,36 + Lucas 22,43-44 | Conhecimento limitado e sofrimento real | Como integrar humanidade e condição divina? | Campo privilegiado para disputas cristológicas posteriores |
II — AS VARIANTES TEXTUAIS
4. Mateus 24,36 e a questão do “nem o Filho”
Voltemos agora à passagem de Mateus. O texto apresenta, em diversos testemunhos, a expressão “nem o Filho”. Em outros, essa expressão está ausente. A diferença parece pequena, mas possui consequências importantes. A presença da expressão atribui explicitamente ao Filho uma limitação de conhecimento; sua ausência elimina justamente essa dificuldade.
Bart D. Ehrman chamou atenção para a possibilidade de que uma alteração dessa natureza estivesse relacionada às controvérsias cristológicas. Se a expressão fosse original, sua ausência poderia ser explicada pelo desejo de evitar uma afirmação que parecesse diminuir a divindade de Cristo. O raciocínio é historicamente plausível. Copistas não eram pessoas isoladas de suas comunidades. Liam os textos dentro de ambientes nos quais determinadas questões doutrinais possuíam grande importância. Não seria impossível, portanto, que uma afirmação considerada teologicamente problemática tivesse sido modificada durante a transmissão.
Mas é justamente neste ponto que a questão precisa ser examinada com maior cuidado. A dificuldade cristológica explica por que alguém poderia ter retirado a expressão. Ela não demonstra que alguém efetivamente a tenha retirado. Para chegar a essa conclusão, precisamos considerar os demais testemunhos e perguntar se existe outra explicação capaz de dar conta da variante.
Daniel B. Wallace apresenta uma possibilidade importante nesse sentido. A forma curta poderia ser original em Mateus, enquanto a expressão “nem o Filho” teria sido posteriormente introduzida por assimilação ao texto de Marcos 13,32, onde ela aparece. A possibilidade de assimilação é particularmente relevante porque coloca diante de nós um mecanismo transmissional bastante conhecido: o copista, familiarizado com uma formulação paralela, reproduz em um evangelho aquilo que encontra em outro. Isso não significa, contudo, que as duas hipóteses possuam necessariamente o mesmo peso na avaliação da evidência textual; significa apenas que ambas precisam ser consideradas antes que se atribua à variante uma motivação exclusivamente cristológica.
A força dessa hipótese está justamente em sua simplicidade. Em vez de pressupor que o copista tenha identificado um problema teológico e deliberadamente removido uma expressão, ela parte de um fenômeno textual ordinário: a harmonização dos relatos paralelos. Isso não torna automaticamente correta a hipótese de Wallace, mas mostra que a explicação cristológica não pode ser tratada como única alternativa.
Bruce M. Metzger, ao avaliar a passagem, chama atenção justamente para o conjunto dos testemunhos e para os critérios próprios da crítica textual. A dificuldade teológica da leitura longa constitui um elemento que precisa ser considerado, mas não pode decidir sozinha a questão, pois a avaliação da variante depende da combinação entre a evidência externa e os argumentos internos que sustentam a leitura adotada.
Assim, Mateus 24,36 nos apresenta uma situação particularmente instrutiva. A controvérsia cristológica fornece um contexto histórico que torna inteligível a alteração. Mas o mesmo contexto pode ser utilizado para explicar movimentos textuais opostos. O problema não está, portanto, em saber se uma explicação teológica é possível. Ela é. A questão é saber se ela é a melhor explicação.
Tabela 2 — Mateus 24,36: duas hipóteses para a variante
| Hipótese | Leitura considerada anterior | Movimento textual | Explicação proposta |
|---|---|---|---|
| Ehrman | “nem o Filho” | Supressão | Eliminação de uma afirmação cristologicamente problemática |
| Wallace | Forma curta | Acréscimo | Assimilação de Mateus à formulação de Marcos 13,32 |
| Metzger | Avaliação textual | — | A decisão deve considerar conjuntamente evidência externa e interna |
A existência dessas duas hipóteses é metodologicamente decisiva. A dificuldade teológica da leitura longa não demonstra, por si só, que ela tenha sido eliminada. A presença de uma leitura paralela em Marcos também não demonstra, por si só, que ela tenha sido introduzida em Mateus por harmonização. A variante exige uma reconstrução histórica.
5. Lucas 22,43-44 e o Cristo em agonia
O caso de Lucas 22,43-44 é ainda mais complexo. Os dois versículos aparecem em determinados testemunhos e estão ausentes em outros. Sua presença apresenta uma descrição extraordinariamente concreta da agonia de Jesus. Um anjo o fortalece e seu suor é descrito como semelhante a gotas de sangue. Sua ausência, por outro lado, elimina uma das representações mais intensas do sofrimento de Jesus em todo o Novo Testamento.
A primeira possibilidade seria imaginar que os versículos tenham sido acrescentados justamente para reforçar a humanidade de Cristo. Esta é, em linhas gerais, a interpretação defendida por Ehrman. Diante de tendências que diminuíam a realidade da carne ou do sofrimento, uma tradição interessada em mostrar que Jesus realmente sofreu poderia ter desenvolvido ou incorporado uma passagem dessa natureza. O próprio Ehrman interpreta a passagem como uma alteração de caráter anti-docético, destinada a reforçar a realidade do sofrimento de Jesus.
A interpretação possui força porque se ajusta ao ambiente histórico que acabamos de descrever. Um Cristo verdadeiramente humano precisava sofrer verdadeiramente. Uma narrativa que mostrasse sua angústia poderia funcionar como resposta a concepções nas quais a paixão fosse apenas aparência.
Mas, novamente, é preciso considerar o movimento contrário. Lincoln H. Blumell chamou atenção para a possibilidade de que os versículos fossem antigos e que sua ausência em determinados testemunhos resultasse de uma posterior supressão. A questão é particularmente importante porque o testemunho manuscrito não é simplesmente uniforme em favor de uma das alternativas. Blumell observa a presença da passagem em um conjunto de testemunhos que inclui 0171, o que torna particularmente relevante sua antiguidade, ao mesmo tempo em que reconhece que outros testemunhos antigos a omitem.
Nesse caso, a mesma intensidade que para Ehrman poderia explicar a inclusão poderia explicar a exclusão. Uma descrição tão forte da angústia de Jesus poderia ser considerada problemática por uma comunidade que desejasse apresentar uma imagem menos vulnerável do Filho. A própria existência da variante demonstra, portanto, que a questão não pode ser resolvida apenas pela conveniência teológica de uma leitura.
O caso de Lucas é particularmente importante porque evidencia uma dificuldade metodológica ainda maior. Se a passagem foi acrescentada, precisamos explicar sua presença em testemunhos antigos e sua circulação relativamente ampla. Se era original, precisamos explicar sua ausência em outros testemunhos igualmente antigos e importantes. A explicação precisa dar conta do conjunto, e não apenas de uma parte da evidência.
Tabela 3 — Lucas 22,43-44: inclusão ou supressão?
| Hipótese | Leitura considerada anterior | Movimento textual | Explicação |
|---|---|---|---|
| Ehrman | Forma curta | Acréscimo dos vv. 43-44 | Reforço anti-docético da realidade da humanidade e do sofrimento de Jesus |
| Hipótese de supressão | Forma longa | Retirada dos vv. 43-44 | Redução de uma representação excessivamente vulnerável de Jesus |
| Blumell | Questão em aberto | — | A evidência manuscrita exige cautela e não resolve sozinha a direção da variante |
Blumell é especialmente importante porque sua análise impede que a leitura da passagem seja reduzida a um simples exemplo de “corrupção ortodoxa”. O título de seu estudo — Luke 22:43–44: An Anti-Docetic Interpolation or an Apologetic Omission? — já formula o problema de maneira exemplar: trata-se de uma interpolação anti-docética ou de uma omissão apologética? A própria formulação demonstra que o argumento teológico pode operar em direções opostas.
6. Ehrman, Metzger, Wallace e Blumell: quatro perspectivas sobre o mesmo problema
A comparação entre os pesquisadores revela que a controvérsia é mais profunda do que uma simples oposição entre aqueles que acreditam na influência da teologia sobre os copistas e aqueles que a rejeitam. Ehrman formula uma hipótese de grande alcance: determinadas alterações do texto do Novo Testamento podem ser compreendidas à luz das controvérsias cristológicas dos primeiros séculos. Essa hipótese chama nossa atenção para um aspecto que não pode ser ignorado: os textos eram transmitidos por comunidades concretas e essas comunidades estavam envolvidas em disputas concretas. Isso, contudo, não elimina a necessidade de considerar mecanismos transmissionalmente ordinários, como harmonização, expansão e omissão, nem permite atribuir automaticamente motivação teológica a toda variante que possua relevância cristológica. A teologia podia, portanto, participar da história textual. Sua tese geral em The Orthodox Corruption of Scripture consiste justamente em mostrar que determinadas alterações do texto do Novo Testamento podem ser compreendidas à luz das controvérsias cristológicas dos primeiros séculos.
Metzger, por sua vez, representa uma preocupação diferente. Ainda que uma variante possua evidente significado doutrinal, a reconstrução do texto precisa partir dos testemunhos e dos critérios da crítica textual. A dificuldade teológica pode ser um argumento importante, mas não pode substituir a avaliação da tradição manuscrita.
Wallace introduz outra dimensão no problema de Mateus 24,36. Antes de imaginar uma alteração deliberada para resolver uma dificuldade cristológica, devemos considerar os fenômenos ordinários da transmissão, entre eles a assimilação de uma passagem a outra. O fato de Marcos conservar de modo sólido a expressão “nem o Filho” torna particularmente relevante a possibilidade de que a leitura mateana mais longa tenha surgido por harmonização.
Blumell, em Lucas 22,43-44, reforça justamente a necessidade de examinar a direção da alteração. Não basta observar que os versículos possuem forte significado cristológico. É preciso saber se foram acrescentados ou retirados. A mesma dificuldade teológica pode sustentar explicações opostas.
Temos, assim, quatro perspectivas que não devem ser artificialmente transformadas em uma disputa entre “teólogos” e “textualistas”. O verdadeiro problema está na relação entre três elementos: o texto que recebemos, o contexto histórico no qual foi transmitido e as razões que poderiam explicar as diferenças entre os testemunhos.
Tabela 4 — Pesquisadores e hipóteses principais
| Pesquisador | Passagem / problema | Ênfase principal | Direção privilegiada |
|---|---|---|---|
| Bruce M. Metzger | Mt 24,36; Lc 22,43-44 | Avaliação dos testemunhos e critérios da crítica textual | Reconstrução crítica |
| Bart D. Ehrman | Mt 24,36; Lc 22,43-44 | Influência das controvérsias cristológicas | Supressão em Mt; acréscimo em Lc |
| Daniel B. Wallace | Mt 24,36 | Assimilação aos paralelos | Acréscimo em Mt |
| Lincoln H. Blumell | Lc 22,43-44 | Análise da tradição manuscrita e da direção da variante | Questionamento da explicação exclusivamente anti-docética |
O ponto mais interessante dessa disputa é que ela impede uma conclusão precipitada. Se admitirmos que os copistas podiam ser influenciados por suas convicções teológicas, ainda precisamos demonstrar que determinada variante nasceu dessa influência. Se, por outro lado, reconhecermos que erros, harmonizações e expansões eram comuns na transmissão, isso também não significa que as controvérsias teológicas fossem irrelevantes. A história concreta provavelmente envolve uma combinação de fatores, cuja importância precisa ser estabelecida em cada caso.
III — TEXTO, COMUNIDADE E TRANSMISSÃO
7. O texto como parte da história das comunidades
É preciso abandonar, portanto, a imagem do texto antigo como algo que circulava fora da história. Os evangelhos eram lidos, copiados, ensinados e discutidos por comunidades. Cada comunidade possuía sua própria experiência histórica e seus próprios problemas. O texto participava dessa vida comunitária.
Isso não significa, entretanto, que cada copista pudesse alterar livremente o que recebia. A tradição textual possui continuidades, e essas continuidades constituem justamente a base de nosso trabalho. O que encontramos é uma tensão permanente entre preservação e transformação. O texto é conservado, mas é também transmitido através de pessoas. E pessoas podem cometer erros, harmonizar passagens, acrescentar explicações, omitir expressões ou, em determinadas circunstâncias, intervir conscientemente na forma do texto.
Quando essa transmissão ocorre em meio a controvérsias, a situação torna-se ainda mais interessante. Uma passagem que apresenta Jesus como ignorante, angustiado ou corporalmente vulnerável pode adquirir uma importância particular. Pode ser citada para defender uma posição; pode ser discutida por outra comunidade; pode ser interpretada de maneira diferente por autores diferentes. O texto passa a fazer parte do campo da controvérsia.
Mas é justamente aqui que precisamos evitar uma conclusão fácil. Participar do campo da controvérsia não significa necessariamente ter sido produzido pela controvérsia. Uma passagem pode ser antiga e posteriormente utilizada como arma argumentativa. Pode também ter sido modificada durante a transmissão. As duas coisas são historicamente possíveis e não devem ser confundidas.
Essa distinção nos permite compreender melhor a relação entre cristologia e crítica textual. A cristologia nos ajuda a compreender por que determinado texto poderia ser sensível. A crítica textual nos ajuda a estabelecer o que aconteceu com o texto. Entre uma coisa e outra existe a investigação histórica, que procura saber se existe uma relação efetiva entre a disputa e a variante.
Tabela 5 — Três níveis da investigação
| Nível | Pergunta fundamental | Tipo de evidência |
|---|---|---|
| Cristológico | Por que determinada leitura poderia ser teologicamente sensível? | Patrística, controvérsias doutrinais, cristologias concorrentes |
| Textual | Qual leitura possui maior probabilidade de ser anterior? | Manuscritos, versões, citações patrísticas, evidência interna |
| Histórico | A controvérsia explica efetivamente a origem da variante? | Convergência entre contexto, direção da variante e mecanismos de transmissão |
Essa distinção evita tanto o reducionismo teológico quanto o reducionismo textual. A crítica textual não precisa negar a história das controvérsias; a história das controvérsias, por sua vez, não pode substituir a crítica textual.
8. A questão da direção da alteração
Este talvez seja o ponto mais importante de toda a discussão. Quando encontramos uma variante que possui significado teológico, somos naturalmente tentados a perguntar qual das leituras favorece melhor determinada doutrina. Mas essa pergunta, sozinha, é insuficiente. Precisamos perguntar qual leitura é anterior e qual é posterior.
No caso de Mateus 24,36, a dificuldade pode ser formulada de duas maneiras. Se “nem o Filho” é original, a ausência poderia representar uma tentativa de eliminar uma afirmação difícil. Se a forma curta é original, a expressão poderia ter sido acrescentada posteriormente, talvez sob influência de Marcos. A mesma preocupação cristológica aparece nos dois cenários, mas produz movimentos diferentes.
No caso de Lucas 22,43-44, ocorre algo semelhante. Se os versículos são secundários, sua presença poderia ser explicada pelo interesse em reforçar a realidade do sofrimento de Jesus. Se são originais, sua ausência poderia ser explicada pelo desejo de reduzir justamente essa representação de sua vulnerabilidade.
Isso mostra que não existe uma relação automática entre teologia e direção da variante. O argumento “essa leitura é mais humana, portanto foi acrescentada para humanizar Jesus” é insuficiente. Também seria insuficiente afirmar “essa leitura é mais difícil para uma concepção elevada de Cristo, portanto foi retirada por motivos doutrinais”. Ambas as afirmações precisam ser demonstradas.
A questão histórica é mais exigente: qual cenário explica melhor o conjunto dos testemunhos? Somente depois de responder a essa pergunta podemos atribuir maior peso a uma explicação teológica.
Tabela 6 — A direção da variante como problema metodológico
| Pergunta | Mateus 24,36 | Lucas 22,43-44 |
|---|---|---|
| O que torna a passagem difícil? | O Filho não conhece o momento conhecido pelo Pai | Jesus sofre e precisa ser fortalecido por um anjo |
| Alteração possível 1 | Supressão de “nem o Filho” | Acréscimo dos vv. 43-44 |
| Alteração possível 2 | Acréscimo por harmonização com Marcos | Supressão dos vv. 43-44 |
| Problema central | Qual leitura é anterior? | Qual leitura é anterior? |
| Consequência metodológica | Teologia não determina sozinha a direção | Teologia não determina sozinha a direção |
9. Possibilidade, plausibilidade e demonstração histórica
Chegamos, assim, a uma distinção que consideramos indispensável. Há uma diferença entre aquilo que é possível, aquilo que é plausível e aquilo que pode ser considerado demonstrado.
É possível que uma controvérsia cristológica tenha influenciado determinada variante. Sabemos que existiam controvérsias e sabemos que os textos eram transmitidos por comunidades inseridas nessas controvérsias.
É plausível sustentar essa influência quando encontramos uma relação particularmente estreita entre o conteúdo da variante e uma questão doutrinal em discussão, sobretudo quando outras explicações transmissionalmente simples não dão conta satisfatoriamente do fenômeno.
Mas demonstrar historicamente essa influência é outra coisa. Para tanto, precisamos estabelecer uma sequência argumentativa mais exigente: o texto precisa possuir determinadas características; a alteração precisa ser historicamente possível; os testemunhos precisam permitir a reconstrução de sua direção; e a explicação teológica precisa ser mais convincente do que as alternativas disponíveis.
Essa distinção é importante porque evita dois exageros opostos. O primeiro consiste em negar qualquer influência teológica sobre os copistas, como se a transmissão tivesse ocorrido em um ambiente completamente neutro. O segundo consiste em atribuir toda variante teologicamente significativa a uma intervenção doutrinal consciente. Nenhum dos dois extremos faz justiça à complexidade da tradição textual.
A história da transmissão foi feita por pessoas inseridas em comunidades. Essas pessoas podiam errar, harmonizar, explicar, omitir ou modificar. Algumas dessas ações podiam possuir razões teológicas; outras provavelmente não. O trabalho do pesquisador é justamente procurar distinguir umas das outras.
Tabela 7 — Possível, plausível e demonstrado
| Categoria | Significado | Aplicação ao problema |
|---|---|---|
| Possível | Não contradiz o contexto histórico conhecido | Copistas poderiam alterar textos por razões cristológicas |
| Plausível | Possui boa capacidade explicativa diante das evidências | Uma variante pode ser relacionada a uma controvérsia específica |
| Demonstrado | A evidência permite estabelecer a explicação com elevado grau de segurança | Exige convergência entre testemunhos, direção da variante e contexto histórico |
IV — AS DUAS PASSAGENS NO CAMPO DA CRISTOLOGIA ANTIGA
10. Duas passagens e um mesmo problema
Quando colocamos Mateus 24,36 e Lucas 22,43-44 lado a lado, percebemos algo que vai além das duas variantes consideradas isoladamente. Ambas apresentam características da humanidade de Jesus que poderiam gerar dificuldades em determinados contextos cristológicos.
Mateus apresenta o Filho que não conhece aquilo que o Pai conhece. Lucas apresenta o Filho que sofre diante da morte. Um texto toca o conhecimento; o outro, o corpo. Um coloca diante do leitor uma limitação cognitiva; o outro, uma vulnerabilidade física e emocional. Mas ambos participam de uma mesma questão histórica: como falar do Jesus humano quando se confessa simultaneamente sua condição singular como Filho de Deus?
A patrística demonstra que essa pergunta estava longe de ser irrelevante. Inácio insiste na carne e na paixão; Irineu integra a humanidade de Cristo à própria economia da salvação; Tertuliano utiliza sua realidade corporal na disputa contra Marcião. Outros autores e tradições seguiram caminhos diferentes. A cristologia antiga não foi construída em um ambiente de consenso absoluto. Ela nasceu também do confronto.
Nesse sentido, a existência das variantes não deve surpreender. O que surpreenderia seria imaginar que textos capazes de tocar diretamente em questões tão importantes permanecessem completamente indiferentes às disputas nas quais eram lidos. O que não podemos fazer é transformar essa constatação em uma explicação automática para cada diferença textual.
Tabela 8 — Da cristologia à transmissão textual
| Elemento | Mateus 24,36 | Lucas 22,43-44 |
|---|---|---|
| Problema narrativo | Jesus não conhece o dia e a hora | Jesus experimenta profunda agonia |
| Aspecto humano | Conhecimento limitado | Sofrimento corporal e emocional |
| Possível dificuldade doutrinal | Relação entre ignorância e divindade | Relação entre sofrimento e divindade |
| Testemunho patrístico relevante | Discussões cristológicas sobre conhecimento e filiação | Tradições antigas sobre a paixão e a realidade da carne |
| Problema textual | Presença/ausência de “nem o Filho” | Presença/ausência dos vv. 43-44 |
| Explicação teológica possível | Supressão ou acréscimo | Acréscimo ou supressão |
| Conclusão metodológica | Não basta o argumento teológico | Não basta o argumento teológico |
Conclusão
A investigação começou com duas imagens simples e, ao mesmo tempo, profundamente significativas: o Filho que não sabe e o Filho que sofre. Em Mateus, Jesus aparece como aquele que não conhece o momento que o Pai conhece. Em Lucas, na tradição que conserva os versículos 43-44, aparece como aquele que enfrenta a morte em profunda agonia. Em ambos os casos, a narrativa apresenta aspectos da experiência humana de Jesus que poderiam assumir importância particular no desenvolvimento das cristologias antigas.
A literatura patrística mostra que essa importância não era imaginária. A realidade da carne, do nascimento, do sofrimento e da morte de Cristo estava no centro de disputas que ajudariam a formar as fronteiras posteriores da ortodoxia. Inácio, Irineu e Tertuliano não escrevem a partir de um campo doutrinal já inteiramente estabilizado. Eles participam da construção desse campo. Respondem a adversários, delimitam posições e procuram estabelecer qual compreensão de Cristo deve ser aceita por suas comunidades.
Inácio de Antioquia é especialmente revelador porque insiste na realidade da existência corporal de Cristo justamente nos pontos em que essa realidade poderia ser negada. Ele afirma que Cristo foi “verdadeiramente” nascido, “verdadeiramente” crucificado e que “verdadeiramente sofreu” (INÁCIO DE ANTIOQUIA, Aos Esmirnenses, 1–2). A insistência não é meramente devocional. Ela constitui uma estratégia de delimitação cristológica: o Cristo cuja paixão salva é aquele que efetivamente sofreu. A carne não é um detalhe periférico; ela integra a própria afirmação cristã acerca da identidade de Jesus.
Irineu desenvolve uma lógica semelhante em chave soteriológica. A encarnação é compreendida como parte da recapitulatio, isto é, da ação pela qual o Filho assume e restaura a humanidade. O corpo de Cristo participa, portanto, da economia da salvação. Tertuliano, na controvérsia contra Marcião, emprega a realidade da crucificação, morte e ressurreição como argumento contra uma concepção que separasse radicalmente o Cristo do Deus criador. Esses testemunhos mostram que a realidade humana de Jesus estava longe de ser uma questão secundária.
É justamente nesse cenário que as variantes textuais adquirem interesse. Ehrman chama nossa atenção para a possibilidade de que as controvérsias cristológicas tenham deixado marcas na transmissão do Novo Testamento. Sua tese é importante porque nos obriga a abandonar a imagem de copistas completamente indiferentes ao significado dos textos que copiavam. Metzger, entretanto, lembra que a crítica textual precisa permanecer vinculada aos testemunhos. Wallace mostra que, em Mateus 24,36, uma explicação transmissional como a assimilação a Marcos não pode ser simplesmente descartada. Blumell, em Lucas 22,43-44, mostra que a própria direção da alteração precisa ser discutida.
A disputa entre esses pesquisadores revela, portanto, algo mais importante do que a escolha de uma interpretação particular. Ela demonstra que a relação entre cristologia e transmissão textual é possível, historicamente inteligível e, em determinados casos, bastante plausível. Mas também demonstra que essa relação não pode ser presumida. O significado teológico de uma leitura não determina automaticamente sua origem. Uma passagem pode ser preservada porque serve a determinada teologia; pode ser acrescentada porque responde a uma necessidade doutrinal; pode ser retirada porque provoca dificuldade; ou pode simplesmente ter sofrido uma alteração comum da transmissão manuscrita.
O caso de Mateus 24,36 é exemplar. A expressão “nem o Filho” pode ser vista como uma afirmação difícil que teria sido eliminada por razões cristológicas. Mas também pode representar uma leitura posterior que entrou no texto por assimilação ao evangelho de Marcos. A existência dessa possibilidade é reforçada pelo fato de a formulação correspondente estar solidamente atestada em Marcos 13,32. O problema, portanto, não é decidir qual explicação parece mais interessante do ponto de vista teológico, mas determinar qual delas explica melhor a tradição textual.
O caso de Lucas 22,43-44 é igualmente revelador. A intensidade do sofrimento de Jesus poderia ter motivado uma expansão destinada a reforçar sua humanidade; mas essa mesma intensidade poderia ter provocado sua posterior supressão. A evidência manuscrita é complexa: a passagem está ausente em testemunhos antigos importantes, mas também aparece em testemunhos antigos, entre os quais 0171, o que impede que sua história seja reduzida a uma simples e tardia interpolação.
É justamente por isso que precisamos distinguir o campo da controvérsia da história da variante. O primeiro nos permite compreender por que determinada passagem poderia ser importante. A segunda exige que investiguemos os testemunhos, a distribuição das leituras, as características internas do texto e os mecanismos pelos quais uma forma poderia ter dado origem à outra. Uma coisa não substitui a outra.
Não devemos, portanto, imaginar que a crítica textual e a história das cristologias caminhem por estradas completamente separadas. Elas se encontram no momento em que percebemos que os textos eram transmitidos por comunidades concretas, em meio a disputas concretas, e que aquilo que essas comunidades pensavam acerca de Jesus poderia influenciar a maneira como determinados textos eram lidos e, em certas circunstâncias, transmitidos. Mas esse encontro precisa ser demonstrado caso a caso.
A grande contribuição dessa perspectiva talvez esteja justamente em impedir respostas fáceis. Não basta perguntar qual leitura é mais conveniente para uma determinada cristologia. Também não basta perguntar qual leitura parece mais estranha e, por isso, supor que seja automaticamente original. A história é mais complexa. O texto passa pelas mãos de comunidades, atravessa controvérsias, é copiado, interpretado, harmonizado e preservado. E cada uma dessas etapas pode deixar suas próprias marcas.
O Filho que não sabe e o Filho que sofre permanecem, assim, como duas testemunhas particularmente expressivas de uma questão que atravessou os primeiros séculos do cristianismo: como confessar simultaneamente a humanidade real e a condição divina de Jesus? As respostas dadas a essa pergunta foram diversas, e foi precisamente através do confronto entre elas que aquilo que posteriormente seria chamado de ortodoxia ganhou forma.
A transmissão dos textos participou dessa história, mas não deve ser confundida com ela. O texto pode entrar na controvérsia; a controvérsia pode influenciar o texto. Contudo, entre uma possibilidade e uma conclusão histórica existe todo um caminho de investigação.
Uma coisa é reconhecer que determinado texto participa do campo das disputas cristológicas. Outra, muito diferente, é afirmar que a disputa cristológica produziu aquele texto.
É justamente nessa diferença que se encontra o espaço próprio da crítica histórica.
APÊNDICE — QUADROS SINTÉTICOS
Apêndice A — Matriz comparativa das duas variantes
| Critério | Mateus 24,36 | Lucas 22,43-44 |
|---|---|---|
| Texto em questão | “nem o Filho” | Anjo e agonia de Jesus |
| Problema cristológico | Conhecimento limitado | Sofrimento intenso |
| Leitura longa | Inclui “nem o Filho” | Inclui vv. 43-44 |
| Leitura curta | Omite “nem o Filho” | Omite vv. 43-44 |
| Hipótese anti-cristológica | Supressão da expressão | Supressão da passagem |
| Hipótese pró-humanidade | — | Acréscimo da passagem |
| Hipótese de harmonização | Acréscimo a partir de Marcos | — |
| Principal questão | Direção da alteração | Direção da alteração |
Apêndice B — Patrística e humanidade de Cristo
| Autor | Obra | Elemento cristológico | Relação com o problema |
|---|---|---|---|
| Inácio de Antioquia | Aos Esmirnenses | Nascimento, carne, paixão e ressurreição reais | Reforça a realidade corporal de Cristo contra tendências docéticas |
| Irineu de Lião | Contra as Heresias | Encarnação e recapitulatio | A humanidade assumida pelo Filho integra a economia da salvação |
| Tertuliano | Contra Marcião | Nascimento, crucificação, morte e ressurreição | A realidade da carne sustenta a continuidade entre criação, encarnação e salvação |
Apêndice C — Critério de avaliação das hipóteses
| Etapa | Pergunta |
|---|---|
| 1. Evidência externa | Quais manuscritos, versões e citações antigas sustentam cada leitura? |
| 2. Evidência interna | Qual leitura explica melhor o estilo e o contexto imediato? |
| 3. Direção da variante | É mais plausível explicar a passagem longa a partir da curta ou a curta a partir da longa? |
| 4. Contexto cristológico | Havia controvérsias capazes de tornar a passagem teologicamente sensível? |
| 5. Mecanismo transmissional | Existe um mecanismo concreto que explique a alteração? |
| 6. Convergência | A explicação teológica é superior às explicações transmissionalmente ordinárias? |
| 7. Grau de certeza | A conclusão é possível, plausível ou historicamente demonstrável? |
REFERÊNCIAS
BLUMELL, Lincoln H. Luke 22:43–44: An anti-docetic interpolation or an apologetic omission? TC: A Journal of Biblical Textual Criticism, v. 19, 2014. DOI: 10.15699/tc.19.2014.01.
EHRMAN, Bart D. The Orthodox Corruption of Scripture: The Effect of Early Christological Controversies on the Text of the New Testament. New York: Oxford University Press, 1993.
EHRMAN, Bart D.; PLUNKETT, Mark. The angel and the agony: the textual problem of Luke 22:43-44. New Testament Studies, v. 31, n. 2, 1985.
IGNATIUS OF ANTIOCH. The letters of St. Ignatius of Antioch. In: HOLMES, Michael W. (ed.). The Apostolic Fathers: Greek Texts and English Translations. 3. ed. Grand Rapids: Baker Academic, 2007.
IRENAEUS OF LYONS. Against Heresies. In: ROBERTS, Alexander; DONALDSON, James; COXE, Arthur Cleveland (eds.). Ante-Nicene Fathers. Peabody: Hendrickson, 1994.
METZGER, Bruce M. A Textual Commentary on the Greek New Testament. 2. ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1994.
TERTULLIAN. Against Marcion. In: ROBERTS, Alexander; DONALDSON, James; COXE, Arthur Cleveland (eds.). Ante-Nicene Fathers. Peabody: Hendrickson, 1994.
WALLACE, Daniel B. Greek Grammar Beyond the Basics: An Exegetical Syntax of the New Testament. Grand Rapids: Zondervan, 1996.
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