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domingo, 22 de julho de 2018

Martírio de Perpétua, Felicidade, Revocato,
 Saturnino e  Secundo, via wikicomons


Nos posts anteriores de nossa  série "os da casa de César te saudam", sobre difusão do cristianismo entre as elites de Roma, falamos de casos de cristãos que atuaram como auxiliares de imperadores e líderes provinciais, sobre outros, de comportamento um tanto heterodoxo, e daqueles cuja a identidade chega a ser incerta, mas que podem ter sido os primeiros casos atestados entre as elites romanas, já no primeiro século. Todos esses casos indicam um avanço crescente do cristianismo entre as classes mais favorecidas, principalmente a partir do final do século II DC. Ocorre que, com o avanço da nova religião, começam a se tornar mais comuns os casos em que a conciliação não era mais possível, em que a identidade cristã afrontou a ordem vigente.

Víbia Perpétua (Cartago, 203 DC)

Conforme observamos em nosso post de agosto de 2010 aqui no adcummulus, "porque os cristãos foram perseguidos", os episódios de perseguição aos cristãos até o governo de Décio (249 DC) eram esporádicos e curtos mas, frequentemente, muito violentos. Os cristãos viviam em relativa tranquilidade, até que alguém tivesse disposição suficiente em acusa-los publicamente, ou que algum administrador provincial, zeloso de suas funções, decidisse reforçar o culto público ao imperador, ou que um Imperador quisesse dar mais ênfase as velhas tradições e ao culto aos deuses, ou que catástrofes levassem a população a achar que o favor dos deuses devesse ser reconquistado, castigando os "ateus" e "ímpios" cristãos.

Um desses episódios ocorreu na cidade de Cartago, atual Tunísia, no ano de 203. Uma jovem esposa e mãe, recém convertida a fé cristã, chamada Vibia Perpétua, pertencente a elite local, foi presa pelas autoridades romanas e condenada a morte, junto com alguns de seus irmãos na fé,  Saturnino e Secundo, que eram homens livres, os escravos Revocato e Felicidade, além de seu mentor na fé, Satiro, que se entregou as autoridades quando soube da prisão de seus discipulos.  Professora Mary Beard, da Universidade de Cambridge fornece mais alguns detalhes:

One particularly revealing moment is described, in account of her own trial, by a christian woman who was sent to be killed by wild beasts in the amphitheatre in Roman Cartage in 203 CE. Vibia  Perpétua, a newly converted Christian, was aged aboiut twenty-two, married and with a young baby, when she was arrested and brought before the procurator of the province, who was acting in place of the governor who had recently died. Her memoir is the most lenghty, personal and intimate account by a woman of her own experiences to have survived from the whole ancient world, dwelling on her anxieties about her child and the dreams that she experienced in prison before she was sent to the beasts. [1] 
(Tradução) Um momento particularmente revelador é descrito, relatando seu próprio julgamento, por uma mulher cristã que foi enviada para ser morta por feras no anfiteatro da Cartago Romana em 203 DC. Vibia Perpétua, uma cristã recém-convertida, tinha 22 anos de idade, era casada e tinha um bebê, quando foi presa e levada ao procurador da província, que estava agindo no lugar do governador que havia morrido recentemente. Seu livro de memórias é o mais longo, pessoal e íntimo relato de uma mulher de suas próprias experiências que sobreviveu de todo o mundo antigo, insistindo em suas ansiedades sobre seu filho e os sonhos que experimentou na prisão antes de ser mandada às feras.

Tertuliano, escrevendo  no inicio do século III  DC, seu tratado sobre a alma, descreve a mártir Perpétua e suas revelações

"Como a heróica mártir Perpetua, no dia da sua paixão, viu apenas os seus companheiros mártires lá, na revelação que recebeu do Paraíso, se não fosse pelo fato da espada que guardava a entrada não permitia que ninguém a atravessasse, exceto aqueles que morreram em Cristo e não em Adão?" [2]
Afora esta breve menção, a história de Perpétua  é contada a partir de um texto conhecido como "A Paixão de Santa Perpétua, Santa Felicidade e seus companheiros", o documento é composto por uma introdução, elaborada pelo editor do texto, seguido de um diário de prisão, que teria sido escrito por Perpétua, bem como outra parte com as memórias de um certo Satiro, irmão na fé e companheiro de martírio. Por fim, o editor acrescentou um relato detalhado da morte de Perpétua e seus companheiros na Arena. O documento existe em manuscritos em latim e grego (que seria uma tradução), bem como uma versão resumida "Os Atos de Perpétua e Felicidade".

Os eventos em Cartago estão inseridos no contexto de ações de governantes locais, ou movimentos periódicos, que esporadicamente perturbavam os cristãos. Cerca de 20 anos antes, Blandina e muitos outros cristãos foram mortos em Lyon (França), assim como os 12 mártires de Scila (Numidia, atual Tunísia). Professora Francoise Thelamon, da Universidade de Rouen, situa o martírio de Perpétua entre mais alguns outros do mesmo período:


 Mas houve perseguições. Algumas visavam os convertidos, os catecúmenos e os recém batizados, assim como seus catequistas; em Alexandria em 202-203; em Cartago, para onde são levados vários catecúmenos, entre eles duas jovens, Perpétua e Felicidade; julgados e condenados a serem jogados as feras, são executados em 7 de março de 203, com seu catequista, que os batizou na prisão; eles se haviam recusado a vestir, os homens, a veste dos sacerdotes de Saturno, as mulheres a das iniciadas de Ceres, para que seu martírio não fosse transformado em sacrifício aos deuses da África romana. As denúncias e a pressão popular sempre provocam surtos de violência, como o massacre anticristão de 249, em Alexandria. [3].


Mosaico de Perpétua: Basilica  Eufrasiana, Porec, 
Croácia, via wikicommons
 Entretanto, para utilizar a vida de Perpétua e seus amigos para os nossos propósitos, temos que avaliar a confiabilidade da fonte. 

Professor Timothy D Barnes , da Universidade de Toronto (aposentado), observa  que a opinião dominante dos estudiosos, é que a  "Paixão de Santa Perpétua" está entre o grupo de atos de martírio, anteriores a perseguição Deciana (250 DC),  com provável historicidade, junto com os Martírio de Policarpo, de Justino Mártir, e dos Mártires de Lyon,  os Atos do Martíres de Scilla, e o martírio de Ptolomeu e Lucio (contada na Segunda Apologia, de Justino Martir). [4]

Professores Jan Bremmer (Universidade de Groningen) e Marco Formisano (Universidade de Ghent) editaram, em 2007, uma coleção de ensaios que reúne a contribuição de vários pesquisadores, e em um artigo conjunto, sustentam a teoria tradicional do documento com três vozes autoriais, o editor-compilador, e os diários de Perpétua e Satiro. Assim, suportam tanto a historicidade como autenticidade do texto [5].

Emanuela Prinzivalli, da Universidade de la Sapienza (Roma), aponta as razões estilísticas que levam os estudiosos a aceitar a autenticidade do relato:

Thus was born the passion of Perpetua and Felicity (Passio Perpetuae et Felicitatis), a rare jewel of early christian literature and a literary prototype for a specific genre  of Passiones in Africa. The amazement aroused in scholarly circles by this woman's achievement has sometimes bordered on incredulity, and some have wondered if her diary were not a clever piece of literary forgery. Meticolous  analysis of the various sections of the Passion of Perpetua has shown that there such great differences between the language used by the compiler-editor and the language used by the author of the diary, that it is extremely unlikely that they were written by the same person, unless he (or she) were the cleverest forger in the whole antiquity.  (Tradução)   Assim nasceu a “Paixão de Perpetua e Felicidade” (Passio Perpetuae et Felicitatis), uma jóia rara da literatura cristã primitiva e um protótipo literário para um gênero específico de Paixões na Africa. O assombro despertado nos círculos acadêmicos pelas realizações dessa mulher às vezes beirou a incredulidade, e alguns se perguntaram se o diário dela não era uma hábil inteligente de falsificação literária. A meticulosa análise das várias seções da Paixão de Perpétua mostrou que existem grandes diferenças entre a linguagem usada pelo compilador-editor e a linguagem usada pelo autor do diário, que é extremamente improvável que fossem escritas pela mesma pessoa, a menos que ele (ou ela) fosse o mais brilhante falsificador em toda a antiguidade. [6]

Além das razões estilísticas, existem evidências associadas a verossimilhança frente ao contexto. Tais elementos levaram um estudioso que era inicialmente cético em relação a autenticidade do relato, o Professor Thomas Hefferman, Universidade do Tennessee, a  reconsiderar sua posição:

I began my serious study of the text as a skeptic, believing the authenticity of the narrative a traditional pious fiction. Yet the more time I spent reading and pondering a host of issues concerning the narrative - for example, Tertullian's possible role in its composition, women's education in third century Roman North Africa, the role of the paterfamilias in the empire , the actuality that people were being executed in the most barbarous manner for their belief, the manuscript tradition, the presence of historical figures in narrative, the myriad details correctly identifying what we know of Roman prisons - the more my skepticism waned. I began to consider that perhaps the historical record could include a unique record that violates what we have come to read as normative and received. (...) I become increasingly persuaded that the Passion was indeed a document that preserved a memory of a actual event, a event which had surely changed through transmission but a whose core was a historically verifiable reality. ( Thomas J Hefferman, Passion of Perpetua and Felicity, fl. 8) (Tradução): Comecei meu estudo sério do texto como um cético, acreditando que a autenticidade da narrativa era uma ficção piedosa tradicional. No entanto, quanto mais tempo eu gastei lendo e refletindo sobre uma série de questões relacionadas com a narrativa - por exemplo, possível papel de Tertuliano em sua composição, a educação das mulheres no terceiro século Roman Norte da África, o papel do pai de família no império, a realidade que as pessoas sendo executadas da maneira mais bárbara por sua crença, a tradição manuscrita, a presença de figuras históricas na narrativa, a miríade de detalhes corretamente identificados do que sabemos das prisões romanas -  mais meu ceticismo diminuiu. Comecei a considerar que talvez o registro histórico pudesse incluir um registro único que viola o que passamos a ler como normativo e recebido. (...) Eu me tornei cada vez mais convencido de que a Paixão era de fato um documento que preservava a memória de um evento real, um evento que certamente mudara através da transmissão, mas cujo núcleo era uma realidade historicamente verificável. [7]

Embora em minoria, o campo de estudiosos que considera incerta tanto a autenticidade do diário e/ou a historicidade da própria Perpétua, tem representantes de peso. Entre os que questionam tanto a autenticidade do diário quanto a historicidade do próprio evento, estão as Professoras Ross Kraemer, Brown University, e Judith Perkins, University of Saint Joseph [8]. Elas pontuam, entre outros fatores, dependências literárias do texto com outros relatos pagãos e judeus anteriores, bem como inconsistências históricas e legais, como lançar uma nobre romana a morte na Arena.  Já outrpos membros do campo "minoritário", porém, como as Professoras Outi Lehtipuu, da Universidade de Helsinki, e Candida Moss, da Universidade de Birmingham, questionam a autoria de relatos como o de Perpétua, Policarpo e Justino, pelo menos em sua forma final, - concedendo, entretanto, a possibilidade de relatos orais ou escritos, que teriam usado usados como base para o texto atual - aceitando contudo, a historicidade básica de seus martírios [9][10]. Moss pondera que a descrição de Perpétua como bem educada, bem casada e de boa família é dada pelo editor/compilador, e que a leitura isolada do diário da recém convertida mártir, indica que teria sido uma concubina, não formalmente casada, o que eliminaria quase todas os problemas legais e históricos do relato. Moss observa ainda que os relatos históricos de martírio, podem se basear em relatos de testemunhas ou documentos legais, mas expandem, embelezam e interpretam a luz das necessidades e realidades de seu público, e, assim, a avaliação histórica desses relatos é sempre uma negociação. [10]. 

Desta forma, considerando os argumentos apresentados acima, tanto de critica literária e verossimilhança, e considerando a menção de Perpétua por Tertuliano,  entendemos que, no mínimo, devemos pressupor a historicidade dos fatos básicos relatados no texto (o que corresponde não só a posição do campo majoritário, como é aceitável por boa parte dos estudiosos da "minoria"), e que a autenticidade do texto - seja diretamente escrito por Perpétua e Satiro, ou se baseado em seus relatos - é  muito provável, embora com possíveis expansões do núcleo autobiográfico.

O relato inicia com a prisão de Perpétua e seus amigos e sendo visitada por seu Pai, que não era cristão. Ele tenta dissuadi-la:

Quando ainda estávamos presos, meu pai, por seu amor por mim, tentou me persuadir e abalar minha decisão.  
Pai, eu disse: "você vê esse vaso aqui, por exemplo, ou esse cântaro, ou seja lá o que for? Sim, eu vejo, ele disse. 
Então eu disse: "Será que poderíamos chama-lo por outro nome diferente de seu nome correto? E ele disse: "não".  
Bem, eu também não posso ser chamada de qualquer outra coisa diferente daquilo que eu sou, uma cristã". Neste momento, meu pai se sentiu tão aborrecido com a palavra "cristã" que veio até mim como se quisesse arrancar meus olhos.[11]


Perturbadora, destruidora de lares. A fala de Perpétua soa quase revolucionária no contexto romano. Primeiro, porque embora fosse casada (e mãe) seu marido/companheiro não é mencionado em nenhum momento do relato, indicando que sua opção religiosa, ou sua prisão, levaram a um rompimento de seu relacionamento. Segundo, e mais importante, porque ela não segue a orientação de seu Pai, o que é "uma contestação direta aos valores romanos do patria potestas, o poder que o pai romano tinha sobre seus filhos, mesmo daqueles que já tinha se casado, como Perpétua". [12].

Perpétua e seus amigos são postos então em uma prisão escura, quente e superlotada, onde ficam sujeitos a extorsões dos soldados. Dois diáconos, chamados Tércio e Pompônio, se compadecem da situação de seus companheiros na fé e subornam os soldados para que Perpétua e seus amigos fossem deslocados para celas mais amplas e arejadas. Melhor alojada, Perpétua passa a receber visitas de sua mãe e irmãos, um deles cristão, sendo permitido também amamentar e depois ficar com seu filho. Neste interim, ela foi batizada. Lá também teria tido a oportunidade de escrever suas memórias. Com o passar do tempo, começam a contar com a ajuda de um dos guardas, chamado Pudêncio, que permite a visita de vários outros cristãos, e trata com respeito e cuidado os prisioneiros.

O fato dessa relativa liberdade na prisão romana não nos deve surpreender. O apóstolo Paulo escreveu algumas cartas na prisão ("o prisioneiro do Senhor), assim como Inácio de Antioquia. Aqui no adcummulus, em nosso texto de maio de 2009, em que falamos da imagem de Jesus como mestre e sábio, citamos o ensaio "da Amizade", de Luciano de Samosata, em que Demetrio assiste seu amigo Antifilio na prisão, visitando-o constantemente, suprindo com alimentação e roupas, e subornando os guardas, para fosse bem tratado. Da mesma forma, Proteus Peregrino, um filosofo que Luciano considerava um charlatão, e que fora cristão durante parte de sua vida, foi assistido por seus irmãos na fé na prisão "recebia toda a forma de atenção, não esporádica mas assídua. Desde o amanhecer viúvas idosas e crianças orfãs podiam ser vistas esperando perto da prisão, enquanto seus oficiais dormiam junto a ele depois de subornar os guardas (...)"   

Durante o tempo em que foi mantida presa, até a execução, Perpétua  relata várias experiências visionárias. No primeira, ela sobe por uma escada perigosa, sob a mira de várias armas. Ao fim de escada está uma serpente. Satiro e Perpétua passam pela escada e pela serpente, não sendo feridos. E chegam a um jardim, onde são saudados por homem de cabelo branco e uma multidão de vestes brancas, que lhes oferece leite, que tem sabor doce. Perpétua percebe então que sofrerá o martírio. No seguinte a sua condenação, ela tem uma visão em que seu irmão, morto aos 7 anos de idade, de câncer, chamado Dinocrates. Ela o vê em sofrimento, e passa a orar por ele, por vários dias, ao fim dos quais, "no dia em Geta  fazia aniversário",  Perpétua tem outra visão com Dinocrates feliz e saudável.  Na véspera do martírio, Perpétua teve sua última visão. O diácono Pômponio a vinha chamar para o anfiteatro, e ao invés de bestas, ela viu um grande Egípcio. Ela se vê transformada em um homem, enfrenta o egípcio, e o derrota. Acorda, e se dá conta que sua verdadeira luta não seria a matéria, contra as feras, mas  a espiritual, contra o demônio. 

Enquanto isso, sua família tentou de várias formas dissuadi-la. No dia seguinte a prisão, Perpétua é visitada por seu Pai, que mais uma vez implora:
Tem piedade minha filha, de meus cabelos grisalhos. Tende piedade do teu pai, se eu for digno de ser chamado pai por ti. Se com estas mãos te levei a esta flor da tua idade, se te tenho preferido a todos os teus irmãos, não me entregues ao desprezo dos homens. Tenha em conta os seus irmãos, tenha em conta a sua mãe e sua tia, tenha em conta o seu filho, que não poderá viver sem você [13]

Após algum tempo na prisão, os prisioneiros são trazidos diante do Procurador Hilariano, que substituía o Proconsul Minucio Opimiano (seguindo a versão grega, uma vez é figura atestada no governo da província em 202/203 DC), que os interroga. Mary Beard descreve a cena:

Even in this account the frustration of her interrogator comes across, and his keenes to get her recant "Have pity on the white hairs of your father, have pity on your tiny baby" he urged her. Just make a sacrifice for the well being of emperor". I will not do so", she replied. Are you a Christian? he asked, now putting a formal question. When she said she was "Christiana sum" she was sentenced to death. The procurator was obviously baffled, and so it was the crowd who watched her die in the amphitheatre.(Tradução) Mesmo nesse relato, a frustração de seu interrogador se manifesta, bem como seu desejo de fazê-la se retratar "Tem pena dos cabelos brancos de seu pai, tenha piedade de seu pequenino bebê", ele insistiu. Basta fazer um sacrifício pelo bem estar do imperador ". Eu não farei isso", ela respondeu. Você é cristã? ele perguntou, agora colocando uma questão formal. Quando ela disse que ela era "Christiana sum", ela foi condenada à morte. O procurador estava obviamente perplexo, assim como a multidão que a viu morrer no Anfiteatro.[14]


Perturbadora da ordem, subversiva: Muitos deuses e religiões eram adorados no Império, os deuses olímpicos, os deuses ancestrais das várias populações do Império e fora dele, novas crenças e sistemas religiosos. Contudo, um elemento fundamental a unidade era o culto ao Imperador, que supunha, teria participação de todos os súditos do Império, ao recusar um "mero sacrifício para o bem do Imperador", Perpétua não só se declarava como adepta de uma crença nova e não reconhecida pelas autoridades, que seguia alguém que foi condenado como Rei dos Judeus, mas como se negava a um dever cívico considerado básico, e julgado vital para sobrevivência do Império. A recusa em participar do culto imperial irritava as autoridades muito mais do que as crenças cristãs, que seriam toleráveis para os que não fossem muito tradicionalistas. Todo o processo era feito para que o acusado se retratasse, se submetendo. Pouco importa se manteria suas convicções depois. Cem anos antes, como já comentamos aqui no adcummulus, o Imperador Trajano, respondendo a carta de  Plínio, o Moço, que nada tinha encontrado de perigoso, criminoso, ou subversivo no grupo, determina que "(...) Eles não devem ser perseguidos. Se eles forem denunciados, e for provada a culpa, eles deverão ser punidos, com esta ressalva, qualquer um que negar que é cristão, e provar isso, istoé, adorando os nossos deuses, mesmo que tenha sido suspeito no passado, obterá perdão mediante seu arrependimento, mas acusações anônimas não devem ser permitidas (...)". Se houvesse submissão, mesmo que fingida, tudo ficaria bem. No entanto, a integridade de Perpétua e seu amigos selou seu destino.  Foram condenados a serem lançados as feras. 

Criminoso lançado aos leopardos. Mosaico de Piso Romano,  
século III DC, Museu Arqueológico da Tunisia,  wikicommons
Passados mais alguns dias, os condenados são trazidos para a arena, e o relato de Perpétua se encerra. O registro dos eventos no anfiteatro  é dado pelo narrador/editor/compilador. Secundo havia morrido na prisão. Felicidade deu a luz a uma filha, e foi para a execução junto com seus companheiros. Ao entrar no anfiteatro recusam as vestes dos deuses pagãos, os homens, dos sacerdotes de Saturno, e as mulheres de Ceres. Sem se intimidar, Revocato, Saturnino e Satiro passam a provocar a multidão, que reage exigindo que os prisioneiros fossem açoitados. Após isso, um javali selvagem, um leopardo e o urso são lançados sobre os homens, e uma vaca selvagem contra as mulheres. Muito feridos, os condenados recebem o golpe de misericórdia dos gladiadores. O que executou Perpétua era novato, e as mãos dela conduziram sua espada para feri-la em seu pescoço  

Mary Beard aponta outro elemento perturbador da ordem romana:

 Roman blood sports obeyed a rather strict set of rules. It was animals and criminals and the slave underclass who met their deaths, not young mothers. In fact, "the crowd shuddered at the sught", when they saw that Perpetua's fellow martyr Felicitas had breasts dripping milk. So why on earth were the romans doing this? (Tradução)  Os esportes de sangue romanos obedeciam a um conjunto bastante restrito de regras. As feras eram o meio pelo qual os criminosos e a classe baixa de escravos encontravam suas mortes, e não jovens mães. De fato, "a multidão estremeceu ao ver", quando viram que a colega de Perpetua, a mártir Felicitadade, tinha seios pingando leite. Então, por que diabos os romanos estavam fazendo isso? [15]

A imagem de uma mãe de um filho recém nascido, com seios vertendo leite, e de uma jovem mãe da elite romana lançada as feras, e morrendo com dignidade, o que tornava as coisas ainda piores. Como justificar isso. Professor Pierre Grimal (1912-1996) explica o que as multidões costumavam ver em eventos como esse:

Mas não nos esqueçamos, antes de protestarmos com horror, de que esses não eram os únicos espetáculos que se ofereciam a plebe (...) Frequentemente, também, os condenados que deviam enfrentar leões e ursos eram bandidos que tinham cometido muitos crimes, submetido viajantes a tortura, massacrado, pilhado, incendiado e se a justiça as vezes confundia com autênticos culpados os escravos fugitivos, cujo o único crime era terem querido escapar de um senhor desumano, é que, em épocas diferentes, a consciência dos homens não é sensível aos mesmos escrúpulos, e não que os romanos, tomados um a um, fossem mais cruéis ou mais depravados do que os homens do nosso tempo, capazes, por seu lado, de tolerar (desaprovando-os, às vezes, só com palavras) mil horrores dos quais os romanos não podiam ter nem idéia. [16].


O martírio de Perpétua ocorreu no reinado de Sétimo Severo. Como vimos no post anterior, nesse tempo, Marco Aurélio Prosenes galgava postos na hierarquia imperial, até chegar ao posto de mordomo de Caracalla, filho de Sétimo Severo, que, por sua vez, tinha tido uma ama de leite cristã. Em suma, " o próprio Imperador, beneficiário do culto em sua honra e cujo nome era invocado para executar os cristãos, mantinha mordomos, babás, servos de confiança, e até amantes que seguiam a fé proibida." . O cristianismo estava se normalizando e fincando raízes na sociedade romana,  milhões de pessoas já seguiam a nova fé. Ao mesmo tempo, mais e mais relatos de execução surgem. Os cristãos são membros produtivos da sociedade e também criminosos. Servem ao Imperador e são mortos em nome dele. Pouco a pouco vão se inserindo, principalmente nas cidades. Tal elemento acrescenta um terceiro ponto de subversão a ordem vigente: a que pessoas que haviam subvertido a ordem imperial daquela forma não mereciam ser castigadas assim. Tal como Plínio, que não conseguia ver crime ou ameaça nos cristãos que interrogou, além de sua própria teimosia. 

Perpétua pode escandalizar o mundo moderno por suas convicções, que podem soar como radicais, até fanáticas. Contudo, em um mundo tão polarizado como o nosso, os mais conservadores verão nela a inspiração para lutar até o fim por valores que lhe extremamente caros são caros, como a fé cristã e seus princípios. O mais progressistas perceberão que o avanço das conquistas sociais, a luta pelo  direito dos pobres, dos trabalhadores, das mulheres, dos negros, das minorias, foi feita também por aqueles que enfrentaram a ordem vigente, foram presos e até mortos. A integridade é poderosa como força transformadora, mesmo quando seus efeitos não são percebidos imediatamente. Como disse certa vez Alexandre Solzhenitsyn "Você pode resolver viver sua vida com integridade. Deixe seu credo ser este: Deixe a mentira vir ao mundo, deixe-a mesmo triunfar. Mas não através de mim".

Blandina (Lyon, 177 DC)


Potino era um cristão da Ásia Menor, que enviado missionário por Policarpo, Bispo de Esmirna. Em algum ponto do II século, ele se estabeleceu em Lugduno, atual Lyon, na Gália (França), e fundou uma igreja lá, se tornando posteriormente Bispo. Lugduno foi fundada como colônia romana, localizando-se em um entroncamento de estradas, com localização estratégica, crescendo rapidamente, tornando-se o principal centro urbano de toda a Gália, com dezenas de milhares de habitantes. Era a capital da província da Gália Lugdunensis. Lá também, no Anfiteatro das Três Gálias, os líderes das 60 tribos gaulesas se reuniram em 12 AC para prestar culto a Roma e ao Imperador, reconhecendo publicamente sua autoridade, e formaram também o conselho provincial. Sendo assim, muitos imigrantes, boa parte deles gregos, foram recebidos. O Bispo Potino, e vários dos membros de sua congregação, entre eles.

Blandina, era uma jovem escrava. Sua senhora também era cristã. Naquele ano de 177 DC as coisas não estavam muito boas para os seguidores de Cristo na cidade. A população, em geral, era hostil, e os cristãos evitavam os lugares públicos, pois corriam o risco de não só serem objeto de escárnio, quanto de espancamentos, e roubos. Casas de cristãos tinha sido vandalizadas. 

As turbas estavam sob provável incitação de boatos associando os cristãos  a acusação de promoverem "banquetes de Tieste e relações Edipianas", ou seja, canibalismo e incesto. Tal acusação é respondida na obra de Minucio Felix, que a transcreve e cita como fonte do  rumor Cornélio Fronto: (100-170 DC).

Um infante recoberto de comida, para enganar os desavisados, é colocado diante dele, que deve ser maculado com seus ritos: esse infante é morto pelo jovem aluno, que foi impelido como se fosse golpes inofensivos na superfície de uma criança. a refeição, com feridas escuras e secretas. Sedento - ó horror! - eles lambem seu sangue; ansiosamente eles dividem seus membros. Por esta vítima eles estão comprometidos juntos; com essa consciência da maldade, eles são comprometidos com o silêncio mútuo. Tais ritos sagrados, como estes são mais sujos do que qualquer sacrilégio. E de seus banquetes é bem conhecido que todos os homens falam disso em toda parte; até o discurso do nosso cirtense testemunha disso. Em um dia solene, eles se reúnem na festa, com todos os seus filhos, irmãs, mães, pessoas de todos os sexos e de todas as idades. Lá, depois de muito banquete, quando a comunhão se aqueceu, e o fervor da luxúria incestuosa esquentou com a embriaguez, um cachorro que foi amarrado ao candelabro é provocado, jogando um pequeno pedaço de miudezas além do comprimento de uma linha. pelo qual ele é obrigado a correr e a saltar; e assim a luz consciente sendo derrubada e extinta na escuridão desavergonhada, as conexões da luxúria abominável os envolvem na incerteza do destino. Embora nem todos de fato, ainda assim na consciência todos são igualmente incestuosos, já que pelo desejo de todos eles tudo é buscado para que possa acontecer no ato de cada [17]

Tais acusações, o correspondente as fake news de hoje , circulavam principalmente no século II. Na polêmica posterior, a medida que o cristianismo se torna mais conhecido, em autores como Celso, Sosiano Hierocles e Porfirio, essa acusação vai perdendo cada vez mais força, substituída por questionamentos filosóficos ao cristianismo, até desaparecer. Contudo, em meados do século II, ainda podia ser relevante.  

A perseguição de Lyon parece se enquadrar no caso de mobilização popular. O relato é encontrado numa Carta enviada pela Igreja de Lyon e Vienne para as Igrejas da Ásia e da Frigia [16], em 178 DC, preservada na Historia Eclesisastica, de Eusébio de Cesaréia. Novamente, temos que abordar a questão da historicidade dos eventos. Na discussão mais acima relativa a autenticidade do relato de Perpétua, que foi inserida na discussão conjunta dos 6 atos de martírio anteriores a 250 DC que teriam se baseado em  eventos históricos, conforme a posição dominante entre os estudiosos resumida por Timothy D. Barnes, expressa da seguinte forma (referindo-se as cartas de Policarpo e da Igreja de Lyon):

Both letters describe trials conducted in public before a large audience. It must be presumed, therefore, that their account derive either from autopsy or from the accounts of those who witnessed them (traduçãoAmbas as cartas descrevem julgamentos realizados em público perante uma grande audiência. Deve-se presumir, portanto, que a narrativa deriva do processo ou dos relatos daqueles que as testemunharam [18]

Semelhantemente, Stéphanie Machabée cita o trabalho clássico de Paul Keresztes

Paul Keresztes writes: “there is nothing in this moving description of the Lugdunum [Lyons] tragedy that would discredit the historical value of what we have, thanks to Eusebius’ transmission, of the original document.” I agree  with Kereszetes; very few scholars accuse Lyons of being false and of those who do, not many scholars are convinced by their arguments. (Tradução) Paul Keresztes escreve: “não há nada nesta descrição comovente da tragédia de Lugdunum [Lyons] que desacredite o valor histórico do que temos, graças à transmissão de Eusébio, do documento original.” Concordo com Kereszetes; pouquíssimos acadêmicos acusam Lyons de ser falso e daqueles que o fazem, não muitos acadêmicos estão convencidos por seus argumentos [19]

Sendo assim, iremos pressupor a historicidade dos fatos básicos relatados. Ou seja, a Igreja na região de Lyon foi perseguida em 177 DC, e muitos de seus membros executados, como Blandina e Potino. Seguiremos o texto da carta, com os devidos comentários.

Blandina é introduzida como uma jovem de constituição física frágil e delicada:

Blandina, através de quem Cristo mostrou que as coisas que para os homens parecem vis, deformadas e desprezíveis estão com Deus de grande glória, por causa do amor a Ele, um amor que não é uma mera aparência arrogante, mas mostra-se no poder que exerce sobre a vida. Estávamos todos com medo, especialmente sua senhora terrena, também entre aqueles combatentes que deram testemunho, que ela não seria capaz de fazer uma confissão ousada por causa da fraqueza de seu corpo.
Os tumultos populares aumentam, e as autoridades intervém. A Galia Lugdnense era uma província imperial, com legiões estacionadas, e portanto governada por um  Legado (comandante de legião). O legado, estava ausente, e seu imediato, um tribuno militar, que o substituía, junto com os oficiais civis da cidade prendem vários cristãos, diante de uma multidão, jogando, literalmente, para a plateia. Lá aguardam o retorno do governador.

O governador retorna, e os prisioneiros são julgados. Sob intensa pressão da multidão, não é dado aos cristãos a oportunidade de um julgamentos justo. Um cidadão respeitado, chamado Vétio Epagato, se revolta contra o procedimento e se prontifica a defender os cristãos. O governador pergunta se ele também era cristão, ele responde que sim. O governador o prende junto com os outros mártires. Em seguida, alguns escravos que não eram cristãos, temendo serem torturados (na lei romana, escravos eram sempre torturados antes de serem interrogados) denunciam seus senhores cristãos (que haviam sido presos), e  dezenas de pessoas são presas nas igrejas de Lugduno e Vienne, dentre os quais o Bispo Potino, o diácono Sancto, o respeitado e proeminente Atálio, o adolescente Pôntico, e, claro, Blandina. Enquanto isso, pelo menos dez cristãos negam a fé (embora alguns tenham se arrependido depois), indicando que boa parte se intimidava em face da ameaça de tortura e morte.

Diferentemente do caso de Perpétua e seus amigos, os cristãos de Lyon foram submetidos a torturas e a um tratamento bem mais degradante. Não há transferências para celas mas arejadas, simpatia dos guardas ou assistência dos irmãos. Possivelmente, as autoridades em Lyon estavam pressionadas pelas turbas, estas, por sua vez, atiçadas pelas "fake news" de incesto e canibalismo. Fazer justiça era obrigação dos magistrados romanos, mas manter a paz era muito mais importante, e nesse caso significava aplacar a multidão. O caso de Perpétua e seus companheiros há um processo relativamente normal, que segue os parâmetros estabelecidos por Trajano, focado nos casos efetivamente denunciados e buscando faze-los sacrificar aos deuses e cultuar ao Imperador. Um outro relato contemporâneo, a paixão dos mártires de Scilla , (Tunísia) datado de 180 DC,  mostra um proconsul disposto a oferecer várias oportunidades a um grupo de 12 cristãos para que reconsiderassem sua decisão de não participar do culto imperial, propõe até uma pausa de 30 dias, que é recusada pelos cristãos, que são então executados, mas sem menção a torturas. Talvez fosse a prática na Africa do Norte, mas o tratamento aos cristãos é, em geral, destoante de outros atos de martírio considerados autênticos, anteriores ao reinado de Décio. Em Lyon, a perseguição embora curta, foi bem mais generalizada, agressiva e cruel. Tudo o que Trajano não queria.

Além das particularidades das províncias e seus administradores, o contexto mais geral do Império pode ter tido influência relevante. Em 17 de março de 180 DC, o Imperador Marco Aurélio morreu e foi substituído por seu filho Comodo que, pelo menos em relação aos cristãos, resultou em um governo menos hostil (Comodo teve um relacionamento com a cristã Márcia, além de vários de seus escravos e libertos de confiança serem daquela religião). Como observa Francoise Thelamon:

"Nota-se uma recrudescência das perseguições no reinado do imperador filósofo Marco Aurélio (161-180), que despreza profundamente os cristãos a despeito da coragem dos mártires diante da morte. Os cristãos são responsabilizados pelas desgraças da época e constituem as vítimas potenciais dos ritos expiatórios. Assim, o filósofo e apologista Justino é morto em Roma, , enquanto em Lyon, em 177, o velho bispo Potino e vários cristãos morrem na prisão; Sanctus, diácono da Igreja de Vienne, Atálio, apesar de ser cidadão romano, a escrava Blandina, o adolescente Pontico e outros são jogados às feras no anfiteatro das Três Gálias; (...) em Pérgamo, cristãos são torturados e queimados vivos no anfiteatro. Em 180, pela primeira vez na Africa do Norte, cristãos são decapitados por causa da sua fé; em Roma, alguns são condenados aos trabalhos forçados nas minas da Sardenha. Mas veem-se também governadores soltarem cristãos e o imperador Cômodo anistiar confessores sob a influência dos próximos, porque o cristianismo penetrou em todos os meios, inclusive na corte. [20]


Sancto, diácono da igreja de Vienne, foi submetido a várias torturas, e como permanecia inflexível dizendo "sou cristão", foram postas placas em brasa, "nas partes mais delicadas de seu corpo". Os presos foram colocados em celas superlotadas, fedorentas e escuras, amontoados, o que levou alguns a morrerem de asfixia. O Bispo Potino, doente e com 90 anos de idade, após seu julgamento foi arrastado, levou pontapés e socos da multidão, além de lhe serem arremessados objetos.  Morreu na prisão dois dias depois. E não podemos deixar de falar de Blandina:

Mas, Blandina estava cheia de tal poder, que aqueles que a torturavam um após o outro de todas as formas desde a manhã até a noite estavam cansados ​​e esgotados. Eles admitiram que estavam perplexos. Não havia mais torturas que pudessem aplicar a ela. Eles ficaram surpresos que ela permaneceu viva. Seu corpo inteiro estava rasgado e aberto. Eles disseram que até mesmo uma das formas de tortura empregadas era suficiente para destruir sua vida, sem mencionar tantas punições excruciantes. Mas a mulher abençoada, como um atleta nobre, renovou sua força em sua confissão. Sua declaração, "Eu sou cristã, e não fizemos nada de errado", trouxe-lhe descanso, repouso e insensibilidade a todos os sofrimentos infligidos a ela.

Ao longo da carta, embora tenhamos um bispo que foi discípulo de Policarpo, (que, por sua vez, foi auxiliar de Inácio de Antioquia, e este teria acompanhado o apóstolo João), de um respeitável Vétio Epagato, que optou compartilhar do destino dos mártires, o diácono Santo, e a própria senhora de Blandina (a qual não se recordou o nome) é a escrava que "rouba a cena". Além da subversão da ordem imperial, apontada no caso de Perpétua, há uma perturbação na ordem social e até na própria hierarquia da Igreja,  como pontua Gabrielle Friesen:

Among the Galic martyrs was Blandina, whose martyrdom came to be more famous than those of her compatriots. Blandina was a slave-girl,  much as Felicitas, who was to be martyred with her mistress. Whereas Perpetua eclipsed Felicitas in Perpetua’s journal and later remembrance, Blandina is the martyr who achieves the most fame among her group. Blandina’s faith allows her to supersede her mistress in fame, (…) and even physically embodies Christ’s image in the amphitheatre. Blandina’s faith and martyrdom, a gruesome affair, allows her to move past the earthly limitations of her class status not only in the afterlife, but even, according to the author of the account, in the physical world (tradução) Entre os mártires gálicos estava Blandina, cuja o martírio se tornou o mais famoso entre os seus compatriotas. Blandina era uma escrava, tanto quanto Felicitas, que seria martirizada com sua senhora. Contudo, Perpetua eclipsa Felicitas em seu diário e no registro posterior, Blandina é o mártir que alcança o mais fama entre seu grupo. A fé de Blandina permite que ela superar sua senhora na fama, (...) e até fisicamente incorpora a imagem de Cristo no anfiteatro. A fé e o martírio de Blandina, um caso horrível, permite-lhe ultrapassar as limitações terrenas do seu condição de classe, não só na vida após a morte, mas também até, segundo o autor do relato, no mundo físico.[21]


Após serem torturados extensivamente, os sobreviventes Átalio, Maturo, Sancto e Blandina são levados ao Anfiteatro das Três Gálias para serem lançados as feras, no meio de um festival. Previamente, os cristãos que eram cidadãos romanos foram decapitados.  No último momento, Átalio foi separado pelo governador, uma vez que declarou ser cidadão romano, e havia apelado ao Imperador. Os demais enfrentaram seu destino:

Anfiteatro das Três Gálias, Lyon, via wikicommons
Eles foram arrastados pelas bestas selvagens e sofreram toda a indignidade que o povo enlouquecido clamava ao redor do anfiteatro. Último de todos eles foram colocados em uma cadeira de ferro em brasa, em que seus corpos foram assados. Eles mesmos sentiam o cheiro das emanações de sua própria carne. Mas os pagãos não pararam nem mesmo aqui, mas tornaram-se ainda mais frenéticos em seu desejo de superar a resistência dos cristãos. 



Blandina assume então um papel de proeminência, acaba sendo vista como uma lembrança de Jesus crucificado:

Mas Blandina foi amarrada a uma estaca e exposta, como alimento para as feras selvagens que foram lançadas contra ela. Porque ela parecia como se estivesse pendurada em uma cruz e por causa de suas sinceras orações, ela inspirou os combatentes com grande zelo. Pois eles olharam para esta irmã em seu combate e viram, com seus olhos corpóreos, Aquele que foi crucificado por eles, para que Ele pudesse persuadir aqueles que confiam Nele que todo aquele que sofre pela glória de Cristo tem comunhão eterna com o Deus vivo . Quando nenhuma das feras selvagens da época a tocou, ela foi retirada da estaca e levada de volta para a prisão.
 Ao fim do dia, torturada, assada em brasa, tendo sido lançada como comida para feras, de alguma forma, Blandina ainda está viva.  É a última guerreira de pé. No meio da multidão, um médico chamado Alexandre, proveniente da Frígia, foi descoberto tentando encorajar e ajudar seus irmãos cristãos, foi levado ao governador, e como não negou sua fé, foi condenado a destino semelhante a seus companheiros. O governador, talvez se sentindo fortalecido ante ao "sucesso" da performance dos cristãos com a multidão,  tomou outra decisão arbitrária, condenou Atálio a morte, sem aguardar o resultado de seu apelo.

A lei romana dava garantias a seus cidadãos, inclusive de apelar ao Imperador, para evitar injustiças e arbitrariedades como a que Atálio, Vettio Epagato e outros foram submetidos. Isto pode contar como contradição ou inconsistência histórica na carta. Ou não. Na verdade, há indícios que alguns direitos estavam, cada vez mais, sendo "pra inglês ver". Professora Mary Beard, observa que "(...) o sofisticado edifício da lei romana, a despeito de sua extraordinária expertise em formular regras legais e princípios (....) tinham pouco impacto nas vidas daqueles que não eram da elite, e ofereciam pouca ajuda para seus problemas (...)" [22] um dos motivos é que,  naquele período, já havia romanos demais recorrendo, citando o exemplo do Egito, Beard observa que  "(...) O que nós realmente sabemos, com base em outros documentos em papiro, que no começo do século terceiro DC um governador do Egito (o prefeito, como era chamado lá) tinha recebido em apenas três dias em único lugar 1800 petições de interessados na solução de problemas ou reclamações. A grande maioria deve ter sido jogada para debaixo do tapete (...)" [22].

A morte de Atálio e Alexandre foi semelhante a de seus irmãos, lançados as feras, sendo antes submetidos a torturas, dentre as quais ser assados na horrenda "cadeira de ferro em brasa". Blandina foi então novamente levada a arena, no último dia dos jogos, desta vez acompanhada de Pontico, com 15 anos de idade. Não antes de serem forçados a ver os sofrimentos impostos a seus companheiros.

Depois de tudo isso, no último dia dos shows de gladiadores, Blandina foi novamente trazida junto com Pôntico, um menino de cerca de quinze anos de idade. Estes dois foram levados diariamente ao anfiteatro para ver as torturas que o resto sofreu. As autoridades tentaram forçar Blandina e Pontico a jurar pelos ídolos pagãos. Mas eles permaneceram firmes em sua recusa. Então a multidão ficou furiosa contra eles. Não tinham compaixão pela juventude do menino ou pelo respeito pelo sexo da mulher. Por isso, expuseram-nos a todo o terror e a todos os terríveis sofrimentos e levaram-nos a cada rodada de tortura. Repetidamente eles tentaram obrigá-los a jurar aos ídolos. Mas não funcionou. Pôntico foi encorajado por sua irmã; até mesmo os pagãos viram que ela o encorajou e fortaleceu. Depois de suportar nobremente todo tipo de tortura, ele morreu. Mas a abençoada Blandina, a última que restou, tendo como mãe nobre encorajou seus filhos e os enviou antes dela vitoriosa para o Rei, suportou os mesmos conflitos. Ela correu para eles com alegria e exultação por sua partida. Era como se ela fosse chamada para um jantar de casamento em vez de ser lançada em feras. Depois que ela foi flagelada e exposta às feras selvagens e assada na cadeira de ferro, ela foi finalmente encerrada em uma rede e lançada diante de um touro. Ela foi jogada pelo touro. Mas ela não sentia as coisas que estavam acontecendo com ela. Isto foi por causa de sua esperança e firmeza do que lhe havia sido confiado e sua comunhão com Cristo. Assim, ela também foi sacrificada. Os próprios pagãos confessaram que nunca entre eles a mulher suportou tantas e terríveis torturas.

A resistência de Blandina beira ao inacreditável, quase uma super heroína, assim como o sobrehumano diácono Sancto. De um lado, é um elemento do texto que parece atender ao viés de seus autores, possivelmente líderes remanescentes da comunidade cristã de Lyon. Mostrar que os cristãos receberam força sobrehumana. Por outro lado, torturas, em geral, são elaboradas para permitir que a vítima sofra prolongadamente, sem morrer, o fim da vida passa a ser uma benesse do carrasco. E a maioria dos condenados parece ter morrido antes de chegar a arena. Sem falar que Blandina não era uma das líderes da Igreja, como o bispo, presbíteros e diáconos presentes, mas uma mulher escrava. Assim, ainda que haja provável exagero na resistência de Blandina, é factível que tenha simplesmente tenha resistido mais do que os outros.

Mesmo mortos, seja na arena, seja na prisão, seja aquele que foram decapitados, houve ainda um outro ato de crueldade. Não foi permitido o enterro digno dos mortos, os corpos foram jogados aos cães, o restos insepultos expostos aos elementos por seis dias, ao fim dos quais foram cremados, e suas cinzas jogadas no Rio Ródano, que vai para o Mediterrâneo. Restou aos cristãos a lembrança do bom combate na Arena e a esperança de que o mar, no último dia, trará os seus mortos. De toda forma, Blandina e seus companheiros nunca foram esquecidos, imortalizados na carta e nos vários monumentos a sua memória em Lyon.

A inclusão de Blandina em uma série que trata do avanço do cristianismo na elite romana, pode causar alguma confusão. Contudo, o avanço do cristianismo em Roma esteve profundamente ligado aos escravos, como vimos anteriormente aqui no adcummulus. A sobrevivência do cristianismo e sua assimilação do Império, deve muito a pessoas como Perpétua e Blandina. 



Referência Bibliográficas:
[1] Mary Beard (2015), SPQR - A History of Ancient Rome, fl. 518-519
[2] Tertuliano, Sobre a Alma, 55 http://www.newadvent.org/fathers/0310.htm, acessado em 22 de julho de 2018
[3] Francoise Thelamon (2007) "Perseguidos mas submetidos ao Império" in Alain Corbin, Historia do Cristianismo, fl. 36
[4] Timothy D Barnes (2010) "Early Christian Hagiography and Roman History", fls 58-72
[5] Jan N Bremmer e Marco Formisano (2007) Introduction In Jan N Bremmer e Marco Fomisano, Perpetua's Passion, fl. 5-7.
[6] Emanuella Prinzivalli (2001), A Womem Writer, in Augusto Fraschetti, Roman Women, fl. 118
[7] Thomas J Heffernan (2012) Passion of Perpetua and Felicity, fl.8
[8] Ross Shepard Kraemer, Unreliable Witness - Religion, Gender and History in Greco - Roman Mediterranean, fl. 118-119.
[9] Outi Lehtipuu (2014), What Harm Is There for You to Say Caesar Is Lord?” , fl. 103
https://helda.helsinki.fi/bitstream/handle/10138/161318/07_Lehtipuu2104.pdf?sequence=1

[10], Candida Moss (2012), Ancient Christian Martyrdom, fl.  16 (sobre a necessidade de "negociar" com as fontes) e 131 (sobre a teoria de Perpetua não ser uma nobre romana, proposta por Kate Cooper)
[11] Paixão de Perpétua e Felicidade, (3), acessado em 22 de julho de 2018 https://sourcebooks.fordham.edu/source/perpetua.asp
[12Eric Cline e Mark Graham (2011), Impérios Antigos, fl. 180
[13] Paixão de Perpétua e Felicidade, 6, acessado em 22/07/2018
[14Mary Beard (2015), SPQR - A History of Ancient Rome, fl. 519
[15] Pierre Grimaldi (2003); História de Roma, fl. 147
[16] Minúcio Felix, Octávio, capitulo XXXI, acessado em 22 de julho de 2018  http://www.earlychristianwritings.com/text/octavius.html
[17] The Letter of the Churchs of Vienna and Lyons to the Churches of Asia and Phrygia including the story of the Blessed Blandina In Eusébio de Cesáreia, Livro V, capitulo 1 (§1 a 63) https://sourcebooks.fordham.edu/source/177-lyonsmartyrs.asp (acessado 22/07/2018)
[18Timothy D Barnes (2010) "Early Christian Hagiography and Roman History", fl. 62
[19] Stephanie Machabée (2013) " The “Cheap, Unseemly, and Readily Despised” One:   A Rhetorical Understanding of Blandina’s Gendered Performance in  The Martyrs of Lyons and Vienne", fl. 37 Tese de Mestrado, McGill University, Montreal. 
http://digitool.library.mcgill.ca/webclient/StreamGate?folder_id=0&dvs=1532282045017~334
[20Francoise Thelamon (2007) "Perseguidos mas submetidos ao Império" in Alain Corbin, Historia do Cristianismo, fl. 35-36
[21] Gabriele Friesen (2014) "Perpetua Before the Crowd: Martyrdom and Memory in Roman North Africa", fl. 11, Undergraduate Honors Theses. 94. (acesso 22/07/2018) https://scholar.colorado.edu/honr_theses/94

[22]  Mary Beard (2015), SPQR - A History of Ancient Rome, fl. 464










quinta-feira, 14 de junho de 2018

Marcos, o evangelista, Icone Copta
Concord, California, via wkicommons
Em fevereiro de 2012, falamos aqui de notícias referentes a possível descoberta do mais antigo manuscrito bíblico já conhecido, que conteria um fragmento do evangelho de Marcos do século I, anunciada pelo Professor Daniel B Wallace, do Dallas Theological Seminary..

Atualmente, o mais antigo manuscrito do Novo Testamento conhecido é um fragmento do evangelho de João, o P52, geralmente datado entre 125-175 DC. Outros importantes papiros são o P90, também do evangelho de João (2° século DC),  P46, datado de 175-225 DC, que contem o texto das cartas paulinas, e P45, que contém partes substanciais dos evangelhos e atos dos apóstolos, e é datado de cerca de 250 DC.

O manuscrito, porém, foi cercado de polêmica desde o seu anuncio. Havia um acordo de preservação de confidencialidade dos estudiosos que tiveram acesso ao manuscrito, até sua publicação, e assim boa parte das informações disponíveis eram fragmentadas, desencontradas, ou simplesmente  proveniente de boatos e rumores. Em 2015, chegou a ser divulgado por alguns meios que o papiro estava associado a mascaras mortuárias de múmias egípcias do período romano.

Em 24 de maio deste ano, porém, os manuscritos foram publicados pela equipe do Professor Dirk Obbink, da Universidade de Oxford, em conjunto com a Egypt Exploration Society, (EES) em Oxyrhynchus Papyri, Volume LXXXIII (Graeco-Roman Memoirs), que editou uma nota relativa a descoberta:

In the latest volume of the Oxyrhynchus Papyri, volume LXXXIII text 5345, Professor Obbink and Dr Colomo publish a fragment from a papyrus codex (book). The two sides of the papyrus each preserve brief traces of a passage, both of which come from the gospel of Mark. After rigorous comparison with other objectively dated texts, the hand of this papyrus is now assigned to the late second to early third century AD. This is the same text that Professor Obbink showed to some visitors to Oxford in 2011/12, which some of them reported in talks and on social media as possibly dating to the late first century AD on the basis of a provisional dating when the text was catalogued many years ago. Papyrus 5345 was excavated by Grenfell and Hunt, probably in 1903 (on the basis of its inventory number), and has never been for sale, whatever claims may have been made arising from individual conversations in the past. No other unpublished fragments of New Testament texts in the EES collection have been identified as earlier than the third century AD. 
(Tradução) No último volume de Oxyrhynchus Papyri, volume LXXXIII, texto 5345, professor Obbink e Dra. Colomo publicam um fragmento de um códice de papiro (livro). Cada um dos dois lados do papiro preserva breves traços de uma passagem, ambas provenientes do evangelho de Marcos. Depois de uma comparação rigorosa com outros textos objetivamente datados, o manuscrito deste papiro é agora atribuída ao final do segundo ao início do terceiro século DC. Este é o mesmo texto que o Professor Obbink mostrou para alguns visitantes de Oxford em 2011/12, que alguns deles relataram nas conversas e nas mídias sociais como possivelmente datando do final do primeiro século DC, com base em uma datação provisional quando o texto foi catalogado há muitos anos. O papiro 5345 foi escavado por Grenfell e Hunt, provavelmente em 1903 (com base no seu número de inventário), e nunca esteve à venda, seja qual for a alegação que possa ter sido feita a partir de conversas individuais no passado. Nenhum outro fragmento não publicado de textos do Novo Testamento na coleção EES foi identificado como antes do terceiro século DC.

O artigo apresentando o novo papiro foi disponibilizado aqui,  contendo o texto de Marcos 1:6-7 e 17-18. O papiro passa agora também a integrar a coleção de manuscritos antigos do novo testamento (séculos II a VIII)  como P137. Na publicação, a data do manuscrito foi corrigida em cerca de 100 anos, passando agora para o final do século II DC. A significância do achado é comentada em detalhes pelos Professores James McGrath, Airton José da Silva, Larry Hurtado, e Bart Erhman, que pontuam também questionamentos não tanto dirigidos a descoberta em si, mas aos vários rumores e informações desencontradas que circularam previamente a publicação, que levaram a EES a expandir a nota acima, com a resposta aos principais questionamentos, em 04/06/2018.

Sobre o papiro, Professor Bart Erhman disponibilizou o texto em seu post (link acima):

Frente:
(...) de suas sandálias, Eu os batizo com água mas ele batizará vocês com o Espirito Santo. E aconteceu naqueles dias (...)

Verso :
(...) No mar.  Pois eram pescadores. E ele lhes disse, venham comigo e eu os farei pescadores de homens. E imediatamente deixaram suas redes  (....).

De nossa parte, já havíamos nos manifestado quando as primeiras informações surgiram em 2012, no sentido de que a descoberta era provavelmente muito signikficativa, mas que se deveria "evitar colocar a carroça na frente dos bois", e os novos fatos não mudam nossa posição:

"É importante observar que, mesmo que haja (e provavelmente há) exagero na notícia, a sua publicação seria muito relevante para a critica textual do novo testamento e história do cristianismo primitivo. O Evangelho de Marcos é um dos textos neo-testamentários mais pobremente atestados, P45 é nossa melhor testemunha textual e data de meados do século III. Se esse novo papiro puder ser datado de 100 DC, por exemplo, seria o mais antigo manuscrito do novo testamento. Se, após analise dos especialistas, sua datação for corrigida em um século, ainda seria o fragmento mais antigo do segundo (e mais antigo) evangelho. Portanto, em se confirmando, essa descoberta tem potencial enorme para contribuir com nosso conhecimento do cristianismo primitivo.

Então, controvérsias a parte, a publicação do manuscrito é extremamente significativa.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018




O livro dos Atos dos Apóstolos, em seu capítulo 21, nos apresenta um acontecimento crítico para a compreensão da trajetória histórica de Paulo de Tarso e, de maneira mais ampla, para a compreensão das tensões existentes no interior do cristianismo nascente. Paulo retorna a Jerusalém e encontra Tiago e os anciãos da comunidade. Segundo o relato, havia naquela cidade milhares de judeus que haviam aderido ao movimento dos nazarenos e que eram, simultaneamente, zelosos da Lei. O problema não era, portanto, simplesmente a existência de judeus que acreditavam em Jesus como Messias, mas a coexistência, dentro do movimento cristão primitivo, de diferentes formas de compreender a relação entre a fé em Jesus e a Torah. Esses judeus estavam preocupados com os rumores segundo os quais Paulo estaria ensinando aos judeus da diáspora a abandonar Moisés, deixando de circuncidar seus filhos e de caminhar segundo os costumes tradicionais. Tiago, diante dessa situação, orienta Paulo a participar de um rito público no Templo juntamente com homens que haviam realizado votos, de maneira que sua conduta pudesse demonstrar que ele próprio não ensinava aos judeus a apostasia em relação à Lei.

O episódio é particularmente significativo porque não se trata de uma defesa abstrata da Lei, mas de uma tentativa de demonstrar publicamente a continuidade entre o movimento nazareno de Jerusalém e a tradição mosaica. A narrativa de Atos parece fazer questão de preservar essa distinção. Os judeus seguidores de Jesus não são apresentados como indivíduos que abandonaram sua identidade religiosa, mas como pessoas que continuam zelosas da Torah. A questão paulina aparece, portanto, em outro nível: não seria necessário que os gentios incorporados ao movimento messiânico assumissem integralmente a identidade legal judaica. Essa distinção já havia sido estabelecida em Atos 15 e reaparece explicitamente em Atos 21. É precisamente nesse ponto que a narrativa de Lucas oferece uma chave fundamental para compreender a pluralidade do cristianismo primitivo: a não obrigatoriedade da Lei para os gentios não implicava necessariamente a rejeição da Lei pelos judeus que acreditavam em Jesus.

Essa distinção torna-se ainda mais importante quando observamos a resolução atribuída ao chamado Concílio de Jerusalém. Em Atos 15, a questão central consistia precisamente em saber se os gentios deveriam ser circuncidados e obrigados a observar a Lei de Moisés. Alguns membros oriundos do grupo dos fariseus que haviam aderido à fé cristã sustentavam que isso era necessário. O texto é explícito:

“Alguns, porém, que tinham descido da Judeia ensinavam aos irmãos: ‘Se não vos circuncidardes segundo o costume de Moisés, não podereis ser salvos’. Tendo ocorrido uma grande discussão e controvérsia entre eles e Paulo e Barnabé, decidiu-se que Paulo e Barnabé e alguns outros fossem a Jerusalém, aos apóstolos e anciãos, para tratar dessa questão.”
(Atos 15:1-2).

O problema, portanto, não era simplesmente saber se a Lei era boa ou má, nem mesmo se os cristãos judeus deveriam continuar observando-a. A questão era qual estatuto jurídico-religioso deveria ser atribuído aos gentios que ingressavam no movimento messiânico de Israel. Quando a questão é finalmente discutida em Jerusalém, Lucas novamente registra a presença daqueles que defendiam uma posição mais rigorosa:

“Alguns homens que tinham pertencido ao partido dos fariseus, mas que haviam abraçado a fé, levantaram-se e disseram: ‘É necessário circuncidar os gentios e exigir deles que observem a Lei de Moisés’.”
(Atos 15:5).

A resolução apresentada por Tiago modifica substancialmente essa exigência. Os gentios não precisariam assumir a totalidade das obrigações da Torah. Deveriam, entretanto, abster-se de determinadas práticas:

“Por isso, julgo que não se devem inquietar os gentios que se convertem a Deus. Quanto a eles, escreva-se que se abstenham das contaminações dos ídolos, da união ilegítima, das carnes sufocadas e do sangue.”
(Atos 15:19-20).

A decisão de Jerusalém, portanto, estabelecia uma diferenciação normativa entre judeus e gentios dentro do movimento cristão. Não temos aqui, necessariamente, uma rejeição da Torah como sistema religioso judaico, mas uma delimitação de sua obrigatoriedade para os gentios. Essa distinção é importante porque impede uma leitura retrospectiva segundo a qual a Igreja de Jerusalém teria simplesmente abandonado a Lei de Moisés. O próprio capítulo 21 torna isso evidente. Tiago relembra Paulo a decisão anterior e afirma:

“Quanto aos gentios que abraçaram a fé, já lhes escrevemos sobre nossas decisões: que se abstenham das carnes imoladas aos ídolos, do sangue, das carnes sufocadas e das uniões ilegítimas.”
(Atos 21:25).

A liderança da comunidade de Jerusalém parece, portanto, trabalhar com dois regimes normativos distintos: de um lado, judeus-cristãos que permanecem vinculados à Torah; de outro, gentios-cristãos submetidos a um conjunto reduzido de prescrições. Essa distinção é particularmente importante porque nos obriga a abandonar a ideia de que “cristianismo primitivo” constituía desde o início uma realidade homogênea. O próprio testemunho de Atos aponta para uma pluralidade interna: havia judeus seguidores de Jesus zelosos da Lei, gentios que não estavam obrigados à circuncisão e à observância integral da Torah, grupos judaizantes que defendiam uma aplicação mais ampla da legislação mosaica e, provavelmente, correntes helenistas cuja relação com a Lei era significativamente diferente.

A tradição cristã posterior parece conservar a memória de grupos judaico-cristãos que continuaram observando a Lei. Irineu de Lyon, no final do século II, descreve os chamados ebionitas como aqueles que permaneciam ligados a práticas judaicas, enquanto Epifânio, no século IV, apresenta os nazarenos como um grupo que continuava observando a Lei. Essas fontes, contudo, precisam ser utilizadas com cautela: são testemunhos posteriores e pertencem a uma literatura de caráter heresiológico. Não podemos simplesmente transportar suas descrições para o século I como se fossem fotografias históricas da comunidade de Jerusalém. Ainda assim, elas são relevantes porque demonstram que permaneceu viva, durante os primeiros séculos, a memória de uma forma de cristianismo judaico na qual a observância da Lei não era considerada incompatível com a crença em Jesus.

O Novo Testamento, por sua vez, apresenta diversas passagens nas quais determinados mandamentos do Decálogo aparecem preservados ou reinterpretados. Um dos exemplos mais conhecidos encontra-se no episódio do jovem rico:

“E eis que alguém se aproximou e lhe perguntou: ‘Mestre, que devo fazer de bom para possuir a vida eterna?’ Jesus respondeu: ‘Por que me perguntas sobre o que é bom? Um só é bom. Se queres entrar na vida, observa os mandamentos’. Ele perguntou: ‘Quais?’ Jesus respondeu: ‘Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não levantarás falso testemunho; honra teu pai e tua mãe; e amarás teu próximo como a ti mesmo’.”
(Mateus 19:16-19).

O elemento que chama a atenção nessa passagem é precisamente a seleção dos mandamentos. Jesus não apresenta ao jovem toda a legislação mosaica, mas enumera alguns dos mandamentos do Decálogo e acrescenta o mandamento do amor ao próximo. Algo semelhante ocorre em diferentes textos do Novo Testamento: encontramos reiteradamente princípios correspondentes a grande parte do Decálogo, enquanto o mandamento relativo ao Shabbat assume uma posição excepcionalmente problemática. A questão não é que o Novo Testamento desconheça o sábado; pelo contrário, ele o discute extensamente. O ponto é que não encontramos uma prescrição inequívoca impondo aos cristãos gentios a guarda do sábado nos mesmos termos em que o mandamento é imposto a Israel.

Essa ausência torna-se ainda mais significativa quando observamos o desenvolvimento posterior da literatura cristã. Uma das primeiras formulações sistemáticas que encontramos sobre o Decálogo como uma legislação de validade permanente para os cristãos aparece em Irineu de Lyon, no final do século II. Em Contra as Heresias, Irineu estabelece uma distinção particularmente importante entre a chamada lei natural e a legislação mosaica:

“Deus, no princípio, advertindo os homens por meio dos preceitos naturais que desde o começo implantara na humanidade, isto é, por meio do Decálogo — que, se alguém não observar, não terá salvação —, nada mais exigiu deles. [...] Depois, porém, quando eles [os judeus] se mostraram desobedientes e ingratos, acrescentou-lhes, por meio de Moisés, outros preceitos, por causa da servidão, a fim de os sujeitar e disciplinar.”
(IRINEU DE LIÃO, Contra as Heresias, IV, 15).

Aqui encontramos algo extremamente importante para nossa investigação. Irineu começa a formular uma distinção que posteriormente seria decisiva para a teologia cristã: a Lei de Moisés pode ser compreendida como possuindo elementos temporários e elementos permanentes. A circuncisão, determinadas prescrições rituais e outras práticas podem ser interpretadas tipologicamente, enquanto os mandamentos fundamentais do Decálogo permanecem como expressão da lei natural. Irineu não apresenta, portanto, simplesmente uma rejeição da Lei; ele produz uma hierarquização interna da própria legislação mosaica. Essa distinção é fundamental para compreender a posterior formação cristã de uma categoria denominada “Decálogo”.

A posição de Irineu torna-se particularmente interessante quando chegamos justamente ao quarto mandamento. Ele não afirma simplesmente que o sábado foi abolido. Sua estratégia é outra: transformá-lo em sinal e símbolo. O sábado passa a representar uma realidade espiritual mais ampla:

“Os sábados ensinavam que devemos perseverar dia após dia no serviço de Deus. [...] O sábado de Deus, isto é, o reino, era indicado pelas coisas criadas; nesse reino, o homem que tiver perseverado no serviço de Deus repousará e participará da mesa de Deus. [...] Abraão, contudo, sem circuncisão e sem observância dos sábados, creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça.”
(IRINEU DE LIÃO, Contra as Heresias, IV, 16).

A operação hermenêutica realizada por Irineu é sofisticada. O sábado não desaparece; ele é relocalizado. O Shabbat físico transforma-se em imagem do descanso escatológico, enquanto sua realidade mais profunda consiste na perseverança contínua no serviço de Deus. A mesma lógica será desenvolvida posteriormente por Clemente de Alexandria, para quem o sétimo dia aponta para uma realidade superior de descanso e iluminação. O que vemos, portanto, não é simplesmente uma abolição do quarto mandamento, mas sua desliteralização e espiritualização.

Surge então uma questão histórica que considero fundamental: como essa concepção cristã do Decálogo se constituiu? Se a comunidade apostólica de Jerusalém permaneceu vinculada à Torah, conforme parece indicar Atos 21, e se os gentios haviam sido dispensados da observância integral da Lei, de onde surgiu a ideia de que o Decálogo poderia ser destacado do restante da legislação mosaica e transformado em uma espécie de núcleo moral universal do cristianismo?

A resposta não pode ser simplesmente encontrada na Igreja de Jerusalém. Pelo contrário, a evidência disponível sugere uma situação mais complexa. Uma hipótese particularmente interessante consiste em investigar correntes judaicas heterodoxas ou judaico-cristãs que passaram a atribuir ao Decálogo uma posição normativa excepcional, eventualmente separando-o das demais prescrições mosaicas. É nesse ponto que entram em cena os chamados minim da literatura rabínica.

Antes, porém, é necessário estabelecer um dado fundamental: o Decálogo possuía uma posição excepcional dentro do próprio judaísmo do Segundo Templo. A ideia de que os Dez Mandamentos ocupavam uma posição privilegiada não foi criada pelo cristianismo. O chamado Papiro Nash, datado geralmente do período helenístico, reúne o Decálogo e o início do Shema, e manuscritos provenientes de Qumran também preservam textos contendo os Dez Mandamentos. A evidência indica, portanto, que havia no judaísmo anterior ao cristianismo uma relação particular entre o Decálogo, a oração e a identidade religiosa.

A Mishná preserva ainda uma memória muito explícita dessa prática. Em Tamid 5:1, afirma-se que, no serviço do Templo, eram recitados os Dez Mandamentos juntamente com o Shema e outras passagens fundamentais. A centralidade litúrgica do Decálogo, portanto, é anterior ao cristianismo e não deve ser interpretada como uma inovação cristã posterior. Ao contrário, o cristianismo herdou um problema já existente no interior do judaísmo: qual era exatamente o estatuto dos Dez Mandamentos dentro da totalidade da Torah?

Em determinado momento, contudo, essa recitação deixou de integrar a liturgia judaica cotidiana. A tradição rabínica atribui essa mudança precisamente à necessidade de impedir uma interpretação considerada herética. O Talmude Babilônico, ao discutir a questão, afirma que os Dez Mandamentos não eram mais recitados diariamente por causa da reivindicação dos minim: caso continuassem a ser recitados, esses grupos poderiam sustentar que somente os Dez Mandamentos haviam sido entregues a Moisés no Sinai. A passagem é particularmente importante porque revela a existência de uma disputa sobre a própria estrutura da revelação mosaica.

Entretanto, aqui é necessário introduzir uma correção decisiva em relação à hipótese formulada originalmente. Não podemos afirmar simplesmente que os minim eram cristãos judaicos, muito menos que eram especificamente cristãos que defendiam a validade exclusiva do Decálogo. O termo minim possui uma história complexa na literatura rabínica e pode designar diferentes categorias de desviantes. Adiel Schremer demonstrou que a identificação automática dos minim tannaitas com cristãos é metodologicamente problemática; em sua análise da Tosefta Hullin, ele argumenta que os minim não constituem, na literatura tannaita, uma categoria especificamente cristã.

Isso, entretanto, não elimina o problema histórico. Ao contrário, torna-o mais interessante. A literatura rabínica efetivamente preserva a memória de disputas acerca da posição normativa do Decálogo, e sabemos que seguidores de Jesus chegaram a ser classificados como minim em determinados textos rabínicos. O que não podemos fazer é retroprojetar essa classificação sobre todos os minim ou presumir que todos os grupos assim designados fossem cristãos. A literatura rabínica deve ser utilizada como testemunho de processos de classificação e fronteirização religiosa, e não como um catálogo sociológico preciso dos grupos existentes no século I. Richard Kalmin chama atenção justamente para esse problema: as fontes rabínicas sobre minim e cristãos podem revelar tanto as relações efetivas entre comunidades quanto os interesses e preconceitos dos próprios autores e editores rabínicos.

Há, entretanto, uma possibilidade particularmente fecunda. Se determinados minim ou determinados cristãos não observantes da Torah utilizaram o Decálogo para sustentar uma concepção seletiva da Lei, então a tradição rabínica poderia estar registrando, ainda que indiretamente, uma disputa semelhante àquela que posteriormente aparece na teologia cristã: a possibilidade de distinguir entre os mandamentos universais e permanentes e as prescrições particulares da legislação mosaica.

É justamente aqui que a obra de Irineu adquire uma importância extraordinária. Ele não apenas afirma que o Decálogo continua vigente; ele constrói uma genealogia segundo a qual o Decálogo corresponde à lei natural implantada por Deus na humanidade desde o princípio, enquanto determinadas prescrições mosaicas teriam sido acrescentadas posteriormente. Essa distinção permite ao cristianismo resolver uma questão aparentemente insolúvel: como rejeitar a obrigatoriedade integral da Lei de Moisés sem rejeitar os mandamentos fundamentais nela contidos? A resposta consiste em separar conceitualmente o Decálogo da Torah enquanto totalidade.

Essa operação é particularmente importante porque oferece uma possível chave para compreender o desenvolvimento posterior da teologia cristã. O cristianismo poderia afirmar simultaneamente que a Lei mosaica não era obrigatória para os gentios e que os Dez Mandamentos permaneciam obrigatórios para todos os cristãos. A aparente contradição desaparece quando se estabelece uma distinção entre Torah e Decálogo. A primeira passa a ser compreendida como legislação específica da aliança mosaica; o segundo, como expressão de uma lei moral universal.

Devemos, contudo, evitar uma conclusão excessivamente linear. A produção acadêmica mais recente coloca em dúvida justamente a ideia de que o “Decálogo” já funcionasse no Novo Testamento como uma categoria normativa independente. Shraga Bick argumenta que, embora mandamentos individuais do Decálogo sejam amplamente utilizados no Novo Testamento, o Decálogo como categoria normativa distinta não aparece ali de maneira claramente constituída. Segundo sua proposta, a transformação do Decálogo em categoria cristã diferenciada ocorre sobretudo a partir do final do século II, em paralelo ao desenvolvimento de uma linguagem que contrasta os mandamentos que os cristãos deveriam conservar com outras partes da Lei judaica.

Essa hipótese é particularmente importante para nosso argumento porque desloca cronologicamente o problema. Talvez não devamos procurar no cristianismo apostólico uma doutrina já pronta segundo a qual “a Lei foi abolida, mas os Dez Mandamentos permanecem”. O que encontramos nos textos do século I pode ser algo muito mais fragmentário: mandamentos individuais do Decálogo são preservados, mas ainda não existe necessariamente uma categoria teológica autônoma chamada “Decálogo”. É somente posteriormente que escritores cristãos como Irineu começam a transformar essa coleção de mandamentos em uma categoria sistemática.

Nesse sentido, a questão dos minim deve ser recolocada dentro de uma história mais ampla de construção das fronteiras religiosas. A discussão não é simplesmente “quem eram os minim?”, mas também “por que determinados grupos passaram a ser classificados como minim?” e “que tipo de controvérsia sobre a Lei estava sendo produzida por essas classificações?”. A literatura rabínica registra um processo de diferenciação entre grupos judaicos, enquanto a literatura cristã produz simultaneamente suas próprias classificações de ortodoxia e heresia. A formação do cristianismo não foi, portanto, apenas um processo de separação entre duas religiões já constituídas, mas uma longa disputa pela definição legítima da herança de Israel. Schremer enfatiza justamente essa dimensão dinâmica do processo de construção do “outro” religioso.

O cristianismo joanino oferece outro elemento que merece investigação. O Evangelho de João apresenta uma relação particularmente tensa entre Jesus e determinadas prescrições da Lei, sobretudo no que diz respeito ao sábado. Em João 5:18 encontramos uma afirmação excepcionalmente forte:

“Por isso os judeus procuravam com maior empenho matá-lo, pois não somente violava o sábado, mas também chamava a Deus de seu próprio Pai, fazendo-se assim igual a Deus.”
(João 5:18).

É importante evitar, novamente, uma conclusão simplista. João não está necessariamente afirmando que Jesus “aboliu a Lei”. O Evangelho possui uma teologia muito mais complexa. Entretanto, a maneira como apresenta os conflitos sabáticos e a relação entre Jesus, Moisés e a tradição judaica demonstra que estamos diante de uma comunidade cristã cuja identidade estava sendo construída em forte tensão com determinados setores da sociedade sinagogal. A tradição joanina, portanto, constitui uma evidência relevante de que diferentes comunidades cristãs podiam desenvolver relações muito distintas com a Torah.

A hipótese que podemos formular, portanto, é mais complexa do que simplesmente afirmar que “os cristãos aboliram a Lei”. O que parece ter acontecido foi uma progressiva reorganização da própria Lei dentro do cristianismo. A comunidade apostólica de Jerusalém preservou uma forte identidade judaica e continuou vinculada à Torah; os gentios foram admitidos sem a obrigação da circuncisão e da observância integral da legislação mosaica; determinados grupos judaico-cristãos parecem ter desenvolvido posições mais radicais acerca da Lei; e, posteriormente, escritores cristãos como Irineu e Clemente sistematizaram uma distinção entre mandamentos permanentes e prescrições tipológicas.

Nesse processo, o Decálogo assumiu uma posição privilegiada. Ele não nasceu dentro do cristianismo como uma invenção cristã. Sua centralidade possuía raízes no judaísmo do Segundo Templo. O que o cristianismo realizou foi uma operação diferente: progressivamente, determinados autores passaram a retirar o Decálogo de sua posição dentro da totalidade da Torah e a apresentá-lo como expressão de uma lei moral universal. A história da recitação litúrgica dos Dez Mandamentos, a existência de manuscritos do Segundo Templo que os preservam, a controvérsia rabínica acerca dos minim e a interpretação de Irineu podem ser compreendidas como momentos distintos de uma longa transformação do estatuto teológico do Decálogo.

A questão fundamental, portanto, não é simplesmente saber se os cristãos guardavam os Dez Mandamentos, mas quando e por que os Dez Mandamentos passaram a ser concebidos como uma categoria normativa distinta da Lei de Moisés. Essa formulação altera significativamente o problema histórico. Ela desloca a investigação da pergunta “os cristãos aboliram o sábado?” para uma questão muito mais abrangente: como uma tradição judaica centrada na Torah produziu, dentro de determinados segmentos do movimento de Jesus, uma distinção entre a Lei mosaica e uma lei moral universal representada pelo Decálogo?

É nesse ponto que a investigação dos minim, dos cristãos judaicos, da tradição joanina e, posteriormente, de Irineu pode oferecer uma hipótese particularmente fecunda. Se os minim puderem ser relacionados, ainda que parcialmente, a determinadas correntes judaico-cristãs, talvez estejamos diante de uma das etapas intermediárias através das quais o cristianismo passou da afirmação apostólica de que os gentios não precisavam guardar a totalidade da Lei para a formulação posterior de que os cristãos deveriam guardar o Decálogo, enquanto determinadas prescrições mosaicas poderiam ser espiritualizadas, tipologizadas ou abandonadas. Mas essa relação deve permanecer formulada como hipótese, e não como fato estabelecido.

A história do quarto mandamento torna-se, nesse contexto, especialmente reveladora. O sábado não desapareceu simplesmente do pensamento cristão. Ele foi reinterpretado. Em Irineu, tornou-se símbolo da perseverança; em Clemente, antecipação de uma realidade superior de descanso; em outras tradições cristãs, passou progressivamente a ser relacionado ao primeiro dia da semana, o Dia do Senhor. A transformação do Shabbat em realidade espiritual e, posteriormente, a emergência do domingo como dia distintivamente cristão constituem, portanto, não dois fenômenos isolados, mas momentos sucessivos de uma longa operação de deslocamento da identidade cristã em relação à Torah.

A questão que permanece aberta — e que talvez seja a mais importante de toda esta investigação — é justamente esta: se a Igreja apostólica de Jerusalém não impôs o Decálogo aos gentios como um conjunto jurídico separado, e se a própria comunidade judaico-cristã de Jerusalém continuava vinculada à totalidade da Torah, em que ambiente histórico começou a surgir a ideia de que o Decálogo poderia ser destacado da Lei de Moisés e transformado na legislação moral universal do cristianismo? A resposta talvez esteja menos na Igreja de Jerusalém do que nas correntes periféricas do judaísmo e do cristianismo judaico, justamente aquelas que participaram das disputas pelas fronteiras da identidade israelita e que posteriormente foram classificadas, por diferentes tradições, como heréticas.

A questão, portanto, permanece aberta: os cristãos que posteriormente defenderam a validade universal do Decálogo estavam simplesmente preservando uma tradição apostólica, ou estavam incorporando ao cristianismo uma interpretação particular da própria Torah, desenvolvida nas disputas internas do judaísmo e posteriormente reelaborada pela teologia cristã? É nessa fronteira — entre judaísmo do Segundo Templo, cristianismo judaico, minim e cristianismo gentílico — que se encontra uma das chaves para compreender a transformação histórica do Shabbat em domingo e da Torah em “lei moral”.



REFERÊNCIAS

BICK, Shraga. Contextualizing the Decalogue: the invention of the Ten-Commandments in late ancient Christianity. Journal for the Study of the New Testament, v. 47, n. 4, p. 809-837, 2025. DOI: 10.1177/0142064X241311835.

IRINEU DE LIÃO. Contra as heresias. Livro IV. Tradução de Alexander Roberts e William Rambaut. In: ROBERTS, Alexander; DONALDSON, James (ed.). Ante-Nicene Fathers. Buffalo: Christian Literature Publishing, 1885. Disponível em: New Advent — Against Heresies, Book IV. Acesso em: 20 ago. 2026.

KALMIN, Richard. Christians and heretics in rabbinic literature of late antiquity. Harvard Theological Review, Cambridge, 2011.

MARCUS, Joel. Birkat Ha-Minim revisited. New Testament Studies, Cambridge, 2009.

SCHREMER, Adiel. Laws of Minim. In: SCHREMER, Adiel. Brothers Estranged: heresy, Christianity and Jewish identity in late antiquity. Oxford: Oxford University Press, 2009. p. 69-86. DOI: 10.1093/acprof:oso/9780195383775.003.0004.

SCHREMER, Adiel. Producing Minut: labeling the early Christians as Minim. In: SCHREMER, Adiel. Brothers Estranged: heresy, Christianity and Jewish identity in late antiquity. Oxford: Oxford University Press, 2009. p. 87-100. DOI: 10.1093/acprof:oso/9780195383775.003.0005. 

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