Estudos sobre Religião - Biblioblog

terça-feira, 28 de abril de 2009

E eis que chegamos à "fenomenal" marca dos 2 mil visitantes a este blog. O número não é nada assim fantástico, mas me deixa muito feliz. A idéia básica deste espaço é a de espalhar conhecimento, divulgando idéias e novas perspectivas pela rede. Aos poucos, vamos caminhando e montando a nossa trilha.

Contamos agora com a ajuda dos nossos novos colaboradores (Nehemias e Joshua - kd vcs?) para ampliar essa empreitada no mundo dos biblioblogs. Eu tenho fé neste projeto! E creio que será bem válido para o enriquecimento das pesquisas bíblicas com cunho acadêmico na blogosfera tupiniquim.

Aos leitores e colaboradores do AD CUMMULUS:

SALUT! Com bom vinho de Israel!

domingo, 26 de abril de 2009






Há um ditado bastante conhecido que ganhou uma dimensão extraordinária com a expansão da internet: “papel aceita qualquer coisa”. A frase poderia hoje ser atualizada para algo como “a internet aceita qualquer coisa”. Se a rede tornou possível um acesso sem precedentes à informação, ela também produziu uma situação curiosa: nunca foi tão fácil encontrar uma informação verdadeira ao lado de outra completamente falsa, uma pesquisa acadêmica ao lado de uma fantasia, uma descoberta histórica ao lado de uma associação construída inteiramente a partir de coincidências. No universo religioso, isso se torna particularmente interessante. Símbolos, nomes, imagens e personagens pertencentes a épocas e sistemas culturais completamente distintos são frequentemente reunidos em uma única narrativa, como se o fato de possuírem alguma característica em comum fosse suficiente para demonstrar que, no fundo, sempre foram a mesma coisa. Uma dessas construções procura estabelecer uma relação direta entre concha, Afrodite, Vênus e Lúcifer. Em determinado site religioso, a operação aparece resumida em uma fórmula de extraordinária simplicidade:

CONCHA = AFRODITE = VÊNUS = LÚCIFER.

A primeira impressão é de que existe alguma coisa plausível nessa sequência. Afrodite realmente aparece associada a uma concha; Vênus foi identificada pelos romanos com Afrodite em um processo histórico que posteriormente tornou as duas figuras praticamente inseparáveis no imaginário ocidental; Vênus é o planeta que pode ser observado como estrela da manhã; e lucifer é uma palavra latina tradicionalmente empregada para designar o astro matutino. Portanto, cada peça da equação parece possuir alguma sustentação histórica. O problema está justamente aí: uma cadeia de associações parcialmente verdadeiras pode produzir uma conclusão completamente falsa. O erro não está necessariamente em cada elo isoladamente, mas na transformação de relações diferentes — iconográficas, mitológicas, astronômicas, linguísticas e teológicas — em uma única identidade. É como se retirássemos de cada tradição um elemento verdadeiro, colocássemos todos sobre a mesma mesa e, depois, imaginássemos que a proximidade entre eles prova que pertencem originalmente à mesma coisa. A história das religiões, entretanto, raramente funciona dessa maneira. Ela é feita de deslocamentos, traduções, identificações, apropriações, ressignificações e, sobretudo, de palavras que mudam de significado quando atravessam culturas diferentes.

A concha

Comecemos, portanto, pela concha. É bastante conhecida a imagem de Afrodite emergindo do mar sobre uma grande concha. A representação tornou-se especialmente célebre na pintura renascentista, sobretudo através de O Nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli. A imagem é tão poderosa que acabou produzindo uma espécie de atalho visual: vemos uma concha e imediatamente pensamos em Afrodite; pensamos em Afrodite e imediatamente imaginamos uma mulher nua sobre uma concha. Mas a força de uma imagem não deve ser confundida com sua exclusividade histórica. Afrodite não é uma concha. A concha é um atributo iconográfico associado a determinados episódios de sua tradição mítica, particularmente à narrativa de seu nascimento marinho. Isso parece uma distinção excessivamente óbvia, mas ela é fundamental. Uma imagem pode representar uma personagem sem ser equivalente à personagem. A coroa não é o rei; a espada não é o guerreiro; a cruz não é Cristo; a concha não é Afrodite. O símbolo participa da representação, mas não se transforma, por isso, naquilo que representa.

Existe ainda uma dificuldade adicional. Mesmo a história do nascimento de Afrodite não é absolutamente uniforme na tradição grega. Hesíodo, na Teogonia, apresenta uma genealogia na qual a deusa nasce da espuma associada ao corpo mutilado de Urano; Homero, por outro lado, apresenta Afrodite como filha de Zeus e Dione. Não estamos diante de uma tradição monolítica que possuísse desde o princípio uma única narrativa sobre a origem da deusa. A famosa imagem da mulher que surge do mar está relacionada a uma tradição específica da genealogia de Afrodite, posteriormente desenvolvida de maneira extraordinária pela literatura e pela arte ocidentais. O próprio imaginário moderno, portanto, já é resultado de uma seleção e de uma longa história de transmissão cultural. A concha tornou-se uma das imagens mais reconhecíveis da deusa, mas isso não transforma a concha em Afrodite. Se quisermos começar a corrigir a equação, precisamos substituir o sinal de igualdade por uma relação histórica muito mais precisa:

CONCHA → AFRODITE.

A seta importa. Ela indica associação, não identidade.

Afrodite

Afrodite também não é uma categoria tão simples quanto nossa cultura popular costuma imaginar. No Banquete, Platão distingue duas figuras sob o nome de Afrodite: Afrodite Urânia e Afrodite Pandemos. A distinção pertence à construção filosófica específica de Platão e não deve ser simplesmente projetada sobre toda a religião grega, mas ela nos permite perceber algo importante: mesmo o nome de uma divindade podia comportar diferentes construções culturais, religiosas e filosóficas. Não existe, portanto, uma Afrodite abstrata, imóvel e idêntica em todos os períodos e em todas as fontes. Há tradições, interpretações e usos diferentes de uma mesma figura divina. A própria religião grega era suficientemente plural para permitir que uma mesma divindade assumisse diferentes funções e significados conforme o culto, a cidade, o autor ou o contexto.

Isso torna ainda mais problemática a tentativa de estabelecer uma linha direta entre Afrodite e Vênus. Vênus era uma divindade italiana, cuja história religiosa não começou simplesmente como uma tradução romana da Afrodite grega. A aproximação entre divindades gregas e romanas foi um processo histórico relacionado àquilo que os estudos clássicos costumam discutir sob o conceito de interpretatio: divindades de diferentes culturas podiam ser aproximadas, identificadas ou reinterpretadas umas através das outras. Esse processo não significa que os deuses tenham simplesmente trocado de nome como quem troca a etiqueta de um objeto. Significa que sociedades diferentes encontraram correspondências entre seus próprios sistemas religiosos e, ao fazê-lo, produziram novas maneiras de compreender divindades estrangeiras. Afrodite e Vênus acabaram tornando-se praticamente inseparáveis na tradição ocidental, mas essa proximidade é o resultado de uma história de identificação cultural, e não uma identidade original que possa ser projetada retroativamente sobre todas as épocas.

Podemos, então, avançar um pouco mais:

CONCHA → AFRODITE → VÊNUS.

Mais uma vez, a seta é mais importante que o sinal de igualdade. A primeira relação é iconográfica; a segunda é histórico-religiosa. São operações diferentes. O problema começa quando as tratamos como se fossem exatamente da mesma natureza. E então surge o elemento que tornará nossa pequena investigação muito mais interessante: Lúcifer.

Vênus e Lúcifer

Aqui entramos em um território no qual astronomia, linguagem e religião começam a se misturar. Vênus é o planeta que conhecemos hoje por esse nome. Para os antigos gregos, entretanto, havia uma peculiaridade que hoje parece surpreendente: quando aparecia antes do nascer do Sol, o astro era conhecido como Phosphoros ou Eosphoros, o portador da luz ou aquele que traz a luz; quando aparecia depois do pôr do Sol, era chamado Hesperos, a estrela vespertina. Durante determinado período da Antiguidade, essas duas aparições foram entendidas como astros distintos. A observação sistemática do céu acabaria demonstrando que a estrela da manhã e a estrela da tarde eram, na realidade, o mesmo corpo celeste. O que para o observador parecia serem duas estrelas diferentes era um único planeta que ocupava posições diferentes em relação ao Sol e à Terra.

Esse detalhe astronômico é fundamental para compreender a história posterior do símbolo. O planeta Vênus não era apenas um objeto celeste; sua extraordinária luminosidade e sua aparição em momentos de transição — pouco antes do amanhecer ou pouco depois do anoitecer — fizeram dele um dos corpos celestes mais carregados de significados religiosos do mundo antigo. É nesse contexto que encontramos os termos gregos associados ao astro matutino e, posteriormente, a palavra latina lucifer. Em latim, lux significa “luz” e ferre significa “levar”, “portar”. Lucifer, portanto, significava literalmente algo próximo de “portador da luz”. O termo não nasceu como nome próprio de uma entidade demoníaca. Era uma palavra perfeitamente inteligível dentro da linguagem latina e podia designar o astro da manhã.

Aqui está uma das ironias mais interessantes da história religiosa: antes de Lúcifer tornar-se, na tradição cristã posterior, o nome próprio do grande adversário de Deus, lucifer era uma palavra relacionada à luz e ao astro que anunciava o amanhecer. O “portador da luz” não era originalmente o príncipe das trevas. Era, entre outras coisas, uma maneira de designar a estrela da manhã. E essa simples constatação já deveria nos deixar desconfiados da maneira como a cultura popular frequentemente apresenta Lúcifer como se esse tivesse sido seu nome desde a mais remota Antiguidade.

A história, contudo, ainda não terminou. Porque a palavra latina lucifer ingressará em um dos textos bíblicos mais importantes para a construção posterior da demonologia cristã: Isaías 14.

E então aparece a Bíblia

É aqui que a história fica realmente interessante. No capítulo 14 de Isaías encontramos um poema dirigido contra o rei da Babilônia. O texto hebraico emprega a expressão הֵילֵל בֶּן־שָׁחַר (hêlēl ben-šaḥar), tradicionalmente entendida em termos como “astro brilhante, filho da aurora” ou “estrela da manhã, filho da aurora”. A imagem é poderosa: aquele que pretendia subir aos céus e elevar seu trono acima dos astros é, finalmente, lançado para baixo. O movimento narrativo é vertical — ascensão e queda — e a imagem astronômica participa dessa construção poética. O contexto imediato do oráculo é o rei da Babilônia, inserido numa sátira contra o poder imperial e contra a pretensão daquele que se imaginava capaz de elevar-se acima de todos os demais. Não há, no texto hebraico, uma personagem chamada “Lúcifer” apresentada como nome próprio do Diabo.

Quando a Bíblia hebraica foi traduzida para o latim, porém, a expressão foi traduzida por lucifer. A escolha fazia sentido dentro da língua latina, na qual lucifer podia designar o astro da manhã. O que temos, portanto, não é a descoberta de um personagem chamado Lúcifer no texto hebraico de Isaías, mas uma tradução latina de uma imagem hebraica. A diferença é decisiva. Uma palavra que funcionava como designação ou imagem astronômica passa, através da história de sua recepção, a ser tratada como nome próprio. A transformação não ocorreu de uma vez, nem pode ser reduzida a uma única pessoa ou a um único momento histórico. Ela resulta de um longo processo interpretativo no qual Isaías 14 passou a ser lido em conjunto com outras tradições bíblicas sobre a queda de seres celestes, especialmente aquelas que posteriormente seriam relacionadas à figura de Satanás.

Temos, então, uma transformação semântica extraordinária: substantivo, tradução, interpretação, personificação e, finalmente, nome próprio. É nesse processo que Lucifer deixa progressivamente de ser compreendido apenas como “estrela da manhã” e passa a funcionar, na tradição cristã, como designação de Satanás. A tradição posterior tornou tão familiar essa associação que muitas pessoas imaginam que “Lúcifer” seja simplesmente o nome bíblico original do Diabo. Historicamente, porém, a situação é muito mais complexa. O nome que parece antigo é, na realidade, o resultado de uma história de tradução e interpretação. O que parece estar presente desde o início é, em grande medida, produto daquilo que veio depois.

E aqui encontramos uma ironia ainda maior. Porque a Bíblia cristã também utiliza a imagem da estrela da manhã para Jesus.

Jesus, a estrela da manhã

No Apocalipse, Jesus declara:

“Eu sou o rebento da estirpe de Davi, a brilhante estrela da manhã.”
(Ap 22,16).

A imagem que encontramos aqui não pertence exclusivamente à tradição demonológica. Ao contrário: ela é utilizada de maneira explicitamente positiva para designar Cristo. A estrela da manhã é associada à identidade messiânica e à chegada da luz. Em 2 Pedro 1,19, encontramos novamente a linguagem do astro matutino: os destinatários são exortados a permanecer atentos à palavra profética “até que raia o dia e surja a estrela d’alva em vossos corações”. O campo simbólico é o mesmo: luz, amanhecer, expectativa, manifestação e passagem da escuridão para a claridade.

E chegamos, então, a uma situação curiosa. Se alguém utilizasse a lógica da equação inicial, poderia argumentar da seguinte maneira: Lúcifer é a estrela da manhã; Jesus é a estrela da manhã; logo, Lúcifer é Jesus. Mas essa conclusão é evidentemente absurda. E justamente por ser absurda ela nos permite perceber onde está o erro do raciocínio.

Uma mesma imagem não produz necessariamente uma mesma identidade.

A estrela da manhã é um símbolo disponível a diferentes tradições porque seu significado não está contido exclusivamente no objeto astronômico que ela representa. O sentido é produzido pelo contexto no qual a imagem é inserida. A estrela da manhã pode representar luz, beleza, renovação, esperança, glória ou anúncio do amanhecer. Pode também ser utilizada em uma narrativa de queda, como em Isaías 14, quando a imagem do astro elevado serve para construir a humilhação daquele que pretendia subir acima de todos. Pode representar Cristo, quando aparece no Apocalipse como imagem de sua identidade messiânica e escatológica. O símbolo permanece relativamente estável; o sistema semântico que o envolve é que determina seu significado.

É justamente aqui que a equação começa a se desfazer definitivamente. Não existe um significado único e eterno escondido dentro da palavra “Lúcifer”, esperando ser descoberto. Existe uma história. Há o astro observado pelos antigos; há os nomes gregos atribuídos a suas aparições; há a terminologia latina; há a tradução de Isaías; há a interpretação cristã; há a posterior construção demonológica; e há, paralelamente, a apropriação cristológica da mesma imagem da estrela da manhã. Cada uma dessas etapas acrescenta alguma coisa e modifica o campo semântico anterior. A palavra permanece, mas seu lugar dentro do sistema cultural muda.

Expandindo a brilhante equação

Voltemos agora ao nosso ponto de partida. A fórmula original dizia:

CONCHA = AFRODITE = VÊNUS = LÚCIFER.

Agora podemos perceber que cada igualdade esconde uma história diferente. A concha é um atributo iconográfico associado a Afrodite; Afrodite foi identificada com Vênus através de um processo histórico de aproximação entre tradições religiosas; Vênus é o planeta que pode ser observado como estrela da manhã; lucifer é uma palavra latina relacionada ao astro matutino; Isaías 14 utiliza uma imagem astronômica para representar a queda do rei da Babilônia; a Vulgata emprega lucifer nessa passagem; e a tradição cristã posterior associa esse Lucifer à figura de Satanás. Finalmente, o Novo Testamento utiliza a mesma imagem da estrela da manhã para Jesus.

Se quisermos seguir rigorosamente a lógica da equação original, teremos, então:

CONCHA = AFRODITE = VÊNUS = LÚCIFER = JESUS.

E chegamos ao absurdo.

Não porque qualquer um dos elementos seja necessariamente falso, mas porque transformamos todas as relações possíveis entre eles em identidade absoluta. A concha não é Afrodite; é um atributo associado a uma determinada tradição iconográfica da deusa. Afrodite não é literalmente o planeta Vênus; ela foi identificada com a divindade romana Vênus e posteriormente relacionada ao planeta que recebeu o nome dessa deusa. Vênus não é “Lúcifer” no sentido demonológico; lucifer é uma palavra latina que podia designar a estrela da manhã, isto é, uma das manifestações visíveis do planeta. Lucifer não era originalmente o nome próprio de Satanás; tornou-se esse nome através de um longo processo de interpretação cristã. E a estrela da manhã não pertence exclusivamente a Satanás — tanto que o próprio Jesus é chamado de estrela da manhã no Apocalipse.

A pequena equação nos ensina, portanto, uma coisa bastante maior do que parecia no começo: uma associação não é uma identidade. Podemos aproximar objetos, palavras, imagens e personagens sem que eles se tornem, por isso, a mesma coisa. Podemos dizer que Afrodite está associada à concha; que Afrodite foi identificada com Vênus; que Vênus é a estrela da manhã; que lucifer é uma palavra latina para o astro matutino; que Isaías 14 foi posteriormente associado à queda de Satanás; e que Jesus é chamado de estrela da manhã. Todas essas afirmações podem ser investigadas historicamente. O problema começa quando retiramos as relações de seus contextos e transformamos todas as setas em sinais de igualdade.

É justamente esse mecanismo que produz tantas teorias curiosas na internet. Um símbolo é retirado de seu contexto; uma palavra é separada de sua história linguística; uma tradução é tratada como se fosse o original; uma interpretação tardia é projetada sobre um texto antigo; uma imagem é confundida com aquilo que representa; e, finalmente, todas essas peças são colocadas lado a lado como se sua proximidade demonstrasse uma identidade secreta. A conclusão parece impressionante porque cada passo anterior contém alguma parcela de verdade. O problema é que verdades parciais, quando arrancadas de seus contextos e concatenadas indiscriminadamente, podem produzir uma falsidade total.

Talvez seja esse o ponto mais interessante de toda a história. O problema não está necessariamente nas setas. As setas existem. A concha realmente conduz a Afrodite; Afrodite conduz historicamente a Vênus; Vênus conduz à estrela da manhã; a estrela da manhã conduz a lucifer; lucifer conduz, por uma determinada história de tradução e interpretação, à figura de Satanás; e a mesma estrela da manhã conduz, em outra tradição textual, a Jesus.

As setas são reais.

O sinal de igualdade é que precisa ser investigado.

E talvez seja justamente entre uma seta e outra que a história acontece.

terça-feira, 21 de abril de 2009


Marcos 7.14-23:

A seguir, chamando novamente a multidão, dizia-lhe: ‘Escutai-me todos e compreendei. Não há nada exterior ao homem que, entrando nele, possa torná-lo impuro, mas o que sai do homem, eis o que o torna impuro'.


Alguns autores consideram tal passagem como uma atribuição de ditos a Jesus, que não ocorreram, decorrente de uma necessidade apologética à comunidade do autor.

Algumas considerações certamente levam a um ceticismo a respeito da fidedignidade da narrativa ser histórica-correspondencial.

Há um comentário editorial, intercalado entre o vs.15 e 17, que não se encontra em todos os manuscritos: Quem tem ouvidos para ouvir ouça. Prosseguindo, os discípulos pedem explicações a respeito do dito, o que configura que, primeiramente, ter-lhes-ia soado enigmático. E assim, segundo o evangelista, Jesus lhes fizera uma explicação direta, no que o escritor acrescenta o comentário editorial: Com isto, ele declarava que todos os alimentos são puros. E prossegue detalhando explicações que Jesus teria dado a respeito.

Podemos ver em Atos, Gálatas, Romanos, e diversos outros escritos, que a questão dos alimentos, seja relacionando-se às leis judaicas, seja relacionando-se a alimentos que foram ou possivelmente foram oferecidos em oferendas pagãs, geraram grandes controvérsias no período que antecedeu a redação de Marcos (hipóteses válidas variando de perto de 60 a 70 d.C.) . Na epístola aos Gálatas, Paulo narra um episódio em Antioquia em que confrontara Pedro, que fora fonte de Marcos para seu evangelho [um episódio que deve ter sido muito precoce, dado que ainda emprega a referência aramaica para o nome Cefas, tal qual o emprega na passagem de I Coríntios 15,3-5, onde refere-se a uma confissão que ele própria havia recebido], relativo a preceitos rituais judaicos envolvendo as refeições.

Fica a pergunta: se houvera uma ocasião em que Jesus tivesse explicado tal situação tão direta e incisivamente, como haveria a brecha para tão grandes polêmicas, com incertezas ainda por cima pairando sobre o círculo dos apóstolos? Lucas não registra em Atos nenhuma associação de Pedro quanto a sua visão em Jope (10,9-16) a um dito de Jesus a respeito, nem há algo correlato na Assembléia de Jerusalém de Atos 15. E o fato do narrado ser intercalado logo antes da partida de Jesus para fora da Galiléia, em terras de pagãos, pode ser um indicativo de como fora estrategicamente arranjado inseri-lo aí.

Entretanto, ao se apontar para a conclusão de que tais palavras foram simplesmente colocadas na boca de Jesus e o episódio todo inventado, deparamo-nos com algumas complicações.

O próprio fato da polêmica e divergência ter envolvido os apóstolos, seria um obstáculo a que se cresse que a polêmica seria resolvida dessa forma. Aqueles dos apóstolos ou testemunhas ainda vivos na ocasião da composição de Marcos, ou em maior número, os ligados aos círculos deles, discípulos diretos, e ao círculo de Tiago (que na passagem de Paulo, parecia endossar a posição diversa da passagem de Marcos) teriam desacreditado a passagem, aberto brecha para o evangelho ser desacreditado em escopo maior, e depor-se-ia contra a legitimidade e fidedignidade do escritor na comunidade de fé. O tiro poderia sair pela culatra.

Também, polêmica toda era indissociada de uma outra questão, mais espinhosa, de peso ainda maior: a da circuncisão – vide Gálatas, Atos 15, etc. O evangelista poderia ter se valido do mesmo artifício para tentar elucidar a questão ou resolvê-la. Lucas registra que na Assembléia de Jerusalém, ao descartar-se a obrigação da circuncisão para pagãos convertidos, não se menciona as questões de pureza ritual, mas antes se recomenda absterem-se de carne asfixiada, do sangue, e da carne oriunda dos sacrifícios pagãos – Atos 15,29. Outrossim podemos ver, em Romanos, que tal polêmica persistira a respeito.

O relato se insere coerentemente diante de uma ocasião de debates com os fariseus, junto com seus discípulos, diante de uma multidão. Podemos imaginar um cenário que dificultaria a investida dos fariseus diante do escândalo do comentário de Jesus. Mateus a retoma também de forma suficientemente harmoniosa – Mt.15. É coerente com ensinamentos registrados em Lucas, p.ex. Lc.11,37-44, e passagens de cunho mais universalistas tais quais Lc. 4,25-27. Estaria em sintonia com o quadro expressado, sobretudo em Mateus, a respeito da posição em que Jesus se via ao tratar da Lei, como nas célebres passagens Ouvistes o que foi dito aos antepassados...Eu porém vos digo... (Mt.5 vs. 21-22,27-28,31-32,33-34,38-39,43-44).

Estaria de acordo com um critério secundário, mas importante, o da vividez da narração. Esse critério está longe de algo exaustivamente corroborativo, antes é um critério dúbio – vide Méier, J.P. Um Judeu Marginal: repensando o Jesus Histórico. Ed. Imago. RJ, 1992.

Contudo, podemos ver aí um fator indutivo. Mesmo considerando que diálogos não-históricos eram convenções narrativas comuns, temos que pensar que a audiência para a qual fora dirigido o texto estaria propícia também a um diálogo sobre dispensa da circuncisão. Não o vêmo-lo nos evangelhos, o que serve de um bom freio. Segundo, as próprias incongruências, contradições e falta de clareza o situar eventos geograficamente, ou quanto local ou coerência com a situação, e o problema seqüencial das narrativas, as lacunas, a falta de fundamentação precisa no tempo e espaço, a dificuldade de situar Jesus em um local e data específico, depõe contra o evangelista ser um romancista talentoso, ou quanto a obra, considerando que não temos como estabelecer antecedentes de obras que deporiam quanto ao talento literário do escritor, fica difícil imaginarmos que o mesmo seria um criador de um romance realista de tal invergadura.

Temos que ser cautelosos, todavia, ao nos lembrarmos as limitações do trabalho desse campo de pesquisa.

Somos levados então à modéstia e comedimento, não porque aqui defendamos uma ilusão superada do positivismo lógico como delimitador do conhecimento válido e seguro,que já não funciona como tal em nenhuma ciência; antes, que devemos reconhecer que nesse campo de pesquisa e assunto do texto, as necessárias extrapolações e generalizações metodológicas possuem maior arbitrariedade, interpolações são de maior amplitude ante o objeto, e o que buscamos presumir envolve mais riscos, pouquíssima segurança estatística é por natureza mais passivo de contaminação pelas preferências, subjetividades, visão de mundo e arcabouço conceitual próprio do estudioso do que outros campos; efetivamente, em micro-história, somos levados a reconhecer pelo nosso exame da experiência que no comportamento humano cotidiano, vemos gestos, atitudes, eventos, que não se enquadram em esquemas gerais (tal como Freud o tentou em Psicopatologia do Cotidiano, enquadrar até um trivial tropeção). Isso é inevitável, gerando uma saudável humildade e cautela, que não se vê tanto em meios fundamentalistas que defendem sua interpretação da inerrância bíblica, quanto em meios mais céticos minimalistas.

Penso que podemos pegar uma passagem, do evangelho de João, que poderia proporcionar uma sugestão coerente a respeito. No capítulo 16, de 16 a 30, narra-se os comentários dos discípulos ante um dito de Jesus, em que eles declaradamente não compreendiam o significado, o que seu mestre queria dizer com uma citação, e assim, não sabiam aplicá-la. Jesus procede com a explicação, e eles declaram afinal: Eis que agora falas abertamente, abandonando toda linguagem enigmática(...).

Isso é um claro indicador que algumas sentenças de Jesus teriam passado batido do entendimento, interpretação e horizonte de aplicação dos discípulos, nas ocasiões em que foram proferidas. Na afirmação deles neste episódio, isso é explicitado, em que eles comentam que tal alocução de sentido enigmático fora devidamente explicada na ocasião.

Não temos como imaginar uma possibilidade de uma grande assembléia de Jesus e seus discípulos, após esse episódio, em que eles fizeram uma sabatina a respeito de todos os momentos que incorreriam nessas dúvidas.

Fora registrado que os discípulos tinham a concepção de que um dos papéis do Espírito Santo seria lhes expandir a compreensão dos ensinamentos de Jesus. E mesmo os evangelhos em si tiveram a ver com a necessidade de retomá-los e aplicá-los a situações concretas e dilemas que se vivia no ministério e vida das comunidades. É perfeitamente cabível conceber que nas tradições repassadas pelos apóstolos e demais testemunhas oculares dos eventos do ministério de Jesus, foram-se fazendo interpretações iluminadas por indagações e reflexões sobre a conjuntura que viviam, e a respeito de suas expectativas.

Seria cabível supor que essa passagem em Marcos teria sido uma relembrança posterior de um dito de Jesus, num episódio marcante junto aos fariseus e mestres da Torah [associação perfeitamente esperável de acontecer ante uma polêmica envolvendo questões da observância da Lei], que então, seu alcance não tenha sido explorado pelos discípulos, tal como o argumento abordado logo acima. Marcos, ou sua fonte, pode tê-lo retomado, e nesse processo de rememorização, tê-lo traçado com contornos e coloridos, de dentro de um molde, em cuja expressão apresentou-se de maneira mais clara e direta do que tenha sido na ocasião, imiscuído na preocupação de se aplicar ao contexto. O que pode ter rendido comentários adicionais nessa transmissão da tradição quando exposta, que suscitou no evangelista o senso de ter que complementar a narração com seu comentário e ênfase próprios.

domingo, 19 de abril de 2009

A criatividade do povo não tem limites. O mundo gospel, então, é uma industria altamente rentável, readaptando os objetos "do mundo" para o bom olhar dos fiéis. O que eu ainda não consegui identificar, no entanto, é a procedência desta nova cerveja chamada Jesus Beer.



Beba com Moderação!

sábado, 18 de abril de 2009

Tive a oportunidade de assistir hoje este pequeno video chamado The Trial of God.



Este video foi baseado em um livro chamado The Trial of God (O Julgamento de Deus), escrito por um Judeu chamado Elie Wiesel, sobrevivente de vários campos de concentração e ganhador do prêmio nobel em 1986. O livro é baseado em eventos testemunhados por Elie Wiesel quando esteve em Auschwitz.

Me interessei muito pela temática e resolvi encomendar o livro e conseguir a versão completa do video. Por enquanto, no meio tempo em que o todo não aparece, deixo pois a questão:

É possível julgar Deus?

domingo, 12 de abril de 2009


Acompanhamos muitas discussões, sobretudo virtuais, a respeito das diferentes histórias de ressurreições nas religiões mundiais. Comumente se apresentam dentro de diversos comentários, peremptórios que, infelizmente, e descuidadamente, se negligencia apresentar os relatos para os participantes poderem ter uma discussão objetiva. Vemos polêmicas sobre os personagens e relatos, mas não os vemos, propriamente, apresentados.
Apresento um trecho de um dos mais comentados e polemizados: o relato da ressurreição de Hórus. O texto é encontrado na Estela de Metternich, linhas 168-249. Estela encontrada em Alexandria, no início do século XIX. É datada do reinado de Nectanebo II, o último dos faraós da 30º dinastia, próximo a 340 a.C.



A Cura de Hórus

Continuando a trama de
Ísis e os sete escorpiões
,a referida mãe se encontra nos pântanos de Quêmis fugindo das garras de Set com seu filho recém-nascido Hórus. Anteriormente, após ter tido a acolhida rejeitada por uma velha rica, um dos escorpiões da deusa ferroa e mata o filho da anciã, e Ísis invoca magia para curá-lo.

Neste agora, um escorpião ataca o menino Hórus, que desfalece. Ísis apela aos outros deuses, e Tot, cruzando a barca de Ra, vem para fazer voltar à vida Hórus, por meio de sua mágica.

Postaremos alguns trechos apenas, que focam mais a morte e a ressuscitação.

Eu sou Ísis, fecundada por seu marido [obs. Disso se infere que não nasceu de uma virgem; na verdade, foi um ato de necrofilia com Osíris] e grávida do deus Hórus. Pari Hórus, filho de Osíris, em um ninho de papiro e disso me rejubilo muito, porque vi aquele que vingaria seu pai. Eu o escondi, ocultei-o com medo dele ser reconhecido. Fui à cidade de Buto, a implorar com medo da perseguição [contra Hórus] e ocupei-me de buscar alimento enquanto a criança brincava. Voltei para abraçar Hórus e o encontrei, o belo Hórus de ouro, a criança indefesa e sem pai.Ele molhava a terra com a água de seu olho e a saliva de sua boca, seu corpo estava prostrado, seu coração parado, nenhum músculo de sua carne se movia mais. Dei um grito: “Estou aqui, estou aqui, criança infeliz, pra te ajudar!


Todos [pescadores] se afligiam muito, mas não havia quem conhecesse a arte de fazer reviver. Então veio a mim uma mulher sábia em sua arte, senhora nobre em sua terra. Veio a mim com uma cruz – ãnkh - e seu coração estava confiante em sua arte.


Mulher:

Não temas, não temas, ó pequeno Hórus! Não te desespere, ó mãe do deus! (....)Set não entra nesta terra, não vagueia por Quêmis. Hórus está protegido contra a maldade de seu adversário e nem os que o seguem podem feri-lo. Procura a causa disto ter acontecido e então Hórus viverá para sua mãe. Com certeza um escorpião o picou ou uma cobra o mordeu.


Ísis, pondo o nariz na boca do menino, descobre o veneno, exclamando que a criança fora picada.

TOT:
não temas mais, não temas mais, ó deusa Ísis! Ó, Néftis, não te lamentes mais! Eu vim do céu com o sopro da vida a fim de ressuscitar o menino para sua mãe.


[Após diversas invocações]:

Para trás, veneno! É a boca de Rá que te exorciza, é a língua do grande deus que te repele! A Barca de Rá parou e não conduzirá o disco solar para além de seu lugar de ontem até que Hórus se cure para alegria de sua mãe Ísis!
(....) Eu sou Tot, primogênito de Rá, portador das ordens de Atum, pai dos deuses, para que Hórus seja curado para sua mãe Ísis!
Ó Hórus, Hórus! Teu ka é a tua proteção, teus seguidores velam em tua defesa. O veneno está morto, sua ardência foi expulsa, deixou de queimar o filho da Poderosa. Ide para vossas casas, Hórus reviveu para sua mãe!

Ísis –
Dá ordem sobre isso aos habitantes de Quêmis, às amas que estão em Buto. Ordena-lhes proteger a criança para sua mãe, fazendo-lhes saber minha situação em Quêmis; uma abandonada, fugitiva de sua própria cidade.


Leia mais: Araújo, Emanuel. Escrito Para a Eternidade: A literatura no Egito faraônico. UNB.Brasília, 2000.pgs 141-151.

sábado, 11 de abril de 2009


Este blog definitivamente agora está mudado. Ao invés de ser apenas um espaço para as minhas reflexões pessoais, o Ad Cummulus agora irá se transformar em uma revista virtual sobre cristianismo e judaismo histórico. Temos agora quatro novos convidados em nossos posts - Joshua, Rodrigo (informador de opinião), Nehemias e Flávio Morgenstern em nossas fileiras. Se os 3 primeiros possuem notório interesse no temas básicos tratados neste biblioblog, Morgenstern irá nos ajudar com suas contribuições na área de estudos literários e mitologia.

Quero dar as boas vindas a este competente time de colaboradores. Além disso, gostaria de solicitar a vocês que me enviem por e-mail ou msn um resumido curriculum para postar aqui ao lado. A idéia é fazer com que possamos utilizar este canal de forma assídua e participativa, criando uma referência forte como biblioblog em língua portuguesa.

A proposta é mesmo de um movimento diário, fazendo com que sempre haja algum novo post contendo assuntos de nosso interesse. Não há, pois a necessidade de grandes e definitivos posts, encerrando determinadas temáticas. Mas sim, a transformação deste espaço em um canal de notícias, matérias, discussões e debates sobre as temáticas centrais.

Por isso, meus amigos! Sejam muito bem vindos e...

Mãos à obra!!!

quinta-feira, 9 de abril de 2009


Em março de 2007, foi ao ar um documentário chamado The Lost Tomb of Jesus. O documentário foi produzido por James Cameron e Simcha Jacobovici. O foco central dessa produção, que também foi apresentada na forma de livro, era tentar demonstrar que a família de Jesus havia sido descoberta em uma tumba em Talpiot.

O documentário sofreu diversas críticas e gerou uma enorme controvérsia. Não nos interessa aqui entrar neste mérito além do que já o fizeram anteriormente. No entanto, acho relevante divulgar aqui um novo documentário chamado The Jesus Tomb Unmasked. De forma curiosa, este documentário nos apresenta a participação da maioria dos especialistas entrevistados no documentário anterior de Jacobovici. Mas com um detalhe, no entanto: eles negam peremptoriamente as ilações traçadas no primeiro filme. E mais: afirmam ter sido manipulados pelos produtores, através de cortes de edição e distorção de informações.

Recomendo profundamente a análise deste novo documentário.

No entanto, o que me deixou sempre perplexo não é a negação das ilações feitas em "The Lost Tomb of Jesus". Elas são realmente forçadas e demonstram uma falta de seriedade com o trabalho arqueológico e de pesquisa. O que sempre me intrigou foi numa encontrar uma satisfatória e séria pesquisa sobre as possíveis ligações entre este material encontrado e o cristianismo. Tudo o que vejo é uma necessidade premente em negar. Um ultra-ceticismo que sempre fez suspeitar do inverso - da falta de seriedade científica em se levar tais possibilidades realmente a sério.

O trabalho de Simcha Jacobovici e James Cameron não convence. Além disso, é realmente lastimável como manipularam os especialistas envolvidos, através das edições do material filmado. No entanto, eles tiveram o mérito de colocar a questão em debate. E as sucessivas negações peremptórias às evidências apresentadas [inclusive com relação às concretas evidências não-manipuladas] só me leva a suspeitar de que existe uma falta de seriedade científica na pesquisa sobre tais dados e evidências.

O novo documentário faz parte do projeto "Expedition Bible". A proposta deste projeto de programas, segundo o próprio site, é a de: "defender e estabelecer a confiabilidade e autoridade da Bíblia."

Uma proposta apologética como esta não pode ser cientificamente tratada com seriedade.

A despeito de algumas contradições nos Manuscritos de Qumran, sobre a seita das cavernas e algumas descrições dos essênios nas fontes clássicas – Philo de Alexandria, Josefo e Plínio, o Velho [há que levar-se em consideração que, especialmente Philo e Plínio, eles obtiveram suas fontes sobre os essênios longe de ser em primeira mão] – Geza Vermes apontou três considerações principais que associam-nos:

1 – Não existe outro local, a não ser Qumran, que corresponda ao assentamento essênio descrito por Plínio entre Jericó e Engendi.
2 – Cronologicamente falando, as atividades essênias descritas por Josefo como tendo lugar no período de Jônatas Macabeus (c.150 a.C.) e a primeira guerra dos judeus (66-70 d.C.) coincidem perfeitamente com a ocupação sectária em Qumran.
3 – As semelhanças da vida em comunidade, a organização e os costumes são fundamentais para confirmar a identificação das duas entidades como algo extremamente provável, na medida em que algumas óbvias diferenças entre elas possam ser explicadas [como, p.ex., no movimento essênio nas cidades, não havia a distribuição comunal-igualitária dos bens obrigatória; a que se considerar o isolamento no deserto, e o convívio público e institucional no meio urbano; no isolamento, as exigências para com pureza e total e integral dedicação de bens, tempo, comportamento, era mais rígida].

Considera também que na seita de Qumram, dois movimentos distintos estavam incorporados, contemplando dois séculos de desenvolvimento, havendo também certa maleabilidade na compilação e transmissão literária. Particularmente, considero apenas que se deve ter a ressalva de não os considerar como representativo geral dos essênios.


Sabemos que com os manuscritos do Mar Morto, desabaram algumas vinculações mais estreitas dentre Jesus e os apóstolos com os essênios, que se especulavam antes desde Renan, p.ex., a partir dos estudos dos textos de Josefo.Tal é muito bem apontado por Joseph Fitzmyer. Mas ainda assim, há muitos paralelos e questões importantes para compreendermos o surgimento, do movimento de João Batista, e do movimento de Jesus, e do próprio cristianismo.

Com as cartas Pseudo-Clementinas, tornou-se evidente que à época de Jesus haviam segmentos de gnosticismo judaico; ou seja, precedendo em muito o gnosticismo dissidente do cristianismo.

Vindo à tona os textos mandeos, na década de 20 do século passado, conheceu-se um movimento batista judaico, pré-cristão. Espalhado na Palestina e Síria.

Também temos conhecimentos de mestres itinerantes que se atribuíam poderes excepcionais, tal como nos informa Atos 5 e Josefo; nomes como Judas e Teudas.

A seita dos se auto-atribuía o nome de Nova Aliança, similar à Kainê Diathekê – Novo Testamento. Veneravam o Mestre da Justiça. James Vanderkam apresenta que eles possuiam um banquete comunitário, e há fragmentos aludindo à presença do Messias durante tal, embora em Qumran menciona-se, no Preceito do Messianismo, que tal refeição era presidida por dois Messias.

Se identificavam como a voz que proclamava no deserto para o arrependimento de Israel e a vinda do Messias e a vitória sobre as forças pagãs e vindicação de Israel [4QpSalmo 3.1; 1QSamuel 8.1216; 11.16-12.24]. Lembra-se que em Ezequiel – 47.1,2,12- e Zacarias – 14.8 haviam profecias que associavam os sinais escatológicos emanando através do último Templo para o Deserto e ao Mar Morto, tornando as águas deste potáveis.

Havia um banho batismal para admissão, contudo, eram repetidos, e não uma única vez. Havia a repartição do bem comum, contudo esta era obrigatória, e administrada, havendo um ofício de administrador para tal. Na comunidade cristã primitiva era livre e espontânea, considerada fruto do impulso do Espírito. No episódio de Ananias e Safira, registra-se que não eram obrigados a levar, podiam guardá-los, embora não tentar ludibriar afirmando terem levado tudo, retendo partes secretamente, para angariar prestígio.

O Evangelho de João é o que apresenta mais paralelos. Há uma passagem da Regra que remonta à inteligência divina como mediadora da criação, embora o que se tem é que ambos remetam à reflexões sapienciais, como registrado em alguns Salmos, Provérbios, Sirácida e Sabedoria.

No Evangelho também, parece haver uma dupla sugestividade, entre a Palavra de Deus no judaísmo, com o conceito helênico do Logos, que adentrara no judaísmo helenizado.

Algumas questões chamam a atenção, seriam atitudes de Jesus que provocariam repúdio na seita. Quando ele comentando da Lei, acrescentando eu porém vos digo, isto seria inadmissível para os essênios e sua concepção legalista. Tais antíteses destoam do mestre da justiça, e a questão do sábado oferece uma clivagem bem pronunciada, vide as regras sabáticas dos manuscritos de Damasco. Eles eram especialmente legalistas em relação ao Sabbath, muito rigorosos a este respeito.

O texto joanino apresenta uma polêmica aberta contra o Templo, sendo um de seus motivos. Josefo declara que os essênios enviavam ofertas ao Templo, sem participar do culto nele. Nos manuscritos não se tem nada claro quanto ao relacionamento deles com o Templo. Pode-se indicar que suas preocupações, antes do que com o Templo, eram de não se misturar às outras formas de judaísmo no culto.

O ascetismo deles também não admitiria a postura de Jesus, que era chamado de comilão e beberrão. Nem com sua postura de mandar os discípulos proclamarem sua missão até sobre os telhados.

Um ponto de contato.

Um ponto de contato que poderia ter se dado, seria através do movimento de João Batista.

Houveram primeiros discípulos de Jesus que antes foram de João Batista. Em boa parte da literatura cristã primitiva, como nas Pseudo-Clementinas, podemos ver que nos primórdios da constituição das igrejas cristãs, o grupo de João Batista foi rival da igreja. O Evangelho de João ressalta que João não era o Messias, nem se assumia ou reinvidicava como tal, antes, aguardava a vinda e a vitória definitiva do Messias.*

André – João 1.40, e o discípulo anônimo a quem o evangelho constantemente remete, adviera do círculo de João Batista. Em Mateus 11.10, Eis aí eu envio diante da tua face o meu mensageiro, o qual preparará o teu caminho diante de ti, pode sugerir que Jesus iniciou seu ministério depois de ter se iniciado no círculo de João. Oscar Cullmann, deveras, escreve que Mateus 11.11 é frequentemente traduzido de maneira equivocada, em que corrigindo seria assim Jesus declara: _Aquele que é o menor (isto é, Jesus enquanto discípulo) é maior do que ele (João Batista), no reino dos Céus.

Pelo evangelho de Lucas, somos informados que João, antes de começar também seu ministério e vivera nos desertos de Judá, local onde se encontrava cavernas e o convento dos essênios. Destarte, é plausível constatar seus contatos, de fato quase impossível negar; sendo precipitado afirmar que ele chegara a ser essênio, todavia retiraria dali influências, reflexões, que ele levara para seu movimento e pregação.

O movimento de Jesus, tendo guardado elementos do movimento de João Batista, contudo reelaborou-os e de certa forma, promoveu assim contrastes e até oposições mais nítidas para com a linha essênica. O mestre da justiça era um sacerdote legalista, tendo morrido e depois venerado como profeta. Foi considerado um mártir de sua mensagem. Jesus, entretanto, assumia na sua morte um papel de acordo com os planos de Deus; dizia que dava sua vida voluntariamente para o papel que assumia . O profeta não assumira um papel de redenção. O evangelho de João não só assume uma postura crítica ao Templo, como expõe Jesus assumindo o papel que o Templo deveria assumir, de encontro do Céu com a Terra, da presença de Deus com os homens. Assim, como Oscar Cullmann pondera, não é improvável que homens como o mestre da justiça sejam os que o evangelho tem presente no capítulo 10 [de João] _Todos os que vieram antes de mim são salteadores....

Um importante ponto a notar a respeito, se dá atentando a resposta que Jesus dera aos discípulos de João quando indagado se era quem estavam aguardando, apresentando os sinais do Reino dos Céus:

Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo: os cegos recuperam a vista, os coxos andam, os leprosos são purificados e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e aos pobres são proclamadas as boas novas. Lucas 7.22.

Geza Vermes aponta que no fragmento da Ressurreição dos manuscritos do Mar Morto, esses eram apresentados como sinais do advento do cumprimento escatológico. As curas também eram proclamadas assim no Preceito da Comunidade 4:6.

Uma outra questão, é que o movimento essênio não é intrinsecamente indissociável do mestre da justiça. Josefo, Filo de Alexandria, e Plínio, esmiuçando a seita, não comentaram sobre ele. Antes dos Rolos do Mar Morto, mal se tinha o que dizer a respeito de tal personagem. Diametralmente oposto o que ocorre na igreja cristã.

Há um outro importante ponto de contato: o círculo que se integrou ao movimento de Jesus, conhecido como os judeus helenistas, que contava com personagens importantíssimos como Estevão. Posteriormente, comentaremos a respeito.


*Nesse ponto, me afasto de uma opinião de Dominic Crossan, que sustenta que João aguardava a intervenção direta de Deus para consumar a história e inaugurar seu Reino em imediato. Para mim fica claro, até mesmo pelas próprias passagens que Crossan expõe para sustentar sua posição, que João, sim, esperava a iminência escatológica, mas vinda de Deus por parte do Messias. A esse cabia instaurar de vez o Reino de Deus. Quando ele dizia Eu batizo com água; mas, no meio de vós, está quem vós não conheceis, o qual vem após mim, do qual não sou digno de desatar-lhe as correias das sandálias – João 1.26 - ele contrapunha à sua pessoa; ele – quem vinha após ele, ou seja, punha no mesmo plano. Não se imagina que se referiria a Deus nesses termos, antes usaria algumas das alusões convencionais referentes. Por mais que pensemos no antropomorfismo comum para com YHWH, é muito forçado que João remeteria a Deus em termos de desatar as sandálias, antes do que alguém como o Messias, que embora no mesmo plano, fosse de categoria superior. Assim também quando ele envia discípulos a perguntar a Jesus És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?, em Lucas 7.19, se deixa claro que não esperava YHWH vindo de imediato, mas antes seu Messias.

Crossan, Jean Dominic. O Jesus Histórico. Imago Editora, Rio de Janeiro, 1994.

Cullman, Oscar. A significação dos textos de Qumran para o estudo das origens cristãs, in : Das Origens do Evangelho à Formação da Teologia Cristã Ed. Novo Século. São Paulo, 2000.

Fitzmyer, Joseph A. 101 Perguntas Sobre os Manuscritos do Mar Morto. Ed. Loyola, São Paulo, 1997.

Josefo, Flávio. História dos Hebreus: Antiguidades Judaicas, XVIII, 1,5. CPAD. São Paulo, 2006.

Vanderkam, James C. Os manuscritos do Mar Morto hoje. Ed. Objetiva. Rio de Janeiro, 1995.

Vermes, Geza. Os Manuscritos do Mar Morto. Ed.Mercuryo. São Paulo. 2ªed.,2004.

Wright, Nichollas Thomas. Jesus and the Victory of God, Christian Origins and the Question of God, Vl. 2. Augsburg Fortress, 1996.

segunda-feira, 6 de abril de 2009







Há uma passagem particularmente reveladora na documentação produzida no contexto da conquista persa da Babilônia em 539 a.C. O chamado Cilindro de Ciro, inscrição elaborada segundo a tradição política e religiosa babilônica, apresenta a ascensão de Ciro como resultado da escolha de Marduk, principal divindade da Babilônia. É importante corrigir, desde o início, uma identificação que às vezes aparece em formulações populares do problema: Marduk não é uma divindade zoroastriana, mas a principal divindade do panteão babilônico. O texto não pertence, portanto, à religião persa de Ciro, mas ao universo religioso mesopotâmico e procura interpretar a conquista persa a partir da perspectiva da própria Babilônia. A passagem é extraordinária porque descreve a escolha do soberano por meio de uma imagem corporal que encontraremos, quase com as mesmas palavras, no Segundo-Isaías:

“Marduk examinou e inspecionou todos os países, procurando um governante justo segundo o seu coração. Ele tomou Ciro, rei de Anshan, pela mão, chamou-o pelo nome e pronunciou seu nome para a realeza sobre toda a terra. Ele fez a terra de Gutium e todos os medos prostrar-se aos seus pés. E ele apascentou com justiça e retidão todos os povos sobre os quais havia obtido a vitória. Marduk, o grande senhor, contemplou com alegria suas boas ações e seu coração reto.” (OPPENHEIM, 1955, p. 315-316, tradução nossa).

A estrutura do relato é suficientemente precisa para que sua importância não possa ser reduzida a uma simples coincidência. Marduk procura, escolhe, toma Ciro pela mão, pronuncia seu nome e lhe concede a soberania. A conquista militar aparece, portanto, como consequência de uma eleição divina anterior. Ciro não é apresentado como alguém que simplesmente construiu seu império mediante sua capacidade militar; sua vitória é incorporada à ordem cósmica babilônica. A divindade encontra o soberano adequado, toma-o pela mão e o transforma em instrumento de sua própria vontade. A mão de Marduk funciona, assim, como imagem da condução divina da história.

É justamente nesse ponto que o texto do Segundo-Isaías adquire uma dimensão extraordinária. O profeta conhece o mesmo acontecimento histórico, conhece Ciro, conhece a queda da Babilônia e conhece a emergência do Império Persa. Entretanto, quando interpreta esses acontecimentos, utiliza uma linguagem que parece responder diretamente à linguagem política babilônica. Em Isaías 45,1-3, Iahweh declara:

“Assim diz Iahweh a seu ungido, a Ciro, a quem tomei pela destra, para subjugar diante dele as nações e desarmar reis, para abrir diante dele as portas, a fim de que nenhuma porta lhe fique fechada. Eu mesmo irei à tua frente e aplainarei os lugares montanhosos; arrebentarei as portas de bronze, despedaçarei os ferrolhos de ferro. Dar-te-ei os tesouros ocultos e as riquezas escondidas, para que saibas que eu sou Iahweh, aquele que te chama pelo teu nome, o Deus de Israel.” (Is 45,1-3).

A correspondência é impressionante. Marduk toma Ciro pela mão; Iahweh toma Ciro pela destra. Marduk pronuncia o nome de Ciro; Iahweh afirma que o chama pelo nome. Marduk concede a Ciro vitória sobre as nações; Iahweh declara que o fará subjugar os reis. Marduk conduz Ciro à Babilônia; Iahweh afirma que irá à sua frente. Não estamos, portanto, diante de duas descrições inteiramente independentes da ascensão persa, mas diante de duas interpretações religiosas do mesmo acontecimento histórico. A questão decisiva passa a ser saber por qual divindade a história de Ciro deve ser interpretada.

É justamente aqui que aparece a diferença fundamental. No Cilindro de Ciro, Marduk é o sujeito da história. É ele quem procura o governante, escolhe Ciro, toma-o pela mão e lhe entrega o domínio. Em Isaías, entretanto, Iahweh ocupa exatamente essa mesma posição. O profeta apropria-se de uma linguagem política e religiosa reconhecível e a reorganiza em torno do Deus de Israel. O problema não é, portanto, negar que Ciro tenha poder. O problema é determinar de onde procede esse poder e quem possui autoridade para explicar seu significado. Como observa Kuhrt (2007), o Cilindro deve ser compreendido dentro da tradição mesopotâmica de legitimação da realeza; Ciro é apresentado segundo uma linguagem que o integra à ordem religiosa babilônica. O Segundo-Isaías realiza uma operação semelhante, mas com uma finalidade teológica radicalmente diferente.

Essa diferença torna-se ainda mais evidente quando o profeta afirma que Ciro não conhece Iahweh:

“Por causa de meu servo Jacó e de Israel, meu eleito, eu te chamei pelo teu nome; dei-te um título, embora não me conhecesses. Eu sou Iahweh, e não há outro; fora de mim não há Deus. Eu te cingi, embora não me conhecesses, para que se saiba, desde o nascente do sol até o poente, que não há ninguém além de mim. Eu sou Iahweh, e não há outro.” (Is 45,4-6).

A formulação é teologicamente desconcertante. Ciro não precisa conhecer Iahweh para ser escolhido por ele. A relação é unilateral: Ciro não conhece Deus, mas Deus conhece Ciro. O soberano persa permanece estrangeiro, não pertence à comunidade de Israel e não recebe sua missão em razão de uma conversão religiosa. Sua eleição ocorre precisamente para demonstrar que a soberania de Iahweh não está limitada àqueles que o conhecem. A utilização do termo “ungido” (māšîaḥ) para designar um rei persa torna essa afirmação ainda mais radical. Como demonstra Fried (2002), a passagem atribui a um soberano estrangeiro uma categoria carregada de significado na tradição israelita, deslocando a expectativa tradicional de um agente exclusivamente israelita da ação divina.

O problema ganha sua verdadeira dimensão quando consideramos o contexto histórico. A Babilônia havia destruído Jerusalém e o templo; a elite de Judá encontrava-se no exílio; o império babilônico parecia representar a potência que dominava a história. A ascensão de Ciro poderia ser interpretada simplesmente como uma nova demonstração da superioridade dos deuses babilônicos. O Cilindro oferece exatamente essa possibilidade: Marduk abandona o governante inadequado, encontra Ciro, conduz sua vitória e restaura a ordem de Babilônia. O Segundo-Isaías produz uma inversão dessa interpretação. A queda da Babilônia não é apresentada como demonstração da supremacia de Marduk, mas como resultado da ação de Iahweh, que utiliza Ciro para realizar um propósito relacionado à restauração de Israel. A mesma conquista recebe, portanto, dois significados religiosos incompatíveis.

Podemos compreender essa diferença mediante uma estrutura bastante simples. No Cilindro, a sequência é Marduk → escolha de Ciro → conquista → restauração da Babilônia. Em Isaías, a sequência é Iahweh → escolha de Ciro → queda da Babilônia → libertação de Israel. O acontecimento histórico é semelhante; o sistema de significação é completamente diferente. Ciro é o mesmo personagem, o Império Persa é o mesmo agente histórico e a Babilônia é a mesma cidade conquistada. O que muda é o sujeito teológico que reivindica a autoria da história.

Essa característica é fundamental para compreender o monoteísmo do Segundo-Isaías. Quando o profeta declara “Eu sou Iahweh, e não há outro”, não está formulando apenas uma proposição abstrata acerca da existência de Deus. Está produzindo uma afirmação sobre quem governa efetivamente a história. Os impérios podem possuir exércitos, reis e territórios; podem destruir cidades e transportar populações; podem parecer determinar o destino dos povos. Entretanto, segundo o profeta, existe uma soberania anterior à soberania imperial. Ciro pode conquistar Babilônia, mas a interpretação dessa conquista pertence a Iahweh. O conquistador é transformado em instrumento.

É justamente nesse sentido que a imagem da mão se torna tão poderosa. A mão de Marduk e a mão de Iahweh representam, em ambos os textos, uma relação de condução. Mas a apropriação da imagem pelo Segundo-Isaías produz uma inversão teológica: aquele que parece conduzir a história é apresentado como alguém que está sendo conduzido. Ciro domina as nações, mas é conduzido por Iahweh; Ciro conquista Babilônia, mas não controla o significado de sua própria conquista; Ciro é o soberano do maior império de seu tempo, mas o profeta afirma que existe uma soberania acima da sua.

Chegamos, assim, à questão que inicialmente parece apenas retórica: ao final das contas, quem tomou Ciro pelas mãos? Historicamente, não podemos transformar essa pergunta em uma afirmação sobre qual divindade efetivamente interveio na história. Podemos, porém, afirmar algo muito mais interessante: duas tradições religiosas diferentes reivindicaram para suas respectivas divindades a autoridade de interpretar a ascensão de Ciro. O texto babilônico afirma que foi Marduk quem o tomou pela mão; o Segundo-Isaías afirma que foi Iahweh. A disputa não é sobre Ciro, mas sobre quem possui o direito de explicar Ciro.

E talvez seja justamente aí que esteja a força extraordinária dessa pequena coincidência textual. O Cilindro diz, em essência: Marduk tomou Ciro pela mão e, por meio dele, restaurou Babilônia. Isaías responde: Iahweh tomou Ciro pela mão e, por meio dele, libertará Israel. A mesma mão, o mesmo rei e acontecimentos históricos relacionados tornam-se instrumentos de duas cosmologias políticas distintas.

O problema, portanto, não é simplesmente perguntar quem tomou Ciro pela mão, mas perguntar quem tinha o direito de dizer que havia tomado Ciro pela mão. Para a Babilônia, era Marduk. Para o profeta de Israel, era Iahweh. E nessa disputa aparentemente pequena encontra-se uma das mais sofisticadas operações teológicas do Segundo-Isaías: retirar do império vencedor o monopólio sobre a interpretação de sua própria vitória. Ciro pode conquistar o mundo; mas, para o profeta, ele próprio é alguém que está sendo conduzido. O rei que parece dominar a história é, na realidade teológica do texto, apenas aquele cuja mão foi tomada por outro.



Referências

FRIED, Lisbeth S. Cyrus the Messiah? The historical background to Isaiah 45:1. Harvard Theological Review, Cambridge, v. 95, n. 4, p. 373-393, 2002.

KUHRT, Amélie. The Persian Empire: A Corpus of Sources from the Achaemenid Period. London: Routledge, 2007.

OPPENHEIM, A. Leo. The Cyrus Cylinder. In: PRITCHARD, James B. (ed.). Ancient Near Eastern Texts Relating to the Old Testament. 2. ed. Princeton: Princeton University Press, 1955. p. 315-316.

Fontes primárias: Cilindro de Ciro; Isaías 44–45.

Estive pensando nos últimos dias sobre uma forma de aumentar o dinamismo deste blog. Acabei chegando à conclusão de que o caminho é ocupar este espaço também com notícias, pequenos posts e também com a presença de convidados. A idéia é ter pelo menos um pequeno post por dia. Assim, a casa ficará sempre movimentada. É bem certo que não conseguirei esta precisão toda. No entanto, posso garantir que o ritmo de postagens irá aumentar por aqui.

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