Estudos sobre Religião - Biblioblog

sábado, 29 de novembro de 2008


José, Maria e a construção genealógica do Messias

As genealogias sobre Jesus encontradas nos evangelhos de Mateus e Lucas nos colocam diante de um dos problemas mais antigos e persistentes da interpretação do Novo Testamento. O tema já foi exposto e pesquisado por uma enormidade de pessoas, nas mais variadas épocas e a partir dos mais variados contextos teológicos e arcabouços teóricos. Não estamos, portanto, diante de uma dificuldade descoberta pela crítica bíblica moderna. Desde a Antiguidade cristã, leitores dos evangelhos perceberam que Mateus e Lucas não apresentam simplesmente duas listas diferentes de nomes, mas duas construções genealógicas que divergem precisamente no ponto em que a questão se torna teologicamente decisiva: a descendência de Davi. Mateus conduz a linhagem de Jesus de Davi através de Salomão e da sucessão régia de Judá; Lucas, por sua vez, conduz a linhagem através de Natã, outro filho de Davi, e termina em Eli antes de chegar a José. Entre Davi e José, as duas listas praticamente deixam de coincidir, com apenas alguns nomes em comum. A discrepância, portanto, não é uma pequena irregularidade de transmissão: pertence à própria arquitetura dos textos. A pesquisa contemporânea continua tratando esse problema como uma questão aberta, envolvendo diferentes hipóteses acerca das fontes genealógicas utilizadas pelos evangelistas, da natureza jurídica da filiação, da possibilidade de uma linhagem materna e da própria função teológica das genealogias. Barbara Sivertsen, por exemplo, procurou explicar as diferenças mediante a existência de tradições genealógicas distintas, enquanto Caleb Friedeman retomou o problema a partir da possibilidade de compreender a filiação davídica de Jesus mediante categorias de adoção existentes no mundo judaico antigo. O problema, portanto, é mais profundo do que a simples pergunta sobre qual dos evangelistas estaria “certo”. Nós temos um problema básico e fundante ligado à genealogia de Jesus. Mas qual problema seria este? O fato é que não há sentido algum em se falar em tal genealogia se Jesus de fato não foi filho de José — ainda mais em se tratando da descendência davídica. Que sentido faz em se falar em um Messias “adotado” por um descendente de Davi? Nenhum. Ou, pelo menos, nenhum se estivermos pensando na genealogia exclusivamente como transmissão biológica. É justamente aqui que a questão se torna mais interessante: qual é a natureza da filiação que permite aos evangelistas apresentar Jesus simultaneamente como filho de Deus, filho de José e filho de Davi?


ElementoMateus 1Lucas 3
Direção da genealogiaAbraão → JesusJesus → Adão
Ponto de partidaAbraãoJesus
Filho de Davi utilizado na linhagemSalomãoNatã
Pai de JoséJacóEli
JoséEsposo de Maria“Filho de Eli”
Estrutura predominanteGenealogia davídico-régiaGenealogia universal
Função teológica predominanteJesus como filho de Abraão e herdeiro davídicoJesus como Filho de Deus e pertencente à humanidade


A comparação torna o problema imediatamente visível. Mateus começa seu evangelho com uma afirmação extremamente significativa: “Livro da origem de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” (Mt 1,1). Não estamos diante de uma genealogia neutra, no sentido moderno do termo. A própria seleção e organização dos nomes possui uma finalidade teológica. Mateus não apenas informa quem foram os antepassados de Jesus; procura demonstrar que Jesus ocupa uma posição específica dentro da história de Israel. A genealogia passa por Abraão, atravessa Davi, passa por Salomão e acompanha a linhagem régia de Judá até chegar a José. Lucas, ao contrário, realiza um movimento inverso: parte de Jesus, passa por José e recua até Adão e, finalmente, Deus. A diferença não é apenas formal. A genealogia lucana aparece imediatamente depois do batismo, episódio em que uma voz celeste declara a identidade filial de Jesus, e conduz o leitor progressivamente de Jesus até Adão, fechando a genealogia com a expressão “filho de Deus”. O efeito literário é significativo. Mateus constrói Jesus dentro da história particular de Israel; Lucas amplia essa história até suas origens humanas e divinas. A genealogia, nesse sentido, não funciona simplesmente como uma certidão de nascimento retrospectiva. Ela participa da construção da identidade daquele que o evangelista pretende apresentar. E é justamente aqui que precisamos recuperar uma percepção fundamental do texto original: se José não é o pai biológico de Jesus segundo a narrativa de Mateus e Lucas, por que sua genealogia é apresentada? A pergunta continua válida. O que mudou, com a pesquisa contemporânea, é que não precisamos necessariamente concluir que os evangelistas simplesmente “erraram”. Podemos formular uma hipótese mais interessante: a genealogia talvez não esteja interessada primordialmente em demonstrar a biologia de Jesus, mas em estabelecer sua posição jurídica, dinástica, messiânica e teológica. Isso não elimina o problema; ao contrário, torna-o muito mais interessante.

A proposição de que a genealogia de Lucas se referiria à Maria já é uma hipótese antiga. Ela foi elaborada inicialmente no século XV por Annius de Viterbo, do qual, dentre outros despautérios, naquela época, afirmava ter sido Maomé o anticristo. A alegação de Viterbo é desprovida de fundamentos sólidos se apresentada como uma conclusão evidente do texto. Inicialmente, poderíamos mostrar que ambas as genealogias falam de Jesus como filho de José. Vamos a elas:

Mt 1,16: “Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus chamado Cristo.”

Lc 3,23: “Ao iniciar o ministério, Jesus tinha mais ou menos trinta anos e era, conforme se supunha, filho de José, filho de Eli...”

Essas duas passagens precisam ser levadas muito a sério. A hipótese segundo a qual Lucas estaria apresentando simplesmente a genealogia de Maria possui uma dificuldade textual evidente: o texto de Lucas não diz que a genealogia é de Maria. Ele menciona José. Isso não torna absolutamente impossível a hipótese, mas impede que ela seja tratada como solução textual direta. A tradição interpretativa tentou solucionar a dificuldade de diversas maneiras. A mais conhecida consiste em atribuir a Lucas uma genealogia de Maria, fazendo de Eli o pai de Maria e compreendendo José como genro de Eli. O problema é que essa interpretação precisa introduzir no texto algo que o próprio Lucas não afirma explicitamente. A expressão “filho de José” permanece ali. É possível argumentar que o evangelista estaria seguindo uma convenção genealógica que permitisse representar o genro através da casa do sogro, mas isso já constitui uma hipótese explicativa, não uma informação fornecida pelo texto. A distinção é metodologicamente fundamental. Não podemos dizer simplesmente que Lucas fornece a genealogia de Maria; podemos dizer que essa é uma das soluções historicamente propostas para explicar a genealogia lucana. E isso é bastante diferente.

Ademais, Lucas não teria motivo algum para traçar uma genealogia a partir de Maria, dado que o próprio José era da casa de Davi, como é mostrado em:

Lc 1,26-27: “No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um varão chamado José, da casa de Davi e o nome da virgem era Maria.”

Da mesma forma, em Lucas 2,4:

“E também José subiu da cidade de Nazaré, na Galiléia, para a Judéia, na cidade de Davi, chamada Belém, por ser da casa e da família de Davi, para se inscrever com Maria, sua mulher, que estava grávida.”

Essas passagens reforçam um dado importante: o próprio Lucas associa José à casa de Davi. Mas aqui precisamos fazer uma distinção. O fato de Lucas apresentar José como pertencente à casa de Davi não significa automaticamente que a genealogia apresentada em Lucas seja necessariamente a genealogia biológica de José, nem resolve a divergência entre Jacó e Eli. Tampouco significa que Maria não pudesse possuir ascendência davídica. Significa apenas que o evangelista possui uma tradição segundo a qual José está relacionado à casa de Davi. Essa constatação impede uma simplificação frequente: não estamos diante de uma genealogia de Maria claramente identificável que pudesse simplesmente resolver o problema. A pesquisa especializada permanece dividida entre diferentes possibilidades: genealogias independentes, linhagem jurídica e linhagem biológica, sucessão dinástica, ascendência davídica através de Maria e, mais recentemente, a possibilidade de adoção. A questão, portanto, tornou-se ainda mais sofisticada do que aquela que formulamos originalmente: não basta perguntar de quem é a genealogia de Lucas; precisamos perguntar que tipo de relação genealógica os evangelistas entendiam como suficiente para conferir a Jesus uma identidade davídica.

A questão da linhagem paterna

Existe a idéia de que não se permitiam casamento intertribais em Israel no período em que Jesus nasceu. Neste sentido, afirma-se que sendo José um descendente davídico, Maria, consequentemente, também teria que ser. A fonte de tal proposição é registrada em Números 36, 6-8:

“Eis os que Iahweh ordena para as filhas de Salfaad: Casar-se-ão com quem lhes agradar, conquanto que se casem com alguém de um clã da tribo do seu pai. A herança dos filhos de Israel não passará de tribo a tribo; os filhos de Israel permanecerão vinculados, cada um, à herança da sua tribo. Qualquer filha que possuir uma herança em uma das tribos de Israel deverá casar-se com alguém de um clã da sua tribo paterna, de modo que os filhos de Israel conservem, cada um, a herança de seu pai.”

Aqui, entretanto, precisamos corrigir um ponto importante do argumento original. Números 36 não estabelece simplesmente uma proibição geral e permanente de casamentos entre membros de tribos diferentes. O contexto é específico: trata-se das filhas que recebem uma herança e da necessidade de impedir que essa herança territorial seja transferida de uma tribo para outra. A norma está vinculada à preservação da propriedade tribal. Portanto, não podemos utilizar Números 36 como prova direta de que todo casamento intertribal fosse proibido no judaísmo do século I. O texto continua importante, mas por outra razão: demonstra a importância da linhagem paterna e da identidade tribal na estrutura social e jurídica de Israel. O argumento fica, assim, menos absoluto e mais forte historicamente. Não podemos concluir que Maria fosse necessariamente da tribo de Judá simplesmente porque se casou com José; podemos, entretanto, reconhecer que a genealogia paterna possuía papel fundamental na construção das identidades familiares e tribais.

A este respeito, bem como a respeito das linhas paternas na elaboração genealógica, gostaria de citar um artigo postado na Jewish Virtual Library cuja fonte original é a Central Conference of American Rabbis:

Both the Biblical and the Rabbinical traditions take for granted that ordinarily the paternal line is decisive in the tracing of descent within the Jewish people. The Biblical genealogies in Genesis and elsewhere in the Bible attest to this point. In intertribal marriage in ancient Israel, paternal descent was decisive. Numbers 1:2, etc., says: "By their families, by their fathers' houses" (lemishpechotam leveit avotam), which for the Rabbis means, "The line [literally: 'family'] of the father is recognized; the line of the mother is not" (Mishpachat av keruya mishpacha; mishpachat em einah keruya mishpacha; Bava Batra 109b, Yevamot 54b; cf. Yad, Nachalot 1.6).”

Tal passagem reforça o que já havia sido colocado no texto original, mas também exige uma cautela. A predominância da linha paterna na genealogia israelita não significa que a identidade de uma pessoa jamais pudesse ser relacionada à linhagem materna, nem que a mãe fosse irrelevante para a identidade familiar. O ponto relevante para nossa investigação é outro: quando os evangelistas desejam estabelecer a legitimidade davídica de Jesus, uma genealogia exclusivamente materna seria uma solução que exigiria alguma explicação adicional. Por isso, a hipótese de que Lucas simplesmente esteja oferecendo a genealogia de Maria não pode ser aceita como uma solução óbvia. Ela é uma hipótese interpretativa que precisa explicar por que o evangelista apresenta José na posição genealógica.

Da mesma forma, o rabino Pinchas Winston demonstra que a interpretação judaica tradicional compreendeu a restrição de Números 36 como relacionada à preservação da herança territorial:

“The Talmud asks the question at the end of Masechta Ta'anis: Why is the fifteenth day of Av (Tu B'Av) such a happy day? One of the principle answers given is that it was the day, during the time of the Judges, that the ban against intermarriage among tribes (found at the end of this week's parsha) was finally lifted.
Historically, it was the lifting of this ban that saved the tribe of Binyomin from extinction. After the horrific civil war between Binyomin and the rest of the nation, their ranks had been decimated, and only inter-tribal marriage could reverse the trend for them.
But how could they override the Torah which prevented such marriages. The Talmud answers that that mitzvah had been relevant only at the time of the division of the land, to assure that each tribe retained its portion of the inheritance. Once that was no longer an issue, the injunction against inter-tribe marriage was, in a sense, automatically lifted.

Da mesma forma, o Chabad assim nos informa:

“In order to ensure the orderly division of the Holy Land between the twelve tribes of Israel, restrictions had been placed on marriages between members of two different tribes. A woman who had inherited tribal lands from her father was forbidden to marry out of her tribe, lest her children -- members of their father's tribe -- cause the transfer of land from one tribe to another by inheriting her estate (Number 36).** This ordinance was binding only on the generation that conquered and settled the Holy Land during the 14-year period 2488-2503 from creation (1273-1258 BCE); when the restriction was lifted, on the 15th of Av, the event was considered a cause for celebration and festivity.”**


Sendo assim, devemos pontuar que no tempo em que Jesus viveu não temos fundamento suficiente para afirmar que existisse uma restrição geral ao casamento intertribal que obrigasse Maria a pertencer à linhagem davídica em razão de seu casamento com José. Esse ponto precisa ser corrigido em relação à formulação original. A correção, contudo, não destrói a pergunta que deu origem ao texto; pelo contrário, torna-a mais precisa. Maria poderia ser descendente de Davi, mas não temos no Novo Testamento uma genealogia explicitamente identificada como sua. José, por outro lado, é explicitamente relacionado à casa de Davi. E Lucas apresenta sua genealogia como passando por José.

José, Maria e as possibilidades de filiação

É justamente nesse ponto que a pesquisa contemporânea oferece uma possibilidade que modifica profundamente o problema original: a adoção. Caleb T. Friedeman, em artigo publicado no periódico New Testament Studies, retomou a questão da linhagem davídica de Jesus a partir da dificuldade criada pela combinação entre a concepção virginal e a filiação davídica. Sua proposta é que uma forma de adoção judaica poderia explicar como Jesus poderia ser reconhecido como pertencente à linhagem de José sem que José fosse seu pai biológico. A hipótese é particularmente interessante porque desloca a discussão de uma concepção moderna de parentesco biológico para uma concepção antiga de filiação, na qual pertencimento familiar, nome, herança e status jurídico podiam possuir dimensões que não se reduziam à descendência física.


HipóteseComo Jesus se relacionaria à casa de Davi?Principal dificuldade
José como pai biológicoDescendência direta através de JoséEntra em tensão com a concepção virginal
Maria como descendente de DaviDescendência maternaO texto não identifica explicitamente Lucas como genealogia de Maria
Adoção por JoséFiliação jurídica/socialExige demonstrar a plausibilidade histórica de adoção no judaísmo
Linhagem dinásticaPertencimento à casa régia por sucessãoExige distinguir genealogia biológica de sucessão política
Construção teológica“Filho de Davi” como categoria messiânicaRedefine a função da genealogia para além da biologia


Essa última possibilidade é particularmente importante. Talvez estejamos cometendo um anacronismo quando imaginamos que “filho de Davi” tenha necessariamente de significar “possui DNA de Davi”. No mundo bíblico, filiação é uma categoria simultaneamente biológica, social, jurídica, política e teológica. “Filho de Davi” pode significar pertencimento à casa de Davi, reivindicação de uma posição régia e messiânica e inserção numa determinada tradição de sucessão. Isso não significa que a genealogia seja fictícia. Significa que precisamos compreender que tipo de verdade uma genealogia antiga pretendia produzir.

O problema já existia na Antiguidade

O problema não foi criado pela crítica moderna. Já no século III, Júlio Africano procurou explicar as diferenças entre Mateus e Lucas através da combinação entre descendência natural e descendência legal, hipótese preservada por Eusébio em sua História Eclesiástica. A tradição de Africano é particularmente importante porque demonstra que um cristão do período antigo já havia percebido que duas genealogias aparentemente contraditórias poderiam ser resultado de diferentes formas de filiação. Sua explicação recorria inclusive à possibilidade do casamento levirático para explicar a existência simultânea de duas linhas genealógicas.

A solução de Africano, entretanto, também apresenta dificuldades. Ela depende de uma reconstrução extremamente específica das relações familiares e matrimoniais e não resolve automaticamente todas as divergências entre as duas genealogias. O importante, para nosso argumento, não é decidir se Africano estava correto. É perceber que a própria Igreja antiga já sabia que o problema não poderia ser resolvido simplesmente colocando Mateus e Lucas lado a lado e supondo que ambos estivessem descrevendo exatamente a mesma árvore familiar.

A história da interpretação, portanto, é reveladora. Ao longo dos séculos, diferentes soluções foram propostas:


PeríodoAutor/posiçãoSolução proposta
AntiguidadeJúlio AfricanoDistinção entre descendência natural e legal
Antiguidade tardiaEusébioPreservação da solução de Africano
Idade MédiaAnnius de ViterboGenealogia de Lucas associada a Maria
Exegese modernaHipótese marianaMaria como conexão davídica
Pesquisa contemporâneaBarbara SivertsenDiferentes tradições/fontes genealógicas
Pesquisa contemporâneaCaleb FriedemanPossibilidade de adoção judaica
Pesquisa contemporâneaJoseph SieversGenealogias como construções identitárias e teológicas


É particularmente significativo que a pesquisa moderna tenha chegado novamente a uma questão que já estava implicitamente presente na Antiguidade: o que exatamente significa “descender” de alguém? A genealogia antiga não é necessariamente equivalente a uma árvore genealógica moderna. Ela pode expressar legitimidade, pertencimento, sucessão, identidade e reivindicação. Uma genealogia pode ser verdadeira dentro de determinada estrutura social sem pretender responder à pergunta moderna sobre quem transmitiu biologicamente cada segmento do patrimônio genético.

A contradição que permanece

Os evangelistas, sem o querer, se colocaram em uma delicada posição. Qual seria ela? Ao elaborarem genealogias para Jesus, ligando-o à casa de Davi — eles fatalmente se expuseram a uma contradição delicada: se Jesus é, de fato, descendente de José, então ele é filho humano do próprio José (possui o sangue davídico de José). Mas se este não foi de fato o seu pai biológico, então as genealogias nada nos dizem — pelo menos nada nos dizem de maneira simples — sobre uma ligação biológica de Jesus com a casa de Davi.

E é precisamente nesse ponto que o problema deixa de ser apenas uma questão de genealogia e passa a ser uma questão de cristologia.


Afirmação dos evangelhosProblemaPossível explicação
Jesus é Filho de DeusJosé não é apresentado como pai biológico na concepção virginalFiliação divina
Jesus é Filho de DaviÉ necessário estabelecer relação com a casa de DaviJosé, Maria, adoção ou sucessão
José pertence à casa de DaviMateus e Lucas apresentam genealogias diferentesTradições genealógicas distintas
Mateus apresenta Jacó como pai de JoséLucas apresenta EliDiferentes modelos genealógicos
Lucas chama Jesus de “filho de José, conforme se supunha”A expressão relativiza a paternidade literalFiliação social/jurídica ou recurso narrativo
Maria poderia ser davídicaNenhuma genealogia é explicitamente apresentada como suaHipótese possível, mas não demonstrada
Jesus poderia ser integrado à linhagem por adoçãoA extensão da prática no judaísmo antigo é debatidaHipótese contemporânea relevante



Chegamos, portanto, à pergunta que estava no centro do texto original. Os evangelistas, ao elaborarem genealogias para Jesus e ligá-lo à casa de Davi, fatalmente se expuseram a uma contradição delicada — se Jesus é, de fato, descendente de José, então ele possui uma relação humana com a linhagem davídica de José; mas, se José não foi de fato seu pai biológico, então as genealogias não podem ser utilizadas de maneira simples como demonstração de uma descendência biológica de Jesus.

Mas talvez seja precisamente aqui que devamos abandonar a necessidade de escolher imediatamente entre “erro”, “genealogia de Maria” ou “genealogia de José”. A pesquisa contemporânea permite uma pergunta muito mais interessante. E se os evangelistas não estivessem tentando responder à mesma pergunta que nós estamos fazendo?

Mateus parece interessado em demonstrar que Jesus pertence à história de Israel, passando por Abraão e chegando à casa de Davi. Lucas amplia radicalmente a perspectiva, levando a genealogia até Adão e Deus. Um constrói uma identidade messiânica dentro da história particular de Israel; o outro universaliza essa identidade. A genealogia, nesse sentido, não é simplesmente uma lista de antepassados. Ela é uma declaração sobre quem Jesus é.

E talvez seja justamente por isso que a aparente contradição seja tão importante. Se as duas genealogias fossem perfeitamente coincidentes, o problema seria menor, mas também seria menos revelador. A divergência mostra que diferentes comunidades cristãs primitivas estavam trabalhando com diferentes tradições sobre a identidade de Jesus e procurando situá-lo dentro de uma história maior. Mateus precisa demonstrar a relação entre Jesus, Davi e Abraão. Lucas precisa demonstrar sua relação simultânea com Israel, com a humanidade e com Deus. José aparece nos dois porque é o ponto socialmente reconhecível através do qual a identidade davídica de Jesus pode ser estabelecida — mesmo quando a narrativa da concepção virginal impede que essa filiação seja reduzida à paternidade biológica.

Assim, aquela pergunta aparentemente simples que estava no início de nosso texto permanece extraordinariamente poderosa:

De quem, afinal, Jesus é filho?

Filho de Deus?

Filho de José?

Filho de Davi?

Filho de Maria?

Ou, talvez, todas essas expressões estejam dizendo coisas diferentes sobre a mesma pessoa?

A questão não é apenas descobrir qual genealogia é “verdadeira”. A questão é descobrir o que os evangelistas entendiam por filiação quando utilizaram essas genealogias para construir a identidade de Jesus.

E é justamente aqui que o problema se torna muito maior do que uma simples divergência entre duas listas de nomes.

That’s the question.




Referências

BOCKMUEHL, Markus. The Son of David and his Mother. Journal of Theological Studies, v. 62, 2011.

CROSSAN, John Dominic. O Jesus histórico: a vida de um camponês judeu do Mediterrâneo. Rio de Janeiro: Imago, 1994.

EUSÉBIO DE CESAREIA. História Eclesiástica. Livro I.

FRIEDEMAN, Caleb T. Jesus’ Davidic Lineage and the Case for Jewish Adoption. New Testament Studies, v. 66, n. 2, 2020, p. 249-267.

McFALL, Leslie. Jesus' Genealogies: A Critical Survey of Ideas and Solutions. Glasgow: University of Glasgow, 1998.

SIVERTSEN, Barbara. New Testament Genealogies and the Families of Mary and Joseph. Biblical Research, v. 35, n. 2, 2005.

SIEVERS, Joseph. Gospel Genealogies and Jesus’s Jewishness. Studies in Christian-Jewish Relations, v. 21, n. 1, 2026.

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