Estudos sobre Religião - Biblioblog

quarta-feira, 2 de março de 2022

Inscrição de Akeptous, Megido, Israel, "Aketpous 
 que ama a Deus, oferece esse mosaíco ao Deus Jesus 
Cristo, como memorial", foto de Vesafis Tzferris,
 Ao longo de nossa série sobre a ascensão do cristianismo na sociedade romana, abordamos casos de conversão de membros da elite romana, e escravos libertos da família imperial, que ganharam influência e confiança do Imperador. Fora da cidade de Roma, os cristãos também foram se tornando mais visíveis, seja porque confrontaram a ordem vigente, e foram martirizados por isso, seja ao conseguiram influenciar governantes provinciais e de reinos clientes, antecipando a conversão de Constantino em 100 anos. Paralelamente, a expansão do cristianismo entre a população, foram sendo construídas estruturas e deixadas evidencias materiais.


A inscrição de Abércio.

Abércio (ou Avércio) Marcelino foi Bispo da cidade de Hierópolis (Turquia), na segunda metade do século II DC, que comissionou um epitáfio, para ser colocado como inscrição funerária. 

Preliminarmente, como observa o Professor William Tabernee, Abercio era de Hierópolis, atual Koçhisar - não Hierapolis, atual Pamukalle (também na Turquia), onde o apóstolo Filipe foi provavelmente enterrado [1], e discorremos aqui e aqui.  

Por volta do século IV, talvez V, foi composta uma biografia do Bispo Abércio, Vida de Santo Abércio (Vita), que de forma semelhante a textos como os Atos de Filipe (que também já tratamos aqui no adcumullus), é basicamente uma novela hagiográfica, elaborada para endereçar questões dos cristãos locais no tempo que foi escrita, ou seja, considerando o sitz im leben em que foi composta. No entanto, como já argumentamos no post sobre Atos de Filipe, tais textos podem conter memórias históricas (como a associação de Filipe Apóstolo com a cidade de Hierápolis, e de que foi enterrado lá). No caso de Abércio, a situação é parecida.

Em 1881, Sir William Ramsay descobriu em Kilandiraz, 12 km a noroeste de Koçhisar, um epitáfio dedicado a um certo Alexandre, datado de 216 DC. Algumas frases da inscrição funerária eram idênticas, "copia e cola", da inscrição funerária do Bispo Abércio, transcrita em sua Vita. Ramsay propôs então que a semelhança entre o epitáfio de Abércio em sua vita e o de Alexandre eram resultado de ambas terem sido baseadas na inscrição funerária do próprio Abércio [1]. Ramsay foi premiado, em 1883, com a descoberta de dois grandes fragmentos da sepultura do Bispo Abércio, reutilizados em uma casa de banhos construída numa fonte termal em Koçhisar,  confirmando sua hipótese. Em 1893, os fragmentos foram doados pelo Sultão Abdul Hamid ao Papa Leão XIII, estando hoje expostos no Museu Vaticano [1][2]. Uma vez que o epitáfio de Alexandre é de 216 DC,  o de Abércio deve forçosamente ser anterior, sendo geralmente datado no final do século II.

Inscrição de Abércio, Museu Vaticano, foto
de Giovanni Dall'Orto, via wikipedia commons.
Cidadãos da eminente cidade, construi esta sepultura  em vida, para que meu corpo possa aqui repousar;
Me chamo Abércio, e sou discípulo do Santo Pastor
Que apascenta suas ovelhas em montanhas e planícies
E cujos olhos as acompanham em toda parte
Pois me instruiu fielmente em seus escritos;
Ele me enviou a Roma, para contemplar um Reino
E ver uma rainha de manto e sandálias douradas 
Lá eu vi um povo que tinha um selo radiante;
Contemplei as planícies da Síria e muitas cidades, incluindo Nisíbis, para depois cruzar o Eufrates. Encontrei irmãos em todos os lugares, e levei Paulo comigo; A fé me levou em todos os lugares, e me alimentou com os peixes de uma fonte pura e poderosa, que um santa virgem pescou, e serviu à mesa dos amigos, sempre tendo um doce vinho e servindo o cálice com pão;
Estas palavras eu, Abercio, estando presente, as mandei escrever, quando tinha setenta e dois anos;
Aqueles que entendem e acreditam nessas coisas, orem por Abercio;
Mas que ninguém construa outra sepultura sobre a minha, pois, se o fizer, pagará duas mil moedas de ouro para o tesouro romano e mil moedas de ouro para minha amada cidade natal, Hierápolis;

 A inscrição de Abércio diz muita coisa, mas talvez seja melhor começar com as coisas que ela não diz. Geralmente, o Abércio da inscrição é associado ao Bispo Abércio Marcelino, mencionado por Eusébio de Cesáreia em sua História Eclesiástica. No entanto, no passado, chegou-se a questionar até mesmo o caráter cristão da inscrição, ou se afirmou que o autor fosse sincrético. Tais hipóteses foram praticamente postas de lado, pelo fato de que não há elemento na inscrição claramente pagão (como invocação aos deuses gregos, ou divindades locais), ao passo que há menções ao Santo Pastor, Apóstolo Paulo, virgem, escritura, vinho, cálice e partir o pão entre os irmãos, elementos doutrinários e litúrgicos que apontam fortemente para o cristianismo "(...) trabalhos mais recentes tem concluído que a densidade de símbolos e alusões. em conjunto com a identificação deste Abércio com a figura anti-montanista  mencionada por Eusébio  como Abércio Marcelino (HE 5.16.2) tornam muito mais provável de que se trata de um cristão (...)" [3] e "(...) quase todas as frases do epitáfio parecem ter sido escolhidas de forma a carregar sentido simbólico para leitores cristãos: "Santo Pastor", o "povo com o selo brilhante", "peixe da fonte (...)""[4].

A menção de Abércio (ou Avércio) Marcelino (ou Marcelo) na História Eclesiástica de Eusébio é transcrita abaixo:

Tendo por um tempo muito longo e suficiente, ó amado Avércio Marcelo,  foi instado por
escrever um tratado contra a heresia daqueles que são chamados depois de Milcíades,  hesitei até o presente, não por falta de capacidade para refutar a falsidade ou dar testemunho da verdade, mas por medo e apreensão de que eu possa parecer para alguns estar fazendo acréscimos ao doutrinas ou preceitos do Evangelho do Novo Testamento, o que é impossível para quem tem escolhidos para viver segundo o Evangelho, seja para aumentar ou diminuir.[5]

O epitáfio afirma que o "Santo Pastor" levou Abércio em suas viagens, indicando um propósito de natureza eclesiástica, consistente com a atividade de um Bispo, como observa Tabernee [6]. Abércio foi também fielmente instruído nos ensinos do Santo Pastor, o que reforça sua identidade como lider eclesiastico. Abércio Marcelino atuava na Frígia, onde não só ficava Hierópolis, bem como o berço do Montanismo, no mesmo período histórico (segunda metade do século II DC), e que tinham seu centro na cidade de Pepuza, também na Frígia.

Abércio afirma ter cruzado as planícies da Síria, e chegado a Nísibis (atual Turquia), uma principais praças defensivas do Império, em sua fronteira com os partos. Lá chegando, ele cruza o Eufrates, chegando ao limite máximo do Império Romano. Desta forma, esteve muito próximo da Edessa de Julio Africano e do Rei Abgar VII.  Abércio descreve aqui os confins orientais do Império. E lá havia cristãos. Embora as cartas paulinas e Atos dos Apóstolos atestem congregações importantes em Damasco e Antioquia, não há menção ao extremo leste da Síria e a Mesopotâmia, indicando que neste interim, outra fronteira missionária cristã foi aberta. Tertuliano, alguns anos depois, ressalta a profunda capilaridade do cristianismo, afirmando que "(...) o Nome de Cristo se estende a todos os lugares, crido em todos os lugares, adorado por todas as nações acima enumeradas, reinando em todos os lugares, adorado em todos os lugares, conferido igualmente em todos os lugares a todos. Nenhum rei, com Ele, encontra maior favor, nenhum bárbaro menor alegria; nenhuma dignidade ou linhagem goza de distinções de mérito; a todos Ele é igual, a todo Rei, a todo Juiz, a todo Deus e Senhor (...)"[7]

No entanto, é sua descrição de Roma que mais chama a atenção. Afirma que contemplou uma Rainha (grego: Basilissa) com manto e sandálias douradas. Professor Peter Thonemann, de Oxford, observa que embora o sentido na inscrição seja claramente metafórico, o autor da vita de Abércio descreve como uma visita do Bispo Abércio a imperatriz Faustina, que culminou com Abércio exorcizando a princesa Lucilla. Conforme o relato, o Imperador Marco Aurélio não estaria presente. A narrativa é muito tardia, e não conta com elementos de corroboração anteriores, como a inscrição, para ser considerada, de alguma forma, factual. De qualquer forma, a inscrição indica a grande importância da igreja de Roma ao final do século II [8]. No mesmo período, há uma intensa disputa entre os bispos Victor de Roma e Policrates de Éfeso (a frente de vários outros bispos da Asia Menor), referente a data de celebração da páscoa, com Victor determinando a excomunhão do bispos de Éfeso e toda a Ásia Menor. O movimento do Bispo Vitor foi amplamente condenado pela demais lideranças da Igreja, tendo Irineu de Lyon um papel decisivo na reversão da excomunhão e reconciliação entre as igrejas.  Ao mesmo tempo que indica que a igreja de Roma exercia enorme influência, o episódio demonstra que havia uma resistência muito grande de importantes congregações a tais movimentos de imposição. A posição romana acaba sendo vitoriosa e acatada no concílio de Nicéia, mais de 100 anos depois, mas foi muito mais uma vitória da persuasão do que da imposição.  A maior parte das outras grandes e tradicionais congregações, que também exerciam liderança regional, como Corinto, Ponto, Jerusalém e Cesáreia acabaram por concordar com Roma, isolando Éfeso. Havia assim um enorme "soft power" da rainha de manto e sandálias douradas. Igualmente, a localização no centro do poder do Império é algo a ser considerado. Como já vimos aqui no adcummulus, por volta de 190 DC, a Igreja de Roma tinha entre seus membros e simpatizantes um círculo influente de escravos libertos da casa Imperial como Márcia, concubina do Imperador Comodo, Carpóforo, e Marco Aurélio Prosenes, futuro mordomo do Imperador Caracala (211 a 217 DC). Mesma antes, no início do século II, Inácio de Antioquia estava convicto de que tinha que enfrentar o martírio, e pede que a Igreja de Roma não interferisse em sua condenação a morte, no intuito de salva-lo (Carta aos Romanos, capitulo 2), indicando que pelo menos existia a possibilidade de que cristãos que conheciam pessoas influentes pudessem evitar a execução. Professora Margareth Mitchell, da Universidade de Chicago, pondera o itinerário de Abércio e suas repercussões em termos da Igreja no sec. II DC.

In what may be the earliest extant Christian inscription (sometimes before 216 CE), the famous epitaph of Abercius, Bishop of Hieropolis in Phrygia Salutaris, recounts his own journey at the end of second century, self consciously aligning himself with the earlier Pauline itinerary and experience - "everywhere" - he says We had Paul as our companion. In his wide travels a century and a half after Paul among Christian communities from his home in Asia to Rome, to Syria, Nisibis and Mesopotamia,   (tradução) No que pode ser a mais antiga inscrição cristã existente (algum momento ante de 216 dC), o famoso epitáfio de Abercius, bispo de Hierópolis na Frígia Salutaris, relata sua própria jornada no final do século II, alinhando-se conscientemente com o itinerário paulino anterior e experiência - "em todos os lugares" - ele diz que tinha Paulo como companheiro em suas amplas viagens um século e meio depois de Paulo entre as comunidades cristãs de sua casa na Ásia a Roma, à Síria, Nísibis e Mesopotâmia, [9]

O epitáfio enfatiza tanto a diversidade geográfica dos primeiros cristãos, como sua unidade enquanto Igreja. É um caminho longo de Hieropolis até Roma, passando por milhares de quilômetros, mas, diz Abércio, "A fé me levou em todos os lugares", sendo sempre recebido por seus irmãos "tendo um doce vinho e servindo o cálice com pão'. A enorme diversidade geográfica contrasta com a uniformidade na fé e prática. Ainda que deva ser ressaltado que o cristianismo primitivo estava ainda construindo uma identidade ortodoxo (portanto, proto-ortodoxo) e abrigava várias vertentes com maior ou menor (gnósticos de várias linhas, ebionitas, marcionitas e montanistas), Abércio destaca numerosos elementos comuns, compartilhados por um grupo bem significativo  e geograficamente diversificado. A inscrição evoca explicitamente a memórias das viagens missionárias de Paulo, que ocorreram entre 125 a 150 anos antes, e que também percorreram uma parte significativa do Império, encontrando cristãos em (quase) toda parte. 

Abercius says he encountered everywhere some constants of the christian movement: instruction in the Lord's trustworthy text (grammata pista), a eucharistic celebration of common food eaten in company of 'friends' (phíloi), and a common faith (pistis) leading the way (lines 12-16). He declares himself 'a disciple of a holy shepherd' (mathetes poimenus hagnou) who feeds flocks of sheep on mountains and plains. (...) both the cryptic words earlier and ths concluding knowing adress presume a community of like-minded people who, if not known to wider world, are recognisable to one another. Their uniting bonds are a holu sheperd and holy virgin, common texts and tablem bread, wine and fish  (tradução) Abercius diz ter encontrado por toda parte algumas constantes do movimento cristão: a instrução no texto confiável do Senhor (grammata pista ), uma celebração eucarística de comida comum consumida na companhia de 'amigos' (phíloi), e uma fé comum (pistis) abrindo o caminho (linhas 12-16). Ele se declara 'um discípulo de um santo pastor' (mathetes poimenus hagnou) que alimenta rebanhos de ovelhas nas montanhas e planícies (...) Tanto as palavras enigmáticas anteriores quanto estas palavras finais pressupõem uma comunidade de pessoas de mentalidade semelhante que, se não forem conhecidas pelo mundo mais amplo, são reconhecíveis umas pelas outras. Seus laços de união são um santo pastor  e uma virgem sagrada, textos comuns e mesa de pão, vinho e peixe.[9]

 Dentre os símbolos que a inscrição de Abércio evoca, temos "(...) peixes de uma fonte pura e poderosa (...)". A associação do peixe ao cristianismo é atestada já nos evangelhos, sendo continuada em  correspondentes literários e arqueológicos muito antigos, vários deles contemporâneos a inscrição de Abércio. Assim, Tertuliano, escrevendo de Cartago (atual Tunísia) na virada do segundo para o terceiro século, nos diz

 Mas nós, peixinhos, seguindo o exemplo do "peixe" [grego: Ichtys] Jesus Cristo, nascemos na água, e não estamos seguros de nenhuma outra forma senão habitando na água.[10]

  

Estela de Licínia Amias, início do III século DC,
proveniente da necrópolis do Vaticano. via wikicommons
Ichtys é um acrônimo em grego, Iēsous Christos Theou Yios Sōtēr (Jesus Cristo, Filho de Deus Salvador).Em Roma, também no início do III século, uma cristã chamada Licinia Amias foi homenageada por seus familiares, com uma inscrição funerária, ao lado, que evoca o peixe (assim como o epitáfio de Abércio faz menção ao peixe trazido pela virgem). "Peixe dos viventes, para Licinia Amias, que merecidamente, viveu". É um dos mais antigos artefatos associados ao cristianismo primitivo, mas ainda evidencia uma identidade em construção e conexões dos adeptos da nova fé com sua antiga vida. A inscrição   possui as letras DM (Di Manes, ou "as almas dos mortos", em latim). Algumas sepulturas cristãs primitivas ainda mantinham  elementos de continuidade com o passado.

Ainda no final do século III, Clemente de Alexandria, também lista o peixe entre os símbolos cristãos 

"(...) E que nossos selos sejam uma pomba, ou um peixe, ou um navio velejando ao vento, ou uma lira musical, que Polícrates usou, ou uma âncora de navio, que Seleuco gravou como um instrumento; e se houver alguém pescando, ele se lembrará do apóstolo e das crianças tiradas da água. Pois não devemos delinear os rostos dos ídolos, nós que estamos proibidos de nos apegar a eles; nem espada, nem arco, seguindo como nós, a paz; nem copos, sendo temperados (...)" [11].

"Peixe e Cesta de Pães", afresco na Catacumba de 
São Calisto, Roma, seculo III DC, via wikicommons
 Retornando a Roma, agora na Catacumba de São Calisto, na cripta de Lucina, que chegou a ser identificada, no início do século XX pelo arqueólogo Battista de Rossi, como Pompônia Graecina, cristã do primeiro século que mencionamos aqui no primeiro post da série. A hipótese de De Rossi é bastante polêmica, mas é importante destacar que o afresco ao lado, também do início do século III, localizada naquela cripta, é testemunho adicional da relevância do simbolismo da cesta de pães e peixes na arte e imaginário cristão primitivo. Ou seja, Abércio atesta não só uma fé comum e disseminada, com relativa unidade em termos comunitários e doutrinários, mas também uma simbologia   comum, utilizada por seus irmãos na fé, de forma generalizada, seja na  Frígia, Norte da África, Egito ou Roma.   

 A Igreja de Megido

Sala de orações cristã na prisão de Megido. Fonte: Imagem em 
Yotam Tepper, Legio, Kefar ‘Otnay, in Hadashot Arkheologiyot:
Excavations and Surveys in Israel, vol. 118, 2006

 Em 2005, numa escavação de resgate, a equipe do arqueólogo Yotam Tepper, localizou na cidade de Megido, no norte Israel, o que foi identificado como um local dedicado a oração e adoração de cristãos primitivos, ou seja, uma espécie de Capela. A estrutura foi datada do início do século III DC, mais antiga estrutura dedicada então mais antiga conhecida e com datação confirmada, em Dura Europos, de 241 DC. (aqui no adcummulus, porém, já havíamos defendido a "Casa de Pedro" em Cafarnaum como a mais antiga igreja do mundo).

A escavação de resgate ou comercial, é um ramo da arqueologia que atua sobre sítios em processo de destruição. Com a expansão urbana, por exemplo, por vezes são localizados artefatos e contextos arqueológicos, em áreas sujeitas a empreendimentos ou reformas. Em muitos países, há leis que determinam que as obras devem ser interrompidas para que possam ser conduzidas escavações no local, para retirada dos artefatos e avaliação dos contextos em que foram encontrados, em curtíssimo espaço de tempo. Embora haja a pressão do tempo (a escavação normal de um sítio pode se prolongar por anos, até décadas), é uma forma de conciliar a expansão urbana em sítios densamente povoados (como Jerusalém) com a conservação do conhecimento científico. Entre exemplos desse tipo de escavação na arqueologia bíblica, estão a Tumba de Talpiot, boa parte das escavações arqueológicas em Nazaré, ou essa escavação em Bete Semes.

No caso da capela/igreja de Megido, a descoberta se deu numa instalação prisional integrante de uma unidade policial. Conforme o relatório da escavação:

During October–December 2005 a salvage excavation was conducted in the prison compound on the hill of the Megiddo police (Permit No. A-4411; map ref. NIG 21795–801/71965–95; OIG 16795–801/21965–95). The excavation, on behalf of the Antiquities Authority, was financed by the Israel Prison Service, with the support of the officers and jailors of the Megiddo prison and the participation of inmates from Megiddo and Zalmon prisons. The excavation was directed by Y. Tepper, (tradução) Entre outubro de dezembro de 2005, uma escavação de resgate foi realizada no complexo prisional na colina da polícia de Megido (Alvará nº A-4411; mapa ref. NIG 21795–801/71965–95; OIG 16795–801/21965–95) . A escavação, em nome da Autoridade de Antiguidades, foi financiada pelo Serviço Prisional de Israel, com o apoio dos oficiais e carcereiros da prisão de Megiddo e a participação de detentos das prisões de Megiddo e Zalmon. A escavação foi dirigida por Y. Tepper [12]

 A datação e motivos para caracterização do sítio como cristão, são apresentados abaixo, pela Professora Joan E Taylor, do King's College:

In 2005 a room was found in a salvage excavation in the precints of a military compound of a Roman Legio (Maximianopolis) and identified as Christian on the basis of  54-square meter mosaic with one dedicated to "God Jesus Christ". The Megiddo Church, as the room become known, was dated to about 230 on the basis of pottery, coins and inscription style (Adams 2008, 62-69; 2013, 96-99; Tepper e Di Segni 2006). However, Tzaferis (2007) prefers a date in the latter part of the third century. The site's abandonment in about 305, evident in the purposeful covering of the mosaic, relates well with the crisis of 303, when the christians communities of Palestine experienced persecution instituted by the emperor Diocletian.(tradução) Em 2005 uma sala foi encontrada em uma escavação de salvamento nos arredores de um complexo militar de uma Legião Romana (Maximianópolis) e identificada como cristã com base em um mosaico de 54 metros quadrados com um dedicado a "Deus Jesus Cristo". A Igreja de Megido, como a sala ficou conhecida, foi datada de cerca de 230 com base em cerâmica, moedas e estilo de inscrição (Adams 2008, 62-69; 2013, 96-99; Tepper e Di Segni 2006). No entanto, Tzaferis (2007) prefere uma data na segunda parte do século III. O abandono do local por volta de 305, evidente na proposital cobertura do mosaico, relaciona-se bem com a crise de 303, quando as comunidades cristãs da Palestina sofreram perseguições instituídas pelo imperador Diocleciano. [13]

Assim, é significativo que uma capela cristã foi encontrada no quartel de uma legião romana (a VI Ferrata Legio, primeiramente atestada nas campanhas de Júlio Cesar, e que tinha base principal na Judeia/Síria desde a revolta de Bar Kochba, entre 132-135 DC). Tudo indica que funcionou durante 75 anos, se aceita a proposta de Tepper e Di Segni, ou cerca de 30 anos, se for seguido Tzaferis, até seu abandono, na grande perseguição de Diocleciano (303-305 DC). Ou seja, embora o cristianismo fosse considerada uma superstitio, ilegal aos olhos de Roma, e perseguições esporádicas ocorressem porque os cristãos, supostamente não cumpriam seus deveres cívicos, ao mesmo tempo, um número significativo de cristãos ocupavam lugares no governo romano e entre as elites (e essa tensão é o escopo de nossa série). Ou seja, sucessivos comandantes devem ter, pelo menos, feito "vista grossa" à fé proibida entre seus soldados. O mesmo Império Romano que condenou Blandina a uma execução brutal, e condenou Perpétua e Felicidade a serem lançadas as feras, permitia a Márcia influenciar algumas políticas do Imperador Cômodo em benefício dos cristãos, a Marco Aurélio Prosenes e a Marcos Demetrianos progredir de escravo a mordomo imperial e sequer disfarçar sua identidade cristã, apesar de ser um magistrado provincial da Bitínia, respectivamente, sem falar em Júlio Africano, com sua proximidade ao Imperador Alexandre Severo. Ou seja, apesar de uma existência precária em termos legais, o cristianismo prosperou em vários segmentos da sociedade, e se tornava cada vez mais visível. Mesmo preso por propagar o cristianismo, o apóstolo Paulo diz que a sua prisão contribui para o progresso do evangelho e para que o nome de Cristo fosse manifesto a toda guarda do Palácio (fl.1:22), alguns dos quais compartilhavam suas saudações aos demais cristão (fl. 4:22). 

Outro ponto a ressaltar é o fato de que relativamente poucas estruturas dedicadas ao cristianismo foram descobertas, e as que foram parecem evidenciar residências que foram gradualmente transformadas em igrejas. Para isso, é importante utilizar um conceito muito relevante de como a missão cristão cresceu e se estruturou, apresentado pela Professora Marie-Françoise Baslez (1946-2022), da Universidade de Paris XII:

"A missão paulina, a única que podemos realmente estudar, foi organizada como uma penetração por capilaridade, que utiliza todas as redes da cidade antiga, funcionando esta última como uma imbricação de comunidades, da menor - que é a família - à maior - que é a cidade. A célula-tronco da missão é a "casa", a oîkos, ao mesmo tempo comunidade familiar e comunidade de atividade, exploração agrícola, fábrica ou loja. Ao contrário da família nuclear moderna, a oîkos antiga reúne pessoas de estatuto diferente, incluindo mulheres e crianças, escravos e libertos em grande número nas famílias de elite, sua composição transcende as divisões da cidade antiga entre gregos e bárbaros, homens e mulheres, livres e não-livres. Os cristãos de uma cidade se reúnem seja por oîkos, seja na residência de um homem ilustre, que convida seus vizinhos e amigos. Essa prática continuou durante dois séculos. Em Roma como em Dura Europos, na Síria, os primeiros edifícios cristãos identificáveis no tecido urbano, em meados do século III, resultam de reforma de grandes residências urbanas: são casas-igrejas. [14]

Baslez cita o caso do casal Priscila e Aquila. Aquila e sua esposa, assim como Paulo, eram judeus e fabricantes de tendas. Assim, ao se conhecerem em Corinto, se associaram tanto profissionalmente, quanto na propagação do evangelho (Atos 18:1). Anos depois, Paulo retorna a Antioquia, e Aquila e Priscila o acompanham por parte do caminho, se estabelecendo em Éfeso, onde encontram Apolo, e "(...) convidaram-no para ir à sua casa e lhe explicaram com mais exatidão o caminho de Deus (...)" (Atos 18:26). Mais adiante, Paulo escrevendo aos Romanos, saúda Aquila e Priscila, bem como "(...)  a igreja que se reúne na casa deles (...)" (Rom 16:5). Assim, complementa Baslez, "(...)a fábrica de Áquila proporcionou o exemplo de uma igreja itinerante, que se deslocou de Corinto a Efeso e a Roma (...)".[14] 

Assim, as congregações se reuniam em casas de seus membros, passando, gradualmente, a dedicar residências a função de igreja. A Igreja de Megido apresenta algumas diferenças em relação a esse processo, uma vez que envolvia uma guarnição militar e suas famílias.

A descrição da sala de oração/capela, tem como principal elemento escavado, um piso com um mosaico e varias inscrições:

The room served as a ritual and prayer hall and one of the inscriptions was dedicated to God Jesus Christ. An ancient Greek inscription and an octagon with fish in its center, enclosed with geometric designs, were incorporated in the northern panel. The inscription mentions an officer in the Roman army who donated his own money for the construction of the floor; the name of the artist who built the floor is also noted. Two Greek inscriptions were integrated in the southern panel; one faced west and the other––east. The names of four women are mentioned in the eastern inscription and the name of another woman who donated the table as a memorial to God Jesus Christ appears in the western inscription. The direction and contents of the three inscriptions accentuated the interior circular layout of the hall, with the stone table base built in its center (below), around which the local Christian community apparently worshipped and prayed.(TraduçãoA sala servia como sala de rituais e orações e uma das inscrições era dedicada a Deus Jesus Cristo. Uma inscrição grega antiga e um octógono com peixes no centro, cercados por desenhos geométricos, foram incorporados ao painel norte. A inscrição menciona um oficial do exército romano que doou seu próprio dinheiro para a construção do piso; o nome do artista que construiu o piso também é anotado. Duas inscrições gregas foram integradas no painel sul; um voltado para o oeste e o outro – leste. Os nomes de quatro mulheres são mencionados na inscrição oriental e o nome de outra mulher que doou a mesa como um memorial a Deus Jesus Cristo aparece na inscrição ocidental. A direção e o conteúdo das três inscrições acentuavam o traçado circular interno do salão, com a base da mesa de pedra construída no centro (abaixo), em torno da qual a comunidade cristã local aparentemente cultuava e rezava. [15]

A sala possuía cerca de 54 metros quadrados, e seu piso tinha um mosaico formado pelo octógono com dois peixes no centro e uma inscrição, de um lado, sendo provavelmente utilizado para a celebração da eucaristia/ceia do Senhor e oração, e algumas inscrições no outro lado. A inscrição localizada no lado nordeste do mosaico, ao lado dos dois peixes, indica o patrono daquela congregação:

Gaiano, também chamado Porfírio, centurião, nosso irmão, mandou construir esse pavimento as suas expensas em um ato de liberalidade. Bruto levou a cabo esse trabalho.

O centurião, era um oficial romano de comandava uma tropa de 80 a 100 soldados. Cinco ou seis centurias formavam uma coorte, e 10 coortes formavam uma legião. Uma centuria, assim, fazendo uma analogia com exércitos modernos, seria pouco maior que um pelotão e menor que uma companhia, ambas unidades hoje comandadas por oficiais (tenentes, no caso dos pelotões, e capitães ou majores, para companhias). O fato de uma figura importante da legião ter patrocinado o mosaico indica que possivelmente era a pessoa que garantia a atuação daquela congregação junto aos comandantes da legião. Apesar de alguns pais da igreja, como Tertuliano, terem demonstrado reserva a possibilidade de cristãos servirem ao exército, pela possibilidade de serem forçados a oferecer sacrifícios ao imperador e aos deuses pagãos, e menciona o caso de um soldado que foi forçado a ter que escolher entre o senhor terreno e o celestial  (Sobre a Idolatria XIX, De Corona Militis I, respectivamente), fato é que uma parte significativa das inscrições cristãs pré constantinianas, se referem a militares que serviram em legiões romanas. Essa database de inscrições do exército romano, mantida pela equipe do Professor Christopher Zeichmann, (Universidade de Toronto), indica pelo menos 21 ocorrências. Há casos, como o do soldado Aurélio Gaio, que descreve uma vida inteira servindo ao exército romano, estacionado em várias partes do Império.

No lado sudeste, há uma outra inscrição, agora comissionada por uma mulher, que é a mais declaradamente cristã de todas: 

Aketpous que ama a Deus, oferece esse mosaíco ao Deus Jesus Cristo, como memorial

Há uma terceira inscrição, na qual são mencionadas quatro mulheres integrantes da congregação:

 Lembre-se de Primilla e Cyriaca e Dorothea, e além disso também Chreste

Joan Taylor comenta a relevância dessas inscrições, indicando também o papel relevante dessas mulheres, que possuem suficientes recursos para comissionar uma inscrição e devem ter exercido papeis relevantes na comunidade, por exemplo, como diaconisas, ou, no caso de Primilla e outras mulheres mencionadas na terceira inscrição, como víuvas, algumas das quais serviam como oficiais nas igrejas (ex. I Tim 5, que lista requisitos semelhantes aos necessários a presbíteros e diáconos):

These named women would be appropriately understood as widows who had made donations independently. The order of windows remained important throughout the early centuries of the church (Eisen 2000, 142-57, Thurston 1989). The presence of women need not be surprising in a military camp since the after 197, military men under the rank of centurion were permitted to marry (Phang 2001, 226; and see 107-9). The mosaic suggest a gendered division of space between the southwest (inscription mentioning women) and the northeast (inscription mentioning men). (tradução) As mulheres mencionadas seriam apropriadamente entendidas como viúvas que fizeram doações de forma independente. A ordem das viuvas permaneceu importante ao longo dos primeiros séculos da igreja (Eisen 2000, 142-57, Thurston 1989). A presença de mulheres não precisa ser surpreendente em um acampamento militar, uma vez que, depois de 197, os militares sob a patente de centurião foram autorizados a se casar (Phang 2001, 226; e ver 107-9). O mosaico sugere uma divisão generificada do espaço entre o sudoeste (inscrição que menciona as mulheres) e o nordeste (inscrição que menciona os homens).[16]

Tanto a inscrição de Abércio como o mosaico da capela/igreja de Megido são, provavelmente, quase contemporâneos. As inscrições indicam pessoas com padrão bem além da subsistência, com um bispo que pode empreender viagens por boa parte do Império (mesmo que conciliando sua vocação religiosa com outra ocupação) e um oficial do exército romano. Há semelhanças na simbologia (como o peixe), e indicam um cristianismo que se espalhara geograficamente por todo o império, e ia mostrando gradual capilaridade, se manifestando cada vez mais abertamente, mesmo em segmentos em tese encarregados de sua repressão (como o exército romano).

Referências Bibliograficas

[1]  William Tabernee, 2007 Fake Prophecy and Polluted Sacraments: Ecclesiastical and Imperial Reactions to Montanism,  fls 10/11

[2]  Peter Thonemamm (2012) Abercius of Hierapolis: Christianization and Social Memory in Late Antique Asia Minor In Beate Dignas & RRR Smith, Historical and Religious Memory in the Ancient World, fl. 258

[3] Margareth Mitchell (2008) From Jerusalem to the Ends of Earth in Margareth Mitchell, Frances M Young e  K. Scott Bowie (2014)  Cambridge History of Christianity: Volume 1, Origins to Constantine, fl. 296, nota de rodapé 3

[4] Peter Thonemamm (2012) Abercius of Hierapolis: Christianization and Social Memory in Late Antique Asia Minor In Beate Dignas & RRR Smith, Historical and Religious Memory in the Ancient World, fl. 260

[5]  Eusébio de Cesaréia, História Eclesiastica, Livro 5.16.2

[6] William Tabernee, 2007 Fake Prophecy and Polluted Sacraments: Ecclesiastical and Imperial Reactions to Montanism,  fls 11

[7] Tertuliano de Cartago, Resposta aos Judeus, capítulo 7

[8] Peter Thonemamm (2012) Abercius of Hierapolis: Christianization and Social Memory in Late Antique Asia Minor In Beate Dignas & RRR Smith, Historical and Religious Memory in the Ancient World, fl. 260

[9] Margareth Mitchell (2008) From Jerusalem to the Ends of Earth in Margareth Mitchell, Frances M Young e  K. Scott Bowie (2014)  Cambridge History of Christianity: Volume 1, Origins to Constantine, fl. 295-296

[10] Tertuliano de Cartago, Do Batismo, capítulo 1.

[11] Clemente de Alexandria, Pedagogo, Livro III, capítulo IX

[12]  Yotam Tepper (2006), Legio, Kefar ‘Otnay, in Hadashot Arkheologiyot:Excavations and Surveys in Israel, vol. 118.

[13] Joan E Taylor (2018) Christian Archeology in Palestine: The Roman and Byzantine Periods In David K. Pettegrew, Thomas W. Davis, William R. Caraher, The Oxford Handbook of Early Christian Archaeology, fls 371-372

[14] Marie Françoise-Baslez (2007) "No princípio. Os primórdios da história do cristianismo" in Alain Corbin, Historia do Cristianismo, fls. 29-30

[15]  Yotam Tepper (2006), Legio, Kefar ‘Otnay, in Hadashot Arkheologiyot:Excavations and Surveys in Israel, vol. 118

[16]  Joan E Taylor (2018) Christian Archeology in Palestine: The Roman and Byzantine Periods In David K. Pettegrew, Thomas W. Davis, William R. Caraher, The Oxford Handbook of Early Christian Archaeology, fls 371-372



domingo, 13 de junho de 2021

Débora e Baraque, Século XIII, Saltério
de São Luiz
, via wikicommons
 Continuando, após dois anos e meio, nossa série sobre a arqueologia bíblica. Agora, utilizaremos não só exemplos do livro de I e II Reis, mas também Juízes e I e II Samuel.

Como abordamos anteriormente, a utilização do Antigo Testamento como fonte histórica gera uma divisão entre arqueólogos, historiadores e biblistas no campos minimalista e maximalista. Entre aqueles que entendem que a narrativa dos livros históricos da Bíblia deve ser considerada como factual até que expressamente contradita pela evidência literária ou arqueológica contemporânea, e aqueles que defendem que o texto bíblico somente deve ser utilizado quando "provado" por evidências externas.

Na prática, porém, tais visões demarcam os extremos, estando a grande maioria dos pesquisadores entre esses polos. O período a ser considerado também é extremamente relevante, uma vez que há atestação muito maior para os reinados de Omri ou Ezequias do que, por exemplo, o tempo de Isaque e Jacó.


Professor Michael Coogan, de Harvard, ilustra como a evidência diferenciada entre os vários períodos descritos na história bíblica orienta a percepção dos estudiosos:

"The evidence, then, is fragmentary, but when all of it is considered - texts from the ancient Near East, the Bible, and archeological data - it does, generally, fit together. An analogy is a large jigsaw puzzle that is missing many of its pieces - but enough of them fit so that the reconstruion is probable, if not certain. This applies to chronology, and thus to persons or events, throughout the first millennium, that is, from the time of the dividion of the United Monarchy of Israel in the late tenth century to the time of the Maccabees in the second century BCE. With some diffidence we may push this back slightly, to David and Solomon, the second and third kings of Israel in the tenth century, but probably not before (tradução) As evidências, então, são fragmentárias, mas quando todas são consideradas - textos do antigo Oriente Próximo, a Bíblia e dados arqueológicos - geralmente se encaixam. Uma analogia é um grande quebra-cabeça do qual faltam muitas de suas peças - mas cabem em número suficiente para que a reconstrução seja provável, senão certa. Isso se aplica à cronologia e, portanto, a pessoas ou eventos, ao longo do primeiro milênio, isto é, desde a época da divisão da Monarquia Unida de Israel no final do século X até a época dos Macabeus no segundo século AEC. Com alguma hesitação, podemos recuar um pouco, para Davi e Salomão, o segundo e o terceiro reis de Israel no século dez, mas provavelmente não antes[1] 

Assim, a postura minimalista ou maximalista, para a grande maioria dos estudiosos, é uma abordagem metodológica que leva em conta as particularidades de cada período. De Gênesis até, digamos, I Samuel (ou Juízes) e do tempo de II Samuel em diante. O posicionamento dessa "fronteira" é objeto também de intensa discussão. Eric H. Cline, Professor da Universidade George Washington, é outro a demarcar a "fronteira" em termos de atestação externa de figuras e eventos bíblicos, considerando as descobertas arqueológicas relativas aos cananeus, sírios, hititas, egípcios e povos da Mesopotâmia, mas que indica também um território não tão bem demarcado, entre, digamos, o século XIII AC (data tradicional do Êxodo) e o início do século X AC (divisão dos reinos de Israel e Judá).

"such discoveries have shed relatively little light on the actual stories found in the Hebrew Bible - particularly those in Genesis ans Exodus. As a result, many of the earlier stories of the Hebrew Bible, especially those from Creation to the Exodus, have not been corroborated by archeologists and remain a matter of faith. On the other hand, events from a slightly later period, i.e., during the era of the Divided Kingdoms in the first millenium BCE after the empire of David and Solomon broke assunder, benefit from extrabiblical inscriptions, records, and other data that can be used to corroborate biblical details. (tradução) tais descobertas lançaram relativamente pouca luz sobre as histórias encontradas na Bíblia Hebraica - particularmente aquelas em Gênesis e Êxodo. Como resultado, muitas das histórias anteriores da Bíblia Hebraica, especialmente aquelas da Criação ao Êxodo, não foram corroboradas por arqueólogos e permanecem uma questão de fé. Por outro lado, os eventos de um período ligeiramente posterior, ou seja, durante a era dos Reinos Divididos no primeiro milênio antes da era cristã, depois que o império de Davi e Salomão rachou subitamente, se beneficiam de inscrições extra-bíblicas, registros e outros dados que podem ser usados para corroborar detalhes bíblicos.[2]

Vamos esse período de "fronteira", abordando algumas evidências arqueológicas desse período entre os século XIII e X AC, período antecedente ao Livro de Reis, descrito nos livros de Josué, Juízes e I e II Samuel.

 1) A Estela de Merneptah, 1208 AC

Estela de Merneptah, Museu do Cairo, via wikicommons 
Os israelitas viviam entre os cananeus, os hititas, os amorreus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus. Tomaram as filhas deles em casamento e deram suas filhas aos filhos deles, e prestaram culto aos deuses deles. (Juízes 3:5-6);

O Faraó Merneptah (1213-1203 AC) empreendeu uma campanha militar na Palestina no 5° ano do seu reinado (c. 1208 AC). Os egípcios tinham importantes interesses no território, recolhendo tributos dos reis cananeus e utilizando como "tampão" frente a expansão do Reino de Mittani, e posteriormente, do Império Hitita.

Para celebrar suas vitórias, Merneptah comissionou uma inscrição, descoberta em 1896, em Tebas, por Sir Flinders Petrie. Hoje a estela de Merneptah, se encontra no Museu Egípcio, no Cairo. 

Os principes se prostraram, dizendo, "Paz!"
Ninguém levanta a cabeça entre os nove arcos.
Agora, os Tehenu (Libia) foram arruinados,
Hatti foi pacificada;
Canaã foi despojada de toda a maldade:
Ascalon foi conquistada;
Gezer foi capturada;
Yenoam já não existe.
Israel foi destruído e sua descendência já não existe;
A Siria tornou-se uma viúva para o Egito.

A menção a Israel por Merneptah é a primeira em fontes egípcias e extrabíblicas. Professor Mario Liverani, da Universidade de Roma La Sapienza, comenta sua significância:

"(...) Uma estela de Merneptah celebra o triunfo do faráo numa campanha dele através da Palestina, citando entre os inimigos vencidos cidades como Ascalon e Gezer, países como Canãa e Kharu, acompanhando esses nomes com o determinativos de "região"; mas entre eles há um nome com o determinativo de "gente" (portanto, um gupo tribal, não sedentário) e é Israel. É a primeira menção em absoluto do nome, que, provavelmente deva ser posto na zona dos altiplanos centrais. Na verdade, a sequência das três localidades Ascalon-Gezer´-Yeno'am está como enquadrada entre os dois termos (mais amplos) Canaã e Israel; e se Canaã se situa por certo no início da sequência, na planície costeira do sul, Israel se situa por certo também nos altiplanos centrais. [3]

O fato de Israel ser citada é significante por ser uma menção que atesta a existência de um grupo tribal que vagava na Palestina, principalmente nas regiões montanhosas centrais, sem uma associação definida as cidade estado cananeias, e sem constituir ainda um estado organizado, o que é consistente com o contexto geral descrito no livro de Juízes. No entanto, a estela faz menção a um conflito que não é mencionado na Bíblia. Da mesma forma, o domínio dos egípcios sobre Canaã não é uma memória existente nos livros de Josué e Juízes, ainda que a presença dos israelitas, como um dos causadores de problemas para os egípcios não tenha passado desapercebida. 

Liverani descreve a natureza da dominação egípcia:

Por cerca de três séculos (1460 - 1170 AC) a Palestina foi submetida ao domínio direto dos Egípcios (...) o controle egípcio era em grande parte indireto e os "pequenos reis" locais conservaram sua autonomia (mas não a independência) como "servos" e tributários do Faraó. O quadro fornecido pelas cartas de El-Amarna (1370-1350 AC) mostra que somente três centros siro-palestinos eram sede de governadores egípcios: Gaza na costa meridional, Kumidi na Beq'a Libanesa e Sumura na costa setentrional, junto a atual fronteira siro-libanesa. Havia guarnições egípcias também em algumas outras localidades: Jafá (perto da hodierna Tel Aviv) Bet-She'an (na passagem entre a planície de Yizre'el e o vale do Jordão), Ulaza (na abertura para o mar da via proveniente do vale do Orontes). Calculando as pequenas guarniçoes permanentes e a tropa que (como veremos) efetuava o giro anual de cobrança, pode-se calcular que o Egito do período armaniano empregasse na gestão e no controle de seu "império" siro-palestino não mais que setecentas pessoas  [4]

 

Dessa forma, para um habitante comum de Canaã do século XIII AC, a presença militar egípcia passaria praticamente desapercebida, fora da base de Bete Seã. Não era, portanto, um cenário de ocupação, mas de suserania, onde os reis das cidade-estado cananeias prestavam fidelidade ao Faraó, pagavam tributo, e davam satisfações (como indicam as cartas de Amarna), mantendo porém um grau elevado de autonomia para tratar dos assuntos do dia a dia. Era um esquema que permitirá aos egípcios manterem seus interesses por quase 300 anos, recebendo tributo, e com manutenção de força militar e administrativa mínima.

Deve ser observado ainda, que o discurso triunfalista de Merneptah esconde o enfraquecimento do domínio egípcio, que estava utilizando seus recursos para enfrentar os vários inimigos descritos na Estela, simultaneamente, sejam cananeus, povos do mar (Filisteus), israelitas ou líbios. Assim, a despeito de seu discurso triunfante, a estela captura um momento em que a hegemonia egípcia era questionada, súbita e intensamente, em varias frentes.  

Professor Kenneth Kitchen, egiptologista da Universidade de Liverpool, contextualiza os vários inimigos mencionados na Estela de Merneptah, e seu papel na queda da hegemonia egípcia sobre Canaã:

Then new factors came in circa 1230 onward, clearly attested in first-hand Egyptian texts. Rebuffed by Egypt (ca 1177), the Sea People ended up in Canaan - the Pilisti or Philistines in the southwest, and Sikils and Shekelesh farther north (Dor, Jezreel). In Transjordan, new names appeared: Edom and Moab, plus the Ammonites (as yet unmentioned in contemporary texts). Arameans now become more prominent from the north. And, as Merneptah made clear in 1209, a group called Israel was present in Canaan, most likely in the hill country. All these peoples were to have a long and varied history for the next six or seven centuries (...) we have an outline, basic correspondence of the two sources, Egyptian and Biblical. (tradução) Então, novos fatores surgiram por volta de 1230 em diante, claramente atestados em textos egípcios contemporâneos. Repelidos pelo Egito (cerca de 1177), o Povo do Mar acabou em Canaã - os Filisti ou Filisteus no sudoeste, e Sikils e Shekelesh mais ao norte (Dor, Jezreel). Na Transjordânia, novos nomes apareceram: Edom e Moabe, mais os amonitas (ainda não mencionados em textos contemporâneos). Os arameus agora se tornam mais proeminentes no norte. E, como Merneptah deixou claro em 1209, um grupo chamado Israel estava presente em Canaã, provavelmente na região montanhosa. Todos esses povos estão para posicionados para uma longa e variada história pelos seis ou sete séculos seguintes (...) temos assim um esboço, correspondência básica das duas fontes, egípcia e bíblica.[4]

 Os egípcios devem também ter ficado alarmados, assim, com o aparecimento súbito desses vários atores no cenário canaanita. No que tange aos israelitas, surgem, em número considerável, vilas e povoados, nas montanhas da Palestina na segunda metade do século XIII AC, com vertiginoso crescimento ao longo da Idade de Ferro I (1200 a 1000 AC)

Professor Israel Finkelstein, da Universidade de Tel Aviv, elaborou um levantamento arqueológico nas terras altas centrais da Palestina (correspondente ao antigo Efraim, e depois Samária) entre 1250 e 1000 AC com os seguintes resultados:

"A queda das cidades-Estado do Bronze Tardio e o colapso do governo egípcio em Canaã resultou em dois processos distintos. Nas terras altas, uma onda de assentamentos que pode ter se iniciado tão cedo quanto no final do século XIII AC, e acelerado nos séculos XII e XI AC (Finkelstein, 1988). O número de sítios cresceu dramaticamente, de cerca de 30 sítios com uma área total construída de aproximadamente 50 hectares no Bronze Tardio II (século XIII AC) para algo como 250 sítios com uma área construída de aproximadamente 220 hectares dois séculos e meio depois, no Ferro Tardio I (o início do século XII AC). Isso significa que a população sedentarizada aumentou ao menos quatro vezes seu tamanho. (...) A maioria desses assentamentos continuou ininterrupta até o Ferro IIA-B - o tempo do Reino do Norte - e disso eles podem ser rotulados "israelitas" tão certo quanto o Ferro I. Em outras palavras, essa onda de assentamentos fez nascer o Israel Primitivo (Finkelstein, 1988, Faust, 2006) [5]

Kenneth Kitchen, complementa os dados da pesquisa de Finkelstein, já referenciada acima, com o levantamento de  Adam Zertal (1936-2015), na região imediatamente ao norte, correspondente as áreas montanhosas da tribo de Manassés:

Surface surveys have been undertaken in some depth in central Canaan, notably by the Filkenstein team in the terrain of ancient Ephraim/Samaria, and by Zertal and colleagues in the adjoining territory of ancient West Manasseh. (...)  Next door in West Manasseh, Zertal note some 39 sites for Late Bronze but over 200 for Iron I, again a huge increase. This great rash of farmsteads, hamlets, and small villages represents a wholly new development, as universally admited (tradução)  Os levantamentos da superfície foram realizados em alguma profundidade no centro de Canaã, notavelmente pela equipe Filkenstein no terreno da antiga Efraim / Samaria, e por Zertal e colegas no território adjacente da antiga Manassés Ocidental. (...). No vizinho Manassés Ocidental, Zertal observa cerca de 39 sítios no Bronze Tardio, e mais de 200 na Idade de Ferro I, novamente um grande aumento. Esta grande onda de fazendas, aldeias e pequenas aldeias representa um desenvolvimento totalmente novo, como é universalmente admitido [6]

Por fim Amihai Mazar, Professor da Universidade Hebraica, apresenta uma visão mais ampla, considerando toda Palestina, no que tange a localização desses novos assentamentos:

"Intensivos levantamentos arqueológicos de superfície revelaram um padrão de assentamento inteiramente  novo na Idade do Ferro I. Centenas de pequenos sítios novos estavam habitados nas áreas montanhosas da Alta e Baixa Galileia, nas colinas de Samaria e Efraim, em Benjamim, no Negueb setentrional e em partes da Transjordânia central e setentrional. Boa parte pode ser relacionada a tribos israelitas, muito embora a atribuição étnica em algumas dessas regiões seja questionável.[7] 

 A explosão de assentamentos com um novo padrão de ocupação, "israelita", ou "protoisraelita", a partir do final do século XIII AC, marca assim um crescimento populacional impressionante, indicando, como observa Kitchen, um número muito maior de habitantes que o existente no Bronze Tardio II (1400-1200 AC). Citando Filkenstein, a população de Canaã, como um todo, mais que duplicou entre 1150 AC e 1000 AC (início do reinado de Saul), passando de 21.000 para 51.000 pessoas, e quadruplicou ou quintuplicou no intervalo maior de 1250 e 1000 AC [8]. No entanto, considerando apenas as terras altas do centro do país, o aumento de população pode ter sido de 5 vezes nos primeiros 100 anos desse período [8]. 

Resta porém a questão, de onde veio tanta gente?

Mario Liverani descreve as várias teorias existentes:

"Influenciados - positiva ou negativamente - pela narrativa bíblica, os estudiosos modernos (arqueólogos não menos que biblistas) propuseram teorias unívocas, com forte polêmica reciproca, sobre a explicação da etnogenia de Israel (...) bastará lembrar aqui as principais teorias que se sucederam e se confrontaram. (1) A teoria da conquista "militar" compacta e destrutiva, de direta inspiração bíblica, é ainda afirmada em alguns ambientes tradicionalistas (especialmente norte-americanos e israelitas), mas é agora deixada a margem do debate. (2) Prevalece hoje a ideia de uma ocupação progressiva, nas duas variantes (mais complementares do que exclusivas entre sí) de sedentarização de grupos pastoris já presentes na área e da infiltração do adjacente pré-deserto (3) Enfim, a teoria (chamada "sociológica") da revolta camponesa, que privilegia totalmente o processo por linhas internas sem contribuições externas, depois dos consensos dos anos 1970-1980, é atualmente malvista, por motivos às vezes declaradamente políticos. Ainda hoje as várias propostas são normalmente contrapostas, quando deveriam ser todas utilizadas para compor um quadro multifatorial próprio de um fenômeno histórico complexo. [9].

 Como evidenciado acima, os últimos 50 anos marcaram uma perda de força da teoria da conquista, outrora dominante entre os estudiosos, bem como a dificuldade de estabelecimento de um novo consenso. De qualquer forma, deve ser questionado até que ponto a própria narrativa bíblica propõe uma conquista avassaladora, irresistível e inexorável dos israelitas, ou um misto de confronto e convivência entre os israelitas e os vários grupos que habitavam Canaã, ao longo de várias gerações, até o surgimento da monarquia. 

O livro de Juízes faz menção a várias batalhas, mas também afirma sem rodeios não só que "os israelitas viviam entre os caananitas", e "tomaram as filhas deles em casamento e deram suas filhas aos filhos deles", bem como "prestaram culto aos deuses deles". Esses elementos indicam a possibilidade de um grupo estrangeiro tenha se fixado na região montanhosa central de Canaã e se associado a população local, e após várias gerações, assumiu uma consciência étnica e nacional. Como observa Avraham Faust, da Universidade Bar Ilan, a posição dominante entre os estudiosos é que pelo menos uma parte dos habitantes desses novos assentamentos eram provenientes das regiões transjordânicas e do deserto e, provavelmente, de uma forma ou outra, do Egito, indicando pelo menos uma núcleo de memória nas narrativas do Exodo [10]. 

Assim, a concepção de que houve uma confluência entre um fluxo populacional de origem estrangeira e outro autóctone, com conquista e coexistência é uma possibilidade a ser explorada. A vertente de convivência e posterior associação do elemento "proto-israelita" e cananeu, pode ser exemplificada pela cidade estado de Siquém, cuja evolução é descrita por Liverani:

"Diferente é o caso de Siquém, que a tradição apresenta sob o signo da progressiva assimilação - como confirmado arqueologicamente pelo continuísmo que marca a passagem da florescente cidade do século XIV (estrato XIII), à mais modesta do século XIII (estrato XII) - ao assentamento "proto-israelita" do Ferro I (extrato XI). [11]

A  vertente de confronto é exemplificada por Hazor, na próxima parte do post

2) Destruição de Hazor

 

Carta de Amarna, do Rei Abdi-Tirzi, de Hazor
para o Faráó Amenotep (ou seu filho, Akenaten)
Sec. XIV AC, Museu Britânico, via wikicommons
Quando Jabim, rei de Hazor, soube disso, enviou mensagem a Jobabe, rei de Madom, aos reis de Sinrom e Acsafe, e aos reis do norte que viviam nas montanhas, na Arabá ao sul de Quinerete, na Sefelá e em Nafote-Dor, a oeste; aos cananeus a leste e a oeste; aos amorreus, aos hititas, aos ferezeus e aos jebuseus das montanhas; e aos heveus do sopé do Hermom, na região de Mispá. Saíram com todas as suas tropas, um exército imenso, tão numeroso como a areia da praia, além de um grande número de cavalos e carros. Todos esses reis se uniram e acamparam junto às águas de Merom, para lutar contra Israel. E o Senhor disse a Josué: "Não tenha medo deles, porque amanhã a esta hora entregarei todos mortos a Israel. A você cabe cortar os tendões dos cavalos deles e queimar os seus carros". Josué e todo o seu exército os surpreenderam junto às águas de Merom e os atacaram, e o Senhor os entregou nas mãos de Israel, que os derrotou e os perseguiu até Sidom, a grande, até Misrefote-Maim e até o vale de Mispá, a leste. (...) Na mesma ocasião Josué voltou, conquistou Hazor e matou o seu rei à espada. ( Hazor tinha sido a capital de todos esses reinos. ).Matou à espada todos os que nela estavam. Exterminou-os totalmente, sem poupar nada que respirasse, e incendiou Hazor. (Josué 11:1-11)

 


 Como descrevemos acima, a teoria da conquista não é mais o modelo dominante para explicar a emergência do antigo Israel em Canaã. Várias teorias alternativas foram propostas, mas nenhuma obteve o mesmo grau de dominância que esta teve, ou chegou próximo de estabelecer um consenso. Os motivos são apontados pelo Professor Eric Cline:

Many of the sites mentioned in the biblical account and specifically noted as being destroyed by the invading Israelites have now been excavated by biblical archeologists, with an interesting conundrum resulting. On the one hand, most of the sites described as being destroyed do not show any archeological evidence of destruction - and some, such as Jericho, were not even occupied at the time. On the other hand, there are sites in the region that were definitely destroyed at that time, but none of these sites is mentioned in the biblical account. One of the few places named in the Bible as being destroyed by the Israelites and at which a destruction has been found by archaelogists is the site of Hazor (traduçãoMuitos dos locais mencionados no relato bíblico e especificamente indicados como destruídos pelos invasores israelitas foram agora escavados por arqueólogos bíblicos, resultando em um enigma interessante. Por outro lado, a maioria dos locais descritos como destruídos não apresentam nenhuma evidência arqueológica de destruição - e alguns, como Jericó, nem estavam ocupados na época. Por outro lado, existem locais na região que foram definitivamente destruídos naquela época, mas nenhum desses locais é mencionado no relato bíblico. Um dos poucos lugares mencionados na Bíblia como tendo sido destruído pelos israelitas e no qual evidências de destruição foi encontrada por arqueólogos é Hazor. [12].

No livro de Josué, a conquista militar de Canaã se inicia com a travessia do Jordão, a completa destruição de Jericó e Ai, e o estabelecimento de uma aliança com a cidade-estado de Gibeão. Josué, então, inicia uma campanha contra a liga de cidades sulistas, lideradas pelo Rei de Jerusalém. Após a vitória no sul, Josué enfrenta uma coalização das cidades-estado do norte, lideradas por Jabim, Rei de Hazor. A coalização é derrotada, e Hazor completamente destruída. A "terra teve descanso da guerra" (Js 12:23) e houve a divisão entre as tribos. 

Juízes, começa com várias tribos conduzindo esforços isolados de ocupação. No capítulo 1, a tribo de Judá, por exemplo, consegue várias vitórias, mas a resultante de seus esforços foi que "(...)ocuparam a serra central, mas não conseguiram expulsar os habitantes dos vales, pois estes possuíam carros de guerra feitos de ferro.("(v. 19). As tribos centrais, Manassés e Efraim, também não teriam conseguido prevalecer contra importantes centros como Dor, Megido, e Gezer, "pois os cananeus estavam decididos a permanecer naquela terra."(v. 27), bem como a tribo de Benjamim não conseguiu tomar  Jerusalém dos Jebuseus. No norte, as tribos de Aser, Zebulom e Naftali, viviam "entre os cananeus que habitavam naquela terra.(v. 32)". A relação conflituosa, mas também cooperativa entre os israelitas e os demais habitantes de Canaã é indicada pelo fato de que  "os israelitas viviam entre os cananeus, os hititas, os amorreus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus. Tomaram as filhas deles em casamento e deram suas filhas aos filhos deles, e prestaram culto aos deuses deles"(Jz 3:5). O livro descreve a resistência organizada por vários juízes contra incursões de midianitas, amonitas, arameus, amalequitas, filisteus, bem como a grande vitória de Débora e Baraque contra uma nova coalização nortista liderada por Hazor.

 Hazor era uma das mais importantes e poderosas cidade-estado na palestina, pedra angular do sistema de suserania egípcio na região, e principal praça do norte de Canaã [13][14][15].

Israel Finkelstein comenta a destruição de Hazor, que parece ter precedido a queda de outras cidades cananeias em algumas décadas, e suas implicações:

Hazor, provavelmente a cidade-Estado mais importante do Norte, foi destruída num violento incêndio, provavelmente na segunda metade do século XIII a.C (Yadin, 1972; Kitchen, 2002; Ben-Tor, 2008). Outras cidades-Estado, incluindo aquelas situadas no vale de Jezrael, assim como um centro egípcio em Betsã, continuaram ininterruptamente por quase um século. O sistema de cidades-Estados canaanitas sob dominação egípcia nos vales do Norte chegou ao fim numa série de destruições no final do século XII a.C. [13].

Esses efeitos da destruição de Hazor, e os prováveis culpados, são discutidos por Amihai Mazar:

Hasor é descrita no livro de Josué como a maior das cidades cananéias "Hasor era outrora a capital de todos esses reinos" (Josué 11,10). Depois da batalha junto às águas do Meron, Hasor foi nivelada: "Todavia, todas as cidades que estavam erigidas sobre suas colinas de ruínas, Israel não as incendiou, salvo Hasor, que Josué incendiou" (Josué 11,13). Vimos que Hasor foi de fato a maior cidade cananéia durante toda a duração das idades do Bronze Médio e Recente. A última cidade cananéia lá (Estrato XIII), que era bastante pobre em comparação com as suas predecessoras, foi destruída em algum momento durante o século treze a.C, provavelmente cerca de meio século antes da aniquilação de Laquis. Os escavadores assumiram que o fim de Hasor cananéia deve ser atribuido aos israelitas. [14]

Uma descrição dessa Hazor do estrato XIII, que corresponderia ao período entre 1400 a 1200 AC foi apresentada por Kenneth Kitchen

In the second millenium Hazor consisted of an upper citadel (on a high mound) which dominated a large "lower city" on its north side - a vast site, certanly then "head of all [Canaan's] kingdoms". Both areas were destroyed  along with a massive conflagration in the thirteenth century, probably towards its end (citadel, stratum XIII; lower city, stratum Ia). Insofar as the results of Yadin's work are confirmed by the new excavations under Ben-Tor, then it will seem very probable (as it did to Yadin, long ago) that the massive destruction of greater Hazor was that wrought by Joshua. (tradução) No segundo milênio, Hazor consistia em uma cidadela superior (em um monte alto) que dominava uma grande "cidade baixa" em seu lado norte - um vasto local, certamente então "cabeça de todos os reinos [de Canaã]". Ambas as áreas foram destruídas juntamente com uma grande conflagração no século XIII, provavelmente no final (cidadela, estrato XIII; cidade baixa, estrato Ia). Na medida em que os resultados do trabalho de Yadin são confirmados pelas novas escavações sob Ben-Tor, então parece muito provável (como para Yadin, há muito tempo) que a destruição massiva da grande Hazor foi feita por Josué [15].

 A existência de uma memória histórica do confronto entre os (proto) israelitas e a entidade política de Hazor é reforçada pela menção em Josué e Juízes do Rei (Yabin), em confronto com Josué e seu filho de mesmo nome contra Débora e Baraque. (O Jabin de Josué é identificado como Rei de Hazor. O Jabin de Débora e Baraque, como Rei de Canaã). Nos arquivos da cidade de Mari, na Mesopotâmia, há referencias do século XVIII AC ao comércio entre Hazor e Mari. Há uma menção a um certo Rei Ibni, que é o exato correspondente ao hebraico Yabin (Jabin), nome do Rei de Hazor em Josué e depois em Juízes. Professor William Dever, da Universidade do Arizona, escreve:

It would appear that the authors of this passage in the Hebrew Bible, however late, had some knowledge of an Ibni (that is, a Yabin) dinasty in Hazor, stretching all the way back to the middle Bronze Age centuries earlier. To me, this suggest strongly that the writers of the book of Joshua did not entirely "invent" the story of the fall of Hazor. They had reliable historical sources, oral and/or written. They also knew correctly that Hazor had indeed been the "head of all these kingdoms" or city-states in the north, as the current excavations have made abundantly clear (tradução) Parece que os autores desta passagem na Bíblia Hebraica, embora tardia, tinham algum conhecimento de uma dinastia Ibni (isto é, um Yabin) em Hazor, remontando à Idade do Bronze, séculos antes. Para mim, isso sugere fortemente que os escritores do livro de Josué não "inventaram" inteiramente a história da queda de Hazor. Eles tinham fontes históricas confiáveis, orais e / ou escritas. Eles também sabiam corretamente que Hazor tinha de fato sido  "chefe de todos esses reinos" ou cidades-estado no norte, como as escavações atuais deixaram bem claro [16]

Liverani, por sua vez, também aponta os israelitas (ou proto israelitas) como os responsáveis pela destruição, mas associa ao período de Debora e Baraque (Juizes 4), alguma décadas depois. Aponta o cântico de Debora, considerado entre os estudiosos como uma das partes mais antigas da Bíblia (provavelmente anterior em vários séculos a redação final de Juízes), para indicar a coalização de seis tribos, nortistas e centrais, contra a coalização cananeia. 

"O conflito historicamente mais plausível é, porém, o segundo, a batalha em Taa'nak, perto de Megido, que vê as milícias tribais da Galiléia (Zabulon, Issacar e Neftali) e centrais (Makir/Manassés, Efraim, e Benjamim) guiadas por Baraq e cercadas por Débora descerem de suas montanhas para enfrentar os temidíssimos carros de guerra das cidades cananéias, sob a hegemonia de Yabin, Rei de Hasor, e guiadas pelo general Sisera. O "cantico de Débora", por todos considerado um dos textos mais antigos da Bíblica, constituiu o núcleo sobre o qual depois de construiu o texto narrativo que o engloba. [17]

 

Em suma, a evidência até aqui indica que por volta de 1200 AC, havia o conhecimento em fontes egípcias de um grupo étnico (não ainda organizado em cidades estado ou reinos) que habitava Canaã, provavelmente em sua região montanhosa. A evidência arqueológica indica "explosão" de assentamentos "israelitas" nesse período, e que esse grupo provavelmente esteve associado a destruição da grande cidade de Hazor, pedra angular do sistema das cidades estado do norte, e possivelmente toda  Canaã (tendo sido, provavelmente, um dos motivos pelo qual a dominação egípcia se enfraqueceu no longo prazo, e ter levado Merneptah em tentar restabelece-la), e que o quadro geral apresentado por Juízes, do antigo Israel coexistindo e interagindo com os vários povos que habitavam a Palestina, reflete provavelmente uma memória histórica.

A emergência (e decadência) de Siló.

Eli e Samuel no Tabernaculo, 1780
por John Singleton Copley, via wikicommons
 Toda a comunidade dos israelitas reuniu-se em Siló e ali armou a Tenda do Encontro. A terra foi dominada por eles; Josué 18:1

Samuel, contudo, ainda menino, ministrava perante o Senhor, vestindo uma túnica de linho. Todos os anos sua mãe fazia uma pequena túnica e a levava para ele, quando subia a Siló com o marido para oferecer o sacrifício anual. (...) Todo o Israel, de Dã até Berseba, reconhecia que Samuel estava confirmado como profeta do Senhor. O Senhor continuou aparecendo em Siló, onde havia se revelado a Samuel por meio de sua palavra. I Samuel 1 2:18,19 e 3:20,21.

Sabendo-o Deus, enfureceu-se e rejeitou totalmente a Israel;
abandonou o tabernáculo de Siló, a tenda onde habitava entre os homens. Salmos 78:59,60

"Portanto, vão agora a Siló, o meu lugar de adoração, onde primeiro fiz uma habitação em honra do meu nome, e vejam o que eu lhe fiz por causa da impiedade de Israel, meu povo. Jeremias 7:12

Como indicado nos textos bíblicos acima, os livros de Josué, Juízes e I Samuel apontam Siló como o mais importante centro religioso dos antigos israelitas, onde estava o Tabernáculo e a Arca da Aliança. Na falta de uma estrutura política central, o santuário servia como a "capital" informal das tribos. Ainda segundo o texto bíblico, os israelitas foram derrotados pelos filisteus na 1ª batalha de Ebenézer, a arca da aliança foi capturada pelo inimigo, o sacerdote Eli morreu com a notícia, e a "a glória se foi de Israel". Porque a arca foi tomada (1 Samuel 4:22). A narrativa progride com Samuel liderando a revanche israelita na 2ª batalha de Ebenézer, mas os filisteus já haviam devolvido a Arca, que estava em Quiriate Jearim. Vinte anos depois, Davi traz a arca para Jerusalém (II Samuel 6), e com a construção do Templo, ela foi acomodada no "Santo dos Santos". Jeroboão, ao promover a revolta das 10 tribos e fundar o reino de Israel do Norte, mesmo tendo sido ungido por Aias, o Silonita, decidiu construir santuários rivais ao Templo de Jerusalém nas cidades de Betel e Dã (colocando em cada uma um bezerro de ouro). Assim, embora a Bíblia não mencione explicitamente como e quando ocorreu a destruição do santuário de Siló, o fato é que após a morte do sacerdote Eli, Siló entra em decadência e praticamente desaparece do registro bíblico.

Arqueologicamente falando, a evidência relativa a Silo é bem interessante, indicando um sítio bastante utilizado entre os séculos XIII e XI AC, e praticamente abandonado posteriormente, como apontam Amihai Mazar:

"A evidência arqueológica de práticas religiosas israelitas durante o período de Juízes é escassa. Em Siló, a parte central do sítio, onde provavelmente ficava o santuário foi totalmente destruída pela erosão e pelas atividades bizantinas de construção. A evidência de que existia um lugar de culto neste sítio já na idade do Bronze Recente é de considerável importância. Ele provavelmente servia a tribos de pastores seminômades que viviam nas vizinhanças, pois não foi encontrado no cômoro nenhum assentamento real desse período. Siló, portanto, parece ter sido um local sagrado desde muito antes da Idade do Ferro, e talvez essa tradição tenha levado a sua escolha como centro religioso dos israelitas durante o período dos Juízes [18]

 

Israel Finkestein:

Os livros de Josué, Juízes e I Samuel descrevem Silo como um santuário central dos primeiros israelitas - a localidade da Arca da Aliança. Jeremias (7:12,14; 26, 6.9) refere-se ao antigo templo de Yahweh que tinha estado em Siló e que foi destruído pela iniquidade de Israel. E embora Silo não fosse um importante local no final do Ferro II, quando a maioria desses textos foi colocada por escrito, sua localização - entre Jerusalém e Siquém - era bem conhecida pelo Historiador Deuteronomista (Juízes 21:19). A arqueologia demonstrou que Silo foi abandonada após sua destruição no Ferro I. Resultados de radiocarbono alocam essa destruição na segunda metade do século XI a.C (Finkelstein e Piasetzky, 2006). Não há assentamentos significantes ali nos períodos do Ferro II e persa. Vestígios datados desses períodos são escassos e de nenhuma importância especial; eles não revelam sinais de um lugar de culto ou de destruição por fogo. É impossível, assim, ler a tradição do santuário de Silo contra o panorama do Ferro II ou posterior. [19].

E Kenneth Kitchen:

The Iron I phase at the site was violently destroyed about 1050 or so, in line with the veiled allusions in Jer. 7:12-14 and Ps 78:60-61. There is no reason to view Shiloh in Iron I as anything other than an early Israelite center, amidst an area of considerable early Israelite settlement. (traduçãoA fase Ferro I do sítio foi violentamente destruída por volta de 1050 ou mais, em acordo com as alusões veladas em Jer. 7: 12-14 e Sl 78: 60-61. Não há razão para ver Shiloh em Iron I como outra coisa senão um centro israelita primitivo, em meio a uma área de considerável colonização israelita inicial [20]

Se o santuário de Siló foi praticamente abandonado em meados do século XI AC, e o deuteronomista foi escrito no século VII AC, o fato de existir uma memória de que aquele local era um importante santuário séculos antes é relevante e indica pelo menos uma possibilidade de que outras memórias semelhantes tenham sido preservadas.

Nos anos de 1930, o estudioso alemão Martin Noth postulou que as tribos de Israel se organizavam numa anfictionia, ou seja, uma liga ou confederação cujas instituições funcionavam em torno de um santuário central, a semelhança das cidades estado gregas (em torno de Delfos), que se organizaram para manter o santuário de Apolo e que com o tempo incorporou também funções políticas.

A tese de Noth foi criticada por considerar um contexto distante milhares de quilômetros e atestada pelo menos meio milênio depois do tempo de juízes. No entanto, a existência de uma organização tribal, e alguma solidariedade entre seus membros tem paralelos em contextos mais próximos aos da antiga Canaã, como observa Kitchen:

However, as lomg sice proposed, there were analagous institutions much near home, in the Near East. Hallo gave a detailed account of a Neo-Sumerian "amphictyony" of twelve or more cities that contributed supplies of a twelve monthly basis to the upkeep of the holy Sumerian city of Nippur, under the rules of the third dinasty of Ur circa 2000. As with Greece, the central central temples were the focus of attention (...) Alongside these concrete cases the Hebrew tribal federation can stand, with its shrine. The better comparison is with tribal federations, as at Mari and early Arabia (...)" (traduçãoNo entanto, como há muito proposto, havia instituições análogas muito perto de casa, no Oriente Próximo. Hallo fez um relato detalhado de uma "anfictonia" neo-suméria de doze ou mais cidades que contribuíam com suprimentos de doze meses para a manutenção da sagrada cidade suméria de Nippur, sob as regras da terceira dinastia de Ur por volta de 2000. Como com a Grécia, os templos centrais centrais eram o foco das atenções (...) Ao lado desses casos concretos pode se manter a federação tribal hebraica, com seu santuário. A melhor comparação é com as federações tribais, como em Mari e no início da Arábia [21]

Assim,  além de um santuário comum, as tribos empreendem ações militares conjuntas, um dos principais exemplos contido no cântico de Débora, como observa Liverani:

"É um texto importante para nos fazer entrever uma agregação tribal que teoricamente compreende dez tribos, seis das quais participam do empreendimento; as outras quatro julgam não faze-la (e são, por isso, ridicularizadas): Asher e Dan, porque empenhadas em trabalhar nas esquadrilhas fenícias, Rubem e Gile'ad, porque empenhadas em seus pastos estivais na Transjordânia. Observe-se que a coalização é definida como Israel (e na verdade coincide com o Reino do Norte) ou "o povo de Yahweh", mas se usa o também o coletivo "aldeões" (perazot) contraposto as cidades de muros e portas e portas dos cananeus (...)" [22].

Liverani também pontua que as fronteiras dessas tribos, pelo menos das maiores, corresponde aos padrões de assentamento das vilas "protoisraelitas"  do século XIII/XII AC  

"Não por acaso a situação das tribos principais corresponde muito bem a distribuição das vilas "proto-israelitas" e fornece uma confirmação cruzada avaliada como positiva. Mas diversas outras tribos que depois passaram a fazer parte da lista "canônica" são ou nitidamente funcionais (mas que de estirpe), como Levi (mas também Issacar, ou também os qenitas), ou de origem e pertença duvidosas (como Dan) ou desaparecidas tão cedo (Simeão) que somos levados a duvidar se algum dia existiram [23].

Assim, Silo parece ter representado um papel fundamental no período anterior a  monarquia, por servir de centro de agregação das várias tribos de Israel, permitindo algumas ações conjuntas, além da cooperação religiosa. No entanto, o livro de Juízes indica frequentemente dificuldades de mobilização conjunta entre as várias tribos. Assim, Débora consegue mobilizar seis tribos, tendo convidado 10; Gideão apenas Manassés, Aser, Zebulom e Naftali (Jz 6:35); e Jefté fica restrito as tribos de além do Jordão, tanto Gideão como Jefté recebem reclamações de Efraim, que alega que não foi adequadamente convocada para guerra. 

Desta forma, temos um Israel, ou "proto israel", que surge de forma súbita no registro histórico e arqueológico, em pequenas vilas e assentamentos nas regiões montanhosas centrais da Palestina, no final do século XIII AC. Esse grupo tem elementos autóctones, convivendo com outras populações que habitavam a região, mas também se envolve em conflitos contra forças regionais, como a cidade de Hazor e seus aliados. Suas tribos tinham algum grau de coesão, organizando ações militares conjuntas, bem como mantendo um santuário em Siló.

Referencias Bibliográficas:

[1] Michael Coogan (2008) The Old Testament, a Very Short Introduction, fl.31

[2] Eric H Cline (2009) Biblical Archaelogy, A Very Short Introduction, fl. 72

[3]  Mario Liverani (2003), Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 52

[4] Mario Liverani (2003), Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fls 37 e 38

[5]  Israel Finkesltein (2013), O Reino Esquecido - Arqueologia e História de Israel do Norte, fl. 39 

[6] Kenneth Kitchen (2003) On the Reliability of the Old Testament, fl. 225

[7] Amihai Mazar (1990) Arqueologia das Terras da Bíblia, fl. 328

[8] Kenneth Kitchen (2003) On the Reliability of the Old Testament, fl. 226

[9] Mario Liverani (2003), Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 59-60

[10] Avraham Faust (2015), The Emergence of Iron Age Israel, an Origin and Habits, fl. 476

[11] Mario Liverani (2003), Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 120

[12] Eric H Cline (2009) Biblical Archaelogy, A Very Short Introduction, fls. 77-78

[13] Israel Finkesltein (2013), O Reino Esquecido - Arqueologia e História de Israel do Norte, fl. 38

[14] Amihai Mazar (1990) Arqueologia das Terras da Bíblia, fl. 326

[15] Kenneth Kitchen (2003) On the Reliability of the Old Testament, fl. 184

[16] William Dever (2006) Who were the early Israelites, and where did they come from?, fl. 68

[17] Mario Liverani (2003), Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 122

[18] Amihai Mazar (1990) Arqueologia das Terras da Bíblia, fl. 341

[19] Israel Finkesltein (2013), O Reino Esquecido - Arqueologia e História de Israel do Norte, fls. 70-71

[20] Kenneth Kitchen (2003) On the Reliability of the Old Testament, fl. 231

[21] Kenneth Kitchen (2003) On the Reliability of the Old Testament, fl. 222

[22] Mario Liverani (2003), Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 122

[23] Mario Liverani (2003), Para Além da Bíblia, História Antiga de Israel, fl. 93



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