Estudos sobre Religião - Biblioblog

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O post sobre a referência a Tiago, irmão de Jesus, por Flavio Josefo, em Antiguidades 20:9:1 (§ 200), na Série Jesus na Escala Richter de Impacto Histórico, foi atualizado, com algumas observações acrescentadas.

" Alías, o uso de um deslize de uma figura poderosa, como pretexto para enfrace-lo, por seus adversários políticos não é algo incomum seja na Antiguidade quanto no presente. O fato de que Josefo, explicitamente, começa seu relato afirmando que Anás era saduceu, enquanto que indica que a ação para contesta-lo teve origem nos que eram "zelosos observadores da Lei" (fariseus), é forte indício de que o ato precipitado de Anás foi visto por alguns como uma oportunidade para indispor ele e sua poderosa família com os romanos, dando chance a um novo equilibrio de poder. Assim, a pressa de alguns desses zelosos observadores da Lei em encontrar Albino ainda no caminho de Alexandria, não se deu tanto em razão de sua angustiados pela execução de Tiago e seus companheiros, ou porque estivessem preocupados com minúcias do direito romano, mas porque a ação precipitada e inusitadamente ousada do Sumo Sacerdote, usurpando poderes formais do Procurador, abriu uma avenida de oportunidades para seus adversários políticos."

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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Arqueólogos afirmam ter encontrado o mais antigo documento escrito em Jerusalém. Diz-se que vêm do século 14 a.C.


Publicado em Israel Exploration Journal: Mazar, Eilat, Horowitz Wayne, Oshima Takayoshi, Yuval Goren e. . "A Cuneiform Tablet from the Ophel in Jerusalem." IEJ 60 (2010): 4-21.

http://www.youtube.com/watch?v=kx66Rmadqr8

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Continuando nossa série Jesus na Escala Richter de Impacto Histórico (ano novo, vida nova), gostaria de falar um pouco de fatos históricos e suas consequências.
O ponto de partida da série, foram as afirmações que volta e meia, e principalmente na Internet, encontramos :

Se Jesus pregou para multidões, teve doze discípulos, realizou curas e todas aquelas coisas da Bíblia, porque quase nenhum historiador judeu ou gentio falou sobre ele?
É so isso temos para o Filho de Deus? Ninguém lembrou dele? Será que ele existiu mesmo?
A Bíblia diz que multidões seguiam a Jesus, que sábios vinham de vários lugares para ouvir Jesus. Porque nenhum deles escreveu nada sobre ele?
Se Jesus tivesse realmente existido, escritores como Filo de Alexandria, Veleio Paterculo, Justus de Tiberíades, Sêneca, Plínio o Velho, Lucano e Plutarco teriam dito algo sobre ele.

No primeiro post da série nós conversamos um pouco sobre os problemas associados a esse tipo de argumento, de que a falta ou escassez de referências não cristãs a Jesus seria uma prova de sua inexistência ou irrelevância histórica. As vezes são apresentadas listas de autores que viviam no Império Romano nos 100 seguintes a morte de Jesus (em uma dessas listas, elaborada no final do séc. XIX pelo escritor Jonh Remsburg, são mencionados 43 autores) e pergunta-se "se Jesus existiu, se realizou tão grandes feitos, como pode não ter sido notado por esses escritores"? Como pode ter sido mencionado apenas por 3 ou 4 autores, em textos que não maiores que um parágrafo?.

Naquela ocasião mostramos como o consenso dos historiadores é justamente o contrário, e de que os evangelhos são usados como fonte histórica. Discutimos o fato de que se a avaliação dos pesquisadores varia muito e apresenta extremos, havendo aqueles que aceitam a tradição evangélica como basicamente confíavel até aqueles que defendem uma visão muito mais cética, concluindo que cerca de 10 % do que é atribuido a Jesus nos evangelhos teria sido provavelmente dito ou realizado por ele, e que entre estes extremos, a maioria dos críticos se posiciona em um amplo espectro de opiniões. O fato é que mesmo mesmo nessa visão bem minimalista teriamos por volta de 50 feitos e ditos de Jesus considerados como provavelmente autênticos, mesmo utilizando os critérios históricos de forma extremamente rigorosa. Na sequência, analisamos o testemunho de Josefo sobre Tiago, "irmão de Jesus chamado o Cristo", e sobre o próprio Jesus (o Testemunho Flaviano, ou TF), do qual concluimos pela autenticidade parcial, e analisamos as objeções mais comuns. Vimos também a relevância das afirmações dos historiadores romanos, Tácito, Plínio e Suetônio.

Mas dito isso qual o impacto de Jesus deixou no registro histórico? Qual a relevância das fontes que temos (cristãs ou não cristãs)? O que temos é o que poderíamos esperar?

No primeiro post da série "prometemos":
Além de analisar os relatos (ou falta deles) para pessoas e eventos contemporâeos a Jesus (um século antes e depois de sua morte), vamos comparar o impacto e atestação deixado por esses eventos e pessoas nas fontes literárias, com aquele deixado por Jesus de Nazaré. Uma espécie de "Escala Richter de Impacto Histórico"

Neste post, vamos começar com eventos que alteraram completamente a natureza do mundo antigo, verdadeiros marcos históricos, e sua atestação - Pedimos, porém, aos leitores para aumentar "um pouco" o período que haviamos proposto inicialmente, para incluir eventos que ocorreram vários séculos anteriores ou posteriores a Jesus (serão exemplos interessantes, prometo). Vamos falar um pouco também de como os textos literários foram produzidos e conservados na antiguidade, e porque muitas vezes não chegaram até nós.

1) Travessia do Rubicão
O Rio Rubicão, no final da República Romana, era a fronteira entre a provincia da Galia Cisalpina e a província da Itália (onde ficava Roma). As Lei Romana proibia os oficiais comandantes de movimentar suas legiões fora dos limites de sua provincia, sem autorização do Senado [1]. Na Itália (como prevenção contra possíveis golpes militares), tal proibição era, obviamente, muito mais séria. Somente consules e pretores podiam comandar tropas na Itália. Assim, um general que deixasse sua provincia e invadisse a Italia cometia crime capital, e os soldados que o seguissem também seriam condenados a morte.

No ano 49 AC graves tensões sacudiam a República Romana. O proconsul Gaio Julio César havia obtido sensacionais vitórias militares, conquistando as Gálias (atuais França e Bélgica) , submetendo milhões de pessoas ao domínio de Roma. Para muitos, porém, Cesar não era bemvindo . O General vitorioso, que acumulara riqueza incalculavel, e com legiões de soldados veteranos e extremamente leais era considerado uma ameaça. Seus maiores inimigos, uma facção de senadores liderada por Catão, o Jovem o acusava de varios crimes (reais, supostos e imaginários) e queria que ele fosse processado e julgado. O sucesso de Cesár não lhe trouxe muitos amigos, muito pelo contrário. Senadores mais moderados, como Cícero, e o antigo aliado de César, e seu companheiro de consulado, Pompeu "Magno", se voltaram contra ele. César queria condicionar seu retorno a Roma, com a possibilidade de uma nova eleição, que lhe daria imunidade legal. O Senado, de modo geral, se voltara contra Cesar. No entanto, Gaio César tinha o apoio do povo e, com massivas injeções financeiras, tivera suporte do consul Lucio Emilio Paulo e do Tribuno do Povo Gaio Escribônio Cúrio, em 50 AC, além de eleger seu comandado Marco Antônio como Tribuno do Povo no ano seguinte, o que lhe dava o poder de vetar algumas medidas do Senado. Em janeiro de 49 AC, a situação se tornou insustentavel. Pompeu e o Senado deram um ultimato para que César rendesse suas tropas e se submetesse a julgamento. Os tribunos aliados de Cesar se declararam ameaçados e fugiram da cidade. César, que estava em Ravena, soube das notícias e usando como pretexto as ameaças contra a sagrada figura dos tribunos do povo, atravessou o Rubicão com a XIII Legião e invadiu a Itália.

Pompeu e a maior parte do Senado fugiram de Roma, para não serem capturados. Seguiram-se quatro anos de Guerra Civil. Em sequência, César derrotou Afranio, na Espanha, depois Pompeu, na Batalha de Farsália (Grécia), que fugiu e foi assassinado no Egito; depois Catão, o Jovem, em Tapsos (Numídia, atual Tunisia), que se suicidou, e, finalmente, Pompeu, o Jovem, em Munda (Espanha). Cesar então voltou a Roma, perdou seus inimigos, tornou-se o senhor inconteste da República, e foi assassinado. Após a morte de César, Augusto e Marco Antônio lutaram entre si, depois contra Cassio e Bruto, e depois novamente entre si, para dominar o Império. Augusto venceu e instituiu o principado, depois de quase 20 anos de Guerras.

Então a Travessia do Rubicão é algo como o Grito do Ipiranga, o Ataque as Torres Gêmeas, a Bomba de Hiroshima, o homem chegando na Lua. Um evento que marcou o fim de uma era. O fim da República e o início do Império.

Uma descrição da Travessia do Rubicão nos é dada por Suetônio, com toda a pompa e circunstância:

"Quando chegou ao conhecimento de César a notícia de que o direito de intercessão dos tribunos havia sido derrogado e que estes se haviam retirado da cidade, rápida e secretamente, fez marchar na vanguarda algumas coortes (...) e arremoessou-se, acompanhado apenas de uma pequena escolta, pela estrada mais deserta. quando a chama dos archotes se extinguiu, perdeu-se e, por um longo espaço tempo, vagou absolutamente sem rumo. Quando a manhã já ia alta, apareceu, subitamente, um guia: caminhou a pé por veredas deveras estreitas e, nas ribas do Rubicão, que traça a fronteira com sua província, reuniu-se então com as coortes. Permaneceu lá por alguns instantes e, ao computar a magnitude de seus planos, dirigiu a palavra para os que acompanhavam, dizendo-lhes:
"- Hoje, ainda podemos recuar. Mas caso passarmos aquela pequena ponte, cabe à sorte das armas decidir o resto"
Permanecia ainda vacilando quando, de repente, deparou-se com a seguinte visão: um homem de corpo e beleza singulares apareceu ali por perto, tocando avena. Os pastores, como também numerosos soldados dos postos mais vizinhos, correram ao seu encontro para ouvi-lo, entre os quais alguns corneteiros. Assim que os avistou, o jovem músico arrancou o clarim de um deles e, de um salto, atirou-se ao rio. Fazendo-o soar com um vigor extraordinário, dirigiu-se para a margem oposta. Diante disso, César falou, então: "Vamos para onde nos chamam os prodígios dos deuses e a iniquidade dos nossos inimigos. A sorte esta lançada"

Suetônio nos dá um relato bastante "embelezado", e tardio, pois foi escrito 175 anos depois do fato. Mas esse deve ser o tipo de evento que as criancinhas em Roma aprendiam na escola. César comandava uma legião 5000 soldados, 300 cavaleiros, (ou seja, milhares de testemunhas oculares), e dezenas de oficiais. Centenas de senadores tiveram que sair de Roma e da Itália. assim, deve haver dezenas de referências e descrições detalhadas em livros, cartas, poesias... Certo?

Errado, como vc pode ver aqui, neste resumo do Prof. Jeffrey Benaker, da Universidade de Wiscosin:

"Caesar’s crossing of the Rubicon in 49 BC is well known as an important milestone in the demise of the Roman Republic. It is also the case that we lack contemporary or even near-contemporary accounts. Caesar himself, in his Bellum Civile, makes no mention of the river. The history of his lieutenant, Asinius Pollio, has been lost, as has Livy’s 109th book (the periocha for 109 does not mention the Rubicon). Velleius Paterculus, then, when he writes that Caesar crossed the Rubicon after being frustrated by the Senate, is the earliest extant author to refer to the crossing, even if he does not comment on the event’s significance. The first thorough treatment of the Rubicon in the surviving literature does not appear until more than a century after the fact, in Lucan’s Pharsalia, a work of epic poetry rather than historiography. This version is followed by the detailed accounts in the biographies of Caesar by Plutarch and Suetonius. Appian’s history also includes the story of the crossing, but Dio shows that a historian could still write about Caesar’s civil war without mentioning the Rubicon.
My aim in this paper is to examine the four extant narratives of Caesar at the Rubicon (Lucan 1.183-232; Plutarch, Caesar 31-32; Suetonius, Caesar 30-32; and Appian 2.35.5).
(tradução) "A Travessia do Rubicão por Cesar em 49 BC é conhecida como um dos eventos mais importantes na queda da República Romana. É também um caso de típico de falta de relatos contemporâneos ou semi-comtemporâneos. O próprio César, em seu livros Bellum Civile (Guerras Civis), não faz menção ao Rio. A história de seu oficial, Asinio Polio, foi perdida, assim como o 109° livro de Livio (o periocha para o livro 109 não menciona o Rubicão). Veleio Paterculo, ao escrever que César cruzou o Rubicão em resposta as ações do Senado, é nosso relato remanescente mais antigo, embora não comente a importância do evento. O relato detalhado mais antigo da travessia do Rubicão hoje existente esta em Farsália, de Lucano, escrito mais de um século depois do fato, e que é mais um trabalho de poesia épica do que historiografia. Esta versão é seguido pelas narrativas detalhadas nas biografias de César por Plutarco e Suetônio. A história de Apío também inclui a história da travessia, mas Dio mostra que um historiador ainda poderia escrever sobre a guerra civil de César, sem mencionar o Rubicão.
Meu objetivo neste paper é analisar as quatro narrativas hoje existentes da Travessia do Rubicão por César (Lucano 1.183-232; Plutarco, César 31-32, Suetônio, César 30-32; e Apiano 2.35.5)"

Ou seja, uma vez que o próprio Cesar (48 AC) não menciona o Rio, os relatos sobreviventes desse fato marcante são Veleio Paterculo (30 DC), Lucano (61 DC), Plutarco (80 DC), Suetônio (125 DC) e Apiano (150 DC). Ou seja, cinco relatos em 200 anos. Se considerarmos um período de 100 anos temos apenas Veleio Paterculo. Provavelmente, todos esses relatos se baseiam na história escrita por Asinio Polio, um dos oficiais de César, narrativa esta que se perdeu. Com excessão de Lucano, nenhum deles gasta mais de uma folha descrevendo a história. Veleio Paterculo escreve uma unica linha "Cesar concluiu que a Guerra era inevitável e cruzou o Rubicão com seu exército" ( Historia Romana, 2:49.4).

(Agora, onde estavam os quarenta e tantos escritores antigos que viveram nos 100 ou 150 anos depois da travessia do Rubicão, que não mencionaram esse fato?)

Outro problema é geografico. O Rubicão não era um rio caudaloso, mas um riacho cujo nascente era nos montes Apeninos e seguia até o Mar Adriático, passando pelas cidades de Rimini e Cesena. Em cerca de 40 AC, Augusto anexou a Galia Cisalpina a província da Itália, e a "relevância" do Rubicão foi em muito diminuida. Os séculos se passaram, o relevo da região foi alterado por ação natural e humana, e os cursos d'agua varias vezes tiveram seu curso alterado, de sorte que não se tem certeza onde exatamente o Rio se localizava [3]. (Em 1933, o Rubicão foi identificado, oficialmente, como sendo, muito provavelmente, o Rio Fiumicino [3]).


Apesar desses problemas geográficos e de atestação histórica, não há duvida de que havia um rio Rubicão na fronteira e César o atravessou. Primeiramente, César evita dizer que cruzou a fronteira entre a sua provincia e a Itália, e portanto não menciona o Rubicão, uma vez que ele estaria admitindo uma situação constrangedora, e confessando um crime [4]. César, astutamente, diz que foi informado dos tumultos e ultrajes sofridos pelos tribunos, quando estava em Ravena esperando a resposta de suas propostas de pacificação (Guerras Civis 1:5), e vendo Pompeu e seus aliados se preparando para Guerra e espoliando colonias, cidades e Templos em busca de recursos (1:6), convocou suas tropas e lhes rememorou as injurias recebidas, a inveja de seus inimigos, os ultrajes sofridos pelos tribunos, e suas boas intenções (1.7), e se assegurando da boa vontade dos soldados, marchou para Rimini (1.8). Ravena ficava na Galia Cisalpina, Rimini na Itália. (Cesár, magistralmente, escreve um relato em que faltam as palavras "província" "Galia", "Cisalpina", "fronteira", "Rubicão", "ilegal" e "Itália", e como em uma espécie de "teletransporte" da Antiguidade, surge na Itália como suas tropas).

Além disso, o fato que Cesar estava na Galia na década de 50 AC, que tomou a Itália no ano seguinte, e que houve uma Guerra Civil entre ele e Pompeu são fatos conexos é atestados por multíplas fontes literarias (como Cícero e Tito Lívio) e arqueológicas. Por fim, a travessia do Rubicão (que implica em invasão não consentida da Itália) é coerente com esses e os outros fatos que conhecemos. A travessia do Rubicão é um evento histórico que explica o curso dos acontecimentos de que temos conhecimento, e sem o qual nossas fontes não fariam sentido.
A ilustração apenas mostra que é imprudente fazer juízos históricos baseado apenas na falta de evidência, uma vez que mesmo acontecimentos de repercussão extraordinária e que mudaram a vida de milhões de pessoas de forma definitiva muitas vezes tem atestação reduzida nas fontes que chegaram até nós. Sob o ponto de vista de um cidadão do Império a travessia do Rubicão seria muito, mas muito, mais relevante do que a crucificação (e os feitos) de um pretendente messiânico, na distante Judéia, principalmente se ele não estivesse acompanhado de hordas de rebeldes sob seu comando.

2) Grecia Antiga, século III AC

É lugar comum apontar a Grécia clássica como o "berço da civilização ocidental". Filósofos como Pitagoras, Socrátes, Platão e Aristóteles logo vem a mente; também os passos importantes para o desenvolvimento futuro da ciência dados por Tales de Mileto, Demócrito, Hipócrates e Euclides; assim como experiências politicas como a democracia ateniense; bem como a berço de disciplinas como a História, com Herodoto e Tucidiades. Os idéias da Grécia Clássica foram importantes, principalmente, pela influência que exerceram sobre seus conquistadores, do Helenismo de Alexandre Magno, e posteriormente em prover a base cultural sobre o qual se desenvolveu o Império Romano, e, em grande parte, o cristianismo.

A wikipedia observa astutamente que a cidade de Atenas, nos séculos V e IV AC, está no epicentro de toda essa civilização. Lá estavam a Academia de Platão, e o Liceu de Aristóteles, e onde viveram inúmeros filósofos, politicos e escritores, nós é muito bem conhecida. O mesmo não pode ser dito do período posterior, já na fase helenistica (323 - 146 AC). No entanto, o Professor Pierre Cabanes, da Universidade de Paris X Nanterre, ao ilustrar os problemas de fontes que o historiador se depara de falta de documentação mesmo onde menos se espera.

"O historiador da Antiguidade deve frequentemente admitir sua ignorância sobre pontos importantes da vida dos antigos, pois nosso saber é fragil, limitado, construido a partir de uma documentação fragmentária, muitas vezes lacunar. Se a documentação é relativamente abundante para a cidade de Atenas , nos séculos V e IV AC, não o é mais para os séculos seguintes, e a história ateniense do século III AC sai do esquecimento graças a achados de inscrições. As regiões mais distantes sofrem ainda mais desta precariedade de documentos, que só aparecem na maioria das vezes , na tradição literária, por ocasião de uma guerra na qual tomam parte os exércitos atenienses. No resto do tempo reina o silência completo. Só as excavações arqueológicas podem fazer falar esses sítios que testemunham uma civilização interessante. E o que dizer da Gália pré-romana, dos etruscos cuja escrita ainda não foi completamente decifrada e tantas outras populações cuja lingua, puramente oral, só deixou poucos trações na toponímia e onosmática? O que dizer também das multidões que viveram na escravidãoou formas de dependência coletiva? Aqui e ali aparecem algumas, graças a uma decisão de alforriagravada no muro de um santuário. Mas esta pobreza de documentação não deve provocar a decepção diante da falta de informação; Ela deve, ao contrário, aguçar o espírito de observação metódica para extrair o máximo de cada aporte antigo. É desta busca permanente e tenaz que pode nascer um melhor conhecimento da antiguidade [5]

Ou seja, mesmo no "centro" do mundo antigo, no lugar em que escritores e cultura não faltavam, temos um período importantíssimo em que a documentação é escassa, ou até inexistente. Cabanes adiciona outro exemplo: o desaparecimento quase completo da tradição literária para certos períodos, como o século posterior as conquistas de Alexandre, o Grande (360-323 AC). Os registros primarios, como o relato do historiador da corte de Alexandre se perderam. As fontes secundárias, escritas por oficiais de Alexandre, como Ptolomeu, Nearco e Aristobolo, além do escritor Cleitarco, se perderam, e nossas fontes se resumem a relatos terciários de autores do período romano que se basearam nesses relatos secundários. (Uma boa introdução sobre os problemas das fontes nos é dada também por Jona Lendering, aqui e aqui [6])

"Poderíamos prosseguir esta constatação desastrosa multiplicando os exemplos, mas vamos nos limitar a observar o desaparecimento quase completo de toda a tradição literária para algumas épocas. Assim, para o século subsequente à morte de Alexandre o Grande, em 323, a tradição histórica é um vasto campo de ruínas. Nenhuma das grandes obras históricas contemporâneas é conservada, seja a de Jerônimo de Cardia ou a de Filarco. Elas foram utilizadas posteriormente, a primeira por Diodoro, Ariano e Plutarco, e a segunda por Políbio, Troge Pompeu e Plutarco. O próprio relato do reinado de Alexandre não consta mais nos escritos de seus contemporâneos, cujas obras desapareceram todas, mas nas obras do tempo de Augusto (Diodoro da Sicília e Troge Pompeu), do reinado de Vespasiano (História de Alexandre, de Quinto Curcio), ou do século II (A Anabasis de Arriano de Nicomédia, ou a Vida de Alexandre, de Plutarco). É preciso levar em conta essa defasagem cronológica entre os eventos narrados e as datas que ocorreram. Três ou Quatro séculos de distância não convencem ninguém a tomar este autor como Testemunho direto. Como se, em nossos dias, as guerras de religião emergissem simplesmente do nada" [7]
Ou seja, nossos registros literários para alguém que virou o mundo de cabeça para baixo, é limitado. Mais ainda para o período seguinte a morte de Alexandre, quando mudanças importantíssimas ocorreram e suas conquistas foram divididas entre seus generais. De novo, "é imprudente fazer juízos históricos baseado apenas na falta de evidência, uma vez que mesmo acontecimentos de repercussão extraordinária e que mudaram a vida de milhões de pessoas de forma definitiva muitas vezes tem atestação reduzida nas fontes que chegaram até nós".

3) Mais porque temos tão poucas fontes?

Devemos aqui fazer uma considerações a essa falta de fontes e relatos da Antiguidade. Milhares de livros foram produzidos na Antiguidade, a questão é que a grande maioria não chegou até nosso tempo. O problema se dá em virtude de como os textos antigos eram produzidos e conservados para a posteridade.

O professor Steve Mason, da York University, faz algumas consideração sobre a produção de livros e sua distribuição na Antiguidade observa abaixo que apenas uma ínfima parcela da população lia e escrevia no período romano e helenístico. Destes poucos letrados, somente alguns tinham condição de contratar um escriba profissional para fazer cópias dos textos que escreviam. Não havia, imprensa, maquinas de xerox, impressoras. A maioria dos livros era composta por seus autores para serem compartilhados entre seus amigos. Havia, é claro, excessões.

Most of the thousands of books that were written in the ancient world did not survive into the Middle Ages, let alone into the modern world. In the absence of paper, printing presses, and photocopiers, it was not a foregone conclusion that any given book would live beyond its author’s own generation. Publication of books was in general the prerogative of a small and literate elite. Books were often published (“made public”) in oral form, by recitation before a group of interested friends. Book manuscripts, on papyrus or occasionally parchment1 rolls, were relatively rare because they had to be copied individually by hand—usually the hand of a wealthy man’s slave. Libraries and booksellers existed, but they, too, were few and far between. Therefore, only those books that enjoyed a lively readership or some sort of official sponsorship could remain accessible. Only such committed readers would invest the necessary effort to have lengthy manuscripts copied and recopied. [8]
(tradução) A maioria dos milhares de livros que foram escritos no mundo antigo, não sobreviveu à Idade Média, e muito menos chegaram a nossa época. Na falta de papel, impressoras e fotocopiadoras, não havia garantia nenhuma de que determinado livro chegaria a ser lido pela geração seguinte a de seu autor. A publicação de livros era, em geral, prerrogativa de uma pequena elite e alfabetizados. Frequentemente os livros eram publicados ("tornados públicos") em forma oral, pela recitação diante de um grupo de amigos interessados. Manuscritos do livro, em papiro ou ocasionalmente rolos de pergaminho, eram relativamente raras, porque eles tinham que ser copiados à mão, um a um, normalmente pelo escravo de um homem rico. As bibliotecas e livrarias existiam, mas também eram poucos e distantes entre si. Portanto, somente aqueles livros que conseguiam um público devotado ou algum tipo de patrocínio oficial se mantinham acessíveis. Só esse leitores comprometidos iria investir o esforço necessário para que manuscritos extensos fossem copiados e reproduzidos.

O Professor Jona Lendering, por sua vez, observa as decisões econômicas que tiveram que ser feitas para manutenção e conservação de textos antigos. Uma vez que o papel e os escribas (insumos de produção) eram escassos e caros - e de tempos em tempos se deveria escolher quais os textos seriam copiados e quais não - se um determinado manuscrito tinha o "patrocinio" de um nobre rico (ou seja, havia demanda), ele sobreviveria, enquanto que os outros, "sem mercado", não. O mesmo pode ser dito de textos de interesse (ou desinteresse) das autoridades religiosas e políticas do momento.

Ancient texts were typically written on papyrus, which is vulnerable. As a rule of the thumb, we can assume that a scroll had to be copied every century. If parchment was used, replacement could take place less frequently. However, preparing a skin and making parchment was extremely expensive. Most texts were, therefore, written on papyrus and subject to decay and disappearance. If there were many copies of the same text, the chances of survival were greater, but professional writers were expensive and texts usually circulated in small numbers. A surprisingly great number of ancient texts has survived in only one copy, which shows how vulnerable the process of transmission was. The best way to conceptualize the process is, therefore, that ancient texts always disappeared, unless a rich lord or lady decided to hire a scribe and copy a scroll. Inevitably, selections were made. There was no need to copy the Histories of Valerius Antias once Livy had published the History of Rome from its Foundation; there was no need to copy the speeches of Greek orators of the third and second centuries BCE because the sophists of the second century CE were so much more eloquent; and there was no need to copy archaic poetry like Sappho’s because it was written in a poorly understood, archaic language. The publication of new texts was the greatest danger for the survival of older texts.
(tradução) Os textos antigos eram tipicamente escritos em papiro, que é vulnerável. Como regra geral , podemos supor que um livro tinha de ser copiado em cada século. Se pergaminho foi utilizado, a substituição poderia ocorrer com menos freqüência. No entanto, a preparar peles de animais para fazer um pergaminho era muito caro. A maioria dos textos foram, portanto, escritos em papiro e sujeitos à deterioração e desaparecimento. Se houvesse muitas cópias do mesmo texto, as chances de sobrevivência eram maiores, mas os escritores profissionais eram caros e os textos normalmente distribuídos em pequenas quantidades. Um número surpreendentemente grande de textos antigos chegou até nós em um único exemplar, que mostra o quão vulnerável o processo de transmissão foi. A melhor maneira de compreender o processo é ter em mente que textos antigos sempre desapareceriam, a menos que um rico senhor ou senhora decidisse contratar um escriba para recopia-los. Inevitavelmente, escolhas foram feitas. Não se julgou necessário copiar as histórias de Valerius Antias uma vez Lívio já havia publicado a história de Roma desde a sua fundação, não havia necessidade de copiar os discursos dos oradores gregos dos séculos III e II AC, pois os sofistas do século II DC foram muito mais eloqüentes, e não havia necessidade de copiar poesia arcaica como Safo, porque foi escrito em uma língua de díficil compreendida, arcaico. A publicação de novos textos era o maior perigo para a sobrevivência dos textos mais antigos.


Ou seja, os textos hoje existentes sobreviveram a um longo processo de seleção por séculos a fio. Tal processo facilitava a sobrevivência de textos de determinados autores (era mais fácil um livro atribuido a um mestre famoso como Aristoteles, Galeno ou Santo Agostinho, de que de um desconhecido Escribonio da Silva ou Theopompus de Souza). Além disso, determinados períodos foram catastróficos para conservação dos livros antigos, como os séculos seguintes a queda do Imperio Romano. Por fim, esse processo de seleção e escolha, que era racional do ponto de vista das limitações dos antigos, é desfavorável para os historiadores atuais. Entre copiar cada um dos relatos mais antigos, escritos próximos a epoca dos fatos, e um síntese e/ou resumo desses relatos feita por um escritor bem posterior, a escolha dos antigos tendia a ser pela segunda opção. É o caso das histórias de Valério Antias, Fábio Pictor, e Catão, o Velho, que foram fontes da narrativa de Tito Lívio, o grande sucesso da última significou que primeiras não foram conservadas, temos conhecimento de Antias, ou Catão ou Pictor apenas pelas citações em Lívio ou outros autores antigos (para desespero dos historiadores atuais).

4. As referências a Jesus na literatura antiga dificilmente seriam conseravdas


Por fim, devemos lembrar as condições de vida e morte de Jesus. Ele exerceu seu ministério em áreas rurais e pelo interior da Galiléia. Para os escritores romanos ou gregos, isso era tão remoto quanto Burkina Faso. Para os seus oponentes, ele e seu grupo eram uma seita obscura do judaísmo, um culto estrangeiro, uma "superstição nova e maligna" (Suetônio), entre centenas que existiam no Império. Jesus entrou em conflito com as autoridades políticas e religiosas da Judéia e foi crucificado, por ser acusado de ser o Messias, além de ter na cruz o explosivo título de "O Rei dos Judeus". Como nos diz Paulo, os poderosos deste mundo não compreederam Jesus "porque se o tivessem compreendido, não teriam crucificado o Senhor da glória." (I Cor. 2:8). Pregar a idéia de um Messias crucificado era "loucura para os gregos, e escândalo para os judeus" (I Cor. 1:23).

Logo, se algum autor não cristão fizesse menção Jesus, ou aos cristãos, seria, provavelmente, para ataca-los. As menções a Jesus e seu movimento por Tácito, Plínio e, Suetônio se referem a tumultos em que os cristãos estavam envolvidos, e onde sempre são descritos como superstição, com adjetivos nada lisonjeios como nova, depravada, irracional, mortal ... . A seção em que Jesus aparece em Josefo relata tumultos, tensões e calamidades, e, portanto, a versão original do Testemunho Flaviano provavelmente relatava uma atrocidade cometida contra Jesus (a crucificação de um inocente), ou um Tumulto causado por ele. Autores como Galeno e Luciano criticam a credulidade dos cristãos.

Ocorre que a Igreja, desde o século IV foi a principal (se não a única) mantenedora da herança literária da Antiguidade. Logo, textos e autores hostis ao cristianismo, ou que fizessem comentários desabonadores contra Jesus seriam menos propensos a serem recopiados a cada século, e, portanto, terem chegado até nós. É verdade que quase todos os autores citados acima fazem críticas ao cristianismo, mas quase todos eles ponderam que os cristãos eram inocentes das acusações inicialmente feitas contra eles (Tácito, Plínio) , tinham uma conduta correta e cuidavam uns dos outros (Luciano), ou percebiam elementos de sabedoria nos ensinos de Jesus ou do evangelho (Josefo e Galeno).

Ocorre que, principalmente para os primórdios do cristianismo, a maioria dos críticos não deve ter sido tão compreensivo. Como já dissemos em um post em que mostramos "Jesus pelas lentes de seus adversários", citando o Professor Maurice Goguel, que através de Luciano, Celso, das várias apologias do século II (Justino, Taciano, Aristides) e pelo Dialogo entre Justino e o judeu Trifo, podemos ter uma visão bem detalhada dos críticos do cristianismo naquele período. Da mesma forma que há uma tradição apologética existe um outra polêmica, a qual a primeira tentava refutar. Então, vemos já por volta de 130-140 DC Justino Martir constata em circulos judaicos "eles atribuiram [os milagres] a utilização de poderes mágicos, porque eles se atreveram a dizer que Jesus era um mágico e enganador do povo" (Dialogo com Trifo 69.5). Décadas depois, por volta de 175 DC, o crítico pagão Celso, em seu livro "o Verdadeiro Discurso" lança um violento ataque sobre vários aspectos da vida de Jesus - ancestralidade, concepção, nascimento, infância, ministério, morte, ressureição e influência posterior, baseado em informações que circulavam entre os judeus.

"De acordo com Celso, os pais de Jesus eram de uma aldeia judia (Contra Celso 1.28), e sua mãe era uma pobre mulher que obtinha seu sustento como fiandeira (1.28). Ele realizou seus milagres através de feitiçaria (1.28; 2.32; 2.49; 8.41). Sua aparência física era de um homem feio e pequeno (6.75). Para seu descrédito, Jesus manteve todos os costumes judaicos, inclusive o sacrifício no Templo (2.6). Ele reuniu apenas dez seguidores e ensinou a eles seus piores hábitos, como mendigar e furtar (1.62; 2.44). Seus discipulos, que contavam só "dez marinheiros e coletores de impostos" foram os únicos a qual ele convenceu de sua divindade, mas agora seus seguidores convertem multidões (2.46). Os relatos de sua ressureição vieram de uma mulher histérica, e a crença na ressureição foi o resultado da mágica de Jesus, os desejos de seus seguidores, ou alucinação coletiva, tudo com o propósito de impressionar outros e aumentar as chances de outros tornaram-se mendigos (2.55).” [10]

Justino e Celso atestam várias tradições já existentes de polêmicas e ataques contra Jesus. Um vez que ambos escrevem em meados do século II, é razoavel concluir que já havia, pelo menos no início do século II, uma literatura polêmica, incipiente, contra o cristianismo. Logo, provavelmente, existiram muito mais menções a Jesus e aos cristãos do que possuímos hoje. Sua natureza agressiva resultou em sua não conservação, ainda que seus ecos sejam percebidos na literatura apologética que tentou refuta-la.

Conclusão

É imprudente fazer juízos históricos baseado apenas na falta de evidência, uma vez que mesmo acontecimentos de repercussão extraordinária e que mudaram a vida de milhões de pessoas de forma definitiva, muitas vezes tem atestação relativamente reduzida nas fontes que chegaram até nós. Sob o ponto de vista de um cidadão do Império a travessia do Rubicão ou eventos posteriores a Alexandre Magno, seriam infinitamente mais relevantes do que a crucificação (e os feitos) de um pretendente messiânico, na distante Judéia, principalmente se ele não estivesse acompanhado de hordas de rebeldes sob seu comando. Nesse contexto, levando em conta a importância proporcional desses eventos para seus contemporâneos, a vida de Jesus pode ser considerada como relativamente bem atestada nas fontes não-cristãs. Além, é claro, da extraordinária quantidade de tinta que os seus seguidores utilizaram para registrar sua significância e seus feitos. Cabe ressaltar novamente, a análise só pode ser feita do ponto de vista proporcional e relativo, e não absoluto. Temos muita mais registros, diretos e indiretos, da Travessia do Rubicão do que da crucificação de Jesus, simplismente porque foram eventos de escalas muito diferentes de repercussão entre seus contemporâneos.

Como escreve o Professor John P. Meier, da Universidade de Notre Dame:

"A dificuldade de conhecer algo sobre Jesus deve ser colocada no contexto maior de saber algo sobre Tales, Apolônio de Tiana, ou qualquer outro nome do mundo antigo (...) Portanto o problema não é exclusivo de Jesus ou das fontes que contam sua história. Na verdade, em comparação com as inúmeras figuras indefinidas da história antiga, é surpreendentemente a quantidade de informações que temos sobre Jesus" [11].

Assim como o historiador israelense David Flusser, da Universidade Hebraica de Jerusalém,
"Realmente, possuimos registros mais completos sobre a vida dos imperadores seus contemporâneos e de alguns poetas romanos. Entretanto a excessão do historiador judeu Flávio Josefo, e possivelmente de São Paulo, Jesus é o judeu, de épocas posteriores ao Antigo Testamento, sobre quem nós mais sabemos" [12]

Referências Bibliográficas:
[1] Adrian Goldsworthy, Caesar's civil war, 49-44 BC, fl. 29
[2] Jeffrey Benaker (2007), Caesar on the Brink:Writing about the Rubicon in the Early Empire, 103th Classical Association of the Middle West and South, Cincinnati, Ohio, Abril 2007.
[3] Jona Lendering (2003), Rubico (49 BCE), http://www.livius.org/ro-rz/rubico/rubico.html, acessado em 18.01.2011.
[4] Kurt Raauflaub (2009) Bellum Civile In Miriam Tamara Griffin (2009) A companion to Julius Caesar, fl. 186.


[5] Pierre Cabanes (2001), Introdução a História da Antiguidade, fl. 16
[6] Jona Lendering , "Alexander the Great: the 'good' sources" http://www.livius.org/aj-al/alexander/alexander_z1b.html e "Alexander the Great: the 'vulgate' tradition, http://www.livius.org/aj-al/alexander/alexander_z1a.html, acessado em 18.01.2011
[7] Pierre Cabanes (2001), Introdução a História da Antiguidade, fl.
[8] Steve Mason (2003) Josephus and the New Testament, fl. 8, 2ª ed., excertos disponíveis http://www.hendrickson.com/pdf/chapters/156563795x-ch01.pdf, acessado em 21.01.2011
[9] Jona Lendering (2009), Common Errors (9): The Gnostic Gospels, postado em 15.05.2009 http://rambambashi.wordpress.com/2009/05/15/common-errors-9-the-gnostic-gospels/, acessado em 21.01.2011.
[10] Robert Van Voorst, Jesus Outside of New Testament, fl. 66

[11] John P. Meier (1991), Um Judeu Marginal, Repensando o Jesus Histórico, Vol. I, fl. 34
[12] David Flusser (1998), Jesus, fl .01

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Faz algum tempo, em nossa série sobre Jesus na Escala Richter de Impacto Histórico, abordamos algumas das principais objeções a autenticidade (parcial) do Testemunho Flaviano. No entanto, "por falta de espaço", duas ficaram faltando i) A de que Jesus e os cristãos não são citados por Josefo quando ele descreve os grupos religiosos tradicionais (ou peculiares) aos judeus ii) Jesus e os cristãos terem crenças messiânicas e apocalípticas, e portanto Josefo os abominaria.

Refletindo sobre essas questões, e já que falamos de seitas judaicas, messianismo, apocaliptismo, acho interessante aumentar o escopo da discussão. A questão das objeções ao Testemunho Flaviano servirá então como ponto de partida, para uma discussão mais ampla de como Jesus e os cristãos se inserem na "panela de pressão" da Palestina do Século I.

Os cristãos no Judaísmo: Josefo afirma que os judeus por muito tempo tiveram três filosofias peculiares. Os essênios, os saduceus e os fariseus. O esboço abaixo é baseado nas descrições de Josefo em várias partes da sua obra, sintetizadas pelos Professores Gerd Thiessen, da Universidade de Heildelberg, e Annete Merz , da Universidade de Utrecht [1]

Os saduceus, segundo Josefo, não acreditavam na imortalidade da alma e negavam penas ou recompesas depois da morte. Em sua visão, o homem é responsável pelo seu próprio destino. Seguiam apenas aLei Mosaica e rejeitavam a tradição dos pais. Debatiam entre si frequente e calorosamente, mesmo com seus mestres. No entanto, sua doutrina era aceita por poucos, ainda que esses poucos fossem influentes e poderosos. Por causa disso, quando assumiam o poder, "emprestavam" idéias e conceitos farisaicos, pois, de outra forma, não teriam suporte popular.

Os fariseus acreditavam na imortalidade da alma, que Deus puniria dos ímpios e recompensaria os justos, na ressureição dos mortos, que ressuscitariam. Eram sinergistas, istoé, acreditavam que os acontecimentos decorriam vontade divina em cooepração/conflito com os atos humanos. Seguiam a escritura e a tradição oral, acrescentando mandamentos as leis dos pais. Os mestres mais experientes entre eles eram muito honrados, e, diferentemente dos saduceus, apreciavam a harmonia entre si. Eram próximos do povo, que aceitava amplamente seus preceitos e estaria mais inclinado a seguir sua liderança do que os outros grupos.

Os essênios acreditavam na imortalidade da alma, no castigo dos maus e que os justos seriam recompensados com uma vida de alegrias, fora do corpo. Eram deterministas, o destino dos homens dependia da vontade de Deus. Viviam em comunidades separadas, eram celibatários, dividiam seus bens entre si, não possuiam servos, e se abstiveram do serviço do Templo de Jerusalém. Tinham livros e ensinos secretos.

Josefo descreve ainda uma quarta escola ou filosofia, aquela inspirada por Judas Galileu, que seguiam em tudo as doutrinas e concepções farisaicas, "mas possuiam um vinculo inquebrantável com a liberdade, e diziam que Deus era o seu único Senhor e Rei". Sua valentia era tanta que não davam valor a suas vidas, nem dos seus parentes e amigos. Não aceitavam ser súditos de homem algum. A ação e influência desses agitores e a inépcia dos goverdores romanos foi a causa dos tumultos e da Guerra, conforme Josefo.

Quanto ao Testemunho Flaviano, a implicação deste fato é pouco relevante para a questão da autenticidade. Um dos motivos é que Josefo descreve os fariseus, saduceus e essênios, sem citar as origens, os fundadores ou principais líderes destes grupos. Portanto, não haveria porque, necessariamente, citar a origem, fundador e lideres dos cristãos. O único dos quatro grupos que Josefo menciona o fundador, foi o dos revolucionários que seguiam a filosofia de Judas Galileu. Mas esses eram uma facção do grupo farisaico no aspecto religioso, tendo porém concepções políticas diferenciadas. E mesmo assim, é questionavel que figuras tão diferentes como Teudas, o profeta egípcio, e Menahem possam ser postos no mesmo bolo. O mais provável é que Josefo, convenientemente, classifica esses "renegados" como um nova escola, os isolando de outros grupos, mais antigos e venerandos. Assim, foi uma filosofia nova, recente, e não os preceitos tradicionais, combinado a governadores romanos ineptos (e não o domínio romano em si) que incitou a nação e a levou a revolta. Judas Galileu é importante também não só por seu ensino mas porque muitos de seus descendentes estiveram envolvidos em momentos decisivos de agitação revolucionária. Em 47 DC, os Tiago e Simão, filhos de Judas, foram executados pelo Procurador Tibério Alexandre (Ant. 20.100-103), em um momento em que o país passava por uma grande fome (o que pode ter sido utilizado por eles para fomentar a rebelião). Durante a Guerra Judaica, Menaem, descendente de Judas, proclamou-se Rei. Quando Jerusalem caiu, Eleazar ben Jair, primo de Menahem (e portanto parente de Judas), foi um dos líderes da resistência em Massada. A menção a Judas Galileu e sua família são essenciais para as finalidades apologéticas da narrativa de Josefo junto a seus leitores da aristocracia romana. As inovações de Judas teriam iludido e desencaminhado a nação, pois seus ensinos "alteraram o modo de vida de nossos pais, de tal maneira, que pesaram decisivamente para trazer tudo para a destruição" (Ant. 18:9), o legado de sua loucura foi de agitação, fome, destruição das cidades e do Templo de Deus (18:7-8). Judas Galileu e sua escola são o bode expiatório perfeito para Josefo, e caem como uma luva para sua narrativa.

Mas se a menção da seita por Josefo não implica, necessariamente, em citar seus fundadores, - e a excessão no caso de Judas Galileu e sua escola é explicada pela seu papel relevante nos tumultos do seculo I DC e na Guerra Judaica, e consequente destruição de Jerusalém e do Templo - porque Josefo não relaciona os cristãos entre as seitas judaicas? Essenios, Fariseus e Saduceus eram grupos antigos e tradicionais que existiam desde meados do II seculo AC, e os revolucionários são importantes por sua função na narrativa de serem a razão da ruína da nação, assim os outros grupos e facções podem não ter sido citados simplesmente por não serem importantes e/ou tradicionais o suficiente. Seu eu digo que os britânicos estão divididos entre conservadores, trabalhistas e liberais democratas, ou os americanos entre Democratas e Republicanos, isso não quer dizer que não existam partidos menores, ou subgrupos e movimentos relevantes cuja influência se estende tanto fora como dentro desses partidos. O mesmo pode ser dito ao mencionar PT, PSDB, PMDB, DEM e PP como as forças políticas tradicionais no Brasil, sem citar os inúmeros partidos e movimentos parlamentares menores. De fato, em uma passagem do Talmude de Jerusalem, o Rabi Yehoanam (século III DC) afirma que existiam 24 seitas entre os judeus [2]. Isoladamente, a confiabilidade desta tradição é duvidosa, porém varios textos e materiais datáveis dos séculos I AC e sec I DC indicam a existência de outros grupos. Em geral, os estudiosos concordam que existiam mais grupos religiosos além de essênios, fariseus e saduceus nos anos anteriores a destruição do Templo (70 DC) [3]. Existe também um consenso de que esta esquematização, é anacrônica e exclui importantes grupos como os samaritanos, zelotes, sicários, grupos batistas, enoquianos, judeus seguidores de magia, betusianos, escribas, milagreiros galileus, simpatizantes romanos, e muitos outros que reivindicavam ser judeus seguidores da Lei, e obviamente, os seguidores de Jesus na Judeia. [3]

Assim, independente da autenticidade do Testemunho Flaviano, o fato é que os cristãos existiam na Judéia como demonstram o complexo relacionamento entre Paulo e a Igreja de Jerusalém (Gl. 1:18-22 e 2:1-5; Rom. 15:26; I Tes. 2:14-16; I Cor. 16:1-4), e o fato de ser de conhecimento público entre os leitores de Josefo de que os cristãos - perseguidos em Roma desde o tempo do Imperador Nero (Tacito, Anais 15:44; Suetonio, De Vita Nero, 16:2) - eram originários da Judéia. Isso é consistente com o fato de Josefo não oferecer uma descrição dos cristãos entre os grupos tradicionais entre os judeus - existentes a mais de 250 anos e atores principais dos acontecimentos - e os cita (provavelmente) brevemente como uma seita sem muita importância que, surpreendentemente, ainda não se extinguira 60 anos após a morte de seu fundador.

Apocaliptismo, Messianismo, os Cristãos, Jesus e Josefo: Deve ser observado que as seitas judaícas, de modo geral, eram messiânicas. Inclusive os fariseus, grupo a qual Josefo se identificava. Além disso, as crenças messiânicas e apocalipticas estavam no auge entre o povo, e somadas a condições econômicas, sociais e políticas bastante específicas, exerceram grande pressão na palestina no período. Entre a morte de Herodes (4 AC) e a derrota de Simão Bar Kokhba (135 DC) a Judéia foi envolvida por três grandes rebeliões e vários tumultos, enquanto que nos séculos anteriores de domínio persa, helenista e herodianos so há registro de uma única grande rebelião (a dos macabeus). Portanto, para entender essas tensões vamos analisar agora as crenças desses grupos.

Josefo descreve os essênios em sua obra, com palavras de admiração e louvor:
"Merece nossa admiração quanto aos essênios que superaram todos os outros homens que se dedicavam a virtude , e o faziam com retidão e de tal forma que jamais aconteceu entre outros homens, nem gregos, nem judeus". (Antiguidades Judaicas 18:21)
"Há mesmo entre eles os que se tornam capazes de prever o futuro, exercitados que são no estudo dos livros santos, dos escritos sagrados e das sentenças dos profetas; e é raro que aconteça de se enganarem em suas predições" (Guerras Judaicas 2:159)

Filo também faz observações semelhantes em Hipotética 11:14-17.
Mas o que sabemos sobre os essênios, e suas crenças?

Professor David Flusser, da Universidade Hebraica:
"Ja os essênios eram de outra espécie. Originalmente, formavam um movimento revolucionário apocaliptico, que desenvolveu uma amálgama ideológica de pobreza e predestinação dupla. Eram os verdadeiros filhos da luz, os pobres divinamente eleitos. No iminente fim dos dias, pelo poder das armas e assistência das hostes celestiais herdariam a terra e conquistariam o mundo. Os filhos das trevas - o resto de Israel, os gentios e os poderes demoníacos que governam o universo - seriam aniquilados" [4]

Surpresa!!! Os essênios também eram messiânicos e apocalípticos. O que pode ser demonstrado analisando os Manuscitos do Mar Morto. Na opinião da grande maioria dos estudiosos, a maior parte desses textos seriam de autoria de uma comunidade de essênios, radicados em Quram, atual Jordânia [5]. De fato, os autores dos manuscritos do Mar Morto tem uma concepção apocaliptica muito agressiva. Professor Geza Vermes , da Universidade de Oxford, observa:

"A oração conhecida como a benção do Príncipe da Congregação, o futuro chefe militar da Comunidade de Qumrã, concebe uma figura guerreira semelhante dotada com características de sabedoria divina:
O Mestre abençoará o Principe da Congregação
Que há de Estabelecer o seu reino para sempre
Que o Senhor o erga a alturas perpétuas como uma torre fortificada
[Que derrotes os povos] com o poder de tua mão e devastes a terra com seu cetro
Que tragas a morte para o incréu com o hálito dos teus lábios
[Que ele derrame sobre ti o espirito do conselho] e o poder eterno do Espirito do conhecimento e o temor de Deus (1 QS 5:20-25)


Admitidamente, essa oração não contém o termo "Messias" propriamente, mas outras passagens do Mar Morto vêm em nosso socorro e esclarecem a questão. Eles fazem referência, por exemplo, ao "Messias dos Justos" a descendência de Davi (4 Q252 6 sobre Genêsis 49:10) ou descrevem o último Príncipe da Congregação como "Descendência de Davi e que derrotará os Cetim - Romanos (4Q285). [6].

O texto é radicalmente apocalíptico. Mas, como já dissemos, o apocaliptismo e o messianismo não são uma característica apenas dos sectários essênios. Na verdade, esses traços permeavam em maior ou menor grau todo o judaísmo, antes e depois da 1ª Guerra Judaico Romana (66-73 DC).

"Eis que o machado esta posto sobre a raiz das árvores" - O apocaliptismo e messianismo no Judaismo do Segundo Templo: O Professor Vermes também analisou as crenças apocalipticas e messiânicas dos essênios em contexto mais amplo, a luz das crenças comuns do judaismo do tempo de Jesus, tendo em vista das orações do povo judeu.

"As orações são provavelmente a melhor fonte a consultar para tentarmos descobrir que tipo de libertador a gente comum esperava. Os Salmos de Salomão (17 e 18), do século I AC, bem como a maior parte dos textos messiânicos entre os manuscristos do Mar Morto de data semelhante, juntamente com a famosa oração sinagogal das dezoito bençãos, em substância atribuiveis ao século I DC, transmitem-nos um quadro vivo do esperado Messias real. Eis o governante ungido dos Salmos de Salomão (17:23-24), poderoso justo e sagrado

Vê Senhor, e erige-lhes o seu rei, o Filho de Davi...
E cinge-o de força para que possa abalar os regentes injustos
E ele congregará um povo santo...
E servirá as nações pagãs sob seu jugo...
E será o Rei justo ensinado por Deus...
E não haverá injustiça nenhuma em seu meio no seus dias
Pois todos serão santos e seu Rei o ungido [do] Senhor"
[6]

As dezoito bençãos, como veremos adiante, eram recitadas diariamente nas sinagogas judaicas, não só em Israel, mas em todo Império. Os Salmos de Salomão também refletem também uma concepção judaica tradicional e popular do Messias.

Vermes observa também:
"Finalmente, talvez a mais influente de todas as orações judaicas, as dezoito bençãos, aqui citada a partir de sua versão palestina, também dá testemunho da esperança central da vinda de um rei ungido justo.
"Sejas bondoso, ó Senhor, Nosso Deus, conforme as tuas grandes mercês.
Para com Israel, o teu povo, e Jerusalém, a tua cidade, e a Sião, a residência da sua glória
e para com teu Templo e altar
e o reino da casa de Davi, o teu virtuoso Messias""
[6]

Professor Jona Lendering [7], observa que a literatura acadêmica distinguiu quatro tipos messiânicos no I século DC: o Messias Militar, um Rei Guerreiro, na semelhança e descendência de Davi, que derrotará as nações impías; o Messias Sábio, um mestre capaz de interpretar as escrituras de maneira correta, curar os enfermos e predizer o futuro (que também era chamado Filho de Davi); o Messias Sacerdotal, que derrota os inimigos de Israel (em um sentido mais afeito as forças malignas, demoniácas), traz boas novas de salvação, seria sacerdote para sempre, restabeleceria o culto verdadeiro e julgaria as nações; e o Messias "profeta como Moisés", que apareceria para guiar o povo e seria investido da autoridade que Moisés teve. A maioria das pessoas acreditava que o Messias combinaria todos os pelo menos alguns desses aspectos. Por exemplo, João Batista pode ter sido visto como um "profeta como Moisés" e Jesus de Nazaré é descrito nos evangelhos principalmente como um "messias sábio" (alguém que traz novas leis, cura, e profetiza), mas também como um Messias sacerdotal e um "profeta como Moisés". A idéia de um Messias Militar é claramente rejeitada nos evangelhos.

O professor Louis Feldman , da Yeshiva University, levanta mais alguns pontos, observando a prevalência das crenças messiânicas entre fariseus e rabinos posteriores
"Zeitlin observa que tanto na obra de Filo, quanto na de Josefo, não há qualquer menção ao Messias ou a expectativas messiânicas (Zeitlin não aceita a afirmação de que Jesus era o Messias em Antiguidades 18:63 como autêntica), e que essa omissão não se deve ao temor de seus benfeitores [de Josefo], os flavianos, mas ao fato dele não compartilhar essa crença. Nos podemos, entretanto, observar que, uma vez que Josefo se declara um fariseu (Vita, 12) é díficil acreditar que ele não aceitasse uma crença tão crucial entre os fariseus. Rivkin, deve ser dito, com base em Josefo, conclui que nem os fariseus, nem a maioria do povo judeu estava esperando o Messias; mas essa opinião esta em desacordo com o sentimento generalizado e esmagador do Talmude, e o fato de que, com excessão de Hilel II, no quarto século, nenhum outro rabino é citado como sendo cético da vinda do Messias" [8]

Desta forma, mesmo que se rejeite a autoria essênia dos manuscritos do Mar Morto, o fato é que o judaismo do I Século esta permeado dessas concepções, pedindo a Deus todos os dias pelo "reino da casa de Davi seu servo" e o "teu virtuoso Messias". E seus rabinos, nos séculos posteriores, discutiriam sobre o Messias e seu advento, como pode ser visto no Talmude. Desta forma, podemos dizer que os cristãos partilhavam uma crença judaica comum generalizada no apocalipse e no Messias. Essas crenças estavam firmemente enraizadas no judaismo em geral, e fazia parte do imaginário do povo e das elites, de uma ou de outra forma, com maior ou menor intensidade. Não se discutia se haveria ou não um Messias, mas sim como seria o seu advento, e a natureza de sua manifestação (se sacerdotal, ou militar, sabio/filosofo/milagreiro ou profética) .
É relevante que ainda que a identificação dos manuscritos do Mar Morto com os essênios seja equivocada, o ponto de vista da prevalência de crenças messiânicas entre os judeus do I século não é prejudicado, em vista das hipóteses concorrentes a posição dominante. Professor James Vanderkam, da Universidade Notre Dame, cita duas teorias alternativas a hipótese essênia dignas de alguma consideração [9]. O Prof. Norman Golb, da Universidade de Chicago, propõe que os manuscritos não foram compostos em Quram, mas em Jerusalém - por judeus de várias correntes religiosas, bem como sacerdotes do Templo - e que foram escondidos lá por refugiados da Guerra Judaico-Romana, Quram seia na verdade uma fortaleza. Já a segunda hipótese alternativa, é a do Professor Lawrence Schiffman (New York University), que o grupo de Quram e os textos escritos lá eram de origem saducaica. O termo saduceu, na teoria de Schiffman, merece algumas qualificações. Para ele tanto os saduceus da elite do Templo (mencionados no Novo Testamento e Josefo), quanto os essênios, tiveram uma origem comum, um grupo de sacerdotes do Templo do século II A.C, que se auto-denominava Filhos de Zadoque, ou Zadoqueus. Mas que, nos séculos seguintes, os dois grupos tomaram caminhos bastante distintos (e, certo sentido, como nas crenças de anjos e predestinação, seu oposto). Mas, como observa Vanderkam, a teoria de Schiffman não é, na verdade, uma negação da identificação com essênios, mas uma tese sobre uma origem comum deles com os saduceus [9]. E ainda que aceitemos a teoria de Golb, se torna ainda mais claro que o messianismo e apocaliptismo estavam entranhados no imaginário e convicções judaicas (até mesmo entre sacerdotes da elite do templo da classe saduceia dominante).

Flusser observa que "seitas radicais podem, com frequência, ser bastante afáveis"[10]. Ao longo de sua história o fervor apocalíptico dos essênios foi se amainando, e isso talvez explique o retrato como "monges" tranquilos, serenos, contudo arredios que fascinou Josefo, Filo e mesmo o romano Plinio, o Velho. De fato, apesar dos vários escritos apocalípticos, messiânicos, que previam a derrota dos impíos e a destruição de seu poder, que, obviamente, implicava na derrocada dos romanos, não há registro de envolvimento dos essênios nos numerosos tumultos e rebeliões ocorridos, excetuando-se a Guerra Judaica-Romana de 66-73 DC, quando os país inteiro se levantou contra os romanos.

Bandidos, Profetas e Messias: Josefo também descreve João Batista com algumas similaridades com os essênios (um profeta, que vivia no deserto, se dedicava a virtude, fazia banhos de purificação...). João Batista atrai multidões e causa alvoroço. Herodes Antipas fica alarmados, e tentam (e, efetivamente conseguem), silencia-lo. A acusação ou motivo da execução é a possibilidade de que as massas, excitadas pela pregação de João, fossem induzidas a rebelião (contra os Herodianos, e, em todo caso, contra Roma).

Falando sobre os efeitos da pregação de João sobre as massas, Professor John Dominic Crossan observa:
"De repente, tudo muda, mas sem qualquer explicação. Quem são esses outros, porque são tão incitados, qual é o conteúdo desses sermãos , onde João levaria aqueles que o obedecem em tudo o que faziam e como poderia tudo isso levar a alguma forma de sedição ou mesmo a uma sublevação? Depois de ler esta segunda parte, não surpreende que Antipas tenha rapidamente decidido eliminar João" [11]

A possibilidade, ainda que remota, de que João Batista se torne o líder de uma revolta (para se tornar rei?), leva a sua execução. Como diz Crossan, é possível que Josefo não tenha contado toda a história em relação a João Batista, deliberadamente relatando menos que sabia, para que os detalhes não ferissem suscetibilidades de seus leitores da elite greco-romana . É concebível que em seus sermões pudessem ser interpretados de forma revolucionárias.É pouco provável que multidões se deslocassem de seus lares apenas para ouvir homílias abstratas sobre a virtude, e mesmo se o fizessem, é inverossímil que tais sermões os deixassem "excitados" a tal ponto que uma raposa como Herodes Antipas viesse a temer uma rebelião. A pregação de João era certamente virtuosa, mas, com toda probabilidade, revolucionária. Provavelmente não da forma de um Judas Galileu, mas algo como um dos profetas do Velho Testamento. Josefo sabia mais sobre João do que ele conta. É bem provável que isso também se aplique aos essênios. No seu afã de tentar provar a seus leitores romanos e gregos que existiam grupos e profetas judeus que pregavam a virtude e não seguiam a quarta filosofia, ele torce os fatos. Nem João era um simples pregador da virtude, nem os essênios eram monges inofensivos (o que é um elemento que reforça a tese de que na parte josefana do Testemunho Flaviano, ele chamou Jesus de "homem sábio" e "realizador de feitos maravilhosos", ocultando o conhecido fato de que Jesus foi executado como "Rei dos Judeus").

E no que se refere aos cristãos, o único caso de sedição atribuído a eles, o incêndio de Roma em 64 DC, relatado por Tácito, que claramente afirma que eles foram utilizados como bode expiatório por um governante insano, Nero. Diferentemente do que a maioria dos pretendentes messiânicos a qual Josefo menciona - como Atronges, Judas Galileu, o profeta egípcio, Menaem e Simão Bar Giora - que invariavelmente se envolviam em rebeliões, e, conforme Josefo, "agiam pretensamente a título do bem público, mas na realidade com esperança de ganho pessoal, fomentando a sedição, e causando mortícinios". [Ant. 18: capítulo 1, seção 1 (§ 7-9)]

Mas mesmo a respeito desses messianistas revolucionários, Josefo reflete alguma ambiguidade. A passagem citada acima é de Antiguidades Judaicas (cf Ant. 18:4-9 e 23), e basicamente reitera, nesta parte do texto, o que ele havia escrito 15 anos antes em Guerras Judaicas. Contudo, segundo o Professor Giorgio Jossa, da Universidade Federico Napolitano (Itália), em Antiguidades, Josefo também parece indicar uma mudança de julgamento em relação a Judas Galileu, o inspirador desses rebeldes, e seus seguidores [12]. Jossa observa que em Guerras, Judas Galileu é mestre de uma escola "peculiar, e totalmente estranha as outras" (Guerras 2:118). Já em Antiguidades, Judas (junto com o fariseu Zadoque) é referido como fundador de uma nova filosofia - junto com as tradicionais dos saduceus, essênios e fariseus - similar em suas concepções a dos fariseus (Ant. 18:23), grupo a qual Josefo diz pertencer, e difere deste grupo apenas em seu apaixonado amor pela liberdade e por não admitir nenhum outro Senhor, se não Deus [12]. Prof. Jossa aponta também o fato de que Josefo agora admite que Judas e seu grupo conquistaram a admiração da população (Ant. 18:6) - e não apenas de um grupo de fanáticos, como em Guerras Judaicas [12]. Em suma, Josefo chega perto de elogiar Judas Galileu (Geza Vermes usa o termo bajular) [13]. Agora ele não é apenas um bandido disposto a insuflar as massas para o ganho pessoal, mas também um mestre tão apegado a liberdade, e tão cioso da devoção exclusiva de Deus sobre o povo judeu, que não aceita o domínio romano. Josefo reitera sua palavras de reprovação a esse grupo, mas a descrição muda significativamente.

Ou seja, mesmo em Antiguidades, até os "bad boys", os messianistas fanáticos, tem sua avaliação melhorada. Desta forma, se Josefo diz que um perigosos revolucionário - cujos os ensinos levaram a nação a catástrofe - era também um filosofo fundador de um escola, um amante inveterado da liberdade, que acreditava que o único Senhor era Deus, porque não pode chamar Jesus de homem sábio e realizador de feitos surpreendentes?

Assim, como os essênios (e o judaismo do I seculo em geral) os cristãos eram messiânicos. Tinham crenças apocalipticas. E seus textos evidenciam isso. Entretanto, apesar dessas crenças, Josefo pode apresentar um retrato extremamente favorável dos essênios, ainda que ele mesmo fosse fariseu. De fato, ele não poderia ignorar as crenças igualmente messiânicas e apocalipticas de seus companheiros fariseus. Provavelmente, as crenças apocaliptícas cristãs não destoavam tanto assim do que o restante dos judeus acreditava, e possivelmente fossem até bastante moderadas, se considerarmos o sucesso que as idéias de messianismo radical do fariseu Zadoque e Judas Galileu tiveram entre a população, como admite Josefo. Em suma, é razoavel que Josefo tivesse uma opinião neutra ou ligeiramente favoravél de Jesus, a despeito das crenças messiânicas e apocaliptícas de seus seguidores, pois mesmo quando descreve os perigosos messianistas radicais, ele tem algumas coisas boas a dizer. Além disso, o messianismo cristão não era o único, fariseus e essênios também criam no advento do "reino da casa de Davi, o teu virtuoso Messias".

Referência Bibliográficas
[1] Descrição baseada em Gerd Thiesen e Annete Merz (1996), O Jesus Histórico, Um Manual, fl. 159 que esquematiza também em Antiguidades Judaicas 18: capitulo 1, (§ 11-25), Antiguidades Judaicas 13, capítulo 5, seção 9 e capítulo 10, seção 5 (§ 171-173 e 297), Guerras Judaicas 2, capítulo 8 (§ 118-166)
[2] Talmude de Jerusalem, Tratado Sinédrio 10.6.29.c. Ver também Louis Feldman (1996) Jewish life and thought among Greeks and Romans: primary readings
[3] James H. Charlesworth (2006), "The Dead Sea Scrolls: Their Discovery and Challenge to Biblical Studies," in The Bible and the Dead Sea Scrolls: Vol 1: Scripture and the Scrolls ed. J.H. Charlesworth, p.7
[4] David Flusser (1998), "Jesus", fls. 70-71
[5] James Tabor, "Getting all the facts wrong: Time Magazine on the Dead Sea Scrolls", em http://jamestabor.com/2009/03/17/getting-all-the-facts-wrong-time-magazine-on-the-dead-sea-scrolls/, acessado em 17.03.2009
[6] Geza Vermes (2000), "As Várias Faces de Jesus", fls 213-214
[7] Jona Lendering, "Messiah, From 'anointed one' to 'eschatological king'", artigos 7, 8, 9 e 10,
http://www.livius.org/men-mh/messiah/messiah00.html#overview, acessado em 17.01.2011
[8] Louis Feldman (1984), Flavius Josephus Revisited, In Wolfgang Haase & Temporini; Aufstieg und Niedergang der römischen Welt, fl. 828
[9] David Flusser (1998), "Jesus", fls. 70-71
[10] James Vanderkam (2010), The Dead Sea Scroll Today, fls. 119 a 124
[11] John D. Crossan (1994), Jesus uma Biografia Revolucionária, fl. 50
[12] Giorgio Jossa (2005), Jews, Romans and Christians, from the Bellum Judaicum to Antiquities In Joseph Sievers & Gaia Lembi (2005): Josephus and Jewish History in Flavian Rome and Beyond, fls. 335-337
[13] Geza Vermes (2005), Quem e Quem na época de Jesus, fls 192-193

domingo, 2 de janeiro de 2011

Para aqueles que gostam de saber como a bíblia trata da temática do vinho, elaborei um texto com todas as citações bíblicas referentes ao tema. Elas foram agrupadas por tipos de referência, quer neutras, quer condenando o excesso ou tecendo elogiosos comentários sobre o bebida. O texto traz ainda uma apreciação sobre as palavras hebraicas e gregas referentes ao vinho, tendo por fim uma breve explicação sobre o processo de fermentação e produção vinícula na antiga Palestina. Recomendo e muito a leitura dos versículos >!


Is 25,6: “Iahweh dos Exércitos prepara para todos os povos, sobre esta montanha, um banquete de carnes gordas, um banquete de vinhos finos, de carnes suculentas, de vinhos depurados.”



Para uma leitura adequada, clicar logo abaixo da caixa no ícone onde está escrito FULL



quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Ainda, na virada para 2011, o quadro no Brasil em termos de trabalhos, leituras, publicações e pesquisas, mesmo interesse, acerca do campo de estudos históricos positivos de Jesus e das origens cristãs está num estágio incipiente e com um número relativamente pequeno de pessoas engajadas. Torcemos e buscamos contribuir para difundir este importante campo das humanidades, transdisciplinar por excelência, que abarca a arqueologia, antropologia, história, lingüística, literatura, sociologia, teologia, etc.

Temos alguns espaços com abertura e apoio à pesquisa, como na UFRJ, a Universidade Metodista em SP, a EST de São Leopoldo,algumas PUC’s, como a de Goiás, a UFJF, a UNB dentre outras cujo espaço não permite esgotar.


Agora, infelizmente, nos deparamos sobretudo na internet com algumas declarações que, numa atitude oportunista diante deste cenário, buscam querer imputar às suas posições particulares o caráter de ser “o estado da arte” dos estudos, e muitas vezes, fanfarronices que desrespeitam as demais pessoas que buscam acompanhar o campo de estudo, como se pensassem “estou numa terra de cegos, vou ser o rei de um olho a me lambuzar no melado”.


Com todo o respeito ao esforço do professor da UFRJ André Leonardo Chevitarese, ele é um que tenho visto em menções na internet exemplificar este tipo de atitude, e meu artigo aqui visa contribuir para que estas coisas tenham fim no Brasil. Para tanto, vou trabalhar em cima de um caso em que tal comportamento foi gritante.


Nesta resenha do livro “A Gruta de São João Batista”, ele trata de desancar o professor de arqueologia na Universidade da Carolina do Norte, Shimon Gibson, porque este apresentara posições contra as quais o prof. André tem um antagonismo passional e teleológico. Ele se esquiva e perde o foco em relação a matéria arqueologica propriamente dita.

O professor Gibson é mundialmente renomado, autor de uma prolífica publicação científica no campo, e referência em arqueologia de Jerusalém. Um de seus livros é o aclamado “Archaeological Encyclopedia of the Holy Land”. Acompanhou e participou em primeirão mão de muitas escavações e pesquisas de primeira magnitude no campo arqueológico.  Foi diretor do Departamento de Relatórios Científicos e de Pesquisa na Autoridade para Antiguidades de Israel, de 1995 a 1999.

Um curriculo assim, impressionante posta em paralelo com a do nosso professor André, já serviria para ele, pelo menos, ser mais comedido em críticas, e evitar o ad homine, em nome da respeitabilidade do debate acadêmico.


Chevitarese coloca:
Apesar das discussões trazidas por Gibson, como por exemplo, acerca dos rituais de limpeza judaicos ou sobre o culto em torno das imagens de um pé ou de pés no Oriente Próximo, sempre seguidas de indicações bibliográficas, verifica-se, de forma sistemática, o seu tratamento acrítico em relação à documentação neotestamentária (...)Pode-se mesmo dizer que lhe falta o equilíbrio.

A sobriedade levaria alguém a refletir que, uma pessoa capaz de dar tal tratamento, poderia ter suas posições não acríticas, mas com algum embasamento, ainda que discordantes da do prof. André. Nenhuma pessoa desanca a outra assim de forma tão descuidada, sem lhe dar o bônus da dúvida. Pode ser que André acredite que o minimalismo com relação ao N.T. seja a posição correta, contudo, não pode tropeçar nas suas próprias palavras, e “explorar ao máximo o seu lado sensacionalista, aproveitando a “infantilidade” do leitor para tudo o que diz respeito à religião, independentemente dos campos de experimentação”, buscando incutir que todos os grandes analistas seguem sua tendência, e não há aqueles que divergem dela.

Ele dá vários exemplos de como fica indignado com um tratamento não-minimalista. Não é de nosso interesse aqui discutir todos eles, mesmo porque não acompanho necessariamente o prof. Gibson em todos.

Há bons motivos para ser cauteloso e crítico quanto à narrativa do massacre das crianças por Herodes em Mateus. Mas o prof. André age como um amador apressado em se apoiar nisso:

Pode parecer incrível, mas em nenhum momento o autor se perguntou acerca do paralelismo entre esta história evangélica e aquela referente a Moises, contida no livro de Êxodo; esta relação seria obra do acaso ou uma clara intenção de Mateus em ler Jesus como sendo o novo Moises?

Primeiramente, o paralelo mais próximo a natividade de Mateus não é a história do Êxodo em primeira instância, mas de forma mais afastada. Jesus na narrativa da natividade não é um adulto com protagonismo nas ações, mas uma criança e agente passivo. Não faz nem realiza nada. Está ao reboque dos pais. Não é definitivamente, como Moisés na epopéia. Alguém pode considerar que o paralelo concentra no massacre das crianças - que pode ser lendário ou não. Seria como o eixo em que o resto se encaixa numa engrenagem a girar o mecanismo do "novo Moisés". Seria uma imagem tal qual os eixos das figuras das visões de Ezequiel. Ainda que forneça materiais para a psicanálise se debruçar que de um cesto no rio seguido por uma irmã e encontrado por uma egípcia emane uma família andando num camelo, temos que criar muitas hipóteses ad hoc para confabular uma saga de milhares de crianças massacradas em todo império, potenciais mão-de-obra para um faraó calculista preocupado com exércitos, com um punhado numa vila num momento em que Herodes estava massacrando inimigos até nos sonhos. Está para com isso o mesmo tanto que o peso da estadia e formação no Egito esteve para o Moisés da narrativa quanto o silêncio e mesmo desimportância da estadia do bebê Jesus no Egito em que mal sabemos se influenciou o próximo espirro que deu.

O paralelismo mais imediato é com a antiga Agadah da Páscoa, dos finais do século I a.C. [para conhecê-la melhor, ver L. Filkenstein: “The Oldest Midrash, Pré-Rabbinic Ideals and Teaching in the Passover Haggadah.”]. Chevitarese deveria ter conhecimento disto.

Nessa Midrash, o protagonismo é de Jacó, sendo que no início se abre com “O arameu procurou destruir meu pai”. Se faz aí um trocadilho mesmo entre Labão e Herodes, arameu e idumeu respectivamente ( com grafias parecidas, ‘rmy com ‘dmy), ambos considerados intrusos indesejados no mundo da fé.

Mas a perspectiva dentro do mundo do judaísmo diferia para os autores do evangelho e do agadah. Por exemplo, o evangelista tinha a perspectiva dos anjos como agentes mediadores para a transcedência de Deus e sua ação na Terra; o do agadah é cauteloso com a idéia – “Adonai trouxe-nos do Egito, não por meio de anjo, nem por mensageiro, mas pelo próprio Altíssimo, que seja bendito”, VII.1.

O quadro da agadah oferece a moldura para o relato de Mateus, mas não o seu conteúdo, independente do nível de historicidade que se dê para as diversas cenas da “fuga e regresso da Sagrada Família”.

Pulemos então de analisar caso por caso, para nos atermos a um panorama geral. Pois o panorama que se apresenta o tratamento do professor André ao pesquisador e membro sênior do Instituto de Pesquisa Arqueológica em Jerusalém, editor chefe por duas décadas do "Bulletin of the Anglo-Israel Archaeological Society" por adotar uma visão a qual Chevitarese tem indisposição ex ante, é absurdo. Ademais, no referido livro resenhado o professor Gibson rechaça por completo alguma historicidade na natividade de Lucas. Tal não se enquadra no retrato que de forma oportunista André quis pintar dele como um religioso acrítico por provar a Bíblia com a arqueologia.

Sofregamente, André Chevitarese chega a apelar em sua retórica a reverberando:
mantém a velha tradição editorial deste país de só publicar livros que reforcem a visão fundamentalista na forma de ler e interpretar o material neotestamentário.

Bem, fica claro para quem acompanha o professor que ele considera fundamentalista tudo o que não seja minimalista. Ainda assim, fica estranho para alguém pensar como em tal tradição se encaixa as publicações de Burton L. MackElaine Pagels, Haim Cohl, Santiago Guijarro , os diversos livros de Dominic Crossan, Bart D. Ehrman, e tantos outros? É definitivamente um apelo emocional descuidado.

O “X” da questão está na parte onde o professor André dispara agressivamente:
O clímax da superficialidade das análises documentais, acrescido da necessidade que Gibson tem de reforçar todo e qualquer vínculo entre a gruta de Suba e João Batista é atingido no seguinte ponto:
Acredito firmemente no conceito de longevidade da memória coletiva e no poder da tradição oral [...]” (página 205).        
Só mesmo os mais ortodoxos dos fundamentalistas abonariam uma posição como esta!


Nesta hora, não posso me esquivar de dizer, o professor brasileiro se comporta de forma extremamente imatura.

No livro lançado aqui “Os Últimos Dias de Jesus – A evidência arqueológica”, o professor Gibson fala de si mesmo:

Alguns leitores talvez achem presunção minha, um arqueólogo, escrever sobre o caráter, as realizações e os objetivos de uma personalidade tão importante quanto Jesus. Afinal de contas, bilhões de pessoas em todo o planeta o adoram como o Cristo, o Salvador e como o Filho de Deus. No entanto, minhas opiniões estão expressas aqui de forma sincera, com base em uma análise de dados históricos e arqueológicos a que tive acesso; não tenho interesse pessoal nem religioso de nenhuma natureza e, definitivamente, não desejo ofender ninguém, embora algumas das coisas que digo possam parecer radicais e controversas”.

Sobre os evangelho, ele apresenta sua opinião, que “foram adaptados, enfeitados e alterados pelos redatores" e, portanto, “pode ser perigoso usá-los de forma acrítica e indiscriminada”.
Pgs. 183 e 184.

O retrato que ele concebe de Jesus:
O Jesus histórico, creio eu, era um homem de família rural abastada da Galiléia, treinado em questões relativas a purificação por João Batista, alguém que acreditava em métodos de cura alternativos e talvez, até mesmo em um pouquinho de magia, alguém cujos discursos apaixonados e ensinamentos pouco convencionais assustaram as autoridades judaicas e romanas de tal maneira que estas decidiram tomar uma medida radical e executá-lo.“
Pg. 188

Somente um fundamentalista especular poderia abonar uma posição que considere tal pessoa um fundamentalista! Prof. Chevitarese acaba nos dizendo mais de si mesmo – e de seu fundamentalismo especular - do que do livro de Shimon Gibson.
 
Neste livro ainda, o professor Gibson reitera sua posição: “Pessoalmente, sou forte defensor da tradição oral (...)”. pg. 178. E ele apresenta uma referência de discussão a respeito de grande peso intelectual e insuspeita:
The Voice of the Past - Oral History”, monumental magnum opus do historiador top de linha Paul Thompson. Uma obra, excelência prima em historiografia, a qual Chevitarese nunca publicara algo que beirasse a sombra, de um historiador que, com todo respeito ao brasileiro, ele não desata as sandalhas.
Com isto, podemos concluir que a leitura de Gibson não advém de uma paixão cega para apologia – ele é cético – mas antes, de uma equilibrada e ponderada avaliação metodológica centrada. É uma perspectiva também coadunada com a obra da Jan Vansina e Maurice Halbwachs.

E se não bastasse, podemos pegar algumas referências nos campos dos estudos bíblicos neotestamentários similares, por parte de pesquisadores icontestadamente não-fundamentalistas, nem mesmo de alas mais conservadoras dentre os biblistas, consentâneos com este prospecto ante a tradição oral, obras também muito além de algo que o prof. Chevitarese tenha produzido, por parte de pesquisadores bem mais reconhecidos:

Os artigos clássicos “Middle Eastern Oral Tradition and the Synoptic Gospels”e “Informal Controlled Oral Tradition and the Synoptic Gospels” de Kenneth E. Baley.

O livro meticuloso “The past of Jesus in the Gospels”, de Eugene Lemcio.

Do prof. James D.G.Dunn, o volume 1 da monumental coleção “Christianity in the Making” – Jesus Remembered.

Por Samuel Byrskog, famoso pelo seu agudo rigor,  “Story As History, History As Story: The Gospel Tradition in the Context of Ancient Oral History”.

O respeitadíssimo professor de Cambridge Graham Stanton, “The Gospels and Jesus”.


De Richard Bauckham, o marcante “Jesus and the Eyewitnesses: The Gospels as Eyewitness Testimony.

O recente “The Historical Jesus of the Gospels”, De Craig S. Keener.

É claro que eu, um leigo, não cairei no mesmo erro de Chevitarese e dizer que quem está antenado com o mundo das pesquisas precisa ter essa perspectiva, quem não tem, não está. Ótimas obras de igualmente excelentes estudiosos discordam. Contudo, o mínimo a que se pode concluir é que no atual momento do Brasil, é preciso ser muito cuidadoso com as declarações que se lê a respeito do estudo de “Jesus histórico”. E o prof. André Chevitarese atraiu muita suspeita quanto aos seus pronunciamentos e trabalhos.

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