Introdução
O presente glossário reúne os principais conceitos, categorias e formulações desenvolvidos ao longo da Tetralogia da Guerra Santa, oferecendo ao leitor um mapa para acompanhar a construção progressiva de seu vocabulário e de sua arquitetura argumentativa. Os termos não aparecem como definições isoladas: cada um nasce de um problema, é desenvolvido em determinado texto e, em muitos casos, recebe novas determinações nos textos seguintes.
A organização numérica permite visualizar essa circulação conceitual. Em cada entrada, além da definição em texto corrido, são indicados os textos nos quais o termo aparece, seu ponto de origem, seus principais desenvolvimentos e, quando pertinente, o momento de sua radicalização. Essa localização é importante porque vários conceitos não pertencem exclusivamente a um único artigo: eles atravessam a Tetralogia, modificando-se à medida que o percurso passa do corpo à memória, da memória à ordem, da ordem à soberania, da soberania à identidade e da identidade ao reconhecimento.
O glossário também inclui formulações que condensam argumentos centrais da obra e conceitos relativos à própria arquitetura da Tetralogia. Depois dos refinamentos teóricos realizados na conclusão de GUERRA e na formulação de LOGOS, o vocabulário incorpora ainda uma distinção metodológica decisiva: a continuidade entre os quatro textos pertence à construção analítica da Tetralogia, e não deve ser automaticamente atribuída a um único agente histórico ou a uma estratégia consciente que atravessaria todos os Evangelhos. A categoria de soberania adversária, portanto, permite comparar diferentes registros do antagonismo sem transformar essa comparação em uma psicologia de Satanás, de Roma ou de qualquer outro ator.
O conjunto funciona, assim, como uma chave de leitura da obra. Permite entrar em seus conceitos sem exigir conhecimento prévio de seu vocabulário e, ao mesmo tempo, torna visível a engenharia conceitual que articula GUERRA, MEMÓRIA, REINO e LOGOS.
SÍNTESE
Os conceitos reunidos neste glossário não formam um inventário independente dos quatro textos, mas compõem uma rede que se torna progressivamente mais ampla à medida que a investigação avança. O ponto de partida é o corpo, porque é nele que a disputa se torna imediatamente visível: o corpo pode ser submetido, libertado, ferido, executado e restaurado. GUERRA começa nesse nível porque a violência torna perceptível uma questão que posteriormente se revelará muito maior: possuir capacidade para produzir um acontecimento não significa possuir autoridade para determinar tudo aquilo que esse acontecimento poderá significar. A distinção entre poder sobre o acontecimento e autoridade sobre seu significado nasce, assim, de uma questão corporal antes de adquirir dimensões propriamente políticas, históricas e cristológicas.
MEMÓRIA desloca essa questão para o momento posterior ao acontecimento. Uma cidade pode ser destruída, uma comunidade pode ser derrotada, um corpo pode morrer; mas nenhum desses fatos encerra por si mesmo a disputa sobre aquilo que deverá permanecer deles. A destruição produz uma ausência material, mas não controla necessariamente a memória dessa ausência. O acontecimento continua a agir porque pode ser lembrado, interpretado, reorganizado e incorporado à identidade de uma comunidade. A memória não desfaz a derrota histórica; ela impede que a derrota seja confundida com o encerramento de seu significado. É nesse deslocamento que a violência deixa de ser apenas uma questão de domínio e passa a ser também uma questão de permanência.
REINO leva o problema para outro nível. Se o significado de um acontecimento permanece disputável, também permanece disputável a ordem que pretende organizar a realidade a partir de determinada interpretação desse acontecimento. O Reino de Deus aparece, então, não como simples substituição de um soberano por outro, mas como contestação dos critérios pelos quais autoridade, grandeza, riqueza, pertencimento, serviço e vitória são reconhecidos. A questão deixa de ser apenas quem possui força suficiente para ordenar o mundo e passa a envolver quem possui legitimidade para dizer que essa ordem é justa, verdadeira ou desejável. A soberania, nesse ponto, já não pode ser pensada apenas como capacidade de mandar: ela envolve a pretensão de estabelecer os critérios pelos quais a própria ordem será reconhecida.
LOGOS leva essa investigação ao seu limite mais radical porque a disputa pela soberania alcança a identidade daquele que sofre a violência. O problema já não consiste apenas em saber quem controla o acontecimento, quem preservará sua memória ou qual ordem poderá suceder à ordem dominante. Trata-se de saber se o poder que consegue prender, julgar, ferir e matar também consegue determinar quem é aquele que foi preso, julgado, ferido e morto. A paixão e a ressurreição, nesse sentido, não anulam a violência anterior nem transformam a vulnerabilidade em invulnerabilidade retrospectiva. O corpo permanece marcado. O que se recusa é que essas marcas possam ser convertidas automaticamente em autoridade sobre a identidade daquele corpo. A blindagem cristológica nasce precisamente dessa diferença.
É também nesse percurso que a categoria de soberania adversária precisa ser compreendida com maior precisão. Ela não representa a descoberta de um único agente que, ao longo dos quatro textos, teria progressivamente aperfeiçoado uma mesma estratégia. A continuidade da Tetralogia não depende dessa hipótese. O que permanece é o problema analítico: diferentes formas de poder podem produzir efeitos sobre o corpo, o acontecimento, a memória, a ordem e a identidade e, a partir dessa capacidade efetiva, reivindicar uma autoridade maior — a autoridade de determinar aquilo que esses efeitos significam. A categoria permite reconhecer essa pretensão sem transformar os Evangelhos em um tratado estratégico nem atribuir aos seus personagens uma consciência conceitual que pertence ao pesquisador.
A incorporação da análise estratégica e da dialética torna essa conclusão ainda mais precisa. Os agentes atuam dentro de campos concretos, possuem objetivos, mobilizam recursos, enfrentam restrições e produzem resultados. Mas os resultados de suas ações podem transformar o próprio campo no qual novas ações serão realizadas. Uma ação pode, portanto, alcançar seu objetivo imediato e produzir consequências que escapam ao controle daquele que a realizou. A violência pode destruir um corpo e produzir testemunho; a destruição pode produzir memória; a memória pode produzir pertencimento; uma ordem imposta pode gerar uma reivindicação concorrente de legitimidade. A ação estratégica explica a produção dos efeitos; a dialética permite compreender como esses efeitos podem retornar ao campo e colocar em questão a pretensão de encerramento contida na própria ação.
Por isso, a Tetralogia não chega à conclusão de que o poder seja impotente. Seria uma conclusão incompatível com tudo aquilo que os quatro textos reconhecem sobre a violência, a dominação e a história. Roma possui poder. As autoridades possuem poder. A violência produz efeitos reais. Corpos são efetivamente presos, feridos e mortos; cidades são efetivamente destruídas; comunidades são efetivamente submetidas. O ponto é outro: a eficácia de um poder possui limites que não coincidem necessariamente com os limites de sua pretensão. Produzir um acontecimento não significa determinar seu significado; dominar um corpo não significa determinar sua identidade; destruir não significa determinar o que permanecerá; ordenar não significa produzir legitimidade; matar não significa determinar quem morreu.
A conclusão da Tetralogia encontra, assim, sua unidade não na ideia de que os quatro textos descrevam uma única guerra conduzida por um único agente, mas na descoberta progressiva de um mesmo limite. Quanto mais a análise avança, mais claramente se percebe que o problema não está apenas em saber quem possui força suficiente para agir sobre a realidade. A questão decisiva é saber até onde essa força pode transformar sua eficácia em autoridade. O poder pode produzir o acontecimento, mas o acontecimento retorna como memória; a memória pode produzir pertencimento, mas o pertencimento abre uma disputa sobre a ordem; a ordem pode impor-se, mas sua existência não basta para produzir legitimidade; a violência pode atingir o corpo, mas não encerra necessariamente a questão de sua identidade.
É por isso que o movimento da Tetralogia termina novamente no corpo. Não se trata, porém, do mesmo corpo com o qual a investigação começou. O corpo de LOGOS carrega consigo a violência de GUERRA, a memória de MEMÓRIA, a disputa pela ordem de REINO e, finalmente, a questão do reconhecimento. A ferida tornou-se memória; a memória tornou-se testemunho; o testemunho tornou-se reconhecimento; e o reconhecimento revela que aquilo que foi produzido pela violência não coincide necessariamente com aquilo que a violência consegue determinar.
O limite da soberania aparece exatamente aí. Um poder pode alcançar o corpo, produzir a morte, impor uma ordem e deixar marcas profundas na história. Pode fazer quase tudo aquilo que um poder historicamente situado é capaz de fazer. O que não decorre automaticamente dessa capacidade é o direito de encerrar a interpretação de seus próprios atos. A guerra termina, nesse sentido, não quando o poder adversário desaparece, mas quando sua eficácia já não é suficiente para encerrar a disputa que ele pretendia resolver.
A Tetralogia começa, portanto, perguntando o que acontece quando o poder disputa o corpo e termina perguntando algo mais difícil: o que acontece quando aquele que possui poder sobre o acontecimento descobre que não possui, por isso mesmo, poder absoluto sobre aquilo que o acontecimento passa a significar? É nessa diferença — entre produzir e determinar, entre dominar e definir, entre matar e estabelecer quem morreu — que se encontra o limite da soberania e, simultaneamente, a possibilidade de que a história permaneça aberta depois que o poder julgou tê-la encerrado.
BLOCO II — A TETRALOGIA COMO INSTRUMENTO DE ANÁLISE
Teoria política, análise de conflitos, ação estratégica, memória, soberania e disputa pelo significado
Este segundo bloco do Glossário não acrescenta novos conceitos ao vocabulário da Tetralogia, mas procura tornar mais claras as relações estabelecidas entre aqueles que já foram empregados nos quatro textos e a função que assumem no desenvolvimento da pesquisa. Se o primeiro bloco apresenta os principais conceitos individualmente, importa agora acompanhar o modo como eles se relacionam, à medida que determinado problema conduz a outro e que o instrumento inicialmente construído para examiná-lo precisa ser ampliado, restringido ou submetido a novos limites. Mais do que enumerar os conceitos presentes em GUERRA, MEMÓRIA, REINO e LOGOS, interessa compreender como eles participam da construção de um mesmo campo de investigação e como o próprio aparato utilizado para a leitura se modifica diante de problemas sucessivos.
O ponto de partida encontra-se no Manual de Guerra. Ele constitui o instrumento fundamental da Tetralogia; as demais categorias surgem do esforço de acompanhar os problemas que sua aplicação sucessiva faz aparecer. Não se pretende, com ele, submeter todas as narrativas evangélicas a uma única explicação, nem transformar os Evangelhos em registros de uma teoria militar antiga. O Manual foi construído como ferramenta heurística para reconhecer determinadas relações nas quais sujeição, intervenção, transformação perceptível e produção de significado aparecem articuladas de maneira suficiente para permitir uma leitura do conflito. O emprego do termo “guerra” não pressupõe que toda forma de conflito aqui examinada corresponda à guerra em sentido militar; trata-se da designação do modelo heurístico construído para reconhecer determinadas relações de sujeição, intervenção, transformação e significação. Sua utilização depende, entretanto, da possibilidade de demonstrar essa articulação no próprio material analisado. Onde ela não puder ser identificada, o instrumento deve ser restringido ou deixado de lado. Sua utilidade está, portanto, menos na extensão de sua aplicação do que na capacidade de distinguir as situações nas quais determinada estrutura de conflito pode ser reconhecida daquelas em que sua presença não pode ser demonstrada.
A noção de micro-região de conflito participa desse esforço inicial de localização. Antes que o conflito seja situado em uma dimensão histórica, política, simbólica ou cosmológica mais ampla, procuramos identificar o espaço concreto no qual seus efeitos se tornam perceptíveis. Corpos submetidos, corpos libertados, indivíduos reintegrados e relações de autoridade contestadas constituem, nesse sentido, lugares privilegiados para observar a ação do conflito. Isso não significa reduzi-lo ao corpo, mas partir das formas concretas pelas quais a narrativa torna visível a atuação do poder. A distinção entre níveis de conflito decorre da mesma preocupação. O registro social-histórico, o simbólico e o cosmológico podem relacionar-se, mas não devem ser confundidos. Uma relação entre esses níveis precisa resultar da própria leitura do texto, e não de uma equivalência previamente estabelecida pelo intérprete.
Nas narrativas da paixão, essa preocupação aparece de maneira particularmente clara. A cadeia de transferências permite acompanhar a passagem da custódia à acusação, do julgamento à jurisdição e desta à execução, observando as funções desempenhadas pelos diferentes agentes e instâncias envolvidos. Não se pretende reunir essas funções numa responsabilidade única. Interessa, ao contrário, perceber o que ocorre quando uma ação materialmente determinada se realiza através de uma sequência institucional na qual diferentes agentes ocupam posições distintas. A dissipação da visibilidade da responsabilidade corresponde a essa configuração. A responsabilidade não deixa de existir porque a ação foi distribuída; sua visibilidade é que pode diminuir quando decisões e procedimentos são repartidos entre diferentes autoridades, agentes e instâncias. Daí a necessidade de distinguir causalidade, jurisdição, execução e responsabilidade, evitando que a própria estrutura narrativa seja transformada numa simplificação histórica.
A racionalidade estratégica introduz outra possibilidade de leitura. Em determinadas passagens, especialmente na tentação, nas controvérsias e nas narrativas da paixão, as intervenções podem ser examinadas a partir dos objetivos envolvidos, das alternativas disponíveis, dos recursos mobilizados, dos constrangimentos existentes e das consequências possíveis. Isso não significa apresentar os personagens como agentes de uma psicologia calculista, nem afirmar que os evangelistas tenham concebido suas narrativas segundo uma teoria formal da escolha racional. A categoria permite reconstruir uma lógica estratégica inscrita na organização narrativa do conflito, sem que seja necessário atribuir aos agentes uma consciência estratégica nos termos definidos pelo instrumental contemporâneo.
Quadro 1 — Instrumentos para a localização e análise do conflito
| Instrumento | O que permite observar | Como é utilizado na Tetralogia | Limite principal |
|---|---|---|---|
| Manual de Guerra | A gramática narrativa do conflito: sujeição, intervenção, transformação e significação | Estabelece o ponto de partida de GUERRA | Não se aplica onde essa articulação não pode ser demonstrada |
| Micro-região de conflito | O lugar concreto no qual a disputa de autoridade se torna observável | Corpos, exorcismos, curas e reintegrações | Não transforma automaticamente toda condição corporal em conflito político |
| Níveis de conflito | A articulação entre registros social-histórico, simbólico e cosmológico | Exorcismos, controvérsias, paixão e confrontos de autoridade | Um nível não pode ser simplesmente reduzido a outro |
| Cadeia de transferências | Como custódia, acusação, julgamento, jurisdição e execução são distribuídos | Sobretudo nas narrativas da paixão | Não transforma agentes diferentes em uma única instância de responsabilidade |
| Dissipação da visibilidade da responsabilidade | Como a responsabilidade pode tornar-se menos visível quando a ação é distribuída | Julgamento e execução de Jesus | Menor visibilidade não significa desaparecimento da responsabilidade |
| Racionalidade estratégica | Objetivos, alternativas, recursos, constrangimentos e consequências das intervenções | Tentação, controvérsias, parábolas e paixão | Não atribui automaticamente consciência estratégica ou cálculo moderno aos personagens |
Fonte: elaboração própria.
Com MEMÓRIA, o problema se desloca do acontecimento para sua permanência. O conflito não desaparece necessariamente quando a violência deixa de ocorrer como acontecimento material. A destruição pode permanecer inscrita na memória, a memória pode reorganizar a percepção do presente e o presente pode reinterpretar o passado a partir de expectativas projetadas sobre o futuro. A temporalização da catástrofe permite acompanhar esse movimento sem estabelecer uma relação automática entre a experiência da violência e determinada resposta religiosa ou política. Interessa observar como a destruição passa a integrar uma determinada construção temporal, na qual passado, presente e futuro participam conjuntamente da interpretação do acontecimento.
A categoria de texto dentro do texto deve ser compreendida a partir dessa relação entre acontecimento, tradição e recepção. Uma tradição anterior pode ser recebida em circunstâncias históricas diferentes daquelas nas quais determinadas de suas formas foram produzidas e, nesse novo contexto, adquirir outros efeitos de sentido. O acontecimento posterior não precisa constituir a chave oculta de um texto anterior, como se toda tradição guardasse antecipadamente o significado dos acontecimentos que posteriormente lhe seriam associados. O acontecimento posterior pode modificar o horizonte de recepção de uma tradição sem constituir, por isso, a origem histórica de sua formulação. Pode, contudo, constituir um horizonte a partir do qual essa tradição passa a ser novamente interpretada. Desta forma, torna-se possível examinar a relação entre tradição e catástrofe histórica sem reduzir a interpretação à procura de uma mensagem política escondida.
A memória conduz também à distinção entre poder sobre o acontecimento e autoridade sobre o significado. Aquele que possui os meios para produzir ou controlar materialmente um acontecimento não possui, por esse motivo, a capacidade de determinar sozinho o significado que esse acontecimento terá. A crucificação permite observar essa diferença com especial clareza. A execução constitui um acontecimento material produzido por uma estrutura concreta de poder; sua realização, entretanto, não encerra a disputa em torno de seu significado. A inscrição da cruz, a memória da paixão e a ressurreição tornam possível observar a passagem de um problema relativo à eficácia do poder para outro, relativo à autoridade de interpretar aquilo que o poder produziu. Essa distinção atravessa a Tetralogia: a capacidade de produzir efeitos sobre um corpo ou um acontecimento não implica, por si mesma, autoridade para determinar definitivamente o significado desses efeitos.
Quadro 2 — Acontecimento, memória, ordem e soberania
| Instrumento | O que permite observar | Como é utilizado na Tetralogia | Limite principal |
|---|---|---|---|
| Temporalização da catástrofe | Como destruição e sofrimento são inseridos numa sequência de passado, presente e futuro | MEMÓRIA, 4 Esdras, 2 Baruch e tradições escatológicas | Não pressupõe reação religiosa automática à violência |
| Texto dentro do texto | Como uma tradição anterior pode adquirir novos efeitos de sentido em outro contexto histórico | Recepção posterior das tradições sobre Jesus e a destruição do Templo | Não pressupõe código clandestino ou mensagem secreta contra Roma |
| Poder sobre o acontecimento / autoridade sobre o significado | A diferença entre produzir um acontecimento e determinar sua interpretação | Crucificação, inscrição da cruz, memória e ressurreição | Não nega a realidade ou a eficácia material da violência |
| Gramática político-religiosa | Relações entre autoridade, pertencimento, valor, riqueza, hierarquia e legitimidade | Pregação do Reino, refeições e controvérsias | Não pressupõe programa político sistemático |
| Quatro operações do Reino | Os movimentos pelos quais a ordem é invertida, ampliada, redefinida e julgada | Parábolas, refeições, controvérsias e julgamento | Não são categorias nativas dos Evangelhos |
| Soberania alternativa | Uma autoridade cuja legitimidade não coincide com a ordem dominante | Pregação do Reino e práticas de Jesus | Não é um Estado alternativo nem um programa político moderno |
| Soberania adversária | A pretensão de fazer da capacidade de intervenção uma forma abrangente de domínio | Tentação, exorcismos e confrontos de autoridade | Não deve ser identificada diretamente com Roma, Satanás ou uma instituição histórica |
Fonte: elaboração própria.
Em REINO, o campo do conflito se amplia. Já não basta perguntar quem exerce poder sobre quem; torna-se necessário perguntar segundo quais critérios determinada ordem pode reivindicar legitimidade. A expressão gramática político-religiosa procura descrever esse conjunto de relações. Autoridade, pertencimento, riqueza, hierarquia, reconhecimento, valor e exclusão não constituem elementos isolados, mas participam de uma determinada organização da vida social. A pregação do Reino pode, assim, ser examinada a partir das formas pelas quais desloca os critérios mediante os quais posições sociais, relações de autoridade e formas de pertencimento são reconhecidas. Isso não significa transformar a pregação de Jesus em um programa político sistemático, mas observar suas implicações para a compreensão da ordem social e de sua legitimidade.
As quatro operações identificadas em REINO — INVERTE, ABRE, REDEFINE e JULGA — pertencem ao mesmo esforço de leitura. Não são categorias nativas dos Evangelhos, mas instrumentos construídos para tornar perceptíveis determinados movimentos narrativos pelos quais Jesus contesta, desloca ou reorganiza critérios de pertencimento, valor e autoridade. Seu emprego depende da demonstração textual. Um episódio de inclusão não deve ser considerado, por definição, uma operação de abertura, assim como uma controvérsia não precisa conter necessariamente uma inversão da ordem. A categoria encontra sua utilidade quando permite descrever com maior precisão aquilo que a narrativa efetivamente realiza.
A partir dessa perspectiva, a soberania alternativa não corresponde à fundação imaginária de um Estado concorrente. Designa uma forma de autoridade cuja legitimidade se constitui segundo critérios que não coincidem integralmente com aqueles reconhecidos pela ordem dominante. A soberania adversária apresenta um problema complementar: não corresponde simplesmente a uma capacidade ampliada de intervenção, mas à pretensão de fazer dessa capacidade uma autoridade abrangente sobre os domínios nos quais o conflito se manifesta, alcançando corpos, relações, ordem ou significado. As duas categorias não devem ser confundidas com entidades históricas específicas. Roma não é simplesmente a soberania adversária, assim como Satanás não é simplesmente Roma. A distinção permite conservar a dimensão cosmológica presente nas narrativas sem eliminar a especificidade histórica dos agentes e das instituições que nelas aparecem.
Em LOGOS, a questão alcança a identidade e o significado. Se o poder pode dominar um corpo e produzir sua morte, resta perguntar se essa mesma capacidade lhe permite determinar aquilo que esse corpo é e aquilo que sua morte significa. A blindagem cristológica designa a irredutibilidade da identidade de Jesus ao poder que o captura, julga e executa. Não se trata de afirmar invulnerabilidade física, nem de diminuir a realidade da violência sofrida. O corpo é efetivamente submetido à violência. O problema passa, então, a outro plano: a capacidade de produzir a morte corresponde à capacidade de estabelecer definitivamente o significado daquele que morreu? A narrativa joanina permite formular o problema nesses termos porque não nega a realidade da execução, mas recusa que ela possa constituir, por si mesma, a definição última de Jesus.
A disputa pela autoridade interpretativa prolonga esse problema. O conflito não termina necessariamente quando o acontecimento termina, pois sua memória, sua nomeação e sua interpretação podem tornar-se novos lugares de disputa. A inscrição da cruz constitui, nesse aspecto, um exemplo particularmente significativo. A autoridade romana produz materialmente a execução, mas não recebe, por isso, o monopólio sobre o significado daquilo que produziu. A soberania, neste nível, deixa de ser apenas uma questão relacionada ao controle dos meios de coerção e passa a envolver também a capacidade de estabelecer os termos segundo os quais um acontecimento será compreendido.
Quadro 3 — Identidade, significado e controle do instrumental
| Instrumento | O que permite observar | Como é utilizado na Tetralogia | Limite / teste |
|---|---|---|---|
| Blindagem cristológica | A irredutibilidade da identidade e do significado de Jesus ao poder que domina seu corpo | Paixão joanina, Pilatos, inscrição da cruz e ressurreição | Não significa invulnerabilidade física; o teste é a possibilidade de o poder determinar definitivamente identidade e significado |
| Disputa pela autoridade interpretativa | A passagem do controle do acontecimento para a disputa por sua nomeação e interpretação | Inscrição da cruz, memória da paixão e ressurreição | Nem toda interpretação constitui disputa política |
| Mudança de escala do conflito | O deslocamento do conflito do corpo para acontecimento, memória, ordem, soberania e identidade | Percurso transversal GUERRA → MEMÓRIA → REINO → LOGOS | Não constitui progressão automática ou linear |
| Transformação do instrumental | A modificação das categorias quando confrontadas com novos problemas | O Manual construído em GUERRA é ampliado nos textos seguintes | O instrumental não pode funcionar como sistema fechado |
| Controle de níveis e anacronismo | A diferença entre categorias analíticas contemporâneas e categorias disponíveis aos agentes antigos | Toda a Tetralogia | Categorias modernas não devem ser apresentadas como conceitos nativos |
| Teste de limite do Manual | A capacidade do instrumental de reconhecer seus próprios casos de não aplicação | Q, Templo e espada, diferenças entre Sinópticos e João e outros casos limítrofes | Um resultado negativo ou inconclusivo deve ser preservado |
| Manual do Manual de Guerra | O próprio processo de construção, aplicação, teste e transformação do instrumental | Relação transversal entre os quatro textos | O instrumental perde validade se puder explicar indiscriminadamente qualquer texto |
Fonte: elaboração própria.
A própria presença dessa dimensão reflexiva modifica o lugar ocupado pelo instrumental ao longo da Tetralogia. O instrumento que chega a LOGOS já não é exatamente aquele formulado em GUERRA. O problema do corpo conduziu ao problema do acontecimento; o acontecimento conduziu ao problema da memória; a memória conduziu à questão da ordem e da legitimidade; e essas questões conduziram, por fim, ao problema da soberania, da identidade e do significado. Não há aqui uma evolução necessária dos Evangelhos, mas a trajetória particular de uma investigação na qual cada texto retoma problemas anteriormente abertos e os coloca diante de novas condições.
A mudança de escala do conflito deve ser entendida a partir dessa trajetória. Ela descreve um deslocamento produzido pelo próprio percurso da leitura — do corpo individual ao acontecimento, deste à memória, da memória à ordem coletiva e, posteriormente, à soberania e à identidade —, mas não estabelece uma lei geral segundo a qual todo conflito deveria seguir esse caminho. A categoria permanece válida enquanto descrição do movimento realizado pela Tetralogia. O mesmo pode ser dito da transformação do instrumental. Uma categoria formulada anteriormente não adquire validade simplesmente por ter sido utilizada antes. Sua permanência depende da capacidade de enfrentar novos problemas sem perder precisão.
O controle de níveis e anacronismo ocupa, por essa razão, lugar importante no método. Weber, Arendt, Foucault, a teoria da ação, os estudos de memória, a teoria da soberania e a análise estratégica pertencem ao repertório conceitual do pesquisador contemporâneo. Não podem ser atribuídos diretamente aos agentes antigos como se constituíssem o seu próprio vocabulário intelectual. A distinção entre categoria analítica e categoria nativa deve acompanhar toda a investigação. Um instrumental contemporâneo pode iluminar um texto antigo sem que, por isso, seja necessário afirmar que os personagens ou os autores do texto pensavam nos mesmos termos.
O teste de limite do Manual decorre da mesma exigência. Q, as tradições relativas ao Templo e à espada, as diferenças entre os Evangelhos Sinópticos e João e outros casos limítrofes não precisam ser absorvidos pelo modelo para que ele permaneça coerente. Ao contrário, sua importância metodológica reside na possibilidade de produzirem resultados negativos, parciais ou inconclusivos. Uma categoria que só consegue preservar sua validade mediante sucessivas adaptações destinadas a incorporar qualquer contraexemplo deixa de funcionar como instrumento de análise e passa a funcionar como mecanismo de confirmação da própria hipótese.
A expressão “Manual do Manual de Guerra” pode ser empregada para designar essa dimensão reflexiva da Tetralogia. Os quatro textos não apenas utilizam um instrumento anteriormente estabelecido; mostram também esse instrumento sendo construído, aplicado, confrontado com problemas diferentes e modificado a partir desses encontros. Algumas categorias têm seu alcance ampliado, outras encontram limites mais claros, e outras ainda precisam explicitar condições de validade que não estavam completamente formuladas no momento de sua primeira utilização. Essa transformação não decorre de uma expansão arbitrária do modelo, mas das resistências encontradas em sua aplicação e dos limites revelados pelos próprios textos. Nós construímos o Manual para ler os Evangelhos; no desenvolvimento da pesquisa, os próprios Evangelhos obrigam o Manual a se transformar.
O resultado não corresponde, portanto, a uma teoria totalizante do conflito, nem a um inventário de conceitos provenientes da teoria política aplicados ao material bíblico. A unidade da Tetralogia encontra-se na tentativa de acompanhar, sem dissolver suas diferenças, as relações entre poder, acontecimento, memória, ordem, legitimidade, soberania, identidade e significado. A teoria política oferece categorias para tornar determinadas relações visíveis; a análise de conflitos permite acompanhar sua distribuição entre agentes e níveis; a análise estratégica possibilita reconstruir determinadas formas de intervenção; os estudos de memória ajudam a compreender a permanência do acontecimento; e a reflexão sobre soberania permite perguntar quando a disputa ultrapassa a capacidade de agir e alcança a autoridade para definir a própria ordem do real.
A coerência do conjunto depende, assim, de reconhecer esse percurso sem convertê-lo numa fórmula rígida. A Tetralogia não constrói um sistema destinado a explicar os Evangelhos; constrói, experimenta e corrige um instrumento com o qual determinadas dimensões dos Evangelhos podem ser interrogadas. Sua ambição metodológica não está em eliminar a complexidade do objeto, mas em estabelecer distinções que permitam observar diferentes formas de poder, conflito e autoridade sem reduzi-las umas às outras.
Os três quadros apresentados acima condensam, portanto, um argumento que permanece essencialmente discursivo. Não substituem o percurso da análise, mas tornam mais visíveis algumas das relações estabelecidas ao longo dele. Vemos, desse modo, como o Manual de Guerra dá início a uma investigação sobre o conflito, como essa investigação alcança a permanência do acontecimento na memória e a disputa pela legitimidade da ordem e como, finalmente, chega a uma questão mais radical: se o poder pode dominar um corpo e produzir um acontecimento, até onde se estende sua autoridade sobre aquilo que esse acontecimento significa?
Quando a pergunta retorna ao próprio método, a Tetralogia completa um de seus movimentos fundamentais: o instrumento utilizado para interpretar o conflito torna-se ele próprio objeto de crítica, teste e transformação. O resultado não é uma teoria fechada, mas um aparato analítico cuja capacidade explicativa depende justamente da possibilidade de reconhecer textos, situações e problemas diante dos quais suas categorias precisam ser restringidas, reformuladas ou simplesmente não aplicadas.