Estudos sobre Religião - Biblioblog

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

 





Racionalidade situada, conflito, recursos, restrições e disputa pelo alcance da ação

Introdução

A Tetralogia da Guerra Santa pode ser submetida a uma segunda leitura transversal a partir da ação dos agentes que habitam os mundos históricos e narrativos reconstruídos por seus quatro livros. Essa leitura não substitui a arquitetura central da obra nem acrescenta uma nova teoria da soberania ou da eficácia. Seu propósito é introduzir uma perspectiva capaz de acompanhar, em escala concreta, como indivíduos, grupos e instituições atuam em situações caracterizadas por assimetrias de recursos, informação incompleta, expectativas concorrentes, normas compartilhadas, restrições institucionais e respostas recíprocas. A questão deixa de ser apenas quais forças conseguem produzir efeitos sobre corpos, comunidades, instituições ou significados e passa a incluir a maneira pela qual os agentes percebem as situações em que se encontram, reconhecem possibilidades de ação, mobilizam recursos, administram informação, avaliam riscos, respondem a outros agentes e reorganizam suas expectativas diante de acontecimentos que podem ultrapassar aquilo que inicialmente pretendiam realizar. Essa perspectiva permite acompanhar algo que atravessa os quatro livros sem constituir uma nova arquitetura para eles: os acontecimentos não são produzidos por forças abstratas que simplesmente atravessam personagens passivos, mas por agentes situados em campos nos quais toda ação encontra outras ações, recursos desigualmente distribuídos, oportunidades que podem desaparecer e respostas que nenhum agente controla integralmente. A categoria de racionalidade empregada aqui dialoga com a tradição da escolha racional, mas não coincide com sua formulação forte. Em Elster, a escolha racional ocupa lugar central na explicação social, mas exige mais do que a correspondência retrospectiva entre um resultado e algum objetivo que o pesquisador atribua ao agente. A ação deve estar relacionada aos desejos e crenças que a orientam, enquanto a própria racionalidade das crenças depende de sua relação com as evidências disponíveis e com os processos de aquisição de informação. O resultado, portanto, não basta para demonstrar a racionalidade do processo que o produziu. Elster distingue ainda a escolha individual da interação, passando desta para problemas de interação estratégica, normas sociais, formação coletiva de crenças, ação coletiva e instituições. A utilidade dessa contribuição para a Tetralogia não está em converter os episódios dos Evangelhos em modelos formais de maximização, mas em impor uma exigência metodológica: para compreender uma ação, é necessário reconstruir as razões, informações, oportunidades e restrições que tornavam determinada conduta possível ou inteligível, sem confundir o resultado conhecido pelo pesquisador com o conhecimento disponível ao agente.

Fábio Wanderley Reis permite formular uma cautela complementar. A racionalidade perde poder explicativo quando se torna tautológica, isto é, quando toda ação orientada para algum fim é simplesmente declarada racional pelo fato de possuir uma finalidade. A reconstrução da conduta precisa considerar a informação de que o agente dispunha, sua posição no contexto e as condições efetivas nas quais avaliava alternativas. Isso significa que uma ação pode ser inteligível sem ser ótima, uma escolha pode ser plausível sem ser bem-sucedida e uma decisão pode ser orientada por razões reconhecíveis sem que essas razões correspondam à informação que o pesquisador possui retrospectivamente. A racionalidade, nesse registro, não é uma propriedade abstrata do agente, mas uma relação entre ação, informação, posição, objetivos e oportunidades. Essa distinção é especialmente importante para a análise dos Evangelhos, nos quais o leitor conhece antecipadamente acontecimentos que os próprios agentes não conheciam: a prisão de Jesus, sua execução, a destruição de Jerusalém, a continuidade posterior das comunidades e a produção dos próprios textos. A análise histórica não pode devolver esse conhecimento retrospectivo aos personagens. Trata-se, portanto, de uma racionalidade situada e limitada. O agente não escolhe entre todas as possibilidades imagináveis, mas entre aquelas que sua posição histórica torna reconhecíveis, praticáveis ou concebíveis. Recursos materiais, autoridade, reputação, pertencimento, conhecimento, redes de relação, mobilidade, tempo e proteção institucional ampliam ou restringem esse campo. A racionalidade histórica exige que o pesquisador reconstrua, tanto quanto as fontes permitam, esse espaço de possibilidades. Não se trata de atribuir aos agentes a racionalidade retrospectiva do historiador, nem de pressupor uma capacidade de cálculo que as fontes não autorizam. A pergunta é mais precisa: dadas a posição, as informações, as restrições e as expectativas disponíveis, por que determinada conduta podia aparecer como uma resposta inteligível? A pergunta torna-se particularmente produtiva quando aplicada a episódios como a retirada de Jesus depois da prisão de João, em GUERRA, capítulo 1, à fuga e posterior negociação de Josefo no horizonte reconstruído por MEMÓRIA, capítulos 1–2, às controvérsias públicas de Jesus com seus adversários em REINO, capítulos 7–8, ou às retiradas e deslocamentos deliberados que o Evangelho de João apresenta em LOGOS, capítulos 6–9. Em todos esses casos, a análise precisa começar pela situação concreta antes de atribuir à ação qualquer propriedade estratégica.


A distinção entre racionalidade e estratégia

Uma ação pode ser racionalmente inteligível sem ser estratégica. Um agente que age por hábito, por tradição ou por afeto pode ter uma conduta perfeitamente compreensível dentro de sua posição, sem que essa conduta incorpore a consideração da resposta de outros agentes. Do mesmo modo, uma ação pode ser estratégica sem ser plenamente racional no sentido de ótima: um agente pode calcular mal, possuir informações incompletas ou subestimar a resposta do adversário. A estratégia não garante o sucesso; a racionalidade não garante a eficácia. Essa distinção tem consequências metodológicas importantes. Quando analisamos um episódio, precisamos perguntar separadamente:

  • A ação é inteligível dentro da posição do agente? (racionalidade)
  • A ação incorpora a possibilidade de resposta de outros agentes? (estratégia)
  • A ação produz os efeitos pretendidos? (eficácia)
  • A ação controla as consequências que produz? (controle)

As quatro perguntas são independentes. Um agente pode agir racionalmente sem estratégia; pode agir estrategicamente sem eficácia; pode ser eficaz sem controlar as consequências. A análise ganha precisão quando não confunde essas dimensões. A estratégia surge quando a conduta de um agente incorpora, de forma demonstrável ou historicamente plausível, a consideração da ação de outros agentes capazes de responder, resistir, cooperar, negociar, reinterpretar ou modificar sua própria conduta. A teoria dos jogos formaliza essa interdependência, mas a Tetralogia não precisa transformar seus personagens em jogadores dotados de preferências quantificáveis, conjuntos completos de estratégias e informação formalizada. O que interessa é a estrutura relacional subjacente: o agente age sabendo, esperando ou levando em conta que outros podem agir em resposta. Elster trata justamente essa interdependência como uma dimensão específica da interação social. Essa definição permite distinguir, por exemplo, uma cura narrada simplesmente como acontecimento eficaz de uma controvérsia na qual uma resposta é formulada diante de uma acusação pública; permite distinguir a execução de Jesus como exercício de poder de uma sequência na qual Judas, autoridades, Pilatos e soldados ocupam posições distintas e suas ações se articulam; permite ainda distinguir a destruição de Jerusalém como acontecimento militar de sua posterior utilização como objeto de memória, interpretação e reorganização comunitária.

O percurso acadêmico de Bruno Pinheiro Wanderley Reis é particularmente pertinente nesse ponto porque sua atuação articula teoria da escolha racional, teoria dos jogos, ação coletiva e problemas metodológicos da interação. A disciplina Teoria dos Jogos e Escolha Racional, ministrada por ele na UFMG, explicita essa conexão ao propor o estudo sistemático dos rudimentos da teoria dos jogos associado aos problemas metodológicos da abordagem da escolha racional. Essa referência, contudo, deve ser utilizada como fundamento metodológico, não como licença para formalizar artificialmente os episódios da Tetralogia. O ganho está em reconhecer quando uma ação depende da resposta esperada de outros agentes e quando essa dependência não pode ser demonstrada. Assim, quando em REINO, capítulo 7, os adversários procuram colocar Jesus diante de uma armadilha sobre o tributo, a estrutura estratégica é observável na própria composição da pergunta e na resposta que desloca o enquadramento do problema; quando, em REINO, capítulo 8, Jesus responde à pergunta sobre a autoridade com uma contra-pergunta que coloca seus interlocutores diante de alternativas igualmente problemáticas, temos uma interação na qual cada agente precisa considerar não apenas o conteúdo da resposta, mas suas consequências públicas; quando, em LOGOS, capítulo 8, Jesus se retira diante da ameaça de apedrejamento, a estratégia aparece não como plano total, mas como adaptação a uma alteração concreta das condições de segurança.

A consequência dessa distinção é importante: estratégia não é sinônimo de plano abrangente. Um agente pode adaptar sua conduta depois de uma resposta inesperada sem ter previsto o conjunto da situação. Pode negociar uma posição, ocultar informação, escolher um momento, testar uma reação, preservar um recurso, abandonar uma alternativa ou reposicionar-se diante de uma mudança do campo. São formas de ação estratégica mesmo quando não existe um plano mestre. A racionalidade estratégica em cenário de conflito é, nesse sentido, a capacidade situada de orientar a ação levando em consideração a presença de outros agentes capazes de responder, dentro dos limites da informação disponível. Em GUERRA, capítulo 1, a retirada de Jesus para o deserto depois da prisão de João pode ser examinada nesse horizonte de mudança do campo; em GUERRA, capítulo 2, o retiro para lugares desertos depois da expansão da fama e da pressão das multidões pode ser lido como preservação de margem de ação, desde que se mantenha a distinção entre aquilo que o texto afirma e aquilo que o historiador infere; em LOGOS, capítulo 6, a retirada de Jesus para o monte depois de perceber que a multidão pretendia fazê-lo rei constitui caso ainda mais explícito, pois a narrativa apresenta diretamente uma iniciativa coletiva e uma resposta que evita a posição que outros procuram impor-lhe.


As modalidades da ação

A varredura dos quatro livros permite identificar seis modalidades recorrentes dessa ação: confronto, informação, posicionamento, relação, temporalidade e continuidade. Elas não constituem seis tipos rígidos de comportamento. São ângulos de observação que permitem reconhecer diferentes maneiras pelas quais um agente procura agir dentro de um campo relacional. O confronto aparece quando a ação responde diretamente a uma força adversária; a informação, quando saber, ocultar, transmitir ou interpretar altera as possibilidades de conduta; o posicionamento, quando o agente procura ocupar ou preservar uma posição no campo; a dimensão relacional, quando a ação depende de alianças, adversários, seguidores, patronos ou comunidades; a temporalidade, quando o momento da ação altera suas possibilidades; e a continuidade, quando preservar uma capacidade futura se torna parte do problema presente. GUERRA concentra sobretudo confronto, assimetria e mobilização; MEMÓRIA desloca o problema para informação, sobrevivência, interpretação e continuidade; REINO torna visíveis relações, reciprocidades, posições e recursos sociais; LOGOS radicaliza informação, reconhecimento, ocultamento, testemunho e disputa pelo significado.

Essas modalidades produzem uma sequência que atravessa a obra sem reduzi-la a um esquema único: agir, responder, adaptar, reposicionar, preservar. O interesse dessa sequência está justamente em sua dinâmica. O agente age; outro agente responde; a resposta altera o campo; o primeiro precisa adaptar-se; a adaptação pode modificar sua posição; e determinada capacidade pode ser preservada para uma etapa posterior. Em GUERRA, capítulos 1–3, essa dinâmica aparece na expansão da atuação de Jesus, na formação do grupo de discípulos, no crescimento da fama e na reação crescente de adversários; em REINO, capítulos 7–9, aparece nas controvérsias públicas, nas armadilhas, nas contra-perguntas e nas respostas que reorganizam o campo da disputa; em LOGOS, capítulos 6–9, aparece nas retiradas, no deslocamento entre espaços, na intensificação das ameaças e na decisão de permanecer ou retirar-se conforme as condições se alteram. A história emerge, assim, não como execução linear de intenções previamente estabelecidas, mas como processo de interação no qual cada ação altera parcialmente as condições das ações seguintes.


A dimensão afetiva da ação

A racionalidade situada não é a única dimensão da ação. Os agentes também são movidos por afetos que orientam suas escolhas e modulam suas estratégias. O medo pode levar à fuga, à negociação ou à violência; a esperança pode sustentar a perseverança; a indignação pode produzir revolta; o luto pode produzir memória; a lealdade pode produzir sacrifício. Em GUERRA, o medo produzido pelos sicários (Josefo, Guerra II.13.3) altera as condições de reconhecimento mútuo dentro da comunidade. A indignação diante da Lei queimada mobiliza a população. Em MEMÓRIA, o luto pela destruição de Jerusalém produz lamentação, mas também memória e esperança. Em REINO, a compaixão de Jesus diante das multidões (Mc 6,34) orienta sua ação de ensino e alimentação. Em LOGOS, o medo dos discípulos (Jo 20,19) os mantém escondidos, enquanto o amor de Jesus por seus discípulos (Jo 13,1) orienta sua ação até o fim.

O afeto não precisa ser tratado como o oposto da racionalidade. Ele pode integrar a avaliação situada que orienta a ação. O medo, a esperança, a indignação, o luto e a lealdade fazem parte das condições motivacionais dentro das quais os agentes avaliam situações, riscos e possibilidades. A análise deve, portanto, evitar tanto a redução da ação a cálculo instrumental quanto a transformação do afeto em explicação alternativa que dispense a reconstrução das condições concretas da conduta.


A dimensão corporal da ação

A ação não é apenas cálculo, informação ou relação. Ela é também corporal. O corpo é o lugar onde a ação se torna visível — o corpo curado, o corpo possuído, o corpo crucificado — e o instrumento pelo qual a ação se realiza — a palavra, o toque, o deslocamento, o silêncio. Em GUERRA, o corpo é o primeiro campo de batalha. A cura, o exorcismo e a restauração são ações corporais que produzem efeitos observáveis. O corpo do agente, Jesus, é também instrumento de sua ação: ele toca, fala, desloca-se e se retira. Em MEMÓRIA, o corpo destruído de Jerusalém e o corpo destruído de Jesus tornam-se lugares de memória. Em REINO, a mesa é uma ação corporal que produz pertencimento: comer juntos, servir, acolher. Em LOGOS, o corpo do Logos é o lugar onde a identidade se torna perceptível: ver, ouvir, tocar.

A dimensão corporal não é secundária. Ela é constitutiva da ação. O agente não age apenas com a mente; age com o corpo. A análise da ação racional estratégica ganha precisão quando reconhece que o corpo é o meio da ação e que a ação sobre o corpo — cura, violência, alimentação, punição — constitui uma forma decisiva de intervenção.


A temporalidade da ação

A ação não ocorre apenas em um momento; ela tem uma duração, uma sequência e um ritmo. Algumas ações são instantâneas — a palavra que cura, o gesto que expulsa —; outras são prolongadas — a missão dos Doze, a formação da comunidade, a transmissão da memória. Algumas ações são sequenciais — a controvérsia que se desenrola em etapas —; outras são simultâneas — a multiplicidade de agentes na paixão. A temporalidade da ação tem consequências estratégicas. Um agente pode escolher o momento de agir — Jesus vai à festa "de modo reservado" (Jo 7,10). Pode esperar o momento oportuno — Jesus não se entrega à confiança das pessoas (Jo 2,24). Pode prolongar uma ação para produzir efeitos cumulativos — a formação dos Doze. Pode interromper uma ação para preservar capacidade — a retirada diante da ameaça.

Em GUERRA, a temporalidade aparece na sequência ação → reação → adaptação → reposicionamento. Em MEMÓRIA, aparece na distinção entre o tempo do acontecimento e o tempo da interpretação. Em REINO, aparece na tensão entre inauguração e consumação. Em LOGOS, aparece na relação entre a "hora" de Jesus e o tempo dos agentes históricos. A análise da ação ganha profundidade quando não se limita ao momento da ação, mas considera sua duração, sua sequência e seu ritmo.


A dimensão coletiva da ação

A ação não é apenas individual. Ela é também coletiva. Grupos, comunidades, instituições e multidões agem — e a análise da ação racional estratégica precisa considerar essa dimensão. A ação coletiva coloca problemas específicos. Quem decide? Quem executa? Quem responde? Como as decisões são tomadas? Como os recursos são distribuídos? Como os conflitos internos são resolvidos? Em GUERRA, a escolha dos Doze e a missão delegada são ações coletivas que envolvem delegação, distribuição de autoridade e coordenação. Em MEMÓRIA, a comunidade pós-pascal é uma ação coletiva que envolve memória, testemunho e transmissão. Em REINO, a mesa é uma ação coletiva que envolve pertencimento, reciprocidade e reconhecimento. Em LOGOS, a comunidade joanina é uma ação coletiva que envolve reconhecimento, testemunho e continuidade.

A ação coletiva não é simplesmente a soma das ações individuais. Ela possui propriedades emergentes: coordenação, divisão de trabalho, formação de normas e produção de identidade. A análise precisa considerar como a ação coletiva é produzida, quem participa dela e que efeitos ela produz. A dimensão coletiva também coloca o problema da responsabilidade. Quando uma ação é coletiva, a responsabilidade é distribuída. Quem é responsável pela morte de Jesus? Judas, as autoridades, Pilatos, os soldados, a multidão? A resposta não é simples. A análise da ação coletiva precisa distribuir a responsabilidade sem dissolvê-la.


A dimensão normativa e ética da ação

A ação não é apenas instrumental. Ela é também normativa e ética. Os agentes não apenas calculam meios para atingir fins; eles também avaliam se os meios e os fins são legítimos, justos ou corretos. Essa dimensão é particularmente importante no mundo dos Evangelhos, onde as disputas sobre a Lei, a pureza, a autoridade, a justiça, a misericórdia e a fidelidade são centrais. Em GUERRA, as controvérsias sobre o sábado, a pureza e a autoridade são disputas normativas. Não se trata apenas de saber o que fazer, mas o que é correto fazer. Em REINO, as parábolas questionam os critérios pelos quais uma relação é considerada justa. Em LOGOS, a disputa diante de Pilatos envolve também a questão de quem possui autoridade para definir a verdade.

A dimensão normativa não é oposta à racionalidade estratégica. Um agente pode agir estrategicamente em nome de normas que reconhece, utilizar normas para legitimar sua ação ou contestar normas que considera inadequadas. A análise da ação ganha precisão quando considera como normas e valores entram na definição dos objetivos, na escolha dos meios e na avaliação das consequências.


As consequências não intencionais da ação

A ação produz consequências que o agente não pretendia e não controla. Essas consequências não intencionais são uma dimensão constitutiva da ação, não simplesmente um acidente que poderia ser evitado mediante maior cálculo. Mesmo quando o agente possui razões reconhecíveis, informação suficiente para agir de maneira plausível e capacidade efetiva de intervenção, o resultado pode emergir da interação com outros agentes e produzir efeitos que ultrapassam seu horizonte. Em GUERRA, a instrução de silêncio de Jesus (Mc 1,44) produz o efeito contrário: a notícia se espalha. A execução de Jesus produz a memória que a execução pretendia encerrar. Em MEMÓRIA, a destruição de Jerusalém produz uma interpretação que o vencedor não controla. Em REINO, a parábola dos vinhateiros mostra lavradores que calculam que eliminar o filho produzirá vantagem, mas cujo resultado ultrapassa seu cálculo. Em LOGOS, a inscrição de Pilatos — "O que escrevi, escrevi" — produz uma disputa de significado que ele não controla.

As consequências não intencionais não precisam ser explicadas como falha de racionalidade. Elas podem resultar da interação de múltiplas ações em um campo complexo. O agente age com a informação que possui, mas o resultado emerge também da resposta dos demais agentes, das propriedades do contexto e de processos que escapam à sua capacidade de controle. A análise da ação ganha profundidade quando não se limita às intenções do agente, mas considera os efeitos que a ação efetivamente produz.


A dimensão hermenêutica da ação

A ação não é apenas produção de efeitos; é também interpretação de situações. Os agentes não agem em um mundo inteiramente indiferenciado; agem em situações que interpretam. A mesma circunstância pode ser interpretada de maneiras diferentes por agentes diferentes — e essas interpretações orientam suas ações. Em GUERRA, a cura no sábado é interpretada por Jesus como libertação e pelos fariseus como violação da Lei. A possessão do geraseno é apresentada como domínio demoníaco e como oportunidade de libertação. Em REINO, a controvérsia sobre o tributo é uma armadilha para Jesus e um teste de sua posição pública para seus adversários. Em LOGOS, a prisão de Jesus é interpretada pelos discípulos como derrota, enquanto o Evangelho a reconstrói teologicamente como parte da glorificação.

A dimensão hermenêutica da ação tem consequências estratégicas. O agente que interpreta a situação de uma maneira pode escolher ações que outro agente, diante da mesma situação, não escolheria. A análise precisa, portanto, considerar não apenas o que o agente faz, mas como ele interpreta a situação em que age e quais possibilidades essa interpretação torna visíveis ou invisíveis.


A dimensão cosmológica da ação

A ação, no universo representado pelos Evangelhos, não é exclusivamente humana. Deus, Satanás, espíritos e anjos aparecem como agentes ou forças dotados de capacidade causal dentro da própria lógica narrativa. A análise histórica precisa reconhecer essa dimensão sem converter entidades cosmológicas em agentes humanos nem atribuir-lhes categorias psicológicas que as fontes não autorizam. Em GUERRA, o exorcismo é apresentado como confronto entre uma autoridade superior e uma força adversária. Em REINO, o "Reino de Satanás" aparece como soberania adversária que se opõe ao Reino de Deus. Em LOGOS, o "príncipe deste mundo" aparece como força cuja derrota integra a estrutura teológica do Evangelho.

A dimensão cosmológica pertence, portanto, ao universo de ação representado pelas fontes. Ela pode ser analisada em sua lógica interna — autoridade, oposição, expulsão, vindicação, derrota — sem ser confundida com a reconstrução histórica das intenções dos agentes humanos. Essa distinção é metodologicamente indispensável. Quando o texto atribui ação a uma força demoníaca, o pesquisador pode analisar o modo como essa agência é representada; não precisa transformá-la em psicologia estratégica nem tratá-la como equivalente analítico de Pilatos, Josefo ou Jesus histórico. A dimensão cosmológica também recoloca o problema da soberania. Quem possui autoridade última? Deus, Satanás, Roma, Jesus? A resposta depende do nível de análise. A narrativa pode representar diferentes pretensões de soberania, mas a reconstrução histórica deve manter distintos o universo teológico das fontes e o campo empiricamente reconstruível das ações humanas.


A dimensão epistemológica da ação

A ação não é apenas produção de efeitos; ela também produz e reorganiza conhecimento. Os agentes aprendem com suas ações e com as respostas que recebem. A ação revela aspectos do mundo, dos outros agentes e das próprias posições ocupadas. Em GUERRA, a cura revela a autoridade atribuída a Jesus; o exorcismo revela a força do adversário dentro da lógica narrativa; a rejeição revela oposição. Em MEMÓRIA, a catástrofe revela a fragilidade das instituições; a memória revela mecanismos de continuidade identitária. Em REINO, a controvérsia revela posições dos adversários; a mesa revela critérios de pertencimento. Em LOGOS, o reconhecimento revela a identidade de Jesus; o testemunho revela a verdade do acontecimento segundo a perspectiva narrativa.

A dimensão epistemológica possui consequências estratégicas porque respostas recebidas podem alterar decisões posteriores. O agente que aprende pode adaptar sua conduta; o agente que não aprende pode persistir em uma conduta ineficaz. A análise ganha precisão quando considera como informação é produzida, adquirida, interpretada e utilizada ao longo da trajetória dos agentes.


A dimensão identitária da ação

A ação não é apenas instrumental; ela também é identitária. Os agentes constituem e reafirmam suas identidades por meio de suas ações. O que alguém faz contribui para definir quem é, tanto para si mesmo quanto para os demais. Em GUERRA, a ação de Jesus — curar, exorcizar, ensinar, confrontar — participa da constituição de sua identidade narrativa como profeta e messias, enquanto a ação dos discípulos — seguir, testemunhar, anunciar e curar — participa da constituição de sua identidade como seguidores. Em MEMÓRIA, a ação da comunidade — recordar, transmitir e esperar — constitui uma identidade marcada pela memória. Em REINO, convidar, servir e partilhar participam da constituição do pertencimento ao Reino. Em LOGOS, reconhecer, testemunhar e permanecer constituem a identidade da comunidade do Logos.

A identidade também restringe possibilidades de ação. Um agente não dispõe indefinidamente de todas as alternativas imagináveis sem comprometer a posição que ocupa. Compromissos anteriores, pertencimentos, reputações e papéis reconhecidos tornam algumas condutas mais custosas ou menos plausíveis do que outras. A análise da ação ganha precisão quando considera como a identidade simultaneamente amplia e restringe o campo das alternativas.


A dimensão política da ação

A ação é também política. Os agentes organizam a vida coletiva, distribuem recursos, definem regras, legitimam autoridades e produzem pertencimentos. Em GUERRA, a ação de Jesus e dos discípulos organiza uma comunidade alternativa. Em MEMÓRIA, a ação das comunidades reorganiza a vida coletiva depois da catástrofe. Em REINO, a ação dos agentes redefine critérios de autoridade, pertencimento e riqueza. Em LOGOS, a ação da comunidade constitui uma forma de vida que não se confunde integralmente com a ordem imperial.

A dimensão política da ação tem consequências estratégicas porque organizar uma coletividade significa criar instituições, distribuir recursos, estabelecer normas e produzir mecanismos de coordenação. A análise precisa considerar como essas ações transformam o campo no qual os agentes posteriores atuarão.


A dimensão escatológica da ação

A ação não é apenas presente; ela é também escatológica. Os agentes agem em relação a expectativas sobre um futuro último: a vinda do Reino, a ressurreição, o julgamento e a consumação. Em GUERRA, a ação de Jesus é orientada pela expectativa do Reino. Em MEMÓRIA, a ação da comunidade é orientada pela expectativa de restauração. Em REINO, a ação se desenvolve na tensão entre inauguração e consumação. Em LOGOS, a ação da comunidade é organizada pela expectativa da manifestação plena da vida e da glória.

A expectativa de um futuro último modifica o valor atribuído ao presente. Pode sustentar a perseverança, relativizar vantagens imediatas, justificar renúncias ou conferir sentido ao sofrimento. A análise da ação ganha precisão quando considera como expectativas sobre o futuro entram na definição das escolhas presentes, sem pressupor que todos os agentes possuam a mesma concepção do futuro ou a mesma disposição diante dele.


A dimensão soteriológica da ação

A ação, nos Evangelhos, pode também ser apresentada como soteriológica. Os agentes não apenas intervêm em situações; determinadas ações são representadas como produtoras ou transmissoras de salvação. Em GUERRA, cura e exorcismo libertam o corpo, restauram a pessoa e reintegram o excluído. Em MEMÓRIA, memória e testemunho preservam identidade, mantêm esperança e abrem possibilidades de futuro. Em REINO, mesa e serviço produzem pertencimento e antecipam, no plano narrativo, a ordem do Reino. Em LOGOS, reconhecimento e testemunho tornam a identidade de Jesus acessível à comunidade e produzem continuidade.

A dimensão soteriológica não deve ser reduzida a uma estratégia instrumental. Ela pertence ao universo teológico das fontes. Historicamente, pode-se analisar quem realiza determinadas práticas, quais relações elas reorganizam e que efeitos comunitários produzem; teologicamente, pode-se acompanhar o modo como os Evangelhos interpretam essas práticas como salvação. A distinção entre esses níveis impede que uma categoria seja utilizada para substituir a outra.


A dimensão doxológica da ação

A ação também pode ser doxológica. Os agentes louvam, glorificam, confessam e testemunham. Essas práticas não são simples epifenômenos das ações anteriores: produzem reconhecimento, consolidam identidades e contribuem para a continuidade comunitária. Em GUERRA, curas e exorcismos produzem admiração e louvor a Deus. Em MEMÓRIA, memória e testemunho alimentam louvor e esperança. Em REINO, mesa e serviço produzem reconhecimento e gratidão. Em LOGOS, reconhecimento e testemunho culminam na confissão de fé: "Meu Senhor e meu Deus".

A dimensão doxológica deve ser compreendida no interior da lógica religiosa das fontes. Sua relevância para a teoria da ação está no fato de que práticas de louvor e confissão também produzem vínculos, reafirmam pertencimentos, transmitem interpretações e preservam uma determinada compreensão do acontecimento. A ação comunitária, portanto, não termina na intervenção inicial; ela continua na maneira pela qual a comunidade reconhece e transmite aquilo que considera ter acontecido.





I — GUERRA

Ação, confronto e assimetria de recursos

Em GUERRA, a ação estratégica aparece em sua forma mais imediatamente reconhecível porque o livro constrói progressivamente um campo de conflito no qual corpos, autoridades, territórios, grupos e formas de pertencimento estão submetidos a relações assimétricas. Jesus, discípulos, populações locais, autoridades religiosas, elites políticas, forças adversárias e poder romano não dispõem das mesmas capacidades de coerção, mobilização, reconhecimento ou circulação. A diferença entre esses recursos condiciona as possibilidades concretas de ação. O poder romano dispõe de recursos militares, jurídicos e administrativos em escala incomparável àquela dos grupos locais; autoridades religiosas possuem posições institucionais e redes de reconhecimento; Jesus mobiliza palavra, autoridade, cura, exorcismo, refeição, deslocamento, reunião e interpretação das Escrituras; discípulos e multidões dispõem sobretudo de capacidades de adesão, circulação, transmissão e resposta. A ação racional, nesse ambiente, só pode ser compreendida a partir da posição ocupada pelo agente dentro desse campo desigual. GUERRA, capítulo 1, já apresenta essa assimetria quando a atuação de Jesus se desenvolve em um espaço no qual a ordem política romana constitui o horizonte estrutural da vida social, embora não seja necessário transformar cada episódio em reação direta a Roma. O que a varredura acrescenta é que a assimetria não produz apenas diferença de poder. Ela produz diferença de repertório estratégico. Quem possui força coercitiva pode ameaçar, prender ou executar; quem não possui esse recurso pode recorrer à mobilização, à circulação, à associação, à recusa, à fuga, ao testemunho ou à construção de legitimidade. Não existe uma única forma de ação racional porque os agentes não partem do mesmo lugar. Uma estratégia possível para uma autoridade imperial pode ser impossível para uma população subordinada; uma forma de resistência disponível a uma comunidade pode ser inviável para um indivíduo isolado. Essa diferença pode ser observada em GUERRA, capítulo 3, quando Jesus, depois da intensificação do conflito em torno das curas e controvérsias sabáticas, se retira com os discípulos enquanto os adversários passam a articular uma resposta contra ele. A retirada não elimina o conflito; modifica a posição do agente dentro dele.

O primeiro capítulo de GUERRA já permite observar essa estrutura. A ordem imperial não é simplesmente uma vontade única executada de cima para baixo. Ela envolve autoridades com problemas específicos, elites locais com interesses próprios, populações submetidas e grupos que podem responder de maneiras diferentes à coerção. A manutenção da ordem combina recursos materiais, administração, demonstração de força, negociação e gestão das expectativas. A resistência também possui gradações e repertórios diversos. A ação estratégica, portanto, não deve ser procurada apenas nos grandes confrontos militares. Ela aparece também no modo como agentes escolhem quando resistir, quando negociar, quando recuar, quando ocultar intenções ou quando preservar capacidade para uma oportunidade posterior. Essa ressalva é importante porque impede que Roma se transforme em um agente onipresente: Roma é uma condição estrutural decisiva, mas não explica automaticamente cada escolha de cada agente. O Manual de Guerra, desenvolvido em GUERRA, capítulo 2, ganha aqui uma função metodológica ainda mais precisa. Ele permite reconhecer configurações de conflito nas quais aparecem sujeição ou domínio, autoridade interventora, transformação perceptível e produção de significado além do indivíduo. Não descreve uma técnica militar antiga e não pressupõe que os agentes tenham formulado conscientemente o modelo. Seu valor é heurístico. Ao mesmo tempo, a própria regra "se o Manual explicar tudo, não explica nada" deve ser aplicada à estratégia. Nem toda ação eficaz é estratégica; nem toda resistência constitui planejamento; nem todo confronto demonstra cálculo antecipado. O modelo deve funcionar como instrumento de seleção de problemas, não como mecanismo capaz de converter qualquer episódio em prova da própria teoria.

O primeiro grande núcleo estratégico aparece em GUERRA, capítulo 1, quando João Batista desenvolve sua atuação pública e Jesus inicia sua própria atividade depois da prisão de João. A sucessão narrativa apresenta uma alteração importante das condições do campo. A prisão de João constitui um acontecimento que modifica o ambiente em que Jesus passa a agir. A retirada para o deserto e, posteriormente, o início da atividade pública não precisam ser interpretados como evidência de um cálculo político consciente que o texto não explicita; podem, contudo, ser analisados como condutas situadas diante de condições alteradas. O mesmo capítulo apresenta a formação inicial do grupo de seguidores, com Simão e André abandonando as redes e Tiago e João deixando o pai e os trabalhadores contratados. A adesão não é apenas uma mudança individual de crença: produz uma nova capacidade relacional. A ação de Jesus começa a contar com pessoas que podem acompanhar, transmitir, deslocar-se e atuar em seu nome. O recurso estratégico fundamental aqui não é a força coercitiva, mas a constituição de uma capacidade coletiva. Em GUERRA, capítulo 2, a expansão da fama de Jesus introduz outro problema. Depois da cura do leproso, Jesus recomenda que ele não divulgue o acontecimento, mas a notícia se espalha, aumentando a pressão das multidões. O episódio é particularmente importante porque apresenta uma tensão entre controle da informação e efeito da informação. Jesus pode formular uma instrução de silêncio, mas não controla o comportamento posterior do destinatário nem a circulação social da notícia. O resultado estratégico ultrapassa a intenção imediata. O mesmo capítulo mostra Jesus retirando-se para lugares desertos enquanto as pessoas o procuram. A retirada pode ser compreendida como preservação de margem de ação diante da pressão da multidão, mas a inferência precisa permanecer proporcional à evidência: o texto demonstra a retirada e demonstra a pressão; a intenção estratégica é uma reconstrução plausível, não uma declaração explícita do narrador.

Em GUERRA, capítulo 2, as controvérsias sobre o perdão dos pecados, a refeição com publicanos e pecadores e o debulhar das espigas acrescentam outra dimensão: o confronto pode ocorrer no nível da definição da situação. Quando os escribas questionam a autoridade de Jesus para perdoar pecados, quando os fariseus questionam sua refeição com publicanos ou quando contestam a conduta dos discípulos no sábado, a disputa não consiste simplesmente em produzir um efeito material. Os agentes procuram estabelecer qual norma deve governar a situação e quem possui autoridade para interpretá-la. Jesus responde deslocando os termos do confronto. A estratégia, quando a categoria é pertinente, consiste menos em "vencer" o adversário do que em impedir que o adversário imponha unilateralmente o enquadramento pelo qual a ação será julgada. Em GUERRA, capítulo 3, a cura no sábado torna ainda mais explícita a interação. A narrativa apresenta fariseus e herodianos articulando-se contra Jesus depois do episódio. A resposta de Jesus é a retirada com os discípulos, enquanto a atuação pública prossegue em outro registro. Aqui temos um caso especialmente útil porque o texto fornece uma sequência observável: ação → reação adversária → alteração das condições → reposicionamento. Não precisamos supor um plano de longo prazo. Basta reconhecer que a conduta posterior ocorre em um campo modificado pela reação de outros agentes.

O mesmo capítulo apresenta a escolha dos Doze "para que ficassem com ele, para enviá-los a pregar e terem autoridade para expulsar demônios". A ação possui uma dimensão organizacional que merece maior atenção. Jesus não apenas reúne seguidores; cria uma estrutura de delegação. A autoridade deixa de estar concentrada exclusivamente em sua atuação imediata e passa a ser distribuída. Essa distribuição amplia alcance, circulação e capacidade de intervenção. O envio dos Doze, desenvolvido em GUERRA, capítulo 4, torna a estrutura ainda mais clara: os discípulos são enviados dois a dois, recebem instruções específicas sobre deslocamento, hospitalidade, rejeição e anúncio. O episódio constitui um caso forte de ação estratégica por delegação: uma capacidade construída no centro da comunidade é distribuída para operar em outros lugares. Em GUERRA, capítulo 4, a missão dos Doze também mostra que toda ampliação de capacidade produz novas dependências. Os enviados dependem de acolhimento, enfrentam rejeição e precisam decidir como responder à recepção encontrada. A ação não ocorre em ambiente controlado. A missão produz resultados diferentes conforme as comunidades respondem. A estratégia, portanto, não está apenas no envio; está na necessidade de operar sob condições que o agente não controla. A própria estrutura de "ir", "ser recebido" e "ser rejeitado" mostra que a ação depende da resposta de terceiros.

O episódio geraseno, analisado em GUERRA, capítulos 4–5, radicaliza a dimensão relacional. A força que a narrativa apresenta como demoníaca reconhece Jesus, responde à sua presença, negocia e procura preservar determinada condição. A análise histórica não precisa resolver a ontologia da entidade para perceber que o texto constrói uma relação de agentes com capacidades assimétricas de resposta. "Legião" acrescenta uma ressonância política que pode ser explorada sem reduzir o episódio à alegoria simples de Roma. Roma não é simplesmente Satanás, assim como Satanás não é simplesmente Roma. A potência do episódio está precisamente na sobreposição controlada entre dominação, violência, possessão, autoridade e restauração. A própria negociação sobre os porcos mostra que uma intervenção pode produzir consequências que envolvem terceiros e recursos econômicos, deslocando o episódio do plano exclusivamente individual para o plano social. A questão do exorcismo também ganha maior precisão. Os exorcismos não devem ser isolados como especialidade profissional de Jesus. Eles aparecem dentro de um campo messiânico mais amplo, no qual anúncio do Reino, autoridade, confronto com forças adversárias, exorcismo, cura, restauração, reunião de Israel, conflito e vindicação se articulam. O gesto exorcístico pode, portanto, ser lido como ação que intervém sobre uma situação reconhecida como problemática e que produz respostas capazes de modificar a posição de Jesus perante outros agentes. Sua dimensão estratégica não está em supor que Jesus calculava previamente todos os efeitos do exorcismo, mas em observar que a intervenção altera o campo de relações no qual sua autoridade passa a ser reconhecida, contestada ou ampliada.

Em GUERRA, capítulo 5, a multiplicação dos pães, a concentração da multidão, a retirada de Jesus para o monte e o episódio da caminhada sobre o mar introduzem novamente a administração da massa e do espaço. O aspecto estratégico não deve ser exagerado, mas existe uma recorrência significativa: Jesus não permanece simplesmente disponível à multidão em todos os momentos. A narrativa apresenta concentração, dispersão, retirada e retorno. O espaço torna-se recurso. O deslocamento torna-se uma forma de reorganizar as condições da interação. O mesmo padrão reaparece quando multidões procuram Jesus em Gennesaret, após a travessia: a fama produz adesão, mas também reduz a possibilidade de controlar o ambiente em que a ação ocorre. A paixão, concentrada em GUERRA, capítulos 6–9, apresenta o problema em sua forma mais complexa. Judas entrega Jesus; autoridades participam da condução; Pilatos exerce jurisdição; soldados executam. A cadeia não constitui uma estratégia única. São agentes diferentes, com diferentes interesses, recursos, graus de autonomia e informações. O acontecimento comum resulta da articulação dessas ações. O ponto decisivo é que a convergência do resultado não prova a convergência das intenções. A sequência pode ser analisada como uma cadeia de ações parcialmente coordenadas, parcialmente sobrepostas e parcialmente independentes. A eficácia final da coerção romana não autoriza atribuir a todos os agentes a mesma intenção nem transformar cada participante em executor consciente de um único projeto.

Em GUERRA, capítulo 9, a execução de Jesus torna especialmente visível a diferença entre eficácia e controle. A ação romana sobre o corpo é eficaz. A execução produz uma transformação irreversível. Mas a eficácia não equivale a controle integral das consequências. O poder pode eliminar fisicamente um indivíduo e, ainda assim, não controlar aquilo que seguidores, adversários ou comunidades posteriores farão com sua memória. Aqui GUERRA já contém o germe daquilo que MEMÓRIA desenvolverá: a capacidade de produzir o acontecimento não é idêntica à capacidade de controlar sua trajetória posterior.



II — MEMÓRIA

Ação depois da derrota

MEMÓRIA desloca o problema estratégico para uma situação em que determinadas ações já não podem alterar o acontecimento original. A destruição de Jerusalém, a derrota militar e a perda de estruturas institucionais produzem uma alteração profunda do campo de possibilidades. A questão passa a ser como agir depois de uma transformação que não pode ser desfeita. Sobreviventes, autores e comunidades precisam selecionar informações, reconstruir acontecimentos, preservar identidades, reinterpretar perdas e organizar expectativas diante de uma realidade modificada. MEMÓRIA, capítulo 7, torna esse problema particularmente nítido ao trabalhar a destruição de Jerusalém como uma derrota efetiva cuja interpretação não se encerra com o acontecimento militar. O problema estratégico muda porque o objeto da ação já não pode ser simplesmente o evento passado.

A descoberta mais importante aqui é que a estratégia não termina quando termina a capacidade de alterar o acontecimento. Ela muda de objeto. O agente que já não pode modificar a derrota pode procurar preservar recursos, reorganizar alianças, proteger informação, construir memória, explicar a catástrofe ou preparar condições de continuidade. Perder capacidade de agir sobre o evento não significa perder toda capacidade de agir sobre suas consequências. Essa mudança aparece com especial clareza quando o capítulo 7 coloca em relação a destruição de Jerusalém e a posterior necessidade de produzir uma interpretação da derrota. O império consegue impor a derrota material; não possui, por esse simples fato, monopólio absoluto sobre a memória que dela nascerá. Josefo oferece um caso privilegiado porque sua própria trajetória combina conflito, informação, negociação, sobrevivência e produção narrativa. O episódio de Jotapata, analisado em MEMÓRIA, capítulo 2, é especialmente importante para o problema da ação estratégica: a posição de Josefo, sua relação com os adversários, a administração de informação e a negociação de sua própria sobrevivência não pertencem a um simples modelo de "derrota". Há decisões tomadas dentro de um campo radicalmente assimétrico. A narrativa de Josefo sobre a guerra mostra, inclusive, episódios de adaptação estratégica dos dois lados: tentativas de surpresa, preparação contra emboscadas, cercamento para impedir fuga, construção de fortificações, surtidas dos sitiados, destruição de suprimentos, mudanças de estratégia diante de informações sobre água e vigilância e negociação quando as condições militares se tornam insustentáveis.

A escrita de Josefo, portanto, deve ser compreendida também como ação situada. Ele não recupera Jerusalém pela escrita, mas dispõe de um recurso que outros agentes não possuem: a capacidade de produzir uma representação literária da guerra para públicos diversos. A memória torna-se instrumento de posicionamento. Não é necessário atribuir a Josefo uma intenção totalizante para reconhecer que a seleção dos acontecimentos, dos agentes e das explicações possui consequências sobre a maneira como a guerra pode ser compreendida. O historiador moderno deve, contudo, distinguir três níveis: o acontecimento reconstruído, a representação que Josefo produz dele e a função que essa representação pode desempenhar em seu contexto de circulação. Essa análise é desenvolvida em MEMÓRIA, capítulos 2 e 8. A hipótese de "derrota real + interpretação adiada", desenvolvida em MEMÓRIA, capítulo 7, ganha aqui uma formulação estratégica mais precisa. A derrota é efetiva; o espaço de ação material diminui; mas o campo interpretativo continua aberto. Agentes posteriores podem mobilizar a catástrofe para justificar, preservar, contestar ou reorganizar identidades. A memória não age sozinha. São agentes que selecionam, preservam, transmitem e reinterpretam o passado. A distinção é fundamental porque impede que "memória" se transforme em sujeito abstrato. O que existe historicamente são práticas de memória realizadas por pessoas, comunidades, autores e instituições submetidos a restrições concretas.

A relação entre memória e informação também merece maior destaque. Depois da catástrofe, o problema não é apenas "o que lembrar", mas quem sabe o quê, quem pode transmitir o quê, quem é acreditado e quais versões conseguem circular. A informação passa a constituir recurso estratégico. Uma comunidade que controla uma tradição, um testemunho ou uma interpretação possui uma capacidade diferente daquela de uma comunidade que depende de fontes externas. A formação coletiva de crenças também pode alterar as expectativas dos agentes. Em MEMÓRIA, capítulo 7, a destruição de Jerusalém torna essa questão particularmente aguda: a derrota não elimina a disputa sobre sua explicação, e a disputa sobre a explicação pode influenciar a maneira pela qual comunidades posteriores compreendem sua própria posição histórica. A destruição de Jerusalém também reorganiza o horizonte temporal. O passado tornou-se irreversível; o futuro permanece incerto. Agentes posteriores precisam decidir como agir em um mundo no qual as condições anteriores desapareceram. A racionalidade não consiste em restaurar imaginariamente o mundo perdido, mas em reorganizar a ação dentro das novas condições. A comunidade que passa a viver depois de 70 d.C. não dispõe simplesmente das mesmas alternativas que existiam antes da guerra. A derrota constitui uma restrição objetiva que precisa ser incorporada às novas escolhas.

A memória, desse modo, é simultaneamente recurso e restrição. Ela oferece repertórios, identidades e interpretações, mas também delimita aquilo que pode ser esquecido sem custo. Uma comunidade que se define pela catástrofe não pode agir como se a catástrofe não tivesse ocorrido. O passado torna-se parte do ambiente estratégico das escolhas presentes. A força dessa perspectiva, em MEMÓRIA, está justamente em mostrar que o fim de determinada capacidade material não coincide com o fim da ação histórica.


III — REINO

Ação, relações e recursos sociais

Em REINO, a estratégia aparece onde uma leitura exclusivamente militar dificilmente a procuraria: nas relações ordinárias. Mesa, riqueza, patronagem, honra, reciprocidade, autoridade, pertencimento e serviço são recursos por meio dos quais agentes ocupam posições e constroem expectativas. A ordem social constitui um campo estratégico porque os participantes dependem das ações uns dos outros, mesmo quando não estão em confronto aberto. O capítulo inicial de REINO, ao apresentar a gramática do Reino como inversão, abertura, redefinição e julgamento, já estabelece a necessidade de observar não apenas quem possui força, mas quem consegue modificar relações sociais e expectativas compartilhadas. Aqui a contribuição de Fábio Wanderley Reis torna-se especialmente importante. Sua crítica à concepção tautológica da racionalidade não exige abandonar interesses e cálculo; exige inserir esses elementos em contextos concretos de informação, posição e identidade. Seu trabalho sobre identidade e escolha racional mostra justamente que pertencimentos e identidades podem entrar na própria estrutura da interação estratégica. A racionalidade não precisa ser reduzida a maximização material. Essa consideração é decisiva em REINO, porque muitos dos recursos mobilizados pelos agentes são relacionais: honra, pertencimento, reconhecimento, reciprocidade e reputação.

A mesa, sobretudo nos capítulos que tratam das refeições e da abertura do círculo de pertencimento, é talvez o laboratório mais evidente. Quem convida, quem pode retribuir, quem ocupa o lugar de honra, quem serve e quem recebe sem possibilidade de retribuição são posições que envolvem recursos, expectativas e normas. Uma refeição pode reproduzir uma hierarquia ou interferir nela. A abertura da mesa pode modificar relações de pertencimento. A ação de convidar alguém socialmente marginalizado produz uma resposta não apenas individual, mas relacional: outros participantes precisam reinterpretar sua própria posição diante daquela escolha. O Reino, nesse nível, não aparece como uma abstração futura, mas como intervenção nas condições concretas pelas quais pessoas reconhecem umas às outras. Zaqueu, analisado em REINO, capítulo 5, permite aprofundar o problema. A riqueza aparece como recurso econômico, mas também como recurso relacional. Ela permite estabelecer dependências, acumular reconhecimento, produzir obrigações e sustentar posições. Quando a narrativa reorganiza a relação de Zaqueu com seus bens e com aqueles sobre os quais exercera determinada posição econômica, não está simplesmente descrevendo uma conversão psicológica. Está apresentando uma alteração nas relações que constituem sua posição social. O anúncio de restituição possui consequência material; a resposta de Jesus possui consequência pública; e a multidão, que anteriormente murmurava, integra o campo de reconhecimento no qual a mudança é interpretada.

A autoridade apresenta problema semelhante. REINO, capítulo 5, ao trabalhar Marcos 10:42–45, não precisa ser transformado em programa político moderno para ser analisado como intervenção sobre uma estrutura de expectativas. A autoridade é redefinida a partir do serviço. Isso modifica o valor atribuído às posições dentro do grupo e, potencialmente, as recompensas simbólicas associadas a elas. A ação intervém na gramática social da autoridade. O problema estratégico não consiste em afirmar que Jesus teria elaborado uma teoria administrativa do poder, mas em perceber que a redefinição do que significa exercer autoridade altera o repertório de condutas disponíveis aos membros do grupo. A riqueza, a patronagem e a reciprocidade tornam visível outro elemento: nem todo recurso estratégico é materialmente coercitivo. Reputação, pertencimento, reconhecimento, informação e capacidade de acolhimento também são recursos. Um agente pode possuir pouco dinheiro e ainda assim possuir grande capacidade de mobilizar pessoas; pode carecer de coerção institucional e possuir autoridade carismática; pode estar materialmente subordinado e controlar uma informação decisiva. Em REINO, capítulos 4–5, as práticas de mesa, esmola, oração, jejum e reciprocidade mostram justamente que a ação social pode operar por meio de expectativas e reconhecimento, sem depender da coerção.

As instruções sobre esmola, oração e jejum em segredo, particularmente em REINO, capítulo 4, introduzem ainda um caso explícito de administração da visibilidade. A ação religiosa possui uma audiência potencial, e o texto recomenda que determinadas práticas não sejam convertidas em demonstração pública de reputação. O ponto estratégico é claro: controlar a exposição de uma ação pode alterar os efeitos sociais que dela resultam. A diferença entre agir e exibir a ação passa a ser relevante. A reputação, nesse contexto, constitui recurso, mas também pode tornar-se custo quando a ação é interpretada como busca deliberada de reconhecimento. A instrução sobre não lançar o que é santo aos cães e não oferecer pérolas aos porcos, também em REINO, capítulo 4, apresenta uma dimensão correlata de seletividade da informação. O texto não oferece uma teoria geral da comunicação, mas reconhece que nem toda informação deve ser distribuída indistintamente. A administração do destinatário faz parte da própria ação. A prudência diante de públicos diferentes pode constituir um componente estratégico sem exigir um cálculo formal.

A hipótese relativa aos saduceus, desenvolvida em REINO, capítulo 7, também deve ser tratada nessa chave. "Preservação da ordem das coisas" é uma hipótese sobre posição e estrutura, não uma explicação psicológica total. Josefo e Atos oferecem materiais que permitem investigar posições institucionais, interesses e conflitos, mas não autorizam reduzir os agentes a caricaturas de conservadorismo interessado. O procedimento mais forte é reconstruir os recursos de que dispunham, aquilo que podiam perder, as normas que reconheciam e as respostas disponíveis diante de mudanças na ordem. As controvérsias de REINO, capítulo 7, oferecem talvez os exemplos mais nítidos de interação estratégica em todo o corpus. Fariseus e herodianos formulam uma pergunta sobre o tributo com intenção de colocar Jesus diante de uma alternativa politicamente perigosa. Jesus reconhece a estrutura da armadilha, solicita a moeda e devolve a pergunta em termos diferentes. O episódio é importante porque o agente não responde simplesmente ao conteúdo literal da pergunta; responde também à situação estratégica em que a pergunta foi produzida. O mesmo padrão aparece em REINO, capítulo 8, quando chefes dos sacerdotes, escribas e anciãos questionam a autoridade de Jesus. A contra-pergunta sobre João Batista devolve aos interlocutores o problema que pretendiam impor. Quando eles recusam responder, Jesus também recusa responder. Trata-se de uma interação na qual o controle da pergunta constitui parte do conflito pelo controle da situação.

O episódio dos vinhateiros, também em REINO, capítulo 8, fornece um caso diferente porque a racionalidade estratégica aparece dentro de uma parábola. Os lavradores raciocinam sobre a herança e concluem que eliminar o filho pode produzir vantagem. A narrativa oferece explicitamente uma cadeia de crença, expectativa e ação. O caso é útil para a teoria da ação precisamente porque mostra que uma decisão pode ser racional segundo a informação e as expectativas dos agentes e, ao mesmo tempo, produzir um resultado que os ultrapassa. A parábola não deve ser tratada automaticamente como registro histórico de um grupo específico; seu valor para este estudo é analítico e narrativo. A ação no Templo, analisada em REINO, capítulos 3 e 7–8, acrescenta outra dimensão. A intervenção de Jesus modifica um espaço densamente institucionalizado e produz reação dos chefes dos sacerdotes e escribas, que passam a procurar uma forma de eliminá-lo. Aqui a cadeia é particularmente clara: intervenção → reação institucional → alteração do risco → necessidade de reposicionamento. A ação de Jesus não precisa ser reduzida a um plano político para produzir efeitos estratégicos. Basta observar que ela interfere em recursos, símbolos e posições de agentes que, por sua vez, respondem.

A possibilidade de duas etapas do Reino acrescenta a dimensão temporal em REINO, apêndice I. Se anúncio, sinais e práticas inaugurais não coincidem com a consumação, os agentes precisam viver dentro de um intervalo. Testemunhar, transmitir, reunir, acolher, lembrar e organizar a comunidade tornam-se formas de preservação de capacidade. A espera deixa de ser simples passividade. Ela exige decisões. A articulação com GUERRA, capítulo 1, e MEMÓRIA, capítulo 7, torna o argumento particularmente forte: a derrota não encerra necessariamente a reivindicação; ela produz um intervalo no qual testemunho, memória, missão e transmissão mantêm aberta uma capacidade de continuidade. O ponto não é afirmar que os primeiros cristãos tenham formulado um plano institucional consciente para administrar o atraso escatológico. A análise é mais rigorosa quando identifica o problema estrutural: uma comunidade que espera uma consumação futura precisa produzir continuidade presente. Essa continuidade pode emergir de normas, práticas reiteradas, compromissos, liderança e transmissão, sem que exista um plano centralizado. REINO acrescenta, assim, uma dimensão que GUERRA e MEMÓRIA não poderiam fornecer sozinhos: a ação estratégica pode ocorrer na própria reprodução cotidiana da ordem social. A disputa não acontece apenas quando alguém ataca ou resiste. Ela também acontece quando agentes reorganizam quem pode sentar-se à mesa, quem deve servir, quem pode receber, quem pode liderar, quem pertence e quais recursos conferem reconhecimento.



IV — LOGOS

Ação, informação e disputa pelo reconhecimento

LOGOS desloca a análise para o problema do reconhecimento. A pergunta deixa de ser apenas quem consegue produzir um acontecimento e passa a ser quem consegue estabelecer as categorias pelas quais esse acontecimento será compreendido. O poder imperial possui capacidade material de prender, interrogar, julgar, executar e inscrever. Mas produzir um acontecimento não significa controlar integralmente aquilo que outros agentes farão com ele. A ação estratégica passa, nesse livro, pela administração da informação, pela escolha de quando aparecer ou retirar-se, pela preservação da própria posição, pela produção de testemunho e pela disputa sobre a classificação de Jesus. O Evangelho de João apresenta já em LOGOS, capítulo 2, uma formulação particularmente importante: Jesus não se entrega à confiança das pessoas porque conhece o que há nelas. Independentemente do estatuto teológico dessa formulação, a narrativa constrói uma diferença entre presença pública e confiança seletiva. O agente não trata todos os interlocutores como equivalentes. A informação que possui sobre eles altera sua disposição relacional. A confiança deixa de ser simples estado psicológico e passa a funcionar como recurso de administração da relação.

Em LOGOS, capítulo 4, o deslocamento pela Samaria introduz outra dimensão. Jesus envia os discípulos à cidade em busca de alimento enquanto permanece junto ao poço e conversa com a mulher samaritana. A conversa produz uma cadeia de testemunho: a mulher retorna à cidade, fala com os habitantes e estes se deslocam até Jesus. O episódio mostra como informação e testemunho podem ampliar o alcance de uma ação sem que o agente controle diretamente cada etapa da circulação. A própria comunidade que recebe a informação torna-se agente da sua transmissão. LOGOS, capítulo 5, apresenta uma escalada de conflito depois da cura no sábado. A autoridade sobre o sábado, a relação entre Jesus e o Pai e a questão do julgamento tornam-se elementos de uma disputa na qual as autoridades passam da contestação à intenção de matá-lo. A ação produz resposta institucional. A resposta, por sua vez, altera o campo em que Jesus atua. O Evangelho não apresenta essa sequência como uma negociação política convencional, mas a estrutura de interação é reconhecível.

João 6, desenvolvido em LOGOS, capítulo 6, introduz um dos casos mais fortes de estratégia por retirada. Depois da multiplicação dos pães, a multidão pretende fazer Jesus rei, e Jesus se retira sozinho para o monte. O episódio é importante porque apresenta explicitamente uma iniciativa coletiva destinada a atribuir-lhe determinada posição e uma resposta que rejeita essa atribuição. A retirada não é ausência de ação; é uma ação que impede a incorporação do agente a uma estratégia produzida por terceiros. A multidão possui capacidade de reconhecimento e mobilização; Jesus responde recusando a posição que ela procura construir. Em LOGOS, capítulo 7, os irmãos de Jesus recomendam que ele vá publicamente à Judeia para demonstrar suas obras. Jesus responde que seu tempo ainda não chegou e, posteriormente, vai à festa de modo reservado. A narrativa apresenta, portanto, uma relação entre tempo, visibilidade e risco. A exposição pública não é tratada como variável indiferente. O agente escolhe quando aparecer. Mais tarde, autoridades enviam guardas para prendê-lo, mas estes retornam sem efetuar a prisão. A situação mostra que a autoridade institucional não se traduz automaticamente em capacidade operacional. Entre a decisão de prender e a execução da prisão existe uma cadeia de agentes, interpretações e condições.

LOGOS, capítulo 8, radicaliza o problema quando Jesus se retira diante da ameaça de apedrejamento. Novamente, não se trata de um plano total; trata-se de adaptação a uma alteração imediata do risco. A ação preserva a possibilidade de continuar atuando. A estratégia aparece como gestão da exposição. O mesmo princípio reaparece quando Jesus escapa das mãos daqueles que pretendem prendê-lo e atravessa novamente o Jordão. O deslocamento espacial constitui uma forma concreta de preservar capacidade. A história de Lázaro, analisada em LOGOS, capítulo 9, torna esse mecanismo ainda mais explícito. Depois da ressurreição de Lázaro, as autoridades passam a considerar seriamente a eliminação de Jesus, e ele se retira para Efraim. Paralelamente, as autoridades ordenam que qualquer pessoa que souber onde ele está o denuncie. Temos aqui uma configuração clássica de informação, vigilância e risco. Saber a localização de um agente torna-se recurso; ocultar essa informação torna-se capacidade defensiva; a ordem institucional procura transformar terceiros em fontes de informação. A ação de um agente modifica as decisões dos outros, e essas decisões alteram novamente o campo.

O mesmo capítulo mostra que a ameaça não se limita a Jesus: os chefes dos sacerdotes também decidem matar Lázaro porque muitos passam a acreditar em Jesus. O acontecimento produz, portanto, uma cadeia de efeitos estratégicos que alcança terceiros. A tentativa de eliminar a fonte do problema não resolve necessariamente a circulação do testemunho; pode ampliar o número de alvos e, com isso, modificar a própria estrutura do conflito. Em LOGOS, capítulo 9, a entrada em Jerusalém e a chegada de gregos que procuram Jesus introduzem a questão do reconhecimento em escala ampliada. A narrativa apresenta uma mudança de horizonte: a hora da glorificação se aproxima. Historicamente, a interpretação precisa ser cautelosa; teologicamente, o Evangelho organiza esses acontecimentos como progressão deliberada. A análise da ação deve preservar essa diferença. O narrador sabe o que acontecerá; os agentes históricos não necessariamente.

A paixão, sobretudo em LOGOS, capítulos 7–8, concentra a dimensão estratégica da obra. Judas conhece o lugar onde Jesus costuma reunir-se; as autoridades chegam acompanhadas de guardas e soldados; Jesus sabe quem o procura e pergunta a quem procuram. Quando responde "sou eu", a narrativa atribui à identificação uma força própria. Em seguida, Jesus pede que deixem os discípulos partir. O episódio contém uma combinação de informação, reconhecimento, controle da interação e proteção de terceiros. A ação não impede a prisão, mas reorganiza parcialmente quem será atingido por ela. O episódio de Pedro, em LOGOS, capítulo 7, introduz outro caso importante: um agente reage à prisão com violência física, e Jesus interrompe essa resposta. Aqui aparece a diferença entre capacidade disponível e estratégia adotada. Pedro possui uma arma e age imediatamente; isso não significa que exista um plano militar coerente. Jesus, ao contrário, recusa a escalada. O episódio mostra que diferentes agentes podem interpretar a mesma situação de formas diferentes e escolher respostas distintas porque possuem objetivos ou avaliações diferentes.

A sequência diante de Pilatos, em LOGOS, capítulo 7, amplia o problema para a jurisdição imperial. Pilatos possui autoridade institucional; os chefes religiosos possuem capacidade de mobilizar acusação e pressão pública; a multidão participa do campo de decisão; Jesus é objeto de classificação. A formulação "não temos outro rei senão César" funciona narrativamente como peça decisiva na disputa pelo enquadramento político do caso. Não é necessário supor que todos os participantes compartilhassem a mesma concepção de poder. O interesse analítico está justamente em observar como diferentes agentes mobilizam categorias políticas para produzir uma decisão. A inscrição da cruz, em LOGOS, capítulo 7, constitui talvez o exemplo mais concentrado da disputa pelo reconhecimento. Pilatos ordena uma inscrição que identifica Jesus como "rei dos judeus"; os chefes dos sacerdotes pedem alteração; Pilatos recusa. O poder imperial controla o corpo e a inscrição pública, mas a disputa pela formulação demonstra que nomear o acontecimento é também disputar seu significado. O gesto administrativo torna-se elemento de uma disputa que ultrapassa a intenção imediata dos participantes.

O problema da continuidade aparece em LOGOS, capítulos 8–9, quando os discípulos, inicialmente escondidos, passam a receber testemunho, reconhecimento e instruções para continuar a missão. O medo inicial mostra uma comunidade submetida a restrições concretas; o testemunho e a memória reorganizam suas possibilidades. Novamente, não é necessário transformar essa sequência em um plano institucional plenamente consciente. Basta reconhecer que uma comunidade submetida à ameaça precisa preservar informação, confiança, identidade e capacidade de transmissão para continuar existindo. Essa dimensão é fundamental para compreender a blindagem cristológica. Ela não protege Jesus contra a violência. O corpo sofre. A execução é real. A operação consiste em impedir que a classificação produzida pelo poder se torne a explicação suficiente daquele corpo. O poder consegue produzir a morte; não possui necessariamente controle absoluto sobre aquilo que a comunidade fará com o acontecimento. LOGOS desloca, assim, a ação estratégica para o limite entre acontecimento e reconhecimento.

O Logos, nesse sentido, constitui o limite superior da análise da ação estratégica. Não devemos transformar a teologia joanina em estratégia psicológica de um personagem. O nível teológico e o nível histórico-agentivo precisam permanecer distintos. O Evangelho pode realizar uma operação narrativa de grande alcance sem que essa operação seja atribuída a um cálculo estratégico de Jesus histórico. A estratégia aparece, quando demonstrável, nas ações dos agentes humanos: retirada, testemunho, resposta, transmissão, reconhecimento, preservação de identidade. A cristologia pertence a outro nível explicativo. Essa separação fortalece, e não enfraquece, a leitura.



CONCLUSÃO

Agir, responder, adaptar, reposicionar, preservar

A varredura dos quatro livros permite formular com maior precisão o que a leitura da ação acrescenta à Tetralogia da Guerra Santa. GUERRA mostra agentes atuando sob conflito e assimetria; MEMÓRIA, agentes atuando depois que determinadas capacidades foram destruídas; REINO, agentes reorganizando relações, recursos e posições dentro da ordem social; LOGOS, agentes disputando reconhecimento, informação e significado. Não se trata de uma sequência teleológica na qual cada livro supera o anterior. São quatro configurações diferentes de ação, quatro campos nos quais a racionalidade precisa ser reconstruída a partir das condições efetivas de cada agente. O que se altera de um livro para outro não é a existência da ação, mas o tipo de restrição predominante e, consequentemente, o repertório de respostas que se torna historicamente possível. O elemento transversal aparece na dinâmica: agir → responder → adaptar → reposicionar → preservar. Um agente age dentro de determinado campo; outro responde; a resposta modifica as condições da ação; o primeiro adapta sua conduta; essa adaptação pode alterar sua posição; e determinadas capacidades precisam ser preservadas para que novas ações permaneçam possíveis. A história emerge dessa sucessão sem exigir que qualquer agente controle o conjunto. A fórmula não deve ser tomada como uma sequência rígida aplicável a todos os episódios, mas como uma descrição da interdependência que se torna observável quando os quatro livros são relidos conjuntamente. Em GUERRA, capítulos 1–4, a retirada depois da reação adversária, a formação dos Doze e a missão delegada mostram adaptação e expansão de capacidade; em MEMÓRIA, a ação passa a incidir sobre sobrevivência, informação e interpretação; em REINO, a interação reorganiza relações e posições; em LOGOS, a disputa se concentra progressivamente sobre reconhecimento, exposição, testemunho e significado.

Essa dinâmica também permite integrar as seis modalidades identificadas na varredura. Confronto diz respeito à relação direta com forças adversárias. Informação diz respeito à aquisição, ocultação, transmissão e interpretação de conhecimentos relevantes. Posicionamento diz respeito à ocupação ou preservação de lugares no campo social e político. Relação diz respeito à dependência entre agentes, alianças, adversários, seguidores, patronos e comunidades. Temporalidade diz respeito ao momento da ação e à alteração das oportunidades ao longo do tempo. Continuidade diz respeito à preservação de capacidades, identidades, recursos e possibilidades futuras. Em GUERRA, essas dimensões aparecem sobretudo na relação entre confronto, mobilização e assimetria; em MEMÓRIA, entre derrota, informação e continuidade; em REINO, entre relações sociais, recursos e posicionamento; em LOGOS, entre informação, temporalidade e reconhecimento. Essas categorias não devem funcionar como uma grade aplicada mecanicamente aos textos. Elas são instrumentos de controle. Quando um episódio apresenta resposta de outro agente, podemos perguntar se existe estratégia. Quando apresenta apenas uma ação eficaz, não precisamos inventar estratégia. Quando existe informação relevante, podemos perguntar quem a possui e quem não a possui. Quando ocorre reposicionamento, podemos investigar o que mudou no campo. Quando uma capacidade é preservada, podemos perguntar quais alternativas futuras permanecem abertas. Essa disciplina é especialmente importante porque o material evangélico frequentemente apresenta resultados narrativamente organizados e, portanto, pode induzir o pesquisador a atribuir aos agentes um grau de coordenação que pertence ao narrador.

A contribuição de Elster é particularmente útil porque permite manter juntas escolha, interação e consequências não intencionais. Sua arquitetura teórica não reduz a ação à escolha isolada: inclui interação estratégica, normas sociais, formação coletiva de crenças, ação coletiva e instituições. A Tetralogia pode aproveitar essa estrutura sem importar integralmente o aparato formal da teoria dos jogos. A distinção entre escolha, interação e resultado permite compreender por que a ação de um agente pode ser inteligível, a resposta de outro igualmente inteligível e o resultado conjunto ainda assim não corresponder integralmente ao objetivo de nenhum dos dois. Fábio Wanderley Reis oferece o segundo controle necessário: não transformar racionalidade em sinônimo de qualquer ação orientada por fins. A análise precisa reconstruir informação, posição e contexto. Isso permite falar em racionalidade sem atribuir ao agente o conhecimento retrospectivo do historiador. A aplicação desse princípio percorre os quatro livros. O pesquisador conhece a trajetória posterior de Jesus; os agentes de GUERRA não. Conhece o resultado da guerra judaica; os agentes de MEMÓRIA viveram diferentes momentos de incerteza. Conhece o desenvolvimento posterior do cristianismo; os agentes de REINO não dispunham dessa perspectiva. Conhece a forma final do Evangelho de João; os agentes de LOGOS não são simplesmente equivalentes ao narrador que os apresenta. Bruno Reis fornece um terceiro elemento: a interação estratégica como problema metodológico próprio. Seu trabalho acadêmico e sua atuação docente explicitamente articulam teoria dos jogos e escolha racional, o que reforça a utilidade de pensar a estratégia em termos de interdependência das ações, sem exigir que os casos históricos sejam convertidos em jogos formais. A consequência metodológica é importante: não precisamos perguntar quais seriam os payoffs exatos de Pilatos, Jesus, Josefo ou das autoridades para reconhecer que suas condutas dependem de expectativas sobre o comportamento de outros. Basta demonstrar que a possibilidade de resposta de terceiros entrou nas condições da ação.

O resultado é uma definição mais precisa da categoria central:

Racionalidade estratégica em cenário de conflito é a capacidade situada de orientar a ação levando em consideração, dentro dos limites da informação disponível, a presença de outros agentes capazes de responder, resistir, cooperar, negociar, reinterpretar ou alterar as condições da ação.

A formulação contém quatro controles. Situada, porque a ação depende da posição concreta do agente. Limitada, porque a informação nunca coincide com o conhecimento retrospectivo do pesquisador. Estratégica, porque a conduta incorpora a possibilidade de resposta de outros agentes. Relacional, porque o efeito da ação depende do campo de interação em que ela ocorre. Essas quatro dimensões impedem que a categoria se transforme em psicologia especulativa. Não precisamos saber o que um agente "realmente pensava" para reconstruir determinadas condições estratégicas; precisamos demonstrar, com base na fonte, que determinadas alternativas, informações, riscos e respostas faziam parte de sua situação.

A partir daí, uma distinção pode organizar toda a leitura:

  • A racionalidade diz respeito à orientação inteligível da ação.
  • A estratégia diz respeito à interdependência das ações.
  • A eficácia diz respeito aos efeitos produzidos.
  • O controle diz respeito à extensão efetivamente alcançada por esses efeitos.
  • A continuidade diz respeito à preservação de capacidade para ações posteriores.
  • O significado diz respeito à disputa posterior pela interpretação dos acontecimentos.

Essa distinção resolve um problema que aparecia nas formulações anteriores. Não precisamos mais perguntar simplesmente se Jesus, Pilatos, Josefo, os discípulos, as autoridades ou as comunidades "tinham uma estratégia". A pergunta pode ser decomposta: que problema enfrentavam? Que recursos possuíam? Que informação estava disponível? Quais alternativas podiam reconhecer? Quem poderia responder? Que resposta efetivamente ocorreu? Como o agente se adaptou? Que posição preservou ou perdeu? Que efeito produziu? E até onde conseguiu controlar esse efeito? Em GUERRA, capítulos 2–4, essas perguntas iluminam a gestão da informação, a formação dos Doze e a delegação de autoridade; em MEMÓRIA, capítulos 2 e 7, iluminam a relação entre derrota, memória e interpretação; em REINO, capítulos 7–8, iluminam as controvérsias e contra-perguntas; em LOGOS, capítulos 6–9, iluminam retiradas, vigilância, testemunho, prisão, jurisdição e disputa pelo reconhecimento.

GUERRA mostra o início dessa cadeia no confronto. MEMÓRIA demonstra que ela continua depois da derrota. REINO mostra que ela também opera na organização cotidiana das relações. LOGOS demonstra que ela alcança o reconhecimento e a disputa pelo significado. A consequência metodológica é decisiva: o poder de produzir um acontecimento não equivale ao poder de controlar sua trajetória. Roma pode prender e executar. Não pode, por esse simples fato, controlar tudo o que será lembrado. Uma autoridade pode excluir. Não pode necessariamente controlar o modo como a exclusão será narrada. Um agente pode impor uma classificação. Não pode garantir que essa classificação será a última. Uma comunidade pode sofrer uma derrota. Não pode simplesmente recuperar o mundo perdido, mas pode preservar recursos para reorganizar sua existência sob condições novas. A mesma estrutura aparece em escala menor nos episódios individuais: Jesus pode pedir silêncio, mas não controla necessariamente a circulação da notícia; autoridades podem ordenar uma prisão, mas não garantem que os agentes executores conseguirão realizá-la; Pilatos pode determinar uma inscrição, mas não controla o universo posterior de interpretações que ela produzirá.

A Tetralogia da Guerra Santa encontra, nessa diferença entre ação e resultado, uma dimensão particularmente fértil da sua própria arquitetura. GUERRA pergunta como agentes intervêm no mundo; MEMÓRIA, como continuam agindo depois que o mundo foi alterado; REINO, como a ação reorganiza relações; LOGOS, como agentes preservam e disputam reconhecimento quando o poder procura encerrar o significado de um acontecimento. A ação racional não substitui nenhuma dessas perguntas. Ela permite observá-las em escala agentiva, acompanhando o modo pelo qual capacidades, restrições e respostas recíprocas atravessam cada uma delas. A unidade transversal deixa de ser, portanto, uma teoria abstrata da racionalidade. É uma investigação sobre capacidades situadas em interação. Agentes não controlam tudo, mas também não são meros objetos de forças estruturais. Eles possuem recursos, reconhecem oportunidades, enfrentam restrições, respondem a outros agentes, aprendem com respostas, adaptam condutas, preservam capacidades e produzem consequências que podem ultrapassar suas intenções. Essa posição intermediária é metodologicamente decisiva: evita tanto o voluntarismo, que transforma a história em execução de planos individuais, quanto o estruturalismo absoluto, que reduz os agentes a simples efeitos de forças que os transcendem.

A fórmula final pode ser ainda mais simples — e, ao mesmo tempo, mais rigorosa:Agir é intervir em um campo de possibilidades. Agir estrategicamente é intervir levando em conta que outros também podem agir. O resultado nasce da interação. O alcance da ação depende do que o agente consegue efetivamente controlar. E a história continua onde termina o controle de cada agente.

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