
No meu texto anterior, terminei afirmando que Jesus provavelmente não nasceu em Belém da Judeia e que a associação entre o nascimento de Jesus e aquela cidade parece estar relacionada, em boa medida, a uma elaboração teológica das primeiras comunidades cristãs. A questão, entretanto, não pode terminar aí. Se retirarmos, ainda que provisoriamente, Belém da Judeia da equação, surge imediatamente uma pergunta muito mais difícil: onde, então, poderia ter nascido Jesus? A resposta mais intuitiva seria Nazaré, não apenas porque Jesus aparece reiteradamente nas tradições cristãs como “Jesus de Nazaré”, mas porque a arqueologia contemporânea tornou impossível sustentar com seriedade a antiga ideia de que Nazaré simplesmente não existia no período em que Jesus viveu. Durante muito tempo, a escassez de referências literárias e de vestígios arqueológicos conhecidos alimentou dúvidas acerca da existência da localidade no início do século I. A pesquisa arqueológica mais recente, entretanto, modificou substancialmente esse quadro. O trabalho desenvolvido por Ken Dark e pelo Nazareth Archaeological Project, entre outras pesquisas, permite hoje reconhecer Nazaré como uma comunidade rural judaica existente no período romano inicial. Dark observa que, embora as fontes escritas sobre Nazaré sejam extraordinariamente escassas, a arqueologia fornece informações consideravelmente mais amplas sobre sua configuração física, sua economia e sua vida cotidiana, chegando à conclusão de que as evidências confirmam a existência de uma comunidade agrícola no século I.
Isso modifica substancialmente o problema. Nazaré não precisa mais ser defendida como uma espécie de exceção arqueológica produzida pelo texto cristão. Ela aparece diante de nós como uma pequena comunidade rural da Galileia romana. E talvez seja precisamente essa característica que torne a questão historicamente interessante. A arqueologia não encontrou em Nazaré uma grande cidade, um centro administrativo ou um importante núcleo urbano comparável a Jerusalém. O que emerge é uma comunidade constituída por famílias, com estruturas domésticas, instalações agrícolas, silos, cisternas, áreas de cultivo, pedreiras e atividades artesanais. O quadro corresponde muito mais ao universo rural da Galileia do início do período romano do que à imagem de uma cidade propriamente dita. Essa constatação é importante porque nos permite abandonar uma falsa alternativa: a inexistência de uma grande cidade não significa a inexistência de um assentamento. Nazaré podia ser pequena, pobre e praticamente invisível para os grandes historiadores da Antiguidade — e ainda assim ser precisamente o lugar que os evangelhos identificam como a origem social e geográfica de Jesus. A pesquisa arqueológica contemporânea, portanto, não apenas confirma a existência de Nazaré no período pertinente; ela começa a permitir uma reconstrução do tipo de comunidade em que Jesus teria crescido.
Nesse ponto, vale recuperar integralmente a passagem de Crossan utilizada na primeira versão deste texto, porque ela continua sendo particularmente importante para a nossa discussão:
"Entre 1955 e 1960, o erudito franciscano Bellarmino Bagatti fez escavações em Nazaré sob a velha Igreja da Anunciação, já demolida na época, e em outras propriedades franciscanas que se estendiam para o noroeste, em direção à Igreja de São José, que pertencia à mesma ordem. Ele resumiu suas descobertas de forma sucinta: "Em termos cronológicos, temos tumbas de meados da Idade do Bronze [c. 2.000-1500 a.E.C.]; silos com cerâmicas de meados da Idade do Ferro [c.900-539 a.E.C.]; e depois, sem interrupções, cerâmicas e construções que vão desde o Período Helenístico [c. 332-63 a.E.C.] até os tempos atuais" (Bagatti 1.29-32). Os vestígios das primeiras ocupações, entretanto, são bastante escassos, enquanto os da ocupação final são abundantes. Portanto, apesar de haver alguns indícios de uma fundação mais antiga, "no século II a.E.C. voltamos a encontrar uma grande quantidade de artefatos, o que indica que a aldeia foi fundada novamente neste período (...). Isso significa que a aldeia tinha menos de duzentos anos no século I E.C." (Meyers & Strange, 57, 184, nota 36). “
CROSSAN, John Dominic. O Jesus histórico: a vida de um camponês judeu do mediterrâneo. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1994, p. 50.
A arqueologia posterior não tornou essa passagem obsoleta; ao contrário, tornou possível refiná-la. O trabalho de Ken Dark no sítio das Sisters of Nazareth é particularmente relevante. As investigações identificaram evidências de ocupação doméstica no período romano inicial, posteriormente incorporadas a estruturas cristãs de períodos posteriores. O ponto mais interessante, contudo, está justamente na cautela do próprio arqueólogo: não é possível demonstrar que a estrutura identificada seja a casa em que Jesus cresceu. Dark considera impossível, com as evidências atualmente disponíveis, provar ou refutar essa identificação. O que pode ser afirmado com segurança é algo diferente: o sítio contém uma estrutura doméstica do século I e contribui para a reconstrução arqueológica de Nazaré naquele período. A distinção é fundamental. Encontrar uma casa do século I em Nazaré não significa encontrar a casa de Jesus; encontrar uma comunidade judaica do século I em Nazaré significa, porém, tornar historicamente plausível o cenário no qual as tradições sobre Jesus o situam.
A questão se torna ainda mais interessante quando deixamos a arqueologia e voltamos aos próprios evangelhos. Se Nazaré era uma comunidade real e se Jesus foi tão fortemente associado a ela que a designação “nazareno” se tornou parte de sua identidade, por que Mateus e Lucas introduzem Belém da Judeia como local de nascimento? A resposta tradicional é conhecida: porque Jesus seria o Messias davídico, e Belém era a cidade de Davi. Mas justamente aqui precisamos separar a função teológica da tradição de sua possível memória histórica. Mateus constrói uma narrativa na qual o nascimento em Belém se articula diretamente com a tradição davídica e com a perseguição de Herodes; Lucas, por sua vez, utiliza o recenseamento para deslocar José e Maria de Nazaré para Belém. O problema é que essas narrativas não são facilmente conciliáveis entre si nem com o restante da tradição neotestamentária. O historiador precisa, portanto, perguntar não apenas “o que o texto afirma?”, mas também “por que o texto afirma isso?”. Essa distinção é decisiva. A existência de uma narrativa não constitui, por si mesma, demonstração da historicidade do acontecimento narrado.
A discussão acadêmica contemporânea mostra que não estamos diante de uma questão inventada por críticos modernos. Steve Mason, por exemplo, examinou especificamente a questão do local de nascimento de Jesus e chamou atenção para as tensões entre os relatos de Mateus e Lucas e a tradição mais ampla dos evangelhos. Seu argumento é particularmente útil porque não consiste simplesmente em substituir uma certeza por outra: ele considera que o problema deve conduzir o historiador a uma posição cautelosa diante da evidência. A discussão publicada pela Bible Review colocou justamente em confronto essa leitura com a defesa da tradição de Belém feita por Jerome Murphy-O’Connor, demonstrando que a questão permanece aberta no âmbito da pesquisa. John P. Meier, trabalhando em outra vertente da pesquisa do Jesus histórico, foi ainda mais explícito ao considerar que Jesus provavelmente não nasceu em Belém, mas em Nazaré, entendendo a tradição de Belém como um theologoumenon, isto é, uma afirmação teológica apresentada sob a forma de narrativa histórica. Portanto, a hipótese que estamos examinando não constitui simplesmente uma provocação contra a tradição cristã: ela possui antecedentes dentro da própria historiografia crítica do Novo Testamento.
Mas há ainda uma possibilidade que, no texto original de 2008, eu havia percebido de maneira bastante intuitiva e que merece agora ser retomada com maior cuidado: Belém da Galileia. A hipótese é curiosa porque nos obriga a abandonar uma falsa dicotomia. Não precisamos necessariamente escolher entre Belém da Judeia e Nazaré como se fossem as únicas possibilidades concebíveis. Existia uma outra Belém, situada na Galileia. E isso é historicamente importante. A possibilidade de uma Belém galileia não é uma invenção moderna destinada artificialmente a resolver o problema dos evangelhos. Trata-se de uma localidade real, cuja arqueologia permite discutir ocupação no período romano. O problema, naturalmente, é outro: existe alguma evidência positiva ligando Jesus especificamente a essa Belém? E aqui a resposta precisa ser muito mais prudente: não temos essa evidência. O máximo que podemos fazer é reconhecer que a existência da localidade torna a hipótese geograficamente possível e, portanto, digna de investigação.
Essa possibilidade adquire interesse especial quando observamos a relação espacial entre Belém da Galileia e Nazaré. Diferentemente de Belém da Judeia, Belém da Galileia está inserida no mesmo universo regional em que encontramos Nazaré. Isso não prova absolutamente nada sobre o nascimento de Jesus, mas modifica o problema histórico. Se uma tradição antiga preservasse a informação de que Jesus nascera em “Belém”, seria necessário investigar quando, como e por que essa tradição passou a ser identificada especificamente com a Belém da Judeia. A própria existência de uma cidade homônima na Galileia impede que tratemos o nome “Belém” como uma referência geográfica absolutamente transparente. Mais importante ainda: a tradição cristã não nasceu num vazio geográfico. Ela foi produzida num ambiente no qual nomes de lugares, tradições messiânicas, genealogias e expectativas escatológicas estavam profundamente entrelaçados. A identificação de Jesus com Davi tornava Belém um lugar extraordinariamente carregado de significado simbólico.
É aqui que a hipótese histórica encontra a história das ideias. Belém não é apenas um lugar; é a cidade de Davi. A transferência do nascimento de Jesus para Belém produz, portanto, uma operação teológica extremamente eficiente: transforma o nascimento de um camponês galileu em nascimento do herdeiro davídico. A geografia passa a funcionar como argumento cristológico. Não se trata simplesmente de dizer onde Jesus nasceu; trata-se de demonstrar quem Jesus é. E essa observação nos permite compreender por que a narrativa de nascimento pode possuir uma enorme importância teológica mesmo que sua precisão biográfica seja questionável. O problema deixa de ser simplesmente “os evangelistas erraram o endereço?” e passa a ser: qual afirmação sobre Jesus os evangelistas estavam fazendo através desse endereço?
Nesse sentido, talvez a questão mais interessante não seja decidir prematuramente entre Nazaré e Belém da Galileia. A arqueologia não nos permite fazer isso. O que ela nos permite fazer é muito mais importante: estabelecer os limites dentro dos quais uma investigação histórica responsável pode operar. Nazaré existia no século I e sua ocupação está hoje arqueologicamente demonstrada. A pesquisa de Ken Dark mostra que podemos reconstruir aspectos importantes de sua economia, cultura material e organização doméstica, embora não possamos identificar com segurança nenhuma residência como a casa de Jesus. Belém da Galileia também constitui uma possibilidade geográfica real, mas a ausência de evidência específica que associe Jesus à localidade impede que transformemos essa possibilidade em conclusão. E Belém da Judeia, embora seja perfeitamente real e esteja fortemente associada à tradição davídica, enfrenta o problema de ser sustentada principalmente pelos relatos de Mateus e Lucas, justamente as fontes que possuem maior interesse teológico na construção da genealogia e da identidade messiânica de Jesus.
Portanto, a conclusão desta segunda parte precisa ser mais cuidadosa do que aquela que apresentei originalmente em 2008. Não podemos afirmar historicamente que Jesus nasceu em Nazaré. Tampouco podemos afirmar que nasceu em Belém da Galileia. E a arqueologia, por si mesma, não demonstra que tenha nascido em Belém da Judeia. O que podemos afirmar com segurança muito maior é que Nazaré era uma comunidade real do início do século I e que a associação de Jesus com essa localidade possui uma base histórica extraordinariamente sólida. A questão do nascimento, entretanto, permanece aberta. A tradição de Belém pode preservar uma memória histórica, mas também pode representar uma construção teológica destinada a vincular Jesus à linhagem davídica. A pesquisa crítica contemporânea reconhece precisamente essa dificuldade, e parte dela considera Nazaré uma hipótese historicamente mais provável, enquanto outros estudiosos defendem a tradição de Belém ou preferem permanecer agnósticos diante da questão.
Talvez, portanto, devamos terminar esta segunda parte não com uma resposta definitiva, mas com uma mudança de perspectiva. Durante séculos, a pergunta pareceu simples: Jesus nasceu em Belém? A investigação histórica mostra que ela é muito mais complexa. Precisamos perguntar quando a tradição de Belém apareceu, quais textos a sustentam, que função desempenha na cristologia dos evangelistas e como ela se relaciona com a tradição, aparentemente mais antiga e mais disseminada, que identifica Jesus como galileu e nazareno. Precisamos ainda perguntar se a Belém mencionada originalmente poderia ter sido interpretada de outra maneira e se a existência de uma Belém galileia merece algum papel nessa discussão. Por enquanto, a arqueologia nos oferece uma certeza modesta, mas extraordinariamente importante: Nazaré não é uma invenção dos evangelhos. Era uma comunidade judaica real, habitada no período em que Jesus viveu. O restante pertence ao terreno mais difícil — e mais fascinante — em que arqueologia, crítica textual, história social e construção da memória religiosa se encontram. É justamente aí que devemos prosseguir.
Referências essenciais para esta parte
CROSSAN, John Dominic. O Jesus histórico: a vida de um camponês judeu do Mediterrâneo. Rio de Janeiro: Imago, 1994.
DARK, Ken. Archaeology of Jesus' Nazareth. Oxford: Oxford University Press, 2023.
MASON, Steve. O Little Town of… Nazareth? Bible Review, v. 16, n. 1, 2000.
MEIER, John P. A Marginal Jew: Rethinking the Historical Jesus. New York: Doubleday, 1991.
MURPHY-O'CONNOR, Jerome. Bethlehem… Of Course. Bible Review, v. 16, n. 1, 2000.
Ps 1 - Enquanto a terceira parte não aparece, nós vamos de Lisa Gerrard - Sanvean: