Guerra, trauma e memória da dominação romana nos Evangelhos
RESUMO
Este artigo propõe compreender a relação entre a Guerra Judaico-Romana, a destruição de Jerusalém e do Templo e determinadas formas de memória presentes nos Evangelhos a partir da categoria heurística de “texto dentro do texto”. Parte-se da distinção entre a formação anterior das tradições sobre Jesus e as novas condições históricas de sua recepção após 70 d.C. A hipótese central é que a guerra não constitui a origem necessária da gramática restauradora presente nas narrativas evangélicas, mas pode ter alterado o horizonte no qual tradições anteriores sobre cura, alimentação, libertação, reunião, morte e ressurreição passaram a ser interpretadas. Para desenvolver essa hipótese, o artigo coloca em diálogo a narrativa de Flávio Josefo sobre a destruição de Jerusalém e do Templo com a representação evangélica do corpo, do espaço sagrado, da cidade e da expectativa escatológica. A comparação não pressupõe dependência literária entre Josefo e os Evangelhos nem equivalências alegóricas entre acontecimentos históricos e episódios narrativos. Propõe-se, antes, reconhecer uma possível homologia estrutural entre destruição e restauração, entendida como recurso de elaboração memorial da catástrofe. O argumento sustenta que a experiência da guerra pode ter produzido novas condições de recepção para tradições anteriores, permitindo que a narrativa sobre Jesus funcionasse como espaço simbólico de reconfiguração da derrota. Roma permanece, assim, como poder histórico materialmente devastador, mas deixa de constituir, na narrativa, a instância última de determinação do significado da história.
Palavras-chave: Guerra Judaico-Romana; Evangelhos; trauma cultural; memória; Jerusalém; Templo; Império Romano; Jesus; escatologia; Flávio Josefo.
1 O MUNDO QUE FOI DESTRUÍDO
Há acontecimentos históricos que não terminam quando terminam os combates. A guerra pode cessar enquanto seus efeitos permanecem inscritos nos corpos, nas instituições, nos lugares, nas relações sociais e, sobretudo, nas formas pelas quais uma comunidade consegue — ou não consegue — narrar aquilo que lhe aconteceu. A Guerra Judaico-Romana de 66–70 d.C., prolongada em focos posteriores de resistência até a queda de Massada, produziu uma ruptura dessa natureza. Jerusalém foi cercada, a fome alcançou dimensões extremas, milhares de pessoas morreram, famílias foram desintegradas, corpos permaneceram sem sepultamento adequado, o Templo foi incendiado e a cidade sofreu uma destruição cuja dimensão ultrapassava a perda de um espaço urbano. O que estava em jogo não era apenas a sobrevivência física de uma população, mas a continuidade de um mundo no qual território, cidade, culto, memória, sacerdócio, sacrifício e presença divina se encontravam profundamente articulados. É nesse ponto que Flávio Josefo se torna indispensável. Não porque sua narrativa seja uma fotografia neutra dos acontecimentos, mas precisamente porque ela constitui uma das mais extensas formas antigas de transformar a catástrofe em memória escrita. Josefo escreve depois de atravessar a guerra e de mudar de posição política; escreve sob proteção flaviana e organiza os acontecimentos dentro de uma interpretação histórica e teológica própria. Seu relato, portanto, não é a catástrofe em estado puro, mas uma representação antiga da catástrofe. É justamente como representação, contudo, que ele pode ser colocado diante dos Evangelhos.
“A fome começou a devorar as famílias inteiras. As casas superiores estavam cheias de mulheres e crianças que morriam; as ruas estavam cheias dos cadáveres dos velhos. Os meninos e os jovens, inchados pela fome, vagueavam pelas praças como sombras, caindo mortos onde a fraqueza os alcançava. Quanto aos mortos, não havia força suficiente para enterrá-los. Alguns, que ainda conservavam alguma energia, eram obrigados a deixar os mortos sem sepultura; outros caíam mortos enquanto enterravam aqueles que haviam morrido antes deles. A calamidade era tão grande que aqueles que ainda viviam já não conseguiam prestar aos mortos os deveres que lhes eram devidos.”
(JOSEFO, Guerra dos Judeus, V.12.3–4, tradução de trabalho a partir de WHISTON).
A passagem é particularmente importante porque a fome não aparece simplesmente como ausência de alimento. Ela funciona como força de desorganização da própria vida social. As casas transformam-se em lugares de morte, as ruas tornam-se espaços de acumulação de cadáveres, os vínculos familiares são atingidos e até o sepultamento — prática pela qual uma comunidade estabelece uma relação ordenada com seus mortos — torna-se impossível. A catástrofe alcança, assim, uma dimensão que ultrapassa a morte individual: ela compromete instituições, ritos e gestos mediante os quais uma sociedade preserva alguma continuidade diante da morte. O corpo humano é um dos primeiros lugares nos quais a guerra se torna visível, mas é também através dele que a destruição alcança a família, a comunidade e os ritos mediante os quais a memória coletiva preserva alguma continuidade diante da morte. Esse aspecto é decisivo para a leitura dos Evangelhos porque uma de suas características mais persistentes é precisamente a apresentação de Jesus como aquele cuja atividade produz restauração. Jesus cura corpos, alimenta famintos, reintegra excluídos, liberta indivíduos submetidos a forças hostis e, em algumas narrativas, devolve mortos à vida. Não é necessário transformar cada cura em alegoria da Guerra Judaico-Romana, nem supor que cada episódio tenha sido concebido como comentário sobre Roma. O argumento que procuramos desenvolver é mais cuidadoso: os Evangelhos preservam uma gramática narrativa na qual a ação de Jesus aparece reiteradamente associada à recomposição daquilo que foi desintegrado. Essa gramática antecede a destruição de 70 d.C.; por isso mesmo, pode posteriormente adquirir nova densidade quando essas tradições passam a ser transmitidas por comunidades que conhecem, recordam ou interpretam a experiência da guerra.
A categoria de trauma precisa ser empregada aqui com alguma precisão. Não estamos afirmando que os Evangelhos sejam simplesmente “textos traumáticos” no sentido psicológico moderno, nem que seus autores tenham sofrido pessoalmente os mesmos acontecimentos que narram. O conceito interessa em outro nível: uma catástrofe pode produzir uma ruptura tão profunda na continuidade de uma coletividade que as categorias anteriormente disponíveis deixam de ser suficientes para organizar sua experiência. Guijarro Oporto (2019) utiliza justamente esse campo conceitual para pensar Marcos em relação à Guerra Judaico-Romana: a guerra pode funcionar como horizonte de experiência coletiva, enquanto a narrativa reorganiza essa experiência em torno de memória, identidade e possibilidade de um novo começo. Becker (2023), entretanto, introduz uma correção importante: Marcos não deve ser transformado em crônica da guerra. Sua relação com a violência contemporânea é mais complexa, porque a narrativa seleciona, interpreta e reconfigura experiências de violência dentro de uma história sobre Jesus.
2 DUAS CATÁSTROFES: O MESSIAS E A CIDADE
A relação entre Jesus e a destruição de Jerusalém precisa começar por uma distinção cronológica elementar. A execução de Jesus ocorre antes da Guerra Judaico-Romana; a destruição de Jerusalém e do Templo ocorre décadas depois. Não podemos, portanto, explicar a tradição sobre Jesus como simples produto posterior de 70 d.C. A tradição sobre sua atuação, seus ensinamentos, seus conflitos, sua morte e sua expectativa escatológica já circulava anteriormente. O que a catástrofe pode ter produzido não é a criação de Jesus, mas uma nova situação na qual essas tradições passaram a desempenhar funções diferentes no processo de sua transmissão e recepção. A relação historicamente mais plausível não é, portanto, 70 → Jesus, mas tradições anteriores sobre Jesus + experiência histórica da guerra → novas formas de memória e interpretação. A primeira catástrofe coloca em questão a sobrevivência do Messias; a segunda coloca em questão a sobrevivência do mundo religioso e coletivo ao qual esse Messias pertencia. Os Evangelhos podem ser lidos como narrativas nas quais essas duas experiências de derrota podem ser colocadas em relação dentro de uma mesma gramática de restauração.
O núcleo histórico da crucificação é particularmente sólido. Jesus foi executado por crucificação sob a autoridade de Pôncio Pilatos, em contexto de poder romano. Bryan (2005) a trata como um dos elementos historicamente mais seguros da trajetória de Jesus. Essa segurança, contudo, deve ser separada da reconstrução minuciosa dos procedimentos judiciais narrados pelos Evangelhos: sabemos da execução sob autoridade romana, mas permanecem discutíveis os detalhes do processo e a distribuição precisa de responsabilidades entre autoridades locais e romanas. A crucificação funcionava, portanto, também como uma demonstração corporal de poder e soberania. O poder romano não se limitava à execução; a crucificação possuía também uma dimensão pública de exposição e punição. A questão narrativa produzida pela tradição de Jesus é, por isso, extraordinariamente difícil: como pode aquele que anuncia o Reino de Deus, exerce autoridade sobre doenças e espíritos, reúne Israel e fala de uma soberania futura terminar pendurado numa cruz romana?
“Agora a cidade estava cheia de cadáveres, e o exército não podia deixar de passar sobre eles enquanto avançava contra os que ainda resistiam. O número dos mortos era tão grande que o ar estava corrompido pelo mau cheiro dos corpos, e a visão deles era tão terrível que os próprios soldados eram obrigados a pisar sobre os mortos enquanto prosseguiam em seu avanço.”
(JOSEFO, Guerra dos Judeus, VI.1.1, tradução de trabalho a partir de WHISTON).
Aqui aparece a simetria que estrutura o argumento: Jesus tem o corpo destruído; Jerusalém tem seu espaço destruído. O Messias é derrotado; a cidade é derrotada. O corpo de Jesus sofre a violência imperial; o corpo coletivo de Jerusalém sofre a violência da guerra. Não se trata de estabelecer uma equivalência literal entre acontecimentos diferentes, mas de reconhecer que os Evangelhos posteriores podem ser lidos dentro de um universo histórico em que derrota, morte e destruição exigiam interpretação. Den Hollander (2015) é particularmente útil neste ponto porque permite pensar Jesus e Josefo não como fontes que necessariamente dependem uma da outra, mas como figuras que elaboram respostas distintas a uma catástrofe que atravessa o mesmo universo histórico. Josefo procura explicar a derrota, reorganizando-a dentro de uma história da revolta, da liderança, da corrupção interna e do juízo divino. A tradição evangélica, por sua vez, organiza a derrota de Jesus dentro de uma narrativa de morte e vindicação. Não precisamos postular dependência literária entre os dois para perceber que ambos participam de um mundo em que a destruição romana se tornou problema de interpretação.
É justamente essa possibilidade que Guijarro Oporto (2019) explora em relação a Marcos. Sua proposta de ler o Evangelho como “relato progressivo” permite pensar a guerra não como conteúdo único do texto, mas como horizonte traumático diante do qual uma narrativa sobre Jesus poderia oferecer uma proposta de novo começo. Becker (2023), entretanto, desloca a discussão para uma formulação mais cautelosa: Marcos memoriza violência e guerra, mas não reproduz seus acontecimentos como uma história militar. O Evangelho transforma a violência em narrativa sobre Jesus, seus discípulos, a perseguição, a morte e a esperança. Essa distinção nos parece fundamental.
3 JESUS ANTES DA RUÍNA: A RESTAURAÇÃO JÁ COMEÇOU
A hipótese só se sustenta se pudermos demonstrar que Jesus já aparece nas tradições anteriores à destruição de Jerusalém como agente de restauração. E isso ocorre de maneira particularmente consistente. Lucas oferece uma formulação programática dessa atividade quando apresenta Jesus, na sinagoga de Nazaré, lendo uma passagem de Isaías e relacionando-a à própria missão:
“O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres. Enviou-me a curar os quebrantados do coração, a apregoar liberdade aos cativos, e restauração da vista aos cegos, a pôr em liberdade os oprimidos, a anunciar o ano aceitável do Senhor.” [...] “Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos.”
(Lc 4,18–21).
A passagem é importante porque não apresenta a restauração como interpretação posterior da guerra. Ela aparece como formulação programática da missão de Jesus no relato lucano. Marcos inicia sua narrativa pública com o anúncio do Reino de Deus (Mc 1,14-15) e imediatamente associa esse anúncio à expulsão de espíritos impuros, às curas e à restauração de pessoas. Mateus resume a atividade de Jesus como ensino, proclamação do Reino e cura de doenças (Mt 4,23-25), enquanto Lucas apresenta em Nazaré uma formulação programática baseada em libertação, recuperação e restauração (Lc 4,16-21). A atividade de Jesus, portanto, não nasce da necessidade de explicar 70 d.C.; a gramática restauradora já está presente na tradição. O que muda depois da catástrofe é o horizonte no qual essa gramática pode ser percebida.
As curas formam um conjunto especialmente expressivo. Jesus cura febres, lepra, paralisia, hemorragia, cegueira e surdez; toca pessoas marginalizadas; devolve indivíduos às suas famílias e comunidades; e enfrenta, em algumas narrativas, a própria morte. Em Marcos 1,40-45, a cura do leproso implica também reinserção social; em Marcos 2,1-12, cura e perdão aparecem articulados; em Marcos 5,21-43, a mulher com hemorragia e a filha de Jairo compõem duas histórias sucessivas de restauração; em Lucas 7,11-17, a devolução da vida ao filho da viúva recompõe uma estrutura familiar ameaçada.
Marcos 5,21-43 concentra em uma única unidade narrativa várias dimensões dessa restauração. Jesus encontra uma mulher que sofre há doze anos de uma hemorragia e, em seguida, recebe de Jairo o pedido de que sua filha seja salva. A mulher toca suas vestes e é curada; depois, diante da notícia da morte da menina, Jesus entra na casa, toma-a pela mão e ordena que se levante:
“Filha, a tua fé te salvou; vai em paz, e sê curada deste teu mal.” [...]
“Não temas, crê somente.” [...]
“Talita cumi; que, traduzido, é: Menina, a ti te digo: Levanta-te.” [...]
“E logo a menina se levantou, e andava.”
(Mc 5,34.36.41-42).
A unidade narrativa é particularmente expressiva porque articula corpo, sofrimento prolongado, exclusão social, família, morte e vida. Jesus cura a mulher cujo corpo havia se tornado lugar de sofrimento e restitui a filha de Jairo à vida familiar. O elemento comum não é simplesmente a suspensão de uma doença, mas a recuperação de uma condição humana que havia sido interrompida.
A alimentação das multidões acrescenta uma dimensão comunitária a essa restauração. Em Marcos 6, os discípulos retornam da missão e Jesus procura levá-los a um lugar deserto, mas encontra uma multidão que o precedeu. Ao final do dia, os discípulos observam que o lugar é deserto e que a multidão não tem alimento. Jesus, porém, responde de maneira que transforma a escassez em organização:
“Dai-lhes vós de comer.” [...]
“Quantos pães tendes? Ide ver.” [...]
“E ordenou-lhes que fizessem assentar a todos, em grupos, sobre a erva verde.” [...]
“E todos comeram e ficaram fartos.”
(Mc 6,37-39.42).
A sequência é importante porque a necessidade alimentar não produz aqui desagregação, mas organização. A multidão é reunida, distribuída em grupos, alimentada e conduzida à satisfação. Não precisamos dizer que essa narrativa representa a fome de 70 d.C. para reconhecer sua potência posterior. Se Josefo descreve a fome como força de desorganização da família e da cidade, Marcos apresenta a alimentação como prática de recomposição da comunidade. A relação é estrutural, não alegórica: diante da escassez, uma narrativa registra a dissolução dos vínculos; a outra organiza a necessidade em torno da reunião, da distribuição e da partilha.
O mesmo princípio aparece nos exorcismos. Em Marcos 3,22-27, Mateus 12,22-30 e Lucas 11,14-23, Jesus interpreta a expulsão dos demônios em termos de conflito entre poderes: se um reino está dividido contra si mesmo, não pode subsistir; se alguém entra na casa do homem forte e o amarra, pode então saquear seus bens. Mateus 12,28 torna a associação ainda mais explícita ao afirmar que a expulsão dos demônios manifesta a chegada do Reino de Deus. O exorcismo, portanto, não é apenas uma intervenção terapêutica; ele constitui uma pequena manifestação de uma transformação maior da ordem. Marcos 5,1-20 acrescenta uma imagem particularmente forte. O homem geraseno aparece dominado por uma força cuja multiplicidade é expressa pelo nome “Legião”. A ressonância militar do termo é evidente, mas ela não permite identificar automaticamente os espíritos com a Legio X Fretensis. Uma identificação histórica tão precisa ultrapassaria aquilo que o texto permite demonstrar. A leitura mais segura está na sequência narrativa: domínio, fragmentação, confronto, expulsão e reintegração. A palavra “Legião” pode abrir uma leitura imperial porque insere o episódio em um campo semântico militar; contudo, essa possibilidade deve permanecer como camada interpretativa, não como identificação histórica demonstrada.
A escolha dos Doze completa esse quadro. Marcos 3,13-19, Mateus 10,1-4 e Lucas 6,12-16 apresentam um grupo cuja composição numérica remete plausivelmente às doze tribos de Israel. Mateus 19,28 e Lucas 22,28-30 explicitam essa relação ao associar os Doze ao julgamento das tribos e ao Reino. Assim, antes de qualquer destruição posterior, a tradição já contém uma imagem de reunião de Israel. O conjunto pode ser compreendido como uma gramática na qual cura, alimento, libertação e reunião funcionam como manifestações concretas da chegada do Reino. É por isso que a formulação central deste capítulo deve ser mantida: Jesus não apenas anuncia a restauração. Ele a realiza narrativamente. Sua atuação constitui, dentro da narrativa, uma antecipação presente de uma restauração cuja consumação ainda pertence ao futuro.
Essa dimensão restauradora, entretanto, já aparece tensionada pela relação de Jesus com Jerusalém. A mesma tradição que o apresenta reunindo pessoas e anunciando o Reino conserva também uma palavra dirigida à cidade que concentra a identidade religiosa de Israel. Em Lucas, Jesus lamenta a incapacidade de Jerusalém de reconhecer o momento de sua visita e associa essa rejeição à violência contra aqueles que haviam sido enviados a ela:
“Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste! Eis que a vossa casa vos ficará deserta. E em verdade vos digo que não me vereis até que venha o tempo em que digais: Bendito o que vem em nome do Senhor.”
(Lc 13,34-35).
A passagem é particularmente importante porque coloca dentro da própria tradição restauradora uma tensão que será decisiva para a leitura posterior de Jerusalém. Jesus aparece como aquele que deseja ajuntar os filhos da cidade, utilizando uma imagem de proteção, reunião e abrigo; simultaneamente, a recusa dessa reunião é seguida pela declaração de que a “casa” ficará deserta. A restauração e a desolação não são, portanto, categorias introduzidas artificialmente pela experiência posterior da guerra. Elas já pertencem ao campo narrativo no qual Jesus é apresentado. Isso não significa que Lucas 13,34-35 seja uma previsão codificada da destruição de 70 d.C. A passagem deve ser compreendida primeiro dentro de sua própria tradição profética e escatológica. O que interessa para o argumento é que, quando essa tradição passa a ser recebida depois da destruição de Jerusalém, a proximidade entre reunião, rejeição, desolação e esperança futura pode adquirir uma densidade histórica que não dependia de sua origem.
Essa gramática restauradora, entretanto, não aparece fora de um horizonte de conflito. Quando os discípulos admiram as construções do Templo, Jesus anuncia sua destruição:
“Não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derribada.” [...]
“Olhai que ninguém vos engane; porque muitos virão em meu nome [...] e ouvireis de guerras e de rumores de guerras [...] porquanto se levantará nação contra nação, e reino contra reino; e haverá terremotos em diversos lugares, e haverá fomes e tribulações.”
(Mc 13,2.5-8).
A importância dessa passagem não está em atribuir cada elemento a um acontecimento específico de 70 d.C., mas em observar que Templo, guerra, fome, perseguição e violência passam a ocupar uma mesma arquitetura narrativa. A restauração apresentada anteriormente não aparece, portanto, como uma realidade abstrata ou completamente descolada da história. Ela é colocada diante de um mundo marcado pela ameaça de ruptura. É justamente essa tensão que permitirá, nos capítulos seguintes, observar o que acontece quando a violência deixa de ameaçar apenas os corpos e alcança o próprio corpo do restaurador, o espaço do Templo e a cidade de Jerusalém.
4 O CORPO: DESTRUIÇÃO, RESTAURAÇÃO E MEMÓRIA
“Enquanto a Casa Santa estava em chamas, tudo o que se encontrava ao alcance foi saqueado, e cerca de dez mil dos que foram apanhados foram mortos. Não houve compaixão por nenhuma idade nem respeito pela dignidade de ninguém; crianças, velhos, leigos e sacerdotes foram mortos da mesma maneira. Assim, a guerra alcançou todos os tipos de pessoas e levou todos à destruição, tanto os que suplicavam por suas vidas quanto aqueles que resistiam lutando. A chama espalhou-se por uma grande extensão e produziu um eco juntamente com os gemidos dos que eram mortos; e, como a colina era elevada e as construções do Templo eram grandes, parecia que toda a cidade estava em chamas. Não se poderia imaginar coisa maior ou mais terrível do que aquele ruído: de um lado, o clamor das legiões romanas que avançavam juntas; de outro, os gritos daqueles que, cercados pelo fogo e pela espada, estavam sendo destruídos. [...] Parecia que a própria colina sobre a qual estava o Templo fervia de fogo em toda a sua extensão; o sangue era maior em quantidade que o fogo, e os mortos eram mais numerosos que os que os matavam; em lugar algum se podia ver o chão, tantos eram os corpos que jaziam sobre ele; e os soldados caminhavam sobre montes de cadáveres enquanto perseguiam os que fugiam.”
(JOSEFO, Guerra dos Judeus, VI.5.1, tradução de trabalho a partir de WHISTON).
A força dessa passagem não está apenas na quantidade de mortos. Josefo constrói uma paisagem na qual a materialidade do corpo domina o espaço. O sangue supera o fogo; os mortos superam os vivos; o chão desaparece sob os cadáveres. A guerra transforma o corpo em paisagem. O Templo, por sua vez, deixa de funcionar como centro cultual e torna-se cenário de morte. Essa passagem ajuda a explicar por que o corpo pode constituir uma categoria tão importante para a comparação com os Evangelhos. O trauma histórico de uma guerra não se manifesta apenas na destruição de edifícios ou na alteração de fronteiras. Ele aparece no corpo concreto, no corpo ferido, no corpo morto, no corpo privado dos ritos que lhe conferiam lugar social. A descrição de Josefo produz uma espécie de inversão do espaço: o Templo, lugar de presença e culto, passa a ser coberto pelos corpos dos mortos.
Nos Evangelhos, a situação narrativa é frequentemente inversa. O corpo aparece como o lugar no qual a autoridade de Jesus se manifesta. A cura do leproso não apenas elimina uma condição física; ela restitui alguém ao mundo social. A cura do paralítico não apenas altera sua capacidade corporal; ela associa perdão e reintegração. A mulher que sofria de hemorragia recupera não somente a saúde, mas uma condição de participação social. O cego que volta a enxergar recupera a possibilidade de circular e agir em um mundo que lhe havia sido parcialmente fechado. Não é necessário afirmar que esses relatos tenham sido compostos como respostas conscientes à guerra. O argumento é mais histórico e mais modesto: quando uma comunidade marcada pela violência lê uma tradição na qual o corpo doente é sistematicamente restaurado, essa tradição possui capacidade de produzir uma resposta simbólica à experiência da destruição corporal.
Essa inversão atinge seu ponto máximo na paixão. Jesus não permanece exterior à violência que procura vencer. O corpo do restaurador é submetido à prisão, humilhação e execução. Marcos conduz a narrativa até o Gólgota, onde aquele que havia curado corpos é transformado em corpo submetido à violência imperial:
“E levaram-no ao lugar do Gólgota, que se traduz por lugar da Caveira.” [...]
“E crucificaram-no.” [...]
“E, à hora nona, Jesus exclamou com grande voz: Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” [...]
“E Jesus, dando um grande brado, expirou.”
“E o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo.” [...]
“E José de Arimateia [...] pediu o corpo de Jesus.” [...]
“E o colocou num sepulcro.”
(Mc 15,22-39.42-46).
Aquele que cura corpos passa a ter seu próprio corpo destruído. Aquele que anuncia o Reino termina executado sob a acusação que o identifica como “Rei dos judeus”. A violência que, nas narrativas anteriores, era enfrentada por Jesus agora atinge o próprio agente da restauração. É justamente aqui que a leitura histórica da crucificação e a leitura narrativa da ressurreição precisam permanecer articuladas. O poder romano não é uma metáfora: Jesus foi efetivamente executado por crucificação sob autoridade romana. Mas a narrativa não deixa que a execução constitua o significado final de sua trajetória. O corpo que sofre a violência torna-se, posteriormente, o corpo cuja ressurreição será proclamada como vindicação.
Lucas introduz, porém, uma inflexão particularmente significativa nessa sequência. Enquanto Jesus é conduzido para a execução, mulheres de Jerusalém começam a acompanhá-lo em pranto. A resposta de Jesus desloca novamente o olhar do próprio corpo para o destino da cidade e de seus habitantes:
“E seguia-o grande multidão de povo e de mulheres, as quais também lamentavam e choravam por ele. Porém Jesus, voltando-se para elas, disse: Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai antes por vós mesmas, e por vossos filhos. Porque eis que hão de vir dias em que dirão: Bem-aventuradas as estéreis, e os ventres que nunca geraram, e os peitos que nunca amamentaram. Então começarão a dizer aos montes: Caí sobre nós, e aos outeiros: Cobri-nos. Porque, se ao madeiro verde fazem isto, que se fará ao seco?”
(Lc 23,27-31).
A passagem estabelece uma relação narrativa particularmente importante entre a morte de Jesus e o destino de Jerusalém. Jesus está diante da própria execução, mas sua palavra desloca o centro do sofrimento: “não choreis por mim; chorai antes por vós mesmas, e por vossos filhos”. A morte do Messias não aparece isolada da catástrofe que atingirá a cidade. O corpo submetido à execução romana encontra-se, na narrativa lucana, associado ao sofrimento futuro de Jerusalém. Não é necessário afirmar que a passagem seja uma crônica antecipada da Guerra Judaico-Romana. Tampouco se deve transformar cada detalhe em correspondência histórica com o cerco de 70 d.C. O que ela permite observar é uma articulação narrativa entre paixão, filhos, cidade, violência e destruição que adquire especial densidade quando o Evangelho é recebido por comunidades para as quais a queda de Jerusalém já pertence à memória histórica.
Essa relação torna-se ainda mais significativa quando colocada ao lado do lamento anterior sobre Jerusalém. Em Lucas 13, Jesus desejava reunir os filhos da cidade; em Lucas 19, chorará ao contemplá-la; em Lucas 21, anunciará que Jerusalém será cercada; e, agora, em Lucas 23, a caminho da própria morte, volta-se novamente para as “filhas de Jerusalém” e para seus filhos. A sequência não transforma Jesus em cronista da guerra. Ela produz, porém, uma continuidade narrativa na qual a rejeição, o sofrimento de Jesus e o destino da cidade permanecem ligados.
Mas a narrativa não termina no cadáver. No primeiro dia da semana, as mulheres retornam ao sepulcro e encontram a pedra removida. O corpo que havia sido depositado no túmulo é apresentado pela narrativa como ausente. O anúncio que recebem reorganiza a cena da morte:
“Não vos assusteis; buscais a Jesus Nazareno, que foi crucificado; já ressuscitou, não está aqui.” [...]
“Mas ide, dizei a seus discípulos, e a Pedro, que ele vai adiante de vós para a Galileia; ali o vereis.”
(Mc 16,6-7).
A importância narrativa dessa passagem está precisamente na continuidade entre morte e recomeço. A ressurreição não apaga a crucificação: o anúncio identifica Jesus como aquele “que foi crucificado”. O acontecimento da violência permanece incorporado à identidade daquele que é proclamado vivo. Mas a morte deixa de constituir o ponto final da narrativa. O sepulcro torna-se lugar de passagem entre derrota e novo começo. É nesse sentido que a ressurreição constitui a forma máxima da gramática restauradora que atravessa os Evangelhos: o corpo destruído não é negado; sua condição é reconfigurada.
Bryan (2011), ao tratar da ressurreição em seu contexto histórico e narrativo, chama atenção para a necessidade de distinguir o acontecimento da emergência da fé pascal e das interpretações posteriores sobre o significado da ressurreição. A narrativa evangélica, porém, não está interessada apenas em registrar que os discípulos continuaram acreditando em Jesus. Ela constrói a ressurreição como vindicação.
A inversão é, portanto, radical: o instrumento que deveria produzir a derrota definitiva do Messias torna-se, narrativamente, o ponto a partir do qual começa sua vindicação. Podemos, portanto, reconhecer uma gramática de reversibilidade que atravessa o corpus evangélico: doença e cura, exclusão e reintegração, fome e alimentação, dominação e libertação, morte e vida. Essa reversibilidade não significa que a história seja imediatamente revertida. Roma continua tendo crucificado Jesus; Jerusalém continua destruída; o Templo continua em ruínas. O Evangelho não apaga o acontecimento. Ele modifica sua posição dentro da narrativa. A ressurreição constitui, assim, o modelo máximo dessa operação: a derrota permanece verdadeira como acontecimento histórico, mas deixa de ser suficiente como interpretação da história. O corpo destruído não é negado; ele é transformado em lugar de vindicação.
5 O TEMPLO DESTRUÍDO: QUANDO O LUGAR PRECISA SER RECONFIGURADO
A questão do corpo conduz diretamente à questão do espaço. O Templo não era simplesmente um edifício. Concentrava funções de culto, sacrifício, sacerdócio, peregrinação, presença divina e memória coletiva. Sua destruição produziu, portanto, uma crise que não pode ser reduzida à arquitetura. Quando o edifício desaparece, desaparece também uma infraestrutura material por meio da qual uma comunidade organizava sua relação com Deus, com Jerusalém e com sua própria identidade.
“O fogo foi levado por toda parte, e os trabalhos do Templo eram de tal grandeza que parecia que toda a cidade estava em chamas. O clamor das legiões romanas misturava-se aos gritos daqueles que estavam cercados pelo fogo e pela espada. [...] Muitos dos que haviam sido enfraquecidos pela fome, com as bocas quase incapazes de falar, quando viram o fogo da Casa Santa reuniram suas últimas forças e romperam novamente em gemidos e gritos. [...] Parecia que a colina sobre a qual o Templo estava situado estava tomada pelo fogo; o sangue era maior em quantidade do que as chamas, e os mortos eram mais numerosos do que aqueles que os matavam. O chão não podia ser visto, coberto como estava pelos corpos; e os soldados passavam sobre montes de cadáveres enquanto perseguiam os que fugiam.”
(JOSEFO, Guerra dos Judeus, VI.5.1, tradução de trabalho a partir de WHISTON).
A descrição de Josefo coloca diante de nós o problema material que subjaz à questão teológica. Não desaparece apenas um prédio. Desaparece uma estrutura espacial que concentrava funções. O incêndio do Templo significa simultaneamente destruição arquitetônica, ruptura cultual, perda de objetos, desorganização das funções sacerdotais, interrupção de práticas e transformação da paisagem de Jerusalém. A destruição física produz, desse modo, uma crise que não é apenas material, mas também funcional. Marcos 11,15-19, Mateus 21,12-17 e Lucas 19,45-48 preservam a tradição da intervenção de Jesus no Templo. Marcos 13,1-2, Mateus 24,1-2 e Lucas 21,5-6 apresentam a previsão de sua destruição. Marcos 14,58 e Mateus 26,61 retomam a acusação relacionada ao Templo durante a paixão, enquanto Marcos 15,29 a reinscreve na cena da crucificação. Existe, portanto, uma sequência narrativa suficientemente densa para impedir que o Templo seja tratado como elemento secundário.
O próprio Marcos preserva, portanto, uma tensão entre a atuação de Jesus dentro do espaço templário e a previsão de sua destruição: Jesus ensina e confronta no Templo, mas também anuncia que sua materialidade será atingida.
Mas essa centralidade não resolve automaticamente a questão de seu significado. O fato de Jesus ser apresentado em conflito com o Templo não prova que pretendesse sua abolição. Tampouco a destruição posterior permite concluir retrospectivamente que todos os seus gestos eram anúncios codificados de 70. É justamente aqui que van Henten (2015) exerce uma função crítica fundamental. Sua análise de Jesus e Josefo alerta contra o uso retrospectivo de Josefo como se a destruição do Templo demonstrasse que a instituição estava destinada a desaparecer e que Jesus teria sido seu substituto necessário. O problema torna-se ainda mais sensível quando observamos que o Templo continua aparecendo positivamente na tradição lucana. Lucas inicia sua narrativa no ambiente templário, apresenta personagens ligados ao Templo e termina seu Evangelho com os discípulos associados ao espaço sagrado. Em Atos, a comunidade continua frequentando o Templo. A destruição de 70 não transforma automaticamente o Templo em símbolo de uma instituição definitivamente rejeitada pelo cristianismo.
A narrativa evangélica pode ser lida como uma progressiva concentração, na pessoa e no corpo de Jesus, de algumas funções simbólicas anteriormente associadas ao espaço, ao culto e à presença do Templo. Isso não significa que Jesus simplesmente “substitua” o Templo, nem que o judaísmo seja apresentado como sistema encerrado. Significa que, diante da crise do espaço material, a narrativa dispõe de uma figura capaz de concentrar simbolicamente funções de presença, mediação, restauração e reunião. Jesus ensina no Templo. Jesus confronta autoridades no Templo. Jesus fala da destruição do Templo. Jesus é acusado em relação ao Templo. Jesus morre enquanto o véu do santuário se rasga. A comunidade posterior continua a lidar com o problema do espaço sagrado. O resultado não é uma declaração simples de que “o Templo acabou”; é uma narrativa que reorganiza a relação entre presença divina, corpo, comunidade e espaço.
A resposta narrativa pode ser lida como deslocando algumas funções simbólicas para a pessoa de Jesus. Ele passa a funcionar, dentro da narrativa, como figura concentradora de presença, mediação e restauração. Depois, a comunidade que se reúne em torno dele torna-se outro espaço de continuidade. O movimento, portanto, não é simplesmente “Templo versus Jesus”, mas uma reconfiguração progressiva das relações entre espaço sagrado, presença divina, pessoa de Jesus e comunidade. Essa leitura também explica por que a relação entre Jesus e o Templo deve ser analisada em dois tempos. No primeiro, histórico e tradicional, Jesus atua dentro do universo judaico do Segundo Templo e sua relação com o espaço sagrado pertence às controvérsias de sua própria época. No segundo, memorial e narrativo, essas tradições são lidas por comunidades que sabem que o Templo foi destruído. O mesmo episódio pode, assim, carregar funções diferentes em contextos históricos distintos.
É precisamente aqui que a noção de “texto dentro do texto” começa a adquirir conteúdo. A camada mais antiga da tradição pode conter uma disputa sobre o significado do Templo. Uma leitura posterior pode reconhecer nessa disputa uma nova relevância depois da destruição. Não precisamos afirmar que o autor original tenha previsto 70. Basta reconhecer que o acontecimento histórico modifica o horizonte no qual a tradição passa a ser compreendida.
6 JERUSALÉM E O PEQUENO APOCALIPSE: QUANDO A RUÍNA SE TORNA HORIZONTE
Jerusalém reúne de maneira singular as dimensões religiosa, política, espacial e afetiva do problema. Ela é cidade santa, centro cultual, símbolo de identidade coletiva, lugar da paixão e, posteriormente, objeto de destruição. Por isso, o tratamento evangélico da cidade é fundamental. Se a destruição de Jerusalém fosse simplesmente celebrada como vitória sobre uma cidade condenada, esperaríamos uma narrativa de triunfo. Encontramos algo mais complexo. Jesus entra em Jerusalém, confronta o Templo, anuncia sua destruição e, em Lucas, chora sobre a cidade.
“Assim que o exército já não tinha mais ninguém para matar ou saquear, pois não restava ninguém sobre quem pudesse descarregar sua fúria — e eles não teriam poupado ninguém se ainda houvesse trabalho dessa natureza a realizar — César ordenou que demolisse toda a cidade e o Templo, deixando de pé apenas as torres que se distinguiam das demais, a saber, Fasael, Hípico e Mariamne, e a parte da muralha que cercava a cidade pelo lado ocidental. Essa muralha foi poupada para servir de acampamento aos que permanecessem como guarnição, e as torres foram deixadas para mostrar às gerações futuras que tipo de cidade era aquela e quão bem fortificada havia sido, e que a bravura romana a havia subjugado. Quanto ao restante da muralha, foi tão completamente nivelado por aqueles que a escavaram até os fundamentos que nada restou capaz de fazer com que aqueles que viessem ao lugar acreditassem que ele alguma vez havia sido habitado.”
(JOSEFO, Guerra dos Judeus, VII.1.1, tradução de trabalho a partir de WHISTON).
É precisamente diante dessa imagem que Lucas 19,41-44 adquire importância. Jesus chora sobre Jerusalém. A cidade cuja destruição será narrada como consequência de sua incapacidade de reconhecer o momento presente continua sendo objeto de lamentação.
Lucas não descreve a destruição como espectador distante. Ele a coloca na boca de Jesus antes que ela aconteça e, sobretudo, apresenta Jesus chorando diante da cidade:
“E, quando ia chegando, vendo a cidade, chorou sobre ela, dizendo: Ah! se tu conhecesses também, ao menos neste teu dia, o que à tua paz pertence! [...] Porque dias virão sobre ti em que os teus inimigos te cercarão de trincheiras, e te sitiarão, e te estreitarão de todos os lados; e te derribarão [...] e não deixarão em ti pedra sobre pedra.”
(Lc 19,41-44).
A proximidade temática entre as duas narrativas é evidente em alguns elementos, mas a função narrativa permanece diferente. Josefo descreve a cidade depois de sua derrota; Lucas apresenta Jesus olhando para a cidade e chorando diante da destruição anunciada. Em um caso, a cidade aparece como ruína consumada; no outro, como objeto de lamento e advertência. Essa diferença é precisamente o que torna a comparação produtiva. Não temos aqui dependência literária nem correspondência ponto a ponto, mas duas formas distintas de narrar a destruição de Jerusalém: uma como memória histórica da catástrofe consumada; outra como memória narrativa de uma cidade cuja ruína é antecipada, lamentada e interpretada.
Essa combinação de crítica e lamento é decisiva porque impede que a destruição seja interpretada simplesmente como triunfo cristão. Jerusalém pode ser julgada, destruída e, simultaneamente, lamentada. A pesquisa de Wendel (2026) é especialmente importante nesse ponto. Seu estudo sobre o lamento de Jesus sobre Jerusalém procura interpretar a representação lucana do Templo à luz do cerco de Jerusalém e da destruição do Templo, mostrando como essa experiência histórica pode funcionar como horizonte para a construção narrativa e para os efeitos retóricos possíveis sobre os leitores.
Oliver (2021) acrescenta outra dimensão importante ao mostrar como a escatologia judaica de Lucas-Atos continua ligada à restauração de Israel e à centralidade de Jerusalém. Isso impede uma leitura segundo a qual a destruição da cidade significaria simplesmente a transferência definitiva de sua importância para uma comunidade cristã desjudaizada. A expectativa continua orientada para Jerusalém e para a restauração.
O chamado pequeno apocalipse — Marcos 13, Mateus 24–25 e Lucas 21 — deve ser lido dentro desse horizonte. A narrativa parte da observação do Templo e de sua destruição e amplia progressivamente o campo semântico para guerras, rumores de guerras, fome, terremotos, perseguição, tribunais, governadores, reis, conflitos familiares, fuga, tribulação, sinais cósmicos e manifestação do Filho do Homem. Lucas torna particularmente explícita a imagem de Jerusalém cercada por exércitos (Lc 21,20-24).
A formulação lucana é particularmente concreta:
“Mas, quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabei então que é chegada a sua desolação.” [...]
“Porque haverá grande necessidade na terra, e ira contra este povo.” [...]
“E cairão ao fio da espada, e para todas as nações serão levados cativos; e Jerusalém será pisada pelos gentios, até que os tempos dos gentios se completem.”
(Lc 21,20-24).
Aqui a linguagem da destruição deixa de ser apenas uma imagem geral de crise e adquire contornos particularmente compatíveis com a experiência histórica de uma cidade sitiada: exércitos, desolação, morte pela espada, cativeiro e domínio estrangeiro. Isso torna essa passagem particularmente relevante para a comparação com Josefo. Ainda assim, a correspondência deve ser mantida em seu nível adequado. Lucas não está oferecendo uma crônica da Guerra Judaico-Romana; ele está incorporando a destruição de Jerusalém a uma narrativa teológica mais ampla. A cidade é destruída, mas a frase final — “até que os tempos dos gentios se completem” — impede que a dominação seja apresentada como realidade eterna.
A interpretação de cada elemento permanece, contudo, discutível, e essa distinção precisa ser preservada. Hatina (1996) defende uma relação possível entre a linguagem cósmica de Marcos 13,24-27 e a destruição do Templo, enquanto Neville (2024) questiona associações automáticas entre a destruição de Jerusalém e a vinda do Filho do Homem em Lucas. O ponto metodológico é importante: podemos reconhecer que a destruição de Jerusalém constitui um horizonte histórico explícito em Lc 21,20-24 sem concluir que todas as imagens imediatamente posteriores tenham exatamente o mesmo referente. A destruição pode funcionar como horizonte histórico; a linguagem cósmica pode ultrapassar esse acontecimento; e a expectativa do Filho do Homem pode projetar a narrativa para além de 70. Essa diferença entre referência histórica e projeção escatológica é precisamente o que impede que nossa hipótese se transforme em uma identificação mecânica entre Evangelho e Guerra Judaico-Romana.
O apocalipse não precisa negar a realidade histórica da derrota para relativizar seu caráter definitivo; narrativamente, ele impede que a derrota constitua a realidade última da história. A imagem do Filho do Homem, associada à tradição de Daniel 7, participa dessa inversão de soberania. Não precisamos transformar Roma na “besta” nem identificar cada imagem apocalíptica com um acontecimento específico. O argumento mais sólido é que o poder histórico dos vencedores não coincide necessariamente, segundo a narrativa, com a soberania definitiva. O império pode vencer historicamente e ainda assim ser narrativamente relativizado diante da soberania de Deus.
Tabela 1 – Temporalidade da derrota e da restauração
| Tempo | Acontecimento | Problema |
|---|---|---|
| Passado | Jesus é crucificado | O Messias foi derrotado |
| Presente | Jerusalém e o Templo são destruídos | O mundo religioso foi atingido |
| Futuro | Reino / manifestação do Filho do Homem | A derrota não é definitiva |
Fonte: elaboração própria.
A destruição de Jerusalém, portanto, não constitui o ponto final da narrativa. Ao contrário, ela se torna parte de uma sequência temporal mais ampla na qual passado, presente e futuro são articulados. A morte de Jesus pertence ao passado, mas continua produzindo a questão da identidade do Messias; a destruição do Templo pertence ao presente histórico das comunidades que a recordam, mas não encerra a relação entre Deus, Israel, Jerusalém e sua expectativa escatológica; e o futuro permanece aberto pela expectativa do Reino e da manifestação do Filho do Homem. O acontecimento histórico não desaparece, mas é inserido em uma temporalidade narrativa na qual a derrota pode ser reinterpretada sem deixar de ter sido derrota.
7 O TEXTO DENTRO DO TEXTO: DA DESTRUIÇÃO À RESTAURAÇÃO
“O texto dentro do texto” não designa uma mensagem secreta escondida atrás das palavras dos Evangelhos. Não pressupõe criptografia, censura romana ou uma estratégia deliberada de evasão das autoridades. Trata-se, em sentido heurístico, de uma segunda camada de referencialidade: uma narrativa pode adquirir novos sentidos quando é lida por comunidades situadas numa experiência histórica diferente daquela em que certas tradições foram originalmente formuladas. O primeiro nível é a própria narrativa: Jesus cura, alimenta, liberta, reúne, confronta o Templo, entra em Jerusalém, lamenta a cidade, é executado e ressuscita. O segundo é a experiência histórica de comunidades que vivem sob domínio romano e atravessam guerra, fome, violência, destruição e dispersão. O terceiro é a reconfiguração simbólica: tradições anteriores sobre Jesus podem oferecer recursos para tornar inteligível uma realidade na qual centros materiais de identidade foram destruídos. Essa terceira dimensão não exige intenção autoral consciente; uma tradição pode adquirir nova função no processo de recepção.
Essa formulação permite manter o Império no horizonte histórico sem transformá-lo numa chave interpretativa totalizante. Leander (2010) mostra como Marcos pode negociar discursivamente com a realidade imperial sem reduzir sua narrativa a uma oposição binária entre Jesus e César. A contribuição de Kim (2008) funciona, aqui, como contraponto metodológico: a presença de paralelos entre Cristo e César não autoriza concluir automaticamente pela existência de um programa político anti-imperial ou de uma mensagem codificada. O discurso pode ser politicamente significativo sem ser clandestino. Josefo ocupa posição metodologicamente específica nessa arquitetura. Retomar sua narrativa no final do percurso desloca sua função na análise. No início, Josefo permitia observar a materialidade da destruição; agora, sua narrativa permite perceber que a própria ruína já é construída como memória para gerações futuras. Os Evangelhos não competem com Josefo como crônicas militares: deslocam o problema da destruição para corpo, presença, comunidade, Reino, ressurreição e futuro.
A relação relevante, portanto, não é dependência literária entre Josefo e os Evangelhos, nem a transformação da Guerra Judaico-Romana em alegoria. É a possibilidade de diferentes formas de memória responderem ao mesmo mundo histórico. Den Hollander (2015) fornece a base para essa comparação: catástrofe e interpretação permanecem articuladas, mas não se confundem. As correspondências identificadas ao longo do artigo não propõem equivalências alegóricas. A multiplicação dos pães não “representa” a fome de 70; a cura não “representa” os corpos destruídos pela guerra; a ressurreição não “representa” a reconstrução de Jerusalém. O que existe é uma homologia estrutural entre ruptura e recomposição: a fome desintegra vínculos; a alimentação reúne; a violência destrói corpos; a cura os restaura; a morte encerra uma trajetória; a ressurreição a reabre; a destruição do Templo interrompe funções que podem ser redistribuídas narrativamente.
É nesse sentido que a sequência DESTRUIÇÃO → TRAUMA → MEMÓRIA → RECONFIGURAÇÃO → RESTAURAÇÃO deve ser entendida. “Trauma” não designa aqui um diagnóstico psicológico dos autores, mas a ruptura histórica que ameaça a continuidade de uma coletividade e exige novas formas de atribuição de significado. Guijarro Oporto (2019) e Becker (2023) permitem pensar guerra, memória e reorganização narrativa sem transformar os Evangelhos em crônicas do conflito. A hipótese permanece deliberadamente assimétrica: 70 d.C. não precisa ser considerado a origem da gramática restauradora presente nas tradições sobre Jesus. Essa gramática já está presente antes da destruição. O acontecimento pode, porém, conferir a essas tradições novos sentidos no processo de sua transmissão e recepção. Por isso, a direção da causalidade não deve ser formulada como “Roma destruiu → os Evangelistas inventaram Jesus”, mas como experiência histórica da guerra → novas condições de recepção → releitura, seleção, amplificação e reconfiguração de tradições anteriores.
A restauração, contudo, permanece incompleta. Essa incompletude aparece de maneira particularmente clara quando a expectativa de Jesus e dos discípulos continua associada à restauração de Israel. Em Lucas, Jesus promete aos Doze participação no Reino e os associa às “doze tribos de Israel” (Lc 22,28-30). Em Atos, depois da ressurreição, os discípulos ainda perguntam: “Senhor, restaurarás tu neste tempo o reino a Israel?” (At 1,6). A pergunta é importante porque demonstra que a ressurreição não encerra a expectativa restauradora dentro da narrativa lucana. Ao contrário, a mantém aberta. Oliver (2021) é particularmente relevante nesse ponto ao mostrar como a escatologia de Lucas-Atos continua articulada à restauração de Israel e à centralidade de Jerusalém. A narrativa, portanto, não substitui simplesmente a antiga esperança por uma realidade já concluída; ela desloca sua realização para uma temporalidade ainda aberta.
As duas catástrofes podem ser colocadas em relação, sem serem confundidas. A primeira é a morte do Messias; a segunda, a destruição de Jerusalém e do Templo. A primeira pergunta é como o Messias derrotado continua sendo Messias; a segunda, como uma comunidade continua sendo comunidade quando seu centro material foi destruído. A resposta narrativa passa por uma mesma gramática: morte → vindicação; destruição → restauração; dispersão → reunião; derrota → futuro. Jesus já aparece como agente de restauração; depois da guerra, essa tradição pode oferecer uma gramática de sobrevivência. O Templo não é simplesmente substituído: algumas funções anteriormente concentradas no espaço cultual podem ser reconfiguradas em torno da pessoa de Jesus, da comunidade e da expectativa escatológica. Jerusalém não é simplesmente abandonada: sua destruição pode ser lamentada e, em Lucas-Atos, sua restauração permanece no horizonte. A escatologia, por sua vez, impede que essa reconfiguração seja confundida com restauração já concluída.
É por isso que a afirmação de que “Roma foi transformada pelo texto” deve ser entendida estritamente no plano da representação narrativa: o poder romano não é historicamente transformado pelo Evangelho, mas sua posição como instância de poder pode ser narrativamente relativizada. O poder imperial permanece historicamente real e materialmente devastador, mas deixa de constituir, na narrativa, a categoria última da história. O Evangelho não apaga a derrota; desloca seu significado. Roma pode determinar quem morre, mas não determina, na narrativa, o significado definitivo da morte. Pode destruir o Templo e Jerusalém, mas não determina o destino definitivo da presença de Deus nem o fim da história.
CONCLUSÃO
A Guerra Judaico-Romana destruiu corpos, famílias, instituições, espaços sagrados, objetos, práticas e formas materiais de memória. Josefo permite observar essa dimensão concreta da catástrofe e, ao mesmo tempo, sua transformação em narrativa. Os Evangelhos pertencem ao mesmo mundo histórico, mas não são crônicas da guerra. Sua força, para esta hipótese, está em preservar e reorganizar uma tradição na qual Jesus já aparece como agente de restauração. A pesquisa mobilizada aqui delimita o argumento em vez de produzir um consenso artificial entre posições que permanecem distintas. Guijarro Oporto (2019) e Becker (2023) permitem relacionar guerra, trauma, memória e narrativa; den Hollander (2015) permite pensar a catástrofe como problema de interpretação; Bryan (2005) ancora historicamente a crucificação; van Henten (2015), Wendel (2026) e Oliver (2021) impedem que a destruição do Templo e de Jerusalém seja convertida numa simples narrativa de substituição ou triunfo; Hatina (1996) e Neville (2024) mantêm aberto o debate sobre o pequeno apocalipse; Leander (2010) e Kim (2008) impedem, por vias diferentes, tanto a irrelevância do Império quanto a hipótese de um código anti-imperial universal.
O resultado é uma hipótese de reconfiguração memorial. 70 d.C. não é a origem necessária das narrativas; pode, contudo, constituir um acontecimento histórico capaz de alterar o horizonte no qual essas tradições passam a ser compreendidas. O corpo de Jesus, o Templo, Jerusalém e o Reino tornam-se pontos de concentração de uma narrativa na qual a derrota permanece verdadeira, mas deixa de ser suficiente para definir o significado último da história. “O texto dentro do texto” é, portanto, a nova perspectiva de leitura produzida pelo encontro entre narrativa, memória e história. O acontecimento fornece a ruptura; a memória conserva e reorganiza a experiência; a narrativa oferece formas para sua elaboração; a escatologia permite imaginar sua superação. Não se trata de cifra contra Roma, de mensagem clandestina ou de alegoria ponto a ponto, mas da capacidade de tradições anteriores adquirirem novos sentidos quando lidas por comunidades que conheceram a derrota.
A formulação final pode permanecer: Roma destruiu fisicamente. O Evangelho reconstruiu simbolicamente. Reconstruir, porém, não significa reerguer edifícios ou apagar a catástrofe; significa reconfigurar funções. Onde havia dispersão, a narrativa produz comunidade; onde havia corpo morto, proclama ressurreição; onde havia derrota, produz vindicação; onde havia soberania imperial, anuncia o Reino de Deus. A restauração já começou, mas ainda não terminou. O Evangelho não nega a realidade material da derrota; nega que essa realidade esgote o significado da história. Josefo preserva uma memória narrativa da destruição. Os Evangelhos preservam, ao lado da memória da destruição, a possibilidade da restauração. Não porque um texto seja continuação literária do outro, mas porque ambos pertencem a um mundo no qual a destruição exigia ser interpretada.
Roma pode vencer a guerra. Não determina, na narrativa, quem vencerá no fim.
REFERÊNCIAS
BECKER, Eve-Marie. Facing violence and war: how Mark memorizes contemporary history. Svensk Teologisk Kvartalskrift, v. 99, n. 2, p. 135-149, 2023.
BRYAN, Christopher. Render to Caesar: Jesus, the early church, and the Roman superpower. Oxford: Oxford University Press, 2005.
BRYAN, Christopher. The resurrection of the Messiah. Oxford: Oxford University Press, 2011.
DEN HOLLANDER, William. Jesus, Josephus, and the fall of Jerusalem: on doing history with Scripture. HTS Teologiese Studies/Theological Studies, v. 71, n. 1, 2015.
GUJARRO OPORTO, Santiago. El Evangelio de Marcos como “relato progresivo”: el trauma de la guerra y la propuesta de un nuevo comienzo. Revista Bíblica, v. 81, n. 3-4, p. 315-343, 2019.
HATINA, Thomas R. The focus of Mark 13:24-27: the parousia, or the destruction of the Temple? Bulletin for Biblical Research, v. 6, n. 1, p. 43-66, 1996.
JOSEPHUS, Flavius. The wars of the Jews; or, the history of the destruction of Jerusalem. Tradução de William Whiston. Project Gutenberg, 2001. E-book n. 2850.
KIM, Seyoon. Christ and Caesar: the Gospel and the Roman Empire in the writings of Paul and Luke. Grand Rapids: Eerdmans, 2008.
LEANDER, Hans. With Homi Bhabha at the Jerusalem city gates: a postcolonial reading of the “triumphant” entry (Mark 11.1-11). Journal for the Study of the New Testament, v. 32, n. 3, 2010.
NEVILLE, David. Jerusalem’s destruction and the coming of the Son of Man: assessing an alleged Lukan association. Currents in Biblical Research, v. 22, n. 2, p. 133-166, 2024.
OLIVER, Isaac W. Luke’s Jewish eschatology: the national restoration of Israel in Luke-Acts. New York: Oxford University Press, 2021.
VAN HENTEN, Jan Willem. Josephus, fifth evangelist, and Jesus on the Temple. HTS Teologiese Studies/Theological Studies, v. 71, n. 1, 2015.
WENDEL, Jason S. Weeping over Jerusalem: Luke’s response to the destruction of the Temple. Harvard Theological Review, v. 118, p. 691-712, 2026.
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