Estudos sobre Religião - Biblioblog

domingo, 8 de julho de 2012

Neste nosso trabalho visamos apresentar o arcabouço epistemológico e metodológico do programa de pesquisa de Nicholas Thomas Wright para o estudo histórico das Origens Cristãs. Daremos um panorama geral, apresentaremos os postulados básicos tendo em vista disponibilizar os instrumentos para o exercício a quem se interessar por suas propostas, e brevemente, indicarmos alguns resultados a que ele chega. Trarei para colaboração um resumo de uma abordagem que julgo ter alguns bons paralelos, descontando o interesse sobremaneira diverso, para o leitor poder julgar por si se os instrumentos que Wright oferece são apropriados e úteis dentro da consideração pelo rigor crítico.

**Obs. Como o presente autor procedeu em outra ocasião, por questões de espaço/tamanho, realizara a tradução livre direta das citações em inglês - reportando a fonte. Reafirma como da outra vez que com prazer pode repassar, já que são citações breves, a parte original em inglês de onde extraira caso seja solicitado.

N. T. Wright, também conhecido como Tom Wright, é mais famoso no Brasil como um dos expoentes da chamada “Nova Perspectiva” sobre os estudos de Paulo. Contudo, ele é internacionalmente reconhecido como exímio debatedor e acadêmico dos estudos sobre Origens Cristãs e Jesus Histórico. Em sua formação inclui-se estudos em Literatura Clássica, Filosofia e História no Exeter College, em Oxford, onde também cursara teologia e também “Divindades”, também em Durham e St. Andrews. De 2003 até se aposentar em 2010 fora Bispo de Durham da Igreja Anglicana. Foi professor das universidades de Cambridge e Oxford por vinte anos, professor visitante de universidades como Harvard Divinity School, nos Estados Unidos, Universidade Hebraica de Jerusalém e Universidade Gregoriana em Roma.

Duas de suas mais importantes obras para os propósitos de nosso empreendimento aqui são os livros “The New Testament and the People of God” e “Jesus and the Victory of God”, os dois primeiros volumes da série: Christian Origins and the Question of God. London: SPCK; Minneapolis: Fortress.

Wright situa a matriz explicativa para o despontar do cristianismo dentro de um “quadro de referencia narrativo”, um grande raconto alimentado no incitamento de oferecer respostas para a expectativa do futuro diante da memória histórica e condição social relacionados aos mesmos fatores histórico-políticos. O cristianismo foi uma irrupção de uma maneira de estar no mundo, eclodida dentro de um caldo fervilhantes de diversas outras maneiras na fonte comum do Judaísmo do Segundo Templo. O arrabalde cultural carregado de teologia, que era a luz sob a qual o povo se interrogava sobre sua identidade e seu destino.

A visão de mundo básica, referenciada na história – passada, presente, possibilidades ( e ansiedades) futuras – e ultrapassando-a, articulava símbolos, costumes, narrativas, perguntas e respostas. Wright delineia essa busca em termos de: “Quem somos? Onde estamos? O que está errado? Qual a solução? Como virá?”

Interessante é que tomando este ponto de partida, vemos como apropriadamente serve para contemplar a característica narrativa dos evangelhos tratando-a adequadamente no momento que se toma como fonte para o estudo histórico crítico. É algo que o eminente filósofo Alasdair MacIntyre, chama a atenção:
O que chamo de história é uma narrativa dramática encenada, na qual os personagens também são autores. Os personagens, naturalmente, nunca começam literalmente ab initio; eles mergulham, in medias res, o iniciar de sua história já feito para eles por quem ou pelo quê passou por lá anteriormente.
(...)
O homem é, em seus atos e trabalhos, bem como em suas ficções, essencialmente um animal narrador de histórias. Não é, em essência, mas se torna no decorrer de sua história, um contador de histórias que aspiram à verdade. Mas a questão principal não é sobre sua própria autoria; somente posso responder à questão ‘O que devo fazer?’ se souber responder ao questionamento: ‘De que história ou histórias eu estou fazendo parte?’ [1]
Tom Wright advoga que a memória coletiva dos judeus ainda era marcada por um senso de continuarem no “Exílio”, sendo que mesmo após o retorno do cativeiro babilônico, continuaram dominados por nações estrangeiras, se debatendo sobre o porvir das promessas proféticas de Isaías, Ezequiel, etc., que do contrário estariam frustradas. Assim, aguardava-se a forma como YWHW iria intervir para novamente libertar e restaurar seu povo, tal como no Pentateuco. Wright aponta algumas referências na literatura do Judaísmo do Segundo Templo, como o livro de Baruc e os capítpulos 13 e 14 do livro de Tobias. 

 Assim, as respostas para as questões básicas levantadas giravam em torno de: “Nós somos Israel, o verdadeiro povo do deus criador; nós estamos em nossa terra (e/ou dispersos fora de nossa terra); nosso deus ainda não nos restaurou completamente como um dia o fará; portanto, nós buscamos restauração, que incluirá a justiça de nosso deus sendo exercida sobre as nações pagãs.”  [2]

Nuances de amplo espectro se davam entre diferentes grupos dentro do judaísmo. Era muito forte e intensa a expectativa de haveria uma vindicação do povo pela divindade israelita, com uma ação com impacto em todo o mundo e um grande julgamento final dos seres humanos. [3]

Tal maneira de pautar um programa de estudo histórico pode causar um estranhamento. Talvez essa abordagem enquadrando em um “grande quadro narrativo” retire o rigor científico minucioso; talvez esteja por demais configurado por e mergulhado em temáticas teológicas e assim constituir-se-ia uma agenda teleológica. Como Craig Keener acentua nesta entrevista:
Tom é mais sintético: ele brilhantemente reúne um vasto conjunto de ideias e vê como elas se encaixam. Eu faço um pouco disso, mas acho que sou uma pessoa mais detalhista: eu gasto muito tempo matutando através de textos antigos individuais e vendo onde a evidência me leva. Tom é muitas vezes mais diretamente teológico, eu sou quando eu prego, mas em alguns dos meus trabalhos acadêmicos despendo muito tempo em detalhes históricos. Eu acho que Tom também se concentra mais na leitura do Novo Testamento através da lente do Antigo Testamento.  
Eu gostaria de contribuir para nos ajudar com tais dúvidas, tratando de uma abordagem de um cientista social com formação e interesse totalmente diverso, a respeito de um tema histórico completamente diferente. Peço licença para fazer uma divagação por um assunto de interesse distante da proposta do blog, mas que nos ajudaria a captar melhor a propriedade desta proposta do Wright, para quem quiser fomentar a análise crítica.


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Immanuel Wallerstein e o aflorar ideológico da Modernidade

 Immanuel Wallerstein teve como formação o B.A. (1951), M.A. (1954) e Ph.D. (1959) na Universidade de Columbia, Nova Iorque; fora professor distinto de sociologia da Universidade de Binghamton (SUNY) de 1976 até sua aposentadoria em 1999, além de chefe do Centro Fernand Braudel para o Estudo das Economias, Sistemas históricos e Civilizações até 2005.

Wallerstein ocupou vários cargos como professor visitante em universidades em todo o mundo, recebeu vários títulos honoríficos, de forma intermitente serviu também como Directeur d'Études Associé na École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris, foi presidente da Associação Internacional de Sociologia entre 1994 e 1998. Durante os anos 1990 , ele presidiu a Comissão Gulbenkian sobre a Reestruturação das Ciências Sociais. Em 2000 ingressou no Departamento de Sociologia de Yale como Pesquisador Sênior. Em 2003 recebeu o Prêmio Career of Distinguished Scholarship dos Estados Unidos. Sua grande contribuição revolucionária para o mundo do conhecimento das Ciências Sociais foi como, a partir da sistematização e reformulação de categorias de Karl Marx,  Nikolai Kondratiev, Max Weber, Karl Polanyi, Fernand Braudel, da Teoria da Dependência, dos estudos do pós-colonialismo, criador da Análise de Sistemas-mundo

O cientista social engendra uma explicação para o irromper de três movimentos ideológicos marcantes do mundo moderno: o conservadorismo, o liberalismo e o socialismo. A apresenta dentro de um plano maior que contempla uma grande narrativa que combina revoluções estruturais na história que perpassavam preocupações, angústias e aspirações no imaginário e no inconsciente coletivo das pessoas do ambiente social e cultural de onde irromperam. Ele situa esta emergência em um intervalo que compreende o período em torno da Revolução Francesa. E que esta se dera, concomitante, no mesmo bojo , tendo um suscitado e desencadeado outro. Foram as racionalizações de respostas que se fizeram necessárias a temas cuja resolução exigia uma postura social e programas políticos, sendo que não se engendrara, porém, apenas como questão intelectual, mas de alternativas sociais e existenciais para as pessoas. Dentre a vasta obra, dois artigos podem ser selecionados para nossos fins. “The West, capitalism, and the modern world-system”, e “The French Revolution as a World-historical Event. In Unthinking Social Science: The Limits of Nineteenth-century Paradigms”. 

Seu raciocínio é desenvolvido apontando que a partir do século XVI irrompera um novo Sistema Histórico, o Capitalismo Histórico. Um "sistema histórico" se constrói de vários tipos de instituições as quais governam, ou moldam a ação social de forma a manter e operar os mecanismos básicos deste sistema, proporcionar relativa coesão social entre pessoas e grupos para que o comportamento seja compatível com esse sistema no grau mais ótimo possível, em torno de uma divisão do trabalho que lhe permite sustentar-se e reproduzir-se. Articula assim essas instituições, que agem reciprocamente de maneira econômica, política, sociocultural, de forma que o sistema “funcione em essência em termos das consequências de seus processos internos". [4]

Este sistema viera se formatando a partir de processos já desencadeados em que o autor destaca as cidades-estado italianas e o centro financeiro em flandres. E a grande irrupção adviera com os empreendimentos de grandes navegações e a chegada europeia nas Américas. Na mesma zona geocultural onde então predominavam os sistemas feudais, estes foram substituídos pelo Capitalismo Histórico. Nos padrões de mudanças de sistema que o autor articula, o que ocorrera fora que o sistema anterior ao capitalismo histórico experimentara a falência das estruturas e tendências seculares que garantiam a viabilidade renovada de suas instituições, não podendo mais fazer “os ajustes necessários para continuar operando segundo suas próprias regras”. 

Três instituições-chave entraram em colapso: o Senhorio, os arranjos estamentais, a igreja. “De um modo geral, as estruturas políticas estavam a tornar-se mais fracas, e a sua preocupação com as lutas internas dos politicamente poderosos significava que pouco tempo restava para reprimir a força crescente das massas da população. O cimento ideológico do catolicismo estava sujeito a uma grande tensão”. Convulsões demográficas desestabilizavam o sistema de servidão na terra dos senhores feudais, além de insurreições camponesas. As lutas entre as nobrezas mais a queda na arrecadação colapsaram os estados reais; isto enfraqueceu também economicamente a igreja, gerou dificuldade de sustentar sua autoridade ao mesmo tempo que fomentou grupos libertários no seu interior. 

Immanuel Wallerstein aponta que normalmente na história, sistemas assim desmoronam e os estratos governantes se renovam devido, mais frequentemente, a conquista externa ( um parâmetro que poderia servir para analisar a história judaica). Não tendo sido possível, e com o colapso do papel destas instituições no feudalismo, um fator emergente que assumira preponderância fora o “capital”. Passou a ser uma força de motivação social e dinâmica econômica à medida que firmou-se a característica primária de ser acumulativo autorreplicante, rompendo todos os constrangimentos culturais. O grande fator a destravar qualquer instituição inibidora para a “Mudança Social” e a mais potente “força motivadora”. [5]

O que fora catalizado então se estabelecera como elemento aglutinador da "geocultura", segundo o autor, com a eclosão da Revolução Francesa. É a questão definidora de como o autor delineia a “Modernidade”, como uma combinação de uma determinada realidade social com uma determinada “Weltanschauung”, ou visão de mundo geral. A Revolução Francesa fora assim um “ponto de inflexão” no qual se gerara respostas, em forma de programas socioculturais, à pautas civilizatórias para o horizonte, de forma a propiciar a realização das pessoas na sociedade; pautas estas: a “Mudança social, estabelecida agora como algo 'normal', 'inevitável' ”; a questão da legitimidade do poder político, ou 'a questão da soberania'."

A resposta inovadora viera nos tons dos apelos ao “progresso” e à “soberania popular”. E as três ideologias se concatenaram como respostas diferentes dadas a estas questões. Para o “Conservadorismo”, a mudança social poderia representar um perigo se não fosse bem “circunscrita” e limitada; para o “Liberalismo” [político], ela deveria ser administrada tecnicamente; para o “Socialismo”, deveria ser acelerada com luta política. Os liberais tenderam a representar o “povo” com a figura abstração do “indivíduo” em suas competências; os conservadores, em termos dos grupos “tradicionais” em graus hierárquicos na sociedade; os socialistas (antes, chamados "democratas"), em termos mais totalizantes e universais, embora enfatizando o recorte dos trabalhadores não-capitalizados. [6]

Enfim, para o interesse estrito da nossa apresentação, é importante destacar que, a despeito das grandes diferenças, vemos paralelos em dois tratamentos de origens de grandes movimentos socioculturais em reação a memórias históricas dentro de realidades sociais, em busca de configurar um cenário para o futuro. O autor trabalhou com um amplo plano temporal de escala analítica para analisar o que suscitara as inquietações e anseios a que os movimentos ofereceram como resposta para o povo.  Chama a atenção o quanto, considerando a matéria histórica tratada, o período, o foco e o fenômeno histórico, impera a necessidade de não somente ter sensibilidade para, diálogo com, mas embebimento em discussões de filosofia política. Assim também nas origens cristãs, para com inquéritos teológicos. 

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Ainda dentro da discussão dos aspectos básicos do programa de pesquisa de Wright, ele esmiúça um pouco mais questões de metodologia. Promove uma recapitulação dos diferentes estados da arte do campo de pesquisa desde o século XIX até os anos 90. Perpassa as críticas de Johannes Weiss e Albert Schweitzer aos contemporâneos que produziam um Jesus "sem escatologia", reproduzindo-o às suas imagens e semelhanças. A escola fideísta de Bultmann, às preocupações alemãs com os "ditos mais originais" que se espalharam pelo ambiente de língua inglesa, à inflexão com a ambientação judaica... Apresenta as teorias, os pressupostos, promovendo uma discussão crítica quanto até que ponto contemplavam as realidades do período histórico das origens cristãs. Ele promove uma comparação entre as abordagens positivistas ou objetivistas (afirmam que as entidades postuladas pelas teorias são realidades possíveis de serem captadas à parte da interferência do observador, interessando-se pela captura dos “fatos históricos” objetivos, a priori da interpretação), e as fenomenológicas-construtivistas ( se interessam pelo que se pode apresentar a respeito do “fenômeno” observável, não pela “coisa-em-si”, ou o “fato-em-si”, a preocupação focal é quanto aos procedimentos descritivos e suas propriedades), apontando pontos fracos e pontos fortes. 

A partir daí ele explica sua posição que considera escapar das armadilhas das outras duas e unir o que de mais teriam de consistente: o Realismo Crítico. Esta [ i.e., o Realismo Crítico] é uma maneira de descrever o processo de "saber" que reconhece a realidade da coisa conhecida, como algo diferente do que é o conhecedor (daí o ‘realismo’), enquanto também reconhecendo plenamente que o único acesso que temos a esta realidade encontra-se ao longo do trajeto em espiral de diálogo adequado ou uma conversa entre o conhecedor e a coisa conhecida (daí o 'crítico’). Este caminho leva à reflexão crítica sobre os produtos do nosso inquérito sobre a ‘realidade’, para que nossas afirmações sobre ela reconheçam a sua própria provisoriedade. O conhecimento, em outras palavras, embora em princípio concebe a realidade independente da mediação do conhecedor, nunca é em si mesmo independente do conhecedor.  [7] 

 Desta forma, ele acredita que a epistemologia para o estudo do caráter literário dos evangelhos pode se envolver com eles, sem se deixar ser tomada e perder o caráter crítico. Fechando uma encorpada sessão em que analisa a paisagem sociocultural da Palestina do século I d.C., ele recapitula eventos-chave para entender como se chegou àquele cenário; destarte ele explica a formação dos diferentes “partidos” no Judaísmo de então, os ramos mais sectários, e os pontos que ele considera em comum, elementais para se chamar Judaísmo. Ele focaliza sua preocupação depois com a vida e mentalidade do “judeu comum”. 

Assemelha-se este foco com o que o historiador Fernand Braudel chamava de “vida material”: 
Parti do cotidiano, daquilo que, na vida, se encarrega de nós sem que o saibamos sequer: o hábito ­ melhor, a rotina ­ mil gestos que florescem, se concluem por si mesmos e em face dos quais ninguém tem que tomar uma decisão, que se passam, na verdade, fora de nossa plena consciência. Creio que a humanidade está pela metade enterrada no cotidiano. Inumeráveis gestos herdados, acumulados a esmo, repetidos infinitamente até chegarem a nós, ajudam-nos a viver, aprisionam-nos, decidem por nós ao longo da existência. São incitações, pulsões, modelos, modos ou obrigações de agir que, por vezes, e mais freqüentemente do que se supõe, remontam ao mais remoto fundo dos tempos. [8]                                                     
Chama a atenção que tal historiador também trabalha com um vasto horizonte analítico, chamado "longue durée", marcado por interações físicas, ecológicas, geográficas, socioculturais, numa escala de tempo em que há estruturas básicas comuns.

Tom conclui que os judeus eram rigorosamente monoteístas, referendando-se no atributo criador da divindade, igualmente no papel redentor e escatológico, aguardando que ela os resgataria e livraria de toda dominação. Mais controvertida é sua posição de que as imagens e descrições apocalípticas, sobre fenômenos de cataclismos terrenos e cósmicos, eram figuras para expressar mudanças procelosas em toda ordem mundial [ similares seriam Richard Horsley, “Jesus e a Espiral da Violência”, pgs 118-128; Marcus J. Borg [ (embora o tom na escatologia de Wright seja muito mais proeminente), Conflict, Holiness and Politics in the Teachings of Jesus, pgs 22-35] , 


Para corroborar sua posição, procede uma análise dos capitulos clássicos apocalípticos em Daniel e na literatura chamada pseudepígrafa. Essa foi a matiz cultural e motivacional para os nascimento do cristianismo. Wright aponta que a literatura cristã está marcada pela convicção de que os cristãos viram esta redenção expressa no Messias Jesus, narrando suas histórias na perspectiva e expetação moldada pela personificação em sua obra dos temas do “êxodo, conquista, exílio e restauração” - “batismo , ministério, morte, ressurreição, ascensão”; paralelos com figuras como Samuel, Davi, Elias, Eliseu expressadas em João e Jesus, projeções da imagem do Lógos... em Jesus eles viram o cumprimento das promessas do judaísmo e assim configuraram seu narrar sobre ele. 

Aqui temos uma síntese das conclusões a que chega:

Essa idéia do plano a ser revelada é novo, caracteristicamente judaica, e os contemporâneos de Jesus tinham desenvolvido uma forma complexa de pensar nisso. Eles usaram imagens , muitas vezes sensacionalistas e espetaculares, elaborada a partir das Escrituras , para falar sobre coisas que estavam acontecendo no mundo público, o mundo da política e da sociedade, e dar a esses acontecimentos o seu significado teológico. 

Assim, ao invés de dizer "Babilônia vai cair, e isso vai ser como um colapso cósmico", disse Isaías: "O sol escurecerá, a lua não dará a sua luz, e as estrelas cairão do céu". (Isaías 13:10). A Bíblia Judaica está repleta de tal linguagem, que é muitas vezes chamada de "apocalíptica", e seria um grande erro imaginar que tudo estava predestinado a ser tomado literalmente. Era uma forma, para repetir ponto, de descrever o que poderíamos chamar de eventos no espaço-tempo e investi-los com o seu significado teológico ou cosmológico. Os judeus da época de Jesus não estiveram, em grande parte, a esperar que o universo no espaço-tempo chegasse a ficar inerte. Eles esperavam que Deus iria agir de forma tão dramática dentro do universo no espaço-tempo, como ele tinha agido antes em momentos-chave, como o Êxodo, que a única linguagem apropriada seria a linguagem de um mundo desmontado e renascido. 

Estes avisos se agrupam no chamado Breve Apocalipse de Marcos 13 e seus paralelos em Mateus 24 e Lucas 21. O capítulo inteiro é para ser lido, sugiro, como uma previsão não do fim do mundo, mas da queda de Jerusalém. A coisa crítica, aqui e alhures, é entender como funciona a linguagem apocalíptica. Como eu disse antes, a linguagem do sol e a lua se escurecendo, e assim por diante, é regularmente usada nas Escrituras para designar as grandes convulsões políticas ou sociais da ascensão e queda de impérios, como nós dissemos, e, pelo uso dessa linguagem, para conotar de significado cósmico ou teológico que eles atribuem a esses eventos. [9]

A linguagem de Marcos 13 então, sobre o Filho do Homem vindo sobre as nuvens não deve ser tomada literalmente a ferro e a fogo, como no decurso de gerações de ambos, estudiosos críticos e crentes não-críticos têm tomado. A linguagem aqui é retirada de Daniel 7, onde os eventos referidos são da derrota e do colapso dos grandes impérios que se opuseram ao povo de Deus e à vindicação do verdadeiro povo de Deus, os 'santos do Altíssimo'. A frase sobre "o filho do homem vindo sobre as nuvens" não iria ser lida, por um judeu do primeiro século debruçado sobre Daniel, como se referindo a um ser humano "aproximando-se" para baixo em direção à terra montado em uma nuvem real . Ele seria visto como a previsão de grandes eventos e através dos quais Deus iria vindicar seu povo verdadeiro após o seu sofrimento. Eles "chegariam", não à terra, mas a Deus. 

Jesus está assim usando alguns temas-padrão dentro da expectativa judaica do Segundo-Templo de uma forma radicalmente nova. Ele estava tomando o material sobre a destruição da Babilônia, ou Síria, ou quem quer que seja, e aplicando-o a Jerusalém. E redirecionando para ele e seus seguidores as previsões proféticas de vindicação. [10]    


Para ser possível concatenar coerentemente a partir desta verificação, Wright observa que é crucial conseguir engendrar uma análise da mentalidade motivacional das visões de mundo, se atendo ao estudo histórico e evitando psicologizar conjecturas, algo que está em descrédito fazem muitos anos nos estudos bíblicos. Desta forma ele adapta ferramentas desenvolvidas pelo semiólogo lituano Algirdas Julien Greimas  nos seus estudos sistemáticos das personagens das narrativas, de acordo com as interações nas sequências ao longo do esquema narrativo [11], onde a narratividade pode ser compreendida como um elemento organizador e fundador do sentido, o modo de se aperceber do sintagma; desta forma, um número finito de temas funcionais justapostos em oposição binária com possíveis papéis ( sujeito-objeto; emissor-receptor ; ajudante-adversário ) geraria as estruturas que chamamos de histórias. Com isto N.T. Wright consegue entretecer as perícopes dos evangelhos, que narram eventos e proclamações independentes, em um enredo interligada com o grande plano geral que traça afim de captar um sentido contatenado através das ações nas tramas. 

 É o ponto a partir do qual ele chega a uma das principais problematizações que desenvolve: a esperança judaica. Ele rechaça tentativas de se trabalhá-la em esquemas sistemáticos de dogmática; antes de tudo, para Wright, se dava como reação às pressões de dimensões sociais, econômicas, políticas e culturais, sempre sob o auspício da humilhação da dominação romana e opressão pelos líderes vassalos de Roma. Isso acrescenta altissonância ao centrar na “vinda do Deus de Israel” para a libertação nacional, em contraste com expectativas de desencarnação para sobrevivência post-mortem. [12]

Tal abordagem inverte os lugares-comuns sobre o “legalismo” judaico para com a Lei (Torá); as observâncias de regras de pureza não eram para “ganhar a salvação individual”, mas a sua tônica era a preocupação em manter sua distinção dado por Deus em contraste com as nações pagãs , especialmente aquelas que se julgavam como estando a oprimi-los. Era a demarcação do “povo da aliança”; as “obras da Torá" não eram degraus de uma escada legalista, na qual alguém subia para ganhar o favor divino, mas foram os emblemas que se usavam como as marcas de identidade [13]

Isto é o que ele focaliza o conceito de narrativas formadoras de identidades, em que podemos recapitular: 

Assim é então como ela deve ser entendida, lida em contextos apropriados, dentro de uma acústica que irá permitir os seus tons serem ouvidos. Deve ser lida com distorção tão pouca quanto possível, e com a sensibilidade , tanto quanto possível aos seus diferentes níveis de significado. Estes devem ser lido como histórias, e a História, à qual se diz poder ser consistente chegar com as histórias, e não como formas de declarar 'ideias a-históricas'. Deve ser lida sem o pressuposto de que já sabemos o que vai se dizer, e sem a arrogância que assume que 'nós '- que pode ser qualquer grupo- já temos direitos ancestrais sobre esta ou aquela passagem , livro, ou escritor [14] .

Desta forma está preparado o palco interativo para “Jesus and the Victory of God”. Wright postulando um critério que ele chama de “Dupla Similaridade e Dupla Dissimilaridade” [15] 

Dupla Similaridade tenta descobrir como Jesus cabe dentro judaísmo do primeiro século e como tal um Jesus Judeu poderia explicar a ascensão do cristianismo primitivo. A Dupla Dissimilaridade procura explicar por que Jesus foi rejeitado pelo judaísmo e como as tradições evangélicas, devido à sua dissemelhança , não poderiam ter se originado dentro da igreja primitiva. Assim, sua principal ferramenta é muito mais abrangente do que o muito mais limitado “critério de dissimilaridade”. Com ela, vai se afigurando uma figura profética peculiar, que passava de aldeia em aldeia, dizendo substancialmente as mesmas coisas onde quer que fosse, com variações e novidades surgindo em resposta a uma situação nova, um questionamento afiada ou desafio. Contudo, com o critério da Dupla Similaridade Wrigth postula que Jesus repetira certas parábolas-chave muitas vezes, provavelmente com pequenas variações . . . 

Meu palpite seria que temos duas versões da parábola Grande Ceia , duas versões da Parábola dos Talentos/Libras, e duas versões das Bem-aventuranças, não porque um é adaptado a partir do outro, ou ambos a partir de uma fonte comum de um único escrito, mas porque estas são duas em uma dúzia ou mais variações possíveis que, se alguém tivesse estado na Galileia com um gravador poderia ter 'recolhido' " [16].

Wright desmembra esta imagem na parte 2 do livro, "Perfil de um Profeta". Ela consiste em seis capítulos. No Capítulo 5, intitulado " A Práxis de um Profeta", Wright, com as ferramentas acima apontadas, argumenta que a melhor categoria para classificar Jesus é a de uma “ Liderança Profética e Oracular" (162-68 ). Explica de forma meticulosa nos capítulos 6, 7 e 8; "Histórias do Reino", subdivididos em "Anúncio", "Convite, Boas-vindas, Desafio e Convocação"e "Julgamento e Vindicação". Prossegue com o capítulo 9 intitulado "Símbolo e Controvérsia", onde discute as ações de Jesus e os ensinamentos sobre o símbolos da identidade judaica, ou seja, Sábado , Comida, Nação, Terra e Templo, problematizando o emprego próprio por parte de Jesus dos símbolos do Reino, que tratam do “retorno do exílio”, a “restauração da terra e da nação”, a “nova família de Deus”, “o culto renovado”. 

Wright ilustra um exemplo de atitude de arrependimento individual análogo nos escritos de Josefo, descrevendo um chefe de turba de bandidos tramando contra sua vida, ao passo que Josefo lhe diz: “Eu gostaria, no entanto, de desculpar suas ações se ele mostrasse arrependimento e provasse sua lealdade a mim”. É uma alusão que transmite a introspecção necessária para a conclamação de Jesus “se ele arrepender e crer em mim”. [17]


 “A parábola do filho pródigo é a história do exílio de Israel e sua restauração. Este é o tema principal. 

A Babilônia tinha tomado o povo em cativeiro; Babilônia caira, e voltou o retornara. Mas nos dias de Jesus muitos, se não a maioria, dos judeus consideravam o exílio como ainda a permaneccer. O povo voltou em sentido geográfico, mas a grande profecia de restauração ainda não tinha chegado realmente. O que Israel fazia? Porque, se arrependera-se do pecado que o havia levado ao seu exílio, e retornara a YHWH com todo o seu coração, então quem ficara em seu caminho para evitar seu retorno? A multidão mista, e não menos importante os samaritanos, tinham permanecido na terra enquanto o povo estava no exílio. Mas Israel iria voltar, submisso e redimido: os pecados seriam perdoados, a aliança renovada, o Templo reconstruído e os mortos ressuscitados. O que seu deus havia feito por ela no êxodo . . . ele iria enfim fazer de novo, ainda mais gloriosamente. YHWH finalmente tornar-se-ia rei, e faria por Israel, em aliança de amor, o que os profetas haviam predito. [18]

(...)"Aqueles que reclamam [ representados pelo irmão mais velho na parábola ] do que está acontecendo estão escalado para o papel do judeus que não foram para o exílio, e que se opunham as pessoas que regressaram.  Eles são, com efeito, virtualmente samaritanos" [19]

 O tema de Jesus assim seria eminentemente escatológico, e assim se descortina seu senso de vocação em sua pregação e visão de seu papel: 

Se, então , alguém fosse falar com os contemporâneos de Jesus de YHWH tornando-se rei, podemos seguramente assumir que eles têm em mente, de uma forma ou outra, essa história de dois lados sobre a dupla realidade de exílio. Israel faria "realmente" o retorno do exílio; YHWH finalmente retornaria a Sião. Mas, se isto viesse a acontecer teria que ser um terceiro elemento, tal como: o mal, geralmente em a forma dos inimigos de Israel, deve ser derrotado. Juntos, esses três temas formar a metanarrativa implícita na línguagem do reino”. [20]

 E consequentemente articula o programa do ideário do nascer do cristianismo: 

A práxis de Jesus, histórias e símbolos, assim, indicam suas respostas, implícitas e às vezes explícitas, às cinco grandes questões da visão de mundo: 'Quem somos nós?' Jesus e seus seguidores formam o povo do real retorno do exílio, o remanescente, a semente, o pequeno rebanho. 'Onde estamos?' Estamos na terra, embora ainda dominados, mas o nosso Deus nos fará herdar a terra. 'Em que tempo estamos?' Em tempo de crise, a grande tribulação através da qual o reino virá, o momento tão esperado, quando o Êxodo será re-promulgado, quando terminará o exílio, o mal será derrotado e YHWH irá retornar a Sião. 'O que está errado?' O mal está desenfreado não apenas dentro do paganismo, mas dentro de Israel: do regime opressivo dos chefes sacerdotais para os movimentos populares revolucionários, o mal do mundo radicalmente infectara Israel também. 'Qual é a solução?' Tudo o que sabemos sobre Jesus sugere que, no fundo de seu coração, ele deu a resposta: 'Eu sou'.  [21]



[1] MacINTYRE, Alasdair. After Virtue. Indiana: University of Notre Dame, 1984, pgs.215-16.
[2] The New Testament and the People of God, pg. 118.
[3] como desenvolvido em "The New Testament(...)", parte 3.
[4]  “The Rise and Future Demise of the World Capitalist System: Concepts for Comparative Analysis”, republicado em WALLERSTEIN, I. The Essential Wallerstein. New York: The New York Press, 2000
[5] “The West (...)”, pgs. 561-619.
[6] “The French Revolution”(…) pgs. 7-22.
[7] The New Testament and the People of God, pg. 35
[8] BRAUDEL, Fernand. (1987), A dinâmica do capitalismo.  Rio de Janeiro, Rocco. pg. 13-14
[9] em "The Challenge of Jesus", 38
[10] The Challenge of Jesus, 51
[11] conferir GREIMAS, A. J, Semântica Estrutural: Pesquisa de Método, Ed. Cultrix, Säo Paulo, 1976
[12] The New Testament and the People of God, 169-170
[13] The New Testament and the People of God, 237-238 
[14] Jesus and the Victory of God, pg. 6
[15] Jesus and the Victory of God131-33.
[16] Jesus and the Victory of God, 170
[17] Jesus and the Victory of God, 250
[18] Jesus and the Victory of God, 126-127
[19] Jesus and the Victory of God127
[20] Jesus and the Victory of God206.

sábado, 9 de junho de 2012


O excelente blog Investigador Cristão, faz quase um ano, trouxe um link muito interesante da possível descoberta do Túmulo de Filipe  na Turquia. A notícia já havia sido uma das manchetes da Biblical Archeological Review (BAR), em agosto do ano passado. Faz alguns meses, BAR revisitou a questão (edição 38:01, janeiro/fevereiro de 2012) [1].


Confesso que a primeira vez que eu ouvi (li) essa história, fiquei com os dois pés atrás. Descobertas fantásticas, muitas vezes anunciadas de forma precipitada, ou por aventureiros, alcançam as manchetes dos jornais e breakings news da CNN com muita facilidade, apenas para serem desacreditadas depois. É o prego da cruz de Jesus, o verdadeiro Titulus Crucis, a Tumba Perdida de Maria Madalena (na França), tudo isso foi propalado recentemente pela mídia.


No entanto, lendo o artigo com cuidado e atenção, percebi que a descoberta é palpável e plausivel. A imprensa exagera um pouco, mas isso é normal. Primeiramente, não se trata do trabalho de aventureiros. O professor Francesco D'Andria, ensina arqueologia e história da arte grega na Universidade de Salento, e, desde 2007, é diretor da Missão Arqueológica Italiana em Hierapolis, que escava o local desde 1957, e congrega pesquisadores de 10 universidades italianas e quatro universidades e instituições de pesquisa de outros países. Isso não garante, obviamente, que as conclusões do grupo estejam corretas. Mas é evidencia "prima-facie" de que se trata de um trabalho para ser levado a sério. Contudo, somente com a publicação dos resultados, e a análise dos estudiosos da área é que poderemos chegar a conclusões sólidas.

Hierapolis/Pamukale, Turquia (via Wikipedia)


Em segundo lugar, e será que vou desenvolver nesse e num próximo post, existe uma tradição literária e alguns indícios arqueológicos que apontam de forma consistente para uma associação de Filipe com a cidade de Hierapolis (atual Pamukale, na Turquia). Em minha opinião, a evidência mostra uma associação possível e plausível, e com muita, mas muita, ousadia podemos arriscar um (quase) provável, como pretendo apresentar abaixo. Mas, sempre lembrando, só teremos segurança, quando , o Professor D'Andria e sua equipe apresentarem resultados mais concretos (como os grafittis e inscrições identificadas).


Na edição de julho/agosto da BAR, foi publicado um artigo do Professor Francesco D'Andria com informações contextuais e "background" da relação de Filipe com Hierapolis na tradição antiga, "Conversion, Crucifixion and Celebration",, hoje disponível para consulta apenas para assinantes da Revista [2].

Mas o "Sepulcro Perdido de Filipe" nos desperta a curiosidade para as tradições associadas aos doze apóstolos após a morte e ressureição de Jesus, e a possibilidade de análise histórica, apesar do forte conteudo lendário e da sua aparição relativamente tardia no registro histórico dessas mesmas tradições. Pretendemos escrever alguns posts sobre isso aqui no adcummulus, começando por Filipe, que exemplifica muito bem o tipo de material histórico disponível para a maior parte dos apóstolos de Jesus. Nossos leitores podem encontrar boas análises do assunto por estudiososde primeira linha nos livros de John P Meier (Um Judeu Marginal, Volume 3, Livro I, fls. 210-296, Ed. Imago) e Geza Vermes (Quem é Quem na Época de Jesus, Editora Record). 

Qual Filipe?


No Novo Testamento, temos, aparentemente, dois Filipes.


Filipe, Catedral de St. Isaac
Um esta entre os doze discipulos escolhidos por Jesus. Nos evangelhos sinóticos Filipe é um nome em uma lista (Mc. 3.18, Mt 10:3, Lc 6:14), sem nenhuma outra informação relevante, (salvo, talvez, que ele sempre é citado junto com Bartolomeu). O evangelho de João, contudo, apresenta Filipe em um papel um pouco mais proeminente. É dito que ele é proveniente de Betsaida (cidade de André e Pedro) e traz Natanael ao círculo dos díscipulos de Jesus (João 1:43-47). Uma vez que Bartolomeu não seria propriamente um nome, mas um patronímico (Bar-Tolmai, ou filho de Tolomeu ou Tolmai, em aramaico), frequentemente, observa Geza Vermes [3], Natanael é identificado com Bartolomeu (opinião rejeitada por Meier[4]). Filipe também apresenta gregos a Jesus (João 12:20-36), em um dos raros episódios em que os evangelhos relatam interação de Cristo com gentios).

O "segundo" Filipe, é apresentado nos Atos dos Apóstolos. Ele é escolhido como um dos sete diáconos (Atos 6:5), prega entre os Samaritanos, no célebre relato da "conversão" de Simão, o Mago (At. 8:3-24), e, na sequência, na pregação e batismo do eunuco étiope, servo da Rainha Candance ( At. 8:25-40). Vários capítulos depois, vemos este Filipe, chamado de Evangelista, agora estabelecido em Cesaréia, com suas quatro filhas que profetizavam, recebendo Paulo em sua casa quando este se dirigia a Jerusalém (Atos 21:8-10).
Batismo do Eunuco, Rembrandt, 1626

Não iremos analisar historicamente cada uma das perícopes dos evangelhos e de Atos que mencionam Filipe. Contudo, é possível observar alguns padrões na narrativa, que podem ser utilizados para algumas inferências históricas sobre a tradição. Filipe é um nome grego (usado por exemplo por um dos Reis da Familia Herodiana), assim como André, e constrasta fortemente com os nomes patriarcais e macabeus utilizados por quase todos os associados de Jesus como Simão (de Simeão, um dos doze filhos de Jacó), Pedro e Zelote, Judas (de Yehuda ou Judá), Tiago (derivado, assim como os nomes Jaime, James, Jacó, e Iago do hebraico "Ia'akov") "Boanerges", "Menor" e o "irmão do Senhor" , Saulo (de Saul) "Paulo" de Tarso, as inúmeras Marias (correspondente grego do Hebraico Miriam). É como encontrar um Jefferson ou Washington, cercado de vários Severinos, Josés, Ribamares e Marias de varias alcunhas (das Dores, das Graças, ou Auxiliadoras). Se é possível imaginar que os pais queiram transmitir algo quando dão um nome a seus filhos, o que um nome tão helenizado, constrastante de seu contexto indica?


Além disso, o Filipe dos evangelhos surge apresentando "gregos" a Jesus. O Filipe de Atos é escolhido entre os helenistas, e faz parte do grupo dos díaconos, também escolhidos dentre os helenistas e todos com nomes helenistas. Surge sempre pregando a gentios e não judeus, e escolhe Cesaréia - um enclave gentio na Palestina do sec. I - para morar. Hospeda também o Apóstolo Paulo, o controverso apóstolo dos gentios, em sua casa. Os textos que mencionam um, não mencionam o outro. Seriam mesmo personagens distintos? Ou teria sido o Filipe do grupo dos doze, deslocado para o novo grupo dos diáconos de forma a, junto com outros seis homens "cheios do poder de o Espírito e de sabedoria", estancar a crise que se formava entre os grupos helenista e judaizante na Igreja de Jerusalém? É uma hipótese atraente. Mas vamos deixa-la de lado, por enquanto.


Filipe na Tradição: A natureza fragmentária das fontes é um problema também na tradição da igreja primitiva e patrística sobre Filipe (como quase todos os apóstolos).

Martírio de Filipe, José de Ribera, 1639
O principal texto é o assim chamado "Atos de Filipe", que conta a atuação de Filipe, Bartolomeu e de uma discípula chamada Mariame, que seria irmã de Filipe. Segundo esse relato, Jesus, após sua ressurreição, comissiona seus discipulos para pregar o evangelho, e Filipe e seus companheiros são enviados a Grécia, Frígia e Siria. Em Hierapolis, ele são bem sucedidos em converter e curar muitas pessoas, eventualmente entrando em conflito com as lideranças do culto a Serpente Echidna [5]. Após curar Nicanora, a esposa do Proconsul, o conflito chega ao auge, e Filipe, Bartolomeu e Marianne são presos, torturados e condenados a execução, pendurados de cabeça para baixo, com seus pulsos e tornozelos pregados por ganchos. Uma intervenção divina salva Bartolomeu e Marianne, mas Filipe prefere o martírio. Ele é então enterrado e uma igreja construída sob sua tumba.


Atos de Filipe é historicamente confiável? A resposta é um sonoro NÃO. Em primeiro lugar o relato foi escrito cerca de 300 anos após a morte de seu protagonista [5], estando muito, mas muito longe de ser um texto contemporâneo dos fatos que narra.


O fato de estar tão distanciado dos fatos que narra não seria, por si, um obstáculo intransponível. Se a intenção do autor fosse apresentar um relato da vida e obra de Filipe, (e Bartolomeu e Marianne) após a morte de Jesus, é bem provável que ele fosse capaz de encontrar textos e tradições orais antigas, quase contemporâneas, que, com todas as limitações, trouxessem notícias históricas confiáveis. Temos exemplo disso na Antiguidade, como já vimos aqui mesmo no adcummulus, como Títo Lívio (30 DC) ao descrever a República Romana Primitiva (509-264 AC), ou Jerônimo em sua coleção de biografias "De Viris Ilustribus" (Dos homens ilustres). O Grande problema, porém, é que o autor de Atos de Filipe , como vários outros Atos Apócrifos, não tem essa intenção. O texto é uma novela histórica, seu objetivo é apresentar uma narrativa que fosse edificante e interessante aos olhos de seus leitores, do século IV ou V. Assim temos relatos de conversão de leopardos e bezerros falantes, da vitória sobre um dragão ...


Ou seja, utilizando uma analogia, Atos de Filipe estaria para o Filipe Histórico, de forma semelhante que "Dracula" de Bram Stoker (1897) está para o Principe Romeno Vlad "Dracul" III, o Impalador (1431-1476). Ou seja, é uma história fictícia sobre um personagem histórico. A diferença, em favor do príncipe Vlad, é que temos muito mais evidência contempôranea e semicontemporânea a seu respeito (mas, mesmo assim, definir até que ponto Stoker se baseou no "Vlad DraculaHistórico" é problemático). Da mesma forma, "os três mosqueteiros" é uma novela histórica de Alexandre Dumas, mas o personagem D'Artagnan se baseia no oficial mosqueteiro Charles de Batz-Castelmore, Conde de Artagnan (1611-1673), que morreu heroicamente na conquista de Maastrich pelas tropas do Rei Luis XIV, em junho de 1673; por sua vez, Atos, Portos e Aramis são inspirados por Armand d'Athos (1615-1643), Isaac d'Porthau (1617-1712), e Henry d'Aramitz (1620-1655?), também integrantes dos mosqueteiros de Luis XIV. Dumas desenvolveu sua novela baseado nas "Les mémoires de M. d'Artagnan: capitaine lieutenant de la première compagnie des Mousquetaires du Roi " (As memórias de Monsieur d'Artagnan, Capitão-Tenente da Primeira Companhia dos Mosqueteiros do Rei), publicado em 1701, por Gatien de Courtilz de Sandras (1614-1712), cuja obra era, na verdade, um romance biográfico, misturando elementos históricos do Capitão Castelmore com muita imaginação, com ficção e realidade tão intimamente entrelaçadas que é muito difícil separa-las.

 
Vale Tudo, 1988
Ainda, mesmo as novelas que declaradamente nos informam que "as situações apresentadas são fictícias e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência", podem nos ensinar muito sobre a realidade histórica em que foram produzidas. Odete Roitman, Raquel Accioly e Heleninha nunca existiram. Mas Vale-Tudo, reflete muito bem o Brasil no final dos anos de 1980, o vestuário, as expectativas, tensões políticas, sociais e econômicas, o estado de espírito de nosso País. As diferenças entre as versões de "O Astro" de 1977 e 2011, evidenciam as profundas transformações do Brasil no período.


Das Estórias para História, passando pela tradição


Atos de Filipe foi escrito, provavelmente, por um comunidade herética da Asia Menor do século IV, e o texto permite entender suas crenças e convicções - tais como vegetarianismo, celibato, e mulheres exercendo funções sacerdotais - que estavam dissônancia com as crenças mais ortodoxas. O manuscrito mais completo conhecido foi descoberto pelo Professor François Bovon, de Harvard, no Monastério Xenofontos, no Monte Atos. Bovon observa que os manuscritos conhecidos apresentam diferenças em seu conteúdo, com tendência de censurar os elementos mais heréticos do texto [6]. O texto atual parece uma compilação de blocos de narrativa, que podem ter sido compostos anteriormente. Bovon escreve:


"According to the last part of the work, The Martyrdom, it is in Ophiorymos that Phillip dies. It is also in Hieropolis of Phrygia that, according to witnesses dated as early as the second century C.E., Phillip's tomb was located. Veneration of Phillip seems to have been particulary intense in this part of the ancient world. As a location for the writing of the Acts of Phillip, thenm Asia Minor seems probable, even certain"
"Although Scholars suggest that the work was written in the fourth ou fifth century C.E, it is extremely difficult to assign a date to this work. Parts of the Acts of Phillip may be earlier than the fourth century. Some prayers and stories, for example, go back to the third if not second century C.E. Indeed the work is the result of a literary process that merged at leats two cycles of stories, one related to Phillip the evangelist of the canonical Acts (Acts of Phillip 3-7) and the other related to the apostle Phillip found in the Gospels and in the lists of Jesus' disciples (Acts of Phillip 8- Martyrdom). In the final version of the work, these two disciples constitute a single apostolic figure"[6]
(tradução) De acordo com a parte final do texto , O Martírio, é em Ophiorymos que Filipe morre. É também em Hieropolis da Frígia que, segundo testemunhos datados já no século II DC, o túmulo de Filipe se localizava. A veneração de Filipe parece ter sido particularmente intensa nesta parte do mundo antigo. Como lugar de composição de Atos de Filipe, a Ásia Menor parece provável, até mesmo certo "Embora os estudiosos sugiram que a obra foi escrita no quarta ou quinto século DC, é extremamente difícil atribuir uma data para este trabalho. Partes dos Atos de Filipe pode ser anteriores ao século IV. Algumas orações e estórias, por exemplo , são do terceiro, se não segundo século DC. Na verdade, o texto atual é o resultado de um processo literário que fundiu pelo menos dois ciclos narrativos, um relacionado a Filipe Evangelista dos Atos canônicos (Atos de Filipe 3-7) e o outro relacionados ao Filipe Apóstolo encontrados nos Evangelhos e nas listas dos discípulos de Jesus (Atos de Filipe 8 - Martírio). Na versão final do texto, estes dois discípulos constituem uma única figura apostólica.[6]


Desta forma, temos um texto que chegou a sua forma final no século IV ou V, e que é, basicamente, um romance ou novela histórica, compilado a partir de vários ciclos narrativos, um associado a Filipe apóstolo, ou a Filipe evangelista. No entanto, existem elementos na narrativa que são provenientes do século III, e mesmo século II. Allguns desses elementos, como a existência de uma Tumba de Filipe em Hieralópolis, já se encontram em tradições cristãs do século II.

Ou seja, embora existe a possibilidade de alguma memória histórica, as tradições sobre Filipe parecem muito mais complicadas de analisar historicamente do que outros textos antigos que costumamos abordar aqui no adcummulus como, por exemplo, os Evangelhos Sinóticos e os Atos do Apóstolos. Metodologicamente, como podemos proceder? É possível? Como?


Uma alternativa nos é oferecida pelo Professor James McGrath, da Buttler University, analisou recentemente as possibilidades de método histórico para análise de um escrito semelhante ao de Atos de Filipe, os Atos de Tomé, que narra a missão do apóstolo na India [7]. Ele observa que, enquanto os historiadores do cristianismo primitivo tendem a considerar Atos de Tomé como quase que totalmente irrelevante, aqueles cujo foco é a história da India tendem a utiliza-lo, uma vez que é uma das poucas fontes disponíveis [7]. McGrath propõe um equilibrio nas duas abordagens:


I would argue that behind the fictional Acts of Thomas there most likely lies a genuine historical kernel, namely the activity of Judas the Twin in India. Beyond that, the only way to determine whether any particular detail has historical value is to engage in painstakingly careful analysis of each and every person, place, and event, building on a broad foundational knowledge of both Indian and Syrian history. Although in the end it will almost certainly remain a largely fictional novel, embedded within the Acts of Thomas are certainly nuggets of historical gold waiting to be brought to light.
(tradução) Eu diria que por trás da [narrativa] fictíca dos Atos de Tomé provávelmente reside um núcleo histórico genuíno, ou seja, a atividade de Judas, o gêmeo na India. Além disso, a única maneira de determinar se algum detalhe em particular tem um valor histórico é se engajar na análise meticulosa e cuidadosa de cada pessoa, lugar e evento, com base em um amplo conhecimento das Histórias da Índia e da Síria. Embora no final é quase certo que ainda tenhamos um romance largamente ficcional, dentro de Atos de Tomas certamente estão escondidas pepitas de ouro de históricidade à espera de serem trazido à luz.


Tendo isso em mente, os elementos da tradição, representada em Atos de Filipe, conexos as notícias mais antigas da tradição, dos autores do século II, dos evangelhos e de Atos, são candidatos a possibilidade de historicidade. É são estes elementos da tradição que analisaremos aqui no adcummulus em um post futuro, junto com a eveidência arqueológica.

CONTINUA

Referências Bibliograficas
[1] Bible Archeology Staff (2012) Strata, “Philip’s Tomb Discovered—But Not Where Expected,” Biblical Archaeology Review, January/February 2012.
[2] Francesco D'Andria (2011), Conversion, Crucifixion and Celebration: St. Philip’s Martyrium at Hierapolis draws thousands over the centuries, Biblical Archeology Review (BAR), 37:04 julho/agosto de 2011
[3] Geza Vermes (2006). Quem é quem na época de Jesus, fl.78-79
[4] John P Meier (2001) Um Judeu Marginal, Livro 3, volume I, fls. 210-211
[5] Francesco D'Andria (2011), Conversion, Crucifixion and Celebration: St. Philip’s Martyrium at Hierapolis draws thousands over the centuries, Biblical Archeology Review (BAR), 37:04 julho/agosto de 2011
[6] François Bovon, "Women Priestesses in the Apocryphal Acts of Phillip" In Francois Bovon, Glenn E. Snyder (2009) New Testament and Christian apocrypha: collected studies II, fls. 246-247
[7] James McGrath (2008) History and Fiction in the Acts of Thomas: The State of the Question Journal for the Study of the Pseudepigrapha June 2008 17: 297-311.

domingo, 3 de junho de 2012

Galileia, que significa, literalmente, “O Círculo”.


 No campo dos estudos humanísticos sobre a figura histórica de Jesus, sempre sobrevêm interesses quanto a identificar suas motivações e classificar seus interesses e posições em aspectos sociológico-econômicos, políticos, culturais. Há algum tempo veio à tona de maneira indelével a importância de se caracterizar o ambiente da da geografia humana onde viveu e atuou. Vislumbra-se decorrer daí o programa pautado pelo ministério público de sua pessoa. Sem embargo, soma-se para acrescentar vulto e amplitude a este programa de estudos de importância monumental para a memória histórico-cultural da humanidade e seu patrimônio/legado de ideias e símbolos o estudo da Galileia de seu tempo.

O passado recente desse recorte de pesquisa apresentava o horizonte de uma “Galileia dos Gentios”. A noção comum era de uma região urbanizada e plenamente helenizada, com monumental programa de edificação promovido pelos Herodes, onde as cidades-chave construídas na região onde Jesus teria se formado apresentava substancial densidade e movimento populacional, com grande contingente de gentios e integração cultural ampla ao mundo greco-romano. O tom era acentuar o contraste cultural entre a Galileia de Jesus e a Jerusalém do Templo Judaico, como visto em Ernest Renan. E as figuras resultantes variaram entre os extremos das reconstruções históricas de Jesus como não-judeu (Walter Grundmann, “Jesus der Galiläer und das Judentum”) a Jesus como alinhado ao pensamento cínico (John Dominic Crossan, “The Historical Jesus: The Life of a Mediterranean Jewish Peasant")

Robustos acúmulos no campo arqueológico e antropológico deixaram para trás esta plataforma, propiciando revoluções paradigmáticas sobre este recorte. Nesta postagem, recolho quatro apresentações distintas do cenário galilaico, por parte de quatro dos mais proeminentes estudiosos que trabalham em cima da questão. Faço aqui breves apresentações sem o formato acadêmico, mas informal, que é extraído de um trabalho maior em que tenho elaborado revisões bibliográficas sobre a Galileia do período circundante a Jesus e tecido algumas ponderações após análises comparativas entre elas. Recolho as quatro aqui por considerar que são representativas de imagens com pontos em comum e importantes diferenças, que rendem implicações substanciais sobre os estudos das origens cristãs. Escolho a última por averiguar que tem sido a que apresenta o maior peso entre os pares no atual momento.



Richard Horsley e a Galileia em Ebulição

Richard Horsley, professor de Línguas Clássicas e Religião na Universidade de Massachusetts, é um dos mais destacados polemistas no campo de pesquisa de “Jesus Histórico”, com interação em debates mais amplos por construir pontes para com temáticas sociopolíticas contemporâneas. No Brasil temos traduzidos alguns de seus livros mais famosos, com destaque para “Bandidos, profetas e messias  - Movimentos populares no tempo de Jesus” e “Jesus e a Espiral da Violência - Resistência judaica popular na Palestina Romana”. Possui como uma das melhores contribuições peculiares o manuseio de teorias sociais de conflito e análise sociológica de movimentos de resistência.

Seus elementos básicos para a matriz galilaica de Jesus estão reunidos no livro também traduzido no Brasil, “Arqueologia, História e. Sociedade na Galiléia O contexto social de Jesus e dos Rabis”. Afirma ter a impressão de que os galileus não foram conquistados da mesma forma que os idumeus pelos assírios e alega que não vê sentido nas exigências “judaizantes” após a conquista asmonéia, em 104 a.C., se os galileus fossem judeus, mas que também caso fossem não-israelitas, ele acha que seriam maiores essas exigências. Houvera então, para ele, um ajuste mais fácil devido a partilharem tradições mosaicas, indicando serem descendentes dos israelitas do norte conquistados pela Assíria. Cultuavam o mesmo Deus e partilhavam celebrações em comum como o Êxodo, Páscoa, Aliança, costumes como circuncisão, reverenciavam ancestrais comuns como Abraão e Sara, mas davam destaque a tradições populares de resistência à monarquia em especial Elias, Eliseu e heróis populares como o jovem Davi. Contudo, não partilhavam da estrutura conhecida como “lei dos judeus”, concatenada para sustentar o sacerdócio e o Templo, em contraste com as “tradições de baixo”, hebraicas, voltadas para a orientação da vida das comunidades e subsistências familiares. (Pg 32-33).

Contesta que apoiar-se na ideia de que Séforis e Tiberíades ostentavam estruturas culturais da polis helenístico-romana, como tribunais, arquedutos, teatros, estádios, etc., pode ser reivindicado para alegar que eram grandes centros urbanos imperiais demograficamente densos e cosmopolitas.

Alega que não haveria um sistema produtivo agrícola suficiente para sustentar uma população torno de 25.000 habitantes e ao mesmo tempo haver uma produção de subsistência mínima que seja para os lavradores, e, é incompatível com o quadro geral da Galiléia como sociedade agrária tradicional que emerge das escavações (pg. 46-48).

A população cosmopolita das duas cidades se restringiria à elite administrativa, os “herodianos”, representando porcentagem pequena da população, e, em comparação com outras grandes cidades da região, como Citópolis – a maior cidade da Palestina – e Cesaréia – fundada poucas décadas antes de Tiberíades por Herodes – o grau de urbanização das duas era limitado. (57-60)

Contesta as asseverações, baseadas na obra de Flavio Josevo, de ter havido uma rede comercial extensa na região da Alta Galileia. Uma tal rede se circunscreveria ao produto da cerâmica, de âmbito local e com limitada linha de agentes econômicos. (pg. 67-70).

Assim, ao invés de predominar nas aldeias uma economia de mercado com flutuações de preços, majoritariamente haviam estruturas aldeãs de autossustentação e estruturas urbanas dependentes, com transações comerciais mútuas de baixo volume; os administradores regionais na Alta Galileia executavam uma política de requisição da porcentagem das colheitas dos camponeses empregadas para prover o sustento de artesãos, funcionários públicos, guarnições militares e outros que supriam suas necessidades nas cidades. Predomina a caracterização de um sistema econômico “redistributivo” nos termos de Karl Polanyi, assim, centralizado nos grupos institucionais ideológicos e palaciais, com os mercados ocupando pouca importância (vide a obra “The Livelihood of Man”, de 1981, Academic Press, em que Polanyi analisa o sistema econômico da Antiga Mesopotâmia, em que através de censos, se planejavam e administravam o recolhimento dos tributos sobre a produção do povo, estabelecendo os impostos após a contagem desta, assegurando o fluxo de bens e serviços para o governo).

Para Horsley, Séforis desempenhava o papel principal de cidade administrativa da Galileia para a tributação da população, cujo impacto era aumentado por esta cidade se tornar de maneira historicamente repentina o “ornamento” de Antipas, agravando a exploração dos camponeses e intensificando o ressentimento destes, causando desintegração social, ameaças aos modos de vida tradicionais e reação via banditismo, na Baixa e Alta Galileia. Os programas de construção de Antipas assim não se sustentavam como investimentos que promoviam excedentes econômicos e valor, mas da pesada tributação e consequente endividamento das famílias produtoras.



Jonathan Reed – Galileia da vida cotidiana


Jonathan Reed é Diretor do programa “Sepphoris Acropolis Excavations in Israel” e foi Diretor Associado e Instrutor do “Institute for Antiquity and Christianity at the Claremont Graduate School”.

Sua visão quanto ao tema de nossa postagem está sistematizada na obra: "Archaeology and the Galilean Jesus: A Re-Examination of the Evidence".

Jonatham Reed concentra seu trabalho através da análise de materiais da fauna, tipologia de materiais artesanais, etnografia e ferramentas da análise arqueológica das relações comerciais.

Promove uma discussão sobre os achados arqueológicos, apresentando que indicam um vácuo de ocupação da Galileia após a conquista assíria e que lá fora apenas esparsamente habitada até a expansão hasmoneia. Após esta, a Galileia fora dominada por uma população com traços judaicos, sem nenhuma evidência de descendentes de tribos do norte, e com grande contraste cultural para com uma imagem de uma região “semi-pagã”. Quaisquer identificações comunitárias com as tradições norte-israelitas eram eminentemente ideológicas e refletiam o contexto, sendo comumente embebidas do legado delas conservado na religião judaica.

Reed faz uma inestimável contribuição, avançando em uma minuciosa análise demográfica das cidades de Séforis e Tiberíades, estimando uma população de cerca de 8 a 12 mil habitantes para a primeira e 6 a 12 mil para a última, arguindo fatores variados que não possibilitam uma precisão mas podem influenciar a variação ampla. Já a Cafarnaum deste período fora um povoado de menos de 1500 camponeses judeus pobres, sem nenhuma rota comercial importante, nenhum entreposto de guarnições romanas nem centros habitacionais de gentios. Contudo, haviam contatos regulares com populações gentias no leste e norte, que às vezes criavam tensões étnicas.

Concorda com Horsley de que o padrão de crescimento destas cidades pressionavam a produção agrícola regional e gerava tensões. Mas discorda de que havia uma ostentação luxuriosa de riqueza agravando o quadro; para ele, Séforis e Tiberíades eram centros regionais de modesto porte, e sendo como discutido, de população predominantemente judaica, eram contidos na exibição da riqueza, que também era no geral moderada e dava assim a tônica do quadro.

Desta forma, minimiza-se o retrato sócio-revolucionário do movimento de Jesus; ele teria evitado a proximidade com Antipas apenas para não ser detido, não tendo evidentes motivos religiosos, econômicos, sociológicos e etnológicos para evitar a região; e também contribui para tornar inverosímel o quadro dele como um tipo de sábio-cínico, sendo que não havia nas duas cidades grandes instituições promotoras da educação helênica.



 Morten Hørning Jensen e o Desenvolvimentismo Supply-side

O pesquisador Jensen tem se destacado como um dos maiores analistas arqueológicos do mundo quanto a Galileia antiga. Seu livro “Herod Antipas in Galilee: The Literary and Archaeological Sources on the Reign of Herod Antipas and Its Socio-economic Impact on Galilee" é amplamente debatido, mas reconhecido como rigoroso e de polêmica inescapável. Recentemente publicara também um artigo tratando de profunda ponderação a respeito do que os elementos eminentemente arqueológicos têm trazido para descortinar a proposta.

Sua polêmica conspícua apresenta o quadro mais positivo do reinado de Antipas. Tem o mérito de colocar o exame do material primário das escavações arqueológicas à prima facie e acima dos pressupostos de modelos sociológicos, fazendo uma revisão da literatura contemporânea ao período circundante a Herodes Antipas sob a luz da revisão meticulosa dos dados da arqueologia. Reverbera que seu método é orientado pela primazia da orientação dada pelas fontes.

Ainda que reforce o consenso de que a Galiléia do período não compartilhava de helenizações de outros lugares do império romano, polemiza com a maioria dos autores recentes, alegando que a política de construção herodiana não implicou em empobrecimento agrário galilaico. Segundo Jensen, o debruçar sobre os dados apresenta uma imagem que não se encaixa nos modernos modelos convencionais de relação urbano rural (pg 34), nem os retratos mais harmoniosos, nem os mais conflituosos. E afirma que estes modelos tem sido impostos ex ante sobre a Galileia do período de Antipas, apesar de que o seu reinado tenha sido o fator decisivo para as transformações da realidade sócio-econômica da região no primeiro século e merce ser o fator explicativo de uma apresentação da Galileia.

Promove uma análise literária contextual das referências escritas a Antipas e submentendo-as aos dados arqueológicos, encaixa-os num panorama regional mais ampliado. Assim, pondera uma análise compartiva de localidades rurais om ligações históricas e culturais com a Galileia, como Yodefat, Jotapata, Caná, Cafarnaum, Gamla, atenta para sítios na Colinas de Golã; parte então para o estudo de cidades próximas na Palestina: Decápolis, Hipona (atual Annaba, na Algéria), Gadara, Scythopolis (antiga Beit Shean, referida no livro de Josué, devastada pelos assírios e reconstruída e renomeada no período de dominação greco-helênica) e a Cesareia Marítima.

moedas de HerodesA partir daí, ele argui que o quadro não corrobora a tese de que as políticas para a construção das cidades de Séforis e Tiberíades, especialmente cunhagem de moedas, a hipotética rede comercial ( hipótese apoiada por Reed e contestada por Horlsey) e em especial o nível de tributação, foram desencadeadores de uma crise socioeconômica que levara a atividades de movimentos de contestação na região, mesmo o de Jesus.

Ratifica que Tiberíades e Séforis eram comparativamente modestas e com menos construções monumentais. Contende que a análise comparativa não mostra sinais de declínios das comunidades rurais no período de Herodes Antipas, mas sim de florescência, fomentada por variadas atividades agrícolas e industriais, com emergências de edifícios públicos e residenciais de classes média-altas. Antipas adaptara infra-estruturas já conhecidas, não impondo extraordinárias inovações monárquicas, nem programas em escalas relativamente conspícuas (pg 185). Sua provocação chega ao auge com a afirmação de que "parece indiscutível que a zona rural foi capaz de sustentar sua subsistência e até mesmo expandi-la neste período" (247).

Desta forma, não houvera drenagem de recursos das aldeias nem desagregações socioeconômicas especiais. As transformações monetizadoras sobrevieram desde o período hasmoneu e tivera o auge no período médio-romano, quando ocorreram as mudanças mais significativas na sociedade galilaica segundo sua interpretação dos registros arqueológicos ( juntamente com o período após a revolta de Bar Kochba), não sendo observada no século I d.C. Desta forma, não pode ser creditada a uma facilitação para uma exploração tributativa de Antipas que acarretara dívidas acumulativas.



Sean Freyne: Galileia Caleidoscópica

Sean Freyne, diretor do programa de estudos sobre Oriente Médio no Trinity College, em Dublin, eleito presidente da Society for the Study of the New Testament, tem sido o estudioso com maior ressonância no campo a respeito da Galileia e Jesus. É importante frisar que isto de forma alguma é argumento imperativo mediante alguma polêmica. Peço licença para uma breve digressão a respeito. É frequente vermos debates no campo com pessoas apelando para a sentença “a maioria dos pesquisadores sustenta que(...)”. Bem, se faz de bobo quem usa isto como se fosse um argumento imperativo. É na verdade, tanto quanto o argumento de autoridade- muito usado em qualquer campo, seja de arte, religião ou ciência – um argumento de peso quantitativo. E significa que o desafio é muito maior para os que fazem contraponto. Têm de sustentar que não se apoiam sobretudo em teorias da conspiração. De fato, uma autoridade reconhecida de patamar elevado, ou o peso da maioria dos estudiosos aprofundados e mais ativos, confere um peso quantitativo elevado para um argumento. Mas se fosse para ser conclusivo, poderíamos apagar toda a matéria e saber do Direito, Criminalística, Lógica, etc. Até porque muitas vezes se observa um “efeito cascata”: pessoas vão na onda do apresentado pela maioria, por ficar com um caminho mais fácil e por considerar que dali se tira instrumentos mais úteis, e vão aumentando daí o número da maioria.

Mas o professor Freyne tem a seu favor não apenas o “peso da maioria”, como também o de conseguir pintar um quadro que balanceia divergências e confluências entre as propostas diversas, como vamos ver, além de ser coerente com elementos diversos que trazem dificuldades para os outros modelos.

Seu primeiro importante grande estudo, "Galilee from Alexander the Great to Hadrian, a Study of Second Temple Judaism", adviera após uma sugestão do grande pesquisador Martin Hengel. Buscara fazer um recorte especial sobre a região da Galileia numa escala histórica de alcance de 400 anos, de sob Alexandre o Grande a Adriano. Com “Galilee and Gospel; Selected Essays”, tratara um estudo de ecologia social sobre Jesus na Galileia. A partir de então vem estudando os variados impactos socioculturais da política helênica nas regiões galilaicas.

O pesquisador toma como ferramentas metodológicas estudos comparativos de hábitos em diferentes cidades e seu caráter fluido, debruçando-se sobre o impacto de descobertas de moedas, cerâmicas, utensílios de metais, sobretudo os importantes para comércio, inscrições, artesanatos diversos, símbolos culturais-religiosos, etc., dando destaque a sítios arqueológicos especiais.

Deste trabalho vem emergindo cada vez mais um cenário de uma Galileia eminentemente judaica. Apresenta escavações descortinando uma devastação profunda nos padrões de povoamento entre os séculos VII-V a.C., sugerindo em consonância com os arquivos assírios, uma deportação maciça. E uma nova emergência demográfica somente se registra a partir do século IV, com muitos sinais de estabelecimento de uma cultura judaica, consoante também com a expansão macabéia que adviera depois, na visão de “retorno” à “Terra Prometida”. Tais resultados contradizem as sugestões de Richard Horsley citadas, sobre uma permanência de populações das tribos do norte com costumes próprios à parte dos judaicos.

Na Galiléia refletiu-se interativamente o impacto cultural do helenismo em uma série de questões, sendo que com descobertas de piscinas rituais de lavagem ( mikvoth ) e outras evidências de observância de práticas de limpeza ritual e observância de regras de pureza alimentícia, fica muito difícil sustentar uma clivagem cultural forte entre Galileia e Judeia. Mesmo em Séforis, nos principais assuntos religiosos os galileus parecem ter permanecido em acordo com princípios judaicos, não capitulando à cultura religiosa greco-romana (Ver especialmente (2004) 'Galilee and Judea: the Social World of Jesus' em S. McKnight e G. Osborne, eds.,"The Face of New Testament Studies: A Survey of Recent Research", pgs. 21-35.

Também tanto Séforis quanto Tiberíades não possuíam em si nenhum destaque arquitetônico e paisagístico ante a outros grandes centros mesmo na Palestina, postulado semelhante ao de Reed, apesar de serem importantes constructos simbólicos para com o Império Romano. Freyne, -em “The Geography, Politics and Economics of Galilee and the Quest for the Historical Jesus”, pgs. 75-122 - "Studying the Historical Jesus - Evaluations of the State of Current Research", ed. Por Bruce Chilton e Craig Evans – expõe que as políticas de construções de Herodes Antipas não geraram dinamismo econômico nas aldeias, mas drenaram recursos e geraram uma casse parasitária, “os herodianos” que substituiram os hasmoneus. Argui que diversos indícios apontam para uma crescente proporção de diaristas e meeiros ante a proprietários, reforçando a tese da concentração fundiária. Decorre daí também a expansão da medincância na Galileia do século I.

O cenário também é iluminado pela apresentação de materiais demonstrando faixas de cultivo intensivo, principalmente de vinhas e oliveiras na região montanhosa da Alta Galileia, com fortes densidades populacionais! Também entre elas, nos vales há um amplo escopo de terras férteis, de baixa acidez e boa profundidade e glanulometria, havendo o cultivo intensivo de grãos e cereais, e densos povoamentos próximos a mananciais. Nestas regiões inclui-se Nazaré. Aí se constata a predominância de agricultura camponesa, com excedentes de produção, e com seus vilarejos, tendo surgido a partir da expansão hasmonéia no séc. II a.C. Num olhar mais panorâmico, na Galileia predominava a propriedade privada de lotes individuais de terra. A pesca também era importante, especialmente na região de Magdala e Betsaida, com achados de redes de pesca, diques e portos. O grego para Magdala, Tarichea, refere-se à atividade da salga do peixe.

Já no tempo de Jesus, no entorno abrangendo Nazaré, o padrão de vida começara a cair a partir de exigências extrativas sobretudo de água – componente que costuma passar batido em diversas discussões de conflitos regionais: ponto para Freyne! - para manter o estilo de vida da elite urbana em Séforis, além também das exigências tributárias herodianas e romanas. Cada vez mais o excedente, e mesmo a produção de subsistência, foi ficando comprometida, vulnerabilizando e expropriando a agricultura tradicional, havendo oportunismo então de classes ricas concentrando a terra em áreas mais férteis dos vales e da Alta Galileia. O sofisticado sistema de abastecimento de água, bem como para o lazer com locais de banho, em Séforis, competia com o necessário para o abastecimento de água da região em torno de Nazaré, gerando também convulsão dado o seus sistemas de valores. Séforis costumava “devolver” a água advinda do uso sanitário e de banho, para Nazaré.

Em Tiberíades, a política herodiana fora a de ceder lotes individuais de terra para alguns especialmente incentivados a colonizar e prestar serviços à elite no funcionalismo público e na aristocracia de seus partidários, sendo que muitos destes possuíam já grandes propriedades à margem do Jordão. (ver especialmente 'Jesus and the Urban Culture of Galilee', em Galilee and the Gospel, pg. 183 a 207).
Tal descrição bate de frente com certos postulados de Jensen, que de fato dificilmente contemplam explicações para as manifestações de banditismo e indigência.

Sendo assim, somando que Herodes possuía uma capilar rede de espionagem, agentes policiais e informantes espalhados por toda a região, sendo fácil capturar Jesus e/ou seus seguidores mais proemientes; sendo que este se movera pela região de Cesaréia de Felipe, mas não pelo seu centro urbano, bem como Jonatapa e Gamla, ao contrário do que sugerira Reed, Jesus não fora um fugitivo, mas alguém avesso à política de urbanização e com o estilo de vida e valores das elites econômicas. Também reforça as imagens dos evangelhos de conflitos com os fariseus da Galileia, pois nestas últimas duas regiões se mostra que este grupo possuía grande influência, reforçado com os indícios de forte observância de leis alimentares, Sabbath, purezas rituais. Reforça também a imagem de Marcos de ser uma região de frequente investida por parte de escribas do estado-Templo de Jerusalém.

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