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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

 


Há uma pergunta que atravessa os Evangelhos e que pode ser formulada de maneira muito simples: o que acontece quando o poder pretende dominar não apenas os corpos, mas também o acontecimento, a memória, a ordem e o significado? A violência pode submeter um corpo, destruir uma cidade e interromper uma ordem política; pode também procurar determinar como esses acontecimentos serão compreendidos. A guerra, nesse sentido, não termina necessariamente quando o combate termina. Ela pode continuar na memória, na esperança, na disputa pela soberania e, finalmente, na própria definição daquele que sofreu a violência.

A Tetralogia da Guerra Santa acompanha esse percurso em quatro textos. Não se trata de uma história linear nem de uma teoria geral da guerra aplicada aos Evangelhos. Cada texto parte de uma dimensão específica do conflito e desloca a questão para outra: corpo, memória, soberania e identidade. O resultado é uma investigação progressiva sobre os limites do poder e sobre a possibilidade de que aquilo que pode ser dominado materialmente permaneça aberto à interpretação.


O primeiro texto, O MOVIMENTO DA GUERRA: Campos de batalha, posse, violência e urgência escatológica nos Evangelhos, começa pela materialidade da violência. Nos Evangelhos, corpos são capturados, submetidos, feridos e mortos; territórios são disputados; autoridades procuram controlar pessoas e acontecimentos. A guerra aparece, portanto, como prática concreta de domínio, mas também como disputa pela interpretação do que aconteceu. Quem consegue controlar o corpo parece possuir o acontecimento; quem vence parece ter o direito de definir a derrota. O problema que permanece é se dominar um acontecimento significa também possuir definitivamente seu significado.






Essa questão conduz ao segundo texto, QUANDO O MUNDO DESABA: Guerra, memória e restauração nos Evangelhos. Quando uma guerra destrói uma cidade, uma instituição ou uma ordem política, o conflito não desaparece com a destruição. Ele reaparece na memória daqueles que precisam reconstruir o mundo depois da catástrofe. Recordar não significa apenas conservar o passado, mas reorganizar a relação entre passado, presente e futuro. A derrota pode destruir uma ordem sem eliminar a necessidade de compreender o que aconteceu ou de imaginar aquilo que ainda poderá existir. A guerra continua, portanto, depois da guerra, quando o acontecimento se transforma em memória e a memória passa a disputar o significado da catástrofe.






O terceiro texto, A PREGAÇÃO DO REINO: Inversão, abertura e contestação da ordem nos Evangelhos, desloca a investigação da memória para a soberania. Se uma ordem foi destruída e outra é anunciada, quem possui autoridade para dizer que tipo de mundo deve ocupar seu lugar? A pregação do Reino de Deus não oferece apenas consolo diante de uma realidade marcada por violência, desigualdade e exclusão. Ela introduz uma reivindicação sobre a própria ordem do mundo. Jesus anuncia uma realidade na qual posições podem ser invertidas, fronteiras podem ser atravessadas e pertencimentos podem ser redefinidos. O Reino torna-se, assim, uma questão de soberania: quem pode reivindicar autoridade para ordenar a realidade e segundo quais critérios?






O quarto texto, O LOGOS E O IMPÉRIO: Da soberania messiânica à blindagem cristológica no Evangelho de João, leva a questão para um nível ainda mais radical. Se uma autoridade pode prender, julgar, ferir e matar um corpo, pode ela também determinar definitivamente quem é aquele corpo e o que sua morte significa? No Evangelho de João, a pergunta ganha uma especificidade cristológica que não pode ser reduzida a uma teoria geral da resistência. O corpo submetido à violência é o corpo daquele que, desde o princípio, é identificado como Logos: “No princípio era o Logos” e “o Logos se fez carne”. A vulnerabilidade não desaparece; o corpo pode ser capturado, ferido e morto. O que não decorre desse domínio material é a capacidade de constituir definitivamente a identidade daquele que se fez carne.

A blindagem cristológica não designa uma proteção contra a história nem uma imunidade diante da violência, mas a impossibilidade de reduzir a identidade e o significado de Jesus àquilo que a violência produz sobre seu corpo. O poder pode controlar a carne sem, por isso, adquirir o monopólio sobre aquilo que essa carne revela. A ferida permanece; a morte acontece; o corpo continua marcado. Ainda assim, esse mesmo corpo será testemunhado, lembrado e reconhecido. A questão da Tetralogia chega, então, ao seu ponto mais radical: o poder pode dominar um corpo sem necessariamente possuir a última palavra sobre aquilo que esse corpo significa.





Lidos em conjunto, os quatro textos formam uma arquitetura na qual cada problema prepara outro sem desaparecer nele. GUERRA investiga o domínio sobre o corpo e o acontecimento; MEMÓRIA, aquilo que permanece e se reconstrói depois da ruptura; REINO, a disputa pela soberania e pela ordem da realidade; LOGOS, finalmente, a identidade daquele que permanece no centro dessas disputas. O percurso vai do corpo ao acontecimento, do acontecimento à memória, da memória à soberania, da soberania à identidade.

A Tetralogia da Guerra Santa começa, portanto, com a pergunta sobre aquilo que o poder pode fazer a um corpo e termina com uma pergunta sobre aquilo que o poder não consegue, necessariamente, decidir sobre ele. A guerra pode começar na carne. Mas aquilo que acontece à carne não esgota aquilo que ela significa.



Ao final de nosso trabalho, criamos também um GLOSSÁRIO com os principais conceitos, teorias e proposições textuais usadas ao longo da obra. Eles estão ali apresentados de forma sintética e didática, de tal forma que possam ser apreendidos com relativa facilidade. 




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