Estudos sobre Religião - Biblioblog

segunda-feira, 20 de outubro de 2008



Existiu o Demônio Geraseno?

Exorcismo, Legião e a imaginação política do domínio romano no Evangelho de Marcos

“Quando Jesus chegou à outra margem, à terra dos gadarenos, vieram ao seu encontro dois endemoninhados, saindo dos túmulos. Eram tão ferozes que ninguém podia passar por aquele caminho. E eis que se puseram a gritar: ‘Que queres de nós, Filho de Deus? Vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?’ Ora, havia, a certa distância deles, uma grande manada de porcos pastando. Os demônios suplicavam a Jesus: ‘Se nos expulsas, manda-nos para a manada de porcos’. Jesus lhes disse: ‘Ide’. Eles, saindo, foram para os porcos, e eis que toda a manada se precipitou pelo despenhadeiro e morreu nas águas.” (Mt 8,28–32).

“Ao desembarcar em terra, veio-lhe ao encontro um homem da cidade, possesso de demônios. Havia muito tempo não usava roupa, nem morava em casa, mas nos túmulos. Ao ver Jesus, lançou um grito, caiu-lhe aos pés e disse em alta voz: ‘Que queres de mim, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Eu te suplico, não me atormentes!’ Jesus, com efeito, ordenava ao espírito impuro que saísse do homem. Pois muitas vezes o espírito o agarrava, e o prendiam com correntes e grilhões, para dominá-lo; mas ele arrebentava as cadeias e era impelido pelo demônio para lugares desertos. Jesus perguntou-lhe: ‘Qual é o teu nome?’ Ele respondeu: ‘Legião’, porque muitos demônios tinham entrado nele. E suplicavam-lhe que não lhes mandasse ir para o abismo. Ora, havia ali, pastando na montanha, uma grande manada de porcos. Os demônios suplicaram-lhe que os deixasse entrar nos porcos. E ele lhes permitiu. Os demônios saíram do homem e entraram nos porcos. A manada precipitou-se pelo despenhadeiro no lago e se afogou.” (Lc 8,27–33).

“E chegaram à outra margem do mar, no território dos gerasenos. Logo que Jesus saiu da barca, veio dos túmulos ao seu encontro um homem possuído por um espírito impuro. Ele morava nos túmulos e ninguém conseguia dominá-lo, nem mesmo com correntes. Muitas vezes, já o tinham prendido com grilhões e correntes, mas ele arrebentava as correntes e despedaçava os grilhões. Ninguém conseguia subjugá-lo. E, sem cessar, noite e dia, andava pelos túmulos e pelos montes, gritando e ferindo-se com pedras. Ao ver Jesus, de longe, correu e prostrou-se diante dele. E, clamando em alta voz, disse: ‘Que queres de mim, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Eu te conjuro por Deus, não me atormentes!’ Com efeito, Jesus lhe dizia: ‘Sai desse homem, espírito impuro!’ E perguntou-lhe: ‘Qual é o teu nome?’ Ele respondeu: ‘Legião é meu nome, porque somos muitos’. E suplicava-lhe insistentemente que não o expulsasse daquela região. Ora, havia ali, pastando na montanha, uma grande manada de porcos. Os demônios suplicaram-lhe, dizendo: ‘Manda-nos para os porcos, para que entremos neles’. E ele o permitiu. Saindo, então, os espíritos impuros entraram nos porcos e a manada — cerca de dois mil — precipitou-se pelo despenhadeiro no mar, e se afogaram no mar.” (Mc 5,1–13).

O episódio do homem possesso que encontra Jesus na região de Gerasa constitui uma das narrativas mais estranhas e, ao mesmo tempo, mais reveladoras do Evangelho de Marcos. Um homem vive entre os túmulos, ninguém consegue dominá-lo, as correntes não são suficientes para contê-lo, uma multidão de espíritos fala por sua boca e, quando Jesus pergunta pelo seu nome, a resposta é “Legião”, porque são muitos. Pouco depois, os demônios pedem para entrar numa manada de porcos e aproximadamente dois mil animais precipitam-se pelo despenhadeiro e morrem no mar. A primeira leitura do episódio conduz naturalmente à história de um exorcismo e da libertação de um homem possesso; a própria narrativa, entretanto, introduz elementos que ampliam consideravelmente o alcance da cena. O homem não está apenas atormentado: está submetido a uma força que determina sua existência, o retira da comunidade, fala por sua boca e pretende permanecer no lugar em que se encontra. Quando Jesus chega, a questão já não diz respeito somente ao sofrimento daquele indivíduo, mas à autoridade daquele que domina, àquele que pretende expulsá-lo e ao território no qual essa força procura permanecer. A história de um homem possesso transforma-se, assim, numa narrativa sobre domínio, sujeição e expulsão.

A presença do nome “Legião” torna essa dimensão particularmente significativa. Não se trata simplesmente de uma multidão de demônios, pois Marcos poderia ter conservado a designação de “muitos espíritos” utilizada no próprio relato. Ao responder à pergunta de Jesus, a entidade fornece um nome que pertence ao universo militar romano. Legio designava uma unidade organizada de soldados e, para aqueles que viviam na Palestina do século I, não era uma palavra desprovida de significado político. A força histórica da palavra está em compreender de que maneira ela funciona dentro da narrativa. Não é suficiente transformá-la numa alegoria em que “Legião” significaria simplesmente Roma, assim como não é adequado retirá-la do ambiente histórico em que o Evangelho foi produzido. Quando uma força numerosa ocupa o corpo de um homem, exerce domínio sobre ele, pretende permanecer numa região e finalmente é obrigada a abandoná-la diante da autoridade de Jesus, a palavra “Legião” passa a participar da própria construção do conflito. O relato permanece sendo uma narrativa de exorcismo, mas a linguagem por meio da qual o exorcismo é narrado permite reconhecer nele uma memória e uma imaginação do poder romano.



1. O PROBLEMA: GERASA, GADARA E O TERRITÓRIO DA DOMINAÇÃO

Marcos situa o acontecimento “no território dos gerasenos” (Mc 5,1), enquanto Mateus fala da “terra dos gadarenos” (Mt 8,28) e Lucas acompanha Marcos ao mencionar Gerasa (Lc 8,26). A divergência entre os evangelistas é conhecida, e a distância entre Gerasa e o lago torna difícil compreender a cena como uma descrição topográfica precisa. Gerasa e Gadara pertenciam ao universo da Decápolis e estavam inseridas num espaço marcado pela cultura helenística e pela presença política romana, mas a localização exata do episódio não precisa ser estabelecida para que se compreenda o movimento realizado pela narrativa. Jesus atravessa o mar, chega à outra margem e encontra imediatamente um homem que vive fora da cidade, fora da casa e fora da convivência ordinária. A passagem para a outra margem conduz a narrativa para um território diferente daquele em que Jesus vinha atuando e, nesse território, o primeiro encontro se dá com alguém que já não participa da vida comum dos homens.

O homem vive nos túmulos e nos montes, anda noite e dia, grita, fere-se com pedras e rompe as correntes com que procuram prendê-lo. Marcos repete que ninguém consegue dominá-lo, insistência que não parece casual, pois a condição do homem é apresentada precisamente como uma relação de sujeição. Há aqueles que procuram prendê-lo e há uma força que o impede de retornar à vida comum; os primeiros não conseguem dominá-lo, enquanto a segunda o conduz para os lugares desertos. Aquele que deveria viver entre os seus vive entre os mortos; aquele que deveria possuir um nome próprio fala com a voz de uma coletividade; aquele que deveria habitar uma casa permanece nos túmulos. A possessão, portanto, não é descrita somente como uma aflição interior, mas como uma condição que alcança o corpo, o espaço e as relações do homem com a comunidade. Quando Jesus chega, encontra uma situação na qual ninguém havia conseguido restabelecer a ordem.

A pergunta “Qual é o teu nome?” revela aquilo que estava oculto sob essa condição. A resposta é “Legião”, “porque somos muitos” (Mc 5,9). O homem possui um corpo, mas a voz que responde pertence a uma coletividade. O nome individual desaparece diante do nome da força que o ocupa. A escolha de “Legião” ganha especial importância porque legio pertencia ao vocabulário militar romano e designava uma unidade organizada de soldados, normalmente formada por milhares de homens. A palavra, considerada isoladamente, não permite identificar o demônio com uma unidade militar específica, mas adquire outra densidade quando pronunciada por uma força que domina um corpo, reivindica permanecer numa região e, diante de Jesus, procura negociar sua permanência. Marcos não precisa mencionar Roma para introduzir na narrativa uma palavra que remetia diretamente ao universo militar do Império.



2. “LEGIÃO”, OS PORCOS E A LEGIO X FRETENSIS

A possibilidade de uma leitura política do episódio foi desenvolvida por diferentes pesquisadores. Richard Dormandy chamou atenção para a expulsão de “Legião” como elemento central de uma interpretação política de Marcos 5, enquanto Joshua Garroway relacionou a narrativa à apresentação do Reino de Deus diante do horizonte imperial romano. O que essas leituras percebem é que a própria ação narrada se organiza como confronto entre poderes. A força que domina o homem é numerosa e organizada, conhece o território em que se encontra e deseja permanecer nele; diante de Jesus, entretanto, começa a suplicar. Aquele que dominava passa a pedir; aquele que parecia determinar o destino do homem passa a depender da decisão de outro.

O número dos porcos acrescenta ao relato uma particularidade que dificilmente pode ser ignorada. Marcos informa que a manada contava aproximadamente dois mil animais, cifra muito superior ao necessário para uma simples narrativa de exorcismo. Markus Lau relacionou esse número a um episódio da Guerra Judaica no qual um destacamento de aproximadamente dois mil homens da Legio X Fretensis participou das operações romanas na Judeia em 66 d.C. A hipótese ganha força pelo fato de a Décima Legião possuir o javali como emblema. Temos, desse modo, uma aproximação singular entre a palavra “Legião”, o número dos porcos e um destacamento historicamente documentado da Décima Legião. Não se trata de uma identificação que possa ser afirmada sem reservas, mas de uma coincidência histórica suficientemente específica para que seja incorporada à discussão do episódio.

A correspondência numérica requer, contudo, precisão. Uma legião romana completa possuía efetivo superior a dois mil soldados, de modo que os números não coincidem simplesmente. O argumento de Lau é mais preciso: a cifra de Marcos poderia remeter não ao efetivo ordinário de uma legião completa, mas a um destacamento da Legio X Fretensis empregado nas operações da guerra. Matthias Klinghardt, ao estudar os porcos de Gerasa, chamou atenção para a importância do contexto local e para a possibilidade de que determinados elementos da narrativa fossem reconhecidos por seus primeiros destinatários. Albert Hogeterp, por sua vez, relacionou a cena à memória da violência militar e do trauma associado à presença romana. Não podemos afirmar que Marcos tenha pretendido representar deliberadamente a Décima Legião, mas tampouco há razão para considerar irrelevante a convergência entre o nome, o número, o animal associado à legião e o contexto histórico da guerra.

Legião não precisa ser Roma para produzir uma ressonância imperial. A narrativa não exige que cada demônio represente um soldado, que cada porco represente um combatente ou que Gerasa represente toda a Judeia. O que ela apresenta é uma força que domina, ocupa, permanece e é expulsa. O nome pelo qual essa força se apresenta pertence ao universo militar romano, e essa escolha torna possível que o leitor reconheça na narrativa demonológica uma imagem de poder que lhe era historicamente familiar. Roma não precisa ser convertida em demônio para que sua presença atravesse o episódio; basta que a experiência do poder imperial ofereça o campo de significados dentro do qual a palavra “Legião” podia ser compreendida.




3. OS PORCOS, A IMPUREZA E O HOMEM GERASENO

Os porcos desempenham ainda outra função na narrativa. Sua presença numa região associada ao mundo gentílico reforça o caráter liminar do cenário e, dentro do universo judaico, remete ao campo da impureza alimentar. O homem vive entre os túmulos, fora da casa e da cidade; os porcos pastam na região; Jesus chega depois de atravessar o mar; e os espíritos impuros abandonam o homem para entrar nos animais, que acabam precipitando-se no lago. O relato reúne elementos relacionados à fronteira, à impureza e à exclusão, sem que qualquer um deles precise substituir os demais. A função dos porcos não se reduz à identificação com a Décima Legião: eles permitem que a expulsão dos espíritos adquira uma forma visível e que a força que dominava o homem seja conduzida para fora dele diante dos olhos daqueles que acompanham o acontecimento.

O homem, entretanto, permanece no centro da narrativa. Marcos não descreve simplesmente alguém que sofre, mas alguém cuja vida foi tomada por uma força estranha. Ele não mora em casa, não usa roupa, vive entre os túmulos, percorre os montes e não pode ser contido por correntes. O espírito impuro tornou-se senhor de seus movimentos e de seu espaço. A narrativa não oferece uma explicação médica ou psicológica para essa condição; ela fala de demônios e de um espírito impuro, e é nesse universo religioso que o exorcismo deve ser compreendido. Historicamente, importa reconhecer que a demonologia do relato se expressa por meio de uma linguagem concreta de sujeição. O homem é dominado, deslocado, isolado e privado de uma existência comum. O espírito fala por ele e determina para onde ele vai.

A pergunta pelo nome introduz a ruptura dessa condição. “Legião” é o nome da força, não do homem, e a resposta “porque somos muitos” torna explícita a substituição da identidade individual por uma identidade coletiva. O homem tornou-se o lugar onde uma multiplicidade fala. Depois do exorcismo, a narrativa apresenta a mudança de maneira igualmente concreta: aqueles que chegam encontram o homem “sentado, vestido e em perfeito juízo” (Mc 5,15). O contraste com sua condição anterior não poderia ser maior. Ele já não está nos túmulos, já não vagueia pelos montes, já não está nu e já não é apresentado como alguém que precisa ser contido. A libertação torna-se visível no próprio corpo. A Legião não é derrotada apenas porque abandona o homem; ela é derrotada porque o homem deixa de ser aquilo que a Legião havia feito dele.

A pesquisa de Agnieszka B. Ziemińska permite aprofundar essa transformação ao chamar atenção para a relação entre a possessão, a marginalização e a reintegração social do homem. O desfecho da narrativa confirma essa dimensão. O homem deseja acompanhar Jesus, mas recebe a ordem de voltar para sua casa e contar “tudo o que o Senhor fez por ti e como teve compaixão de ti” (Mc 5,19). Aquele que antes era conhecido pela força que o dominava torna-se agora aquele que pode falar sobre a libertação que recebeu. A Legião falava por ele; depois da expulsão, ele fala por si mesmo. Aquele que vivia entre os mortos retorna aos vivos; aquele que havia perdido o lugar na comunidade recebe novamente uma casa; aquele cuja identidade fora substituída por uma coletividade recupera a própria palavra.




4. A MEMÓRIA DA GUERRA E A INVERSÃO DO PODER

A leitura política do episódio torna-se ainda mais significativa quando colocada diante da experiência histórica da presença romana. As legiões não representavam apenas uma força militar abstrata, mas o instrumento pelo qual Roma exercia sua autoridade sobre territórios e populações. A Guerra Judaica, iniciada em 66 d.C., levou essa experiência ao extremo e deixou uma memória de violência, destruição e derrota que não poderia ser facilmente separada da vida das comunidades judaicas e cristãs do período. Flávio Josefo constitui uma das principais testemunhas desse mundo, embora sua posição diante de Roma e a distância entre os acontecimentos e sua obra exijam cautela. Ainda assim, seu relato torna evidente a dimensão que a guerra e a presença das legiões podiam adquirir na memória daqueles que viveram sob o poder romano.

A inversão realizada por Marcos ganha força quando colocada diante dessa experiência histórica. Uma legião romana representava uma força organizada que dificilmente poderia ser expulsa de um território por um indivíduo. Em Marcos, entretanto, a “Legião” encontra alguém diante de quem sua própria permanência se torna impossível. A entidade suplica para não ser expulsa daquela região; pede para entrar nos porcos; procura encontrar um novo lugar onde possa permanecer. A força que dominava o homem passa a suplicar, enquanto aquele que não podia ser dominado é libertado. O homem que vivia entre os túmulos passa a estar sentado diante de todos; a multiplicidade que falava através dele desaparece; a força que reivindicava permanecer na região perde seu lugar. O relato constrói uma inversão completa da relação de poder.

Albert Hogeterp relacionou essa representação à memória literária do trauma produzido pela presença militar romana. A interpretação não exige que cada detalhe do episódio seja convertido em referência à Guerra Judaica. Basta observar que o relato escolhe precisamente o nome de uma formação militar para designar a força que domina o homem e que, ao final, é derrotada. A experiência histórica do Império fornece uma linguagem por meio da qual a comunidade pode imaginar uma inversão que a realidade política dificilmente permitia experimentar: a força que não podia ser expulsa é expulsa; aquela que dominava é submetida; aquele que havia sido reduzido a uma existência sem lugar recupera sua casa e sua voz.

A relação com a narrativa imediatamente anterior, a tempestade no mar (Mc 4,35–41), também merece ser considerada. Nathanael Vette observou que as viagens marítimas de Marcos podem conservar elementos de tradições antigas de confronto com as forças aquáticas e de conquista. Depois de atravessar o mar e repreender a tempestade, Jesus desembarca num território estrangeiro e encontra outra força que ninguém conseguira dominar. O conflito simplesmente muda de lugar: do mar passa para a terra, da natureza passa ao corpo. Não é necessário identificar o mar com Roma ou o demônio com uma instituição política para perceber a continuidade da narrativa. Em ambos os episódios, Jesus encontra uma força que resiste à ação humana e demonstra sobre ela uma autoridade que os demais não possuem.

A escala do episódio, entretanto, permanece local. Jesus não conquista Gerasa, não destrói sua administração e não convoca uma revolta. O que ocorre é a libertação de um homem. Essa dimensão não diminui a força política da narrativa; ao contrário, explica sua forma. A autoridade messiânica é apresentada naquilo que acontece ao corpo de alguém que havia sido submetido, excluído e desfigurado. O Reino anunciado por Jesus não aparece aqui como uma administração política já estabelecida, mas como uma autoridade que penetra situações concretas de dominação e as interrompe. A Legião é derrotada precisamente no lugar em que exercia seu poder: no homem e na região que pretendia conservar.




5. A LIBERTAÇÃO, O TESTEMUNHO E O DEBATE ACADÊMICO

Depois da expulsão dos demônios, Marcos ainda acrescenta uma cena que modifica o sentido do episódio. O homem deseja acompanhar Jesus, mas recebe a ordem de voltar para sua casa e anunciar aos seus “tudo o que o Senhor fez por ti e como teve compaixão de ti” (Mc 5,19). Aquele que havia sido retirado da convivência torna-se portador de uma notícia destinada à própria comunidade. A libertação transforma-se em testemunho. O homem que anteriormente não possuía uma voz própria, porque a Legião falava através dele, passa a falar acerca daquilo que lhe aconteceu. A narrativa começou com uma coletividade ocupando a voz de um homem e termina com esse homem recuperando a própria palavra.

O desfecho permite compreender melhor a autoridade de Jesus. O exorcismo não termina quando os demônios abandonam o corpo; seu resultado aparece na nova condição daquele que foi libertado. Antes, ninguém conseguia dominá-lo; depois, todos o encontram sentado e em perfeito juízo. Antes, ele vivia nos túmulos; depois, volta para sua casa. Antes, sua voz pertencia à Legião; depois, recebe a missão de falar. A derrota da força demoníaca é demonstrada pela transformação do homem. Aquele que pretendia permanecer na região desaparece, enquanto aquele que havia sido expulso da comunidade permanece nela. A permanência muda de lugar.

As interpretações acadêmicas do episódio, embora diferentes entre si, convergem em alguns aspectos fundamentais. Dormandy e Garroway destacaram a possibilidade de uma leitura política da expulsão de “Legião” e de sua relação com o horizonte imperial romano. Lau relacionou a cifra de aproximadamente dois mil à presença de um destacamento da Legio X Fretensis durante a Guerra Judaica. Klinghardt chamou atenção para o contexto local e para a possibilidade de que determinados detalhes da narrativa fossem reconhecidos por seus primeiros destinatários. Hogeterp aproximou o relato da memória da violência militar e do trauma, enquanto Ziemińska mostrou como a narrativa articula exclusão, estigmatização e reintegração. Cada uma dessas leituras ilumina um aspecto do episódio, e sua convergência ajuda a explicar por que uma narrativa aparentemente simples de exorcismo pode sustentar uma interpretação histórica tão ampla.

A hipótese da Legio X Fretensis permanece, nesse conjunto, como uma possibilidade particularmente interessante, não como fundamento exclusivo da interpretação. O nome “Legião”, o número dos porcos, o javali associado à Décima Legião e o contexto da Guerra Judaica formam uma combinação que merece ser considerada. Não podemos afirmar que Marcos tenha escrito o episódio com a intenção consciente de representar aquela unidade militar específica, mas tampouco precisamos dessa afirmação para reconhecer a ressonância militar da narrativa. Mesmo que a associação com a Décima Legião seja rejeitada, permanece o fato de que Marcos chamou “Legião” à força que domina o homem, que essa força deseja permanecer naquela região e que sua expulsão constitui o centro da narrativa. A hipótese particular pode ser recusada sem que desapareça a dimensão histórica mais ampla do relato.


6. ENTÃO, EXISTIU O DEMÔNIO GERASENO?

Se a pergunta for entendida em sentido estritamente histórico, não temos como demonstrar a existência, fora da narrativa, de um demônio chamado Legião que tenha possuído um homem em Gerasa e posteriormente entrado numa manada de aproximadamente dois mil porcos. Marcos é a fonte que preserva o episódio e não dispomos de uma testemunha independente que permita verificar o acontecimento tal como ele é narrado. Isso, contudo, não torna a narrativa historicamente irrelevante. O que podemos investigar é a forma pela qual uma comunidade do século I representou a possessão, o domínio, a exclusão e a libertação, bem como as experiências históricas que poderiam conferir significado às imagens utilizadas pelo evangelista.

Quando acompanhamos o relato em sua sequência, encontramos uma construção bastante precisa. Um homem é dominado por uma força numerosa; vive afastado da comunidade; ninguém consegue subjugá-lo; a força que fala através dele chama-se “Legião”; ela deseja permanecer naquela região; Jesus ordena que saia; os demônios entram nos porcos; aproximadamente dois mil animais precipitam-se no mar; e o homem reaparece sentado, vestido e em perfeito juízo. O episódio começa com a dominação de um homem e termina com sua libertação. Começa com uma força que ninguém consegue conter e termina com essa força submetida à autoridade de Jesus. Começa com a perda do nome e termina com a recuperação da palavra. A estrutura do relato, portanto, apresenta uma inversão da relação entre aquele que domina e aquele que é dominado.

A hipótese da Legio X Fretensis acrescenta a essa construção um dado histórico de grande interesse. A aproximação entre “Legião”, aproximadamente dois mil porcos, o javali como emblema da Décima Legião e o destacamento de aproximadamente dois mil soldados no contexto da Guerra Judaica não constitui prova suficiente para identificar o demônio com aquela unidade militar, mas oferece uma convergência difícil de ignorar. A hipótese permanece histórica e, portanto, discutível. A ressonância militar da palavra “Legião”, entretanto, possui alcance mais amplo. Ela não depende da identificação de uma unidade específica, pois o próprio nome já pertence ao vocabulário do poder romano.

Por essa razão, o demônio chamado Legião não precisa ser identificado literalmente com Roma. A narrativa continua sendo um exorcismo e a força continua sendo apresentada como demoníaca. O que muda é a percepção do significado histórico de sua representação. Uma força que ocupa o corpo de um homem, domina seus movimentos, impede sua reintegração e reivindica permanecer numa região é representada com o nome de uma instituição militar que, no mundo romano, estava associada precisamente à força, à organização e ao domínio territorial. Jesus não derrota uma legião romana no campo de batalha; derrota, no corpo de um homem, uma força que a narrativa apresenta sob uma imagem militar. A dimensão política não substitui a demonologia: nasce dela.

A pergunta “existiu o demônio geraseno?” conduz, finalmente, a uma questão mais ampla: de que maneira uma comunidade submetida ao poder romano poderia imaginar a libertação? Marcos responde a essa questão por meio de uma narrativa na qual um homem dominado recupera o corpo, o juízo, a casa e a palavra; uma força chamada “Legião” perde o território que pretendia conservar; e a autoridade de Jesus se manifesta justamente onde nenhuma outra autoridade havia conseguido restabelecer a ordem. Não sabemos se existiu, fora da narrativa, o demônio chamado Legião. Sabemos, entretanto, que Marcos escolheu esse nome para a força que dominava o homem e que construiu sua derrota como uma inversão da relação de poder. A narrativa não precisa transformar Roma em demônio para conservar a memória de um mundo no qual Roma exercia domínio. A Legião entra no território como poder, entra no corpo como dominação e sai dele como derrota. O homem permanece — recupera o juízo, retorna à palavra e começa a falar.



REFERÊNCIAS

DORMANDY, Richard. The expulsion of Legion: a political reading of Mark 5:1–20. Expository Times, v. 111, n. 10, p. 335–337, 2000. DOI: 10.1177/001452460011101004.

GARROWAY, Joshua. The invasion of a mustard seed: a reading of Mark 5.1–20. Journal for the Study of the New Testament, v. 32, n. 1, p. 57–75, 2009. DOI: 10.1177/0142064X09339138.

HOGETERP, Albert. Trauma and its ancient literary representation: Mark 5,1–20. Zeitschrift für die Neutestamentliche Wissenschaft, v. 111, n. 1, p. 1–32, 2020. DOI: 10.1515/znw-2020-0001.

JOSEFO, Flávio. The Jewish War. Tradução de G. A. Williamson; revisão e introdução de E. Mary Smallwood. London: Penguin, 1981.

KLINGHARDT, Matthias. Legionsschweine in Gerasa: Lokalkolorit und historischer Hintergrund von Mk 5,1–20. Zeitschrift für die Neutestamentliche Wissenschaft, v. 98, n. 1–2, p. 28–48, 2007. DOI: 10.1515/ZNTW.2007.002.

LAU, Markus. Die Legio X Fretensis und der Besessene von Gerasa: Anmerkungen zur Zahlenangabe „ungefähr Zweitausend“ (Mk 5,13). Biblica, v. 88, n. 3, p. 351–364, 2007. DOI: 10.2143/BIB.88.3.3189005.

MARCUS, Joel. Mark 1–8: a new translation with introduction and commentary. New York: Doubleday, 2000. (Anchor Bible, 27).

MOSCICKE, Hans M. The Gerasene exorcism and Jesus’ eschatological expulsion of cosmic powers: echoes of Second Temple scapegoat traditions in Mark 5.1–20. Journal for the Study of the New Testament, v. 41, n. 3, p. 363–383, 2019. DOI: 10.1177/0142064X18821558.

VETTE, Nathanael. The Son of Man and the sea: hydromachy and conquest in Mark’s sea voyages. Journal for the Study of the New Testament, v. 47, n. 4, p. 576–599, 2025. DOI: 10.1177/0142064X241290655.

ZIEMIŃSKA, Agnieszka B. The Gerasene pericope and disability studies: irony, empire, and (in)complete reintegration in Mk 5.1–20. Journal for the Study of the New Testament, v. 49, n. 1, p. 108–127, 2026. DOI: 10.1177/0142064X261418691.








18 comentários:

Anônimo disse...

Sobre o Texto "Existiu o demônio Geraseno ? ".
Logo ao início do texto, cita o evangelho de Marcos 1,13: e na bíblia Marcos Capítulo 1 Versículo 13 consta "E ali estave no deserto quarenta dias, tentado por satanás "... O texto bíblico sobre a libertação de um jovem Gadareno está nos evangelhos de Mateus 8:28-34, Marcos 5:1-20, Lucas 8:26-39 e Mateus. A explicação sobre os porcos e o mar se dá pois a terra dos gadarenos localizava-se a sudeste do mar da Galiléia, nas proximidades de Gadara, uma das cidades mais importantes da região. Gadara fazia parte das dez cidades que tinham governos independentes e eram habitadas por gentios, constate em Marcos 5:20. Isto explica a existência daquela manada de porcos. Os judeus não criavam estes animais porque eram considerados impuros e também não comiam sua carne. O texto inicia dizendo: "E tendo chegado à outra margem, à provincia dos gadarenos e não em Gadara. " Interpretar os texto é preciso para não ocorrer erros como os comentados neste artigo. Que Deus os abençoe e que o Espírito Santo ilumine vossas mentes questionadoras a Palavra.
Pr. Irani

Flávio Souza disse...

Olá Pr. Irani,

Creio que na ânsia em me refutar, deixastes de ler meu texto (na verdade). Deveria ter atentado para a seguinte passagem:

"De qualquer forma, para que possamos compreender a questão dos porcos, deve-se pontuar que a região de Gerasa (vista em Marcos) ou Gadara (vista em Mateus) fica na região da Decápolis (atual Jordânia), fora da Judéia. Logo, a presença de uma criação de porcos nessa região não é improvável, dado que era habitada por uma cultura não-judaica em sua maioria."

Tal leitura teria lhe poupado (e me poupado) todo o teu comentário. No mais, fico no aguardo dos demais "erros" deste artigo.

Pax Vobiscum

Flávio Souza disse...

Quanto à parte inicial do texto, deveria obviamente ter percebido que se trata de um equívoco de digitação. É óbvio que a passagem do geraseno, por mim citada, não se encontra no capítulo 1 de Marcos. Mas se encontra em Marcos 5,1-13.

Questão de bom senso. De qualquer forma, agradeço pela correção. O texto já foi mudado.

informadordeopiniao disse...

Flávio,

tem uma hipótese (apesar de que sua intepretação alegórica pra mim foi sobremaneira instigante). De que o local foi na atual Kursi, próxima ao mar da Galiléia nas adjacências de Magdala. Magdala era a antiga Gergasa, e é uma região com espigões e penhascos.

Flávio Souza disse...

Umm Qais [http://www.answers.com/topic/umm-qais] seria a antiga Gadara.

Kursi seria a antiga Gergesa [http://www.answers.com/topic/gergesa] e ficaria logo ao lado mar da Galiléia.

Magdala, na verdade, fica no extremo oposto de Kursi (do outro lado do mar da Galiléia)

Creio que temos uma questão interessante sobre diferenças entre manuscritos citando a região dos "gadarenos", "gerasenos" e "gergesenos".

Isso merece uma investigação, Agrodrigons. Boa observação!

Informadordeopiniao disse...

Pois é, Flávio, só haveria um ponto de contato se envolvesse a costa oriental.Ali próximo também estão as colinas de Golan, né?

informadordeopiniao disse...

Pois é, Flávio. Na região oriental do lago Kinneret havia Gerasa, Gadara e Gergesa, de modo que o mesmo "território" poderia muito bem ter recebido os nomes de qualquer um desses municípios.

Há uma dificuldade a mais na passagem, em relação ao prejuizo com os porcos. Bem, poderia ter acarretado a expulsão relatada de Jesus do lugar pelos habitantes. Mas há que se considerar que era comum exorcistas profissionais no contexto, assim, Jesus teria "prestado um serviço" à região, visto que deveria, pelo narrado, ser um demônio de alta cotação no mercado, rsrs. Assim, ele teria libertado a região de um grande suplício, e no custo-benefício com os porcos, ele que deveria ser pago se exigisse. E assim, os porcos, por todo o simbolismo, teria um peso a respeito e humilhação da vitória impingida aos demônios e às forças associadas aos porcos, e a libertação do local significando mais que um exorcismo.

Unknown disse...

ola entao gostaria de entender melhor, como mateus foi escrito por volta de 90 d.c, e a guerra que voce diz,melhor que voce se baseia, por volta 63 e 73 d.c, e que o autor estava influenciado por esses acontecidos,entao chego a uma conclusão me parece que o autor inventou tudo aquilo,se jesus nao curou,se nao tinha demonio,foi so uma figura usada pelo autor,quer dizer onde fica DEUS nesta historia,jesus foi ate lá ou não,ou foi tudo invensão do autor

coracaodedavi disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Servo disse...

Informadordeopiniao.Parabéns.
Aqui VC já matou todo o equivoco.
Sendo Jesus o Senhor que iria e é o Salvador.
Nada de materialismo Ele deixou para nós como exemplo.
Seus discípulos aprenderam obras espirituais. E assim ensinaram.

Servo disse...

Mais uma ótima observação ,e a sua Evelyn se torna detonadora a sobre a conclusão materialista do texto.

Servo disse...

Estou só aprendendo.obrigado.

Servo disse...

Mais uma ótima observação ,e a sua Evelyn se torna detonadora a sobre a conclusão materialista do texto.

Ju e Mário disse...

Olá, estou fazendo um curso de teologia e o meu professor falou que esta passagem confirma a sua tese de que a legião é a de soldados romanos. Os porcos era o símbolo de Roma. Na realidade quando a passagem bíblica fala que os porcos caíram no precipício, retratam que Roma sozinha iria se auto destruir, como de fato ocorreu.

"O" Duarte disse...

Lendo estes relatórios romanos, que são literais, fica mais simples interpretar a passagem com o seguinte.
"Os porcos que se precipitam nas águas, precipitam também os demônios, os espíritos imundos."
Jesus nesta região, e assim como em Jerusalém, profetisa que se não mudarem seus modos e fé, serão destruídos, como foram.
Roma não é a adversária para Jesus, e sim a má conduta espiritual.

Unknown disse...

Jesus é o caminho a verdade a vida muitos erram por querer sempre ser historiadores ou teólogo não que não vejamos estudar tais matéria para termos mais conhecimento não esquecendo que temos que ser ensinado pelo Espiro Santo e a Biblia sempre será a verdade.e o Espeto Santo dar o entendimento

Unknown disse...

FLÁVIO parabéns pelo texto toda essa esplicacao tá no livro de "macabeus" é só ler o livro 1 macabeus capítulo 1 versículo 47 ao 50, mas leia o capítulo todo e se possível o livro todo são dois livros.é só buscar aí mesmo no Google.
E pra lembrar, porque o endemoninhado pediu pra ser jogado em uma vara de porcos, foi porque eles tiveram que fazer sacrifício de porco forçado, porque os judeus faziam sacrifício de bode ou boi, mas depois de todo esse evento os judeus ficaram loucos. Imagina um de nós perder irmão , pai , mãe e ver sua mulher sendo estuprada, seus filhos levados a força e ainda adorar um deus terreno e mudar todo o seu costume ttotalmente radical. Eu me mataria.
Outra coisa, os escritores erraram tanto que nas escrituras tem três lugares diferentes, bem distante um do outro, que chega ser absurdo.
Á e outra coisa tem tanto erros nas escrituras e o povo engolindo seco que além desses lugares diferentes citados do endemoninhado também o coletivo de porcos não é "manada e sim vara" mas vê se algum pregador já viu isso, e saem pregando o engano.
Logo percebemos que esse evento aconteceu antes de JESUS DE NAZARÉ e os escritores pegaram essa passagem do livro apócrifo macabeus, como milhares de outras passagens de livros apócrifo e colocaram na Bíblia evangélica e o povo engolindo seco, sem nenhum entendimento.
Vou pedir um favor a todos que verem esse comentário, não fiquem dando ouvido a pregadores.
Façam pesquisas o Google tem muitas explicações

Anônimo disse...

Ola , Alguem
Aqui em
2023?

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